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07 outubro 2026

As teorias da conspiração

No dia 27 de Shakespeare de 172 (6.10.2026) realizamos nossa prédica positiva, dando continuidade à leitura comentada do Apelo aos conservadores (em sua "Conclusão - missão peculiar aos verdadeiros conservadores").

No sermão abordamos as teorias da conspiração à luz do Positivismo.


As anotações que serviram de base para a exposição oral encontram-se reproduzidas abaixo.

*   *   *

Teorias da conspiração

(27 de Shakespeare de 172/6.10.2026) 

1.     Abertura da prédica

2.     Datas e celebrações

2.1.   Dia 22 de Shakespeare (1º.10): nascimento de José Lonchampt (1825 – 201 anos)

2.2.   Dia 1º de Descartes (8.10): festa de Clotilde e Augusto Comte (8.10.1844 – 182 anos)

2.3.   Dia 2 de Descartes (9.10): transformação de Afrânio Capelli (2009 – 17 anos)

2.4.   Dia 3 de Descartes (10.10): nascimento de Paulo Carneiro (1901 – 125 anos)

2.5.   Dia 3 de Descartes (10.10): transformação de David Carneiro, Jr. (1997 – 29 anos)

2.6.   Mês de Descartes (8.10 a 4.11): undécimo mês, referente à filosofia moderna

3.     Apóiem a Igreja Positivista Virtual!

3.1.   Colaborem com o que puderem; com boa fé e boa vontade, toda e qualquer colaboração é necessária e bem-vinda!

3.1.1. Inscrevam-se no canal, compartilhem, divulguem nossas atividades!

3.2.   Para apoiar as atividades dos nossos canais e da Igreja Positivista Virtual: façam o Pix da Positividade! (Chave Pix: ApostoladoPositivista@gmail.com)

4.     Leitura comentada do Apelo aos conservadores

5.     Espiritualidade positiva

5.1.   Esta talvez seja a seção mais importante das prédicas!

5.2.   Sejamos altruístas!

5.2.1. Sejamos generosos, tolerantes etc.

5.2.2. Devemos orientar toda a nossa vida pelo altruísmo: quando o altruísmo regula e orienta a vida, o resultado é que o altruísmo (a dedicação para os demais) e o egoísmo (a satisfação das necessidades pessoais) não são incompatíveis, pois só o altruísmo permite unir o bem comum à felicidade pessoal

5.3.   Façamos orações!

5.3.1. A oração positiva é a base do culto íntimo; assim, é tanto a base do aperfeiçoamento pessoal quanto da espiritualidade positiva de modo geral

5.4.   Como Igreja Positivista Virtual, ministramos os sacramentos positivos a quem tem interesse

5.4.1. Em um total de nove, os sacramentos são a celebração de momentos centrais na vida de todos nós – momentos que devem ser celebrados, afirmados, compartilhados (o nascimento/a adoção, o casamento, a aposentadoria, a transformação (a morte) etc.)

6.     Sermão: comentários sobre as teorias da conspiração

6.1.   Os comentários que farei neste sermão não são nem pretender ser exaustivos; são apenas alguns apontamentos que faço a partir do Positivismo, considerando uma pequena conversa que tive com Sandra Fernandes no dia 29.9.2026

6.1.1. As anotações abaixo se baseiam em leituras diversas e esparsas, em reflexões pessoais e, claro, no estudo e na aplicação do Positivismo

6.2.   Eis o diálogo havido em 29.9.2026, entre Sandra Fernandes e um seu amigo dela

 

 

6.2.1. A postagem – em sua afirmação de que o candidato Lula estaria na verdade morto e que a pessoa que se apresenta como ele seria um sósia (ou até mesmo um clone!)[1] – é exemplar de teorias da conspiração

6.2.2. Essa postagem constitui uma hipótese (1) elaborada totalmente sem dados, (2) que despreza os dados disponíveis e que, acima de tudo, (3) elabora hipóteses egoístas, destrutivas e extremamente complicadas

6.3.   Podemos definir as teorias da conspiração como concepções que afirmam que a realidade como é geralmente percebida, na verdade, é uma enganação feita por grupos pequenos (as “elites”, as “cabalas” (cabals, em inglês), o “Estado profundo” (Deep State, em inglês) etc.) – grupos socialmente mal definidos, embora com nomes claros –, a fim de manipular e explorar o conjunto da sociedade; adicionalmente, os propositores dessas concepções são também grupos pequenos, “contraelites”, que seriam populares perspicazes e que se devotariam a denunciar e a combater as conspirações; as “falsas verdades” englobam as mais variadas possibilidades: a Terra oca ocupada pelos “reptilianos”, a existência de alienígenas encoberta pelo governo dos Estados Unidos, a rede de exploração infantil do Partido Democrata dos Estados Unidos, a conspiração internacional dos judeus, a conspiração eterna dos homens, a conspiração internacional dos burgueses etc.

6.4.   A partir do Positivismo, parece-me que as teorias da conspiração são combinações de (1) má fé e falta de confiança, (2) instinto destruidor e (3) ausência de controle da imaginação

6.4.1. Antes de mais nada, as teorias da conspiração correspondem a uma falta generalizada e sistemática de confiança: os seus adeptos não confiam nas autoridades constituídas (temporais e/ou espirituais), desconsideram ou desprezam as pessoas que confiam e valorizam apenas aqueles, que, como eles mesmos, desconfiam dos demais (sua identidade baseia-se, portanto, na desconfiança compartilhada)

6.4.2. As teorias da conspiração têm elementos do instinto destruidor porque, por definição, desejam destruir, ser “do contra”; em contraposição a essa postura conspiracionista, a construção baseia-se na confiança mútua e pública e no esforço coletivo compartilhado

6.4.2.1.          Há um forte elemento maniqueísta, de “nós” contra “eles”, nas teorias da conspiração – e, também de maneira característica, “nós” somos poucos e “não nos deixamos enganar”, “eles” são muitos e/ou são os dominadores; a “nossa” ação tem que ser destruidora

6.4.3. De uma perspectiva intelectual, a teoria da conspiração rejeita as provas disponíveis em proveito das meras possibilidades: trata-se, portanto, de uma afirmação sistemática do meramente possível contra o efetivamente provável (e/ou o realmente comprovado)

6.4.4. É importante termos em mente que as teorias da conspiração apresentam um aspecto ativo, em que se postula que a realidade é ativamente camuflada por grupos que buscam enganar e manipular

6.5.   De uma perspectiva sociológica e histórica mais ampla, no âmbito do Positivismo devemos (ou podemos) igualmente entender as teorias da conspiração como um problema da liberdade absoluta de consciência

6.5.1. A liberdade absoluta de consciência foi apresentada por Augusto Comte nos seus Opúsculos de juventude (como no “Reorganizar a sociedade”, de 1822, e no “Considerações sobre o poder espiritual”, de 1826)

6.5.1.1.          Na verdade, nosso mestre fala em “liberdade ilimitada”; eu uso “liberdade absoluta” para evitar confusões e dissabores nos dias atuais

6.5.2. A idéia presente no conceito da “liberdade absoluta de consciência” consiste em que os indivíduos passam a considerar-se as autoridades supremas sobre quaisquer temas e questões, independentemente de sua preparação prévia específica para isso

6.5.3. A liberdade ilimitada de consciência substitui a infalibilidade papal pela infalibilidade individual

6.5.3.1.          Dessa forma, a liberdade ilimitada de consciência é a afirmação extrema da razão individual, ou melhor, individualista; trata-se, portanto, de um princípio essencialmente metafísico, antissocial, anti-histórico e destruidor

6.5.4. A liberdade ilimitada de consciência foi (e é) afirmada pelo protestantismo a partir da pretensão de que cada indivíduo é o supremo juiz da interpretação da Bíblia

6.5.4.1.          Seja porque é destruidor, seja porque afirma a infalibilidade individual, seja porque é protestante, o princípio da liberdade ilimitada de consciência foi criado e é empregado de maneira sistemática e não por acaso para combater e destruir o poder espiritual

6.5.5. Para evitar más interpretações e ambigüidades daninhas, convém esclarecermos que o problema com o princípio da liberdade absoluta de consciência não está no exame individual das várias questões, ou seja, não está na autonomia individual

6.5.5.1.          O problema está na arrogância individual e no desprezo individual para com a sabedoria coletiva (e, em todo caso, alheia)

6.5.5.2.          Em outras palavras e repetindo o que comentamos há pouco, o problema consiste na alucinada presunção da infalibilidade individual

6.6.   Há aspectos menores nas teorias da conspiração, embora muitas vezes relevantes: (1) substituição das crenças teológicas por crenças metafísicas e/ou alucinadas; (2) sentimentos de baixa autoestima; (3) desejo de pertencimento a grupos

6.6.1. A substituição de crenças teológicas por crenças metafísicas corresponde a uma secularização parcial e degradada; é importante notar que à metafísica intelectual soma-se u’a metafísica moral, ou seja, u’a moralidade corrompida associa-se a concepções degradadas, resultando em teorias da conspiração

6.6.2. Os sentimentos de baixa autoestima e o desejo de pertencimento a grupos, embora sejam aspectos distintos, andam juntos: pessoas que não se sentem valorizadas ou não se encaixam em nenhum grupo passam a justificar suas dificuldades pessoais e sociais por meio da atribuição de comportamentos voluntários contra elas mesmas

6.6.2.1.          Além de serem explicações fáceis (“não me encaixo porque os outros ativamente me excluem”), as teorias da conspiração criam esquemas que dão sentido às vidas de pessoas solitárias e que lhes permitem comportamentos ativos (em vez de passivos ou meramente reativos)

6.6.2.2.          Da mesma forma, as teorias da conspiração compartilhadas criam vínculos entre os indivíduos

6.6.2.3.          Os aspectos práticos das teorias da conspiração oferecem elementos que dão a sensação de superioridade a pessoas que se consideram inferiores e/ou desprezadas: esses elementos são (1) a suposta perspicácia de descobrir o que deveria estar encoberto e (2) o suposto combate aos grupos conspiradores

6.6.3. O fato de muitas teorias da conspiração serem sucedâneas de teologias – ou seja, versões secularizadas ou concepções herdeiras das teologias – não pode ser diminuído, especialmente em sociedades e ambientes marcados pelas teologias mais irracionalistas

6.6.3.1.          Na medida em que as teologias com freqüência são imunes às provas empíricas e à racionalidade (e algumas são-no mais que outras), essa mentalidade própria à teologia é transmitida para as teorias da conspiração, o que as torna mais impermeáveis às evidências empíricas e à argumentação

6.6.3.2.          Os Estados Unidos são particularmente suscetíveis desses problemas todos, na medida em que têm lugar, lá, as teologias mais irracionalistas e mais afirmadoras da pura “fé”, bem como é um país profundamente individualista

6.7.   Reunindo os vários aspectos e problemas anteriores, na medida em que se trata da desconfiança individualista e sistemática de “nós” contra “eles”, a teoria da conspiração é a afirmação coletiva da paranóia individual

6.7.1. Como as teorias da conspiração são a coletivização da paranóia individual, estimulada por um ambiente e/ou u’a mentalidade metafísica, é bastante claro que elas constituem uma grave deformação da espiritualidade humana

6.7.2. Talvez os únicos aspectos positivos das teorias da conspiração – mas sempre de maneira profundamente enviesada e prejudicial – sejam o aumento da autoestima, a constituição de grupos de apoio, a valorização do bem público e a valorização da publicidade

6.8.   Passando da caracterização das teorias da conspiração para os meios de evitá-las, veremos agora como o Positivismo fornece elementos poderosos contra essas paranóias coletivas

6.8.1. Comentamos antes que as teorias da conspiração consistem em problemas da imaginação humana: elas consistem no desprezo prático (e, com freqüência, também desprezo teórico) das leis da Filosofia Primeira e da lógica positiva

6.9.   As leis da Filosofia Primeira são absolutamente aplicáveis e necessárias

6.9.1. A Filosofia Primeira corresponde aos únicos princípios realmente universais, aplicáveis a todos os fenômenos, e referem-se tanto à descrição da realidade quanto aos princípios que o ser humano segue e deve seguir para apreender adequadamente a realidade

6.9.1.1.          Augusto Comte estabeleceu 15 leis da Filosofia Primeira

6.9.2. Por si só, a primeira lei – não por acaso, a chamada “lei-mãe” – bastaria para evitar desvios e aberrações como as teorias da conspiração

6.9.2.1.          A primeira lei é: “Formar a hipótese mais simples e mais simpática que comporta o conjunto dos dados a representar (I)”

6.9.2.1.1.              A aplicação desse princípio às teorias da conspiração é bem direta: as teorias da conspiração são hipóteses complicadas, destruidoras, baseadas na má fé e na desconfiança e que desprezam os dados disponíveis – ou seja, justamente o oposto do pensar de maneira sã

6.9.3. Mas há outras leis da Filosofia Primeira aplicáveis aqui:

6.9.3.1.          Essas outras leis são a quarta, a quinta e a sexta; elas integram o “Segundo grupo, essencialmente subjetivo”, em sua “Primeira série – leis estáticas do entendimento”:

6.9.3.1.1.              “Subordinar as construções subjetivas aos materiais objetivos (Aristóteles, Leibnitz, Kant) (IV)”

6.9.3.1.2.              “As imagens interiores são sempre menos vivas e menos nítidas que as impressões exteriores (V)”

6.9.3.1.3.              “A imagem normal deve ser preponderante sobre as que a agitação cerebral faz simultaneamente surgir (VI)”

6.9.3.1.4.              O conjunto das leis acima corrobora e reforça que, em vez de elaborar hipóteses aberrantes em teorias da conspiração, deve-se regular a imaginação e prestar atenção aos dados objetivos, sem os desprezar

6.10.               A lógica positiva (especialmente conforme desenvolvida na Síntese subjetiva, de 1856, embora também presente no v. I da Política positiva, de 1851, e no Catecismo positivista, de 1852) também é largamente aplicável:

6.10.1.   A imaginação, exatamente como a inteligência, tem que ser disciplinada; na verdade, o mesmo esforço dedicado à ciência e à filosofia tem que ser feito para a arte e a imaginação em geral

6.10.2.   A disciplina da imaginação baseia-se no altruísmo e no caráter social do ser humano; em última análise é necessário respeitar a lei-mãe da Filosofia Primeira (bem como as leis quatro a seis)

6.10.2.1.       Eis a definição da lógica positiva: “O concurso normal dos sentimentos, das imagens e dos sinais, para inspirar-nos as concepções que convêm às nossas necessidades morais, intelectuais e físicas” (Síntese, p. 26)

6.10.2.1.1.            A lógica positiva busca inspirar concepções generosas; sem se aferrar aos dados empíricos, ela deve propor concepções que não ofendam os dados

6.10.2.1.2.            Repetindo: essa concepção serve para disciplinar a inteligência, isto é, tanto a ciência e a filosofia quanto a arte e a imaginação

6.10.2.1.3.            Essa disciplina baseia-se nas concepções sociais (e sociológicas) em vez de nas concepções individuais e individualistas próprias à teologia

6.10.2.1.4.            A disciplina social baseia-se na digna submissão e, daí, na digna obediência; inversamente, a síntese teológica (absoluta) afirmava um ser caprichoso, egoísta e irresponsável

6.10.2.2.       Como isso se aplica às teorias da conspiração?

6.10.2.2.1.            Do ponto de vista da lógica positiva, as teorias da conspiração caracterizam-se por uma imaginação indisciplinada, egoísta, arbitrária; como vimos antes, embora elas satisfaçam de maneira muito secundária algumas necessidades humanas, tal satisfação dá-se a partir de características profunda e radicalmente antissociais

6.11.               Em suma:

6.11.1.   Como vimos acima, coletivamente as teorias da conspiração correspondem à sistematização do individualismo, do desprezo pela autoridade espiritual, do desprezo pela confiança compartilhada, do espírito profundamente metafísico, agressivo e destruidor próprio à liberdade absoluta de consciência; já em termos individuais, as teorias da conspiração surgem da baixa autoestima de pessoas que se sentem deslocadas e/ou desprovidas da sensação de ação, em ambientes que estimulam crenças irracionais e impassíveis de comprovação

6.11.1.1.       Em outras palavras, as teorias da conspiração correspondem a uma degradação profunda da espiritualidade humana em ambientes metafísicos em termos intelectuais e morais

6.11.1.2.       Devemos ter em mente a positividade e não esquecer, nunca, que a espiritualidade positiva só se afirma com um forte elemento social e altruísta, seja como objetivo, seja como meio, seja como princípio orientador: sem isso não é possível distanciar das teorias da conspiração quem se encontra submetido a elas

6.11.2.   Assim, para evitar as teorias da conspiração, temos que ter em mente aspectos sociais (coletivos) e pessoais, da mesma forma que elementos morais e intelectuais

6.11.3.   O Positivismo, ou melhor, a Religião da Humanidade estabelece precisamente elementos para essa regulação:

6.11.3.1.       O estímulo à confiança mútua

6.11.3.2.       A digna subordinação como base do aperfeiçoamento e o reconhecimento das limitações pessoais (em termos intelectuais, práticos e morais)

6.11.3.3.       O desenvolvimento e o reforço dos vínculos coletivos

6.11.3.4.       O “Viver às claras”, ou seja, a abertura e as justificativas públicas dos comportamentos

6.11.3.5.       A disciplina, a regulação e a orientação altruísta da imaginação (via Filosofia Primeira e lógica positiva)

7.     Término da prédica

 

Referências

- Auguste Comte (franc.), Síntese subjetiva (Paris, Exécution Téstamentaire d’Auguste Comte, 2ª ed., 1900): https://archive.org/details/lasynthsesubjec00comtgoog.

- Augusto Comte (franc.), Sistema de filosofia positiva (Paris, Bachelier, 1838), v. 3, 45e leçon (“Considérations générales sur l’étude positive des fonctions intellectuelles et morales, ou cérébrales”).

- Augusto Comte (franc.), Sistema de política positiva (Paris. J.-B. Baillière, 4ª ed., 1880): https://archive.org/details/systmedepoliti01comt.

- Augusto Comte (port.), Apelo aos conservadores (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores.

- Augusto Comte (port.), Catecismo positivista (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 4ª ed., 1934).

- José Lonchampt (port.), Ensaio sobre a oração (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1896; catálogo da IPB, n. 165): https://archive.org/details/n.-165-jose-lonchampt-ensaio-sobre-a-oracao.

- Luís Bueno Horta Barbosa (port.): Introdução geral ao estudo da lógica, ou matemática (Rio de Janeiro, Jornal do Comércio, 1933): https://archive.org/details/augusto-comte-logica-positiva

- Luís Lagarrigue (esp.), A poesia positivista (Santiago do Chile, 1890): https://archive.org/details/luis-lagarrigue-a-poesia-positivista-1890_202509.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), As últimas concepções de Augusto Comte (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-i e https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-ii.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), O ano sem par (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1900): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-o-ano-sem-par-portug._202312/page/n7/mode/2up.



[1] Embora à primeira vista essa teoria pareça apenas uma piada, na verdade, inacreditavelmente, ela é realmente afirmada – e por uma parcela substancial dos brasileiros (https://www.dw.com/pt-br/como-a-teoria-falsa-de-que-lula-morreu-amea%C3%A7a-a-democracia/a-79311276).

13 julho 2026

O Brasil, da rejeição do Ocidente à ilusão do reinício da história

No dia 13 de julho de 2026 o jornal carioca Monitor Mercantil publicou nosso artigo "O Brasil, da rejeição do Ocidente à ilusão do reinício da história - 1".

O texto original encontra-se disponível aqui: https://monitormercantil.com.br/o-brasil-da-rejeicao-do-ocidente-a-ilusao-do-reinicio-da-historia-1/.

O artigo pode ser lido abaixo.

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Mapa Múndi (foto de Leandro Barreto na Unsplash).

O Brasil, da rejeição do Ocidente à ilusão do reinício da história – 1

Nos afastamos de nossa ocidentalidade. Esse afastamento, ou essa rejeição, são graves e muito ruins. Por Gustavo Biscaia de Lacerda.

Um dos traços mais notáveis da política brasileira no último século é a nossa insistente dificuldade, ou nossa franca rejeição, de conjugarmos (1) a filiação à civilização ocidental com (2) a autonomia nacional e perspectivas universalistas. Essa conjugação não tem nada de excepcional e não é em si mesma contraditória, mas sua realização exige vontade e esforços conscientes. Cada vez mais o que se vê é que tais vontade e esforços não ocorrem – bem ao contrário, aliás.

Genericamente e a princípio, as perspectivas universalistas são o respeito a todas as culturas e civilizações existentes, bem como a abertura e o bom relacionamento com elas, a partir de critérios aplicáveis a todas, com dignidade e uniformidade.

A autonomia nacional corresponde à capacidade de decidirmos o que desejamos fazer, com quem desejamos relacionar-nos, quais os valores que nos orientam – o que tem um aspecto interno e outro externo.

Já a filiação à civilização ocidental corresponde ao fato de que o Brasil surgiu a partir dos esforços expansionistas europeus, sob a orientação política, cultural e moral portuguesa, com diversas modalidades de interação com as populações autóctones e de outras áreas nesse esforço.

Muitas vezes os europeus foram brutais, mesmo criminosos, gerando situações que se tornaram problemáticas; ainda assim, daí surgiram novas sociedades, sob a orientação do que posteriormente se ampliou para a concepção de “Ocidente” – e que não se reduz aos seus aspectos problemáticos, apresentando muitos e importantes aspectos positivos.

A autonomia nacional brasileira é um valor que mais ou menos não se discute, pelo menos ao afirmar-se internamente a originalidade de nossa sociedade e, em decorrência, as nossas preocupações externas específicas. Mas – e é esse o começo do problema que desejamos comentar – essa autonomia (interna e externa) é entendida como rejeição do pertencimento ao Ocidente, o que, por sua vez, conduz a um universalismo no mínimo claudicante.

Não se pode fingir que o Ocidente teve ao longo da história um comportamento exemplar. A própria noção de “Ocidente” com frequência é manipulada para induzir, ou impor, comportamentos que beneficiam apenas alguns países em particular; além disso, em inúmeros períodos ela justificou práticas odiosas, como a escravidão e/ou extermínio de outros povos.

A expressão “fardo do homem branco” (white man’s burden) resume isso muito bem, em termos de colonialismo imperialista ou de restrição do próprio “Ocidente” a alguns países (em particular Alemanha, Inglaterra e, mais recentemente, Estados Unidos).

Os problemas ligados ao “Ocidente” não são poucos e muitos deles são realmente graves: isso explica e às vezes justifica inúmeras reações, começando pela descolonização, passando por distanciamentos variados e chegando à franca rejeição. Depois de 1945, isso assumiu as formas do Movimento dos Países Não-Alinhados, do Movimento do Terceiro Mundo e atualmente do Sul Global. Esses movimentos transitam entre o distanciamento e a rejeição, com a crítica ao (ou a um) falso universalismo e eventualmente com a defesa de particularismos supostamente virtuosos.

Mas, em contraposição aos problemas acima, o Ocidente é o fundamento efetivo da identidade de dezenas de países, tanto na Europa quanto nas Américas e em outras partes. Além disso, concepções fundamentais da vida contemporânea têm origem no Ocidente, em particular o universalismo secular, a tolerância e a atividade pacífica e cooperativa. Essas concepções fundamentam várias das mais importantes instituições atuais, organizadas no sistema da Organização das Nações Unidas, mas não somente nele.

Por outro lado, muitas das demandas não-ocidentais valem-se explicitamente das concepções ocidentais, como o uso sistemático da “crítica”, a exigência de tolerância, autonomia e soberania nacionais etc. Essas concepções são usadas por países não-ocidentais mesmo quando as concepções próprias a esses países são diametralmente opostas às ocidentais; muitos dos países que criticam o Ocidente adotam, eles mesmos, comportamentos criticáveis: imperialismo, colonialismo, falso universalismo etc., resultando em hipocrisias múltiplas e cruzadas.

Esse comportamento, que de maneira suave podemos chamar apenas de “ambíguo”, é compartilhado por intelectuais, em particular pelos intelectuais “críticos”. Assim como vários países, muitos intelectuais frequentes vezes usam o universalismo criado pelo Ocidente para sabotar esse mesmo universalismo, em favor de concepções e práticas que muitas vezes são particularistas, autoritárias, discriminatórias etc.

Essa conduta dos intelectuais é ainda estimulada pela teoria e prática do identitarismo; no fundo, ele é apenas uma variedade de etnocentrismo e, portanto, potencialmente “universal”, mas a sua forma específica, em voga desde há algumas décadas, é estadunidense (logo, plenamente ocidental). O identitarismo sistematiza e estimula os ressentimentos de grupos sociais e políticos que são minoritários ou que se vêem assim, enfatizando de maneira agressiva os particularismos e os facciosismos: é claro que as ambiguidades do Ocidente são um campo fértil para o identitarismo.

É nesse intrincado ambiente que se inclui a situação brasileira, que é muito específica, em múltiplos sentidos. Somos um país de dimensões continentais, o que nem sempre percebemos com clareza e que nos conduz a concentrar-nos em demasia em nossos problemas internos, ignorando o ambiente externo e a dependência de todos os países em relação a isso.

Também somos o único país lusofalante nas Américas, cercado por sete países hispanofalantes; além disso, em um continente republicano, nossa independência manteve a monarquia, para garantir a escravidão e o território gigantesco. Mas fomos colonizados por um povo ibérico, cuja plasticidade social é universalmente reconhecida. Além disso, compartilhamos também os aspectos positivos do Ocidente, herdando o racionalismo universalista, a trilha para a atividade livre e cooperativa, o estímulo à tolerância etc.

Retornamos aqui à afirmação inicial deste artigo: nós, brasileiros, lidamos muito mal com nosso caráter ocidental. Certamente que os problemas próprios ao Ocidente (e que, lamentavelmente, não são exclusivos do Ocidente) não ajudam nessa relação, como nos casos dos valores compartilhados e dos falsos universalismos usados externamente como pretextos para a dominação e a exploração, ou, internamente, para degradações étnicas.

Esses aspectos negativos estimulam a rejeição dos nossos aspectos ocidentais; a agressividade identitária de origem estadunidense dá uma camada extra à problemática relação que mantemos com nossa identidade nacional.

O resultado disso tudo é que nos afastamos de nossa ocidentalidade – e, no limite, tendemos a rejeitá-la. Deveria ser evidente que esse afastamento, ou essa rejeição, são graves e muito ruins. Ainda assim, uma série de práticas daí derivadas deixa claro que essa evidência, infelizmente, não é tão evidente assim, o que justifica as presentes reflexões.

Desenvolveremos essas questões em nosso próximo artigo.

Gustavo Biscaia de Lacerda é sociólogo da UFPR e doutor em Sociologia Política.

15 abril 2026

Teocracia, democracia, sociocracia

No dia 20 de Arquimedes de 172 (14.4.2026) realizamos nossa prédica positiva, dando continuidade à leitura comentada do Apelo aos conservadores (concluindo a Segunda Parte - conduta dos positivistas em relação aos retrógrados).

No sermão abordamos brevemente os conceitos de "teocracia" (teológico), "democracia" (metafísico) e "sociocracia" (positivo).

A prédica foi transmitida nos canais Positivismo (https://youtube.com/live/bEgp1EHD0EE) e Igreja Positivista Virtual (https://www.facebook.com/IgrejaPositivistaVirtual/videos/1710328576819690).

As anotações que serviram de base para a exposição oral encontram-se reproduzidas abaixo.

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Teocracia, democracia, sociocracia

(20 de Arquimedes de 172/14.4.2026) 

1.     Abertura da prédica

2.     Datas e celebrações

2.1.   Dia 22 de Arquimedes (16.4): nascimento de Ivan Lins (1904 – 122 anos)

3.     Leitura comentada do Apelo aos conservadores

4.     Exortações

4.1.   Sejamos altruístas!

4.2.   Façamos orações!

4.3.   Como Igreja Positivista Virtual, ministramos os sacramentos positivos a quem tem interesse

4.4.   Para apoiar as atividades dos nossos canais e da Igreja Positivista Virtual: façam o Pix da Positividade! (Chave Pix: ApostoladoPositivista@gmail.com)

5.     Sermão: teocracia, democracia, sociocracia

5.1.   O sermão de hoje aborda os regimes sociais e políticos próprios a cada uma das três grandes fases intelectuais humanas, a teologia, a metafísica e a positividade

5.1.1. Este sermão não é motivado por nenhum fator imediato, no sentido de que ninguém fez nenhuma pergunta, nenhum comentário a respeito; mas, ainda assim, como com freqüência tratamos desses conceitos, parece-me que vale a pena tratarmos deles com um pouco de cuidado

5.1.2. Este sermão apresentará apenas algumas breves indicações teóricas, históricas e práticas

5.2.   Este sermão corresponde, assim, ao cruzamento da lei intelectual dos três estados com práticas políticas; portanto, não se trata de apresentar, em si mesma, a lei prática dos três estados

5.2.1. Como já vimos inúmeras vezes, mesmo em uma prédica anterior (a do dia 14.Gutenberg.171/26.8.2025), existem três leis dos três estados – a intelectual, a prática e a afetiva

5.2.2. A lei intelectual corresponde à seqüência teologia-metafísica-positividade (ou, em termos mais gerais, absolutismo-relativismo); a lei prática corresponde à seqüência guerra de conquista-guerra defensiva-atividade pacífica produtiva; por fim, a lei afetiva corresponde à seqüência família-pátria-Humanidade

5.2.3. Como Augusto Comte observou reiteradas vezes, há uma correspondência geral entre cada um dos degraus dessas leis (por exemplo: positividade-atividade pacífica-Humanidade), o que aliás gera um reforço entre eles; ainda assim, o que queremos comentar não é uma exposição da lei prática dos três estados, mas uma aplicação prática da lei intelectual

5.3.   Antes de entrarmos no tema específico deste sermão, temos que lembrar que toda sociedade tem dois poderes, responsáveis pela regulação social: o poder temporal e o poder espiritual

5.3.1. O poder temporal regula objetivamente a sociedade, impondo comportamentos com base na violência física

5.3.2. O poder espiritual regula subjetivamente a sociedade, aconselhando comportamentos a partir da educação, das idéias e dos valores compartilhados

5.4.   Passemos então ao enunciado da lei intelectual dos três estados: conforme está no quadro da Filosofia Primeira[1], “Cada entendimento oferece a sucessão dos três estados, fictício, abstrato e positivo, em relação às nossas concepções quaisquer, mas com uma velocidade proporcional à generalidade dos fenômenos correspondentes”; trata-se da sétima lei, integrando o segundo grupo de leis (essencialmente subjetivo) e, neste grupo, correspondendo à segunda série de leis (as leis dinâmicas do entendimento)

5.4.1. Em outras palavras, toda concepção (toda idéia, toda noção) atravessa ao longo do tempo (em termos dinâmicos, portanto) um processo em que começa com referências às divindades (ou melhor, às divindades teológicas) e é positivada, com referências explícitas e conscientes ao ser humano, respeitando as leis naturais: em todo caso, esse processo corresponde à passagem do absolutismo ao relativismo

5.5.   Muitas concepções em si mesmas realizam essa transição de maneira um tanto autônoma, ou isolada; talvez, por exemplo, os raios nas tempestades; outras concepções, todavia, apresentam um desenvolvimento mais amplo, seja porque são mesmo mais amplas (referindo-se ao mesmo tempo a muitos aspectos da realidade), seja porque elas têm muitas aplicações específicas

5.5.1. Assim, o processo da positivação ocorre ao mesmo tempo em termos gerais e em termos específicos; forçando um pouco os termos, podemos dizer que a positivação ocorre tanto em termos sintéticos quanto analíticos, em que um apóia e reforça o outro

5.5.2. A visão geral do mundo é aplicada nas teorias do governo, isto é, nas teorias que justificam o governo e que, a partir disso, regulam as relações entre o mando e a obediência, entre o governo e a sociedade

5.5.3. Uma outra forma de entender essa questão é reconhecer que os elementos comuns a todas as sociedades – isto é, a sociologia estática, entre os quais se encontra, justamente, o governo – passam por uma evolução histórica específica – que é descrita e explicada pela sociologia dinâmica

5.6.   A evolução histórica do governo ocorre antes de mais nada em termos de justificativa, ou de legitimação, isto é, em termos dos princípios que explicam a dinâmica da sociedade e que tornam aceitáveis que os governantes mandem e que os governados obedeçam

5.6.1. A partir da legitimação geral temos formas específicas de organização do governo, ou melhor, formas específicas do poder temporal, do Estado

5.6.2. A legitimação consiste nos princípios socialmente compartilhados que tornam aceitável uma determinada forma de realizar o mando; essa forma não apenas é aceita como se torna obrigatória, contra outras formas possíveis

5.7.   Exemplificando e já passando para as formas de legitimação e de organização do Estado, consideremos a teologia e a teocracia

5.7.1. Sabemos que na teologia o mundo é explicado com referência às divindades teológicas, que são absolutas e caprichosas; o ser humano foi criado por elas para satisfação vaidosa dessas divindades, a quem se deve a adoração e a obediência e, inversamente, a quem não se pode desrespeitar: um mundo incompreensível, regido por uma entidade ciumenta, mantém e consagra um poder que não tolera discussão: temos aí um poder espiritual que exige para si o poder temporal, constituindo a teocracia

5.7.2. A teologia tem uma tendência fortíssima a sempre constituir teocracias

5.7.3. A teocracia verdadeiramente é o governo dos sacerdotes, em que o poder espiritual submete o poder temporal (representado pelos guerreiros); essa forma de governo é bastante estável e, historicamente, constituiu-se na forma de politeísmos conservadores

5.7.4. A confusão teológica dos dois poderes pode ocorrer no sentido oposto, com os guerreiros submetendo os sacerdotes; a literatura da ciência política no século XX passou a denominar essas formas de “cesaropapismo”, mas o Positivismo chama-os de “politeísmos progressistas” (Grécia e Roma)

5.7.5. No Ocidente, após os politeísmos conservador e progressista, tivemos o monoteísmo católico; o catolicismo teve a honra de, na Idade Média, ter ensaiado a separação entre os dois poderes, embora esse esforço tenha fracassado e a tendência geral para a teocracia afirmou-se no final; essa tendência afirmou-se na forma concreta do “direito divino dos reis”, em que os reis governam por mandato divino, submetendo-se e responsabilizando-se apenas perante deus

5.8.   Passando para a metafísica, ela é tão absoluta quanto a teologia, mudando de deus para entidades abstratas, geralmente “o povo”, mas também “a natureza”

5.8.1. A metafísica é tanto corrupção, degradação, da teologia quanto transição da teologia para a positividade; assim, a metafísica mantém o caráter absoluto – ou seja, indiscutível – da teologia, mas começa a incluir elementos humanos e sociais

5.8.2. Dessa forma, a metafísica substitui o direito divino dos reis, ou melhor, a soberania divina, pela soberania popular: a soberania popular é tão absoluta, indiscutível e intolerante quanto a soberania divina dos reis, mas começa a afirmar a importância do bem comum; em todo caso, a metafísica exige (tanto quanto a teologia) a confusão dos dois poderes ou é altamente permissiva a ela (ou rejeita a separação entre os dois poderes)

5.8.3. A metafísica política assumiu, nos séculos XVIII e XIX, variadas formas: nos países germânicos virou o Volk (que, no século XX, resultou no nazismo); na França virou “o povo”, ou a “soberania popular”

5.8.3.1.          A soberania popular resultou, por sua vez, na democracia, conforme ela foi proposta e justificada por J.-J. Rousseau

5.8.4. A obra de Rousseau não deixa dúvidas sobre o aspecto absolutista, autoritário e intolerante da “soberania popular”, bem como da exigência de confusão entre o poder temporal e o poder espiritual

5.8.4.1.          Rousseau afirmava que o governo precisa, necessariamente, de uma religião civil, mantida pelo Estado, com a adesão obrigatória a uma determinada profissão de fé, com itens específicos (nomeadamente, a crença em deus); quem se recusar a aceitar a religião civil deve ser preso ou expulso do país

5.8.4.2.          A democracia (de Rousseau) é a metafísica política; o comunismo soviético é outra metafísica política (não por acaso, também particularmente intolerante)

5.8.4.3.          Uma outra aplicação política atual da metafísica consiste no identitarismo: a política identitária rejeita raivosamente a separação entre igreja e Estado, reafirma o crime de blasfêmia e exige a submissão do Estado e da política a um pseudoclero composto pela pedantocracia e por movimentos sociais

5.8.5. O que se chama atualmente de “democracia” afirmou-se pelo mundo afora no século XX, a par da crescente influência mundial dos Estados Unidos, e consiste em um misto de (1) preocupação com o bem público, (2) submissão das elites políticas às massas via processo eleitoral e (3) mecanismos políticos derivados do liberalismo político inglês

5.8.6. Criticar a democracia, atualmente, é difícil, por um lado, devido às chamadas práticas “iliberais”, que são as defendidas pelos fascistas (e, nesse sentido, pode-se ter a impressão de que a crítica à democracia como metafísica corresponderia à defesa das “democracias iliberais” fascistas); por outro lado, mais que o seu conteúdo específico, a palavra “democracia” foi sacralizada e consagrada, independentemente do que ela propõe e independentemente da história da prática e do conceito

5.8.6.1.          Para não deixar qualquer dúvida, para não haver nenhum equívoco: a crítica que o Positivismo faz à democracia refere-se ao caráter metafísico, absoluto, autoritário da noção de “vontade popular”, da “soberania popular”, do Volk; inversamente, o Positivismo é radicalmente a favor das liberdades, da separação entre o poder temporal e o poder espiritual, a favor da dignidade humana, da autonomia individual, do respeito às mulheres, do respeito aos trabalhadores etc.

5.9.   Passando finalmente para a positividade, nós temos aqui a passagem do absolutismo para o relativismo, com a conseqüente passagem da confusão entre os poderes temporal e espiritual para a separação entre eles, bem como a passagem de concepções indiscutíveis e de um poder autoritário para concepções discutíveis e um poder que aceita e promove a liberdade; por fim, com a positividade as concepções extra-humanas (sejam as teológicas, sejam as puramente abstratas) cedem lugar às perspectivas humanas, em particular com a afirmação do bem comum

5.9.1. Augusto Comte, ao criar a sociologia, contrapôs essa nova ciência à teologia; a partir disso, ele propôs paralelos entre as palavras:

Teologia à sociologia

Teocracia à sociocracia

Teolatria à sociolatria

5.9.2. Assim, a sociocracia é o regime político das liberdades públicas, em que há a separação entre igreja e Estado; em que as concepções são passíveis de exame; em que a conduta dos líderes (em particular dos líderes políticos) é permanentemente passível de exame, de avaliação e de legitimação pública

5.9.3. O que se chama vulgarmente, nos dias atuais, de “democracia” na verdade deveria ser chamado de “sociocracia”

5.9.3.1.          Entretanto, não se trata apenas de um problema terminológico, isto é, de usar uma palavra no lugar de outra: o emprego da palavra “democracia” sugere e permite a política absolutista, intolerante, que com tanta freqüência temos que lidar; o surgimento das práticas autoritárias próprias ao fascismo, ao comunismo, ao identitarismo é possível graças à mentalidade metafísica própria à “democracia”

5.9.3.2.          A palavra “democracia”, no caso, serve como porta de entrada e como canal para as tendências autoritárias e absolutistas próprias à metafísica

5.9.3.3.          A substituição da palavra “democracia” por “sociocracia” é o primeiro passo, necessário (mas em si insuficiente), para a positivação da política

5.9.4. Augusto Comte propôs a sociocracia em 1848 e nós, positivistas, passamos a implementá-la imediatamente, seja como parâmetro de comportamento e de avaliação pública, seja como regime político e social: isso se deu na França, na Inglaterra, nos Países Baixos, em Portugal e na Espanha, na Suécia, no Brasil, na Argentina, no Chile, no México, no Uruguai, nos Estados Unidos, na Índia, na Turquia, no Japão etc. etc. etc.

5.9.4.1.          Em 1926, Cornelis “Kees” Boeke, um anarquista neerlandês de origem quacre (e, sendo anarquista, era metafísico) pensou na palavra “sociocracia”, gostou dela, considerou que ela seria um rótulo conveniente como alternativa à “democracia” e resolveu tomá-la para si; esse movimento afirma que o Positivismo jamais aplicou a sociocracia e/ou que as indicações de Augusto Comte a respeito teriam sido vagas e genéricas: evidentemente, essas observações foram feitas desprezando a história e, lamentavelmente, apesar do que pregam, também movidas por má fé

5.9.4.2.          Com Boeke tem-se, mais uma vez, o habitual problema a respeito do Positivismo: as concepções de Boeke até são generosas, fraternas etc., mas elas foram propostas investindo na má fé contra o Positivismo; essa ambigüidade é fatal, venenosa e não pode ser ignorada

6.     Término da prédica

 

Referências

- Auguste Comte (franc.), Síntese subjetiva (Paris, Exécution Téstamentaire d’Auguste Comte, 2ª ed., 1900): https://archive.org/details/lasynthsesubjec00comtgoog.

- Augusto Comte (franc.), Sistema de política positiva (Paris. J.-B. Baillière, 4ª ed., 1880): https://archive.org/details/systmedepoliti01comt.

- Augusto Comte (port.), Apelo aos conservadores (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores.

- Augusto Comte (port.), Catecismo positivista (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 4ª ed., 1934).

- Gustavo Biscaia de Lacerda (port.), O momento comtiano (Curitiba, UFPR, 2019).

- Gustavo Biscaia de Lacerda (port.), Prédica Positiva “As três leis dos três estados” (Curitiba, Igreja Positivista Virtual, 14.Gutenberg.171/26.8.2025): https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2025/08/o-inicio-do-positivismo-as-tres-leis.html.

- José Lonchampt (port.), Ensaio sobre a oração (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1896; catálogo da IPB, n. 165): https://archive.org/details/n.-165-jose-lonchampt-ensaio-sobre-a-oracao.

- Luís Lagarrigue (esp.), A poesia positivista (Santiago do Chile, 1890): https://archive.org/details/luis-lagarrigue-a-poesia-positivista-1890_202509.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), As últimas concepções de Augusto Comte (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-i e https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-ii.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), O ano sem par (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1900): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-o-ano-sem-par-portug._202312/page/n7/mode/2up.



[1] Fonte: Augusto Comte. 1934. Catecismo positivista ou sumária exposição da Religião da Humanidade. 4ª ed. Rio de Janeiro : Apostolado Positivista do Brasil, p. 479.