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28 setembro 2026

Por uma política republicana sociocrática

No dia 28.9.2026, o jornal carioca Monitor Mercantil publicou o nosso artigo "Por uma política republicana sociocrática", que foi escrito levando em consideração as eleições do dia 4.10.2026.

O original pode ser lido aqui.

Reproduzimos abaixo o texto.

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Constituição da República Federativa do Brasil (Foto: Rodrigo Viana/Senado Federal)


Por uma política republicana sociocrática

A relação entre bem comum, fraternidade, liberdade, transparência e responsabilidade orienta a discussão sobre os valores da política republicana Por Gustavo Biscaia

No próximo final de semana teremos eleições gerais e, nesse contexto, convém contribuirmos para a reflexão pública, com a exposição de critérios para a definição do voto. Os critérios que apresentaremos aqui foram expostos com mais detalhes no documento “Por uma política republicana sociocrática – orientações para as eleições de 4 de outubro”. Desde 15 de novembro de 1889, o Brasil é uma República. Embora, às vezes, isso possa parecer pouco, a ideia de “república” é uma das mais densas e importantes, especialmente quando se compreende seu sentido profundo, que é o da sociocracia. As noções de república e de sociocracia são ideais; nem sempre se realizam na prática, mas, ao contrário do que tem ocorrido com triste frequência, isso não é motivo para desvalorizá-las ou rejeitá-las.

O sentido fundamental da república é o bem comum: dedicar-se efetivamente ao bem-estar coletivo, superando o individualismo, o egoísmo e os particularismos. Além disso, a república também se opõe à monarquia e, portanto, à sociedade de castas. Em outras palavras, na república, o valor de uma pessoa, consideradas as particularidades sociológicas de cada indivíduo, é determinado pelo mérito individual, e não pelas condições em que nasceu, pelo “berço”.

Mais importante, a dedicação ao bem comum significa a subordinação da política à moral, ou seja, a subordinação da política aos princípios e valores maiores da Humanidade, em que a família se subordina à pátria e a pátria se subordina à Humanidade. Somente assim a atividade política pode ser entendida como dedicação ao bem comum e, a partir disso, ser fiscalizada e responsabilizada. De modo mais específico, subordinar a política à moral significa reconhecer que a política deve pautar-se pela fraternidade universal e pela atividade pacífica, convergente e construtiva, em oposição à violência, à guerra, aos egoísmos e às mesquinharias.

Daí decorrem várias consequências. A primeira delas é que o conjunto da sociedade deve sempre ser levado em consideração. A fraternidade universal é um valor básico: como todos devem orientar suas condutas para a melhoria da vida de todos, o respeito mútuo e a afirmação da dignidade fundamental de cada pessoa são pilares da vida coletiva. As relações sociais também devem ser pacíficas, pois qualquer forma de violência degrada as relações humanas e o ambiente social. O pacifismo e a fraternidade universal impõem, por sua vez, o repúdio ao racismo e às discriminações de “gênero”; da mesma forma, exigem o respeito ao meio ambiente e, claro, aos animais.

Embora toda sociedade moderna seja composta por patrícios e proletários, a maior parte da sociedade é formada pelo proletariado (pelos trabalhadores), e os esforços sociais devem se orientar para a melhoria de suas condições de vida. Qualquer política que ignore ou menospreze os interesses do proletariado é uma política antirrepublicana, antissociocrática.

Uma terceira consequência é que a preocupação com o bem comum implica também ter vistas gerais. Todos devemos nos preocupar com as localidades em que residimos, mas, ao mesmo tempo, devemos estar atentos aos ambientes mais amplos – estaduais, nacionais e internacionais. A ênfase excessiva ou exclusiva nas questões locais é uma forma de egoísmo e alienação. Esse princípio deve ser generalizado: a subordinação das famílias às pátrias, das pátrias à Humanidade presente e da Humanidade presente à Humanidade histórica é o único antídoto contra bairrismos, provincianismos, nacionalismos xenofóbicos e etnocentrismos.

Um caso particular de afirmação das vistas gerais e da fraternidade contra a violência, o ódio e os particularismos é a rejeição das concepções e das práticas baseadas no ressentimento e no facciosismo. Isso inclui não apenas os nacionalismos xenofóbicos como também os identitarismos, todos eles produtores de violências e agressões entre e dentro dos vários países.

A regra republicana básica é o “viver às claras”: cada um deve adotar valores em sua vida que sejam publicamente defensáveis e de fato viver conforme esses valores. No caso dos governantes e das figuras públicas, o viver às claras também significa que todos os seus atos são responsabilizáveis, passíveis de acompanhamento, avaliação e cobrança. A publicidade dos atos e das motivações é a regra, nunca a exceção. Assim, todos devem sempre falar a verdade e cumprir o prometido ou, em outras palavras, não se deve mentir nem se deve trair.

A instituição republicana básica é a separação entre igreja e Estado: o aconselhamento não precisa da violência do Estado para fazer-se valer, nem pode o Estado condicionar os seus serviços à aceitação de crenças oficiais. Isso é o que se chama vulgarmente de “laicidade”. Nesse cenário, sacerdotes devem manter-se afastados do Estado a fim de garantirem sua dignidade, assim como o Estado deve recusar sacerdotes para não ser usado como instrumento de opressão. O afastamento dos sacerdotes em relação à política não quer dizer alienação nem indiferença; quer dizer que os sacerdotes devem manter sua autonomia moral e não podem trabalhar para o Estado.

A separação entre igreja e Estado é a base das liberdades fundamentais: são as liberdades de crença, de manifestação e de associação, assim como o direito de ir e vir, o habeas corpus e o devido processo legal. Adicionalmente, os órgãos do Estado – especialmente os que são responsáveis diretos pelo atendimento à população – e os servidores públicos devem ser valorizados, ao mesmo tempo em que se mantém a dignidade da chamada iniciativa privada.

Finalmente, as instituições sociais fundamentais devem ser valorizadas, a começar pela família. Entre a família e a sociedade política (as pátrias) as relações são de complementaridade, não de oposição. O papel da família é o de desenvolvimento afetivo e de educação moral, preparando os cidadãos para a vida na sociedade mais ampla; o papel da sociedade política é o de realizar os trabalhos práticos necessários para manter e desenvolver a vida de todos. Como é mais ampla, a sociedade política regula e protege a família. As pátrias, por sua vez, devem todas unir-se em prol da Humanidade. Assim como os proletários devem ser valorizados e respeitados, as mulheres devem ser valorizadas e ter sua dignidade mantida e afirmada: a violência contra as mulheres é inaceitável.

Os valores e práticas constituem, sem esgotar, muito do que é a república, ou melhor, a sociocracia. Tudo isso almeja a realização dos um dos supremos ideais dos brasileiros e de todos os seres humanos – a união da ordem com o progresso. Quando ordem e progresso ficam separados, eles tornam-se antagônicos, em que a ordem torna-se retrógrada e opressiva e o progresso torna-se caótico e também opressivo. Apenas a união das duas perspectivas, em que sejam simultaneamente respeitadas e valorizadas, torna possível que cada uma delas seja cumprida. A ordem é a consolidação do progresso e o progresso é o desenvolvimento da ordem; o seu vínculo é o amor, que, em termos políticos, é fraternidade, respeito mútuo e tolerância. O respeito à ordem não equivale à submissão cega ou servil ao poder político; da mesma forma, a verdadeira relação entre o poder e os cidadãos não é a de um soldado que se submete ao seu comandante.


Gustavo Biscaia de Lacerda é doutor em sociologia política e sociólogo da UFPR.

15 setembro 2026

Ordem E progresso só com república progressista e laica

No dia 6 de Shakespeare de 172 (15.9.2026) realizamos nossa prédica positiva, dando continuidade à leitura comentada do Apelo aos conservadores (em sua "Conclusão - missão peculiar aos verdadeiros conservadores").

A prédica foi transmitida nos canais Positivismo (https://www.youtube.com/watch?v=PmlDx0CL-fc) e Igreja Positivista Virtual (https://www.facebook.com/IgrejaPositivistaVirtual/videos/1407492244682719).

As anotações que serviram de base para a exposição oral encontram-se reproduzidas abaixo.

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Leitura comentada do Apelo aos conservadores

(6 de Shakespeare de 172/15.9.2026) 

1.     Abertura da prédica

2.     Datas e celebrações

2.1.   Dia 5 de Shakespeare (14 de setembro): nascimento de Sofia Bliaux (1804 – 222 anos)

2.2.   Dia 6 de Shakespeare (15 de setembro): transformação de Paulo de Tarso Monte Serrat (2014 – 12 anos)

2.3.   Dia 8 de Shakespeare (17 de setembro): transformação de Rodolfo Paula Lopes (1984 – 42 anos)

2.4.   Mês de Shakespeare (10 de setembro a 7 de outubro): décimo mês do ano, dedicado ao drama moderno (teatro, romance histórico, pintura, música)

3.     Apóiem a Igreja Positivista Virtual!

3.1.   Colaborem com o que puderem; com boa fé e boa vontade, toda e qualquer colaboração é necessária e bem-vinda!

3.1.1. Inscrevam-se no canal, compartilhem, divulguem nossas atividades!

3.2.   Para apoiar as atividades dos nossos canais e da Igreja Positivista Virtual: façam o Pix da Positividade! (Chave Pix: ApostoladoPositivista@gmail.com)

4.     Exortações

4.1.   Esta talvez seja a seção mais importante das prédicas!

4.2.   Sejamos altruístas!

4.2.1. Sejamos generosos, tolerantes etc.

4.2.2. Devemos orientar toda a nossa vida pelo altruísmo: quando o altruísmo regula e orienta a vida, o resultado é que o altruísmo (a dedicação para os demais) e o egoísmo (a satisfação das necessidades pessoais) não são incompatíveis, pois só o altruísmo permite unir o bem comum à felicidade pessoal

4.3.   Façamos orações!

4.3.1. A oração positiva é a base do culto íntimo; assim, é tanto a base do aperfeiçoamento pessoal quanto da espiritualidade positiva de modo geral

4.4.   Como Igreja Positivista Virtual, ministramos os sacramentos positivos a quem tem interesse

4.4.1. Em um total de nove, os sacramentos são a celebração de momentos centrais na vida de todos nós – momentos que devem ser celebrados, afirmados, compartilhados (o nascimento/a adoção, o casamento, a aposentadoria, a transformação (a morte) etc.)

5.     Explicações gerais sobre o Apelo aos conservadores

5.1.   Que tipo de documento é o Apelo e a quem ele dirige-se?

5.1.1. O Apelo é um manifesto político e dirige-se não a quaisquer pessoas ou grupos, mas a um grupo específico: são os líderes políticos e industriais que tendem para a defesa da ordem (e que tendem para a defesa da ordem até mesmo devido à sua atuação como líderes políticos e industriais), mas que, ao mesmo tempo, reconhecem a necessidade do progresso (a começar pela república): são esses os “conservadores” a que Augusto Comte apela

5.1.2. O Apelo, portanto, adota uma linguagem e um formato adequados ao público a que se dirige

5.1.3. Empregamos a expressão “líderes industriais” no lugar de “líderes econômicos”, por ser mais específica e mais adequada ao Positivismo: a “sociedade industrial” não se refere às manufaturas, mas à atividade pacífica, construtiva, colaborativa, oposta à guerra

5.1.4. É necessário reforçar que, na medida em que a “conservação” consiste na manutenção da sociedade como base necessária para o aperfeiçoamento, a política “conservadora” proposta por Augusto Comte é progressista, de tal sorte que ela corresponde à união e à realização do ideal de “Ordem E Progresso”

5.1.4.1.          A noção positiva de “conservador” e de “conservadorismo” opõe-se à noção inglesa de “conservador” (conforme definida originalmente por Edmund Burke, em 1794) e que se aproxima de ausência de movimento, de movimento muito lento ou, em todo caso, de rejeição de mudanças sociais racionais e intencionais

5.1.4.2.          Assim, a expressão “apelo aos conservadores” (em francês: “appel aux conservateurs”) não significa, nem quer significar, “defesa do conservadorismo” (ou, como querem alguns, de maneira alucinada, “defesa do reacionarismo”)

5.2.   Outras observações:

5.2.1. Uma versão digitalizada da tradução brasileira desse livro, feita por Miguel Lemos e publicada em 1899, está disponível no Internet Archive: https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores

5.2.2. O capítulo em que estamos é a “Conclusão”, cujo subtítulo é “Conduta própria aos verdadeiros conservadores”

6.     Leitura comentada do Apelo aos conservadores

7.     Término da prédica

 

Referências

- Auguste Comte (franc.), Síntese subjetiva (Paris, Exécution Téstamentaire d’Auguste Comte, 2ª ed., 1900): https://archive.org/details/lasynthsesubjec00comtgoog.

- Augusto Comte (franc.), Sistema de filosofia positiva (Paris, Bachelier, 1838), v. 3, 45e leçon (“Considérations générales sur l’étude positive des fonctions intellectuelles et morales, ou cérébrales”).

- Augusto Comte (franc.), Sistema de política positiva (Paris. J.-B. Baillière, 4ª ed., 1880): https://archive.org/details/systmedepoliti01comt.

- Augusto Comte (port.), Apelo aos conservadores (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores.

- Augusto Comte (port.), Catecismo positivista (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 4ª ed., 1934).

- José Lonchampt (port.), Ensaio sobre a oração (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1896; catálogo da IPB, n. 165): https://archive.org/details/n.-165-jose-lonchampt-ensaio-sobre-a-oracao.

- Luís Lagarrigue (esp.), A poesia positivista (Santiago do Chile, 1890): https://archive.org/details/luis-lagarrigue-a-poesia-positivista-1890_202509.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), As últimas concepções de Augusto Comte (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-i e https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-ii.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), O ano sem par (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1900): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-o-ano-sem-par-portug._202312/page/n7/mode/2up. 

14 setembro 2026

Sandro Gomes: "A Igreja Positivista e o Brasil de hoje"

Em 10 de março de 2017, o professor carioca Sandro Gomes publicou um belo artigo sobre o Positivismo e os positivistas brasileiros, intitulado "A Igreja Positivista e o Brasil de hoje". Contrariamente ao que se costuma publicar a respeito, esse artigo é correto e justo, respeitando e valorizando a atuação, os valores, as propostas.

O original está disponível aqui: https://www.appai.org.br/a-igreja-positivista-e-o-brasil-de-hoje/.

Reproduzimos o texto abaixo.

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A Igreja Positivista e o Brasil de hoje


Quando se estuda o Brasil da segunda metade do século XIX um item não pode deixar de ser destacado: o Positivismo. Filosofia desenvolvida na França por Auguste Comte, marcaria profundamente as visões políticas e principalmente os conceitos de ciência e conhecimento no Ocidente. Mas a despeito de todo o conteúdo de razão e saber filosófico ali presente, há uma faceta pouco mencionada do sistema criado por Comte, que é a sua dimensão religiosa. A chamada última fase da carreira intelectual do criador do positivismo acabaria por desembocar numa incursão pelo campo do místico-religioso. Profundamente influenciada pelo pensamento francês nesse período, a intelectualidade brasileira mergulharia fundo nas conceituações positivistas e alguns não deixariam de fora a religiosidade daí proveniente.

Assim, a Igreja Positivista, como acabaria ficando conhecida, alcançou entre nós uma considerável repercussão e, mais que isso, estaria ligada a muitos fatos fundamentais na história brasileira no limiar entre os séculos XIX e XX. Dois simpatizantes do positivismo, os então estudantes Miguel Lemos e Teixeira Mendes, após temporada na França, se encantaram com as visões religiosas que encontram em pleno processo de propagação. Ao retornarem ao Brasil, estabeleceram os primeiros marcos da instituição religiosa inspirada nas ideias de Comte. Foi aqui que esse conceito ganhou ares eclesiásticos, com a fundação de templos e a propagação sistemática da sua doutrina.

A religião positivista se caracterizava por alguns conceitos muito diferentes do que estava estabelecido no cristianismo dominante. Pra começar, proclama uma divindade feminina, a Humanidade, a sua grande musa, entendida como a maior expressão possível da dignidade. A mulher aliás seria extremamente valorizada pelos religiosos positivistas, sendo apontada como superior ao homem por ser capaz de conduzir-se prioritariamente pelo amor, sentimento a que a cultura do positivismo atribuía grande valor, como ficaria expresso na emblemática frase de Comte, que acabaria sendo em parte adotada na bandeira do Brasil: “O amor por princípio e a Ordem por base; o Progresso por fim”.

Mas não foi apenas com relação ao gênero que os adeptos da Igreja Positivista se confrontaram com o tradicionalismo dominante na sociedade brasileira da época. Na questão racial os religiosos seriam ainda mais ousados ao afirmarem a supremacia da raça negra sobre as demais, pelo fato de nela predominar o sentimento em detrimento da razão. Chegaram a colocar entre suas figuras de culto – cívico, como chamavam – Toussaint Louverture, o líder da rebelião escrava no Haiti que culminaria da independência desse país. Isso diante de uma classe dominante brasileira que tinha na possibilidade de revolta dos cativos seu maior fantasma. Consequentemente, os religiosos positivistas estiveram entre as mais combativas vozes a se levantar a favor da abolição da escravatura. Chegaram mesmo a expulsar adeptos que se recusassem a se desfazer de seus cativos.

Os seguidores da Igreja Positivista também se mostraram preocupados com um tema que em geral era colocado no ostracismo pelos intelectuais e formadores de opinião do período: a situação dos indígenas, que julgavam um grupo injustiçado no Brasil e ao mesmo tempo um modelo a ser seguido em virtude da sua ligação com a natureza. Não espanta que tenha vindo de um dos religiosos positivistas, o marechal Cândido Rondon, uma das mais brilhantes iniciativas de integração dos índios ao todo da sociedade brasileira, sendo até hoje considerada um paradigma universal de aproximação com os chamados “povos originários”, sobretudo pelo pacifismo do método.

A causa pacifista, aliás, seria um dos pilares da Igreja Positivista. Eram frontalmente contrários a guerras e regimes militares, e também não apoiavam os movimentos revolucionários, que acreditavam ineficientes por contrariarem o caráter de encadeamento gradual que marcava a dinâmica da natureza. Assim, apoiaram a república no Brasil, mas criticaram o totalitarismo com que ela foi instalada, sobretudo no regime mão de ferro imposto por Floriano Peixoto. Mesmo assim, não deixaram de apresentar no pós-monarquia contribuições provenientes de suas crenças. A mais conhecida foi a adoção da Bandeira Nacional, que lutaram para que se mantivesse parecida com a que existia no Império, ao invés de outra inspirada na bandeira estadunidense como queriam muitos republicanos.

Argumentaram que, mesmo superada, a condição imperial deveria ser respeitada como uma expressão de uma fase anterior de desenvolvimento de uma nação (a república, para eles, seria a mais avançada). Conseguiram também inserir parte da célebre frase de Comte na insígnia e lutaram para que lá permanecesse apesar de muitas resistências. Por outro lado, acabaram colaborando com o projeto republicano ao apoiar o culto cívico de figuras tidas como superiores na história nacional, como Tiradentes e José Bonifácio, que na visão dos republicanos era uma forma de substituir no imaginário da nação o apego por personalidades religiosas e consequentemente diminuir a ascendência da Igreja Católica, que consideravam prejudicial aos brasileiros.

O discurso pacifista dos religiosos positivistas também procurou atuar em importantes questões nacionais entre o final do século XIX e o início do XX. Tais foram os casos da participação brasileira na Guerra do Paraguai, a que sempre se opuseram, inclusive pregando o perdão das dívidas de guerra contraídas pelo país vizinho, e da tese do serviço militar obrigatório, amplamente defendida por várias figuras do meio intelectual. As suas preocupações com a paz vinha também da inspiração de Francisco de Assis, uma das poucas figuras da religião tradicional que consideravam. Das ideias do religioso italiano do século XII também trouxeram a causa da preservação ambiental, que praticamente não figurava nas mentes da época, num Brasil ainda tão pouco urbanizado, no qual a maior parte da população ainda vivia no campo. Teixeira Mendes, por exemplo, se recusava a usar qualquer objeto de couro, se opondo à matança predatória de animais.

A Igreja Positivista, como seria de esperar, foi definida por muitos naquela época como uma criação de lunáticos ou sonhadores sem conexão com o mundo real. No entanto, as demandas nacionais mais importantes daquele entresséculo, como o fim da escravidão e a adoção da república, estiveram entre suas propostas. Outras questões, por outro lado, que constituíam tabus ou estavam fora da esfera de preocupações do país foram por eles levantadas. A valorização da mulher, um melhor lugar para africanos e indígenas na cultura nacional, a tentativa de harmonização com as nações vizinhas do continente, a preocupação com as questões ambientais, entre outras causas pelos quais modernamente ainda se luta, foram itens antecipados por aqueles que se agruparam em torno do ideário da religiosidade positivista. De tudo o exposto cabem reflexões. E se ao invés do relativo esquecimento histórico a Igreja tivesse se expandido na mentalidade nacional e levado adiante seu ímpeto renovador? Em que pé estaríamos hoje?


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Por Sandro Gomes | Professor, escritor, mestre em literatura brasileira e revisor da Revista Appai Educar.

20 maio 2026

Escala 5x2 e Abolição da Escravidão

No dia 27 de César de 172 (19.5.2026) realizamos nossa prédica positiva, dando continuidade à leitura comentada do Apelo aos conservadores (em sua Terceira Parte - Postura dos positivistas em relação aos revolucionários).

No sermão celebramos a data do 13 de Maio e defendemos a escala 5x2.


As anotações que serviram de base para a exposição oral encontram-se reproduzidas abaixo.

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A escala 5x2 à luz da Religião da Humanidade

(27 de César de 172/19.5.2026) 

1.     Abertura da prédica

1.1.   No dia 20 de César de 172 (12.5.2026) não tivemos prédica devido a uma enxaqueca (causada, por sua vez, por excesso de trabalho, incluindo aí, evidentemente, o trabalho dedicado ao Positivismo e à Religião da Humanidade); retomamos hoje, portanto, a programação normal

2.     Datas e celebrações

2.1.   Dia 16 de César de 172 (8.5.2026): o blogue Filosofia Social e Positivismo atingiu a marca de 700.000 visitas!

2.2.   Dia 19 de César (11.5): fundação da Igreja Positivista do Brasil (1881 – 145 anos)

2.3.   Dia 21 de César (13.5): abolição da escravidão no Brasil (1889 – 138 anos): celebração da fraternidade entre os brasileiros

2.4.   Dia 24 de César (16.5): nascimento de Luís Lagarrigue (1864 – 162 anos)

2.5.   Mês de São Paulo: de 21 de maio a 17 de junho teremos o mês de São Paulo, sexto mês do ano, dedicado ao catolicismo

3.     Leitura comentada do Apelo aos conservadores

4.     Exortações

4.1.   Sejamos altruístas!

4.2.   Façamos orações!

4.3.   Como Igreja Positivista Virtual, ministramos os sacramentos positivos a quem tem interesse

4.4.   Para apoiar as atividades dos nossos canais e da Igreja Positivista Virtual: façam o Pix da Positividade! (Chave Pix: ApostoladoPositivista@gmail.com)

5.     Sermão: a escala 5x2 (e celebração do 13 de Maio)

5.1.   Um aviso inicial: como indicamos no início da prédica, o sermão de hoje deveria ter sido feito na semana passada; mas, devido a excesso de trabalho, padecemos de enxaqueca na semana passada; assim, o que deveria ter sido feito na semana passada será feito hoje

5.2.   O sermão de hoje celebra o dia 13 de Maio e, a partir disso, afirma a correção da proposta da escala 5x2

5.2.1. Várias das idéias abaixo foram apresentadas no artigo “Da abolição da escravidão à escala 5x2”, publicado no jornal carioca Monitor Mercantil de 11.5.2026

5.3.   Comecemos com o 13 de Maio

5.3.1. O feriado do 13 de Maio há muito tempo não é mais celebrado, mas o 13 de Maio com justiça já foi feriado nacional, que comemorava a fraternidade dos brasileiros, a partir da abolição da escravidão

5.3.1.1.          Esse feriado foi estabelecido pelo Decreton. 155-B, de 14 de janeiro de 1890 – um monumento belíssimo de celebrações cívicas

5.3.1.2.          Estabelecido a partir das sugestões positivistas (como, de resto, todo o Decreto n. 155-B), o nome do feriado já indicava que tal celebração não tinha nada a ver com a mistificação monarquista, antinacional e antirrepublicana em favor da Princesa Isabel

5.3.2. A celebração da fraternidade dos brasileiros, celebrada durante a I República no dia 13 de maio, conjuga de maneira impressionante inúmeros elementos:

5.3.2.1.          a valorização do trabalho e dos trabalhadores, contra as concepções de que o trabalho é degradante, que é um castigo e que os trabalhadores têm que ser tratados como escravos

5.3.2.2.          a libertação dos escravos, ocorrida em 1888 em relação aos descendentes dos africanos, trazidos à força ao Brasil, e em 1758 em relação aos índios, autóctones

5.3.2.3.          o necessário concurso das várias etnias para a constituição do Brasil – concurso que, de qualquer maneira, tem que ser pacífico e voluntário

5.3.3. É importante reforçar desde já um aspecto central: a celebração do 13 de Maio não era apenas pelo fim da escravidão negra, mas era principalmente pela valorização do trabalho e dos trabalhadores, bem como da fraternidade nacional, ou seja, do aspecto altruísta e generoso que a vida coletiva necessariamente tem que ter

5.3.4. Apesar de belas, importantes e necessárias, essas concepções foram e têm sido degradadas ao longo do tempo

5.3.4.1.          Não nos parece casual que isso ocorra ao mesmo tempo em que a própria noção de “república” seja desprezada e corrompida cada vez mais, nos últimos 140 anos

5.3.4.2.          No caso da celebração da fraternidade dos brasileiros, essa degradação começou logo após o 13 de maio de 1888, a partir de uma intensa mistificação monarquista, em favor da Princesa Isabel

5.3.4.3.          Essa mistificação, aliás, foi apoiada por movimentos sociais negros que, liderados por José do Patrocínio e baseados em uma equivocada gratidão, constituíram a lamentável milícia da “Guarda Negra”, que espancava os republicanos em defesa da monarquia

5.3.4.4.          Como se sabe, a mistificação monarquista foi no sentido de caracterizar a abolição como uma generosa concessão da monarquia (em vez de uma conquista verdadeiramente nacional e popular), em particular da Princesa Isabel, a fim de legitimá-la e tentar reverter a profunda repulsa de que ela era objeto (era ultracarola, seu marido era estrangeiro e, seguindo as ordens do próprio Dom Pedro, foi o responsável por dar caça a Solano López até o matar)

5.3.5. Assim, ao longo do tempo, em vez de investir-se nas noções de que a abolição da escravidão foi uma vitória do conjunto do país, de que ela valoriza os brasileiros descendentes de africanos e de que ela celebra a dignidade do trabalho e dos trabalhadores; em vez de investirmos no republicanismo em geral e na celebração da fraternidade em particular, os brasileiros praticamos o desprezo pela república (que se torna desculpa para golpes e revoluções, do fascismo, do comunismo, do clericalismo, do monarquismo etc.) e o estímulo ao mito monarquista

5.3.5.1.          Essa dupla degradação tem sido reafirmada nas últimas décadas mesmo pelo movimento identitário negro, contrário às noções de república e de fraternidade universal

5.3.5.2.          Aliás, o identitarismo negro finge que a Guarda Negra não existiu e estimula a mistificação monarquista contra a celebração republicana: isso em favor de um novo feriado nacional, que lamentavelmente mas não por acaso é particularista, contrário à fraternidade e, para piorar, que celebra uma figura que lutava contra a escravidão mantendo o seu próprio plantel de escravos

5.3.5.3.          Este é um caso exemplar que indica que, mesmo que um grupo social afirme defender uma determinada perspectiva e os interesses desse grupo, não é por isso que suas concepções são corretas, adequadas, altruístas e com efeitos positivos (no presente e/ou no futuro): o movimento identitário negro não apenas defende de maneira equivocada os interesses dos “negros” como sua defesa é daninha para eles e para o conjunto do país, ao ser particularista, faccioso e, como todo identitarismo, estimular o ressentimento e o ódio coletivos

5.3.6. É importante termos claro que a rejeição do 13 de Maio tem graves efeitos sociais e políticos:

5.3.6.1.          A rejeição rompe a continuidade histórica, tornando a história do
Brasil (e a história humana de modo geral) algo misterioso e irracional

5.3.6.2.          O rompimento da continuidade histórica apóia e reforça o desprezo pela República, ou seja, por seus ideais e seus esforços

5.3.6.3.          Apesar de supostamente se ser contra a mistificação monarquista, o desprezo pelo 13 de maio atinge a celebração republicana da fraternidade dos brasileiros, reforçando indiretamente o mito monarquista

5.3.6.4.          A rejeição despreza os esforços coletivos, de caráter nacional, em favor da abolição da escravidão e, depois, os esforços para a integração dos libertos e de seus descendentes

5.3.6.5.           A rejeição despreza o sentido altruísta e, literalmente, fraterno do feriado estabelecido pela República (e, deve-se notar: estabelecido pela República e não pela monarquia)

5.3.6.6.          A rejeição despreza o esforço concreto de constituição de uma pátria fraterna e altruísta, ao mesmo tempo em que reforça consciente e constantemente o discurso de um país agressivo e cruel

5.3.6.7.          A rejeição atua no sentido de afirmar o Brasil como a justaposição – violenta, ainda por cima – de etnias que não têm nada a ver uma com a outra, que não podem contribuir uma com a outra e cuja manutenção em conjunto seria uma balela violenta e hipócrita criada pelos dominadores

5.3.6.8.          Por fim, mas não menos importante, o conjunto dos problemas acima reforma a noção de que o trabalho é degradante, próprio à escravidão e que é “coisa de escravo”

5.4.   Passemos agora à escala 5x2

5.4.1. Como se pode ver pelos comentários que acabemos de fazer, o desprezo pelo feriado do 13 de Maio resulta no desprezo pelo trabalho e pelos trabalhadores, no desprezo pela fraternidade nacional e no desprezo pela luta nacional e popular que resultou na abolição da escravidão

5.4.1.1.          Esses múltiplos desprezos têm conseqüências morais, intelectuais e práticas de longo prazo, ao tornar desvincular a proposta da jornada 5x2 do esforço em prol da dignificação do trabalho e dos trabalhadores

5.4.2. Passando diretamente para a proposta da escala 5x2: ela surgiu como uma iniciativa da esquerda que, após décadas, finalmente apresentou uma proposta que não é exclusivista, particularista, facciosa e, ao contrário, beneficia todo o conjunto da população brasileira

5.4.2.1.          Mais importante que as disputas partidário-ideológicas, a proposta da escala 5x2 celebra uma concepção generosa e universalista da vida em sociedade, afirmando a fraternidade de todos os brasileiros, a dedicação dos trabalhadores para suas famílias, a dignidade humana em geral e a valorização do trabalho como atividade produtiva compartilhada

5.4.2.2.          Além disso, a escala 5x2 sacramenta o hábito ocidental de dois dias para o trabalhador dedicar-se à vida doméstica (sábado) e à vida coletiva (domingo) – o que, convenhamos, é o mínimo para uma vida digna e para uma justa retribuição pela atividade produtiva

5.4.3. Na verdade, a idéia de dois dias de descanso dedicados à vida doméstica e social dos trabalhadores foi proposta pelo Positivismo

5.4.3.1.          Originalmente, os dois dias de descanso foram tentados por Oliver Cromwell, ao longo de seu governo republicano na Inglaterra do século XVII

5.4.3.2.          Miguel Lemos chama a atenção exatamente para isso, em uma nota do Catecismo positivista:

“Aproveitamos esta alusão incidente ao descanso semanal para dizer que meditações ulteriores levaram Augusto Comte a estabelecer dois dias consecutivos de folga por semana (domingo e lunedia[1]), votados um à vida pública e o segundo à vida privada, como já o havia tentado uma lei de Cromwell (V. Lettres à Edger, p. 69). Todos sabem, aliás, da tendência universal a não se trabalhar no lunedia” (Miguel Lemos, Notas ao, Catecismo positivista, edição apostólica de 1934, p. 492)

5.4.3.3.          O trecho indicado acima das cartas de Augusto Comte a Henry Edger é este:

“[...] O uso espontâneo do proletariado ocidental, para os dois dias de descanso consecutivos de cada semana, universalmente dedicados um à vida pública, o outro à vida privada: uma lei de Cromwell já o tentara [instituir]” (Lettres d’Auguste Comte à Henry Edger e à John Metcalf, Paris, Apostolat Positiviste, 1889, p. 69)

5.4.4. Em oposição à dignificação do trabalho e dos trabalhadores, consideremos as críticas à escala 5x2

5.4.4.1.          Podemos organizar as críticas em dois grandes grupos: (1) os argumentos economicistas e (2) os argumentos que degradam a vida coletiva e o trabalho – argumentos convergentes, aliás.

5.4.5. O economicismo considera apenas os aspectos econômicos da medida são os importantes; ele reduz o ser humano a u’a máquina de trabalhar e de produzir

5.4.5.1.          Há no economicismo um duplo cinismo: finge-se (1) que o trabalhador não é apenas um número que tem a obrigação de gerar riqueza e (2) que essa desumanização não é dirigida apenas contra os trabalhadores

5.4.5.2.          Entretanto, é mais do que evidente que nenhum capitalista aceitaria submeter a si próprio e à sua família aos raciocínios morais e às condições de trabalho envolvidos no argumento economicista; mas eles não têm pudor em exigir tal submissão aos “outros”

5.4.5.3.          Se isso não fosse pouco, argumenta-se também que os “custos” aumentarão e o “lucro” diminuirá com a escala 5x2: ora, cada vez mais temos à disposição (1) tecnologias que aumentam a produtividade, (2) o conhecimento de que qualidade de vida e satisfação aumentam a produtividade; (3) o aumento geral da renda com o aumento de trabalhadores no mercado de trabalho

5.4.6. Os argumentos que degradam o trabalho são mais diretos em sua rejeição ao maior tempo disponível para os trabalhadores

5.4.6.1.          São argumentos francamente reacionários, com enorme freqüência teológicos e todos são contra a dignidade do trabalho e da vida humana e a favor da ganância

5.4.6.2.          Por exemplo: deputados-pastores afirmam que a escala 5x2 deixará muito tempo livre para os trabalhadores, tempo ocupado pelo Diabo (!): assim, os trabalhadores devem trabalhar sem cessar para que se esgotem e não possam aproveitar a vida nem refletir a respeito dela

5.4.6.3.          Outros críticos da escala 5x2 são diretamente bíblicos: o trabalho é a punição divina pela traição de Adão (causada, aliás, pela suposta mesquinhez de Eva); assim, não seria correto aliviar o fardo humano que, afinal, teria sido imposto pela própria divindade

5.4.6.4.          É claro que, assim como no caso das críticas economicistas, os reacionários (teológicos) rejeitam para os outros a escala 5x2, mas fazem questão de mantê-la para si mesmos

5.4.7. Versões secularizadas disso consideram que o trabalho incessante e exaustivo seria a única forma de dignificar a vida: de acordo com essa concepção, viver-se-ia apenas para trabalhar, em vez de dignificar-se o trabalho como uma atividade entre outras que integra a vida

5.4.7.1.          Conseqüências imediatas disso: o salário deve ser o menor possível (forçando os trabalhadores a manterem-se em trabalhos ruins) e as condições de vida não podem ser muito boas (incluindo aí as longas horas entre a casa e o trabalho e o acúmulo com o trabalho doméstico)

5.4.7.2.          Essa concepção, que no fundo é apenas uma versão um pouco secularizada da concepção teológica do castigo divino, tem sido afirmada pelo bilionário sul-africano Elon Musk

5.4.8. Um aspecto que subjaz a todas as críticas à proposta de escala 5x2 e que os críticos não fazem muita questão de esconder é que a boa vida cabe apenas a alguns poucos – aos ricos –; em outras palavras, as críticas consideram que o trabalho serve apenas para o enriquecimento alheio, em vez de ser um esforço coletivo para a manutenção e a melhoria da sociedade

5.4.8.1.          Essa mentalidade prevalece nos Estados Unidos, onde a ganância é um valor fundamental (“Greed is good”, vemos Gordon Gekko dizer no filme Wall Street, de 2010)

5.4.8.2.          Entretanto, no fundo, ela tem uma origem mais antiga e insidiosa: ela não distingue o trabalho da escravidão

5.4.8.3.          Assim, não é casual que os monarquistas – que retornaram à ribalta na onda reacionária da última década – sejam críticos da escala 5x2: a monarquia no Brasil foi implantada exatamente para manter a escravidão. O antirrepublicanismo é pró-escravismo.

5.4.8.4.          Assim, a celebração do 13 de Maio tem tudo a ver com a defesa da escala 5x2 – e, inversamente, a defesa da escala 5x2 recupera (e exige a recuperação de) o feriado de 13 de Maio

5.5.   Em suma:

5.5.1. Celebremos, então, o 13 de Maio: o fim da escravidão, a fraternidade dos brasileiros e o republicanismo. Celebremos a dignidade do trabalho e dos trabalhadores: que venha a escala 5x2!

5.5.2.  

6.     Término da prédica

 

Referências

- Auguste Comte (franc.), Síntese subjetiva (Paris, Exécution Téstamentaire d’Auguste Comte, 2ª ed., 1900): https://archive.org/details/lasynthsesubjec00comtgoog.

- Augusto Comte (franc.), Sistema de filosofia positiva (Paris, Bachelier, 1838), v. 3, 45e leçon (“Considérations générales sur l’étude positive des fonctions intellectuelles et morales, ou cérébrales”).

- Augusto Comte (franc.), Sistema de política positiva (Paris. J.-B. Baillière, 4ª ed., 1880): https://archive.org/details/systmedepoliti01comt.

- Augusto Comte (port.), Apelo aos conservadores (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores.

- Augusto Comte (port.), Catecismo positivista (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 4ª ed., 1934).

- José Lonchampt (port.), Ensaio sobre a oração (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1896; catálogo da IPB, n. 165): https://archive.org/details/n.-165-jose-lonchampt-ensaio-sobre-a-oracao.

- Gustavo Biscaia de Lacerda (port.), Da Abolição da Escravidão à escala 5x2 (Curitiba, 11.5.2056): https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2026/05/da-abolicao-da-escravidao-escala-5x2.html.

- Luís Lagarrigue (esp.), A poesia positivista (Santiago do Chile, 1890): https://archive.org/details/luis-lagarrigue-a-poesia-positivista-1890_202509.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), As últimas concepções de Augusto Comte (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-i e https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-ii.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), O ano sem par (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1900): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-o-ano-sem-par-portug._202312/page/n7/mode/2up.



[1] “Lunedia” é o neologismo criado por Miguel Lemos para substituir no português a expressão “segunda-feira”, aproximar o português das demais línguas neolatinas (que usam, por exemplo, lunes em espanhol e lunedie em francês) e lembrar a evolução histórica do Ocidente (lunedia é o “dia da Lua”). Neologismos equivalentes foram criados para os demais dias úteis (ver Catecismo positivista, edição apostólica, 1934, notas de Miguel Lemos, p. 475).