Mostrando postagens com marcador Trindade Positiva. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Trindade Positiva. Mostrar todas as postagens

02 janeiro 2026

Festa da Humanidade (172/2026): esperança, altruísmo, acolhimento

No dia 1º de Moisés de 172 (1º de janeiro de 2026) celebramos a Festa da Humanidade, a mais importante comemoração possível.

Na celebração, como forma de homenagear a Humanidade e inspirar os seres humanos, sugerimos três coisas:

  1. substituir a raiva, esse sentimento tão disseminado atualmente e que consiste na violência estimulando o instinto destruidor, por algum outro, diretamente atruísta e construtivo: nossa proposta, na falta de melhor opção atual, é o lamento
  2. ao contrário do que os teológicos e os metafísicos afirmam, deixar para trás as noções das divindades não joga o ser humano em uma solidão cósmica: a Humanidade fornece apoio, companhia, conforto permanentes, não somente objetivamente e com seres humanos, mas acima de tudo subjetivamente e com os animais, as plantas e com o planeta Terra de modo geral; 
  3. a Humanidade fornece esperança - e, bem vistas as coisas, a Humanidade é o único ser que pode, realmente, satisfazer as nossas esperanças. 

A celebração foi transmitida nos canais Positivismo (https://youtu.be/sjHUhE3Ftg4?si=jONvWUCk6KXzvc5d) e Igreja Positivista Virtual (Facebook.com/IgrejaPositivistaVirtual/888302053642657).

As anotações que serviram de base para a exposição oral encontram-se reproduzidas abaixo.

*   *   *

Festa da Humanidade

(1º de Moisés de 172/1º de janeiro de 2026) 

1.     Abertura

2.     Retomaremos hoje algumas observações que fizemos ontem, quando realizamos a celebração da Festa Universal dos Mortos

3.     Antes de mais nada, um lembrete e um aviso necessário: a celebração de hoje não é uma prédica, mas é um momento puramente cultual

3.1.   Assim, embora sempre estimulemos a participação ao vivo, hoje isso não será possível, pois não é adequada

4.     No dia de hoje realizamos a celebração anual da festa de todos os seres humanos convergentes, a Festa da Humanidade, que é a mais importante do ano

5.     O calendário não tem por função apenas – na verdade, nem prioritariamente – regular a passagem do tempo, mas regular os cultos religiosos; assim, todos os dias podem e devem ser consagrados a alguma coisa e faz todo o sentido que o dia que inicia o ano seja dedicado à mais importante das celebrações

5.1.   Essa celebração integra ao mesmo tempo um ciclo e um desenvolvimento contínuo

5.1.1. Na verdade, a realidade humana é ao mesmo tempo cíclica e cambiante ao longo do tempo

5.2.   Reconhecer esse duplo caráter não é fácil; mais uma vez: isso gera dificuldades para cada um de nós no dia a dia e mesmo os intelectuais têm grandes problemas para entendê-lo

5.3.   Na verdade, esse duplo aspecto integra a realidade cósmica:

5.3.1. Há fenômenos que se repetem ao longo do tempo: de modo específico e exemplar, os fenômenos astronômicos (os dias, as fases da Lua, os anos, as estações)

5.3.2. Da mesma forma há fenômenos que se desenvolvem ao longo do tempo: de maneira muito clara, aqueles que se acumulam com o tempo, ou seja, as questões históricas (o desenvolvimento da Terra, as mudanças biológicas, a história humana propriamente dita, o desenvolvimento individual)

5.4.   O caráter ao mesmo tempo cíclico e evolutivo da realidade e, por extensão, do ser humano, é consagrado pelo Positivismo nas noções de “Estática” e “Dinâmica” e, considerando a filosofia política, na fórmula “Ordem e Progresso”

5.5.   O desenvolvimento histórico ocorre ao longo do tempo, sendo marcado ao mesmo tempo e necessariamente pelos aspectos cíclicos: daí a necessidade imperiosa de, ao longo de nossas vidas e de nossas histórias, celebrarmos periodicamente alguns valores e algumas concepções – na data da hoje, a Festa da Humanidade

6.     Afirmamos e repetimos hoje que a Festa da Humanidade é a mais importante comemoração do ano: ela celebra o verdadeiro Grão-Ser, ao qual dedicamos e devemos nossas vidas

6.1.   Há muito para falar sobre a Humanidade; em certo sentido, tudo pode e deve ser dito a seu respeito, na medida em que ela resume todos os conhecimentos e, antes, todos os sentimentos e todas as ações humanas

6.2.   Ontem, ao encerrar o ano anterior na Festa Universal dos Mortos, lembramos a subjetividade e demos um pouco de ênfase à gratidão: hoje, ao falarmos da Humanidade, queremos comentar como o lamento é mais altruísta que a raiva e que a Humanidade dá-nos acolhimento e esperança

6.3.   Mas, para isso, temos que nos lembrar de qual a noção de Humanidade

7.     Nosso mestre é muito claro no Catecismo positivista, no qual dedica um capítulo (a segunda conferência) à noção de Humanidade (Catecismo, 2ª Conferência, p. 72-74):

O SACERDOTE — Para o conseguirdes [uma noção mais clara da Humanidade], deveis, minha filha, definir em primeiro lugar a humanidade como o conjunto dos seres humanos, passados, futuros e presentes. Esta palavra conjunto indica-vos bastante que não se deve compreender aí todos os homens, mas só aqueles que são realmente assimiláveis, por efeito de uma verdadeira cooperação na existência comum. Posto que todos nasçam necessariamente filhos da humanidade, nem todos se tornam seus servidores, e muitos permanecem no estado parasitário, que só foi desculpável durante a sua educação. Os tempos anárquicos fazem sobretudo pulular, e demasiadas vezes florescer, esses tristes fardos do verdadeiro Grande Ser. [...]

Vedes assim que, a este como a qualquer outro respeito, a inspiração poética antecedeu muito a sistematização filosófica. Seja como for, se esses parasitas não fazem realmente parte da humanidade, uma justa compensação vos prescreve de agregardes ao novo Ente Supremo todos os seus dignos auxiliares animais. Toda útil cooperação habitual nos destinos humanos, quando exercida voluntariamente, erige o ser correspondente em elemento real dessa existência composta, com um grau de importância proporcional à dignidade da espécie e à eficácia do indivíduo. Para avaliar este complemento indispensável, basta imaginar que ele nos falta. Ninguém hesitará, então, em considerar tais cavalos, cães, bois, etc., como mais estimáveis que certos homens.

Nesta primeira concepção do concurso humano, a atenção volta-se naturalmente para a solidariedade, de preferência à continuidade. Mas, conquanto esta seja a princípio menos sentida, por exigir um exame mais profundo, é a noção dela que deve finalmente prevalecer, porquanto o surto social pouco tarda em depender mais do tempo que do espaço. Não é só hoje que cada homem, esforçando-se por apreciar o que deve aos outros, reconhece uma participação muito maior no conjunto de seus predecessores do que no de seus contemporâneos. Semelhante superioridade manifesta-se em menores proporções nas épocas mais remotas, como o indica o culto comovente que sempre nesses tempos se rendeu aos mortos [...].

Assim, a verdadeira sociabilidade consiste mais na continuidade sucessiva do que na solidariedade atual. Os vivos são sempre, e cada vez mais, governados necessariamente pelos mortos: tal é a lei fundamental da ordem humana.

7.1.   Resumindo de maneira muito grosseira as observações acima, podemos entender a Humanidade como o conjunto dos seres humanos convergentes passados, futuros e presentes, em que há uma realidade subjetiva (os seres humanos mortos e os ainda não nascidos) e uma realidade objetiva (os seres humanos atualmente vivos), em que a continuidade histórica subjetiva é mais importante e relevante que a solidariedade objetiva; além disso, o aspecto de “convergência” refere-se às ações altruístas, construtivas, relativistas etc. É importante indicar que os animais úteis incluem-se na Humanidade e, por vezes, merecem mais essa inclusão que muitos seres humanos

7.1.1. Na medida em que é objetiva e subjetiva, a Humanidade é também um ser abstrato e concreto: ela existe realmente, ela atua de verdade, mas sua existência e sua atividade dependem dos seres humanos concretos, vivos; sua existência e sua atividade tornam-se mais claras em termos subjetivos, isto é, abstratos, quando examinamos essa atuação ao longo do tempo

7.1.2. A idéia de um grande ser que se desenvolve ao longo do tempo e que, ao mesmo tempo, atualiza-se e realiza-se apenas por meio dos seres humanos vivos – uma deusa real que “é filha de seu filho” – exige, necessariamente, um conceito claro e, mais ainda, uma representação física: é por isso que a Humanidade tem um conceito claro e uma imagem igualmente clara

7.1.3. A Humanidade não são as ficções teológicas (politeístas, monoteístas, panteístas, deístas), nem são as abstrações metafísicas (“Natureza”, “Povo”, “Sociedade”, “Raça”, “Classe”, “Patriarcado”), nem é um ser sem rosto e sem forma: a Humanidade é uma deusa verdadeira, real, que existe concretamente mas que depende de seus filhos para manter-se e desenvolver-se; ela não é puramente abstrata, suas qualidades não são atributos arbitrários necessariamente impossíveis de serem verificados e provados; inversamente, ela não é uma abstração genérica sem sede, sem agentes, sem nome, sem representação física; por fim, a Humanidade, ao idealizar todos os nossos melhores traços (a começar pelos nossos aspectos morais), é representada necessariamente por u’a mulher para englobar todos os seres humanos

7.2.   A noção de Humanidade não se esgota nessas características que apresentamos; daqui a pouco veremos outras características tão importantes quanto belas; mas, de qualquer maneira, é importante lembrarmos que a Humanidade realiza os atributos da positividade, da mesma forma que ela constitui o clímax de cada uma das leis dos três estados:

7.2.1. A partir da positividade, a Humanidade é real, útil, certa, precisa, relativa, orgânica e simpática

7.2.2. A partir das leis dos três estados, a Humanidade (1) é positiva (ou seja, é relativa); (2) é pacífica, construtiva, convergente; (3) é universal, tanto no espaço quanto, principalmente, no tempo, nas concepções filosóficas e na fraternidade

8.     A noção de Humanidade orienta-nos claramente para o altruísmo, para o amor e para a paz; mas a nossa época é cada vez mais caracterizada pelas denúncias de crimes, de injustiças, de violências: em tal situação, a resposta mais comum – e é a mais comum porque é a mais difundida e é a mais estimulada – é a raiva em face de tais problemas

8.1.   Ora, como lidar com isso? Isto é, como lidar com a raiva?

8.2.   Em face das injustiças, é muito comum que as crescentes quantidade e intensidade das denúncias contra elas conduzam a um pessimismo generalizado em relação ao ser humano, resultando em que se considera que o ser humano “não prestaria”, ou que as coisas “não teriam salvação” etc.

8.2.1. Em outras palavras, embora nominalmente busquem a melhoria das condições humanas, o fato é que a quantidade e a intensidade das denúncias conduzem, contraditoriamente, à desesperança, o que não faz o menor sentido

8.2.2. O que está em questão aqui, evidentemente, não são as denúncias por si sós: o problema consiste em ficar apenas nas denúncias e não se preocupar com as soluções, pois isso por um lado estimula o pessimismo e, por outro lado, afasta a busca de concepções gerais (logo, de soluções gerais)

8.3.   Associada às denúncias contra as injustiças e resultado direto dessas denúncias, temos o sentimento da raiva, que, segundo a lógica afetiva, torna-se por sua vez o móvel de novas denúncias (bem entendido: denúncias desesperançadas)

8.3.1. Mas a raiva, por mais poderosa que seja – e todos sabemos como ela de fato é poderosa – consiste apenas em uma reação violenta e destruidora em face de alguma situação que consideramos ruim ou problemática; em outras palavras, a raiva é uma reação profunda e violenta do instinto destruidor

8.4.   A raiva e o pessimismo com freqüência andam de mãos dadas e retroalimentam-se, da mesma forma que eles afastam a serenidade e a esperança; aliás, a raiva, em particular, sendo a manifestação (1) violenta do (2) instinto egoísta destruidor, afasta também o altruísmo e o amor

9.     O que propomos aqui é que, em vez de estimularmos e promovermos a raiva, em vez de propormos a raiva como o sentimento fundamental ante situações que julgamos ruins, degradantes, injustas etc., procuremos sentimentos que sejam ao mesmo tempo diretamente altruístas e que reconheçam o aspecto problemático das situações que denunciamos

9.1.   Neste momento, propomos então o lamento no lugar da raiva

9.1.1. Eu sugiro aqui o lamento porque é o sentimento que me vem à mente agora; entretanto, tenho clareza de que ele tem, ou pode ter, um déficit de energia e que, portanto, talvez outro sentimento seja mais adequado para ser proposto: estou ansiosamente aberto a sugestões

9.2.   É certo que a raiva conduz-nos diretamente para a ação, ou seja, tem um aspecto ativo muito evidente, ao passo que o lamento tem um aspecto mais passivo; isso nos parece realmente uma dificuldade, ainda que não seja uma dificuldade insuperável

9.3.   Mas, de qualquer maneira, a questão que nos parece central aqui é que, embora seja extremamente ativa, o ativismo próprio à raiva não compensa a violência que ela mobiliza, nem a destruição que ela busca realizar; em outras palavras, os aspectos negativos da raiva superam muito os seus aspectos positivos

9.4.   Mantendo o lamento como uma sugestão (portanto, com um caráter provisório), o fato é que o lamento reconhece as injustiças, os problemas, as situações degradantes, mas não conduz à violência nem nos submerge no egoísmo destruidor: o lamento é o altruísmo mantendo-se altruísta e reconhecendo uma situação injusta e que deve mudar

9.5.   O lamento apresenta um outro aspecto importante, ao rejeitar a violência e a destruição: ele mantém a esperança – a esperança de que as coisas podem melhorar e a esperança de que as coisas têm condições reais de melhorarem

9.6.   A substituição da raiva como sentimento padrão em face dos problemas que vivemos por sentimentos realmente altruístas não é algo secundário: na verdade, é uma necessidade urgente, em vista do altruísmo, da paz, da fraternidade, da esperança

10.   Falamos em esperança: a única verdadeira esperança que podemos ter é a dada pela Humanidade

10.1.               A Humanidade dá-nos esperança de múltiplas formas:

10.1.1.   Ao ser a única e verdadeira providência humana, ou seja, o único e verdadeiro ser que realiza as coisas e que, portanto, é capaz de melhorar as coisas

10.1.2.   Ao definir-se pelo altruísmo, pela paz, pela fraternidade, pela realidade e pela utilidade, ou seja, ao dispor dos meios e dos sentimentos capazes de melhorar as coisas

10.1.3.   Ao afirmar sempre, com clareza, que os melhoramentos são sempre, antes de mais nada, melhoramentos morais, depois intelectuais e somente por fim melhoramentos materiais/físicos (ou seja, melhoramentos do amor, da ordem e do progresso)

10.1.4.   Ao evidenciar que, por mais problemática que com freqüência seja a existência humana, o progresso ocorre de verdade e que, ao longo do tempo, nossos antepassados legaram-nos melhoramentos efetivos, que podem e devem ser agora e sempre utilizados, aprofundados e ampliados

10.2.               A metafísica dissolvente, o pessimismo próprio ao denuncismo incessante, a violência destruidora própria à raiva – tudo isso converge de maneira tão intensa no mundo atual que mesmo pessoas que se dizem positivistas, ou que estão na órbita do Positivismo, muitas vezes repetem esse pessimismo e são incapazes de entender e de sentir a efetividade da esperança dada pela Humanidade

11.   Se falamos da esperança no sentido de correção de injustiças, a Humanidade também nos dá esperança em outro sentido: não vivemos sozinhos no mundo

11.1.               O espírito metafísico, sendo a negação da teologia, considera que a existência humana começa e termina ao tratar das divindades; da mesma forma, a metafísica, ao negar os deuses, consegue apenas afirmar o individualismo egoísta e/ou afirmar uma “solidão cósmica

11.1.1.   Só o fato de limitar-se à teologia evidencia o quanto a metafísica é restrita e superficial; entretanto, infelizmente, como já indicamos em muitas vezes anteriores, a nossa época é profundamente metafísica (em particular devido à influência daninha dos Estados Unidos e, de modo geral, dos protestantismos), de modo que a crítica à teologia mantém como resultados o individualismo, a anarquia e/ou a “solidão cósmica”

11.1.2.   Essas três conclusões metafísicas da crítica à teologia (individualismo, anarquia, solidão cósmica), que não esgotam as possibilidades metafísicas, são bastante claras nos ambientes anglossaxões, como Nietzsche e Max Weber exemplificam de maneira gritante (o que, aliás, é mais que motivo para deixar-se de lado tais autores)

12.   Afirmamos há pouco que a noção de Humanidade é esperançosa: como dissemos, não se trata apenas da esperança de melhorias, mas de esperança também no sentido de conforto, ou melhor, de acolhimento; em outras palavras, com a Humanidade os vícios morais, intelectuais e práticos decorrentes da metafísica não se verificam

12.1.               Sem nos determos nos vícios do individualismo e da anarquia, podemos perguntar com clareza: como é possível falarmos em “solidão cósmica”, em “isolamento”, em falta de apoio, quando, na, pela e com a Humanidade todos nós vivemos em meio aos outros seres humanos, que nos dão apoio, conforto, estímulo? Como podemos com sinceridade falar em “solidão” quando vivemos cercados da memória constante dos mortos?

12.2.               O sentido positivo da religião já deixa claro que não somos nunca sozinhos, mesmo que estejamos eventualmente isolados: a religião é o religare, é o “religar”, é o ligar duas vezes – ligar-nos internamente pelo amor, ligar-nos externamente pela fé

12.3.               A Humanidade, como vimos antes, é acima de tudo os mortos e quem ainda não nasceu; assim, a Humanidade é acima de tudo subjetiva: como é possível estarmos subjetivamente sozinhos, em solidão, se subjetivamente estamos cercados de fraternidade, de apoio, de afeto?

12.3.1.   Nesse sentido, por exemplo, a oração positiva é um instrumento poderosíssimo para relacionar-nos uns aos outros: os nossos anjos da guarda estão sempre conosco, enriquecendo, aquecendo e melhorando nossas vidas

12.4.               Mas a Humanidade não é somente os seres humanos: ela incorpora necessariamente também os animais úteis, muitos dos quais se sacrificam por nós, além dos animais domésticos: quem pode dizer, com sinceridade, que o seu cão de estimação, ou seu gato, ou seu papagaio, ou até seu cavalo ou porco, não faz parte da família? Apenas de maneira arbitrária, cruel e irracional rompem-se os vínculos que ligam o ser humano ao conjunto dos seres vivos; apenas de maneira arbitrária, cruel e irracional os teológicos, mas também muitos metafísicos, afirmam que só o ser humano é “racional”, é “verdadeiramente sociável”, que o planeta Terra é para usufruto exclusivo dos humanos

12.5.               A Humanidade, na generosa e genial elaboração de nosso mestre, amplia-se radicalmente, ao estabelecer o neofetichismo, no qual a síntese inicial é incorporada à síntese final

12.5.1.   Com o neofetichismo foi possível a nosso mestre estabelecer a Trindade Positiva, ultrapassando de maneira radical os desrespeitos teológico-metafísicos pelo planeta e por nossa existência; com a Trindade Positiva, o ser humano finalmente voltou a viver em um ambiente terno, aconchegante, afetivo, no qual a luta pela existência, embora ainda exista, torna-se subjetivamente menos dura e, ao mesmo tempo, mais recompensadora

12.5.2.   A Trindade Positiva é composta pelas seguintes entidades: o Grão-Meio, o Espaço, que é apenas afetivo e no qual têm lugar os fenômenos naturais abstratos; o Grão-Fetiche, a Terra, caracterizada pelos sentimentos e pela atividade, mas não pela inteligência, na qual nossas existências têm lugar e ao qual devemos diversos cultos; por fim e acima de tudo, o Grão-Ser, a Humanidade, dotada de sentimentos, atividade e inteligência, capaz de orientar sua ação com vistas à melhoria da realidade

13.   Na Festa da Humanidade, em meio a tantas possíveis homenagens e reflexões, creio que as duas que apresentei – o abandono da raiva como sentimento-padrão e a afirmação do caráter aconchegante do Grande Ser – permitem entendermos e valorizarmos um pouco mais e melhor a nossa deusa verdadeira

14.   Para terminar estas reflexões, recitaremos um belo poema de Generino dos Santos, Ato de fé positivista 

*   *   * 

ATO DE FÉ POSITIVISTA 

Credo quia demonstrandum[1]. 

Creio em Ti, Grande Ser, Mãe carinhosa,

Que, em teu fecundo seio imaculado,

Engendraste o presente do passado

Conformado o porvir que Te endeusa.

 

             Tudo que sou, t’o devo – És bondadosa

Providência Moral que me há guiado;

Pois, sem Ti, todo amor fora pecado,

Toda ciência egoística e vaidosa;

 

             Eu que, outrora, sem Ti, lutava a esmo,

Por Ti me agito – e teu sofrer partilho,

Partilho teu destino afortunado.

 

Ó Virgem Mãe! Ó Filha do teu Filho!

Que eu ame mais a Ti do que a mim mesmo,

E nem a mim, senão por ter-Te amado! 

*   *   * 

15.   Término



[1]Creio porque pode ser demonstrado”. 

06 junho 2024

Do antropocentrismo teológico ao antropocentrismo positivo

No dia 16 de São Paulo de 170 (4.6.2024) realizamos nossa prédica positiva, dando continuidade à leitura comentada do Catecismo positivista, em sua undécima conferência (dedicada ao regime público).

No sermão abordamos os conceitos de antropocentrismo, indicando em particular a passagem das concepções antropocêntricas teológicas para a positiva.

A prédica foi transmitida nos canais Positivismo (aqui: https://l1nq.com/pYrMT) e Igreja Positivista Virtual (aqui: https://acesse.one/ONHAK).

O sermão iniciou-se em 1h 00 min 42 s.

As anotações que serviram de base para a exposição oral encontram-se reproduzidas abaixo.

*   *   *


Do antropocentrismo teológico ao antropocentrismo positivo 

-        A prédica de hoje abordará um tema por assim dizer “transversal”, que é a concepção que temos do ser humano no mundo

o   A reflexão sobre isso em si mesma é relativamente simples, mas, em todo caso, ela é plena de conseqüências e, mais importante, ela costuma ser mais implícita que explícita

§  Assim, vale a pena refletirmos explicitamente sobre isso e examinarmos algumas dessas conseqüências

o   Mesmo para quem não conhece muito o Positivismo parece bastante claro que Augusto Comte propôs um novo, ou um renovado, antropocentrismo; assim, esse tema é realmente importante

o   Além disso, a noção – ou melhor, uma determinada noção – de antropocentrismo foi recentemente retomada e criticada

§  Como veremos, essa retomada foi feita pela igreja católica, pelo Papa Francisco, em 2015

-        Comecemos pelo início: antes de mais nada, o que é o antropocentrismo?

o   De uma forma bem simples e direta, o antropocentrismo consiste em considerar que o ser humano é o centro ou está no centro de alguma concepção

o   Mas é necessário definir os parâmetros de tal centralidade:

§  O ser humano é o centro efetivamente do quê: das reflexões, do Universo...?

§  Também é necessário determinar se essa centralidade é entendida em termos objetivos ou subjetivos

§  Por fim, é necessário determinar em quais âmbitos tal centralidade atua principal ou primeiramente: moral, intelectual, prático

-        Utilizando esses parâmetros e aplicando-os à história da humanidade, vemos que de modo geral o antropocentrismo sempre esteve em vigorpelo menos em termos morais e subjetivos

o   No fetichismo, o ser humano não é entendido objetivamente como o centro do universo, além de não se adotar um antropocentrismo prático; mas como no fetichismo o ser humano atribui a todos os corpos – animados ou inanimados – as mesmas qualidades morais e intelectuais próprias ao ser humano, o que há é um antropocentrismo “epistemológico”, em que a natureza humana é disseminada e, daí, o ser humano não é exatamente o centro da existência

§  Uma conseqüência dessa “generalização do ser humano” e do entendimento de que tudo é dotado da afetividade e da inteligência humanas é que os seres humanos tendem a respeitar as coisas e o meio ambiente

§  Augusto Comte observava que o fetichismo é espontâneo e até ingênuo; assim, esse antropocentrismo epistemológico é altamente implícito

o   Com a passagem do fetichismo para a teologia propriamente dita, o tipo humano é claramente eleito como o parâmetro de avaliação e de entendimento do mundo; ao mesmo tempo, como o movimento do mundo passa a ser causado pela vontade dos deuses, os corpos naturais passam a ser entendidos como desprovidos de movimento e, para o que nos interessa, também deixam de compartilhar conosco nossa afetividade e nossa inteligência

§  No politeísmo o ser humano é o centro da existência, seja porque, no âmbito da narrativa teológica, considera que o ser humano foi feito pelos deuses à sua semelhança, seja porque, em termos sociológicos, os deuses refletem – em graus pronunciados e sem controle – os traços da natureza humana e nossas atividades

·         No politeísmo o mundo é entendido como estando em interação com o ser humano; nós somos centrais, mas disso não se segue que devamos acabar com os recursos naturais – aliás, não há nem mesmo as condições técnicas e sociais para isso

o   Evidentemente, em diversos momentos ocorreram esgotamentos locais de recursos naturais, como nos casos de esgotamentos de minas, devastações de florestas ou esgotamento de solos

o   Tais esgotamentos locais deveram-se à finitude dos recursos (minas), à imprevidência (florestas) ou à ignorância das leis naturais (solos)

·         Vale lembrar que, claro, há vários politeísmos: os mesopotâmicos, o egípcio, o hindu, o grego, o romano e muitos outros

o   Nossa reflexão concentra-se na Grécia e em Roma

·         A centralidade moral e prática do ser humano no antropocentrismo politeísta apresenta-se com clareza na fórmula de Terêncio: “Homo sum; humani nil a me alienum puto” (“Sou humano, nada do que é humano me é estranho”)

·         Do ponto de vista intelectual, o politeísmo pode permitir um afastamento do antropocentrismo, no sentido da objetividade: as pesquisas científicas gregas ilustram bem isso, como comprovam os cálculos de Eratóstenes sobre a medida da circunferência da Terra (e, antes, também sobre o caráter esférico da Terra)

·         Disso resulta que no politeísmo o antropocentrismo basicamente é implícito, mas às vezes pode tornar-se explícito e até ser posto de lado

·         Vale notar que esse “pôr de lado” o antropocentrismo corresponde ao desenvolvimento do método objetivo

§  No monoteísmo o antropocentrismo curiosamente assume um grau máximo

·         Antes de mais nada: consideramos que, basicamente, há três monoteísmos (judaico, católico, islâmico)

o   Nossas reflexões concentrar-se-ão no catolicismo

·         Esse antropocentrismo, todavia, é tanto subjetivo quanto, principalmente, objetivo: atribui-se ao ser humano a centralidade do Universo, no sentido de que o Universo foi criado por uma divindade objetiva para usufruto humano

·         Assim, no monoteísmo, o antropocentrismo é fortemente implícito e atua nos âmbitos moral, intelectual e prático; além disso, ele é entendido como objetivo

·         Como, a partir da Bíblia, considera-se que a Terra foi feita para o ser humano, a conseqüência é que os recursos naturais podem ser utilizados à vontade, sem limitações

o   A noção de “esgotamento dos recursos” (além de não ocorrer com facilidade na prática) não se apresenta por definição, na medida em que a divindade provê ao ser humano tudo de que ele precisa

o   Além disso, também se considera que, no caso do esgotamento dos recursos e/ou dos desastres naturais, essas adversidades correspondem à vontade divina, seja porque a divindade “escreve reto por linhas tortas”, seja porque se trata de punições por algum pecado

·         Esse antropocentrismo objetivo também separa radicalmente o ser humano do resto dos animais (somente o ser humano teria “alma”) e considera que, literalmente, o ser humano é o centro do Universo (concepção geocêntrica)

o   Saindo da teologia e considerando o desenvolvimento do espírito positivo, este implica diversas mudanças, cujo resultado geral vai na direção do relativismo, do pacifismo e da noção de Humanidade

§  Esse desenvolvimento, como sabemos, com freqüência deu-se por meio da crítica destrutiva das concepções e da sensibilidade teológica – e, portanto, com o rompimento e a crítica dos antropocentrismos próprios à teologia

§  As centralidades moral e prática do ser humano permanecem constantes

§  Já a centralidade intelectual do ser humano sofre sucessivos abalos, na medida em que a postulação de que o Universo e a Terra foram criados exclusivamente para o ser humano é criticada

·         Como notava Augusto Comte, a hipótese heliocêntrica de Copérnico desferiu no século XVI o mais duro e mortal golpe contra esse antropocentrismo teológico

o   Quase como um jogo de dominó, a partir do heliocentrismo (por mais que ele teórica e empiricamente seja errado) todas as concepções teológicas ruíram

o   Não por acaso Galileu foi perseguido pela Igreja Católica: os inquisidores, especialmente os jesuítas, perceberam com clareza que a hipótese heliocêntrica, esposada por Galileu (aliás, propositalmente de maneira ruidosa) não era apenas uma hipótese científica, mas que tinha amplas e devastadoras conseqüências intelectuais e morais para a teologia e, por extensão, para a própria Igreja

·         A outra série de críticas ao dogma teológico foi desferida no âmbito biológico, referente à natureza humana

·         A noção de que apenas o ser humano tem “alma” foi duplamente destruída pelas pesquisas biológicas e “neurocientíficas” de Bichat e Gall-Spurzheim, na passagem do século XVIII para o XIX, quando eles desenvolveram uma teoria unificada da vida, indicaram que a “alma” é o conjunto das funções cerebrais e que os animais possuem essas funções tanto quanto o ser humano (apenas com importantes diferenças de grau)

o   Vale notar que, embora em si mesma a teoria de Darwin tenha contribuído bem pouco para esse desenvolvimento científico, a fortíssima resistência que ele enfrentou na Inglaterra vitoriana indica o quanto ainda a teologia era forte naquele país e o evidente estrago que o antropocentrismo teológico sofreria com essas concepções

·         A rejeição do antropocentrismo teológico implícito passou a dar lugar a um antropocentrismo positivante explícito, como as artes do chamado Renascimento indicam: pensemos na cena da Capela Sixtina pintada por Miquelângelo e no desenho do “Homem Vitruviano”, de Leonardo da Vinci

o   Considerando diretamente a ciência: em si mesma, ela tende a rejeitar o antropocentrismo, em nome de uma objetividade naturalizante

§  A rejeição cientificista do antropocentrismo segue o impulso do desenvolvimento das ciências inferiores (ou seja, das chamadas “ciências naturais”) e do método objetivo, em que de fato é necessário que se examinem as coisas como elas são e não como gostaríamos que elas fossem

§  Esse objetivismo baseia-se, sem dúvida, em necessidades intelectuais imperiosas, mas ao mesmo tempo estimula tendências muito daninhas

·         Por um lado, esse objetivismo que rejeita o antropocentrismo é a idéia da “ciência neutra”, ou da “ciência sem valores”

·         Por outro lado, ao necessário afastamento do antropocentrismo teológico uniu-se um espírito crítico, destruidor, anti-histórico e antifilosófico, que postula que qualquer antropocentrismo seria necessariamente do tipo teológico

·         Além disso, exagerando não a duração da destruição, mas, sim, a necessidade de objetividade, há muitos que consideram que a ciência tem que ser neutra, não pode ter valores etc.

o   Esse erro verifica-se mesmo nas ciências superiores, ou seja, na Sociologia (Durkheim, Weber) e na “Psicologia” (B. Skinner)

·         Uma outra forma de verificar-se a recusa do antropocentrismo nas ciências é o impulso “antissocial”, no sentido de que se busca uma ciência despreocupada de sua utilidade

o   Esse caráter “antissocial” da ciência verifica-se nas postulações de uma ciência “pura”; solidifica-se na famosa “torre de marfim”; é comprovada pelas reiteradas cobranças de que os projetos de pesquisa têm que indicar a... sua utilidade social

o   O resultado disso tudo é que, contemporaneamente, conforme o caráter anárquico da nossa época (ou seja, sem um parâmetro geral dominante), convivem parâmetros opostos, contraditórios e incoerentes de antropocentrismo, às vezes afirmando o seu viés teológico, às vezes recusando qualquer antropocentrismo em nome da objetividade etc. etc.

-        Após essa breve retrospectiva histórico-filosófica, passemos diretamente para o Positivismo: o Positivismo claramente restabelece o antropocentrismo em termos morais, intelectuais e práticos

o   Esse renovado, ou novo, antropocentrismo positivista é explícito mas é subjetivo

§  Na verdade, é um antropocentrismo inicialmente explícito que, sendo adotado como parâmetro, logo e propositalmente se converte em implícito

§  A subjetividade do antropocentrismo positivista é dupla: por um lado, assumimos que o ser humano é o centro da realidade em termos intelectuais e morais; por outro lado, reconhecemos que, sendo nós humanos, temos necessariamente que ser o centro de nossas atenções

o   A subjetividade do antropocentrismo positivista significa também que ele não é objetivo (como é o antropocentrismo teológico); em outras palavras, reconhecemos que não somos donos do planeta, nem que o mundo (e o meio ambiente) existem apenas para nós

o   Portanto, o antropocentrismo positivista é relativo: nós reconhecemos e afirmamos nossas limitações e a necessidade de vincular o ser humano a inúmeros outros aspectos da realidade

§  Nós reconhecemos e valorizamos a frase de Francis Bacon: nós modificamos a natureza submetendo-nos a ela

o   Desenvolvendo e aprofundando o subjetivismo e o relativismo do antropocentrismo positivista, Augusto Comte afirmou que seria necessário que o positivismo final incluísse conscientemente o fetichismo inicial

§  Com a incorporação do fetichismo no Positivismo, ao mesmo tempo desenvolvemos mais e melhor nossos sentimentos, regulamos nossos pensamentos e aperfeiçoamos nossas atividades

§  A incorporação do fetichismo permitiu a elaboração da Trindade Positiva, que é composta pelo Grão Meio (o Espaço), o Grão Fetiche (a Terra) e o Grão Ser (a Humanidade)

§  Cumpre lembrar que a noção de Humanidade implica, necessariamente, também a participação dos animais úteis (em particular os domésticos)

·         Assim, o antropocentrismo positivo, além de ser subjetivo e relativo, é não exclusivista, na medida em que reconhecemos e valorizamos inúmeros outros âmbitos da realidade além do próprio ser humano

o   O antropocentrismo positivista fica evidente na expressão “Religião da Humanidade” e, como vimos acima, no conjunto das nossas concepções

o   Além disso, o antropocentrismo positivista condensa-se no “método subjetivo”, que consiste precisamente na aplicação de parâmetros humanos (relativos, subjetivos, altruístas) ao conjunto de nossa existência (moral, intelectual, prática – ou seja: sentimentos, filosofia, ciência, arte, política, economia, relações familiares, relações profissionais, relações gerais)

-        Podemos passar agora para uma outra ordem de considerações, relativa a uma passagem concreta mas altamente implícita, do antropocentrismo teológico para o antropocentrismo positivo

o   Isso se deu em uma encíclica do atual papa, Francisco, intitulada Laudato Si’, de 2015

o   Francisco afirma que é necessário abandonarmos os vícios do “antropocentrismo” e da “tecnocracia” e adotarmos uma “ecologia integral”

§  No pólo positivo, a “ecologia integral” significa o respeito ao meio ambiente, à flora, à fauna e também aos povos indígenas

§  No pólo negativo, o “antropocentrismo” e a “tecnocracia” correspondem à idéia de que o ser humano é dono do universo e que pode, com o uso da tecnologia, destruir o meio ambiente e esgotar os recursos naturais; a tecnocracia também significa o capitalismo e os cálculos que desprezam a realidade e consideram que tudo (seres humanos, meio ambiente) são apenas insumos para serem manipulados com vistas ao lucro

o   Essa proposta de Francisco é absolutamente inovadora; por assim dizer, é o primeiro manifesto ecológico da Igreja Católica

§  Não por acaso o jesuíta Jorge Mario Bergoglio escolheu Francisco de Assis como seu patrono

§  Isso é de uma importância suprema, em particular quando se nota que, com esse tipo de pregação, Francisco afirma o papado em sua função de poder espiritual, isto é, de educador e conselheiro

·         Seguindo a orientação católica, Francisco definiu os crimes ambientais como pecados

o   Ao mesmo tempo, além do ineditismo da proposta, vale notar que Francisco exorta a Igreja, na prática, a repudiar a concepção de mundo que orientou a existência da própria igreja em seus 1.700 anos

§  Essa concepção, vigente entre os católicos até há dez anos, é a que prevalece entre inúmeros grupos protestantes e que, assim, ajuda a apoiar o negacionismo climático, as devastações de florestas etc., no Brasil, nos Estados Unidos e em outros lugares

o   Entretanto, devemos notar que, se os traços gerais da proposta de Francisco são totalmente admiráveis e respeitáveis, os termos específicos que ele escolheu são bastante ruins:

§  A “ecologia integral” é uma expressão que impressiona e que evidencia e propõe com clareza o respeito a fauna, flora e povos indígenas, mas, no final das contas, é uma concepção meramente científica, ou melhor, cientificista, sem caráter moral e que propositalmente deixa de lado o papel do ser humano – incluindo aí a solução dos problemas ambientais que põem em xeque a sobrevivência do ser humano

·         Se tiver algum sentido que ultrapasse o cientificismo, a “ecologia integral” acaba assumindo um aspecto necessariamente abstrato e vago, ou seja, místico

o   A igreja católica, seguindo o caráter do seu dogma, considera que o misticismo é algo bom – o que, evidentemente, prejudica bastante suas concepções e sugere, mais uma vez, a necessidade de ultrapassar e deixar de lado a teologia, seu absolutismo e sua vagueza

§  Por outro lado, as palavras “antropocentrismo” e “tecnocracia” têm múltiplos sentidos:

·         De fato, há a crítica ao antropocentrismo teológico e à exploração capitalista do mundo

·         Mas a referência ao antropocentrismo refere-se diretamente ao ser humano, ou seja, é uma crítica ao humanismo

o   Não há como diminuir o erro, a má vontade, a má fé dessa crítica intencional e inequívoca

·         Além de criticar o humanismo e o ser humano, a igreja católica critica o antropocentrismo em geral e com isso finge que a concepção que critica não é o antropocentrismo teológico, defendido pela própria igreja e pelo monoteísmo cristão

o   Insistamos: a encíclica omite, proposital e conscientemente, o fato de que é o antropocentrismo teológico que deve ser duramente criticado, rejeitado e superado (e, como vimos antes, superado em favor de um renovado antropocentrismo, de caráter positivo)

o   Além disso, a despeito da crítica venenosa feita ao “antropocentrismo”, a encíclica propositalmente não reconhece que a concepção que ela defende, na verdade, é a concepção humanista, subjetiva, relativa e altruísta, ou seja, é a concepção positivista

·         Da mesma forma, a referência crítica e genérica ao antropocentrismo e à “tecnocracia” implica também uma crítica à secularização, ou melhor, à positivação do mundo, realizada em parte importante pelos conhecimentos técnico-científicos

·         Assim, ao usar as expressões “antropocentrismo” e “tecnocracia”, o que Francisco deseja fazer, no fundo, é criticar a decadência irrevogável da teologia, a afirmação da Humanidade e o papel da ciência nesse processo – e, pior, vincula-os à exploração da natureza e do ser humano

-        Em suma:

o   O antropocentrismo considera que o ser humano é o centro das concepções

o   Ao longo da história, o ser humano sempre foi o centro moral e intelectual de suas concepções, em termos subjetivos e de maneira pelo menos implícita

o   Há concepções objetivistas do antropocentrismo:

§  Em um gênero delas, considera-se o ser humano como o centro do Universo, dando uma suposta permissão para a destruição do meio ambiente: esse é o caso do antropocentrismo teológico

§  Um outro gênero de objetivismo é afirmado pela ciência: embora ela tenha-se constituído seguindo o desenvolvimento do método objetivo, a afirmação exagerada e “acrítica” da objetividade conduz a propostas de uma ciência “neutra” e “sem valores”, além da ciência despreocupada de fins sociais – tudo isso em nome da rejeição do antropocentrismo, em que se subentende ao mesmo tempo que o antropocentrismo é subjetivista (portanto, seria arbitrário e incoerente) e que todo antropocentrismo seria teológico

o   É imperativo afirmar um renovado, ou um novo, antropocentrismo, necessariamente subjetivo, altruísta, relativo – ou seja, trata-se precisamente da proposta positivista, corporificada na Religião da Humanidade e no método subjetivo

o   A igreja católica recentemente rejeitou uma das conseqüências nefastas do seu antropocentrismo teológico, ao afirmar que o meio ambiente não existe para ser explorado, esgotado e desprezado pelo ser humano

§  Entretanto, embora tenha criticado algumas das conseqüências nefastas do seu antropocentrismo teológico, na encíclica Laudato Si’ a igreja católica omite o fato de que essas conseqüências derivam precisamente de suas concepções fundamentais

§  Ao mesmo tempo, a igreja católica atribui ao antropocentrismo em geral, ou seja, em seu esquema mental, ela atribui às concepções humanistas e positivas a origem dos problemas que critica

§  Em outras palavras: os problemas criticados pela igreja católica são corretamente criticados; mas a origem desses problemas a igreja finge que não é culpa dela mesma e da teologia, atribuindo essa responsabilidade a quem busca de fato evitá-los e resolvê-los