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23 setembro 2026

A espiritualidade positiva

No dia 13 de Shakespeare de 172 (22.9.2026) realizamos nossa prédica positiva, dando continuidade à leitura comentada do Apelo aos conservadores (em sua "Conclusão - missão peculiar aos verdadeiros conservadores").

No sermão abordamos a espiritualidade positiva.

A prédica foi transmitida nos canais Positivismo (https://youtube.com/live/H5wmmuILZsY) e Igreja Positivista Virtual (https://www.facebook.com/IgrejaPositivistaVirtual/videos/4556000391314329).

As anotações que serviram de base para a exposição oral encontram-se reproduzidas abaixo.

*   *   *


A espiritualidade positiva

(13 de Shakespeare de 172/22.9.2026) 

1.     Abertura da prédica

2.     Datas e celebrações

2.1.   Dia 12 de Shakespeare (21.9): nascimento de Luís Lagarrigue (1854 – 172 anos)

2.2.   Dia 13 de Shakespeare (22.9): início da primavera (equinócio da primavera)

3.     Apóiem a Igreja Positivista Virtual!

3.1.   Colaborem com o que puderem; com boa fé e boa vontade, toda e qualquer colaboração é necessária e bem-vinda!

3.1.1. Inscrevam-se no canal, compartilhem, divulguem nossas atividades!

3.2.   Para apoiar as atividades dos nossos canais e da Igreja Positivista Virtual: façam o Pix da Positividade! (Chave Pix: ApostoladoPositivista@gmail.com)

4.     Leitura comentada do Apelo aos conservadores

5.     Exortações

5.1.   Esta talvez seja a seção mais importante das prédicas!

5.2.   Sejamos altruístas!

5.2.1. Sejamos generosos, tolerantes etc.

5.2.2. Devemos orientar toda a nossa vida pelo altruísmo: quando o altruísmo regula e orienta a vida, o resultado é que o altruísmo (a dedicação para os demais) e o egoísmo (a satisfação das necessidades pessoais) não são incompatíveis, pois só o altruísmo permite unir o bem comum à felicidade pessoal

5.3.   Façamos orações!

5.3.1. A oração positiva é a base do culto íntimo; assim, é tanto a base do aperfeiçoamento pessoal quanto da espiritualidade positiva de modo geral

5.4.   Como Igreja Positivista Virtual, ministramos os sacramentos positivos a quem tem interesse

5.4.1. Em um total de nove, os sacramentos são a celebração de momentos centrais na vida de todos nós – momentos que devem ser celebrados, afirmados, compartilhados (o nascimento/a adoção, o casamento, a aposentadoria, a transformação (a morte) etc.)

6.     Sermão: a espiritualidade positiva

6.1.   O tema do sermão desta semana é a espiritualidade positiva

6.1.1. Indiscutivelmente, esse tema é algo... diferente

6.1.1.1.          No senso comum, o tema da espiritualidade está intimamente vinculado a formas de misticismo ou, em todo caso, à teologia

6.1.1.2.          O comum do povo valoriza bastante a espiritualidade, seja como afirmação de crenças (e, a partir daí, da concepção de que somente quem “crê” merece confiança), seja como sinal de sanidade

6.1.1.3.          Já os acadêmicos são bastante ambíguos: a partir do amálgama institucional e semioficial de tradicionalismo católico com materialismo marxista, de modo geral os acadêmicos desprezam a “espiritualidade” quando ela refere-se a si próprios (misticismo, afinal de contas), embora supostamente a valorizem quando ela refere-se ao povo, aos “outros” e aos “dominados”

6.1.2. Creio que vale a pena indicar por que decidi abordar esse tema; isso foi devido a dois motivos:

6.1.2.1.          Por um lado, devido a compromissos acadêmicos, nas últimas semanas redigi anotações sistemáticas sobre o tema da moral no Positivismo; essas anotações levaram-me a considerar outras, agora sobre a espiritualidade

6.1.2.2.          Por outro lado, também nas últimas semanas li um livro sobre o Tradicionalismo, que é uma concepção particularmente retrógrada e mística de teologia, que apresenta os graves problemas adicionais de ser contra o progresso e a racionalidade e que, em virtude disso, aproxima-se ativa e passivamente do fascismo e de concepções sociopolíticas autoritárias (e teocráticas); entretanto, os adeptos do Tradicionalismo falam convictamente em “espiritualidade”, buscando satisfazer algumas necessidades humanas reais (embora, claro, por vias irreais)

6.1.3. Augusto Comte falava correntemente em “espiritualidade” e em “espiritualidade positiva” (por exemplo, no Catecismo positivista); considerando a importância da subjetividade e a defesa da concepção positiva de religião, não há porque não usarmos essa expressão e não definirmos a concepção positiva de espiritualidade

6.1.3.1.          Em si mesmo, o tema da espiritualidade positiva é muito o da religião positiva; apenas a ênfase é um pouco mais pessoal (e doméstica)

6.1.3.1.1.              Usaremos aqui a expressão “pessoal” no lugar de “individual” para deixar claro, na medida do possível, o aspecto relacional do ser humano, ou seja, seu aspecto social e histórico, evitando assim a mentalidade egoísta e “isolante” própria ao individualismo

6.2.   Adiantando bastante o tema, é importante notarmos que um aspecto central da espiritualidade positiva, que fica tanto implícito quanto explícito, é o fato de que ela implica a mudança de mentalidade e de sensibilidade

6.2.1. Essa mudança de mentalidade e de sensibilidade corresponde ao mesmo tempo à mudança de entendimento intelectual e à mudança afetiva e prática da forma geral como nos relacionamos com o mundo e as demais pessoas

6.2.2. Em termos um pouco mais específicos, essa mudança de mentalidade e de sensibilidade corresponde (1) à afirmação do relativismo em substituição ao absolutismo, (2) à afirmação do altruísmo em substituição ao egoísmo e (3) à afirmação da atividade construtiva e pacífica em substituição à atividade destruidora e/ou violenta

6.3.   É necessário termos clareza de que o senso comum atual do Ocidente, caracterizado pela anárquica combinação de monoteísmo, de politeísmo e de metafísica, tudo isso com elementos variados de misticismo, considera que a espiritualidade refere-se apenas e estritamente à relação do “espírito” (ou seja, de uma entidade etérea, distinta do corpo e oposta a ele) com o “além”

6.3.1. Essa relação é individual e alheia à existência material e à realidade social: a concepção atualmente em voga consiste, portanto, em algo profundamente egoísta, seja porque se refere apenas a cada indivíduo, seja porque se separa do mundo e da sociedade

6.3.2. Além disso, como conseqüência do aspecto estritamente individual e antissocial dessa espiritualidade teológica (e/ou mística), a espiritualidade é divorciada da moralidade: não importa se essa espiritualidade é correta ou não; aliás, em si mesma nem há esse tipo de consideração

6.4.   Não temos como afirmar a espiritualidade positiva sem nos lembrarmos de algumas concepções básicas, em particular (1) o relativismo, (2) a tríplice natureza humana, (3) o caráter social e histórico do ser humano e, por fim, (4) o aspecto ao mesmo tempo objetivo e subjetivo do ser humano

6.4.1. O relativismo consiste em que o ser humano vive sempre em relação com o ambiente, seja objetivamente, seja subjetivamente, seja com o mundo, seja com outros seres humanos: nós não existimos e não apreendemos nada que não seja por meio de relações; assim, para o ser humano não existem coisas “puras”, “em si mesmas”, supostamente independentes de qualquer outra coisa: as pretensões de que tais “coisas em si” existem e de que seria possível ao ser humano apreendê-las correspondem ao absolutismo, isto é, às concepções teológicas e metafísicas

6.4.1.1.          O relativismo pode ser entendido então como “relacionismo” e antiabsolutismo

6.4.2. A tríplice natureza humana corresponde ao fato de que o ser humano é, ao mesmo tempo, sentimentos, inteligência e atividade prática: nossos impulsos elementares são a origem e o destino de nossa existência e são satisfeitos por meio das nossas relações práticas com o mundo e com os demais seres humanos; a inteligência corresponde ao entendimento desse mundo e dessas relações, indicando como o mundo constitui-se e, daí, como é possível atuar nele; dos impulsos elementares, os egoístas (os estritamente individuais) são os mais intensos, mas são os altruístas (os que estabelecem as relações afetivas e sociais) que permitem o equilíbrio e a verdadeira satisfação humana

6.4.2.1.          Buscando a síntese no sentido específico da reunião de várias idéias em conceitos gerais, Augusto Comte reuniu na expressão “sentimentos” os instintos egoístas e os instintos altruístas; o egoísmo é composto por sete impulsos elementares, ao passo que o altruísmo é composto por três impulsos elementares

6.4.2.2.          Nesse total de dez instintos, do primeiro ao último ocorre um enfraquecimento da força e um aumento do caráter social (ou coletivo, ou não estritamente individual) dos instintos, de tal sorte que o primeiro (a nutrição) é o mais forte e o mais individual, ao passo que o último (a bondade) é o mais fraco e o menos individual

6.4.3. Uma conseqüência específica do relativismo (ou do relacionismo) e da tríplice natureza humana é o caráter histórico e social do ser humano, em que, por um lado, somente existimos em sociedade, ao vivermos em conjunto e, por outro lado, exatamente ao vivermos em conjunto nossos atributos desenvolvem-se com o passar do tempo (em particular nas direções de estímulo do altruísmo, compressão do egoísmo, aumento da compreensão da realidade e diminuição da violência)

6.4.3.1.          O desenvolvimento humano é apresentado e explicado por meio das três leis dos três estados, cada uma correspondente a um aspecto da natureza humana

6.4.3.2.          A lei afetiva é a que nos importa mais aqui; ela estabelece que a sociabilidade humana amplia-se das relações domésticas para as relações cívicas e daí para as universais, cada um desses âmbitos correspondendo a um dos instintos altruístas – respectivamente veneração, apego e bondade

6.4.3.2.1.              A bondade, em particular, é afirmada subjetivamente em relação à Humanidade, que é o Grande Ser e que atua como intermediária entre o ser humano individual e o mundo

6.4.4. A existência humana é ao mesmo tempo objetiva e subjetiva: relacionamo-nos com coisas e pessoas que existem de verdade e que exercem pressões sobre nós (assim como nós exercemos pressão sobre essas coisas e pessoas); mas, ao mesmo tempo, entendemos subjetivamente o mundo, compartilhamos valores, temos idéias, temos sentimentos e imaginamos

6.4.4.1.          Em graus variados, que mudam conforme a pessoa, o momento, o contexto histórico e social específico, os elementos objetivos e subjetivos combinam-se

6.4.5. O equilíbrio humano só é possível quando os esforços pessoais são conjugados e compatibilizados com o benefício coletivo; em outras palavras, quando se afirma o altruísmo e quando o egoísmo é comprimido e orientado em favor do altruísmo; com isso, a felicidade individual coincide com o devotamento ao bem-estar coletivo

6.4.5.1.          A dedicação ao bem-estar coletivo tem que considerar cada país e a Humanidade como um todo, mas ela começa sempre, necessariamente, com a dedicação à própria família (cônjuge, filhos, pais, agregados etc.)

6.4.6. Essa é a base da moralidade humana – em que o que estimula e aumenta o altruísmo é moral e o que aumenta o egoísmo, ou diminui o altruísmo, ou aumenta a violência e a destruição, é imoral –; da mesma forma, essa é a base necessária da espiritualidade positiva

6.5.   A partir dos elementos acima, podemos entender que a espiritualidade positiva refere-se a cada ser humano individualmente, mas ela não isola esse indivíduo do resto da sociedade, ou melhor, a espiritualidade positiva não isola os indivíduos da Humanidade: bem ao contrário, a espiritualidade positiva integra, sempre e cada vez mais, os indivíduos na Humanidade

6.5.1. Em um primeiro momento, a integração do indivíduo na Humanidade ocorre objetivamente, nas famílias e nas pátrias, sob a tutela geral da Humanidade; mas a integração de fato ocorre mesmo subjetivamente, com a satisfação das necessidades pessoais de cada um a partir da orientação altruísta dos seus esforços

6.5.2. A integração dos indivíduos na Humanidade não é um encontro místico, indefinido, em que a subjetividade individual é estimulada fora e contra a realidade objetiva e contra a vida em sociedade; bem ao contrário, a integração positiva na Humanidade reconhece a realidade, reconhece a sociedade e busca tanto a melhoria social quanto o aperfeiçoamento individual: se esses aspectos não ocorrerem, não apenas tendemos ao misticismo e ao absolutismo como nossos esforços serão desperdiçados

6.6.   Todos esses comentários serviram, como servem, para entender o que é o ser humano e como ele pode desenvolver-se; são, portanto, aspectos científicos, filosóficos e morais básicos; eles indicam os fundamentos da espiritualidade humana e sugerem alguns aspectos, mas não correspondem exatamente a essa espiritualidade

6.6.1. A passagem desses fundamentos para a constituição efetiva de uma espiritualidade positiva corresponde precisamente, na obra de Augusto Comte, à constituição da Religião da Humanidade

6.6.2. A recusa em aceitar a necessidade de satisfazer as necessidades humanas, em empregar os recursos que há muito tempo já estão à disposição do ser humano e a insistência no mito de que ainda (e sempre) seriam necessários “mais conhecimentos” para tal satisfação: a isso correspondem o academicismo e o cientificismo

6.6.3. Não por acaso, tais mitos são empregados ativamente contra o Positivismo, contra a espiritualidade positiva e, portanto, a favor da permanência da espiritualidade teológica

6.7.   Como é a espiritualidade positiva? Dito de outra maneira, como satisfazemos os indivíduos e vinculamo-los mais à Humanidade?

6.7.1. A espiritualidade positiva ocorre basicamente por meio do culto e do regime, mas também por meio do dogma

6.7.2. O culto positivo é o meio básico da nossa espiritualidade, em particular por meio da oração positiva; a oração positiva integra o culto íntimo, isto é, o culto estritamente individual

6.7.2.1.          O culto doméstico e o culto público também constituem a nossa espiritualidade

6.7.2.2.          Embora a espiritualidade teológica tenda a desprezar, de um ponto de vista intelectual, a importância do compartilhamento público de sentimentos, todas as grandes religiões na prática sempre reconhecerem que os cultos públicos estimulam profunda e intensamente a espiritualidade

6.7.2.2.1.              A música, em particular, é um dos grandes instrumentos da espiritualidade no culto público

6.7.2.3.          O estímulo orientado da imaginação, com a leitura de grandes obras-primas – e, desde o século XX, também com a assistência de grandes filmes, séries e até novelas –, desde sempre é reconhecido com integrando a espiritualidade

6.7.3. O Positivismo tem os seus nove sacramentos, que podem e devem ser entendidos como ritos de passagem; em certo sentido, são ritos de iniciação

6.7.3.1.          É claro que o aprendizado, com as relações entre mestre e discípulo, também é um rito de iniciação e integra a espiritualidade

6.7.4. Já a dedicação prática ao bem comum oferece por si só uma satisfação toda própria, além de permitir o aperfeiçoamento concreto do ser humano

6.7.4.1.          É a dedicação prática ao bem comum que evita o misticismo e que, portanto, na prática reafirma aspectos fundamentais do ser humano (em particular o relacionismo, a existência gregária e o desenvolvimento histórico)

6.7.5. Em termos intelectuais, a leitura de obras filosóficas, de tratados morais, de relatos históricos, de dramas e epopéias literárias também estimula e desenvolve a espiritualidade positiva – na verdade, esses procedimentos também sempre foram entendidos como integrantes e estimulantes da espiritualidade

6.7.5.1.          Dito isso, repetidas vezes criticamos a ciência e o cientificismo; mas a verdade é que a compreensão filosófica do desenvolvimento histórico da ciência integra, e tem que integrar, a espiritualidade positiva

6.7.5.2.          Além dos aspectos indicados antes – aspectos que foram afirmados pela observação prática dos proletários, pela síntese feminina e comprovados pelos cientistas: o relacionismo, a tríplice natureza humana etc. –, cada ciência abstrata ofereceu elementos intelectuais que alimentam a reflexão filosófica e moral, ou seja, que integram a espiritualidade positiva

6.7.5.2.1.              Primeiro exemplo: a Astronomia estabeleceu a observação sistemática e regular de fenômenos que são irresistíveis e completamente fora da capacidade de manipulação humana, forçando-nos à submissão

6.7.5.2.2.              Segundo exemplo: já o conjunto das ciências fundamentais desenvolve os procedimentos e os princípios da classificação, além de revelar um espetáculo cada vez mais nobre e mais subjetivo, bem como cada vez mais complexo e, portanto, mais modificável

6.8.   Para concluir esta exposição:

6.8.1. Os aspectos indicados aqui não esgotam a questão e, na verdade, apenas a apresentam de maneira sumária

6.8.2. Uma exposição sistemática da espiritualidade positiva consistiria, no final das contas, na exposição da própria Religião da Humanidade, ainda que a partir de uma perspectiva específica

6.8.3. Além disso, parece claro que é possível – talvez seja mesmo desejável – que se criem muitos outros elementos e instrumentos da espiritualidade positiva, seja a partir da pura criatividade dos positivistas, seja a partir da inspiração ou dos exemplos fornecidos por outras religiões e filosofias

7.     Término da prédica

 

Referências

- Auguste Comte (franc.), Síntese subjetiva (Paris, Exécution Téstamentaire d’Auguste Comte, 2ª ed., 1900): https://archive.org/details/lasynthsesubjec00comtgoog.

- Augusto Comte (franc.), Sistema de filosofia positiva (Paris, Bachelier, 1838), v. 3, 45e leçon (“Considérations générales sur l’étude positive des fonctions intellectuelles et morales, ou cérébrales”).

- Augusto Comte (franc.), Sistema de política positiva (Paris. J.-B. Baillière, 4ª ed., 1880): https://archive.org/details/systmedepoliti01comt.

- Augusto Comte (port.), Apelo aos conservadores (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores.

- Augusto Comte (port.), Catecismo positivista (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 4ª ed., 1934).

- Gustavo Biscaia de Lacerda (port.), Positivismo, Augusto Comte e epistemologia das ciências humanas e naturais (Marília, Poiesis, 2022).

- José Lonchampt (port.), Ensaio sobre a oração (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1896; catálogo da IPB, n. 165): https://archive.org/details/n.-165-jose-lonchampt-ensaio-sobre-a-oracao.

- Luís Lagarrigue (esp.), A poesia positivista (Santiago do Chile, 1890): https://archive.org/details/luis-lagarrigue-a-poesia-positivista-1890_202509.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), As últimas concepções de Augusto Comte (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-i e https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-ii.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), O ano sem par (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1900): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-o-ano-sem-par-portug._202312/page/n7/mode/2up. 

02 abril 2025

A espiritualidade positiva, parte 2

No dia 7 de Arquimedes de 171 (1.4.2025) realizamos nossa prédica positiva, dando continuidade à leitura comentada do Apelo aos conservadores, em sua Primeira Parte ("Doutrina apropriada aos verdadeiros conservadores").

No sermão abordamos novamente a espiritualidade positiva.

A prédica foi transmitida nos canais Positivismo e Igreja Positivista Virtual. O Youtube, entretanto, apresentou grave instabilidade a partir de 1h 20 de transmissão; por isso, a partir desse momento a prédica foi transmitida exclusivamente pelo Facebook. 

Para remediar esse problema, baixamos o vídeo do Facebook e carregamos no Youtube; ele está disponível aqui: https://youtu.be/fmlmbCTj-QE.

As anotações que serviram de base para a exposição oral estão reproduzidas abaixo.

*    *    *


A espiritualidade positiva 2

(7 de Arquimedes de 171/1.4.2025) 

1.       Abertura

2.       Exortações iniciais

2.1.    Sejamos altruístas!

2.2.    Façamos orações!

2.3.    Como somos uma igreja, ministramos os sacramentos: quem tiver interesse, entre em contato conosco!

2.4.    Precisamos de sua ajuda; há várias maneiras para isso:

2.4.1. Divulgação, arte, edição de vídeos e livros! Entre em contato conosco!

2.4.2. Façam o Pix da Positividade! (Chave pix: ApostoladoPositivista@gmail.com)

3.       Datas e celebrações:

3.1.    Dia 4 de Arquimedes (29.3): nascimento de David Carneiro (1904 – 121 anos)

3.2.    Dia 9 de Arquimedes (3.4): nascimento de Clotilde (1815 – 210 anos)

3.3.    Dia 11 de Arquimedes (5.4): transformação de Clotilde (1846 – 179 anos)

3.4.    Dia 14 de Arquimedes (8.4): evento conjunto Igreja Positivista Virtual e Igreja Positivista do Rio Grande do Sul – parte 1: Felipe Zorzi: “EUA vs. China”

3.4.1. Em virtude desse evento, não haverá prédica no dia 8.4

3.5.    No dia 21 de Arquimedes (15 de abril) passaremos a transmitir as prédicas pelo Instagram (Instagram.com/IgrejaPositivistaVirtual), no lugar do Facebook (Facebook.com/IgrejaPositivistaVirtual)

3.5.1. Manteremos a transmissão pelo Youtube, que é o nosso canal principal (Youtube.com/ThePositivism)

3.5.2. Além disso, é claro que manteremos as atividades em nosso canal do Facebook

4.       Leitura comentada do Apelo aos conservadores

4.1.    Antes de mais nada, devemos recordar algumas considerações sobre o Apelo:

4.1.1. O Apelo é um manifesto político e dirige-se não a quaisquer pessoas ou grupos, mas a um grupo específico: são os líderes políticos e industriais que tendem para a defesa da ordem (e que tendem para a defesa da ordem até mesmo devido à sua atuação como líderes políticos e industriais), mas que, ao mesmo tempo, reconhecem a necessidade do progresso (a começar pela república): são esses os “conservadores” a que Augusto Comte apela

4.1.1.1.             O Apelo, portanto, adota uma linguagem e um formato adequados ao público a que se dirige

4.1.1.2.             Empregamos a expressão “líderes industriais” no lugar de “líderes econômicos”, por ser mais específica e mais adequada ao Positivismo: a “sociedade industrial” não se refere às manufaturas, mas à atividade pacífica, construtiva, colaborativa, oposta à guerra

4.2.    Uma versão digitalizada da tradução brasileira desse livro, feita por Miguel Lemos e publicada em 1899, está disponível no Internet Archive: https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores

4.3.    O capítulo em que estamos é a “Primeira parte”, cujo subtítulo é “Doutrina apropriada aos verdadeiros conservadores”

4.4.    Passemos, então, à leitura comentada do Apelo aos conservadores!

5.       Sermão: a espiritualidade positiva, parte 2

5.1.    No dia 14 de Aristóteles (11.3) fizemos uma prédica sobre a espiritualidade positiva

5.1.1. O tema é amplo e vários aspectos podem ser apresentados a mais e/ou desenvolvidos: daí esta nova prédica sobre esse tema

5.1.2. Concentrar-nos-emos aqui à espiritualidade positiva, referindo-nos às espiritualidades teológica, metafísico-espiritualista ou metafísico-materialista apenas a título de comparação, quando necessário

5.2.    Repetiremos inicialmente algumas coisas ditas na prédica anterior que dedicamos ao tema da espiritualidade

5.2.1. O objetivo da espiritualidade positiva é a harmonia, que deve realizar-se, na medida das possibilidades e em todos os âmbitos da existência humana

5.2.1.1.             Quando falamos em “todos os âmbitos da existência humana”, consideramos o seguinte: uma perspectiva geral da realidade (a visão de conjunto), que implica por sua vez uma concepção e uma regulação geral e coordenada da existência humana, em vários aspectos: (1) afetivos, intelectuais e práticos; (2) objetivos e subjetivos; (3) coletivos e individuais; (4) estáticos e dinâmicos; (5) de passado, futuro e presente

5.2.1.2.             Não podemos deixar de mencionar em particular o relativismo, que é o que permite apreciarmos e valorizarmos, sem incoerência, as espiritualidades anteriores, entendendo-as em particular como formas necessárias, mas transitórias e já exaustas

5.2.1.3.             É importante destacar e enfatizar que, ao contrário das espiritualidades anteriores, a espiritualidade positiva orienta a vida individual, mas não a separa da existência coletiva; mais do que isso: sem negar um espaço legítimo e necessário para a privacidade e para a vida doméstica, não há uma separação radical entre o público e o privado, de tal maneira que o privado prepara-nos para a vida pública e a vida pública consolida e desenvolve o privado

5.2.1.4.             O cérebro certamente é individual, mas isso não estabelece o individualismo: o ser humano – e, portanto, o cérebro humano, ou seja, a alma humana – só se constitui, desenvolve e amadurece a partir das relações com o ambiente, em particular e acima de tudo o ambiente social, ao longo de toda a vida (incluindo aí, é claro, a vida subjetiva)

5.2.1.4.1.                   A respeito do cérebro, Augusto Comte elaborou a concepção de que ele é uma “placenta dupla”, que nos liga ao passado e prepara-nos para o futuro (Cartas para o dr. Audiffrent)

5.2.2. Essas múltiplas relações todas foram indicadas por Augusto Comte no início de algumas de suas obras:

5.2.2.1.             De maneira breve, no Catecismo positivista (final da “1ª Conferência”, p. 67): “[...] A religião positiva abraça ao mesmo tempo as nossas três grandes construções contínuas, a poesia, a filosofia e a política. A moral, porém, aí domina sempre, quer o surto de nossos sentimentos, quer o desenvolvimento de nossos conhecimentos, quer o curso de nossas ações, de modo a dirigir sem cessar nossa tríplice pesquisa do belo, do verdadeiro e do bom”

5.2.2.2.             De maneira breve, no Apelo aos conservadores (começo da “Primeira Parte”, p. 27): “[...] É tão impossível ficarmos relativos sem nos tornarmos simpáticos como [é impossível] ficarmos orgânicos sem nos tornarmos relativos, sobretudo a respeito do campo principal de nossas concepções [o ser humano], em que só o amor nos dispõe a construir e nos permite apreciar”

5.2.2.3.             De maneira mais longa, na Síntese subjetiva (início da “Introdução”, p. 1-2): “Subordinar o progresso à ordem, a análise à síntese e o egoísmo ao altruísmo; tais são os três enunciados, prático, teórico e moral, do problema humano, cuja solução deve constituir uma unidade completa e estável. Respectivamente próprios aos três elementos da nossa natureza, esses três modos distintos de formular uma mesma questão são não apenas conexos mas equivalentes, vista a dependência mútua entre a atividade, a inteligência e o sentimento. Malgrado sua coincidência necessária, o último enunciado ultrapassa os dois outros, como sendo o único relativo à fonte direta da comum solução. Afinal, a ordem supõe o amor e a síntese não pode resultar senão da simpatia: a unidade teórica e a unidade prática são então impossíveis sem a unidade moral; assim, a religião é tão superior à filosofia quanto à política. O problema humano pode finalmente se reduzir a constituir a harmonia afetiva, ao desenvolver o altruísmo e comprimir o egoísmo: desde então o aperfeiçoamento subordina-se à conservação e o espírito de detalhe, ao gênio de conjunto”

5.3.    A espiritualidade positiva busca a harmonia: ora, essa harmonia é obtida por meio da subordinação do egoísmo ao altruísmo

5.3.1. Mas, quando falamos da subordinação do egoísmo ao altruísmo, por vezes isso fica um pouco abstrato, etéreo: assim, convém esclarecer esse aspecto

5.3.2. Cada pessoa tem suas particularidades e sua vida; ao viver, suas necessidades, suas preocupações, seus projetos são bastante concretos (mesmo quando são questões mais intelectuais)

5.3.2.1.             Além disso, cada pessoa vive a própria vida e ninguém mais pode vivê-la; cada pessoa deve viver a própria vida: em última análise não tem opção de não a viver e, por isso, cada um tem a legitimidade de ser quem é

5.3.2.2.             Esse aspecto fundamental da vida de cada um foi enfatizado pelo filósofo espanhol Ortega y Gasset, ainda que ele tenha utilizado sempre um esquema metafísico para descrevê-lo (é a sua metafísica vitalista)

5.3.2.3.             Na “Carta filosófica sobre a proteção patrícia”, que é a carta de Augusto Comte a John Stuart Mill de 15 de dezembro de 1845 que lemos nas duas prédicas anteriores (https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2025/03/sobre-protecao-dos-ricos-e-poderosos-ao.html e https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2025/03/protecao-patricia-ao-sacerdocio-parte-2.html), vemos com clareza Augusto Comte afirmando a legitimidade de suas necessidades, de suas pretensões, de suas cobranças institucionais

5.3.3. Ora, cada um dever viver a própria vida, cada um ter a legitimidade para ser quem é – isso corresponde precisamente à individualidade, ou melhor, nos termos positivistas, isso corresponde à personalidade, ou ao egoísmo

5.3.4. Assim, em si mesmo o egoísmo não é algo errado; não devemos pedir licença para vivermos e sermos quem somos

5.3.5. Mas, por outro lado – e é essa a questão central para a Religião da Humanidade – a legitimidade do egoísmo não equivale nem pode equivaler ao descontrole do egoísmo: ora, o egoísmo só pode ser controlado e disciplinado por meio da afirmação do altruísmo

5.3.6. A afirmação do altruísmo deve ocorrer sempre; mas convém insistir: tal afirmação não nega o egoísmo, isto é, não nega a legitimidade do egoísmo: na medida em que continuamos a viver e a existir, nossas necessidades individuais e familiares continuam existindo, assim como o nosso temperamento e nosso caráter continua vigendo

5.3.7. A afirmação do altruísmo consiste, assim, em (1) fazer valer os princípios altruístas e em (2) orientar o egoísmo de maneira altruísta

5.3.7.1.             A orientação altruísta do egoísmo refere-se por sua vez aos meios empregados e aos objetivos buscados

5.3.7.2.             Uma outra forma de entender a afirmação do altruísmo, em termos mais diretamente positivistas, é por meio da ternura (desenvolvimento do altruísmo) e da pureza (compressão do egoísmo)

5.3.8. Assim, ao longo da vida de cada um, temos em um primeiro momento a afirmação do egoísmo e, depois, a afirmação do altruísmo

5.3.8.1.             A afirmação do egoísmo e a afirmação do altruísmo, embora tenham ocorrido nessa seqüência em termos históricos, não precisa mais ser assim após a tríplice transição ocidental e o desenvolvimento das pesquisas neurocientíficas; isso significa que pelo menos desde o século XIX o desenvolvimento do egoísmo pode e deve ser feito em conjunto com o desenvolvimento do altruísmo

5.3.8.2.             Esse desenvolvimento simultâneo do egoísmo e do altruísmo é muito claro no caso das crianças: a infância é uma fase em que, por definição, a individualidade desenvolve-se: ora, as melhores pedagogias têm clareza de que essa individualidade deve ser desenvolvida ao mesmo tempo em que ela é orientada para o altruísmo, ou seja, para o respeito aos demais, para a empatia, para a tolerância, para a cooperação etc.

5.3.9. A relação entre o egoísmo e o altruísmo é chamado por Augusto Comte de “o grande problema humano”: esse é o problema fundamental com que o ser humano tem que lidar; todas as outras questões vinculam-se ou referem-se, de maneira ou de outra, a essa questão

5.3.9.1.             Estamos insistindo muito nessa questão porque no Ocidente temos a concepção – na verdade, o preconceito – de que o ser humano é somente egoísta e que o altruísmo é uma forma disfarçada de egoísmo; em outras palavras, no Ocidente consideramos que todos são sempre egoístas e que o altruísmo não existe de verdade

5.3.9.2.             Esse preconceito, de origem cristã, é mantido e repetido pela direita (cristã e/ou liberal) e pela esquerda (especialmente a marxista, mas também as esquerdas revolucionárias e as pós-modernas)

5.4.    Um aspecto da espiritualidade positiva com que todos nós – isto é, todos os seres humanos – temos que lidar com freqüência é o da “pedagogia do erro”, ou a “pedagogia do fracasso”

5.4.1. Ao longo da vida cometemos erros, enfrentamos dificuldades, padecemos da dor: tudo isso é desagradável e por vezes é ruim, mas, enfim, viver é ter que lidar com isso

5.4.2. Podemos dizer muita coisa sobre isso, mas queremos insistir em um aspecto em particular: bem ou mal, precisamos errar, precisamos até sofrer para podermos aprender a lidar com essas dificuldades e, daí, para amadurecer

5.4.3. Amadurecer em grande parte consiste em aprender a lidar com essas dificuldades e esses problemas

5.4.4. Mas não se trata só de aprender a lidar com esses problemas: trata-se também de aprender a valorizar o que é bom

5.4.4.1.             Aliás, aprender a lidar com os problemas implica também aprender a não negar o que é bom

5.4.5. Como a respeito de muitos outros aspectos, a vida de Augusto Comte é exemplar a esse respeito: Clotilde de Vaux era realmente u’a mulher excepcional; mas Augusto Comte só foi capaz de perceber em toda a extensão e a profundidade essas qualidades de Clotilde devido aos longos e profundos sofrimentos de que ele padeceu em seu casamento com Carolina Massin

5.4.6. Em outras palavras: não se trata de buscarmos o erro, ou o fracasso, ou a dor, mas de reconhecermos que eles fazem parte da vida, que podemos e devemos aprender com eles e que, nesse aprendizado, devemos aprender a reconhecer, valorizar e buscar o que é bom, verdadeiro e belo

5.4.6.1.             A sabedoria prática resumiu esse aspecto na seguinte fórmula: “mudar o que é possível mudar, resignar-se ante o que não se pode mudar e saber distinguir um do outro”

5.5.    Outro aspecto com que a espiritualidade positiva tem que lidar é a simpatia como princípio e o egoísmo como realidade

5.5.1. Esse é um problema real, concreto e cotidiano: com freqüência queremos ser altruístas, gentis, simpáticos, mas as pessoas com quem lidamos não têm reciprocidade

5.5.2. O problema que surge, na verdade, é se é correto, ou se faz sentido, manter o primado da simpatia e do altruísmo; uma outra forma de entender esse problema é o seguinte: as pessoas de modo geral são altruístas ou egoístas?

5.5.3. A resposta, ou melhor, a orientação da Religião da Humanidade é a seguinte:

5.5.3.1.             Os seres humanos são ao mesmo tempo egoístas e altruístas; o egoísmo é mais forte e em maior número, mas estimulado o altruísmo vence e dirige o egoísmo

5.5.3.2.             Devemos então adotar como parâmetro geral a simpatia e o altruísmo, estando atentos para o comportamento alheio, se é altruísta ou egoísta; em outras palavras, devemos supor que todos são altruístas até que provem em contrário

5.5.3.2.1.                   Augusto Comte adotava precisamente esse princípio, mais ou menos nesses termos, como vemos em sua correspondência

5.5.3.3.             No fundo, trata-se da distinção entre teoria e prática: a teoria são sempre princípios gerais abstratos, que são postos à prova, empiricamente, na prática

5.6.    Feitos os comentários acima, convém lembrarmos o quadro da alma humana de Augusto Comte

5.6.1. O quadro da alma humana, elaborado por Augusto Comte em 1850, permite completar as lacunas mútuas que a neurociência e a psicologia (em particular das inúmeras metafísicas da psicanálise) deixam há quase 200 anos: no caso da neurociência, há um excesso de empirismo e falta de teoria da natureza humana; no caso da psicologia (e da psicanálise em particular), há um excesso de teoria e uma falta brutal de empirismo

5.6.2. A partir das investigações de Bichat, Gall, Spurtzheim e Broussais, Augusto Comte determinou 18 funções elementares: dez motores afetivos, cinco funções intelectuais e três qualidades práticas

5.6.2.1.             Os motores afetivos são os sete órgãos pessoais – do interesse (instintos nutritivo, sexual, materno, militar e industrial) e da ambição (orgulho e vaidade) – e os três órgãos sociais (apego, veneração e bondade)

5.6.2.2.             As funções intelectuais são a concepção passiva (contemplação – concreta ou abstrata), a concepção ativa (meditação – indutiva ou dedutiva) e a expressão

5.6.2.3.             As qualidades práticas são a atividade (coragem e prudência) e a firmeza (perseverança)

5.7.    A espiritualidade positiva é ao mesmo tempo afetiva, intelectual e prática

5.7.1. A parte afetiva consiste tanto na motivação fundamental do ser humano quanto o objetivo geral das nossas atividades

5.7.1.1.             Nós somos impulsionados pelos sentimentos para satisfazer esses sentimentos

5.7.2. A parte intelectual corresponde em parte a um instrumento, em parte a uma necessidade específica

5.7.2.1.             Como instrumento, a inteligência serve para conhecermos e entendermos o mundo, para daí agirmos

5.7.2.2.             Como necessidade específica, conhecer e entender o mundo, saber o que existe e o que acontece ao nosso redor: isso é uma necessidade específica que deve ser satisfeita

5.7.3. A parte prática é tanto um instrumento quanto um regulador da espiritualidade positiva

5.7.3.1.             A atividade prática é um instrumento porque é ela que realiza e concretiza os sentimentos e as idéias

5.7.3.2.             A atividade prática é um regulador porque é ela que estabelece os parâmetros da utilidade

5.7.4. É necessário notar que por mais que tenha necessariamente aspectos passivos, a espiritualidade positiva no seu conjunto é ativa: é por meio da atividade que realizamos a harmonia

5.7.4.1.             Como é pela atividade que realizamos a harmonia, essa obtenção da harmonia ocorre de maneira dinâmica, não estática

5.7.4.2.             O caráter ativo da espiritualidade positiva deve ser contraposto a várias formas místicas de espiritualidade teológica e espiritualista, que assumem aspectos passivos, em particular nas suas formas monásticas (de monges e mosteiros), que exigem o afastamento do mundo e da sociedade e buscam a contemplação

5.7.4.2.1.                   Em outras palavras, o aspecto prático da espiritualidade positiva ao mesmo tempo (1) evita em particular o misticismo e (2) estimula a sociabilidade humana (e, daí, o altruísmo)

5.7.4.3.             O aspecto prático da espiritualidade positiva fica evidente na mesma fórmula que combina a espontaneidade com a sistematicidade: “agir por afeição e pensar para agir”

5.7.5. Por fim, vale notar que a atividade prática como instrumento e como regulador impede que o Positivismo seja um quietismo

5.7.5.1.             Há pessoas, mesmo algumas que se dizem positivistas, que criticam a separação entre teoria e prática e criticam também a exigência lógica, moral e sociológica de que a preparação cultural deve anteceder a atuação política do Positivismo: não há quietismo em nada disso, apenas o reconhecimento de que mudanças políticas rápidas são sempre superficiais e com freqüência violentas, além de exporem ao ridículo o nosso programa

5.7.5.2.             Quem nos acusa de quietismo defende, na verdade, um “agitacionismo” ultrapolitizado próprio aos partidos políticos e/ou ao revolucionarismo; isso é o exagero e a desregulação da atividade prática, assim como o academicismo é uma forma de exagero e desregulação da inteligência e o misticismo, dos sentimentos

5.8.    A partir da experiência histórica, seja espontânea, seja sistemática, das religiões anteriores, o Positivismo adota e positiva uma série de instituições, procedimentos, práticas:

5.8.1. Alguns aspectos litúrgicos da Religião da Humanidade realizam diretamente a espiritualidade positiva, além de sempre nos estimularem e prepararem para essa mesma espiritualidade

5.8.1.1.             A oração positiva, os anjos da guarda

5.8.1.2.             Os sacramentos positivos, em número de nove

5.8.2. A incorporação do fetichismo à positividade, em termos afetivos, intelectuais e práticos

5.8.3. As propostas de culto positivista feitas por Richard Congreve e Raimundo Teixeira Mendes

5.9.    Para concluir: o conjunto da Religião da Humanidade e da espiritualidade positiva indicam com clareza que, com o Positivismo, toda a existência humana passa a ter ou volta a ter significado

5.9.1. Como Teixeira Mendes dizia com freqüência, a partir de Augusto Comte, “nada é indiferente para os sentimentos”

5.9.2. A espiritualidade da Religião da Humanidade satisfaz o ser humano em sua inteireza, em todos os seus aspectos: na vida privada e na vida pública; em termos afetivos, intelectuais e práticos

5.9.3. Muitos criticam-nos:

5.9.3.1.             Os materialistas, os cientificistas e também vários metafísicos espiritualistas acusam-nos de estabelecermos uma “clericalização geral da existência”; mas esses são os mesmos que criticam que o “capitalismo” transforma o mundo em algo sem alma, sem espírito, em que a existência humana é reduzida a atos mecânicos e sem sentido nenhum (liberais, marxistas, neokantianos, fenomenológicos – e também os positivistas heterodoxos, ou melhor, os positivistas incompletos)

5.9.3.2.             Os teológicos criticam-nos porque, para eles, o Positivismo teria dado um sentido caricato ao mundo; em outras palavras, os teológicos consideram que somente as ficções teológicas podem conferir sentido ao mundo (católicos, protestantes)

5.9.3.3.             Como é habitual e como não poderia deixar de ser, teológicos e metafísicos com freqüência unem-se contra o Positivismo e misturam seus argumentos, mesmo que essa mistura seja incoerente (Weber, Jean Lacroix)

5.9.3.3.1.                   Nos dias atuais não entendemos direito a espiritualidade antiga, nem o seu caráter amplo; podemos entendê-la um pouco no livro O nome da rosa, de Umberto Eco

5.9.3.3.2.                   Os materialistas e os academicistas costumam fingir que a ciência é, por si só, uma espiritualidade adequada; mas como o físico e filósofo Paul Feyerabend indicou (A ciência em uma sociedade livre), a ciência é insuficiente e, a esse respeito, é bem inferior à teologia

5.9.3.3.3.                   Os academicistas das ciências humanas também fingem que as ciências humanas, por si sós, são suficientes; mas, embora superiores às ciências naturais, elas por si sós não constituem uma espiritualidade, pois consideram só a inteligência e não satisfazem, não estimulam nem regulam os sentimentos, a atividade prática e mesmo a inteligência

5.9.3.3.4.                   Os revolucionários e os politicistas também fingem que seu ativismo é satisfatório: marxistas, feministas, revolucionários racialistas, nacionalistas, militaristas etc. todos sacrificam os sentimentos (em particular o altruísmo) e a inteligência em favor do ativismo político e de variados egoísmos

5.9.4. Ora, a Religião da Humanidade é de fato uma espiritualidade – e uma espiritualidade completa: ela dá sentido ao mundo, dá valor à realidade, dá orientação a todos e a cada um de nós; ela estimula o pertencimento, regula o egoísmo e estimula o altruísmo

5.9.4.1.             A Religião da Humanidade dá os motivos e os meios para combater o “capitalismo” sem alma; ela reverte radicalmente o “desencantamento do mundo”; ela substitui com enorme folga as ficções divinas

5.9.4.2.             Com a Religião da Humanidade, todas as nossas ações, todos os aspectos da nossa vida ganham sentido, das menores às maiores; com isso, temos parâmetros efetivos para viver bem, para sermos felizes, para praticarmos o bem – e, inversamente, para determinar o mal e evitá-lo e/ou combatê-lo

6.       Exortações finais

6.1.    Devido ao adiantado da hora, não apresentamos as exortações finais

7.       Término da prédica

 

Referências bibliográficas

Agliberto Xavier (port.): “Introdução”. In: Jorge Audiffrent: Opúsculos sobre o catolicismo

Augusto Comte (franc.): Sistema de política positiva

Augusto Comte (port.): “Cartas sobre a doença”

Augusto Comte (port.): Apelo aos conservadores

Augusto Comte (port.): Catecismo positivista

Jorge Audiffrent (franc.): Das doenças do cérebro e da inervação

Jorge Audiffrent (franc.): Do cérebro e da inervação

Jorge Audiffrent (port.): Opúsculos sobre o catolicismo

José Ortega y Gasset (port.): Em torno a Galileu

Paul Feyerabend (port.): A ciência em uma sociedade livre

Raimundo Teixeira Mendes (port.): O ano sem par

Raimundo Teixeira Mendes (port.): O culto católico

Ricardo Congreve (ingl.): Ensaios – discursos políticos, sociais, religiosos e históricos – 3 volumes

Umberto Eco (port.): O nome da rosa