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07 outubro 2026

As teorias da conspiração

No dia 27 de Shakespeare de 172 (6.10.2026) realizamos nossa prédica positiva, dando continuidade à leitura comentada do Apelo aos conservadores (em sua "Conclusão - missão peculiar aos verdadeiros conservadores").

No sermão abordamos as teorias da conspiração à luz do Positivismo.


As anotações que serviram de base para a exposição oral encontram-se reproduzidas abaixo.

*   *   *

Teorias da conspiração

(27 de Shakespeare de 172/6.10.2026) 

1.     Abertura da prédica

2.     Datas e celebrações

2.1.   Dia 22 de Shakespeare (1º.10): nascimento de José Lonchampt (1825 – 201 anos)

2.2.   Dia 1º de Descartes (8.10): festa de Clotilde e Augusto Comte (8.10.1844 – 182 anos)

2.3.   Dia 2 de Descartes (9.10): transformação de Afrânio Capelli (2009 – 17 anos)

2.4.   Dia 3 de Descartes (10.10): nascimento de Paulo Carneiro (1901 – 125 anos)

2.5.   Dia 3 de Descartes (10.10): transformação de David Carneiro, Jr. (1997 – 29 anos)

2.6.   Mês de Descartes (8.10 a 4.11): undécimo mês, referente à filosofia moderna

3.     Apóiem a Igreja Positivista Virtual!

3.1.   Colaborem com o que puderem; com boa fé e boa vontade, toda e qualquer colaboração é necessária e bem-vinda!

3.1.1. Inscrevam-se no canal, compartilhem, divulguem nossas atividades!

3.2.   Para apoiar as atividades dos nossos canais e da Igreja Positivista Virtual: façam o Pix da Positividade! (Chave Pix: ApostoladoPositivista@gmail.com)

4.     Leitura comentada do Apelo aos conservadores

5.     Espiritualidade positiva

5.1.   Esta talvez seja a seção mais importante das prédicas!

5.2.   Sejamos altruístas!

5.2.1. Sejamos generosos, tolerantes etc.

5.2.2. Devemos orientar toda a nossa vida pelo altruísmo: quando o altruísmo regula e orienta a vida, o resultado é que o altruísmo (a dedicação para os demais) e o egoísmo (a satisfação das necessidades pessoais) não são incompatíveis, pois só o altruísmo permite unir o bem comum à felicidade pessoal

5.3.   Façamos orações!

5.3.1. A oração positiva é a base do culto íntimo; assim, é tanto a base do aperfeiçoamento pessoal quanto da espiritualidade positiva de modo geral

5.4.   Como Igreja Positivista Virtual, ministramos os sacramentos positivos a quem tem interesse

5.4.1. Em um total de nove, os sacramentos são a celebração de momentos centrais na vida de todos nós – momentos que devem ser celebrados, afirmados, compartilhados (o nascimento/a adoção, o casamento, a aposentadoria, a transformação (a morte) etc.)

6.     Sermão: comentários sobre as teorias da conspiração

6.1.   Os comentários que farei neste sermão não são nem pretender ser exaustivos; são apenas alguns apontamentos que faço a partir do Positivismo, considerando uma pequena conversa que tive com Sandra Fernandes no dia 29.9.2026

6.1.1. As anotações abaixo se baseiam em leituras diversas e esparsas, em reflexões pessoais e, claro, no estudo e na aplicação do Positivismo

6.2.   Eis o diálogo havido em 29.9.2026, entre Sandra Fernandes e um seu amigo dela

 

 

6.2.1. A postagem – em sua afirmação de que o candidato Lula estaria na verdade morto e que a pessoa que se apresenta como ele seria um sósia (ou até mesmo um clone!)[1] – é exemplar de teorias da conspiração

6.2.2. Essa postagem constitui uma hipótese (1) elaborada totalmente sem dados, (2) que despreza os dados disponíveis e que, acima de tudo, (3) elabora hipóteses egoístas, destrutivas e extremamente complicadas

6.3.   Podemos definir as teorias da conspiração como concepções que afirmam que a realidade como é geralmente percebida, na verdade, é uma enganação feita por grupos pequenos (as “elites”, as “cabalas” (cabals, em inglês), o “Estado profundo” (Deep State, em inglês) etc.) – grupos socialmente mal definidos, embora com nomes claros –, a fim de manipular e explorar o conjunto da sociedade; adicionalmente, os propositores dessas concepções são também grupos pequenos, “contraelites”, que seriam populares perspicazes e que se devotariam a denunciar e a combater as conspirações; as “falsas verdades” englobam as mais variadas possibilidades: a Terra oca ocupada pelos “reptilianos”, a existência de alienígenas encoberta pelo governo dos Estados Unidos, a rede de exploração infantil do Partido Democrata dos Estados Unidos, a conspiração internacional dos judeus, a conspiração eterna dos homens, a conspiração internacional dos burgueses etc.

6.4.   A partir do Positivismo, parece-me que as teorias da conspiração são combinações de (1) má fé e falta de confiança, (2) instinto destruidor e (3) ausência de controle da imaginação

6.4.1. Antes de mais nada, as teorias da conspiração correspondem a uma falta generalizada e sistemática de confiança: os seus adeptos não confiam nas autoridades constituídas (temporais e/ou espirituais), desconsideram ou desprezam as pessoas que confiam e valorizam apenas aqueles, que, como eles mesmos, desconfiam dos demais (sua identidade baseia-se, portanto, na desconfiança compartilhada)

6.4.2. As teorias da conspiração têm elementos do instinto destruidor porque, por definição, desejam destruir, ser “do contra”; em contraposição a essa postura conspiracionista, a construção baseia-se na confiança mútua e pública e no esforço coletivo compartilhado

6.4.2.1.          Há um forte elemento maniqueísta, de “nós” contra “eles”, nas teorias da conspiração – e, também de maneira característica, “nós” somos poucos e “não nos deixamos enganar”, “eles” são muitos e/ou são os dominadores; a “nossa” ação tem que ser destruidora

6.4.3. De uma perspectiva intelectual, a teoria da conspiração rejeita as provas disponíveis em proveito das meras possibilidades: trata-se, portanto, de uma afirmação sistemática do meramente possível contra o efetivamente provável (e/ou o realmente comprovado)

6.4.4. É importante termos em mente que as teorias da conspiração apresentam um aspecto ativo, em que se postula que a realidade é ativamente camuflada por grupos que buscam enganar e manipular

6.5.   De uma perspectiva sociológica e histórica mais ampla, no âmbito do Positivismo devemos (ou podemos) igualmente entender as teorias da conspiração como um problema da liberdade absoluta de consciência

6.5.1. A liberdade absoluta de consciência foi apresentada por Augusto Comte nos seus Opúsculos de juventude (como no “Reorganizar a sociedade”, de 1822, e no “Considerações sobre o poder espiritual”, de 1826)

6.5.1.1.          Na verdade, nosso mestre fala em “liberdade ilimitada”; eu uso “liberdade absoluta” para evitar confusões e dissabores nos dias atuais

6.5.2. A idéia presente no conceito da “liberdade absoluta de consciência” consiste em que os indivíduos passam a considerar-se as autoridades supremas sobre quaisquer temas e questões, independentemente de sua preparação prévia específica para isso

6.5.3. A liberdade ilimitada de consciência substitui a infalibilidade papal pela infalibilidade individual

6.5.3.1.          Dessa forma, a liberdade ilimitada de consciência é a afirmação extrema da razão individual, ou melhor, individualista; trata-se, portanto, de um princípio essencialmente metafísico, antissocial, anti-histórico e destruidor

6.5.4. A liberdade ilimitada de consciência foi (e é) afirmada pelo protestantismo a partir da pretensão de que cada indivíduo é o supremo juiz da interpretação da Bíblia

6.5.4.1.          Seja porque é destruidor, seja porque afirma a infalibilidade individual, seja porque é protestante, o princípio da liberdade ilimitada de consciência foi criado e é empregado de maneira sistemática e não por acaso para combater e destruir o poder espiritual

6.5.5. Para evitar más interpretações e ambigüidades daninhas, convém esclarecermos que o problema com o princípio da liberdade absoluta de consciência não está no exame individual das várias questões, ou seja, não está na autonomia individual

6.5.5.1.          O problema está na arrogância individual e no desprezo individual para com a sabedoria coletiva (e, em todo caso, alheia)

6.5.5.2.          Em outras palavras e repetindo o que comentamos há pouco, o problema consiste na alucinada presunção da infalibilidade individual

6.6.   Há aspectos menores nas teorias da conspiração, embora muitas vezes relevantes: (1) substituição das crenças teológicas por crenças metafísicas e/ou alucinadas; (2) sentimentos de baixa autoestima; (3) desejo de pertencimento a grupos

6.6.1. A substituição de crenças teológicas por crenças metafísicas corresponde a uma secularização parcial e degradada; é importante notar que à metafísica intelectual soma-se u’a metafísica moral, ou seja, u’a moralidade corrompida associa-se a concepções degradadas, resultando em teorias da conspiração

6.6.2. Os sentimentos de baixa autoestima e o desejo de pertencimento a grupos, embora sejam aspectos distintos, andam juntos: pessoas que não se sentem valorizadas ou não se encaixam em nenhum grupo passam a justificar suas dificuldades pessoais e sociais por meio da atribuição de comportamentos voluntários contra elas mesmas

6.6.2.1.          Além de serem explicações fáceis (“não me encaixo porque os outros ativamente me excluem”), as teorias da conspiração criam esquemas que dão sentido às vidas de pessoas solitárias e que lhes permitem comportamentos ativos (em vez de passivos ou meramente reativos)

6.6.2.2.          Da mesma forma, as teorias da conspiração compartilhadas criam vínculos entre os indivíduos

6.6.2.3.          Os aspectos práticos das teorias da conspiração oferecem elementos que dão a sensação de superioridade a pessoas que se consideram inferiores e/ou desprezadas: esses elementos são (1) a suposta perspicácia de descobrir o que deveria estar encoberto e (2) o suposto combate aos grupos conspiradores

6.6.3. O fato de muitas teorias da conspiração serem sucedâneas de teologias – ou seja, versões secularizadas ou concepções herdeiras das teologias – não pode ser diminuído, especialmente em sociedades e ambientes marcados pelas teologias mais irracionalistas

6.6.3.1.          Na medida em que as teologias com freqüência são imunes às provas empíricas e à racionalidade (e algumas são-no mais que outras), essa mentalidade própria à teologia é transmitida para as teorias da conspiração, o que as torna mais impermeáveis às evidências empíricas e à argumentação

6.6.3.2.          Os Estados Unidos são particularmente suscetíveis desses problemas todos, na medida em que têm lugar, lá, as teologias mais irracionalistas e mais afirmadoras da pura “fé”, bem como é um país profundamente individualista

6.7.   Reunindo os vários aspectos e problemas anteriores, na medida em que se trata da desconfiança individualista e sistemática de “nós” contra “eles”, a teoria da conspiração é a afirmação coletiva da paranóia individual

6.7.1. Como as teorias da conspiração são a coletivização da paranóia individual, estimulada por um ambiente e/ou u’a mentalidade metafísica, é bastante claro que elas constituem uma grave deformação da espiritualidade humana

6.7.2. Talvez os únicos aspectos positivos das teorias da conspiração – mas sempre de maneira profundamente enviesada e prejudicial – sejam o aumento da autoestima, a constituição de grupos de apoio, a valorização do bem público e a valorização da publicidade

6.8.   Passando da caracterização das teorias da conspiração para os meios de evitá-las, veremos agora como o Positivismo fornece elementos poderosos contra essas paranóias coletivas

6.8.1. Comentamos antes que as teorias da conspiração consistem em problemas da imaginação humana: elas consistem no desprezo prático (e, com freqüência, também desprezo teórico) das leis da Filosofia Primeira e da lógica positiva

6.9.   As leis da Filosofia Primeira são absolutamente aplicáveis e necessárias

6.9.1. A Filosofia Primeira corresponde aos únicos princípios realmente universais, aplicáveis a todos os fenômenos, e referem-se tanto à descrição da realidade quanto aos princípios que o ser humano segue e deve seguir para apreender adequadamente a realidade

6.9.1.1.          Augusto Comte estabeleceu 15 leis da Filosofia Primeira

6.9.2. Por si só, a primeira lei – não por acaso, a chamada “lei-mãe” – bastaria para evitar desvios e aberrações como as teorias da conspiração

6.9.2.1.          A primeira lei é: “Formar a hipótese mais simples e mais simpática que comporta o conjunto dos dados a representar (I)”

6.9.2.1.1.              A aplicação desse princípio às teorias da conspiração é bem direta: as teorias da conspiração são hipóteses complicadas, destruidoras, baseadas na má fé e na desconfiança e que desprezam os dados disponíveis – ou seja, justamente o oposto do pensar de maneira sã

6.9.3. Mas há outras leis da Filosofia Primeira aplicáveis aqui:

6.9.3.1.          Essas outras leis são a quarta, a quinta e a sexta; elas integram o “Segundo grupo, essencialmente subjetivo”, em sua “Primeira série – leis estáticas do entendimento”:

6.9.3.1.1.              “Subordinar as construções subjetivas aos materiais objetivos (Aristóteles, Leibnitz, Kant) (IV)”

6.9.3.1.2.              “As imagens interiores são sempre menos vivas e menos nítidas que as impressões exteriores (V)”

6.9.3.1.3.              “A imagem normal deve ser preponderante sobre as que a agitação cerebral faz simultaneamente surgir (VI)”

6.9.3.1.4.              O conjunto das leis acima corrobora e reforça que, em vez de elaborar hipóteses aberrantes em teorias da conspiração, deve-se regular a imaginação e prestar atenção aos dados objetivos, sem os desprezar

6.10.               A lógica positiva (especialmente conforme desenvolvida na Síntese subjetiva, de 1856, embora também presente no v. I da Política positiva, de 1851, e no Catecismo positivista, de 1852) também é largamente aplicável:

6.10.1.   A imaginação, exatamente como a inteligência, tem que ser disciplinada; na verdade, o mesmo esforço dedicado à ciência e à filosofia tem que ser feito para a arte e a imaginação em geral

6.10.2.   A disciplina da imaginação baseia-se no altruísmo e no caráter social do ser humano; em última análise é necessário respeitar a lei-mãe da Filosofia Primeira (bem como as leis quatro a seis)

6.10.2.1.       Eis a definição da lógica positiva: “O concurso normal dos sentimentos, das imagens e dos sinais, para inspirar-nos as concepções que convêm às nossas necessidades morais, intelectuais e físicas” (Síntese, p. 26)

6.10.2.1.1.            A lógica positiva busca inspirar concepções generosas; sem se aferrar aos dados empíricos, ela deve propor concepções que não ofendam os dados

6.10.2.1.2.            Repetindo: essa concepção serve para disciplinar a inteligência, isto é, tanto a ciência e a filosofia quanto a arte e a imaginação

6.10.2.1.3.            Essa disciplina baseia-se nas concepções sociais (e sociológicas) em vez de nas concepções individuais e individualistas próprias à teologia

6.10.2.1.4.            A disciplina social baseia-se na digna submissão e, daí, na digna obediência; inversamente, a síntese teológica (absoluta) afirmava um ser caprichoso, egoísta e irresponsável

6.10.2.2.       Como isso se aplica às teorias da conspiração?

6.10.2.2.1.            Do ponto de vista da lógica positiva, as teorias da conspiração caracterizam-se por uma imaginação indisciplinada, egoísta, arbitrária; como vimos antes, embora elas satisfaçam de maneira muito secundária algumas necessidades humanas, tal satisfação dá-se a partir de características profunda e radicalmente antissociais

6.11.               Em suma:

6.11.1.   Como vimos acima, coletivamente as teorias da conspiração correspondem à sistematização do individualismo, do desprezo pela autoridade espiritual, do desprezo pela confiança compartilhada, do espírito profundamente metafísico, agressivo e destruidor próprio à liberdade absoluta de consciência; já em termos individuais, as teorias da conspiração surgem da baixa autoestima de pessoas que se sentem deslocadas e/ou desprovidas da sensação de ação, em ambientes que estimulam crenças irracionais e impassíveis de comprovação

6.11.1.1.       Em outras palavras, as teorias da conspiração correspondem a uma degradação profunda da espiritualidade humana em ambientes metafísicos em termos intelectuais e morais

6.11.1.2.       Devemos ter em mente a positividade e não esquecer, nunca, que a espiritualidade positiva só se afirma com um forte elemento social e altruísta, seja como objetivo, seja como meio, seja como princípio orientador: sem isso não é possível distanciar das teorias da conspiração quem se encontra submetido a elas

6.11.2.   Assim, para evitar as teorias da conspiração, temos que ter em mente aspectos sociais (coletivos) e pessoais, da mesma forma que elementos morais e intelectuais

6.11.3.   O Positivismo, ou melhor, a Religião da Humanidade estabelece precisamente elementos para essa regulação:

6.11.3.1.       O estímulo à confiança mútua

6.11.3.2.       A digna subordinação como base do aperfeiçoamento e o reconhecimento das limitações pessoais (em termos intelectuais, práticos e morais)

6.11.3.3.       O desenvolvimento e o reforço dos vínculos coletivos

6.11.3.4.       O “Viver às claras”, ou seja, a abertura e as justificativas públicas dos comportamentos

6.11.3.5.       A disciplina, a regulação e a orientação altruísta da imaginação (via Filosofia Primeira e lógica positiva)

7.     Término da prédica

 

Referências

- Auguste Comte (franc.), Síntese subjetiva (Paris, Exécution Téstamentaire d’Auguste Comte, 2ª ed., 1900): https://archive.org/details/lasynthsesubjec00comtgoog.

- Augusto Comte (franc.), Sistema de filosofia positiva (Paris, Bachelier, 1838), v. 3, 45e leçon (“Considérations générales sur l’étude positive des fonctions intellectuelles et morales, ou cérébrales”).

- Augusto Comte (franc.), Sistema de política positiva (Paris. J.-B. Baillière, 4ª ed., 1880): https://archive.org/details/systmedepoliti01comt.

- Augusto Comte (port.), Apelo aos conservadores (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores.

- Augusto Comte (port.), Catecismo positivista (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 4ª ed., 1934).

- José Lonchampt (port.), Ensaio sobre a oração (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1896; catálogo da IPB, n. 165): https://archive.org/details/n.-165-jose-lonchampt-ensaio-sobre-a-oracao.

- Luís Bueno Horta Barbosa (port.): Introdução geral ao estudo da lógica, ou matemática (Rio de Janeiro, Jornal do Comércio, 1933): https://archive.org/details/augusto-comte-logica-positiva

- Luís Lagarrigue (esp.), A poesia positivista (Santiago do Chile, 1890): https://archive.org/details/luis-lagarrigue-a-poesia-positivista-1890_202509.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), As últimas concepções de Augusto Comte (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-i e https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-ii.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), O ano sem par (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1900): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-o-ano-sem-par-portug._202312/page/n7/mode/2up.



[1] Embora à primeira vista essa teoria pareça apenas uma piada, na verdade, inacreditavelmente, ela é realmente afirmada – e por uma parcela substancial dos brasileiros (https://www.dw.com/pt-br/como-a-teoria-falsa-de-que-lula-morreu-amea%C3%A7a-a-democracia/a-79311276).

21 abril 2023

Lógica positiva, de Augusto Comte

Digitalizamos e postamos no portal Internet Archive o opúsculo Introdução geral ao estudo da lógica, ou Matemática, organizado por Luís Bueno Horta Barbosa em 1933.

Essa pequena e interessante obra consiste na seleção, indexação e tradução de trechos da "Introdução" à Síntese subjetiva, publicada por Augusto em 1855. Essa "Introdução", em particular, trata, em um primeiro momento, da definição da lógica positiva, bem como de seus meios, seus objetivos, sua história filosófica e suas relações com o conjunto dos conhecimentos abstratos. Em um segundo momento, esse capítulo aborda a filosofia da Matemática, conforme entendida por Augusto Comte a partir da síntese subjetiva.

O arquivo encontra-se disponível, em versão PDF, aqui: https://archive.org/details/augusto-comte-logica-positiva.





Definição da lógica positiva (Augusto Comte, na sua "Síntese subjetiva")

Reproduzimos abaixo alguns trechos iniciais da grandiosa última obra de Augusto Comte, a sua Síntese subjetiva (1855), que, planejada para ter quatro volumes, ficou apenas em seu volume inicial, dedicado à lógica.

Os trechos reproduzidos abaixo são alguns dos que foram inicialmente selecionados, indexados e traduzidos por Luís Bueno Horta Barbosa; eles apresentam o conceito positivo de lógica, com as necessárias reflexões teóricas e históricas que o justificam. Como se verá, a partir de um entendimento real do ser humano (afetivo, prático e intelectual, em sua interação com o mundo e com o próprio ser humano), a lógica não é reduzida à operação intelectualista de símbolos, mas é ententendida como um instrumento que se vale de diversos recursos para auxiliar o ser humano em suas atividades.

*   *   *

Instituição da Lógica Positiva[1]

 

Definição normal da lógica

“Para caracterizar a lógica relativa que convém à síntese subjetiva, é preciso comparar a sua definição normal com o esboço que formulei, seis anos atrás, na introdução da minha obra principal[2]. Guiado pelo coração, eu já ali proclamei e mesmo sistematizei a influência teórica do sentimento. Uma apreciação mais completa fez-me também consagrar, no mesmo lugar, o ofício fundamental das imagens nas especulações quaisquer. Sob este duplo aspecto, o referido esboço foi satisfatório pois abraçou o conjunto dos meios lógicos, retificando a redução que deles fazia a metafísica que só empregava os sinais. Toda a imperfeição desse esboço consiste em que o destino de tais meios achou-se excessivamente restrito, por não me haver eu desprendido bastante dos hábitos científicos. Parece, por essa definição, que a verdadeira lógica limita-se a desvendar-nos as verdades que nos convêm, como se o domínio fictício não existisse para nós, ou não comportasse nenhuma regra. Nós devemos sistematizar tanto a conjectura quanto a demonstração, votando todas as nossas forças intelectuais, bem com as nossas forças quaisquer, ao serviço continuo da sociabilidade, única fonte da verdadeira unidade.

Reconstruída convenientemente, a definição da lógica, incidentemente formulada na pagina 448 do tomo primeiro da minha Política positiva, exige duas retificações conexas, não no que se refere aos meios mas sim no que se refere ao objetivo. Deve-se substituir nela desvendar as verdades por inspirar as concepções, para caracterizar a natureza essencialmente subjetiva das construções intelectuais, e a extensão total do seu domínio, não menos interior do que exterior. Com esta dupla retificação, a minha fórmula inicial torna-se plenamente suficiente. Então somos finalmente conduzidos a definir a lógica: O concurso normal dos sentimentos, das imagens, e dos sinais, para inspirar-nos as concepções que convêm às nossas necessidades morais, intelectuais e físicas. Não obstante, esta definição exige duas explicações conexas, a primeira relativa aos meios que ela indica, a segunda relativa ao fim que assinala” (Síntese subjetiva, p. 26).

 

Apreciação dos meios lógicos

“Considerada sob o primeiro aspecto, basta que essa definição se ache convenientemente ligada á teoria fundamental da natureza humana. Segundo esta teoria, o conjunto do cérebro concorre para as operações quaisquer da sua região especulativa. Elaboradas pelo espírito sob o impulso do coração assistido do caráter, todas as nossas concepções devem trazer a marca destas três influências. À frente dos meios lógicos, é preciso pois colocar os sentimentos que, por fornecerem ao mesmo tempo a fonte e o destino dos pensamentos, servem-se da conexidade das emoções correspondentes para combiná-los. Nada poderia substituir esta lógica espontânea, à qual se devem sempre, não somente os primeiros sucessos dos espíritos sem cultura, mas também os mais poderosos esforços das inteligências bem cultivadas.

Não podemos sistematizar a lógica, como não podemos regular o conjunto da existência humana, senão subordinando os dois outros meios essenciais a este processo fundamental, único comum a todos os modos e graus do entendimento. As operações intelectuais, limitadas a este regime, poderiam ser fortes e profundas; mas ficariam vagas e confusas, porque ele não comporta a precisão e a rapidez exigidas por tais operações, visto a impossibilidade de se tornar ele bastante voluntário. Juntas aos sentimentos, as imagens tornam o espírito mais pronto e mais nítido, por ser o uso delas mais facultativo. Elas combinam-se com eles, mediante a ligação natural entre cada emoção e o quadro da sua realização. Toda a eficácia delas resulta desta conexidade, que permite ás imagens evocar os sentimentos dos quais elas inicialmente derivaram.

Sob tal assistência, o coração institui um segundo regime lógico mais preciso e mais rápido do que o primeiro, mas menos seguro e menos poderoso, no qual as concepções formam-se pela combinação das imagens. Uma espontaneidade menor distingue este modo do precedente e não lhe permite uma equivalente generalidade, embora ele surja sem cultura. Nunca ele basta para tornar as deduções, as induções, ou as construções, tão prontas e tão nítidas quanto o exige o seu destino estético, teórico ou prático. Elas só podem preencher estas condições juntando o socorro dos sinais propriamente ditos ao poder dos sentimentos assistidos das imagens. Tal é o complemento necessário da verdadeira lógica, inteiramente esboçada na animalidade, mas só desenvolvida pela sociabilidade” (Síntese subjetiva, p. 27).

 

A teoria lógica dos metafísicos

“Devemos considerar a teoria lógica dos metafísicos como caracterizando-lhes ao mesmo tempo a impotência para regularem o estado social e inaptidão para conceberem-na. Antes do surto deles na Grécia, o teologismo tinha tido os seus vícios teóricos espontaneamente compensados pelo seu destino prático, embora o seu método seja tão pessoal quanto o do ontologismo. Todos os perigos desse método desenvolveram-se quando a cultura intelectual passou dos padres para os filósofos, os quais, apesar das suas tendências pedantocráticas, não puderam instituir a especulação abstrata senão afastando o ponto de vista coletivo. Uma intuição necessariamente individual, na qual a inteligência esquecia ao mesmo tempo a sua subordinação ao sentimento e o seu destino para a atividade, foi então erigida em estado normal da razão teórica. Nada pode caracterizar melhor esta degradação do que a sistematização da lógica pelo emprego exclusivos dos sinais, afastando os sentimentos e mesmo as imagens. Ela constituiu a primeira e principal manifestação da doença ocidental, na qual o homem isola-se da Humanidade” (Síntese subjetiva, p. 31).

 

A elaboração dos pensamentos pelos sentimentos auxiliados pelos sinais e pelas imagens

“Em virtude desta explicação, a sistematização lógica é devida, tanto quanto a unidade geral, a preponderância do coração sobre o espírito. Devemos considerar os sinais e as imagens como auxiliares dos sentimentos na elaboração dos pensamentos. Esta assistência acha-se assim fornecida pelas duas partes essenciais do aparelho intelectual, respectivamente consagradas uma à concepção, a outra à expressão, sendo que esta exige sempre a ação. Toda meditação que não produz imagem é incompleta, e toda contemplação torna-se confusa sem semelhante guia. Uma e outra são, pois, caracterizadas pelas imagens, cuja consideração, ativa ou passiva, forma o principal domínio do espírito interiormente dirigido pelo coração. Uma última função torna-se então necessária para transmitir ao exterior o resultado geral da elaboração realizada no interior. Referidos a este destino, do qual se deriva a sua reação mental, os sinais adquirem a sua principal dignidade, visto caber-lhes o privilegio de instituir, entre o Grão-Ser e os seus servidores, as comunicações que proporcionam, a estes os elementos, àquele o produto, do trabalho intelectual” (Síntese subjetiva, p. 33).

 

Apreciação do objetivo da lógica

Disciplinar a inteligência

“Considerada quanto ao seu fim, a lógica teve de ser ao mesmo tempo a mais antiga e a mais viciosa das construções filosóficas. Ela quis diretamente regular o elemento médio da existência humana separando-o da sua fonte social e do seu destino prático. Ciência, a lógica pôs o aforismo fundamental que subordina a ordem intelectual à ordem física[3], sem daí concluir que o conhecimento da primeira exigia a apreciação da segunda, cujo estudo achava-se então limitado aos fenômenos mais simples. Arte, ela não pôde instituir mais do que um vão aparelho de regras metafísicas, que não comportavam outra eficácia, senão a de compensar, por alguns hábitos de generalidade, a especialidade necessária da positividade preliminar. Por ter renunciado ao domínio poético, a lógica, na sua exclusiva preocupação da verdade, não tardou a sentir-se incapaz de iniciativa, e contentou-se com sistematizar a aptidão, mais nociva do que útil, de provar sem achar” (Síntese subjetiva, p. 34).

Impossibilidade de disciplinar a inteligência antes do positivismo

“Na realidade não se podia instituir a lógica antes que a construção da religião positiva tivesse essencialmente terminado a iniciação humana. Mas alcançado esse termo, uma solução decisiva torna-se possível, e mesmo oportuna, para o grande problema que a Idade Média pôs, por um esboço provisório, visando regular as forças quaisquer” (Síntese subjetiva, p. 35).

Em que consiste a dificuldade dessa solução

“Vista no seu conjunto, a dificuldade consiste sobretudo em disciplinar o espírito, já porque ele foi o elemento mais perturbado pela revolução moderna, já porque é preciso colocá-lo em condições de assistir ao principio regenerador na sistematização universal” (Síntese subjetiva, p. 35).

Verdadeiro destino da inteligência

“Reduzida ao seu verdadeiro destino, a inteligência deve ajudar o sentimento a dirigir a atividade: este oficio basta para instituir o regime mental. Então o espírito, renunciando à estéril independência sonhada pelo orgulho metafísico, coloca a sua verdadeira grandeza na digna submissão à ordem fundamental que nós devemos suportar e modificar. Guiada pelo espetáculo exterior, a inteligência adapta a marcha das suas concepções à marcha dos fenômenos, cujos estados futuros ou passados podem ser assim julgados por meio das nossas operações interiores, visto a perpetuidade das duas economias paralelas. Ela reconheceu que esta correspondência nunca pode ser absoluta; ela aspira instituí-la apenas no grau que o exigem as nossas verdadeiras necessidades” (Síntese subjetiva, p. 35).



[1] Seleção, indexação e tradução de Luís Bueno Horta Barbosa (Introdução geral ao estudo da lógica, ou matemática. Rio de Janeiro: Jornal do Comércio, 1933; disponível em: https://archive.org/details/augusto-comte-logica-positiva). Os trechos citados são extraídos de Augusto Comte (Synthèse subjective, Paris, 1855).

[2] Referência ao Sistema de política positiva, cujo volume 1 é de 1851.

[3] Referência à observação de Aristóteles de que “não existe nada na inteligência que não provenha dos sentidos”, correspondente à primeira metade da 4ª lei de Filosofia Primeira, que é completada com a noção de Kant: “exceto a própria inteligência”.