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10 abril 2026

Celebração de Clotilde

No dia 15 de Arquimedes de 172 (9.4.2026) realizamos a celebração de Clotilde de Vaux, nossa mãe espiritual.


As anotações que serviram de base para a exposição oral encontram-se reproduzidas abaixo.

*   *   *


Celebração de Clotilde de Vaux

(15 de Arquimedes de 172/9.4.2026) 

1.     Início

2.     Nos dias 9 e 11 de Arquimedes (3 e 5 de abril) celebramos o nascimento (1815) e a transformação (1846) de nossa mãe espiritual, Clotilde de Vaux

2.1.   Realizamos hoje, dia 15 de Arquimedes de 172 (9.4.2026), a celebração de Clotilde e não em outros dias devido a alguns motivos:

2.1.1. No dia 13 de Arquimedes (7.4) ficamos impossibilitados de realizar a prédica, devido a uma enxaqueca

2.1.2. Como indica Teixeira Mendes (O ano sem par, p. 782-783), nosso mestre decidiu que as cerimônias positivistas devem ocorrer às quintas-feiras

2.1.2.1.          Essa decisão decorreu, aliás, justamente, de dois acontecimentos ocorridos com  Clotilde, ambos em quintas-feiras: (1) a cerimônia de união espiritual entre ambos, de 28 de agosto de 1845 (batismo de Léon Marie, filho de Maximilien Marie, que teve como padrinhos Comte e Clotilde); (2) a extrema-unção de Clotilde, em 2 de abril de 1846.

2.1.3. Uma celebração dedicada unicamente a Clotilde, além de valorizar mais e melhor a nossa mãe espiritual, torna-se mais compreensível para o público

3.     A vida de Clotilde foi realmente sofrida

3.1.   Nascida em 3 de abril de 1815 com o nome de Carlota Clotilde Josefina Marie , filha do capitão Joseph Simon Marie e de Henriette-Joséphine de Ficquelmont,  casou-se com 20 anos com Amadeu de Vaux; após cerca de quatro anos de casamento, o marido acabou revelando-se mau-caráter, com falsificações, golpes e dívidas de jogo; ele fugiu, abandonando a esposa, que ficou largada à própria sorte; ele em seguida foi julgado réu revel e condenado: além de abandonada à penúria, Clotilde viu-se na degradante condição de carregar o sobrenome de um fugitivo condenado 

3.2.   Obrigada a voltar a viver com a família – ou seja, com os pais, com o irmão do meio (Maximilien) e sua cunhada –, não tinha renda própria, exceto uma pensão liberalmente concedida uma vez por ano por um tio conde, irmão de sua mãe e de sobrenome Ficquelmont, que ocupava um cargo de ministro na Áustria; esse dinheiro, embora fosse dedicado exclusivamente a Clotilde e desse-lhe um alívio material, era gerido ciosamente por sua mãe, que o empregava nos gastos familiares e não permitia que a própria Clotilde usasse-o: em outras palavras, ela estava reduzida à miséria, condição na qual sua família (sua mãe, na verdade), mantinha-a e pela qual era criticada – como se ela tivesse culpa disso e como se ela tivesse condições de evitar e/ou de sair dela!

3.3.   Após um certo tempo Clotilde envolveu-se em um romance, com um homem aparentemente casado; ela apaixonou-se perdidamente por ele e chegou a engravidar; ela acabou sofrendo um abortamento; as condições de casados de ambos impediram que o romance fosse levado adiante

3.4.   O irmão do meio de Clotilde, Maximilien, nascido em 1819, era aluno da Escola Politécnica e, desde antes de 1844, passou a ter aulas particulares de Matemática com Augusto Comte, aproveitando não somente o reforço didático como também as reflexões filosóficas e científicas; embora de modo geral Augusto Comte fosse um professor austero, ele acabou aproximando-se de Maximilien e tornando-se amigo de sua família, a quem passou a frequentar 

3.5.   A vida de Augusto Comte nessa altura era bastante solitária, basicamente ocupada com o trabalho (como professor e como filósofo); embora casado, Augusto Comte já tinha sido abandonado pela última vez por Carolina Massin em 1841; em 1842 ele concluiu a redação e a publicação da Filosofia positiva; desde 1841 ele residia no domicílio sagrado da rua Monsieur-le-Prince, n. 10, e contava com a assistência de Sofia: desde essa época até 1844, era essa a sua vida

3.6.   Em outubro de 1844, em uma das visitas de Augusto Comte à família Marie, ele por acaso conheceu a irmã de seu aluno; a partir daí, a vida solitária de nosso mestre reagiu sobre ele, aliada à simpatia que os sofrimentos de Clotilde despertaram nele e à relativa identidade desses sofrimentos; apaixonando-se por ela, em abril de 1845 ele escreveu-lhe uma carta, declarando-se

3.7.   Clotilde ficou surpresa com a intensa e inesperada declaração daquele austero filósofo e professor; a partir daí se seguiu uma belíssima troca de correspondência, em que nosso mestre aos poucos dá vazão aos seus sentimentos e com isso se controla e torna-se mais confiável para a jovem; por seu turno, Clotilde vai deixando seu susto e suas reservas e passa a confiar no filósofo; enquanto a troca de correspondência tinha lugar, nosso mestre continuava freqüentando a casa da família Marie, que passava assim a ter um atrativo adicional cada vez maior

3.8.   A paixão de Augusto Comte era muito intensa e foi a muito custo que ele controlou-a; esse controle deveu-se em grande medida à resistência pura de Clotilde, seja por sua pudicícia pessoal, seja porque nos primeiros meses da correspondência ela ainda se mantinha apaixonada pelo seu amante anterior

3.9.   Mas após cerca de seis meses, a situação resultou em um belo equilíbrio, em que nosso mestre afirmava com todas as letras que Clotilde poderia e deveria ser a mestre do relacionamento entre ambos; ao mesmo tempo, Clotilde confiava cada vez mais plenamente em nosso mestre, pedindo-lhe conselhos pessoais, de saúde, orientações filosóficas etc., além de fazer confidências pessoais e familiares

3.10.               Um aspecto belíssimo e notável é a preocupação mútua de cada qual: nosso mestre dava sugestões e estímulos para a carreira literária de Clotilde, que ambos viam como a forma de ela sair da penúria material e da relativa opressão familiar; Clotilde, por seu turno, preocupava-se que a paixão de Augusto Comte por ela afastasse-o de suas reflexões filosóficas

3.10.1.   A produção literária de Clotilde resultou, já naquela época, em vários poemas que ela escrevera antes, na novela epistolar Lúcia (largamente autobiográfica) e, no segundo semestre de 1845, no começo da redação do romance Guilhermina (no francês, originalmente Willelmine); além disso, as cartas escritas por Clotilde a Augusto Comte apresentam um tom filosófico e moral bastante intenso, revelando profundidade de espírito, intensa afetividade e emancipação filosófica

3.10.2.   Da parte de Augusto Comte, a paixão por Clotilde, em vez de distanciá-lo das reflexões filosóficas, renovou sua energia e seus temas; são dessa época inúmeras cartas filosóficas, sobre a celebração social (é a primeira Santa Clotilde, de 2.6.1845), sobre o casamento (12.1.1846), sobre o batismo cristão (28.8.1845)

3.11.               Já entrando no ano de 1846, a situação pessoal de ambos era precária: a saúde de Clotilde piorara muito, a perseguição academicista contra Augusto Comte retirara-lhe um de seus empregos; já a relação mútua entre ambos estava cada vez melhor, embora a família de Clotilde não confiasse na castidade desse relacionamento, passasse a apresentar obstáculos a Augusto Comte e impedisse Clotilde de administrar os recursos que ela recebia de seu tio austríaco; a partir de fevereiro de 1846 Clotilde adoeceu mais claramente e em março ela ficou cada vez mais prostrada; do final de março até o início de abril ela definhou, falecendo em 5 de abril

3.12.               A infundada desconfiança da família Marie para com Augusto Comte gerou equívocos e situações lamentáveis, que foram estimuladas pela situação desesperadora que todos eles atravessavam; em todo caso, nosso mestre manteve o apoio constante (e casto, convém notar), além de ceder os serviços de Sofia para Clotilde: nos termos de Clotilde, Sofia foi uma verdadeira irmã para ela, auxiliando-a de maneira importantíssima nas suas últimas duas semanas de vida; nesse período, Clotilde já se reconhecia apaixonada por Augusto Comte e retribuía o entendimento de que era sua esposa (subjetiva)

3.13.               As últimas palavras de Clotilde – “Comte, eu sofro sem ter merecido” – indicam o quanto ela dedicava-lhe profundo afeto e o quanto nosso mestre era realmente importante para ela

3.13.1.   O lamento de sofrer sem ter merecido, repetido várias vezes, além de ser extremamente preciso, também dão a indicação da redenção positiva da Humanidade: em vez de afirmar, com o catolicismo, que o ser humano atual sofre em virtude de supostos (e irracionais e imorais) crimes cometidos por seus antepassados (Adão) sob a influência negativa das mulheres, o Positivismo vê que sofremos sem merecer e que devemos agir para mudar esse quadro, melhorando o mundo, sob a inspiração da Humanidade e sob a influência benfazeja das mulheres

4.     Por que dizemos que Clotilde é nossa “mãe espiritual”?

4.1.   O amor dedicado por Augusto Comte a Clotilde forneceu-lhe o impulso, a direção e os elementos para que ele passasse da elaboração filosófica para a construção religiosa, ou seja, como ele dizia, para que ele passasse da carreira de Aristóteles para a de São Paulo; da mesma forma, esse amor permitiu-lhe realizar e satisfazer aspectos de sua vida que até então estavam tristemente represados e insatisfeitos: em outras palavras, com Clotilde nosso mestre realizou-se como ser humano: ao mesmo tempo e a partir disso, conseguiu ultrapassar o cientificismo e orientar-se com renovada e assombrosa energia ao desenvolvimento mais importante para o Positivismo, isto é, para o ser humano

4.1.1. O devotamento de Augusto Comte a Clotilde resultou na constituição das principais e mais importantes instituições do culto positivo: as orações, o culto privado, os anjos da guarda, vários dos sacramentos

4.1.2. Mas, ao mesmo tempo, esse desenvolvimento moral, afetivo e intelectual de Augusto Comte só foi possível porque Clotilde era realmente uma mulher superior, pelos sentimentos, pelo espírito e pelo caráter: ela era uma pessoa emancipada, que ao mesmo tempo entendia a importância histórica e social das instituições; era uma pessoa sensível, que sabia impor limites sem constranger os demais: não apenas Augusto Comte estabeleceu e reiteradamente reafirmou que Clotilde seria a diretora e juíza do relacionamento entre ambos, como ele também disse que, “para pensar como Comte seria necessário amar como Clotilde” (Teixeira Mendes, O ano sem par, p. 374-375)

4.1.3. As sete máximas de Clotilde, recolhidas por Augusto Comte em meio às cartas trocadas entre ambos, nas obras literárias de Clotilde e a algumas conversas pessoais, ilustram a sua superioridade

5.     A concepção de “mãe espiritual” estabelece o culto às mulheres e oferece um modelo e um início para o culto à Humanidade

5.1.   A mãe espiritual é u’a mulher, assim como, e não por acaso, a Humanidade: elas afirmam a superioridade moral das mulheres, que deve inspirar e orientar os sentimentos, as idéias e as ações dos homens

5.2.   A reverência e o culto que nosso mestre dedicou a Clotilde, como comentamos há pouco, inspiraram as principais características do culto à Humanidade

5.3.   Em virtude dessas múltiplas influências, Augusto Comte afirmava que a posteridade reconhecerá sempre, com justiça, que a Religião da Humanidade é uma criação tanto do próprio Comte quanto de Clotilde

6.     A concepção de “mãe espiritual”, muito mais que a mera adesão à Religião da Humanidade, estabelece com clareza a linha divisória entre os positivistas ortodoxos e os incompletos (ou cientificistas)

6.1.   É ao mesmo tempo triste e revelador dos hábitos mentais e morais contemporâneos, tanto de metafísicos quanto também de teológicos, que o nosso culto a Clotilde (a partir do culto a ela promovido por nosso mestre) seja sistematicamente desrespeitado e zombado: essas mesmíssimas pessoas, entretanto, ousam falar em dignidade da mulher, em dignidade do ser humano (embora às vezes falem, de maneira mais coerente, em cultuar apenas a divindade teológica, contra o ser humano), ao mesmo tempo em que elogiam implicitamente o cientificismo, ou afirmam que – para conveniência deles – o verdadeiro positivismo é, ou deveria ser, o cientificismo

6.2.   A noção de mãe espiritual também separa os positivistas completos de todos aqueles que rejeitam a noção de superioridade moral das mulheres – o que, por mais chocante que seja, inclui atualmente, acima de tudo, as próprias mulheres!

6.2.1. A rejeição da superioridade moral das mulheres baseia-se em uma concepção equivocada da dignidade feminina, mas tem como efeito a degradação moral da sociedade, a diminuição dos freios morais e afetivos à violência, o apoio à concepção materialista e brutal de que tudo na sociedade é apenas política, ou seja, poder, disputa, violência

6.2.2. Em outras palavras, a rejeição da superioridade moral das mulheres conduz, direta e indiretamente, à violência contra as mulheres, à misoginia e ao aumento do chamado “feminicídio”

7.     Leremos agora alguns poemas – alguns da própria Clotilde e outros compostos em sua homenagem

7.1.   O poema A infância  (com tradução de Teixeira Mendes)

7.2.   O poema fetichista Pensamentos de uma flor (com tradução de Teixeira Mendes)

7.3.   As sete máximas de Clotilde (publicadas pela primeira vez no Testamento de Augusto Comte e recolhidas por ele na correspondência sagrada, nas obras literárias de Clotilde e em conversas presenciais entre nossos pais espirituais)

7.4.   A Ave Clotilde de José Mariano de Oliveira (originalmente em italiano, com tradução do GPT para o português; ela será lida, mas deve ser cantada, ao som de Ave Maria, de Gounod)

7.5.   A Ave Clotilde de Henrique Batista da Silva Oliveira (originalmente em francês, com nossa tradução para o português; ela será lida, mas deve ser cantada, ao som de Ave Maria, de Gounod)

8.     Celebrar Clotilde faz-nos buscar ser melhores – mais afetivos, mais inteligentes, mais ativos –; ela faz-nos servir mais e melhor à Humanidade: é por isso que ela é e merece ser chamada de cofundadora da Religião da Humanidade, é por isso que ela é nossa mãe espiritual

9.     Término

 

Referências

- Auguste Comte (franc.), Síntese subjetiva (Paris, Exécution Téstamentaire d’Auguste Comte, 2ª ed., 1900): https://archive.org/details/lasynthsesubjec00comtgoog.

- Auguste Comte (franc.), Testamento (Paris, Exécution Téstamentaire d’Auguste Comte, 2ª ed., 1896).

- Augusto Comte (franc.), Sistema de política positiva (Paris. J.-B. Baillière, 4ª ed., 1880): https://archive.org/details/systmedepoliti01comt.

- Augusto Comte (port.), Apelo aos conservadores (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores.

- Augusto Comte (port.), Catecismo positivista (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 4ª ed., 1934).

- Gustavo Biscaia de Lacerda (port.), Prédica positiva “Sobre as máximas de Clotilde de Vaux” (Curitiba, Igreja Positivista Virtual, 3.César.169/25.4.2023): https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2023/04/sobre-as-maximas-de-clotilde-de-vaux.html.

- José Lonchampt (port.), Ensaio sobre a oração (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1896; catálogo da IPB, n. 165): https://archive.org/details/n.-165-jose-lonchampt-ensaio-sobre-a-oracao.

- Luís Lagarrigue (esp.), A poesia positivista (Santiago do Chile, 1890): https://archive.org/details/luis-lagarrigue-a-poesia-positivista-1890_202509.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), As últimas concepções de Augusto Comte (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-i e https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-ii.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), O ano sem par (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1900): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-o-ano-sem-par-portug._202312/page/n7/mode/2up. 

*           *           * 

A infância

(Clotilde de Vaux; tradução de Raimundo Teixeira Mendes)

 

Vem, criança gentil, mais perto... que m’encanta

Ver-te a madeixa loura, o meigo olhar formoso,

As graças naturais que têm tanto invejoso,

A fonte onde arde a inocência o templo seu levanta.

 

Vem, qu’eu gosto de ver-te o velho pai prezando

Mais que o ledo brincar que os anos seus molesta;

Gosto de ver fugir, dos beijos teus à festa,

A nuvem que, no olhar materno, ia assomando.

 

Gosto de ver o ancião que vai, a lento passo,

O humilde lar buscando, apoiado ao teu braço;

Gosto de ver-te a mão encheres, com carinho,

Do pobre que se senta à borda do caminho.

 

Por que se hão de ir embora encantos dessa idade,

Graças que as nossas mães com tanto amor afagam?

Os sonhos do porvir, por que se nos apagam?

Ah! Sim! É que é preciso um dia de saudade!

 

Os pensamentos de uma flor

(Clotilde de Vaux; tradução de Raimundo Teixeira Mendes)

 

Nasci p’ra ser amada: ó, graças, bom Destino!

Que os soberbos mortais praguejem teus azares!

O vento os arrebate aos pés de teus altares,

Eu tenho o meu perfume e o gozo matutino.

 

Tenho o primeiro olhar do rei da natureza,

Por gala o seu fulgor, seu beijo em chama acesa;

Tenho um sorrir de irmã da juvenil Aurora;

Tenho a brisa nascente a dulcidão que mora

Na gota pendurada à borda do meu cális.

Tenho o raio que brinca a se abismar nos vales;

Tenho o mago painel, a sena inigualada,

Do universo entreabrindo as portas da alvorada.

 

Jamais frio mortal haurir-me deve a vida:

No seio da volúpia a manso me adormeço;

Me guarda a natureza o esplêndido adereço;

Em seu festim de amor desperto embevecida.

 

Muita vez embelezo a formosura;

Num puro seio o meu candor se côa;

Enlaça-me o prazer n’alegre cr’ao,

E a seu lado me prende alma ventura.

 

                Quanto o rouxinol s’inspira

No meu talo em doce enleio,

Para não turvar-lhe o gorjeio

                               A natura inteira espira.

 

Amor me diz seus votos mais secretos;

Abrigo de seus ais grata saudade;

Dos seus mistérios zelo a f’licidade;

A chave sou dos corações secretos.

 

Ó! Doce Destino, se as leis que nos baixas

Suspiros profanos pudessem mudar,

Só eu haveria, nas diáfanas faixas,

De amor aos bafejos à vida tornar.

 

Da tempestade sombria

Poupa-me o horrendo furor;

Dá que sempre a leda flor

Nas tuas festas sorria.

 

As sete máximas de Clotilde (reunidas por Augusto em seu Testamento, p. 99)

 

-      É indigno dos grandes corações derramar as perturbações que sentem. (Lúcia, 7ª carta)

-      Que prazeres podem exceder os da dedicação? (Lúcia, 8ª carta)

-      Eu compreendi, melhor que ninguém, a fraqueza de nossa natureza quando ela não é dirigida para um objetivo elevado e que seja inacessível às paixões (T, p. 333)

-      São necessários à nossa espécie, mais que às outras, deveres para fazer sentimentos. (T, p. 374)      

-      Não há na vida nada de irrevogável senão a morte. (T, p. 419)

-      Todos temos ainda um pé no ar sobre o limiar da verdade. (T, p. 484)

-      Os maus têm com freqüência maior necessidade de piedade que os bons. (T, p. 537)

 

Ave Clotilde

(José Mariano de Oliveira)

(Cantada com a música da Ave Maria, de Gounod)

 

Ave, Clotilde

Esposa do Pai Supremo,

Que já ouviste, piedosa,

Sua dor sofrida;

Com Ele deste ao mundo

O fruto mais fecundo

Do mais profundo amor.

Santa Clotilde,

Por tua elevada virtude,

Acolhe em teu peito

Nosso imenso afeto,

Nossa gratidão.

Amém.

 

Ave Clotilde

(Henrique B. S. Oliveira)

 

Ave Clotilde,

De Comte, suave dama,

Que elevou ternamente

Seu nobre coração sofredor.

Saída dos dois, a mesma alma,

A dádiva, a mais fecunda,

Do amor, o mais profundo.

Santa Clotilde,

Por teu altruísmo pleno,

Acolhe em teu seio

A flor reconhecedora

De uma prece constante

Amém.

20 janeiro 2026

Celebração de Augusto Comte, Rosália e Rondon

No dia 19 de Moisés de 172 (19.1.2026) realizamos a celebração do nascimento de Augusto Comte; seguindo o calendário de comemorações da Igreja Positivista do Brasil, também celebramos a mãe de nosso mestre, Rosália Boyer. Por fim, fizemos uma breve menção a Rondon, cuja transformação ocorreu justamente em 19.1.1958.

A celebração foi transmitida nos canais Positivismo (https://youtube.com/live/emE1MZh85hM) e Igreja Positivista Virtual (https://www.facebook.com/100083198468982/videos/1848315862536670 e https://www.facebook.com/100083198468982/videos/1204025545275641).

As anotações que serviram de base para a exposição oral encontram-se reproduzidas abaixo.

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Celebração do nascimento de Augusto Comte

(19 de Moisés de 172 – 19 de janeiro de 2026) 

1.     Invocação inicial

2.     No dia de hoje retomamos as atividades regulares da Igreja Positivista Virtual

2.1.   Normalmente nossas atividades ocorreriam em uma terça-feira; mas como o aniversário de nosso mestre caiu neste ano em uma segunda-feira, decidimos antecipar em um dia a retomada de nossas atividades

3.     A celebração de hoje não é uma prédica: é um momento puramente cultual

3.1.   Dessa forma, ao contrário do comum das prédicas, hoje não serão possíveis perguntas, dúvidas, comentários em geral

4.     Na data de hoje celebramos o aniversário de nascimento de nosso mestre e pai espiritual, Augusto Comte, nascido em 19 de janeiro (19 de Moisés, na verdade) de 1798 – portanto, há 228 anos

4.1.   Sempre tomando em consideração o calendário de celebrações da Igreja Positivista do Brasil, na data de hoje comemoramos também a memória de Rosália Boyer (1764-1837), mãe de nosso mestre e um de seus anjos da guarda (juntamente com Clotilde e Sofia)

5.     Antes de celebrarmos nosso mestre e sua venerável mãe, devemos também lembrar uma outra data, que infelizmente acaba sendo deixada de lado: trata-se da transformação de Cândido Rondon, ocorrida em 19 de janeiro de 1958 – ela ocorreu, portanto, faz 68 anos

5.1.   Não podendo neste momento entrar em detalhes sobre a vida desse gigantesco positivista, devemos entretanto pelo menos indicar o mínimo de seu título de glória

5.2.   Rondon, explicitamente baseado e orientado pelo Positivismo, estabeleceu um padrão humano, altruísta, generoso – enfim, positivo em todos os melhores sentidos da expressão – de relacionamento entre as tribos indígenas e a civilização ocidental

5.3.   Cessando resolutamente o padrão de exploração e/ou extermínio dos povos indígenas, Rondon aplicou literal e zelosamente a máxima “Morrer se for preciso, matar nunca”

5.3.1. Com isso, Rondon aplicou na prática a política positiva recomendada por Augusto Comte, no sentido de que o Ocidente tem o dever moral de estar à altura de seu desenvolvimento, bem como de dar o exemplo a todos os demais povos no sentido de o que é a política positiva: pacífica, respeitadora dos demais povos

5.4.   É importante insistir que Rondon foi positivista, pois foi apenas a partir do Positivismo que essa política desenvolveu-se – e, aliás, apenas aqui no Brasil: os brasileiros e os estrangeiros não positivistas, bem como muitos dos positivistas não brasileiros, não a aplicaram, quando não a desprezaram

5.5.   Rondon inspirou inúmeros jovens, que, a partir de seu exemplo, seguiram sua atuação como sertanistas e indigenistas – em particular, muitos jovens positivistas

5.6.   Assim, enquanto tivemos Teixeira Mendes como um santo positivista, do ponto de vista moral e intelectual, tivemos Rondon como um herói (mas também como um santo) do ponto de vista prático

5.7.   Por fim, vale notar que, da minha parte, infelizmente só consegui dar-me plenamente conta da importância e da grandeza de Rondon com tardar e graças ao elogio que lhe dedicou Darcy Ribeiro, ao tratar de sua atuação no livro Os índios e a civilização

6.     Celebrar a vida e a obra de Augusto Comte é ao mesmo fácil e difícil:

6.1.   É fácil – pelo menos para quem é positivista ortodoxo – porque conhecemos bem o tema e não há propriamente dificuldade para a exposição

6.2.   Mas, por outro lado, é difícil porque é necessário fazer justiça à sua carreira e, ainda mais, à importância radical e profunda de sua obra – nada menos que a solução definitiva do problema humano, com a constituição da Religião da Humanidade!

7.     Ao mesmo tempo, há sempre uma certa exigência de ineditismo – mas apenas uma certa exigência, na medida em que, considerando o sempre presente relativismo, o pleno ineditismo por definição não é possível e, ainda mais, não é necessário

7.1.   Dessa forma, na presente celebração repetiremos algumas palavras que dissemos no ano passado (a respeito de Augusto Comte) e no ano retrasado (a respeito de Rosália)

7.1.1. Para a celebração de Augusto Comte, basear-nos-emos no que está disponível aqui: https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2025/01/celebracao-do-nascimento-de-augusto.html

7.1.2. Para a celebração de Rosália, basear-nos-emos no que está disponível aqui: https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2024/01/celebracao-de-rosalia-boyer.html

7.2.   Além disso, na sequência recitaremos dois poemas:

7.2.1. Oração anual, de Generino dos Santos

7.2.2. A Augusto Comte, de Charles Jundzill

8.     Passando à celebração de nosso mestre: devemos apresentar algumas breves notas biográficas sobre Augusto Comte; não pretendemos com elas expor um resumo completo de sua vida nem sermos detalhados, nem mesmo apresentar nenhuma novidade: o que importa é indicar as principais etapas de sua vida

8.1.   Nosso mestre nasceu Isidoro Augusto Francisco Xavier Comte, em 19 de janeiro de 1798, em Mompilher (Montpellier), no Sul da França, no departamento do Hérault; era filho de Luís-Augusto Comte e de Rosália Boyer Comte; teve dois irmãos menores, Alice (1800) e Adolfo (1802)

8.2.   Ele fez seus estudos iniciais em sua cidade natal; apresentava uma prodigiosa memória; com 16 anos, em 1814, foi aprovado em primeiro lugar para a Escola Politécnica, para cursar Engenharia em Paris, para lá se dirigindo em seguida; na capital conjugava estudos das ciências com estudos históricos, filosóficos e políticos, em um ambiente de republicanismo; mas foi expulso da Escola devido a uma sublevação estudantil

8.3.   Voltou a Mompilher, onde estudou Medicina por seis meses na famosa escola médica local; por decisão própria, voltou a Paris, onde obteve emprego como jornalista, com Saint-Simon; ele trabalhou com esse conde entre 1817 e 1824 enquanto continuava seus estudos e elaborava os fundamentos de sua obra; assim, em 1822 redigiu o seu “opúsculo fundamental”, o Plano dos trabalhos científicos necessários para reorganizar a sociedade, reeditado em 1824 e no qual fundou a Sociologia, ao apresentar a lei dos três estados, a lei da classificação das ciências e uma densa interpretação histórica da Europa moderna; também em 1825 casou-se com Carolina Massin, em um arroubo de generosidade somado à solidão que sentia

8.4.   Em 1826 suas reflexões científicas fundamentais estavam formuladas e começou a expor publicamente o Curso de filosofia positiva; entretanto, logo no início teve que suspender as exposições, pois sofrera um colapso nervoso, devido à tensão do curso, aos problemas conjugais (Carolina Massin era agressiva e infiel) e aos problemas financeiros; isso o levou a um internamento em uma clínica psiquiátrica, onde ficou por um ano e meio; depois que saiu, a fragilidade de sua situação levou-o ainda a tentar o suicídio: durante toda a recuperação, teve o apoio de sua mãe, Rosália, que, idosa, foi de Mompilher a Paris para ajudá-lo, e de sua esposa, Carolina, que, apesar dos pesares, soube cuidar do marido nessa fase; em 1828 Comte estava novamente em boas condições

8.5.   Em 1830 começou a publicação do Sistema de filosofia positiva, inicialmente chamado de Curso de filosofia positiva; deveria ter quatro volumes, mas teve seis e foi escrito até 1842; em 1841 Sofia Bliaux entrou para o serviço de Comte e, em seguida, Carolina saiu de casa pela última vez, embora o casamento não tenha sido rompido

8.6.   Em abril de 1845 Augusto Comte conheceu a irmã de seu aluno Maximilien Marie, Clotilde; apaixonou-se por ela e procurou aproximar-se dela (era amigo da família); ela era uma pessoa sofrida e pudica e que, por isso, impôs limites às tentativas de aproximação de nosso mestre; mas, apesar de seu ímpeto amoroso, a correção moral de nosso mestre soube respeitar a vontade, os sentimentos e o sofrimento de Clotilde, de modo que aos poucos o relacionamento amadureceu e a confiança mútua desenvolveu-se, com Augusto Comte moderando-se e com Clotilde abrindo-se para ele

8.7.   Os problemas de saúde de Clotilde, agravados por sua situação pessoal e familiar resultaram em seu óbito, em abril de 1846, após um “ano sem par”; a correspondência entre ambos é belíssima, notável e apresenta muitas das mais importantes produções do Positivismo, como as cartas filosóficas sobre a comemoração social, sobre o casamento, sobre o batismo, além das sete máximas, os poemas e as novelas de Clotilde (alguns dos quais, todavia, não eram inéditos); esse relacionamento, com uma mulher excepcional, foi o que permitiu e realizou a fundação da Religião da Humanidade e a ultrapassagem do cientificismo da Filosofia positiva

8.8.   Em 1848 Augusto Comte funda a Sociedade Positivista; nesse ano também começa a publicar as várias obras religiosas: o manifesto político-filosófico Discurso sobre o conjunto do Positivismo, no qual fala publicamente da Religião da Humanidade e do dogma da Humanidade; entre 1851 e 1854 publica a sua obra maior, o Sistema de política positiva, cujo subtítulo resume o seu objeto: “tratado de sociologia instituindo a Religião da Humanidade”; em 1852 publica o Catecismo positivista, em 1855 o Apelo aos conservadores, em 1856 o volume primeiro e único da Síntese subjetiva, além de uma extensa correspondência e um crescente círculo de discípulos

8.9.   Augusto Comte faleceu em 5 de setembro de 1857, talvez devido a câncer do estômago, deixando várias obras inconclusas e projetadas: os volumes 2 a 4 da Síntese subjetiva, livros didáticos, poemas épicos

9.     Vale a pena considerarmos a homenagem prestada a Augusto Comte: é normal, é natural que nós, positivistas, homenageemos nosso fundador; essa homenagem procura evidentemente seguir os parâmetros da Religião da Humanidade, isto é, do culto público, seguindo a orientação humanista, relativa, altruísta do Positivismo

9.1.   Nossa sociedade, seguindo um impulso que vem pelo menos desde o século XVIII, mas que lamentavelmente se intensificou no século XX, combina os hábitos mentais teológicos e a crítica destruidora metafísica, resultando em um ambiente mental e moral degradado, em que as noções de religião e de homenagem religiosa são entendidas como adoração teológica, isto é, com uma forma de adoração mística, fanática, intolerante, incapaz de realismo e de apreciação relativista

9.1.1. É dessa forma que, de maneira hipócrita e contraditória, tanto os teológicos e os metafísicos místicos quanto os metafísicos academicistas encaram o Positivismo, ou melhor, a Religião da Humanidade e o culto público

9.1.1.1.          Quem se mantém mais ou menos vinculado às ficções das divindades considera que a única forma verdadeiro de culto é a sua própria

9.1.1.2.          Aqueles que defendem o negativismo antiteológico, em sua emancipação incompleta, rejeitam qualquer forma de culto

9.2.   Esse amálgama de podridão moral e intelectual, misto de teologia e metafísica, atinge mesmo pessoas que se dizem positivistas ou que, de qualquer maneira, estão próximas de nós, na medida em que elas dizem que é necessário “ultrapassar” Augusto Comte ou, então, dizem ao mesmo tempo que a elaboração filosófica e política de Comte da fase da Religião da Humanidade apresenta aspectos brilhantes mas que a religião é uma concepção de um louco – repetindo, neste último caso, a difamação estimulada por Carolina Massin a fim de lucrar com a Filosofia e de destruir toda a produção religiosa de Augusto Comte (resultante, em última análise, de sua relação com Clotilde)

9.3.   O culto público e o culto privado – como, de resto, a parte cultual da Religião da Humanidade – não são formas de misticismo ou de fanatismo: são o reconhecimento da dívida de gratidão e de dívidas morais, intelectuais e práticas que todos temos para com nossos antecessores

9.3.1. Assim como um servidor da Humanidade deve merecer o culto, a contrapartida desse merecimento é exatamente a dívida de gratidão que devemos saldar e honrar

9.3.2. Além disso, vinculado ao culto e ao dogma da Religião da Humanidade, o neofetichismo fundamenta e dá corpo a essas práticas, satisfazendo necessidades fundamentais do ser humano, em termos de sentimentos, de imaginação, de relacionamento com o ambiente, com os animais, com os outros seres humanos

9.3.3. O culto da Religião da Humanidade, portanto, não é algo místico e fanático, mas, ao contrário, essas críticas é que são o podre amálgama de ciumento exclusivismo e de um seco intelectualismo

9.4.   Dito isso, podemos relacionar – mas sem nos estendermos a respeito – alguns dos elementos mais importantes da obra de Augusto Comte, ou seja, alguns dos elementos que justificam o culto público dedicado a ele:

9.4.1. Em nossas prédicas temos procurado sempre nos referir a produções de positivistas nossos antecessores, de modo a também os homenagear, a valorizar seus esforços e, assim, a combinar a ordem (no caso, a produção de nossos antecessores) com o progresso (nossa própria produção, feita considerando as questões contemporâneas a nós); assim, em 1915, o positivista inglês John Henry Bridges publicou o artigo “The Seven New Thoughts of the Positive Polity” no livro Ilustrações do Positivismo (p. 309-332), em que apresenta sete idéias centrais da política positiva[1]; são elas:

9.4.1.1.          A Humanidade

9.4.1.2.          O método subjetivo

9.4.1.3.          A teoria cerebral

9.4.1.4.          A Moral como ciência suprema

9.4.1.5.          A sociocracia baseada na separação entre os poderes Temporal e Espiritual

9.4.1.6.          A afinidade entre o fetichismo e o Positivismo

9.4.1.7.          O culto superior ao dogma

9.4.2. A relação acima é impressionante e de fato cobre várias das mais importantes concepções de Augusto Comte; vale notar que o fato de elas não serem muito conhecidas, mesmo hoje em dia, indica com clareza as limitações morais, intelectuais e políticas da nossa época

9.4.3. Além da relação acima, modestamente eu sugiro alguns outros itens, sem a menor pretensão de esgotar as possibilidades:

9.4.3.1.          A Religião da Humanidade

9.4.3.2.          As três leis dos três estados

9.4.3.3.          A Sociologia

9.4.3.4.          A classificação das ciências

9.4.3.5.          A teoria da classificação

9.4.3.6.          As concepções de ordem e progresso e a conciliação radical entre ordem e progresso

9.4.3.7.          A noção de altruísmo e sua compatibilidade com o egoísmo

9.4.3.8.          O conjunto do culto positivo

9.4.3.9.          A noção positiva dos “anjos da guarda”

10.   Devemos agora passar à celebração da venerável Rosália, mãe de nosso mestre

10.1.               No dia 19 de Moisés (19 de janeiro) celebra-se o nascimento de Augusto Comte; conforme o belo calendário estabelecido para os cultos públicos da Igreja Positivista do Brasil, também nessa data se celebra Rosália Boyer, mãe de nosso mestre e um de seus anjos da guarda. (Da mesma forma, no dia 5 de setembro celebra-se a transformação de nosso mestre – e Sofia Bliaux)

10.2.               Apesar da importância de Rosália, é notável que haja pouquíssimas indicações de sua vida. As biografias de Augusto Comte escritas pelo dr. Robinet (Notícia sobre a vida e a obra de Augusto Comte) e por José Lonchampt (Epítome da vida e dos escritos de Augusto Comte) apresentam apenas indicações gerais sobre ela, de modo geral relativas ao episódio da crise cerebral de 1826-1827. A biografia que apresenta mais dados sobre Rosália é a de Mary Pickering (Auguste Comte, An Intellectual Biography, v. 1), a despeito do desprezo da autora por Augusto Comte e pelo positivismo e do seu desejo de contradizer tudo o que a tradição positivista (e mesmo a não positivista, a exemplo de Henri Gouhier) disse sobre a vida de Augusto Comte[2]. Também nos valemos do belo volume cultual de Teixeira Mendes, Comte et Clotilde

10.3.               Rosália Boyer Comte nasceu Félicité-Rosalie Boyer em 28 de janeiro de 1764, na pequena comuna de Jonquières (no departamento do Hérault), e faleceu em 3 de março de 1837, em Mompilher (sede do Hérault) – portanto, com a idade de 73 anos

10.4.               A família de Rosália era de Jonquières; seu pai era mercador e vinha de uma conhecida família de doutores. Para os parâmetros da época, ela casou-se tarde, com 32 anos, em 1796, em Montpellier, e teve quatro filhos: Augusto (1798), Alice (1800), um logo falecido (em 1801) e Adolfo (1802). Na medida em que seu marido, Luís-Augusto Comte, passava a maior parte do tempo fora de casa, no trabalho, Rosália era a figura mais importante da casa; segundo a expressão de Augusto Comte em 1837, após a morte de sua mãe, ela também era a “figura mais apaixonada” da casa. Ainda segundo nosso mestre, fisicamente ele parecia-se com seu pai, mas suas características morais eram mais conforme sua mãe: seus sentimentos, sua inteligência, seu caráter. Apesar disso, as relações de Comte com sua mãe (e com seu pai) não eram muito próximas durante a infância de nosso mestre; os seus estudos foram realizados no liceu local, o que o afastava dos pais (e principalmente da mãe); mais tarde, com sua mudança para Paris, essa distância aumentou ainda mais, em particular devido às diferenças de opinião entre eles. Rosália era católica praticante e levava a sério as explicações teológicas da vida; além disso, ela compartilhava as opiniões monarquistas do seu marido

10.5.               Com a idade de 16 anos Augusto Comte foi admitido na Escola Politécnica, tendo obtido o primeiro lugar nos exames do Centro-Sul do país; a partir daí, apesar de uma temporada de retorno a Mompilher, Paris tornou-se a cidade do filósofo. Apesar disso, em Paris, as dificuldades financeiras, as opiniões políticas e filosóficas, as relações sociais (incluindo Saint-Simon) e, depois, também o casamento com Carolina Massin foram motivos de grande tensão entre Augusto Comte e seus pais

10.6.               A correspondência entre Augusto Comte e sua família (mãe, pai, irmã) indica reiterados pedidos de dinheiro da parte do filósofo, assim como cobranças da parte da família para que ele estabelecesse-se na vida, obtivesse um bom emprego, afastasse-se das más companhias, voltasse à religião católica etc. Isso gerou animosidade profunda de parte a parte, que só foi começou a ser revertida após a morte de Rosália, em 1837, e que só mudou efetivamente em 1855, com a reconciliação de Augusto Comte com seu pai

10.7.               Além dessa tensa e constante troca de cartas, o episódio mais importante da vida de Rosália para Augusto Comte já adulto foi o do acompanhamento da crise cerebral de 1826 e 1827

10.8.               Como se sabe, em 19.2.1825 Augusto Comte casou-se com Carolina Massin, contra a mais viva resistência dos pais. Um ano depois, em 2.4.1826, ele começou as aulas orais do “Curso de filosofia positiva”: entretanto, as enormes exigências intelectuais do curso, somadas ao comportamento reprovável de Carolina, bem como às dificuldades materiais do casal, conduziram Augusto Comte a uma crise nervosa após a terceira sessão do curso. Em 18.4.1826 Augusto Comte foi recolhido à clínica psiquiátrica do Esquirol, com o auxílio de Blainville. Mais tarde, no “Prefácio pessoal” do v. 6 do Sistema de filosofia positiva, de 1842, Augusto Comte observaria que essa crise por si só se resolveria naturalmente, caso o tratamento dispensado fosse o cuidado físico e a proteção moral; mas tanto o tratamento físico quanto os remédios aplicados por Esquirol e o ambiente alienado de sua clínica mantiveram e agravaram seu estado alterado

10.9.               Enfim, essa internação foi mantida em sigilo, para evitar prejudicar a reputação de Augusto Comte, de modo que nem a família Comte em Mompilher sabia do ocorrido. Mas o pai de Carolina escreveu uma carta à família Comte descrevendo o ocorrido; essa carta chegou em 17.5.1826: no dia seguinte Rosália partiu rumo a Paris, apesar da dureza e da duração da viagem e apesar de ter, à época, 62 anos e uma saúde mais ou menos frágil

10.10.             Sendo católica e detestando Carolina Massin, as primeiras ações de Rosália em Paris foram no sentido de tentar tirar Augusto Comte do Esquirol e/ou levá-lo para Mompilher ou interná-lo em alguma instituição católica. Como ambas essas iniciativas falharam, ela tentou em seguida realizar uma “intervenção” judicial, em que Augusto Comte seria tutelado por seu pai e residiria em sua cidade natal: uma reunião para essa intervenção realmente ocorreu, em 15.6.1826, mas, em face do estado do doente, foi necessária uma nova reunião subseqüente, que foi obstada por Carolina. A participação de Carolina em ambos os episódios foi depois considerada por Augusto Comte como a única ação verdadeiramente digna da sua esposa oficial

10.11.             A partir daí, Rosália e Carolina mais ou menos fizeram as pazes em prol do restabelecimento de Augusto Comte. Rosália só conseguiu autorização de Esquirol para ver o filho em 15.9.1826; em todo caso, Rosália ia à clínica todos os dias. Com a persistência do problema – e considerando os altos custos da clínica –, decidiu-se que seria melhor tirar Augusto Comte de lá, talvez para levá-lo a Montpellier; em 2.12.1826 ele voltou para o lar conjugal, onde, por insistência de Rosália e graças à intermediação do padre Lammenais, realizou-se imediatamente uma cerimônia católica de casamento, apesar de Augusto Comte não estar nas mínimas condições de participar dela. Após isso, Rosália partiu de Paris; reinstalado em sua casa, em um ambiente mais sadio, aos poucos ele recuperou sua normalidade. (Apesar disso, ao longo de 1827 ele manteve-se tenso e suscetível; assim, em abril desse ano ele tentou o suicídio no rio Sena, durante o dia. Salvo por um guarda real, envergonhado por sua ação, ele tomou a decisão de buscar ativamente o restabelecimento)

10.12.             Em agosto de 1828 Augusto Comte publicou o oitavo e último dos seus “opúsculos de juventude”, o exame do livro de Broussais sobre a irritação e a loucura. Por fim, em 4.1.1829, dois anos e meio após o início da primeira exposição oral do “Curso de filosofia positiva”, Augusto Comte reiniciou, desde a primeira lição, o curso

10.13.             Enfim: após a saída de Augusto Comte da clínica de Esquirol e a cerimônia católica de casamento, Rosália voltou a Mompilher; ela nunca mais veria o filho e este, desde 1825 (após o casamento com Carolina), nunca mais viu a mãe em condições de plena sanidade. Ainda assim, ao longo do primeiro semestre de 1827, ela enviou-lhe regularmente pequenas economias, para ajudar nosso mestre

10.14.             Quando Rosália faleceu em 1837, Augusto Comte aproveitou as viagens que ele fazia pelo Centro-Sul da França como examinador da Escola Politécnica para ir a Montpellier e visitar a família, hospedando-se na casa dos pais. Foi então que afirmou a importância da mãe em sua infância e em seu caráter; da mesma forma, a partir daí reconheceu – e lamentou – a relativa pouca influência que ela teve sobre ele, devida em parte ao sistema educacional de que participou, em parte devido ao que ele desejava para sua vida

10.15.             As limitações nas relações com sua mãe foram parcialmente corrigidas, e acima de tudo foram valorizadas e cultuadas, durante a carreira religiosa de Augusto Comte:

10.15.1.                 com o reconhecimento e com o lamento, no “prefácio” ao v. 1 do Sistema de política positiva, da sua falta de ternura para com sua mãe;

10.15.2.                 no Catecismo positivista, com a instituição dos “anjos da guarda”, em particular com os três anjos particulares de Augusto Comte: Clotilde, Rosália e Sofia;

10.15.3.                 com a previsão de dedicatória dos dois volumes da Moral positiva (volumes 2 e 3 da Síntese subjetiva, dedicados respectivamente à Moral Teórica e à Moral Prática) a Rosália;

10.15.4.                 com as suas preces cotidianas sendo dirigidas principalmente a Clotilde, mas também a Rosália e a Sofia;

10.15.5.                 com a sua planejada inumação entre seus três anjos da guarda.

10.16.             No velório de Augusto Comte, de 5 para 8 de setembro de 1857, lia-se a seguinte inscrição no caixão: “À la digne mère d’Auguste Comte, Rosalie Boyer, née le 28 janvier 1764, à Jonquières (Hérault), et dècèdée le 3 mars 1837, à Montpellier”[3].

10.17.             Rosália teve seus defeitos e, por vezes, agiu de maneira que não foi valorizada por Augusto Comte. Apesar disso – e essa restrição, o “apesar disso”, é central para nós –, ela foi uma pessoa que se preocupou, ao longo de toda a sua vida, com seus filhos e com sua família, mesmo que à distância; assim, literalmente, ela foi um anjo da guarda para Augusto Comte

10.17.1.                 Isso representa bem em que consiste a idealização proposta pelo Positivismo, ou melhor, pela Religião da Humanidade, especialmente no caso das mulheres: a dedicação com vistas ao aperfeiçoamento moral dos seres humanos

11.   Passemos à leitura de dois poemas em homenagem a nosso mestre:

11.1.               Oração anual, de Generino dos Santos

11.2.               A Augusto Comte, de Charles Jundzill

12.   Invocação final 

*   *   * 

ORAÇÃO ANUAL

A Augusto Comte incorporado

(Generino dos Santos)

 

In te misericordia, in te pietate,

In te magnificenza, in te s’aduna

Quantunque in creatura é de bontate[4].

(DanteDel Paradiso, Canto XXXIII, v. 19-21.)

 

             Tu, que ensinaste a amar a Humanidade,

E a conhecê-la por melhor servi-la,

Subordinando o egoísmo que aniquila

Do providente altruísmo à majestade;

 

E, sobre a lei da sociabilidade

De nossa espécie, a evoluir tranqüila,

O Grande Ser criaste, que assimila

E dá “quanto em Ti mesmo há de bondade”:

 

Mestre! alma obscura e agradecida

Que te ama, embora em cérebro inda inculto,

Vos deve a inteira e religada vida;

 

Em vem humildemente ante teu vulto,

Que paira sobre a espécie redimida,

Render-te esponte afetuoso culto.

 

(Rio, 24 de Gutenberg de 103 – 5 de setembro de 1891.) 

*   *   * 

A AUGUSTO COMTE

Esboço poético sobre o fundador do Positivismo[5]

(Charles Jundzill)

 

Quando em toda parte o solo

Sob os destroços se abala;

Quando o céu, de pólo a pólo,

Para que todo estala,

Nosso ânimo assombrado

Repousa o olhar desvairado

Nesse mundo a se arruir!

Buscando nesse naufrágio

O esperançoso presságio

Da salvação do Porvir.

 

Nosso séc’lo em desvario

Assim corria aos azares,

Qual se vê frágil navio

Entregue à fúria dos mares!

Saído da luta rude,

Que ameaçava a virtude,

Toda crença devorando,

Seu último íd’lo partido,

No vago desconhecido

Sem norte se ia engolfando.

 

Mas já por entre a ruína

Um novo símb’lo fulgura!

Grata luz nos ilumina

Que o mais belo dia augura!

Terrores de nossa idade,

Sumi-vos! Que a Humanidade

Jamais pode sucumbir!

Em vão se a crê que esvaece!

Engano! Rejuvenesce

Para um glorioso porvir...

 

A ti, Comte, a glória eterna

De, vencendo atrás torturas,

Achar a fonte superna

Da fé das eras futuras!

Debalde o Mundo em delírio,

Nas vascas do cru martírio,

Do erro a voz escutava;

Já teu gênio penetrante

De uma harmonia constante

As firmes leis formulava.

 

Enquanto a dúvida esgota

A seiva das velhas crenças,

Do tempo inquirindo a rota

As mutações lhe condensas:

E na onda movediça

Da evolução quebradiça

Das priscas opiniões,

Teu sublime engenho integra

Os elementos e a regra

Das modernas construções.

 

A ciência fica senhora

Quando a fé por fim naufraga.

Cada vez mais a vigora

Lei fatal que tudo esmaga.

Fornece ela o chão propício,

Alicerce do edifício

Da verdadeira união;

Teu labor por ela enceta,

E dela por ti completa

Tiraste a religião.

 

Do Mundo o extremo recesso

Sua luz já penetrara:

E da vida em seu progresso

A fértil lei desvendara;

Mas no ínclito sistema

Falta a ciência suprema

Que a meta final assina:

Revinha a questão urgente

Com que sempre a nossa mente

A Humanidade domina.

 

Dessa existência sem par

Restava ler os arcanos:

A marcha eterna apanhar

De seus passos soberanos!

Restava, e foi tua glória,

Traçar o plano da história

Que enfim nos fez descobrir

Como, nas eras correndo,

Qual da fonte um rio nascendo

Sai do Passado o Porvir.

 

Destarte finda, a ciência

As razões de tudo alcança;

Nessa base a inteligência

Os seus esforços descansa.

Desde então se mostra o mundo,

No seu concerto profundo,

A nossos livres olhares,

Como vasta economia,

Sujeita a certa harmonia

Sem caprichosos azares.

 

A Humanidade resume

As nossas cogitações;

A Ela sobe o perfume

Das mais santas afeições;

Foi Ela o ideal propício

Que pressentira o início

Dos povos na infância terna;

A Ela o homem se prostra,

E seu reino o fim só mostra

Da tempestade moderna.

 

Tal era o problema ingente

A que só teu gênio iguala!

O teu supremo ascendente

Toda dádiva avassala!

Que o vulto de nossas eras

Correndo após vãs quimeras

Os teus louvores postergue!

O Porvir, cujo mistério

Desvendaste, infindo império

Por entre bênçãos te ergue!

 



[2] As opiniões da autora são expostas ao mesmo tempo em que ela cita – mas não reproduz! – centenas de documentos, muitos dos quais inéditos; assim, os leitores temos pura e simplesmente que confiar na autoridade da autora. Inversamente, postura bem diversa foi adotada pelos positivistas: Miguel Lemos e Teixeira Mendes citavam extensa e profusamente Augusto Comte, tanto em português quanto em francês; da mesma forma, o dr. Robinet incluía em seus livros centenas de páginas de “peças justificativas”: com isso, qualquer leitor podia, como pode, avaliar as opiniões dos autores e historiadores a partir do cotejo direto com as personalidades citadas.

[3] “À digna mãe de Augusto Comte, Rosália Boyer, nascida em 28 de janeiro de 1764, em Jonquières (Hérault), e falecida em 3 de março de 1837, em Montpellier”.

[4] Segundo a tradução usada na Igreja Positivista do Brasil:

Em Ti misericórdia;

Em Ti piedade;

Em Ti magnificência;

Em Ti concorre

Tudo quanto no mundo

Há de bondade.

[5] Esse poema é de 1852 e foi originalmente publicado por Augusto Comte como quarto anexo do “Prefácio” do v. I da Síntese subjetiva (1856, p. L-LIII). Charles Jundzill era polonês; nascido em 1826, faleceu em 1856.

A presente tradução é de R. Teixeira Mendes e foi publicada no opúsculo n. 134 do catálogo da Igreja Positivista do Brasil (19 de Moisés de 113 – 19 de janeiro de 1901).