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28 janeiro 2026

Ocidente como romano, medieval e moderno ou como cristão?

No dia 27 de Moisés de 172 (27.1.2026) retomamos as atividades da Igreja Positivista Virtual, com uma prédica em que realizamos a leitura comentada do Apelo aos Conservadores (em sua Segunda Parte - Postura dos positivistas em relação aos retrógrados). 

Aproveitamos para fazer comentários sobre o livro de Rémi Brague, Europa, a via romana.

A prédica foi transmitida nos canais Positivismo (https://youtube.com/live/itm1a5TquMI) e Igreja Positivista Virtual (https://www.facebook.com/IgrejaPositivistaVirtual/videos/870992832477558/).

As anotações que serviram de base para a exposição oral encontram-se reproduzidas abaixo.

*   *   *

Leitura comentada do Apelo aos conservadores

(27 de Moisés de 172/27.1.2026) 

1.     Abertura da prédica

2.     Datas e celebrações:

2.1.   Dia 22 de Moisés (22 de janeiro): transformação de Benjamin Constant (1891 – 135 anos)

2.2.   Dia 28 de Moisés (28 de janeiro): nascimento de Rosália Boyer (1764 – 262 anos)

2.3.   Dia 28 de Moisés (28 de janeiro): transformação de Teófilo Braga (1924 – 102 anos)

3.     Já definimos a programação das prédicas de Homero (fevereiro):

3.1.   Dia 27 de Moisés (27.1): apenas leitura comentada do Apelo aos conservadores

3.2.   Dia 6 de Homero (3.2): a Humanidade como deusa positiva

3.3.   Dia 13 de Homero (10.2): apenas leitura comentada do Apelo aos conservadores

3.4.   Dia 20 de Homero (17.2): recesso de carnaval

3.5.   Dia 27 de Homero (24.2): alguns conceitos elementares de política

4.     Mais Depoimentos Positivistas:

4.1.   Hernani G. Costa (https://www.youtube.com/watch?v=nE0rUqZs52U)

4.2.   Sandra Fernandes (https://www.youtube.com/shorts/6-2pGEmvaNk)

4.3.   Vaida Norvilaite (https://www.youtube.com/watch?v=nWhQ6Z8vB_k e https://www.youtube.com/watch?v=BIU2lvM1oEQ)

5.     Comentário sobre o livro Europa, a via romana, de Rémi Brague (Araçoiaba da Serra (São Paulo), ed. Mnēma, 2023 – mas com primeira edição em francês de 1992)

5.1.   Com grande freqüência, quando se fala na origem do Ocidente, a referência é ao par Jerusalém-Atenas, dando a entender que o Ocidente é cristão

5.1.1. De maneira mais específica, essa concepção dá a entender que o Ocidente é principalmente fruto da teologia cristã

5.1.2. Além disso, concentrando-se na teologia cristã e no par Jerusalém-Atenas, essa concepção desconsidera (ou despreza) a história prévia e é extremamente inábil para incluir a história posterior à Idade Média

5.2.   Entretanto, como sabemos com investigações históricas, sociológicas e filosóficas, o Ocidente surgiu graças à incorporação romana seguida pela civilização católico-feudal:

5.2.1. Roma “fez a guerra para impor os hábitos da paz”, realizando a transição da guerra de conquista para a guerra de defesa

5.2.2. Roma criou uma gigantesca região com uniformidade de hábitos (e hábitos pacíficos)

5.2.3. Roma permitiu a realização da tríplice transição ocidental, com o desenvolvimento da atividade prática (em Roma), antecedido pelo desenvolvimento intelectual (na Grécia) e sucedido pelo desenvolvimento dos sentimentos (na Idade Média, com a civilização católico-feudal)

5.2.4. Roma estabeleceu a subordinação da inteligência à atividade prática, a partir da inspiração dos sentimentos

5.2.5. Roma também estabeleceu a subordinação da vida privada à vida pública

5.2.6. Em termos políticos, o desenvolvimento católico-feudal consistiu na pluralidade de países e na unidade religiosa, além da transição da escravidão rumo ao trabalho livre e da dignificação das mulheres

5.2.7. O aspecto especificamente feudal da Idade Média desenvolveu a coordenação política (na segunda e na terceira fase) e criou o ideal cavalheiresco

5.2.8. A Idade Média desenvolveu os sentimentos por meio da pureza, graças à atuação da sabedoria prática do sacerdócio católico, que tinha que lidar com os graves problemas lógicos, morais, intelectuais e práticos da teologia cristã

5.2.9. O catolicismo em particular foi importante porque foi o instrumento teológico do desenvolvimento afetivo e político, com a síntese que só poderia realizar-se com São Paulo (um cidadão romano de cultura grega e origem judaica)

5.2.9.1.          Importa notar que São Paulo só fez o que fez porque era romano, no sentido forte e profundo de que essa “romanidade” não era um fato casual e secundário, mas uma condição moral e intelectual realmente profunda, em que ele entendeu e absorveu as características da civilização romana que indicamos acima, valeu-se delas e aplicou-as em sua síntese religiosa

5.2.9.2.          Não é por acaso que foi São Paulo quem criou o catolicismo (e que o catolicismo pretende-se, em termos etimológicos, como “universal”): por um lado, nenhum outro apóstolo judeu fez ou pretendeu fazer o que São Paulo fez; por outro lado, São Paulo direcionou sua ação e sua religião para o Império Romano, rompendo com as limitações étnicas do judaísmo

5.3.   Os vários aspectos acima evidenciam, portanto, que a vinculação do Ocidente a Jerusalém e Atenas é um exagero e uma perspectiva agressivamente enviesada e particularista

5.4.   O autor do livro Europa, a via romana, Rémi Blague, é especialista em história romana e medieval, estudando em particular as relações filosóficas entre gregos, judeus e árabes

5.4.1. Com esse livro, o autor pretendia afirmar que, ao contrário da concepção estritamente cristã do Ocidente, Roma teve um papel de certa importância na constituição do Ocidente

5.4.2. Além disso, o autor apresenta algumas reflexões sobre o conceito de “eurocentrismo”, indicando casos em que ele é aceitável como crítica mas, também, inúmeros casos em que ele simplesmente não faz sentido e é errado em vários sentidos

5.5.   Todavia, o autor padece de várias e graves limitações, que no final comprometem de maneira fatal sua pretendida defesa de Roma: (1) apesar de francês, ele mantém-se convictamente integrado ao universo filosófico e moral alemão, com seu caráter antifrancês, de modo que ele é militante da metafísica e do misticismo alemães, ignorando e mesmo desprezando a positividade francesa; (2) além disso, ele é de fato católico (foi interlocutor privilegiado do Papa Bento XVI) e, embora afirme a importância de Roma, ele não a afirma a ponto de minar a centralidade do catolicismo; dessa forma, no final das contas o que ele faz é apenas enfraquecer um pouco a tese da primazia Jerusalém-Atenas, sem de fato pô-la em questão

5.5.1. Essas limitações evidenciam-se, entre outros aspectos, pela apreciação que ele faz de Roma: ele repete a tese (cristã) de que Roma limitou-se a repetir e a disseminar a Grécia e a servir de base para a disseminação do catolicismo; além disso, a única efetiva inovação de Roma seria o Direito (além dos aspectos materiais do império: estradas, aqüedutos etc.)

5.6.   Em suma: apesar do que se propõe, o autor é totalmente incapaz de realizar de verdade sua proposta

5.6.1. Essa incapacidade, ou melhor, esse fracasso é devido totalmente às fontes e às concepções que o autor adota – que, como dissemos, são da metafísica e do misticismo alemães, além da teologia católica

5.6.2. As limitações acima resultam em que o autor ignora, ou melhor, despreza as concepções de Augusto Comte a respeito de Roma – concepções que valorizam de verdade Roma para a constituição do Ocidente e que, por outro lado, diminuem as concepções cristãs sobre a formação e sobre sua própria importância para o Ocidente

5.6.3. O que importa notar na valorização de Roma é, além das contribuições efetivas centrais dessa civilização para a constituição do Ocidente, também a continuidade histórica

5.6.4. Por fim, devemos notar que o Positivismo estabeleceu o Ocidente como “Ocidente”, isto é, como um conjunto histórico, filosófico e moral, no lugar da “cristandade”, que é uma associação baseada em uma teologia passageira

6.     Leitura comentada do Apelo aos conservadores

6.1.   Antes de mais nada, devemos recordar algumas considerações sobre o Apelo:

6.1.1. O Apelo é um manifesto político e dirige-se não a quaisquer pessoas ou grupos, mas a um grupo específico: são os líderes políticos e industriais que tendem para a defesa da ordem (e que tendem para a defesa da ordem até mesmo devido à sua atuação como líderes políticos e industriais), mas que, ao mesmo tempo, reconhecem a necessidade do progresso (a começar pela república): são esses os “conservadores” a que Augusto Comte apela

6.1.2. O Apelo, portanto, adota uma linguagem e um formato adequados ao público a que se dirige

6.1.3. Empregamos a expressão “líderes industriais” no lugar de “líderes econômicos”, por ser mais específica e mais adequada ao Positivismo: a “sociedade industrial” não se refere às manufaturas, mas à atividade pacífica, construtiva, colaborativa, oposta à guerra

6.2.   Outras observações:

6.2.1. Uma versão digitalizada da tradução brasileira desse livro, feita por Miguel Lemos e publicada em 1899, está disponível no Internet Archive: https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores

6.2.2. O capítulo em que estamos é a “Segunda Parte”, cujo subtítulo é “Conduta dos conservadores em relação aos retrógrados”

6.3.   Passemos, então, à leitura comentada do Apelo aos conservadores!

7.     Exortações

7.1.   Sejamos altruístas!

7.2.   Façamos orações!

7.3.   Como Igreja Positivista Virtual, ministramos os sacramentos positivos a quem tem interesse

7.4.   Para apoiar as atividades dos nossos canais e da Igreja Positivista Virtual: façam o Pix da Positividade! (Chave Pix: ApostoladoPositivista@gmail.com)

8.     Término da prédica

 

Referências

- Augusto Comte (franc.), Sistema de filosofia positiva (Paris, Société Positiviste, 5e ed., 1893).

- Augusto Comte (port.), Apelo aos conservadores (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores.

- Augusto Comte (port.), Catecismo positivista (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 4ª ed., 1934).

- Luís Lagarrigue (esp.), A poesia positivista (Santiago do Chile, 1890): https://archive.org/details/luis-lagarrigue-a-poesia-positivista-1890_202509.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), As últimas concepções de Augusto Comte (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-i e https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-ii.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), O ano sem par (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1900): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-o-ano-sem-par-portug._202312/page/n7/mode/2up.

02 dezembro 2025

Apelo aos conservadores: disputas entre os retrógrados

No dia 28 de Frederico de 171 (2.12.2025) realizamos nossa prédica positiva, dando continuidade à leitura comentada do Apelo aos conservadores (em sua Segunda Parte - Conduta dos positivistas em relação aos retrógrados).

A prédica foi transmitida nos canais Positivismo (aqui: https://youtube.com/live/qi31GfDqcxc) e Igreja Positivista Virtual (aqui: https://www.facebook.com/IgrejaPositivistaVirtual/videos/1422426705973535).

As anotações que serviram de base para a exposição oral encontram-se reproduzidas abaixo.

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Leitura comentada do Apelo aos conservadores

(28 de Frederico de 171/2.12.2025) 

1.     Abertura da prédica

2.     Datas e celebrações:

2.1.   Dia 27 de Frederico (1.12): nascimento de Décio Villares (1851 – 174 anos)

2.2.   Dia 1º de Bichat (3.12): início do 13º mês do calendário positivista, dedicado à ciência moderna

2.3.   Dia 3 de Bichat (5.12): transformação de Sofia Bliaux (1861 – 164 anos)

2.4.   Dia 28 de Frederico (2.12): “Dia de Doar”, após a orgia consumista da Black Friday

3.     Leitura comentada do Apelo aos conservadores

3.1.   Antes de mais nada, devemos recordar algumas considerações sobre o Apelo:

3.1.1. O Apelo é um manifesto político e dirige-se não a quaisquer pessoas ou grupos, mas a um grupo específico: são os líderes políticos e industriais que tendem para a defesa da ordem (e que tendem para a defesa da ordem até mesmo devido à sua atuação como líderes políticos e industriais), mas que, ao mesmo tempo, reconhecem a necessidade do progresso (a começar pela república): são esses os “conservadores” a que Augusto Comte apela

3.1.2. O Apelo, portanto, adota uma linguagem e um formato adequados ao público a que se dirige

3.1.3. Empregamos a expressão “líderes industriais” no lugar de “líderes econômicos”, por ser mais específica e mais adequada ao Positivismo: a “sociedade industrial” não se refere às manufaturas, mas à atividade pacífica, construtiva, colaborativa, oposta à guerra

3.2.   Outras observações:

3.2.1. Uma versão digitalizada da tradução brasileira desse livro, feita por Miguel Lemos e publicada em 1899, está disponível no Internet Archive: https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores

3.2.2. O capítulo em que estamos é a “Segunda Parte”, cujo subtítulo é “Conduta dos conservadores em relação aos retrógrados”

3.3.   Passemos, então, à leitura comentada do Apelo aos conservadores!

4.     Exortações

4.1.   Sejamos altruístas!

4.2.   Façamos orações!

4.3.   Como Igreja Positivista Virtual, ministramos os sacramentos positivos a quem tem interesse

4.4.   Para apoiar as atividades dos nossos canais e da Igreja Positivista Virtual: façam o Pix da Positividade! (Chave Pix: ApostoladoPositivista@gmail.com)

5.     Término da prédica

 

Referências

- Augusto Comte (franc.), Sistema de filosofia positiva (Paris, Société Positiviste, 5e ed., 1893).

- Augusto Comte (port.), Apelo aos conservadores (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores.

- Augusto Comte (port.), Catecismo positivista (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 4ª ed., 1934).

- Luís Lagarrigue (esp.), A poesia positivista (Santiago do Chile, 1890): https://archive.org/details/luis-lagarrigue-a-poesia-positivista-1890_202509.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), As últimas concepções de Augusto Comte (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-i e https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-ii.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), O ano sem par (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1900): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-o-ano-sem-par-portug._202312/page/n7/mode/2up.

19 novembro 2025

A República foi só um golpe?

No dia 14 de Frederico de 171 (18.11.2025) realizamos nossa prédica positiva, dando continuidade à leitura comentada do Apelo aos conservadores (começando a "Segunda parte" - "Conduta dos positivistas em relação aos retrógrados").

Em face do feriado da República (11.Frederico/15.11) e, lamentavelmente, da degradação que a experiência republicana e que o conceito de República experimentam no país, comentamos a afirmação difundida de que a Proclamação da República teria sido apenas uma quartelada.

A prédica foi transmitida nos canais Positivismo (aqui: https://youtube.com/live/osoeEk4GO2g) e Igreja Positivista Virtual (aqui: https://www.facebook.com/IgrejaPositivistaVirtual/videos/809950731914001/).

As anotações que serviram de base para a exposição oral encontram-se reproduzidas abaixo.


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Fonte: https://brasiliana.museus.gov.br/acervos/benjamin-constant-botelho-de-magalhaes-6/.


A República foi só um golpe?

(14 de Frederico de 171/18.11.2025) 

1.      Abertura da prédica

2.      Datas e celebrações:

2.1.   Dia 11 de Frederico (15.11): Proclamação da República (1889 – 136 anos)

2.2.   Dia 15 de Frederico (19.11): Dia da Bandeira (1889 – 136 anos)

3.      Leitura comentada do Apelo aos conservadores

3.1.   Antes de mais nada, devemos recordar algumas considerações sobre o Apelo:

3.1.1.     O Apelo é um manifesto político e dirige-se não a quaisquer pessoas ou grupos, mas a um grupo específico: são os líderes políticos e industriais que tendem para a defesa da ordem (e que tendem para a defesa da ordem até mesmo devido à sua atuação como líderes políticos e industriais), mas que, ao mesmo tempo, reconhecem a necessidade do progresso (a começar pela república): são esses os “conservadores” a que Augusto Comte apela

3.1.2.     O Apelo, portanto, adota uma linguagem e um formato adequados ao público a que se dirige

3.1.3.     Empregamos a expressão “líderes industriais” no lugar de “líderes econômicos”, por ser mais específica e mais adequada ao Positivismo: a “sociedade industrial” não se refere às manufaturas, mas à atividade pacífica, construtiva, colaborativa, oposta à guerra

3.2.   Outras observações:

3.2.1.     Uma versão digitalizada da tradução brasileira desse livro, feita por Miguel Lemos e publicada em 1899, está disponível no Internet Archive: https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores

3.2.2.     O capítulo em que estamos é a “Segunda Parte”, cujo subtítulo é “Conduta dos conservadores em relação aos retrógrados”

3.3.   Passemos, então, à leitura comentada do Apelo aos conservadores!

4.      Exortações

4.1.   Sejamos altruístas!

4.2.   Façamos orações!

4.3.   Como Igreja Positivista Virtual, ministramos os sacramentos positivos a quem tem interesse

4.4.   Para apoiar as atividades dos nossos canais e da Igreja Positivista Virtual: façam o Pix da Positividade! (Chave Pix: ApostoladoPositivista@gmail.com)

5.      Celebração da República

5.1.   Faremos a leitura do artiguinho “A República foi apenas um golpe de Estado?”

5.1.1.     Esse artigo foi publicado no Monitor Mercantil em 17.11.2025 e reproduzido em nosso blogue (aqui)

A República foi mesmo só um golpe?

Em diversas colunas anteriores escrevemos a respeito do conceito de república, bem como da importância de recuperarmos a experiência histórica da república no Brasil. Esses esforços não são exercícios academicistas nem a satisfação de vaidade pessoal; bem ao contrário, eles correspondem à necessária e urgente (re)afirmação de conceitos e práticas que condensam os mais generosos e realistas traços, projetos e aspirações sociais e políticas das sociedades contemporâneas. No Brasil – mas, bem vistas as coisas, também no mundo de um modo geral –, a manutenção do mito monarquista, a que se vincula de maneira íntima a também mistificada proposta do parlamentarismo, prejudica a noção de república. A tudo isso se soma a desinformação ao mesmo tempo liberal e marxista, que, com objetivos opostos, coincidem na afirmação reducionista de que o republicanismo seria apenas formalismo jurídico (e burguês), sem caráter social, quando não com caráter antissocial.

Como estamos justamente no período da Proclamação da República no Brasil, todas essas concepções ressurgem de maneira avassaladora. A grande síntese dessa degradação geral da utopia republicana é a afirmação atualmente reiterada urbi et orbi de que a Proclamação, no amanhecer de 15 de novembro de 1889, teria sido meramente um golpe militar. Argumentar os graves erros dessa afirmação não é algo fácil nem, nos dias atuais, muito agradável; mas a autonomia intelectual e moral exige, precisamente, dizer com clareza o que, em determinado momento, não se deseja ouvir, mesmo (ou principalmente) quando quem não quer ouvir são “intelectuais”, bem-pensantes e/ou progressistas. Em outras palavras, bem aqueles que deveriam ser os mais sensíveis e simpáticos ao republicanismo.

O ideal republicano, seja como antimonarquia, seja como espaço de liberdades cívicas e sociais, já era manifestado no Brasil desde o século XVIII, a partir dos poderosos exemplos da independência dos Estados Unidos (1776-1781) e da Revolução Francesa (1789-1799), mas entrando no século XIX, também com a independência de toda a América Espanhola (1808-1829) e, por fim, com a brutal Guerra contra o Paraguai (1864-1870). A República no Brasil foi proposta pelo grande Tiradentes – cuja celebração, aliás, foi feita desde o início tanto pela independência nacional quanto pela república -; depois pela gloriosa Confederação do Equador (1817) e pelos amplos experimentos envolvidos na Revolução Farroupilha (1835-1845), com a República do Piratini e a República Juliana. Se tudo isso não fosse pouco – e não é, na medida em que envolveu amplas camadas sociais, das elites aos pobres e aos escravos, de Norte a Sul do país –, em termos institucionais o Patriarca da Independência, José Bonifácio, preferia a república à monarquia, mas manteve o regime de castas para manter a unidade territorial e, de maneira reveladora, porque o país somente se manteria uno se fosse com base na escravidão – e a escravidão exigia a monarquia. Além disso, no período regencial (1831-1840) vivemos uma experiência republicana verdadeira e legítima, ainda que tumultuada.

O grande marco do republicanismo brasileiro, todavia, foi a Guerra contra o Paraguai, que evidenciou o atraso nacional, representado em particular pela escravidão, pelo imperialismo e, claro, pela própria monarquia. Após décadas de imperialismo e intervencionismo brasileiro na região do Prata, a guerra evidenciou o quanto a monarquia desrespeitava as demais nações; além disso, o sacrifício heróico e voluntário dos soldados paraguaios – que lutavam por sua própria pátria – chocou cada vez mais os brasileiros, que morriam para manter uma sociedade escravista, de castas, mantenedora ativa do atraso. Não foi por acaso que quando a guerra terminou reiniciou-se o republicanismo brasileiro, com a fundação em 1870 do Partido Republicano, em Itu. (Em 2017, em homenagem a esse acontecimento, durante alguns dias o município de Itu foi tornado capital temporária do Brasil, assim como atualmente ocorre com Belém do Pará.)

Para além das propostas e tentativas republicanas, é importante pura e simplesmente afirmar o crescente passivo social e político da monarquia; nesse sentido, não podemos minimizar nem a Guerra contra o Paraguai, nem a escravidão, nem o atraso geral do país. A guerra foi realmente traumática, impondo sacrifícios a toda a população; o regime que, a partir do imperialismo, patrocinou e causou a guerra, merecidamente foi criticado. A partir do exemplo cidadão dos paraguaios, da pressão internacional e do desenvolvimento moral e político interno, a escravidão tornou-se cada vez mais intolerável. Esses fardos sociais e políticos eram mantidos em conjunto e ao custo de um centralismo político brutal; uma política violentamente excludente e corrupta; uma economia atrasada. Tudo isso coroado por uma eventual sucessora do trono que era agressivamente teológica e cujo consorte era um príncipe estrangeiro. E por um imperador que fingia que nada disso ocorria ou que apoiava ativamente esses problemas mas que, ao mesmo tempo, passava seu tempo escrevendo cartas para os sábios europeus e em caríssimas, longas e inúteis viagens internacionais.

Os dois lados da questão – a centenária campanha republicana e o pesado e crescente passivo da monarquia – sempre foram negadas pelos monarquistas brasileiros, sejam os antigos, sejam os recentes; sejam os explícitos, como Eduardo Prado, Oliveira Vianna ou José Murilo de Carvalho, sejam os disfarçados, como Lília Schwarcz ou Carlos Fico. Em diferentes graus e com variadas ênfases, os meios adotados por esses autores são simples e conhecidos: (1) negação da realidade histórica e/ou das virtudes morais e políticas da república; (2) mistificação da monarquia por meio da omissão de todos os problemas indicados acima.

Para que não reste dúvida: desde o século XVIII até a Proclamação da República (e mesmo além), o republicanismo foi proposto de maneira sincera e generosa, como a necessária condição para o desenvolvimento brasileiro, com liberdades civis, políticas e sociais. A campanha republicana, paralelamente à campanha abolicionista, ganhou as ruas e as massas, sendo celebrada na cultura popular (modinhas, literatura, músicas, poemas, contos etc.): em outras palavras, muito longe da mistificação monarquista, o povo não estava alheio nem assistiu como uma besta à Proclamação. 

Opondo-se à opressão e ao autoritarismo monárquico (colonial ou nacional), o que se desejava com a utopia republicana, era – para usar termos atuais – ampliar a esfera pública e o espaço da cidadania no país. Aliás, é importante notar que, como prova tanto da sincera proposta de cidadania dos republicanos quanto da negação crítica dos (cripto)monarquistas, houve políticos e intelectuais que propuseram que o próprio imperador acabasse com a monarquia, proclamasse a república e candidatasse-se a presidente. Essa proposta era a dos positivistas (Miguel Lemos e R. Teixeira Mendes à frente), para que o imperador realizasse ele mesmo a necessária transição do regime; entretanto, como é ao mesmo tempo conveniente, fácil e hipócrita ridicularizar a única proposta que conjugaria a mudança de regime com a alteração pacífica de status quo, a sugestão feita com ampla publicidade e durante anos pelos positivistas é atualmente ignorada ou desprezada pelos historiadores (marxistas, liberais e/ou (cripto)monarquistas), que também criticam o suposto caráter golpista da república. Como se vê, nesse jogo retórico não há qualquer opção em favor da república e a única opção “boa” seria a permanência da monarquia, com o autoritarismo centralizador, a política excludente e de castas com religião oficial de Estado, o atraso social e econômico, o imperialismo externo.

Todas as afirmações acima se baseiam em ampla literatura histórica, sociológica, artística etc. e deixam claro que, pura e simplesmente, é falsa a afirmação corrente de que a Proclamação da República teria sido meramente uma quartelada realizada por oficiais autoritários e sedentos do poder civil, contra uma população alienada. A Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, teve amplo apoio social (civil e militar, das elites às massas, do Norte ao Sul do país), correspondendo tanto a necessidades coletivas urgentes como a anseios profundos: foi um movimento legítimo e em favor das mais generosas, livres e fraternas utopias políticas. 

Em face do desprezo que intelectuais, meios de comunicação e políticos votam hoje à república, não é de estranhar a crise política e social que vivemos e que opõe a ordem ao progresso. Já argumentamos várias vezes: recuperar esses ideais republicanos é uma necessidade atual urgente. 

5.1.2.     Além dos comentários acima, algumas reflexões adicionais podem ser feitas, mas que não couberam no texto do jornal e/ou de que não nos lembramos quando escrevemos o artigo acima:

5.1.2.1.           A respeito da ampla e popular propaganda republicana anterior ao 15 de Novembro, fomos lembrados no Instagram da atividade dos clubes republicanos e de muitos propagandistas civis, como Silva Jardim, além do Catecismo republicano, de Alberto Sales

5.1.2.2.           Benjamin Constant, o grande articulador da República, não queria dar um golpe, da mesma forma que os demais membros do grupo

5.1.2.3.           Benjamin Constant, embora fosse militar e professor na Escola Militar, dava uma orientação resolutamente civilista para o seu ensino – o que, diga-se de passagem, foi duramente combatido nas décadas seguintes pelos mesmos militares que apoiaram ou deram orientações fascistas à atuação dos militares

5.1.2.4.           A referência a Lília Schwarcz não pode ser minimizada: além de autora de inúmeros livros que degradam a República em nome de uma criticidade suspeita e/ou superficial, ela é esposa do dono do grupo editorial Companhia das Letras – e essa empresa, explorando interesses comerciais, tem uma larga produção contrária à República

5.1.2.5.           A preocupação com a legitimidade da República é tão grande e tão séria que esse regime foi submetido a um plebiscito, ou seja, a uma consulta popular

5.1.2.5.1.                Esse plebiscito, ocorrido em 1993, acabou de uma vez por todas as pretensões de retorno à monarquia, embora – com a reveladora exceção de nós, positivistas – não tenha sido aproveitado para uma reflexão sobre o que significa a República

5.1.2.5.2.                Por outro lado, a monarquia jamais se submeteu nem poderia submeter-se, por si só, a uma avaliação popular (na forma de um plebiscito ou não)

5.1.2.6.           Por fim, de qualquer maneira, não podemos esquecer que a degradação do conceito de República anda a par das críticas viperinas contra a I República e que, portanto, é necessário também rejeitar essas críticas contra o regime iniciado em 15 de novembro de 1889, como argumentamos em artigo e em prédica

6.      Término da prédica

 

Referências

- Augusto Comte (franc.), Sistema de filosofia positiva (Paris, Société Positiviste, 5e ed., 1893).

- Augusto Comte (port.), Apelo aos conservadores (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores.

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- Gustavo Biscaia de Lacerda (port.), Prédica positiva “Recuperar e revalorizar a 1ª República” (Igreja Positivista Virtual, Curitiba, 14.Descartes.171/21.10.2025): https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2025/10/recuperar-e-revalorizar-i-republica.html.

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