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02 janeiro 2026

Festa da Humanidade (172/2026): esperança, altruísmo, acolhimento

No dia 1º de Moisés de 172 (1º de janeiro de 2026) celebramos a Festa da Humanidade, a mais importante comemoração possível.

Na celebração, como forma de homenagear a Humanidade e inspirar os seres humanos, sugerimos três coisas:

  1. substituir a raiva, esse sentimento tão disseminado atualmente e que consiste na violência estimulando o instinto destruidor, por algum outro, diretamente atruísta e construtivo: nossa proposta, na falta de melhor opção atual, é o lamento
  2. ao contrário do que os teológicos e os metafísicos afirmam, deixar para trás as noções das divindades não joga o ser humano em uma solidão cósmica: a Humanidade fornece apoio, companhia, conforto permanentes, não somente objetivamente e com seres humanos, mas acima de tudo subjetivamente e com os animais, as plantas e com o planeta Terra de modo geral; 
  3. a Humanidade fornece esperança - e, bem vistas as coisas, a Humanidade é o único ser que pode, realmente, satisfazer as nossas esperanças. 

A celebração foi transmitida nos canais Positivismo (https://youtu.be/sjHUhE3Ftg4?si=jONvWUCk6KXzvc5d) e Igreja Positivista Virtual (Facebook.com/IgrejaPositivistaVirtual/888302053642657).

As anotações que serviram de base para a exposição oral encontram-se reproduzidas abaixo.

*   *   *

Festa da Humanidade

(1º de Moisés de 172/1º de janeiro de 2026) 

1.     Abertura

2.     Retomaremos hoje algumas observações que fizemos ontem, quando realizamos a celebração da Festa Universal dos Mortos

3.     Antes de mais nada, um lembrete e um aviso necessário: a celebração de hoje não é uma prédica, mas é um momento puramente cultual

3.1.   Assim, embora sempre estimulemos a participação ao vivo, hoje isso não será possível, pois não é adequada

4.     No dia de hoje realizamos a celebração anual da festa de todos os seres humanos convergentes, a Festa da Humanidade, que é a mais importante do ano

5.     O calendário não tem por função apenas – na verdade, nem prioritariamente – regular a passagem do tempo, mas regular os cultos religiosos; assim, todos os dias podem e devem ser consagrados a alguma coisa e faz todo o sentido que o dia que inicia o ano seja dedicado à mais importante das celebrações

5.1.   Essa celebração integra ao mesmo tempo um ciclo e um desenvolvimento contínuo

5.1.1. Na verdade, a realidade humana é ao mesmo tempo cíclica e cambiante ao longo do tempo

5.2.   Reconhecer esse duplo caráter não é fácil; mais uma vez: isso gera dificuldades para cada um de nós no dia a dia e mesmo os intelectuais têm grandes problemas para entendê-lo

5.3.   Na verdade, esse duplo aspecto integra a realidade cósmica:

5.3.1. Há fenômenos que se repetem ao longo do tempo: de modo específico e exemplar, os fenômenos astronômicos (os dias, as fases da Lua, os anos, as estações)

5.3.2. Da mesma forma há fenômenos que se desenvolvem ao longo do tempo: de maneira muito clara, aqueles que se acumulam com o tempo, ou seja, as questões históricas (o desenvolvimento da Terra, as mudanças biológicas, a história humana propriamente dita, o desenvolvimento individual)

5.4.   O caráter ao mesmo tempo cíclico e evolutivo da realidade e, por extensão, do ser humano, é consagrado pelo Positivismo nas noções de “Estática” e “Dinâmica” e, considerando a filosofia política, na fórmula “Ordem e Progresso”

5.5.   O desenvolvimento histórico ocorre ao longo do tempo, sendo marcado ao mesmo tempo e necessariamente pelos aspectos cíclicos: daí a necessidade imperiosa de, ao longo de nossas vidas e de nossas histórias, celebrarmos periodicamente alguns valores e algumas concepções – na data da hoje, a Festa da Humanidade

6.     Afirmamos e repetimos hoje que a Festa da Humanidade é a mais importante comemoração do ano: ela celebra o verdadeiro Grão-Ser, ao qual dedicamos e devemos nossas vidas

6.1.   Há muito para falar sobre a Humanidade; em certo sentido, tudo pode e deve ser dito a seu respeito, na medida em que ela resume todos os conhecimentos e, antes, todos os sentimentos e todas as ações humanas

6.2.   Ontem, ao encerrar o ano anterior na Festa Universal dos Mortos, lembramos a subjetividade e demos um pouco de ênfase à gratidão: hoje, ao falarmos da Humanidade, queremos comentar como o lamento é mais altruísta que a raiva e que a Humanidade dá-nos acolhimento e esperança

6.3.   Mas, para isso, temos que nos lembrar de qual a noção de Humanidade

7.     Nosso mestre é muito claro no Catecismo positivista, no qual dedica um capítulo (a segunda conferência) à noção de Humanidade (Catecismo, 2ª Conferência, p. 72-74):

O SACERDOTE — Para o conseguirdes [uma noção mais clara da Humanidade], deveis, minha filha, definir em primeiro lugar a humanidade como o conjunto dos seres humanos, passados, futuros e presentes. Esta palavra conjunto indica-vos bastante que não se deve compreender aí todos os homens, mas só aqueles que são realmente assimiláveis, por efeito de uma verdadeira cooperação na existência comum. Posto que todos nasçam necessariamente filhos da humanidade, nem todos se tornam seus servidores, e muitos permanecem no estado parasitário, que só foi desculpável durante a sua educação. Os tempos anárquicos fazem sobretudo pulular, e demasiadas vezes florescer, esses tristes fardos do verdadeiro Grande Ser. [...]

Vedes assim que, a este como a qualquer outro respeito, a inspiração poética antecedeu muito a sistematização filosófica. Seja como for, se esses parasitas não fazem realmente parte da humanidade, uma justa compensação vos prescreve de agregardes ao novo Ente Supremo todos os seus dignos auxiliares animais. Toda útil cooperação habitual nos destinos humanos, quando exercida voluntariamente, erige o ser correspondente em elemento real dessa existência composta, com um grau de importância proporcional à dignidade da espécie e à eficácia do indivíduo. Para avaliar este complemento indispensável, basta imaginar que ele nos falta. Ninguém hesitará, então, em considerar tais cavalos, cães, bois, etc., como mais estimáveis que certos homens.

Nesta primeira concepção do concurso humano, a atenção volta-se naturalmente para a solidariedade, de preferência à continuidade. Mas, conquanto esta seja a princípio menos sentida, por exigir um exame mais profundo, é a noção dela que deve finalmente prevalecer, porquanto o surto social pouco tarda em depender mais do tempo que do espaço. Não é só hoje que cada homem, esforçando-se por apreciar o que deve aos outros, reconhece uma participação muito maior no conjunto de seus predecessores do que no de seus contemporâneos. Semelhante superioridade manifesta-se em menores proporções nas épocas mais remotas, como o indica o culto comovente que sempre nesses tempos se rendeu aos mortos [...].

Assim, a verdadeira sociabilidade consiste mais na continuidade sucessiva do que na solidariedade atual. Os vivos são sempre, e cada vez mais, governados necessariamente pelos mortos: tal é a lei fundamental da ordem humana.

7.1.   Resumindo de maneira muito grosseira as observações acima, podemos entender a Humanidade como o conjunto dos seres humanos convergentes passados, futuros e presentes, em que há uma realidade subjetiva (os seres humanos mortos e os ainda não nascidos) e uma realidade objetiva (os seres humanos atualmente vivos), em que a continuidade histórica subjetiva é mais importante e relevante que a solidariedade objetiva; além disso, o aspecto de “convergência” refere-se às ações altruístas, construtivas, relativistas etc. É importante indicar que os animais úteis incluem-se na Humanidade e, por vezes, merecem mais essa inclusão que muitos seres humanos

7.1.1. Na medida em que é objetiva e subjetiva, a Humanidade é também um ser abstrato e concreto: ela existe realmente, ela atua de verdade, mas sua existência e sua atividade dependem dos seres humanos concretos, vivos; sua existência e sua atividade tornam-se mais claras em termos subjetivos, isto é, abstratos, quando examinamos essa atuação ao longo do tempo

7.1.2. A idéia de um grande ser que se desenvolve ao longo do tempo e que, ao mesmo tempo, atualiza-se e realiza-se apenas por meio dos seres humanos vivos – uma deusa real que “é filha de seu filho” – exige, necessariamente, um conceito claro e, mais ainda, uma representação física: é por isso que a Humanidade tem um conceito claro e uma imagem igualmente clara

7.1.3. A Humanidade não são as ficções teológicas (politeístas, monoteístas, panteístas, deístas), nem são as abstrações metafísicas (“Natureza”, “Povo”, “Sociedade”, “Raça”, “Classe”, “Patriarcado”), nem é um ser sem rosto e sem forma: a Humanidade é uma deusa verdadeira, real, que existe concretamente mas que depende de seus filhos para manter-se e desenvolver-se; ela não é puramente abstrata, suas qualidades não são atributos arbitrários necessariamente impossíveis de serem verificados e provados; inversamente, ela não é uma abstração genérica sem sede, sem agentes, sem nome, sem representação física; por fim, a Humanidade, ao idealizar todos os nossos melhores traços (a começar pelos nossos aspectos morais), é representada necessariamente por u’a mulher para englobar todos os seres humanos

7.2.   A noção de Humanidade não se esgota nessas características que apresentamos; daqui a pouco veremos outras características tão importantes quanto belas; mas, de qualquer maneira, é importante lembrarmos que a Humanidade realiza os atributos da positividade, da mesma forma que ela constitui o clímax de cada uma das leis dos três estados:

7.2.1. A partir da positividade, a Humanidade é real, útil, certa, precisa, relativa, orgânica e simpática

7.2.2. A partir das leis dos três estados, a Humanidade (1) é positiva (ou seja, é relativa); (2) é pacífica, construtiva, convergente; (3) é universal, tanto no espaço quanto, principalmente, no tempo, nas concepções filosóficas e na fraternidade

8.     A noção de Humanidade orienta-nos claramente para o altruísmo, para o amor e para a paz; mas a nossa época é cada vez mais caracterizada pelas denúncias de crimes, de injustiças, de violências: em tal situação, a resposta mais comum – e é a mais comum porque é a mais difundida e é a mais estimulada – é a raiva em face de tais problemas

8.1.   Ora, como lidar com isso? Isto é, como lidar com a raiva?

8.2.   Em face das injustiças, é muito comum que as crescentes quantidade e intensidade das denúncias contra elas conduzam a um pessimismo generalizado em relação ao ser humano, resultando em que se considera que o ser humano “não prestaria”, ou que as coisas “não teriam salvação” etc.

8.2.1. Em outras palavras, embora nominalmente busquem a melhoria das condições humanas, o fato é que a quantidade e a intensidade das denúncias conduzem, contraditoriamente, à desesperança, o que não faz o menor sentido

8.2.2. O que está em questão aqui, evidentemente, não são as denúncias por si sós: o problema consiste em ficar apenas nas denúncias e não se preocupar com as soluções, pois isso por um lado estimula o pessimismo e, por outro lado, afasta a busca de concepções gerais (logo, de soluções gerais)

8.3.   Associada às denúncias contra as injustiças e resultado direto dessas denúncias, temos o sentimento da raiva, que, segundo a lógica afetiva, torna-se por sua vez o móvel de novas denúncias (bem entendido: denúncias desesperançadas)

8.3.1. Mas a raiva, por mais poderosa que seja – e todos sabemos como ela de fato é poderosa – consiste apenas em uma reação violenta e destruidora em face de alguma situação que consideramos ruim ou problemática; em outras palavras, a raiva é uma reação profunda e violenta do instinto destruidor

8.4.   A raiva e o pessimismo com freqüência andam de mãos dadas e retroalimentam-se, da mesma forma que eles afastam a serenidade e a esperança; aliás, a raiva, em particular, sendo a manifestação (1) violenta do (2) instinto egoísta destruidor, afasta também o altruísmo e o amor

9.     O que propomos aqui é que, em vez de estimularmos e promovermos a raiva, em vez de propormos a raiva como o sentimento fundamental ante situações que julgamos ruins, degradantes, injustas etc., procuremos sentimentos que sejam ao mesmo tempo diretamente altruístas e que reconheçam o aspecto problemático das situações que denunciamos

9.1.   Neste momento, propomos então o lamento no lugar da raiva

9.1.1. Eu sugiro aqui o lamento porque é o sentimento que me vem à mente agora; entretanto, tenho clareza de que ele tem, ou pode ter, um déficit de energia e que, portanto, talvez outro sentimento seja mais adequado para ser proposto: estou ansiosamente aberto a sugestões

9.2.   É certo que a raiva conduz-nos diretamente para a ação, ou seja, tem um aspecto ativo muito evidente, ao passo que o lamento tem um aspecto mais passivo; isso nos parece realmente uma dificuldade, ainda que não seja uma dificuldade insuperável

9.3.   Mas, de qualquer maneira, a questão que nos parece central aqui é que, embora seja extremamente ativa, o ativismo próprio à raiva não compensa a violência que ela mobiliza, nem a destruição que ela busca realizar; em outras palavras, os aspectos negativos da raiva superam muito os seus aspectos positivos

9.4.   Mantendo o lamento como uma sugestão (portanto, com um caráter provisório), o fato é que o lamento reconhece as injustiças, os problemas, as situações degradantes, mas não conduz à violência nem nos submerge no egoísmo destruidor: o lamento é o altruísmo mantendo-se altruísta e reconhecendo uma situação injusta e que deve mudar

9.5.   O lamento apresenta um outro aspecto importante, ao rejeitar a violência e a destruição: ele mantém a esperança – a esperança de que as coisas podem melhorar e a esperança de que as coisas têm condições reais de melhorarem

9.6.   A substituição da raiva como sentimento padrão em face dos problemas que vivemos por sentimentos realmente altruístas não é algo secundário: na verdade, é uma necessidade urgente, em vista do altruísmo, da paz, da fraternidade, da esperança

10.   Falamos em esperança: a única verdadeira esperança que podemos ter é a dada pela Humanidade

10.1.               A Humanidade dá-nos esperança de múltiplas formas:

10.1.1.   Ao ser a única e verdadeira providência humana, ou seja, o único e verdadeiro ser que realiza as coisas e que, portanto, é capaz de melhorar as coisas

10.1.2.   Ao definir-se pelo altruísmo, pela paz, pela fraternidade, pela realidade e pela utilidade, ou seja, ao dispor dos meios e dos sentimentos capazes de melhorar as coisas

10.1.3.   Ao afirmar sempre, com clareza, que os melhoramentos são sempre, antes de mais nada, melhoramentos morais, depois intelectuais e somente por fim melhoramentos materiais/físicos (ou seja, melhoramentos do amor, da ordem e do progresso)

10.1.4.   Ao evidenciar que, por mais problemática que com freqüência seja a existência humana, o progresso ocorre de verdade e que, ao longo do tempo, nossos antepassados legaram-nos melhoramentos efetivos, que podem e devem ser agora e sempre utilizados, aprofundados e ampliados

10.2.               A metafísica dissolvente, o pessimismo próprio ao denuncismo incessante, a violência destruidora própria à raiva – tudo isso converge de maneira tão intensa no mundo atual que mesmo pessoas que se dizem positivistas, ou que estão na órbita do Positivismo, muitas vezes repetem esse pessimismo e são incapazes de entender e de sentir a efetividade da esperança dada pela Humanidade

11.   Se falamos da esperança no sentido de correção de injustiças, a Humanidade também nos dá esperança em outro sentido: não vivemos sozinhos no mundo

11.1.               O espírito metafísico, sendo a negação da teologia, considera que a existência humana começa e termina ao tratar das divindades; da mesma forma, a metafísica, ao negar os deuses, consegue apenas afirmar o individualismo egoísta e/ou afirmar uma “solidão cósmica

11.1.1.   Só o fato de limitar-se à teologia evidencia o quanto a metafísica é restrita e superficial; entretanto, infelizmente, como já indicamos em muitas vezes anteriores, a nossa época é profundamente metafísica (em particular devido à influência daninha dos Estados Unidos e, de modo geral, dos protestantismos), de modo que a crítica à teologia mantém como resultados o individualismo, a anarquia e/ou a “solidão cósmica”

11.1.2.   Essas três conclusões metafísicas da crítica à teologia (individualismo, anarquia, solidão cósmica), que não esgotam as possibilidades metafísicas, são bastante claras nos ambientes anglossaxões, como Nietzsche e Max Weber exemplificam de maneira gritante (o que, aliás, é mais que motivo para deixar-se de lado tais autores)

12.   Afirmamos há pouco que a noção de Humanidade é esperançosa: como dissemos, não se trata apenas da esperança de melhorias, mas de esperança também no sentido de conforto, ou melhor, de acolhimento; em outras palavras, com a Humanidade os vícios morais, intelectuais e práticos decorrentes da metafísica não se verificam

12.1.               Sem nos determos nos vícios do individualismo e da anarquia, podemos perguntar com clareza: como é possível falarmos em “solidão cósmica”, em “isolamento”, em falta de apoio, quando, na, pela e com a Humanidade todos nós vivemos em meio aos outros seres humanos, que nos dão apoio, conforto, estímulo? Como podemos com sinceridade falar em “solidão” quando vivemos cercados da memória constante dos mortos?

12.2.               O sentido positivo da religião já deixa claro que não somos nunca sozinhos, mesmo que estejamos eventualmente isolados: a religião é o religare, é o “religar”, é o ligar duas vezes – ligar-nos internamente pelo amor, ligar-nos externamente pela fé

12.3.               A Humanidade, como vimos antes, é acima de tudo os mortos e quem ainda não nasceu; assim, a Humanidade é acima de tudo subjetiva: como é possível estarmos subjetivamente sozinhos, em solidão, se subjetivamente estamos cercados de fraternidade, de apoio, de afeto?

12.3.1.   Nesse sentido, por exemplo, a oração positiva é um instrumento poderosíssimo para relacionar-nos uns aos outros: os nossos anjos da guarda estão sempre conosco, enriquecendo, aquecendo e melhorando nossas vidas

12.4.               Mas a Humanidade não é somente os seres humanos: ela incorpora necessariamente também os animais úteis, muitos dos quais se sacrificam por nós, além dos animais domésticos: quem pode dizer, com sinceridade, que o seu cão de estimação, ou seu gato, ou seu papagaio, ou até seu cavalo ou porco, não faz parte da família? Apenas de maneira arbitrária, cruel e irracional rompem-se os vínculos que ligam o ser humano ao conjunto dos seres vivos; apenas de maneira arbitrária, cruel e irracional os teológicos, mas também muitos metafísicos, afirmam que só o ser humano é “racional”, é “verdadeiramente sociável”, que o planeta Terra é para usufruto exclusivo dos humanos

12.5.               A Humanidade, na generosa e genial elaboração de nosso mestre, amplia-se radicalmente, ao estabelecer o neofetichismo, no qual a síntese inicial é incorporada à síntese final

12.5.1.   Com o neofetichismo foi possível a nosso mestre estabelecer a Trindade Positiva, ultrapassando de maneira radical os desrespeitos teológico-metafísicos pelo planeta e por nossa existência; com a Trindade Positiva, o ser humano finalmente voltou a viver em um ambiente terno, aconchegante, afetivo, no qual a luta pela existência, embora ainda exista, torna-se subjetivamente menos dura e, ao mesmo tempo, mais recompensadora

12.5.2.   A Trindade Positiva é composta pelas seguintes entidades: o Grão-Meio, o Espaço, que é apenas afetivo e no qual têm lugar os fenômenos naturais abstratos; o Grão-Fetiche, a Terra, caracterizada pelos sentimentos e pela atividade, mas não pela inteligência, na qual nossas existências têm lugar e ao qual devemos diversos cultos; por fim e acima de tudo, o Grão-Ser, a Humanidade, dotada de sentimentos, atividade e inteligência, capaz de orientar sua ação com vistas à melhoria da realidade

13.   Na Festa da Humanidade, em meio a tantas possíveis homenagens e reflexões, creio que as duas que apresentei – o abandono da raiva como sentimento-padrão e a afirmação do caráter aconchegante do Grande Ser – permitem entendermos e valorizarmos um pouco mais e melhor a nossa deusa verdadeira

14.   Para terminar estas reflexões, recitaremos um belo poema de Generino dos Santos, Ato de fé positivista 

*   *   * 

ATO DE FÉ POSITIVISTA 

Credo quia demonstrandum[1]. 

Creio em Ti, Grande Ser, Mãe carinhosa,

Que, em teu fecundo seio imaculado,

Engendraste o presente do passado

Conformado o porvir que Te endeusa.

 

             Tudo que sou, t’o devo – És bondadosa

Providência Moral que me há guiado;

Pois, sem Ti, todo amor fora pecado,

Toda ciência egoística e vaidosa;

 

             Eu que, outrora, sem Ti, lutava a esmo,

Por Ti me agito – e teu sofrer partilho,

Partilho teu destino afortunado.

 

Ó Virgem Mãe! Ó Filha do teu Filho!

Que eu ame mais a Ti do que a mim mesmo,

E nem a mim, senão por ter-Te amado! 

*   *   * 

15.   Término



[1]Creio porque pode ser demonstrado”. 

02 janeiro 2025

Generino dos Santos: "Vergine Madre"

Na celebração da Festa da Humanidade de 171 (1.Moisés.171/1.1.2025), recitamos alguns poemas logo no início do evento.

Um desses poemas é de Generino dos Santos e reproduzimo-lo abaixo.


Poema de Generino dos Santos

(In: Humaníadas, v. 2, livro 3, Rio de Janeiro, Jornal do Comércio, 1940.)

 

VERGINE MADRE

 

(Ante o painel de Décio Villares)

 

Ó virgem! Ó filha do teu filho!

Que eu ame mais a Ti, do que a mim mesmo,

E nem a mim, senão por ter te amado.

Oração de Augusto Comte

 

            Onde achar um painel mais delicado

Que possa humanamente idealizar-te

Com mais engenho e mais sublime arte,

Virgem-Mãe, o ideal concretizado?

 

            Sobre o Planeta em flor, florido prado,

Caminhas, e em redor, por toda parte,

Se ergue a natureza para amar-te,

– Da planta à ave, e d’ave ao gênio alado.

 

            E prossegues na senda triunfante

Da evolução humana, humana a fronte,

Tendo nos braços teu paterno infante.

 

            Quem és, que ao ver-te alarga-se o horizonte?

Trazes, Amada eterna o eterno Amante?

És bem Clotilde? É ele Augusto Comte?

 

Rio, 3 de Gutenberg de 103. (15 de agosto de 1891).


Martins Fontes: "O poema da Humanidade", "O homem Humanidade"

Na celebração da Festa da Humanidade de 171 (1.Moisés.171/1.1.2025), recitamos alguns poemas logo no início do evento.

Dois desses poemas são de José Martins Fontes e reproduzimo-los abaixo.


Poemas de José Martins Fontes

(In: Nos jardins de Augusto Comte, Rio de Janeiro, 1938)

 

O POEMA DA HUMANIDADE

 

- Qu’est-ce que c’est une grand vie?

Une pensée de jeunesse realisée dans l’âge mûr

Alfred de Vigny

 

Assombro! Assombro! Espanto dos espantos!

De Augusto Comte a obra final seria

Um poema, sem exemplo, em XIII Cantos

XIII ascensões surgindo em sinfonia!

 

E, complemento estético, epopéia

E enciclopédia, insolorantemente,

Compendiária, em música européia,

Revoluções e surtos do Ocidente!

 

A língua destinada a essa grandeza,

Devera ser, glorificando a raça,

A italiana, em que a lírica beleza

Tem o aroma suavíssimo da raça!

 

Dante seria o pregador do poema,

Paradisíaco, ardoroso idílio,

Como, sendo diverso embora o tema,

Na Divina Comédia, o foi Virgílio!

 

As idéias do Mestre, os pensamentos

Dele, ornariam, clarificadores,

Traduzindo afeições e sentimentos,

As estrofes sagradas, como flores.

 

Ouvíramos assim: – A Humanidade,

(Ou cadeia dinâmica dos entes,

Mortos e vivos), em continuidade,

É o conjunto dos seres convergentes.

 

– Para instituir o bom, o verdadeiro,

Buscar, mas rima a rima, elo por elo,

O motivo moral, o fim ordeiro,

Segundo a excelsa concepção do belo.

 

– Sim, o Positivismo tem deveres,

E convicções impõe, mas esta escola,

Aos espíritos dá tantos prazeres,

Que disciplina, instrui, rege e consola.

 

– A Virgem-Mãe nosso ideal governa,

E, esclarecendo a fé, o amor inspira.

Pela Saudade, na Viuvez Eterna,

Choram todas as cordas desta lira.

 

Amar! Pensar! Agir! Sonhar! Sonhemos

Essa epopéia, essa sublimidade,

Que seria, em seus cânticos supremos,

A elevação do Homem à Humanidade!

 

O HOMEM HUMANIDADE

 

Homem, tudo fizeste! A Humanidade inteira,

Destinada a sofrer, acorrentada à dor,

Salvaste, redimiste! E a crença, justiceira,

Pela demonstração, tu conseguiste impor!

 

O constante castigo humilhava. À cegueira

Das várias religiões, revelaste, Senhor,

Que a poesia concentra a razão verdadeira,

Que a razão verdadeira é a poesia do Amor!

 

Deste, mais do que nós, a grandeza do exemplo,

Organizaste. E foste o farol, o fanal

Que, ensolarando a terra, extasiado, contemplo!

 

E, supremo esplendor do teu gênio, afinal,

Legaste às gerações que virão ao teu templo,

Sobre a paz da consciência a paz universal!


01 janeiro 2025

Celebração da Festa da Humanidade - 171/237 (2025)

No dia 1º de Moisés de 171 (1.1.2025) realizamos a celabração da Festa da Humanidade

Aproveitando o ensejo dessa importantíssima comemoração, apresentamos alguns dos que consideramos serem os desafios do Positivismo no século XXI.

A celabração foi transmitida nos canais Positivismo (aqui: https://youtube.com/live/RnXVQPQ87XE) e Igreja Positivista Virtual (aqui: https://www.facebook.com/IgrejaPositivistaVirtual/videos/571441322456943/).

As anotações que serviram de base para a exposição oral encontram-se reproduzidas abaixo.

*   *   *

Celebração da Festa da Humanidade – 171/237 (2025)

 


1.      Início:

1.1.   Invocação inicial

1.2.   Leitura de poemas de Generino dos Santos (Vergine Madre) e Martins Fontes (O poema da Humanidade, O homem Humanidade)

2.      Hoje é dia 1º de Moisés, dia da Festa da Humanidade

2.1.   O dia de hoje inicia o ano 171 da era normal, ou 237 da transição revolucionária

2.2.   A Festa da Humanidade é a mais importante celebração positivista, pois é quando celebramos o verdadeiro ser supremo, o ser supremo que dá nome à religião real, humanista, relativa, pacífica, altruísta, fraterna: a Religião da Humanidade

2.2.1.Assim, é motivo da mais profunda alegria e satisfação percebermos que é um hábito universal (ou melhor, cada vez mais universal) a celebração da fraternidade universal justamente neste dia, em que iniciamos um novo ciclo

2.3.   No calendário positivista, a Festa da Humanidade segue-se sempre à Festa Geral dos Mortos e, nos anos bissextos, também à Festa das Mulheres Santas

2.3.1.Essa seqüência permite-nos ao mesmo tempo nos lembramos dos nossos entes queridos, recuperarmos nossas energias e retomarmos nossos esforços em favor de nossos familiares, nossos compatriotas, nossos amigos, nossos colegas e a todos os seres humanos

2.3.2.Na noite de ontem tivemos a felicidade de ouvirmos e assistirmos a uma belíssima celebração da Festa das Mulheres Santas por nosso amigo Hernani Gomes da Costa (aqui: https://www.youtube.com/watch?v=O8t7kh4jS8U&t=11s)

2.4.   A renovação periódica de nossos votos e de nossas energias não é somente uma coincidência astronômica, devida à volta anual do nosso belo e querido Grão Fetiche – o planeta Terra – ao redor do Sol, na translação, mas é uma necessidade moral e social

2.4.1.Com certeza que a translação importa-nos muito e influencia poderosamente a vida de cada um de nós, mas é em termos superiores que a renovação cíclica é importante, ou seja, em termos biológicos, sociológicos e morais

2.4.2.Em termos biológicos, trata-se de que alternamos sempre períodos de atividade e de descanso, diária, semanal e anualmente; a vida humana é atividade, mas precisamos parar com freqüência para descansar e recuperar as energias

2.4.3.Em termos morais, além do descanso físico necessário, precisamos com freqüência parar também para refletirmos se nosso comportamento é adequado, ou seja, se é convergente, se é útil e também se é eficiente; se os sentimentos que inspiram e orientam nossas ações são altruístas e se estimulam o altruísmo de nossos irmãos na Humanidade

2.4.3.1.           A necessidade de pausas para reflexão é tão grande que nosso mestre, Augusto Comte, recomendava que nos ocupássemos de tais reflexões três vezes por dia (na forma da oração positiva), uma vez por semana (no culto semanal) e várias vezes por ano (na forma dos cultos doméstico e público)

2.4.4.Indo diretamente ao ponto: a necessidade moral do culto deve-se a que os impulsos egoístas em si mesmos são tantos e tão intensos e as dificuldades práticas da vida são também tantas, tão intensas e tão propensas ao egoísmo que é necessário reafirmar constantemente o altruísmo, por todos os meios possíveis e disponíveis – e mesmo todos esses meios são com freqüência insuficientes para nossas necessidades

2.4.5.Daí também a necessidade sociológica de renovações cíclicas de nossas forças, de nossos sentimentos altruístas e de nossas reflexões convergentes: a celebração coletiva por um lado orienta o conjunto da sociedade e, a partir disso, por outro lado, orienta e reforça em cada um de nós nosso altruísmo e nossa convergência

2.5.   A Festa da Humanidade, então, a partir da lembrança agradecida de nossos antepassados e nossos antecessores, retomadas nossas forças morais, intelectuais e práticas, é uma festa de esperança, alegria e altruísmo

3.      Justificada a importância do culto à Humanidade, passemos à celebração da própria Humanidade

4.      A Humanidade é o verdadeiro ser supremo; é ao mesmo tempo uma idealização intelectual e artística que estimula e orienta nossos sentimentos, nossos pensamentos e nossas atividades práticas, e uma realidade que se desenvolve ao longo do tempo, que nos fornece tudo o que temos e que permite que sejamos tudo o que somos

4.1.   A Humanidade, portanto, é a verdadeira providência: ela dá-nos alimentos, valores, idéias e orientação; ela dá-nos acolhimento, pertencimento e todas as possibilidades de que gozamos; ela dá-nos alegria, felicidade, metas; ela dá-nos palavras, imagens, riquezas; ela dá-nos nossas famílias, nossos amigos, nossos trabalhos, nossas pátrias, nossos concidadãos; ela dá-nos os meios de conhecer e utilizar o Grão Fetiche, nosso lar comum, e também o Grão Meio, o espaço abstrato que nos permite pensar para agir conforme o altruísmo

4.2.   As tendências metafísicas prevalecentes em nossa época, ou seja, as tendências destrutivas e críticas estabelecem como algo próprio dos “bens pensantes” a consideração de que a Humanidade não presta, de que os seres humanos são desprezíveis: alegadamente esse exercício dos “bens pensantes” teria por objetivo a valorização do ser humano e o progresso!

4.2.1.Essa consideração “crítica” – que não é, como se deseja e como se propagandeia, crítica no sentido de “consciente” e “realista”, mas apenas e cinicamente destruidora – desvaloriza o ser humano, nega o altruísmo, afirma apenas o egoísmo e também nega o progresso, isto é, o desenvolvimento histórico do ser humano

4.2.2.Se, por um lado, fazemos celebrações cíclicas, temos que nos lembrar que o desenvolvimento ao longo do tempo é verdadeiro, é real: embora nossas celebrações sejam cíclicas, a história da Humanidade não é a repetição cíclica das mesmas tendências – e, em particular, não é a repetição cíclicas das mesmas más tendências

4.3.   A Humanidade, além disso, é um ser composto, que por sua vez é objetivo e subjetivo:

4.3.1.A Humanidade existe e age por meio de seus órgãos vivos, os servidores da Humanidade, que também foram chamados por Augusto Comte de “agentes” da Humanidade, com isso querendo indicar que cada um de nós, a partir das condições sociais em que surgimos e vivemos, temos agência, ou seja, capacidade de ação

4.3.2.Cada um de nós existe concretamente, de maneira objetiva; ao mesmo tempo, nossas ações, bem como nossos sentimentos e nossas idéias, são condicionados e orientados pelo conjunto do que recebemos de nossos antepassados e de nossos antecessores; isso implica a subordinação sociológica das nossas vidas e evidencia o aspecto subjetivo de nossas existências

4.3.3.Se, durante nossas vidas objetivas, somos servidores da Humanidade, nem por isso a integramos: devemos tudo a ela e todos os nossos esforços são em seu favor, mas a incorporação à Humanidade implica o merecimento, ou seja, um esforço ativo e consciente, ao longo de nossas vidas, considerando as situações objetivas e subjetivas, sociológicas e individuais de cada um: apenas sete após a transformação individual de cada um, em que passamos da vida objetiva para a imortalidade subjetiva, é que se decide se cada servidor da Humanidade pode ser efetivamente incorporado a ela e, assim, se merece ou não um culto público específico

4.4.   Como dissemos antes, a Festa da Humanidade, então, é e deve ser uma celebração de paz, alegria, felicidade, esperança e altruísmo

4.4.1.Nossa época metafísica e crítica infelizmente entende manifestações de alegria, esperança, altruísmo como formas de alienação, de autoengano, de negação dos problemas e das dificuldades: essa é uma forma lamentável, triste e degradante de entender o ser humano

4.4.2.A Festa da Humanidade não finge nem nega as dificuldades próprias ao ser humano; mas, ainda assim, a celebração clara, direta, pura dos sentimentos generosos é necessária: são o amor, a esperança, a alegria que tornam a vida digna de ser vivida e compartilhada e que, assim, justificam os esforços que realizamos para enfrentar as dificuldades e os problemas; além disso, como comentamos antes, em face da maior energia do egoísmo e do estímulo que a vida prática dá ao egoísmo, precisamos sempre reafirmar constantemente os sentimentos generosos – máxime quando celebramos diretamente o verdadeiro Grande Ser

5.      Após celebrarmos a Humanidade, queremos aproveitar a ocasião para tratarmos de uma outra ordem de reflexões; celebrar a Festa da Humanidade inclui também considerar o que o futuro reserva-nos, seja em termos de previsões cosmológicas, sociológicas e morais, seja, a partir disso, em termos de projetos futuros

5.1.   Há algumas semanas, um rapaz que tem estudado o Positivismo, em um grupo do Whattsapp fez uma pergunta, talvez como uma questão sincera, talvez como uma crítica disfarçada; quaisquer que tenham sido os motivos, a questão tem que ser enfrentada: quais são os desafios que o Positivismo deve enfrentar no século XXI?

5.1.1.Essa questão tem a ver com o equívoco tema da “atualização” do Positivismo

5.1.1.1.           Esse tema é equívoco porque quem afirma a necessidade de atualização – algo com que qualquer positivista de modo geral concorda sem dificuldade nenhuma – com freqüência pressupõe que quem é novo na Religião da Humanidade e/ou jovem, apenas porque é novo e/ou jovem, saberia o que é o Positivismo, saberia o que é adequado para o Positivismo e saberia em que deveria consistir essa atualização – todas essas assunções de uma arrogância escandalosa

5.1.1.2.           Tratamos dos sentidos possíveis da atualização do Positivismo e da arrogância demonstrada por muitos novos e/ou jovens respectivamente em nossas prédicas dos dias 10 de São Paulo de 169 (30.5.2023) (aqui: https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2023/05/sobre-comtismo-e-atualizacao-do.html) e 3 de Gutenberg de 169 (15.8.2023) (aqui: https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2023/08/orgulho-no-estudo-do-positivismo.html)

5.2.   Para tratarmos dos “desafios do Positivismo no século XXI”, devemos considerar os desafios dos séculos XIX e XX; se não o fizermos, perderemos a historicidade da reflexão e a ação política não fará sentido

5.3.   Na pág. 480 do cap. 5 (“Apreciação sistemática do presente, a partir da combinação do futuro com o passado, donde quadro geral da transição extrema”) do vol. IV (“Contendo o quadro sintético do futuro humano”) da Política positiva Augusto Comte propôs sete medidas políticas gerais que a Religião da Humanidade e os positivistas deveriam perseguir

5.3.1.Essas medidas foram inspiradas pelo conjunto da história do Ocidente, em particular dos séculos XVIII e XIX

5.3.2.De qualquer maneira, todas essas metas mantêm-se atualíssimas, com as devidas mudanças devidas à alteração de contextos (ou seja, mutatis mutandis):

 

Medidas

Âmbito das medidas

Comentários

1

Liberdade especulativa com o fim dos orçamentos teóricos

Temporal

Necessários em todos os lugares

2

Substituição das Forças Armadas pela polícia

3

Instituição do triumvirato sistemático

4

Desenvolvimento do culto histórico

Espiritual

5

Estabelecimento das escolas positivistas

6

Ascendente do Positivismo sobre o comunismo

7

Decomposição dos grandes estados

Resume as duas séries anteriores

 

5.3.3.Essas medidas, claro, são precedidas e acompanhadas pela difusão do Positivismo, o que significa que são precedidas e acompanhadas pela propaganda da Religião da Humanidade, com a elaboração de materiais diversos, com a aplicação prática de nossas concepções, com a participação em debates públicos – e também com a formação de sacerdotes e apóstolos qualificados moral, intelectual e praticamente

5.3.3.1.           Bem vistas as coisas, a exigência de difusão do Positivismo está pressuposta nas metas 4 a 6 acima, em particular talvez na de n. 5 (escolas positivas)

5.3.4.Além disso, de maneira mais ampla e mais difusa, parece-nos que o objetivo de todas essas metas consiste em realizar e em dar concretude às características gerais do espírito positivo: real, útil, certo, preciso, relativo, orgânico e simpático, além de fraterno, histórico e objetivo-subjetivo

5.3.5.Assim, como uma sugestão pessoal nossa, poderíamos acrescentar itens 8, 8.1 e 9 à lista acima, ambos no âmbito do poder Espiritual, da seguinte forma:

-           Item 8: Constituição de um sacerdócio positivo

-           Item 8.1: Difusão e aplicação da Religião da Humanidade

-           Item 9: Realização e aplicação concreta do espírito positivo

5.4.   Considerando o conjunto do século XX, podemos considerar os seguintes desafios concretos, temporais e espirituais, que nos foram legados:

-           Temporais:

·                Afirmação radical do pacifismo e proscrição das guerras de conquista

·                Garantia das liberdades civis e política

·                Afirmação e defesa da dignidade humana

·                Apoio aos processos de descolonização, autonomia nacional e desenvolvimento nacional

·                Promoção da cooperação internacional pacífica, fraterna e construtiva

·                Combate aos fascismos e aos sovietismos

-           Espirituais:

·                Combate ao absolutismo academicista e ao cientificismo

·                Moralização urgente da ciência

·                Afirmação geral da positividade e combate geral à metafísica (moral, sócio-política)

5.4.1.Não é difícil de perceber que os desafios acima não medidas específicas; são, propriamente, “desafios”, isto é, problemas que nos exigem soluções

5.4.2.Da mesma forma, não é difícil perceber que os desafios acima podem e devem ser enfrentados por meio de aplicações práticas e específicas, ou até alternativas, dos objetivos indicados por Augusto Comte para o século XIX

5.5.   Considerando o quarto de século já transcorrido neste século XXI, podemos considerar os seguintes desafios temporais e espirituais:

-           Temporais:

·                Afirmação urgente da paz e da fraternidade universais

·                Apoio convicto à transição energética

·                Afirmação e estímulo à coordenação internacional e aos esforços nacionais para controlar e reverter a crise climática

-           Espirituais:

·            Afirmação e defesa da dignidade humana

·            Combate aos racismos e às discriminações

·            Combate aos identitarismos

5.5.1.Como dissemos a respeito do item anterior, não é difícil de perceber que os desafios acima não medidas específicas; são, propriamente, “desafios”, isto é, problemas que nos exigem soluções

5.5.2.Também não é difícil perceber que os desafios acima podem e devem ser enfrentados por meio de aplicações práticas e específicas, ou até alternativas, dos objetivos indicados por Augusto Comte para o século XIX

5.6.   Os tópicos que sugerimos acima, nos itens 3.3 a 3.5, por um lado são cumulativos de problemas que surgiram ao longo do tempo (por exemplo, a crise climática, a transição energética, o combate aos fascismos e aos identitarismos); mas, por outro lado, são formas atuais de desafios e necessidades antigos (a defesa das liberdades, a afirmação do altruísmo, do pacifismo, do relativismo)

5.7.   Como observamos antes, reconhecemos claramente que os tópicos acima de modo geral não são medidas específicas, mas são desafios a serem enfrentados; assim, eles apresentam um caráter menos específico que as medidas indicadas por Augusto Comte

5.7.1.Ainda que sejam menos específicas essas indicações, parece-nos que elas ainda assim permitem conjugar uma ampla possibilidade de atuação concreta dos positivistas com preocupações específicas em nossas vidas

5.8.   Por outro lado, importa insistir muito em que a centralidade da (1) reconstituição de um sacerdócio positivista (1.1) convergente, (1.2) bem formado, (1.3) atuante e (1.4) responsável impõe-se e antepõe-se a todas as metas acima: tal sacerdócio é condição preliminar para qualquer atuação posterior

5.8.1.Não foi por acaso que, no Apelo aos conservadores, nosso mestre afirmou com clareza e com todas as letras que a preocupação fundamental de todos os positivistas religiosos deve ser não a tomada do poder, mas a difusão do Positivismo

5.8.2.Um sacerdócio bem formado exige muitos aspectos sucessivos e, a partir disso, concomitantes: (1) ler Augusto Comte e os positivistas ortodoxos; (2) entender Augusto Comte e os ortodoxos; (3) viver as prescrições, orientações e concepções de Augusto Comte; além disso, é necessário conhecer o mundo e a sociedade em que se vive (mas, sendo bem franco, essa exigência nem precisaria ser lembrada, na medida em que ela com freqüência é afirmada mesmo para negar as exigências anteriores)

5.8.2.1.           Uma frase que era usada na Igreja Positivista do Brasil resume, pela negativa, o conjunto das indicações acima: como se dizia lá, “muitas pessoas entram no Positivismo, mas o Positivismo não entra nelas”, ou seja, são pessoas que passam a freqüentar o ambiente positivista, até passam a conhecer a doutrina, mas não a aplicam em suas próprias vidas, não sabem aplicá-la ao mundo e muitas vezes a distorcem sem o menor pudor (seja para justificar o injustificável, seja mesmo para o cúmulo de negar a Religião da Humanidade!)

5.9.   Os desafios do Positivismo são muitos, como, de resto, são os desafios que se impõem à Humanidade: a solução para uns e outros passa pelo mesmíssimo caminho, que é a difusão do Positivismo e do espírito positivo, com a reconstituição do sacerdócio positivo, convergente, altruísta e instruído

6.      Com essas reflexões, queremos concluir esta Festa da Humanidade, não apenas pela lembrança e pela reafirmação de seu amor, mas também pela indicação de que devemos amá-la e conhecê-la para sempre e melhor servi-la

6.1.   Invocação final