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05 setembro 2026

Transformação de Augusto Comte e celebração de Sofia

No dia 24 de Gutenberg de 172 (5.9.2026) realizamos a celebração religiosa da transformação de nosso pai espiritual, Augusto Comte. Seguindo o calendário de celebrações da Igreja Positivista do Brasil, nessa data comemoramos também a memória de Sofia Bliaux, filha adotiva de Augusto Comte.

A celebração foi transmitida nos canais Positivismo (https://youtube.com/live/O_IMkDdEX08) e Igreja Positivista Virtual (https://www.facebook.com/IgrejaPositivistaVirtual/videos/1073815898368611).

As anotações que serviram de base para nossa celebração encontram-se reproduzidas abaixo.

*   *   *



Celebração da transformação de Augusto Comte (172/2026)

(24 de Gutenberg de 172/5.9.2026) 

1.     Invocação inicial

2.     Hoje celebramos o 169º aniversário de transformação de nosso mestre e pai espiritual, Augusto Comte

2.1.   Essa é uma data importante, tanto pelo desastre religioso e subjetivo que representou para a Humanidade quanto pela acontecimento objetivo que ocorre com todos nós

2.2.   Seguindo o calendário de festas da Igreja Positivista do Brasil, comemoramos também Sofia Bliaux (1804-1861), a filha adotiva de Augusto Comte

2.3.   Esta nossa pequena celebração não será original – na verdade, nunca é possível, nem mesmo necessário, sermos nem sempre nem totalmente originais

2.4.   Com adaptações e modificações secundárias, retomaremos daqui a pouco três documentos: (1) a celebração de Sofia que realizamos em 169/2023; (2) o belo documento de Miguel Lemos, que é um verdadeiro poema em prosa, a Comemoração anual da morte de Augusto Comte, de 1884; (3) por fim, o belo poema de Teixeira Mendes, A hora terrível, de 1917 (?)

2.4.1. O documento de Miguel Lemos e o poema de Teixeira Mendes foram enviados por nosso amigo Hernani Gomes da Costa

2.5.   Ao lermos as celebrações de Miguel Lemos e Teixeira Mendes, nós reconhecemos a superioridade sintética desses outros nossos pais espirituais como, também, homenageamo-los

3.     Antes de passarmos às comemorações, algumas palavras sobre a “transformação”

3.1.   A transformação é um dos nove sacramentos positivistas – o oitavo –, o que marca a morte do servidor da Humanidade

3.1.1. A morte não é o fim da pessoa; certamente é o encerramento da vida objetiva, do processo de trocas contínuas e permanentes entre o corpo e o ambiente; mas isso não equivale a dizer que aquele servidor da Humanidade não atua mais: a sua atuação mantém-se e até aumenta, mas agora em termos puramente subjetivos

3.1.2. Lembramos as belíssimas frases da poetisa francesa Elisa Mercoeur, que não por acaso eram citadas por nosso mestre:

          “O olvido é o nada; a glória é a outra vida”

          “Quem deixa um nome pode morrer?”

          “A pedra do sepulcro é seu primeiro altar”

3.2.   Por que em termos positivos nós dizemos “transformação” e não “morte”?

3.2.1. Não se trata de um eufemismo, mas de uma afirmação da realidade subjetiva humana: embora triste por si só, a transformação encerra a vida objetiva e inicia plenamente a vida subjetiva de cada um de nós nos outros – ou seja, vivemos para os demais para revivermos nos demais

3.2.1.1.          O nascimento deve ser sempre valorizado, mas é com a transformação que podemos avaliar a atividade realmente desenvolvida pelos indivíduos e, daí, podemos avaliar se foram altruístas ou egoístas, construtivos ou destruidores etc.

3.2.1.2.          Dessa forma, o nascimento é apenas uma promessa: certamente, sempre uma bela e fundamental promessa, mas, ainda assim, apenas uma promessa, uma esperança, que pode ou não se realizar; por isso, é com a transformação que avaliamos e, ainda mais, que celebramos efetivamente a vida de cada um

3.2.1.3.          Assim, a data da transformação é realmente uma data para ser celebrada

4.     Entendido o que é a transformação, passemos, então, à celebração de Sofia

4.1.   No calendário da Igreja Positivista do Brasil, no dia 19.1 celebramos o nascimento de Augusto Comte e a memória de sua mãe, Rosália Boyer; no dia 8.10, celebramos a festa de Comte e Clotilde

4.2.   Assim, considerando a importância de Sofia para a vida de Augusto Comte e a instituição dos seus “três anjos”, no dia 5.9 celebramos Sofia

5.     Sofia Bliaux nasceu em 18.9.1804, na pequena comuna de Oissy, no Somme (Norte da França)

5.1.1. Assim, ela era seis anos mais nova que Augusto Comte e 11 anos mais velha que Clotilde

5.2.   Quando criança mudou-se com os pais para Paris, onde levava uma vida pobre, tendo que trabalhar desde cedo, sempre com humildade e devotamento

5.3.   A obediência e o devotamento aos patrões era tanta que solicitou aos patrões a permissão para casar-se (no que foi atendida); seu marido, Martinho Thomas, era entregador de uma farmácia próxima à rua Monsieur-le-Prince; foi usando esse serviço, para receber poções e cremes de beleza, que Carolina Massin travou contato com Martinho Thomas e, a partir disso, soube das dificuldades crescentes de Sofia, que cuidava sozinha de uma casa grande com crianças que cresciam

5.4.   Após muitas insistências de Carolina Massin, Sofia afinal passou ao serviço de Augusto Comte em 1841, um ano antes de Carolina abandonar definitivamente o lar conjugal; na verdade, na época Sofia entrou ao serviço de Carolina e não propriamente ao de nosso mestre

5.5.   Logo Sofia percebeu, por um lado, que Carolina era uma péssima esposa e que não dava paz de espírito a nosso mestre; por outro lado, ela percebeu que Augusto Comte era uma pessoa simples, de existência modesta, mas cuja atividade era intensa e que era inteiramente dedicada à renovação moral, intelectual e social e que, por isso, precisava de apoio material

5.5.1. A partir de uma humildade simples, confrontando a grandeza moral de Augusto Comte com sua própria existência modesta, ela entendeu que poderia e deveria dedicar-se a auxiliá-lo o máximo que pudesse

5.6.   Em 1842, quando Carolina Massin abandonou o lar pela última vez, Sofia permaneceu na rua Monsieur-le-Prince; mas, devido à vinculação inicial de Sofia com Carolina Massin, e devido à péssima experiência que tivera com sua ex-esposa, Augusto Comte desconfiava profundamente dela

5.6.1. Apenas com o passar do tempo, e considerando as simpatias de Comte para com os proletários, Augusto Comte foi reconhecendo a sinceridade da devoção de Sofia e tornando-a, bem como ao seu marido, uma companheira habitual em seu lar

5.7.   Quando o amor de Comte por Clotilde irrompeu, logo Sofia percebeu a importância disso para o filósofo e com freqüência atuava como mensageira entre ambos; depois também se tornou confidente de Clotilde

5.8.   Devido à sua triste história, a saúde de Clotilde era frágil; em suas últimas semanas (março de 1846), Sofia foi enfermeira, cuidadora e verdadeira irmã de Clotilde, tendo pernoitado 18 dias na casa de Clotilde, até seu falecimento

5.8.1. Após a morte de Clotilde, Sofia reconfortou Augusto Comte e mesmo o afastou de pensamentos de suicídio

5.9.   Em virtude da perseguição acadêmica que Augusto Comte sofria, em 1847 e, ainda mais, em 1848 ele perdeu seus modestos empregos acadêmicos; nesses dois anos, em 1847 e, depois, em 1848, Sofia e seu marido ofereceram suas economias para auxiliar Augusto Comte em suas despesas (despesas que em sua maior parte eram destinadas à pensão de sua ex-esposa); o primeiro oferecimento foi recusado, mas o segundo nosso mestre viu-se obrigado a aceitar

5.10.               José Longchampt (Epítome da vida e dos escritos de Augusto Comte, p. 85) afirma que Sofia converteu-se à Religião da Humanidade: “Foi por estas conversações diárias que Augusto Comte realizou, na única mulher que dele se aproximava, a primeira conversão à Religião da Humanidade”

5.11.               Reconhecendo os sacrifícios feitos por Sofia ao longo dos anos, não apenas em termos de salário e de alimentação, mas também em termos de convívio com sua família, em 1848 Augusto Comte convidou Martinho Thomas que fosse morar em seu apartamento com Sofia e seu filho, o que o casal aceitou

5.11.1.   Esse reconhecimento foi devido não apenas ao devotamento do casal, mas também devido à valorização da domesticidade e mesmo do casamento

5.11.2.   Dando continuidade à afirmação da domesticidade em sua própria vida, Augusto Comte proclamou Sofia como sua filha em 18.7.1850, na cerimônia de casamento do dr. Segond

5.11.3.   Mais tarde, a valorização de Sofia atingiu seu máximo com a consagração de ser indicada como um dos seus “três anjos”

5.12.               Após a morte de nosso mestre, Sofia recebeu de Augusto Comte um retrato de Clotilde, bem como lhe foi destinado uma pensão até sua morte, sob responsabilidade dos executores testamenteiros, e o direito de residir no apartamento da rua Monsieur-le-Prince

5.13.               Ela morreu em 5.12.1861; conforme solicitação explícita de nosso mestre em seu Testamento, ela foi enterrada juntamente com Augusto Comte, no “cemitério do Leste” (o Père Lachaise)

5.13.1.   Em 28.3.1867 Martinho Thomas faleceu; seu filho, Paulo Thomas, ficou sob a responsabilidade de José Longchampt e tornou-se também positivista

6.     Passemos agora à leitura dos poemas de nossos apóstolos da Humanidade:

6.1.   Leitura da Comemoração anual da morte de Augusto Comte, de Miguel Lemos (1884)

6.2.   Leitura de A hora terrível, de Teixeira Mendes (1917?)

6.2.1. Esse poema integra um conjunto poético-relogioso de Teixeira Mendes: Hino ao amor, O ano sem par, A dor sem nome, A hora terrível – dedicados ao altruísmo e à Humanidade, ao amor de Comte e Clotilde, à morte de Clotilde e à morte de Augusto Comte

 

a  d  a

 

Miguel Lemos: “Comemoração anual da morte de Augusto Comte” (1884)[1]

 

COMEMORAÇÃO ANUAL

DA MORTE DE 

AUGUSTO COMTE

 

24 DE GUTENBERG DE 69

(5 DE SETEMBRO DE 1857)

 

Tu duca, tu signore, e tu maestro[2].          

(Dante, Inferno, Canto II.)                    

 

A Igreja Positivista celebra hoje a entrada do seu glorioso Fundador na imortalidade subjetiva.

Aos 24 de Gutenberg de 69 Augusto Comte era surpreendido pela morte em meio de sua tarefa ingente. Morria na pobreza, quase na obscuridade, rodeado apenas por um pequeno número de discípulos fiéis e só conhecido, fora deste grêmio, por aqueles que ele opulentara com as migalhas de seu gênio, e que ocultavam cuidadosamente a origem de tão súbita riqueza. Muitos deles pagaram-lhe as lições com o insulto, com a calúnia e com a traição...

Essa vida que terminava inopinadamente aos 59 anos fora toda consagrada com uma competência excepcional de coração, de inteligência e de caráter à solução do problema religioso.

Dar à sociedade futura uma religião científica, sem mistérios, sem absurdos, baseada na totalidade dos conhecimentos positivos e tendo por alvo supremo o maior aperfeiçoamento do homem, tal foi o fim que se propôs o grande Pensador.

O problema impunha-se com o peso de todo o passado. Resolvê-lo era reatar de novo o fio das idades e congraçar outra vez o homem com o homem. E por este modo a religião depois de ter sido espontânea no período fetichista, inspirada na fase politeica, revelada durante a concentração monoteísta, tornava-se, enfim, demonstrada. Diis extinctis, Deoque, successit Humanitas[3].

A profecia de José de Maistre estava realizada. Aparecera o homem prodigioso que devia terminar a obra demolidora do século XVIII, reunindo em si as afinidades da ciência e da religião.

Este empreendimento Augusto Comte o levou a cabo com um saber e uma grandeza moral inexcedíveis.

Foi um sábio e um santo.

A sua instrução aristotélica abraçava todas as ciências existentes no seu tempo, desde a Matemática até a Biologia. Criou mais uma, a Sociologia e lançou os fundamentos da Moral.

A sua abnegação não teve superior. Perseguido pelos corifeus da ciência oficial, viu-se despojado com a máxima iniqüidade das modestas ocupações que exercia, e aceitou a miséria com a serenidade do justo.

O pão chegou a faltar-lhe. Um dia a sua criada, testemunha comovida de tão dolorosa situação, lançou-se-lhe aos pés e rogou-lhe com lágrimas que aceitasse o pequeno auxílio de suas economias para não ver o seu amo morrer à fome!

O coração da humilde proletária compreendera o heroísmo desse homem, tão firme com os poderosos e tão bom para com os fracos e os pequenos.

Finalmente, um amor puro e imenso, assombro e escândalo da grosseria contemporânea, o elevou, sob o santo impulso de Clotilde de Vaux, às alturas ideais do mais sublime entusiasmo.

Aristóteles pela inteligência, São Paulo pelo coração, Júnio Bruto pelo caráter, tal foi o fundador da Religião da Humanidade.

Os Pósteros saberão comemorar melhor do que nós essa incomparável existência, para cuja apoteose concorreram todos os esplendores da arte regenerada por um novo culto e alimentada por uma comunhão espiritual até hoje desconhecida.

Do seio da paz universal irromperão os hinos sagrados em louvor do Divino Mestre. Todas as raças, todas as pátrias, todas as famílias, congraçadas por uma crença comum, instruídas do Passado, seguras do Porvir, recordarão unânimes os grandes serviços do egrégio Fundador.

Por enquanto cumpre ainda vencer. Os frêmitos da luta perturbam a expansão religiosa do dia de hoje. Um dia de festa é para nós um dia de trégua apenas. Amanhã será necessário continuar o apostolado, convencer, persuadir, repelir a calúnia e sofrer a injúria.

Não importa. As profecias científicas não mentem e os sinais certos da vitória já estão por toda parte.

Com os olhos fitos nessa unidade religiosa do futuro, Jerusalém espiritual e cidade celeste, sonhadas pelas grandes almas de Israel e do Catolicismo, satisfação real das aspirações prematuras dos generosos utopistas, termo da miséria e da guerra, advento da fraternidade universal, recordemos hoje os exemplos legados pelo indefeso Lidador e façamos votos de imitar a sua constância inabalável e a sua sublime dedicação pelos destinos da Humanidade. 

Miguel Lemos,                         

Diretor da Igreja Positivista do Brasil.   


 *   *   *

 

Raimundo Teixeira Mendes: A hora terrível (1917?)[4]

 

A HORA TERRÍVEL

 ENSAIO RELIGIOSO SOBRE A MORTE DO NOSSO SANTÍSSIMO MESTRE 

(Sugerido pelo Stabat Mater[5])

 

A dor que o Pai martiriza

Prende exausta a humilde Filha

Ao leito onde Ele agoniza...

No seu rosto já não brilha

A viva luz da esperança

Do Porvir mostrando a trilha...

Vago o olhar saudoso lança

Lampejos nas murchas Flores

De Clotilde augusta herança...

E os sumidos estertores

Vão o silêncio quebrando

Daquela tarde de horrores...

Té que aos lábios assomando

O sopro final s’exala,

Num terno beijo os cerrando...

Enquanto a alma que estala

Da miseranda Sofia

A catástrofe assinala...

Finda assim tua agonia

De amor num sublime extremo;

Mas a nossa principia

Nesse momento supremo

Em que geme a Humanidade

O seu infortúnio extremo...

Sua doce potestade

Em teu gênio condensara

De Clotilde a santidade.

E destarte em Ti salvara

Seu Porvir que o cego Fado

Em hora infausta arriscara...

Pobre Mãe! acabrunhado

Seu amor treme de ver-te

Precoce à vida arrancado...

Para os dias proteger-te

De um Anjo deu-te o desvelo...

Foi discípulos escolher-te...

Mão não pode o santo zelo,

Movendo o surdo Destino,

Sequer no curso detê-lo!...

No teu serviço divino,

Do terço final em meio,

Pende exame repentino

Da Humanidade no seio,

A fronte qu’Ela tornara

O seu sublimado esteio!...

Oh! como tem sido amarga

A feitura desse manto

Que contra o mal nos ampara!

Que de sangue! que de pranto!

Não tem a Deusa vertido

Nesse labor sacrossanto!

Porém o peito transido

De dor jamais tão pungente,

Sofreu qual quando, caído,

Nos braços sentiu-se algente,

Resumo do seu Passado,

Do seu Porvir, seu Presente!...

Doce Mãe! Nos fosse dado,

Na dor que teu peito estua,

Sentir o nosso abrasado...

Fundir nossa alma na sua

Entre seus Anjos queridos...

Estancar a fonte crua

Dos teus acerbos gemidos!...

R. Teixeira Mendes                              


*   *   *

 

7.     Invocação final

 

Referências

- Augusto Comte (port.), Catecismo positivista (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 4ª ed., 1934)

- Gustavo Biscaia de Lacerda (port.): Celebração de Sofia Bliaux; celebração de José Bonifácio (Curitiba, Igreja Positivista Virtual, 6.9.2023): https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2023/09/celebracao-de-sofia-bliaux-celebracao.html

- Gustavo Biscaia de Lacerda (port.): Celebração da transformação de Augusto Comte (Curitiba, Igreja Positivista Virtual, 6.9.2024): https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2024/09/celebracao-da-transformacao-de-augusto.html

- José Longchampt (port.): Epítome da vida e dos escritos de Augusto Comte (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/joseph-longchampt-epitome-da-vida-e-dos-escritos-de-a.-comte

- Miguel Lemos (port.): Comemoração anual da morte de Augusto Comte (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1884; n. 21 do catálogo da IPB): https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2025/09/miguel-lemos-comemoracao-anual-da-morte.html

- Miguel Lemos e Raimundo Teixeira Mendes (port.): Comemoração anual da morte de Augusto Comte/A hora terrível (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1936; n. 21 e 404E do catálogo da IPB): https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2025/09/miguel-lemos-e-teixeira-mendes.html

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), As últimas concepções de Augusto Comte (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-i e https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-ii.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), O ano sem par (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1900): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-o-ano-sem-par-portug._202312/page/n7/mode/2up.



[1] Transcrevemos a edição de 1936, mantendo a pontuação, mas atualizando a ortografia. A publicação original é de 96 (1884) e constitui o n. 21 do catálogo da Igreja e Apostolado Positivista do Brasil. Uma versão em francês foi incluída em uma publicação de 5 de setembro de 1951, em homenagem aos 2.000 anos da cidade de Paris; essa publicação foi reeditada em 1957, por ocasião do centenário da morte de Augusto Comte; correspondendo ao n. 548 do catálogo da Igreja Positivista, teve por título “Paris – publication commémorative de son bimillénaire – deuxième édition au centenaire de la mort d’Auguste Comte”.

[2] Em italiano no original: “Você é duque, você é senhor e você é mestre”.

[3] Em latim no original: “Mortos os deuses, e deus, sucedeu-lhes a Humanidade”.

[4] Transcrevemos a edição de 1936, mantendo a pontuação, mas atualizando a ortografia.

[5] Na Wikipédia há a seguinte explicação sobre o Stabat Mater: “O Stabat Mater (latim para Estava a mãe) é uma prece ou, mais precisamente, uma sequentia católica do século XIII. / Há dois hinos que são geralmente chamados de Stabat Mater: um deles é conhecido como Stabat Mater Dolorosa (Sobre as dores de Maria) e o outro, chamado Stabat Mater Speciosa, que, de maneira alegre, se refere ao nascimento de Jesus. A expressão Stabat Mater, porém, é mais utilizada para o primeiro caso – um hino do século XIII, em honra a Maria e atribuído ao franciscano Jacopone da Todi ou ao papa Inocêncio III” (https://pt.wikipedia.org/wiki/Stabat_Mater, acesso em 1.8.2024).

24 janeiro 2024

Necessidades individuais satisfeitas pelas religiões

No dia 23 de Moisés de 170 (23.1.2024) iniciamos as atividades da Igreja Positivista Virtual no ano de 170 (2024). Nessa ocasião, demos continuidade à leitura comentada do Catecismo positivista, em sua nona conferência, dedicada ao conjunto do regime.

Antes da leitura comentada, indicamos diversas atividades realizadas no período do recesso: 

- a comemoração da Festa da Humanidade (1º de Moisés/1º de janeiro);

- a celebração do nascimento de Augusto Comte e também a celebração de Rosália Boyer (19 de Moisés/19 de janeiro);

- a criação da coleção "Positivism" na biblioteca virtual Internet Archive.

Depois desses anúncios, lembrando que o Positivismo é uma religião cívica, lemos o manifesto intitulado "Pela república, a favor da sociocracia, contra o terrorismo fascista", lançado em 8 de Moisés de 170 (8.1.2024) (disponível aqui: https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2024/01/manifesto-pela-republica-favor-da.html).

Na parte do sermão, comentamos as necessidades individuais satisfeitas pelas religiões. As anotações que serviram de base para essa exposição oral encontram-se reproduzidas abaixo.

A prédica foi transmitida nos canais Positivismo (disponivel aqui: https://l1nq.com/psLt3) e Igreja Positivista Virtual (disponível aqui: https://acesse.one/uBHLP).

A leitura do manifesto iniciou-se aos 13 min 56 s.

A leitura comentada do Catecismo positivista começou aos 34 min 25 s.

O sermão começou em 1h 12 min 05 s.

*   *   *


-        Há algumas semanas tivemos uma observação, que é também uma espécie de dúvida, apresentada por um jovem que tem estudado o Positivismo:

o   Por vezes as teologias obtêm e mantêm seus aderentes devido à necessidade de muitos indivíduos de verem-se tutelados integralmente, o tempo todo, por entidades todo-poderosas

-        Em primeiro lugar, a percepção de que há teológicos que precisam desse tipo de tutela não pode conduzir-nos à ilusão, ou até ao preconceito, de que todos os teológicos buscam essa tutela

o   Em primeiro lugar, devemos lembrar que há diferentes tipos de teologia e que, portanto, elas geram ou estipulam diferentes tipos de comportamentos

§  A busca de tutela é mais própria ao monoteísmo – e, em particular, ao monoteísmo cristão – que ao politeísmo, em que os vários deuses têm comportamentos díspares mas que, com freqüência, não são exatamente tutelares (e as tutelas são particulares a grupos ou âmbitos específicos)

o   Mas, de qualquer maneira, mesmo no caso do monoteísmo cristão, diferentes tradições e diferentes indivíduos têm relações diferentes com a divindade

§  A relação de submissão solicitante mantém-se em geral, mas é claro que, por um lado, há indivíduos que requerem menos a tutela, assim como, por outro lado, há indivíduos que solicitam mais a tutela

-        A busca de uma divindade todo-poderosa que tutele o tempo todo os indivíduos é característica de naturezas mais frágeis, por vezes em termos objetivos (isto é, pessoas que vivem na pobreza ou na miséria), mas com freqüência em termos subjetivos

o   Em face disso, duas reflexões surgem:

§  (1) Pessoas mais frágeis precisam de mais apoio

·         Mas não devemos criticar essa necessidade em si mesma: isso é uma questão de respeito às características pessoais de cada um e mesmo às condições sociais em que vivem, além de isso evocar a regra do dever altruístico: a dedicação dos fortes pelos fracos

§  (2) Mas, por outro lado, em certas situações, essa busca de tutela tem de fato um aspecto de infantilidade, em que um adulto busca o apoio subjetivo de uma figura paterna (ou, mesmo, em termos mais amplos, de uma figura parental)

o   Ora, como indicamos antes, diferentes religiões estimulam diferentes sentimentos e, daí, conduzem a diferentes comportamentos: os monoteísmos efetivamente estimulam mais a busca de uma tutela absoluta:

§  As figuras patriarcais, tutelares e vingativas do judaísmo e do cristianismo, a divindade punitiva do Islã, mesmo as ambigüidades afetivas e apocalípticas da trindade cristã

§  Tudo isso, próprio a uma época que já se encerrou há muito e muito tempo, ainda hoje estimula bastante muitos comportamentos irresponsáveis, seja porque são “fanáticos”, seja porque são infantilizados

-        Feitos esses comentários, devemos ter cuidado com outra coisa: não devemos apenas criticar a situação dos monoteístas que buscam a tutela; devemos considerar que essa busca em si mesma corresponde a uma necessidade humana verdadeira e legítima, mas cuja solução teológica (em particular monoteísta), como de hábito, é inadequada

o   Antes de prosseguirmos, devemos lembrar que as divindades monoteicas – seja a do judaísmo, seja a do catolicismo, seja a islamismo – estão radicalmente separadas dos seres humanos, não precisam dos seres humanos para nada e, ante elas, os seres humanos estão solitários e desamparados

§  A solidariedade terrena é certamente estimulada pelo altruísmo inato ao ser humano, mas, do ponto de vista dogmático, tal solidariedade é apenas uma forma de aumentar o exército de indivíduos isolados (e interesseiros) perante a divindade que não tem nenhum interesse real em nós

-        A noção de “Humanidade” tem, e tem que ter, um aspecto de conforto, de apoio; esse elemento é tanto objetivo quanto subjetivo

o   Antes de mais nada, devemos ter clareza de que o apoio fornecido pela Humanidade é de caráter relativo e não absoluto, ou seja, não é todo-poderoso e em larga medida depende das ações dos seres humanos

o   Augusto Comte referia-se por vezes à Humanidade como a nossa “providência real”: esse aspecto de “providência” já deixa claro que é ela, a Humanidade, que nos cria e que, em última análise, fornece-nos tudo aquilo de que precisamos

§  A imagem que representa a Humanidade (a mulher com cerca de 30 anos, segurando em seu colo um bebê) sugere diretamente o apoio, o carinho, o afeto, o conforto que a Humanidade provê e inspira-nos

o   Mas a Humanidade é relativa e é composta; como dizia Augusto Comte a partir de Dante, ela é “filha de seu filho”: a Humanidade tem vários âmbitos de atuação

-        Por um lado, a Humanidade é um ser composto: seus mínimos elementos são as famílias e as mátrias; nas famílias e nas mátrias – e também, cada vez mais, no que se chama atualmente de “sociedade internacional” – buscamos e obtemos os apoios de que necessitamos

o   O centro moral de cada família é a mulher, seja como esposa, seja como mãe: assim, o conforto moral que ela provê é uma prefiguração da deusa positiva

o   Além disso, em parte generalizando o apoio doméstico, em parte solucionando as dificuldades que, concretamente, todos podemos enfrentar na obtenção de apoio e amparo doméstico, Augusto Comte elaborou a concepção dos “anjos da guarda”

§  Os anjos da guarda consistem precisamente naquelas figuras que nos ampara(ra)m afetivamente e que, por isso, são merecedoras da nossa idealização pessoal

§  Essas idealizações são esforços conscientes da nossa parte de homenagear essas figuras, estabelecendo-as como importantes e poderosos apoios subjetivos em nossas vidas, o que resulta, além disso, em estímulos contínuos para o nosso desenvolvimento e aperfeiçoamento moral, intelectual e prático

-        Por outro lado, a ação da Humanidade é tanto objetiva quanto subjetiva:

o   Citamos há pouco as famílias e as mátrias (e até a sociedade internacional): elas têm um caráter objetivo, ao fornecer-nos o amparo material em nossas vidas

o   Mas as famílias, as mátrias e a Humanidade, evidentemente, também atuam de maneira subjetiva, ao estimular, alimentar e regular nossos sentimentos e nossas idéias

§  Aliás, é exatamente dessa forma e a partir dela – isto é, da característica subjetiva – que cada um de nós pode ter o apoio e o amparo da Humanidade:

·         Seja por meio da inspiração da figura abstrata da Humanidade, seja por meio da ação mais direta e concreta das nossas mães, das nossas esposas, das nossas irmãs, a Humanidade acolhe-nos e conforta-nos

·         Por outro lado, as famílias, as mátrias, a Humanidade inspiram-nos a noção de dever, isto é, de responsabilidades de todos para com todos, em particular dos fortes para com os fracos

o   O resultado dos aspectos objetivos e subjetivos é que a Humanidade:

§  Conforta-nos ativa e passivamente, direta e indiretamente

§  Cria, mantém e desenvolve as condições para esse conforto

§  Esse conforto não é só subjetivo, mas é também objetivo, na medida em que a realidade humana não é a de um isolamento individual radical, mas é a de relações permanentes por todos os lados – relações que, aliás, não se limitam aos seres humanos, mas estendem-se aos animais domésticos e, por meio do fetichismo, também a muitos objetos, ao Sol, à Lua, ao fogo etc.

§  Mas temos que insistir neste ponto: o conforto objetivo e subjetivo provido pela Humanidade estimula e, na verdade, exige a noção de dever, isto é, de responsabilidade de todos para com todos

-        Como uma decorrência do aspecto anterior (objetividade/subjetividade), a ação da Humanidade dá-se tanto no presente quanto, ainda mais, no passado e no futuro:

o   A distinção entre passado/futuro e presente conduz-nos à distinção entre a vida objetiva e a vida subjetiva de uma forma mais precisa, ao indicar que na vida subjetiva estão todos os seres humanos convergentes que já morreram, além de aqueles todos que ainda não nasceram; na vida objetiva estão os servidores da Humanidade, os seus agentes concretos, que são todos os indivíduos que atuam em prol dos seres humanos e das coletividades

§  Não existem indivíduos por si sós; o que há são integrantes de famílias e de mátrias, que também colaboram para a Humanidade

o   Por um lado, os indivíduos, ou melhor, os agentes concretos da Humanidade são os titulares de deveres

§  Esses deveres, aliás, mudam de acordo com os grupos sociais que se considera; quanto mais recursos tiverem os grupos sociais, maiores são seus deveres e, portanto, maiores são as cobranças que devem ser feitas sobre eles

§  De qualquer maneira, como já indicamos algumas vezes: entre os deveres que cabem a todos estão os de atuarem em prol dos demais (é o objetivo concreto do “viver para outrem”) e, portanto, o de atuarem objetivamente como a providência que é a Humanidade

o   Por outro lado, os agentes concretos da Humanidade são confortados, inspirados, alimentados e orientados pela Humanidade em suas ações

§  A lei do dever, isto é, o “viver para outrem”, é também um ideal, um objetivo geral que orienta a vida de cada um de nós

§  Assim, sob a inspiração da Humanidade, colaboramos ativamente para o melhoramento e o enriquecimento da vida de todos como, em termos “puramente” individuais, temos sempre objetivos de vida: não ficamos nunca sozinhos no universo nem ficamos desorientados em nossas vidas

-        Para concluir:

o   Como dissemos antes, diferentes religiões estimulam diferentes traços da natureza humana

o   Os monoteísmos estimulam com freqüência – e talvez de maneira particular – a busca do tutelamento individual, ou melhor, a busca de uma tutela infantilizante

o   Mas se a tutela infantilizante é uma solução que, no final das contas, é degradante, ainda assim podemos considerar que ela baseia-se por vezes em necessidades legítimas – de apoio, de amparo, até mesmo de orientação na vida

o   A respeito de todos esses aspectos, a noção e a realidade da Humanidade satisfazem mais e melhor os seres humanos:

§  Os vários níveis concretos da Humanidade apóiam-nos e amparam-nos de verdade

§  A noção abstrata de Humanidade estabelece a lei do dever, que permite o apoio e o amparo e que dá sentido à vida de cada um de nós

§  Essas diversas concepções podem parecer muito abstratas à primeira vista, mas elas são radicalmente concretas: nossas mães são nossos amparos; cada família, cada mátria, cada indivíduo, cada animal, cada fetiche atua para melhorar nossas vidas: é assim, e é só assim, que age a Humanidade e que é possível termos apoio e amparo

·         Inversamente, cada ser humano que atua de maneira egoística e/ou destrutiva age contra a lei do dever e contra a Humanidade