No dia 13 de outubro de 2026 o jornal carioca Monitor Mercantil publicou o nosso artigo "Apelo pelo voto contra o fascismo".
O original encontra-se disponível aqui.
Reproduzimos abaixo o texto.
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Apelo pelo voto contra o fascismo
Ódio, violência política e golpismo acendem alerta sobre os riscos do avanço do fascismo no Brasil Por Gustavo Biscaia
De modo geral, esta coluna apresenta reflexões sociais, históricas e morais abstratas e de longo prazo, evitando referências a problemas imediatos. Entretanto, há momentos em que é necessário sermos mais diretos e claros, devido à urgência dos problemas. O que nos preocupa agora são questões imediatas, para serem aplicadas em duas semanas, embora seus efeitos sejam de longo prazo. Sendo muito diretos: faremos um apelo pelo voto contra o fascismo.
Este é um artigo difícil de escrever. As ideias são claras, mas o objetivo é convencer quem simpatiza com a violência a distanciar-se dela. O que mais é possível dizer que já não tenha sido dito? Há muitas pessoas que — (re)descobrimos agora — estão secretamente dispostas à violência e às paixões mais agressivas: é difícil, se não impossível, convencê-las; mas há outras pessoas, em número maior, que apenas nesta época se deixam levar por sentimentos e ideias que, em situações normais, considerariam horríveis, desprezíveis e inaceitáveis. É a estas pessoas que dirigimos este artigo.
Esta não é uma eleição comum. Infelizmente, as eleições de 2018 e 2022 também não foram comuns e, até onde se pode perceber, as próximas também não serão. Esse longo período indica que o Brasil atravessa um grave e perigoso período de instabilidade, em que o desejo de “mudança” é usado como desculpa para o estímulo e a prática dos piores instintos e paixões humanas: o ódio, o ressentimento, o desejo de destruição, a violência sistemática etc.
Qualquer pessoa sensata reconhece que tais sentimentos são os piores possíveis e que devem ser evitados ao máximo. Não é que o ser humano não os possa ter, nem que, em vários momentos de nossas vidas, não sucumbamos a eles: tais sentimentos fazem parte da vida e é impossível evitá-los. Mas há uma longa distância entre ficarmos sujeitos a tais sentimentos e o seu estímulo sistemático: a política atual baseia-se precisamente nesse estímulo sistemático.
Temos que dizer com clareza: a violência e o ódio são inaceitáveis, em particular na política. Qualquer que seja a sua justificativa. Defesa da tradição, da família, da propriedade, da religião, da justiça social… O que quer que seja, o ódio e a violência na política são inaceitáveis. Inversamente, quem defende o ódio na política deve ser rejeitado — ou melhor: julgado, condenado e preso.
Não adianta fingir: a política que estimula o ódio e a violência é o fascismo. Esse ódio transforma os adversários políticos, que devem ser vencidos ou convencidos, em inimigos a serem combatidos e exterminados. Essa mudança de linguagem dá a medida da degradação moral e social, na direção do fascismo.
Não adianta dizer que “a esquerda (também) é violenta” ou que criticar o fascismo seria “desinformação de esquerda”. Não lidamos atualmente com a extrema esquerda no Brasil; a atual esquerda é extremamente suave, institucionalista e contra a violência. Mesmo que cometa erros e equívocos, eles são muito distantes do que aparece nos meios de comunicação a partir do mito do “comunismo”. Mesmo que as pessoas, de modo geral, soubessem do que se trata — e duvidamos disso —, o fato é que estamos felizmente muito longe do comunismo.
Inversamente, não estamos longe do fascismo. De novo: o ódio, o ressentimento, a violência sistemática e o golpismo são práticas fascistas. Não há país que se desenvolva com base nisso. O fascismo supostamente defende as famílias: ora, qual família se mantém com base no ódio e na violência? Nenhuma. As famílias baseiam-se no afeto, no respeito mútuo, no cuidado constante de todos com os mais frágeis. Se as famílias não se mantêm com o ódio, por que a sociedade em geral conseguiria manter-se?
O ódio e a violência do fascismo não são abstratos; são bem concretos. Uma profunda vulgaridade (“golden shower”, mentiras deliberadas, degradação sistemática de figuras públicas). O golpismo militarista, a invasão e a destruição da Praça dos Três Poderes; a tentativa de explosão do aeroporto de Brasília; as agressões físicas contra apoiadores de esquerda; os incêndios de prédios públicos e as invasões a áreas protegidas por lei; os vídeos e as imagens adulteradas; o elogio à tortura e a torturadores; a promoção de intervenções estrangeiras; a defesa das milícias. Mas também vídeos e imagens que “brincam” que outros brasileiros (de esquerda ou não) são mortos, queimados, violentados, torturados. Propor e realizar o terrorismo, a morte, a mutilação etc. exige posturas ativas; compartilhar vídeos e imagens que afirmam que matar, violentar e mutilar é correto — esse compartilhamento é mais passivo. Passivo ou não, ele estimula a violência e o ódio, com objetivos políticos. Isso, por definição, é o fascismo, e é apenas devido ao fascismo que muitos brasileiros consideram tais práticas aceitáveis.
Não há uma justificativa única para essa violência golpista. De modo geral, afirma-se (1) que se trata da defesa da tradição e da religião e, ao mesmo tempo, mas de maneira contraditória, (2) que se deseja a mudança social, o combate ao “sistema”. A mudança social é compartilhada pela direita e pela esquerda; a defesa da tradição é só da direita. Tais objetivos podem ser alcançados com meios pacíficos, via convencimento, ou com meios violentos, via imposição. O convencimento exige tempo e tem efeitos de longo prazo; a imposição é sempre mais rápida, mas também é sempre superficial, baseia-se em golpes e gera ressentimentos.
Não dá para desenvolver aqui a ideia de que o “sistema”, no Brasil, é de direita. O que se deseja combater no “sistema” — corrupção, incapacidade, estupidez, violência — são atributos de direita. A esquerda tem lá sua cota disso tudo, mas basta um pouco de conhecimento de história (e de boa-fé) para reconhecer que são “pontos fora da curva”.
A mudança social rápida — sempre violenta e com base em golpes — é um mito que a esquerda propôs durante muito tempo: comunistas, socialistas revolucionários e mesmo anarquistas. Mas a direita fez a mesmíssima coisa: fascistas, nazistas, integralistas, juntas militares, juntas de salvação nacional. No Brasil recente, felizmente, os delírios violentos da esquerda foram aos poucos deixados de lado, mas, nas últimas décadas, a direita fez questão de (1) fingir que isso não aconteceu e (2) propor a retomada da violência golpista de direita. Para piorar, a violência fascista sempre foi apoiada nas milícias: por definição, as milícias são de “direita”, grupos profundamente corruptos e violentos de militares e policiais que exploram a população para enriquecer, praticando os mesmos crimes que deveriam combater.
Não sabemos se conseguimos convencer alguém. Não temos vivido tempos normais, e muita gente faz questão de não querer ser convencida. Muita gente considera aceitável, hoje em dia, ser violenta, degradar a vida pública e buscar destruir os “inimigos”. Essa violência tem objetivos políticos, defende o golpismo e é da direita: isso é o fascismo. São esses elementos que caracterizam nossa época como anormal. É necessário rejeitar tudo isso. Em outras palavras, é necessário, no dia 25 de outubro, votar contra o fascismo.
Gustavo Biscaia de Lacerda é sociólogo da UFPR e doutor em sociologia política.



