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15 abril 2026

Teocracia, democracia, sociocracia

No dia 20 de Arquimedes de 172 (14.4.2026) realizamos nossa prédica positiva, dando continuidade à leitura comentada do Apelo aos conservadores (concluindo a Segunda Parte - conduta dos positivistas em relação aos retrógrados).

No sermão abordamos brevemente os conceitos de "teocracia" (teológico), "democracia" (metafísico) e "sociocracia" (positivo).

A prédica foi transmitida nos canais Positivismo (https://youtube.com/live/bEgp1EHD0EE) e Igreja Positivista Virtual (https://www.facebook.com/IgrejaPositivistaVirtual/videos/1710328576819690).

As anotações que serviram de base para a exposição oral encontram-se reproduzidas abaixo.

*   *   *

Teocracia, democracia, sociocracia

(20 de Arquimedes de 172/14.4.2026) 

1.     Abertura da prédica

2.     Datas e celebrações

2.1.   Dia 22 de Arquimedes (16.4): nascimento de Ivan Lins (1904 – 122 anos)

3.     Leitura comentada do Apelo aos conservadores

4.     Exortações

4.1.   Sejamos altruístas!

4.2.   Façamos orações!

4.3.   Como Igreja Positivista Virtual, ministramos os sacramentos positivos a quem tem interesse

4.4.   Para apoiar as atividades dos nossos canais e da Igreja Positivista Virtual: façam o Pix da Positividade! (Chave Pix: ApostoladoPositivista@gmail.com)

5.     Sermão: teocracia, democracia, sociocracia

5.1.   O sermão de hoje aborda os regimes sociais e políticos próprios a cada uma das três grandes fases intelectuais humanas, a teologia, a metafísica e a positividade

5.1.1. Este sermão não é motivado por nenhum fator imediato, no sentido de que ninguém fez nenhuma pergunta, nenhum comentário a respeito; mas, ainda assim, como com freqüência tratamos desses conceitos, parece-me que vale a pena tratarmos deles com um pouco de cuidado

5.1.2. Este sermão apresentará apenas algumas breves indicações teóricas, históricas e práticas

5.2.   Este sermão corresponde, assim, ao cruzamento da lei intelectual dos três estados com práticas políticas; portanto, não se trata de apresentar, em si mesma, a lei prática dos três estados

5.2.1. Como já vimos inúmeras vezes, mesmo em uma prédica anterior (a do dia 14.Gutenberg.171/26.8.2025), existem três leis dos três estados – a intelectual, a prática e a afetiva

5.2.2. A lei intelectual corresponde à seqüência teologia-metafísica-positividade (ou, em termos mais gerais, absolutismo-relativismo); a lei prática corresponde à seqüência guerra de conquista-guerra defensiva-atividade pacífica produtiva; por fim, a lei afetiva corresponde à seqüência família-pátria-Humanidade

5.2.3. Como Augusto Comte observou reiteradas vezes, há uma correspondência geral entre cada um dos degraus dessas leis (por exemplo: positividade-atividade pacífica-Humanidade), o que aliás gera um reforço entre eles; ainda assim, o que queremos comentar não é uma exposição da lei prática dos três estados, mas uma aplicação prática da lei intelectual

5.3.   Antes de entrarmos no tema específico deste sermão, temos que lembrar que toda sociedade tem dois poderes, responsáveis pela regulação social: o poder temporal e o poder espiritual

5.3.1. O poder temporal regula objetivamente a sociedade, impondo comportamentos com base na violência física

5.3.2. O poder espiritual regula subjetivamente a sociedade, aconselhando comportamentos a partir da educação, das idéias e dos valores compartilhados

5.4.   Passemos então ao enunciado da lei intelectual dos três estados: conforme está no quadro da Filosofia Primeira[1], “Cada entendimento oferece a sucessão dos três estados, fictício, abstrato e positivo, em relação às nossas concepções quaisquer, mas com uma velocidade proporcional à generalidade dos fenômenos correspondentes”; trata-se da sétima lei, integrando o segundo grupo de leis (essencialmente subjetivo) e, neste grupo, correspondendo à segunda série de leis (as leis dinâmicas do entendimento)

5.4.1. Em outras palavras, toda concepção (toda idéia, toda noção) atravessa ao longo do tempo (em termos dinâmicos, portanto) um processo em que começa com referências às divindades (ou melhor, às divindades teológicas) e é positivada, com referências explícitas e conscientes ao ser humano, respeitando as leis naturais: em todo caso, esse processo corresponde à passagem do absolutismo ao relativismo

5.5.   Muitas concepções em si mesmas realizam essa transição de maneira um tanto autônoma, ou isolada; talvez, por exemplo, os raios nas tempestades; outras concepções, todavia, apresentam um desenvolvimento mais amplo, seja porque são mesmo mais amplas (referindo-se ao mesmo tempo a muitos aspectos da realidade), seja porque elas têm muitas aplicações específicas

5.5.1. Assim, o processo da positivação ocorre ao mesmo tempo em termos gerais e em termos específicos; forçando um pouco os termos, podemos dizer que a positivação ocorre tanto em termos sintéticos quanto analíticos, em que um apóia e reforça o outro

5.5.2. A visão geral do mundo é aplicada nas teorias do governo, isto é, nas teorias que justificam o governo e que, a partir disso, regulam as relações entre o mando e a obediência, entre o governo e a sociedade

5.5.3. Uma outra forma de entender essa questão é reconhecer que os elementos comuns a todas as sociedades – isto é, a sociologia estática, entre os quais se encontra, justamente, o governo – passam por uma evolução histórica específica – que é descrita e explicada pela sociologia dinâmica

5.6.   A evolução histórica do governo ocorre antes de mais nada em termos de justificativa, ou de legitimação, isto é, em termos dos princípios que explicam a dinâmica da sociedade e que tornam aceitáveis que os governantes mandem e que os governados obedeçam

5.6.1. A partir da legitimação geral temos formas específicas de organização do governo, ou melhor, formas específicas do poder temporal, do Estado

5.6.2. A legitimação consiste nos princípios socialmente compartilhados que tornam aceitável uma determinada forma de realizar o mando; essa forma não apenas é aceita como se torna obrigatória, contra outras formas possíveis

5.7.   Exemplificando e já passando para as formas de legitimação e de organização do Estado, consideremos a teologia e a teocracia

5.7.1. Sabemos que na teologia o mundo é explicado com referência às divindades teológicas, que são absolutas e caprichosas; o ser humano foi criado por elas para satisfação vaidosa dessas divindades, a quem se deve a adoração e a obediência e, inversamente, a quem não se pode desrespeitar: um mundo incompreensível, regido por uma entidade ciumenta, mantém e consagra um poder que não tolera discussão: temos aí um poder espiritual que exige para si o poder temporal, constituindo a teocracia

5.7.2. A teologia tem uma tendência fortíssima a sempre constituir teocracias

5.7.3. A teocracia verdadeiramente é o governo dos sacerdotes, em que o poder espiritual submete o poder temporal (representado pelos guerreiros); essa forma de governo é bastante estável e, historicamente, constituiu-se na forma de politeísmos conservadores

5.7.4. A confusão teológica dos dois poderes pode ocorrer no sentido oposto, com os guerreiros submetendo os sacerdotes; a literatura da ciência política no século XX passou a denominar essas formas de “cesaropapismo”, mas o Positivismo chama-os de “politeísmos progressistas” (Grécia e Roma)

5.7.5. No Ocidente, após os politeísmos conservador e progressista, tivemos o monoteísmo católico; o catolicismo teve a honra de, na Idade Média, ter ensaiado a separação entre os dois poderes, embora esse esforço tenha fracassado e a tendência geral para a teocracia afirmou-se no final; essa tendência afirmou-se na forma concreta do “direito divino dos reis”, em que os reis governam por mandato divino, submetendo-se e responsabilizando-se apenas perante deus

5.8.   Passando para a metafísica, ela é tão absoluta quanto a teologia, mudando de deus para entidades abstratas, geralmente “o povo”, mas também “a natureza”

5.8.1. A metafísica é tanto corrupção, degradação, da teologia quanto transição da teologia para a positividade; assim, a metafísica mantém o caráter absoluto – ou seja, indiscutível – da teologia, mas começa a incluir elementos humanos e sociais

5.8.2. Dessa forma, a metafísica substitui o direito divino dos reis, ou melhor, a soberania divina, pela soberania popular: a soberania popular é tão absoluta, indiscutível e intolerante quanto a soberania divina dos reis, mas começa a afirmar a importância do bem comum; em todo caso, a metafísica exige (tanto quanto a teologia) a confusão dos dois poderes ou é altamente permissiva a ela (ou rejeita a separação entre os dois poderes)

5.8.3. A metafísica política assumiu, nos séculos XVIII e XIX, variadas formas: nos países germânicos virou o Volk (que, no século XX, resultou no nazismo); na França virou “o povo”, ou a “soberania popular”

5.8.3.1.          A soberania popular resultou, por sua vez, na democracia, conforme ela foi proposta e justificada por J.-J. Rousseau

5.8.4. A obra de Rousseau não deixa dúvidas sobre o aspecto absolutista, autoritário e intolerante da “soberania popular”, bem como da exigência de confusão entre o poder temporal e o poder espiritual

5.8.4.1.          Rousseau afirmava que o governo precisa, necessariamente, de uma religião civil, mantida pelo Estado, com a adesão obrigatória a uma determinada profissão de fé, com itens específicos (nomeadamente, a crença em deus); quem se recusar a aceitar a religião civil deve ser preso ou expulso do país

5.8.4.2.          A democracia (de Rousseau) é a metafísica política; o comunismo soviético é outra metafísica política (não por acaso, também particularmente intolerante)

5.8.4.3.          Uma outra aplicação política atual da metafísica consiste no identitarismo: a política identitária rejeita raivosamente a separação entre igreja e Estado, reafirma o crime de blasfêmia e exige a submissão do Estado e da política a um pseudoclero composto pela pedantocracia e por movimentos sociais

5.8.5. O que se chama atualmente de “democracia” afirmou-se pelo mundo afora no século XX, a par da crescente influência mundial dos Estados Unidos, e consiste em um misto de (1) preocupação com o bem público, (2) submissão das elites políticas às massas via processo eleitoral e (3) mecanismos políticos derivados do liberalismo político inglês

5.8.6. Criticar a democracia, atualmente, é difícil, por um lado, devido às chamadas práticas “iliberais”, que são as defendidas pelos fascistas (e, nesse sentido, pode-se ter a impressão de que a crítica à democracia como metafísica corresponderia à defesa das “democracias iliberais” fascistas); por outro lado, mais que o seu conteúdo específico, a palavra “democracia” foi sacralizada e consagrada, independentemente do que ela propõe e independentemente da história da prática e do conceito

5.8.6.1.          Para não deixar qualquer dúvida, para não haver nenhum equívoco: a crítica que o Positivismo faz à democracia refere-se ao caráter metafísico, absoluto, autoritário da noção de “vontade popular”, da “soberania popular”, do Volk; inversamente, o Positivismo é radicalmente a favor das liberdades, da separação entre o poder temporal e o poder espiritual, a favor da dignidade humana, da autonomia individual, do respeito às mulheres, do respeito aos trabalhadores etc.

5.9.   Passando finalmente para a positividade, nós temos aqui a passagem do absolutismo para o relativismo, com a conseqüente passagem da confusão entre os poderes temporal e espiritual para a separação entre eles, bem como a passagem de concepções indiscutíveis e de um poder autoritário para concepções discutíveis e um poder que aceita e promove a liberdade; por fim, com a positividade as concepções extra-humanas (sejam as teológicas, sejam as puramente abstratas) cedem lugar às perspectivas humanas, em particular com a afirmação do bem comum

5.9.1. Augusto Comte, ao criar a sociologia, contrapôs essa nova ciência à teologia; a partir disso, ele propôs paralelos entre as palavras:

Teologia à sociologia

Teocracia à sociocracia

Teolatria à sociolatria

5.9.2. Assim, a sociocracia é o regime político das liberdades públicas, em que há a separação entre igreja e Estado; em que as concepções são passíveis de exame; em que a conduta dos líderes (em particular dos líderes políticos) é permanentemente passível de exame, de avaliação e de legitimação pública

5.9.3. O que se chama vulgarmente, nos dias atuais, de “democracia” na verdade deveria ser chamado de “sociocracia”

5.9.3.1.          Entretanto, não se trata apenas de um problema terminológico, isto é, de usar uma palavra no lugar de outra: o emprego da palavra “democracia” sugere e permite a política absolutista, intolerante, que com tanta freqüência temos que lidar; o surgimento das práticas autoritárias próprias ao fascismo, ao comunismo, ao identitarismo é possível graças à mentalidade metafísica própria à “democracia”

5.9.3.2.          A palavra “democracia”, no caso, serve como porta de entrada e como canal para as tendências autoritárias e absolutistas próprias à metafísica

5.9.3.3.          A substituição da palavra “democracia” por “sociocracia” é o primeiro passo, necessário (mas em si insuficiente), para a positivação da política

5.9.4. Augusto Comte propôs a sociocracia em 1848 e nós, positivistas, passamos a implementá-la imediatamente, seja como parâmetro de comportamento e de avaliação pública, seja como regime político e social: isso se deu na França, na Inglaterra, nos Países Baixos, em Portugal e na Espanha, na Suécia, no Brasil, na Argentina, no Chile, no México, no Uruguai, nos Estados Unidos, na Índia, na Turquia, no Japão etc. etc. etc.

5.9.4.1.          Em 1926, Cornelis “Kees” Boeke, um anarquista neerlandês de origem quacre (e, sendo anarquista, era metafísico) pensou na palavra “sociocracia”, gostou dela, considerou que ela seria um rótulo conveniente como alternativa à “democracia” e resolveu tomá-la para si; esse movimento afirma que o Positivismo jamais aplicou a sociocracia e/ou que as indicações de Augusto Comte a respeito teriam sido vagas e genéricas: evidentemente, essas observações foram feitas desprezando a história e, lamentavelmente, apesar do que pregam, também movidas por má fé

5.9.4.2.          Com Boeke tem-se, mais uma vez, o habitual problema a respeito do Positivismo: as concepções de Boeke até são generosas, fraternas etc., mas elas foram propostas investindo na má fé contra o Positivismo; essa ambigüidade é fatal, venenosa e não pode ser ignorada

6.     Término da prédica

 

Referências

- Auguste Comte (franc.), Síntese subjetiva (Paris, Exécution Téstamentaire d’Auguste Comte, 2ª ed., 1900): https://archive.org/details/lasynthsesubjec00comtgoog.

- Augusto Comte (franc.), Sistema de política positiva (Paris. J.-B. Baillière, 4ª ed., 1880): https://archive.org/details/systmedepoliti01comt.

- Augusto Comte (port.), Apelo aos conservadores (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores.

- Augusto Comte (port.), Catecismo positivista (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 4ª ed., 1934).

- Gustavo Biscaia de Lacerda (port.), O momento comtiano (Curitiba, UFPR, 2019).

- Gustavo Biscaia de Lacerda (port.), Prédica Positiva “As três leis dos três estados” (Curitiba, Igreja Positivista Virtual, 14.Gutenberg.171/26.8.2025): https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2025/08/o-inicio-do-positivismo-as-tres-leis.html.

- José Lonchampt (port.), Ensaio sobre a oração (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1896; catálogo da IPB, n. 165): https://archive.org/details/n.-165-jose-lonchampt-ensaio-sobre-a-oracao.

- Luís Lagarrigue (esp.), A poesia positivista (Santiago do Chile, 1890): https://archive.org/details/luis-lagarrigue-a-poesia-positivista-1890_202509.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), As últimas concepções de Augusto Comte (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-i e https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-ii.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), O ano sem par (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1900): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-o-ano-sem-par-portug._202312/page/n7/mode/2up.



[1] Fonte: Augusto Comte. 1934. Catecismo positivista ou sumária exposição da Religião da Humanidade. 4ª ed. Rio de Janeiro : Apostolado Positivista do Brasil, p. 479.

26 novembro 2025

Deyvid Antônio: Súmula das ciências para o Comte maduro

As anotações abaixo foram postadas em 17 de Frederico de 171 (21.11.2025) pelo jovem pensador católico Deyvid Antônio, em sua conta pessoal no Facebook.

Essas anotações apresentam uma notável síntese de alguns dos principais aspectos da filosofia das ciências de Augusto Comte (1798-1857), em sua fase madura, isto é, em sua fase religiosa, posterior a 1846.

Tal síntese é notável devido a dois motivos: 

(1) sua extrema qualidade, que une o conhecimento dos argumentos com o respeito ao pensamento de Augusto Comte.

(2) O fato de que Deyvid Antônio é um publicista católico tradicionalista, segundo a orientação de Olavo de Carvalho. A bem da verdade, quem acompanha as publicações de Deyvid logo percebe a variedade de seus interesses - além do catolicismo e do Positivismo, também bramanismo, budismo, islamismo, filosofia ocidental moderna e contemporânea, bem como inúmeros outros temas, e tudo isso sendo ao mesmo tempo estudante de... Engenharia! Isso tudo evidencia que a adesão de alguém a uma determinada filosofia não implica nem a ignorância de correntes filosóficas e políticas rivais, nem, principalmente, a repetição de erros e preconceitos a seu respeito. Em outras palavras, Deyvid demonstra com grande espontaneidade a mais escrupulosa honestidade intelectual.

Essa honestidade moral e esse cuidado filosófico põem Deyvid muito, muito à frente da imensa maioria da produção acadêmica, bem como da quase totalidade da militância político-intelectual, seja brasileira, seja estrangeira, quer ela trate do Positivismo, quer não.

É em virtude dos motivos acima - que, como se pode perceber com facilidade, são distintos entre si, embora o primeiro dependa do segundo - que decidimos reproduzir aqui esse belo texto.

Por fim, vale notar que essa honestidade intelectual de Deyvid, estimulada por uma simpatia generalizada pelo ser humano, estimula em nós uma simpatia recíproca por ele. Isso demonstra e comprova uma das mais importantes, e mais difíceis, lições de Augusto Comte: a solução dos problemas humanos passa necessariamente pela inteligência (ou seja, pelas idéias, pela filosofia), mas reside antes de tudo na simpatia, ou seja, no amor.

As anotações originais estão disponíveis aquihttps://www.facebook.com/photo?fbid=849088594754198&set=a.124491960547202. 

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Súmula da filosofia das ciências do Augusto Comte maduro

 Deyvid Antônio

É um equívoco profundo – embora persistente – reduzir Auguste Comte à figura de um simples “cientificista”, sobretudo quando esse termo é associado a empirismo ingênuo, intelectualismo absoluto, materialismo reducionista ou defesa de tecnocracias. Alguns chegam até a afirmar que Comte teria fundado uma suposta “religião da ciência”, fazendo do pai do positivismo o símbolo máximo do ideal cientificista. A Filosofia Positiva comtiana é mais ampla, mais complexa e metodologicamente mais sofisticada do que as correntes posteriores do positivismo científico (como o Positivismo Lógico), com as quais frequentemente é confundida. A desmontagem desse mito exige reconstituir o núcleo do pensamento de Comte, que se articula em torno de uma concepção holística de ciência, sociedade e moral.

O primeiro ponto decisivo é a rejeição comtiana tanto do absolutismo quanto do empirismo puro. O espírito positivo, essencialmente relativo, recusa qualquer pretensão de explicar as causas íntimas dos fenômenos ou os fins últimos do universo; orienta-se apenas pelo estabelecimento de leis invariáveis de sucessão e de similitude, convertendo a pergunta “por quê?” na investigação do “como”. Essa postura, porém, está longe de reduzir-se ao mero acúmulo empírico de fatos: Comte denuncia explicitamente o empirismo como uma prática estéril e incoerente, insistindo que toda observação é guiada por teorias prévias e que o conhecimento real consiste sobretudo em construções teóricas, exigindo uma oscilação permanente entre abstração e experiência.

Outro aspecto central do sistema comtiano é seu caráter sintético e , já citado, holístico, que recusa qualquer redução mecanicista. A positividade não se confunde com a ciência empírica isolada: enquanto a ciência é analítica, a positividade é uma síntese da totalidade humana, envolvendo inteligência, sentimentos e prática. Essa síntese é institucionalizada na célebre classificação das ciências, que organiza os saberes segundo uma hierarquia de complexidade crescente – Matemática, Astronomia, Física, Química, Biologia, Sociologia – culminando na Moral como a ciência final. Esta arquitetura hierárquica tem função explícita de combater o materialismo reducionista, pois impede que fenômenos superiores sejam subordinados a fenômenos inferiores, preservando a autonomia relativa das ordens biológica, social e moral.

Contra qualquer interpretação intelectualista ou cientificista, Comte afirma o primado do sentimento sobre a inteligência. No período maduro, influenciado por Clotilde de Vaux, ele sustenta que o impulso decisivo da ação humana emerge sempre do sentimento, enquanto a inteligência funciona apenas como órgão regulador. Essa inflexão culmina na Religião da Humanidade, cujo fim último é o aperfeiçoamento moral por meio do fortalecimento dos instintos altruístas e da contenção dos instintos egoístas, articulando uma ética da unidade afetiva e social que está longe de qualquer reducionismo científico.

Também é equivocada a associação entre Comte e tecnocracia. O positivismo comtiano estabelece, como princípio político fundamental, a separação rigorosa entre o Poder Temporal – responsável pela ação prática e governamental – e o Poder Espiritual – encarregado da teoria, da educação e do conselho. Comte insiste que filósofos, cientistas e artistas devem constituir um sacerdócio positivo desprovido de mando e de riqueza, cuja função é aconselhar, e não governar. Essa separação visa a garantir a liberdade de crítica e evitar qualquer forma de teocracia laica ou “pedantocracia”, sua expressão para o governo dos sábios, considerado por ele um desvio grave da ordem positiva. A ciência, portanto, não deve governar: deve iluminar a ação prática, preservando sua autoridade exclusivamente moral e intelectual.

Por fim, Comte distingue-se do cientificismo ao reconhecer o valor histórico e pedagógico da Teologia e da Metafísica. Longe de descartá-las como saberes destituídos de sentido, ele as compreende como fases necessárias do desenvolvimento do espírito humano, responsáveis por fornecer a estrutura teórica indispensável para organizar os fatos em épocas em que a observação ainda não podia gerar teoria. Muitas obras teológicas e metafísicas, segundo Comte, conservariam seu valor se fossem “traduzidas” ao espírito positivo.

Referências:

Epítome da vida e dos escritos de Augusto Comte – Joseph Lonchampt

Teoria Política Positivista – Gustavo Biscaia de Lacerda

15 outubro 2025

Espiritualismo, materialismo e positividade

No dia 7 de Descartes de 171 (14.10.2025) realizamos nossa prédica positiva, dando continuidade à leitura comentada do Apelo aos conservadores (em sua Primeira Parte - doutrina apropriada aos verdadeiros conservadores).

No sermão abordamos uma renovada e sofística oposição entre o "espiritualismo" e o "materialismo", bem como a necessária superação pela positividade.

A prédica foi transmitida nos canais Positivismo (aqui: https://youtube.com/live/B-27eYhFLh0) e Igreja Positivista Virtual (aqui: https://www.facebook.com/IgrejaPositivistaVirtual/videos/1133894912208527).

As anotações escrivas que serviram de base para a exposição oral encontram-se reproduzidas abaixo.

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Espiritualismo vs. materialismo

(7.Descartes.171/14.10.2025) 

1.      Invocação inicial

2.      Datas e celebrações:

2.1.   Dia 11 de Descartes (18.10): nascimento de Frederic Harrison (1831 – 194 anos)

2.2.   Dia 11 de Descartes (18.10): nascimento de Benjamin Constant (1836 – 189 anos)

2.3.   Dia 13 de Descartes (20.10): transformação de José Lonchampt (1890 – 135 anos)

3.      Celebração do fim da guerra Israel-Hamas

3.1.   Esse conflito, iniciado há pouco mais de dois anos, foi trágico para as duas populações envolvidas (ainda que em grau muito maior para os palestinos) e indica a imoralidade, a inutilidade e a irracionalidade das guerras contemporâneas

3.1.1.     Os beligerantes – do Hamas e o Estado de Israel – atuaram de maneira flagrante e escandalosamente contrária aos interesses supremos da Humanidade, ou seja, à fraternidade, à concórdia, à tolerância, ao respeito mútuo; não por acaso, esses grupos são imbuídos de concepções absolutas, intolerantes, fanáticas

3.2.   O Hamas é mesmo um grupo terrorista, que atua para destruir o Estado de Israel, com o apoio do Irã

3.2.1.     A invasão e o seqüestro, realizados em 7 de outubro de 2023, foram brutais, criminosos e serviram como instrumento do Irã contra o Acordo de Abraão, que serviria para normalizar as relações entre Israel e a Arábia Saudita

3.3.   Por outro lado, a reação do Estado de Israel contra o Hamas foi totalmente criminosa, em que a guerra de defesa logo se converteu em genocídio sistemático da população palestina

3.3.1.     Para evitar qualquer ambigüidade, referimo-nos ao “Estado de Israel” e não à população israelense: os responsáveis pelo genocídio e pela política de terra arrasada são os atuais governantes

3.3.2.     O genocídio promovido pelo Estado de Israel foi planejado, executado e apoiado por grupos racistas e fanáticos, totalmente contrários à solução dos “dois estados” e que desejavam transformar a Faixa de Gaza (bem como a Cisjordânia) em resorts de luxo

3.4.   Assim, é motivo de alegria o fim dessa guerra escabrosa, que talvez resulte na regularização da Palestina (ou, pelo menos, da Faixa de Gaza)

4.      Leitura comentada do Apelo aos conservadores

4.1.   Antes de mais nada, devemos recordar algumas considerações sobre o Apelo:

4.1.1.     O Apelo é um manifesto político e dirige-se não a quaisquer pessoas ou grupos, mas a um grupo específico: são os líderes políticos e industriais que tendem para a defesa da ordem (e que tendem para a defesa da ordem até mesmo devido à sua atuação como líderes políticos e industriais), mas que, ao mesmo tempo, reconhecem a necessidade do progresso (a começar pela república): são esses os “conservadores” a que Augusto Comte apela

4.1.1.1.           O Apelo, portanto, adota uma linguagem e um formato adequados ao público a que se dirige

4.1.1.2.           Empregamos a expressão “líderes industriais” no lugar de “líderes econômicos”, por ser mais específica e mais adequada ao Positivismo: a “sociedade industrial” não se refere às manufaturas, mas à atividade pacífica, construtiva, colaborativa, oposta à guerra

4.2.   Outras observações:

4.2.1.     Uma versão digitalizada da tradução brasileira desse livro, feita por Miguel Lemos e publicada em 1899, está disponível no Internet Archive: https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores

4.2.2.     O capítulo em que estamos é a “Primeira Parte”, cujo subtítulo é “Doutrina apropriada aos verdadeiros conservadores”

4.3.   Passemos, então, à leitura comentada do Apelo aos conservadores!

5.      Exortações

5.1.   Sejamos altruístas!

5.2.   Façamos orações!

5.3.   Como Igreja Positivista Virtual, ministramos os sacramentos positivos a quem tem interesse

5.4.   Para apoiar as atividades dos nossos canais e da Igreja Positivista Virtual: façam o Pix da Positividade! (Chave Pix: ApostoladoPositivista@gmail.com)

6.      Sermão: espiritualismo vs. materialismo

6.1.   Este sermão adotará inicialmente um tom duro em sua exposição

6.1.1.     Mas, evidentemente, seguindo o método positivo e a inspiração altruísta, é claro que após as necessárias críticas trataremos de apresentar a concepção positiva – isto é, real, útil, relativa, orgânica e simpática – do tema

6.2.   No dia 6 de outubro de 2025 o evangélico e antropólogo Juliano Spyer, que possui uma coluna fixa na Folha de S. Paulo, publicou um artigo intitulado “Ese a ciência provar que a vida continua após a morte?

6.2.1.     Esse título evidentemente foi provocativo – mas, lido o texto, logo se percebe que ele é menos provocativo do que parece à primeira vista e que o objetivo do autor foi afirmar que, para ele, a vida continua após a morte e que a ciência supostamente o comprovaria

6.2.1.1.           Em apoio à sua tese, o autor comenta a obra de um psiquiatra brasileiro, que se vale do apoio do Estado em uma universidade federal para dar apoio às suas teses, o Prof. Dr. Alexander Moreira Almeida, da UFJF, bem como de vários outros pesquisadores que em 2018 publicaram um “Manifesto por uma ciência pós-materialista

6.2.1.2.           Além disso, a afirmação do eufemismo da “espiritualidade” tem sido uma tendência nas últimas décadas, como se comprova nesta matéria: “Faculdadede Ciências Médicas discute impactos da espiritualidade na saúde

6.2.2.     Essas concepções afirmam que a ciência “moderna” e/ou “ocidental” é parcial e “materialista”, ou seja, que ela recorta o ser humano e ao mesmo tempo ignora aspectos importantes da existência humana, em particular adotando preconceitos materialistas e objetivistas que negam a subjetividade e o que esses autores chamam de “espiritualidade”

6.2.2.1.           Essas concepções afirmam a importância da espiritualidade tanto para os tratamentos dos pacientes quanto para os próprios médicos

6.3.   É necessário termos clareza e dizermos sem rodeios: apesar da correção e até da efetiva necessidade de ultrapassar-se o “materialismo” na ciência moderna e em particular na Medicina, o fato é que todos os autores envolvidos nessa proposta de “ciência pós-materialista” (sejam os estadunidenses, sejam o psicólogo brasileiro e os médicos da UERJ, seja o evangélico que escreve para a Folha de S. Paulo) adotam uma argumentação sofística e pseudocientífica

6.3.1.     A argumentação dessas pessoas é sofística porque a afirmada “espiritualidade” é uma forma disfarçada de afirmar as concepções teológicas e de reverter a Medicina científica para padrões teológicos

6.4.   Antes de seguirmos adiante, devemos adiantar bastante o nosso argumento e dizermos com clareza que os apelos para uma ciência (e, de modo mais específico, a medicina) “espiritualizada” baseia-se em anseios humanos profundos

6.4.1.     Esses anseios, todavia, são sempre e especificamente humanos, não sobre ou extra-humanos; em outras palavras, é o ser humano que se manifesta aí e não outras entidades

6.4.2.     Esses anseios correspondem ao desejo de que nós seres humanos sejamos entendidos e tratados como totalidades e não apenas como números, corpos e/ou pedaços de carne

6.4.3.     Como a exigência é a de que o ser humano seja entendido e tratado como uma totalidade, a questão é, por definição, religiosa, isto é, de totalidade

6.4.3.1.           Vale notar, entretanto, que a “espiritualidade” afirmada pelos teológico-metafísicos (mesmo com a página proto ou pseudocientífica empregada), não é positiva (ou seja, é anticientífica), não é uma verdadeira totalidade (pois não abrange todos os âmbitos reais do ser humano) e não é altruísta (pois, em conformidade com a teologia e a metafísica, é individualista e egoísta)

6.4.3.2.           Não por acaso, essa espiritualidade refere-se apenas e tão-somente ao indivíduo (com a noção teológica de “alma”) e lida muito mal, quando não despreza totalmente, a realidade social e a base biológica do ser humano

6.4.3.3.           Trata-se da positividade incompleta, que vai da Matemática até, na melhor das hipóteses, a Biologia, deixando de lado a positividade na Sociologia e, de maneira radical, na Moral

6.4.3.4.           A positividade incompleta resulta na prática do pensamento duplo, tão comum nos dias de hoje e celebrado por exemplo pela metafísica idealista alemã: positividade nas ciências inferiores, metafísica na Sociologia, teologia na Moral

6.4.4.     A espiritualidade verdadeira e real só se realiza e só pode realizar-se com a positividade, com a religião positiva, em que o ser humano é entendido como uma totalidade “biopsicossocial”, em que indivíduos autônomos são formados e atuam inseridos em sociedades, resultantes de processos históricos determinados e com vistas ao altruísmo e ao bem comum

6.5.   Passando ao tema atual e sendo um pouco polêmico, no Brasil dos últimos anos, vimos sofismas políticos semelhantes – semelhantes em suas estruturas, ainda que (suposta e esperançosamente) diferentes em seus objetivos políticos, sociais e morais

6.5.1.     Os sofismas políticos são estes: (1) não gostam do Lula? A única solução seria votar no fascista; (2) “Os cientistas nunca provaram que a cloroquina não cura a covid”; logo, a cloroquina cura a covid

6.5.2.     Em paralelo, os sofismas “pós-materialistas” afirmam: (1) a ciência “materialista” é ruim? Pois a única alternativa é o “pós-materialismo” (ou seja, o espiritualismo teológico-metafísico); (2) a ciência (“materialista”) nunca provou que os espíritos não existem; logo, eles realmente existem de fato

6.5.3.     Esses sofismas correspondem ao non sequitur (em que as conclusões não se seguem às premissas), a partir de um emprego estrito e inadequado do princípio lógico do “terceiro excluído”

6.6.   A atual afirmação espiritualista e “pós-materialista”, apesar de apresentar-se como inovadora e nova, na verdade apenas retoma concepções antigas e atualiza procedimentos espiritualistas e pseudoscientíficos antigos:

6.6.1.     No que se refere às concepções antigas, o espiritualismo e “pós-materialismo” obtém grande prestígio a partir das críticas feitas contra o Ocidente, seja a partir de concepções orientalistas (em que se afirma claramente que os países integrantes do Oriente são superiores ao Ocidente, por mais diversas que sejam as suas filosofias, como nos casos da Rússia, do Islã, da China tradicional, da China comunista etc.), seja a partir de concepções “pós-coloniais”, “decoloniais”, pós-modernas e do “Sul Global” (em que se afirma que o Ocidente não presta e que é bom que ele seja superado pelas civilizações não-ocidentais)

6.6.1.1.           Como vimos nas nossas prédicas dos dias 23 de Shakespeare de 170 (1.10.2024) e 16 de Descartes de 170 (22.10.2024), dedicadas ambas à tola acusação de que o Positivismo seria eurocêntrico, as civilizações não ocidentais e as críticas (ocidentais e não ocidentais) ao Ocidente apresentam inúmeros aspectos corretos, verdadeiros, úteis e morais – o que, por outro lado, deveria ser evidente que não corresponde a que tudo o que provém daí seja de fato correto (como a renovada afirmação da espiritualidade teológico-metafísica)

6.6.2.     No que se refere à renovação de concepções pseudocientíficas anteriores, devemos notar que, desde que a ciência moderna passou a afirmar-se contra a teologia, já no século XIV, mas com clareza a partir do século XVII, surgiram concepções espiritualistas que forçavam as teorias científicas no sentido espiritualista

6.6.2.1.           Essas concepções aproveitavam-se, como se aproveitam, do prestígio de que goza a ciência e, ao mesmo tempo, do desconhecimento que o grande público tem do que seja a filosofia positiva e também das teorias científicas específicas

6.6.2.2.           Podemos considerar nos séculos XVIII e XIX o mesmerismo (a teoria do magnetismo animal, com caráter místico), bem como, de maneira mais ampla, as concepções místicas sobre a eletricidade[1]

6.6.2.3.           No século XX, podemos considerar, por um lado, a metafísica de Bergson e, por outro lado e ainda mais, todas as abordagens autointituladas “quânticas”

6.7.   Feitas as críticas acima, que serviram para indicar como repetidamente as concepções teológico-metafísicas tentam reafirmar-se a partir de sofismas e modos pseudocientíficos, devemos necessariamente abordar a concepção positiva da espiritualidade

6.8.   Como afirmamos há pouco e sempre indicamos em nossas prédicas, o Positivismo é totalmente a favor da espiritualidade, como por exemplo as concepções de Humanidade e de método subjetivo indicam

6.8.1.     Mas há uma longa distância filosófica e até moral entre a concepção positiva de espiritualidade e a concepção teológico-metafísica

6.8.2.     Ao mesmo tempo, vemos com relativa simpatia as proclamações a favor do “pós-materialismo” e do “espiritualismo” – evidentemente não devido aos seus sofismas, às suas concepções pseudocientíficas e antipositivas e à subjacente afirmação da alma teológica –, considerando os aspectos positivos das críticas às limitações da ciência moderna e da medicina contemporânea

6.8.2.1.           De fato, a ciência moderna é realmente fragmentária, materialista e objetivista

6.8.2.2.           Em contraposição, é necessário afirmarmos concepções de conjunto (totalizantes), que não sejam propriamente materialistas e que respeitem a subjetividade humana

6.8.2.3.           Em face das concepções cientificistas, materialistas, fragmentárias e objetivistas, nosso mestre em diversos momentos afirmou que as concepções totalizantes, mesmo as teológico-metafísicas, são superiores às cientificistas

6.8.3.     Dito isso, Augusto Comte tratou precisamente das concepções espiritualista e materialista no Discurso sobre o conjunto do Positivismo, de 1848 (e reeditado em 1851 no v. I do Sistema de política positiva como “Discurso preliminar sobre o conjunto do Positivismo”)

6.8.3.1.           Como nosso mestre observa, o ser humano precisa ao mesmo tempo e sempre do método objetivo e do método subjetivo; enquanto um fornece os materiais sobre a realidade e as ciências inferiores, o outro fornece a interpretação moral e intelectual, a visão de conjunto e a perspectiva especificamente humana

6.8.3.1.1.                Mas sem hipóteses quaisquer não conseguimos dados objetivos, que, por sua vez, em sua ausência não podem atuar como parâmetros e corretores das hipóteses

6.8.3.1.2.                Temos então um círculo vicioso que só se rompe com a imposição da concepção teológica, a única que surge espontaneamente e que no início possui força suficiente para orientar o ser humano

6.8.3.2.           Indo diretamente para a ciência moderna, as suas características objetivistas serviram ao mesmo tempo para constituir as ciências inferiores (aspecto construtivo) e para destruir a teologia (aspecto destrutivo); esse procedimento foi necessário até a constituição das ciências superiores, a começar pela Biologia; quando nosso mestre criou a Sociologia e, depois, a Moral, os problemas da ciência moderna já não se justificavam mais e deveriam ser completados e corrigidos pelo método subjetivo, estabelecido pelas ciências superiores

6.8.3.3.           Devemos notar que a correção via método subjetivo não implicava, como não implica, a reintrodução do espiritualismo teológico-metafísico – que, afinal, foi necessária e adequadamente destruído pelas ciências inferiores nos séculos anteriores

6.8.3.4.           A afirmação da espiritualidade positiva, em particular no âmbito da medicina, foi afirmada e desenvolvida por Jorge Audiffrent, discípulo direto de Augusto Comte, no livro Apelo aos médicos, de 1862

6.8.4.     Um outro aspecto que devemos indicar é que a espiritualidade positiva é completada pelo fetichismo, que é a única forma teológica natural e espontânea

6.8.4.1.           O fetichismo tem que ser adotado pelo Positivismo mas, claro, tem que ser devidamente positivado para isso

6.8.4.2.           O espiritualismo teológico-metafísico só pode ser reintroduzido por meio da negação sistemática da ciência, ou melhor, da positividade; trata-se, então, de uma usurpação e de um emprego errado do método subjetivo em relação ao método objetivo

6.8.4.3.           O neofetichismo reconhece a visão de conjunto, o primado da afetividade e a atividade espontânea do mundo

6.8.4.4.           Dessa forma, o neofetichismo ultrapassa o materialismo e todos os problemas vinculados à ciência moderna – sem, entretanto, recair nos graves problemas do espiritualismo teológico-metafísico, em particular sem lançar mão de sofismas pseudocientíficos para tentar restabelecer a concepção teológica de alma

6.9.   Em suma:

6.9.1.     O Positivismo é totalmente a favor da espiritualidade, como por exemplo as concepções de Humanidade e de método subjetivo indicam

6.9.1.1.           Mas há uma longa distância filosófica e até moral entre a concepção positiva de espiritualidade e a concepção teológico-metafísica

6.9.2.     Apesar da correção e até da efetiva necessidade de ultrapassar-se o “materialismo” na ciência moderna e em particular na Medicina, o fato é que todos os autores envolvidos nessa proposta de “ciência pós-materialista” adotam uma argumentação sofística e pseudocientífica em favor do restabelecimento da concepção teológica de alma

6.9.3.     A incorporação do fetichismo inicial à positividade final – ou seja, o neofetichismo – ultrapassa o materialismo e todos os problemas vinculados à ciência moderna – sem, entretanto, recair nos graves problemas do espiritualismo teológico-metafísico, em particular sem lançar mão de sofismas pseudocientíficos para tentar restabelecer a concepção teológica de alma

7.      Invocação final

 

Referências

- Augusto Comte (franc.), “Discurso preliminar sobre o conjunto do Positivismo”, in: Sistema de política positiva, v. 1 (Paris, L. Mathias, 1851): https://archive.org/details/systmedepoliti01comt/mode/2up.

- Augusto Comte (franc.), Sistema de filosofia positiva (Paris, Société Positiviste, 5e ed., 1893)

- Augusto Comte (port.), Apelo aos conservadores (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores.

- Augusto Comte (port.), Catecismo positivista (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 4ª ed., 1934).

- Georges Audiffrent (franc.), Apelo aos médicos (Paris, Dunod, 1862): https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k772657.r=audiffrent%20appel%20aux%20m%C3%A9decins?rk=21459;2.

- Gustavo Biscaia de Lacerda (port.) Prédica positiva “O Positivismo é eurocêntrico?” (Curitiba, Igreja Positivista Virtual, 23.Shakespeare.170/1.10.2024): https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2024/10/o-positivismo-e-eurocentrico.html.

- Gustavo Biscaia de Lacerda (port.) Prédica positiva “O Positivismo é eurocêntrico? Parte 2” (Curitiba, Igreja Positivista Virtual, 16.Descartes.170/22.10.2024): https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2024/10/o-positivismo-e-eurocentrico-parte-2.html.

- Juliano Spyer (port.), “E se a ciência provar que a vida continua após a morte?” (Folha de S. Paulo, 6.10.2025): https://www1.folha.uol.com.br/colunas/juliano-spyer/2025/10/e-se-a-ciencia-provar-que-a-vida-continua-apos-a-morte.shtml.

- Luís Lagarrigue (esp.), A poesia positivista (Santiago do Chile, 1890): https://archive.org/details/luis-lagarrigue-a-poesia-positivista-1890_202509.

- Mario Beauregard (port. e ingl.): Manifesto por uma ciência pós-materialista (Tucson, 2018): https://revistafenix.pt/manifesto-para-uma-ciencia-pos-materialista/ e https://opensciences.org/files/pdfs/Manifesto-for-a-Post-Materialist-Science.pdf.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), As últimas concepções de Augusto Comte (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-i e https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-ii.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), O ano sem par (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1900): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-o-ano-sem-par-portug._202312/page/n7/mode/2up.

- UERJ (port.), “Faculdade de Ciências Médicas discute impactos da espiritualidade na saúde” (Rio de Janeiro, 1.1.2020): https://www.uerj.br/noticia/saude-e-espiritualidade-e-disciplina-na-faculdade-de-ciencias-medicas/.



[1] Cf. Gaston Bachelard, A formação do espírito científico (Rio de Janeiro, Contraponto, 1996).