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24 junho 2026

O estado normal

No dia 6 de Carlos Magno de 172 (23.6.2026) realizamos nossa prédica positiva, dando continuidade à leitura comentada do Apelo aos conservadores (em sua Terceira Parte - postura dos positivistas em relação aos revolucionários).

No sermão abordamos a noção de "estado normal", além das noções assessórias de "sociedade orgânica", "natureza humana", "harmonia" e "utopia".

A prédica foi transmitida nos canais Positivismo (https://youtube.com/live/y6qTKX-xevw) e Igreja Positivista Virtual (https://www.facebook.com/IgrejaPositivistaVirtual/videos/1003259092618009/).

As anotações que serviram de base para a exposição oral encontram-se reproduzidas abaixo.

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O estado normal

(6 de Carlos Magno de 172/23.6.2026) 

1.     Abertura da prédica

2.     Datas e celebrações

2.1.   Dia 8 de Carlos Magno (25.6): transformação de Martins Fontes (1937 – 89 anos)

2.2.   Dia 10 de Carlos Magno (27.6): transformação de Harriet Martineau (1876 – 150 anos)

2.3.   Dia 11 de Carlos Magno (28.6): transformação de Teixeira Mendes (1927 – 99 anos)

2.4.   Dia 12 de Carlos Magno (29.6): nascimento de Júlio de Castilhos (1860 – 166 anos)

2.5.   Dia 13 de Carlos Magno (30.6): nascimento de Carlos Torres Gonçalves (1875 – 151 anos)

2.6.   Dia 13 de Carlos Magno (30.6): transformação de Lauro Muller (1926 – 100 anos)

3.     Leitura comentada do Apelo aos conservadores

4.     Exortações

4.1.   Sejamos altruístas!

4.2.   Façamos orações!

4.3.   Como Igreja Positivista Virtual, ministramos os sacramentos positivos a quem tem interesse

4.4.   Para apoiar as atividades dos nossos canais e da Igreja Positivista Virtual: façam o Pix da Positividade! (Chave Pix: ApostoladoPositivista@gmail.com)

5.     Sermão: o estado normal

5.1.   O sermão de hoje aborda um tema que freqüentemente é tratado em nossas prédicas, que nem sempre fica claro do que se trata mas que é central para o Positivismo e para a Religião da Humanidade: a noção de “estado normal”

5.1.1. Essa expressão e essa noção aparecem regularmente na obra de Augusto Comte, especialmente de maneira implícita; mas somente no final de sua carreira nosso mestre definiu-a de maneira mais sistemática – na “Conclusão” do Apelo aos conservadores em particular, aliás

5.1.2. A noção de estado normal, juntamente com outras (como síntese e religião) é ao mesmo tempo central e sintética, de tal sorte que reúne e pressupõe outros conceitos elementares, como natureza humana, harmonia e utopia (bem como relativismo, continuidade e altruísmo), além da rejeição e superação do estado crítico

5.2.   Indo diretamente ao ponto: o “estado normal” corresponde à situação idealizada de plena realização da harmonia humana, em seus múltiplos aspectos (coletivos e individuais; afetivos, intelectuais e práticos; subjetivos e objetivos), de maneira dinâmica e ao longo do tempo

5.2.1. Uma noção assessória à de estado normal é a de sociedade orgânica (ou estado orgânico)

5.2.1.1.          A sociedade orgânica corresponde à situação social em que vigem parâmetros compartilhados, capazes de regular o conjunto da sociedade, suas diversas partes entre si e também a atuação individual

5.2.1.2.          Dessa forma, o estado orgânico é a antítese da “anarquia”

5.2.2. Como dissemos, o estado normal é a situação ideal em que as diversas partes da natureza humana encontram-se em harmonia dinâmica; esse equilíbrio dá-se com a aplicação de parâmetros que regulam a sociedade e os indivíduos: portanto, o estado normal corresponde a uma sociedade orgânica

5.2.2.1.          Todavia, é bastante claro que uma sociedade orgânica qualquer não corresponde necessariamente ao estado normal

5.2.2.2.          O estado normal exige o altruísmo, o relativismo, a atividade pacífica, colaborativa e construtiva

5.2.2.3.          Assim, o estado normal exige o desenvolvimento prévio das forças humanas e corresponde à coordenação dessas forças

5.2.2.3.1.              A maior dificuldade do estado normal não é o desenvolvimento das forças humanas (que já ocorreu, sob a teologia, na tríplice transição ocidental), mas, justamente, a coordenação positiva, isto é, a coordenação simultânea, altruísta, relativista e pacífica

5.2.2.3.2.              Essa coordenação das diversas partes da natureza humana, na medida em que respeita cada uma dessas diversas partes, pode ser chamada de sinérgica (ou de harmoniosa)

5.2.3. É possível haver estados orgânicos sem que ocorra a coordenação dos diversos traços da natureza humana, isto é, sem que ocorra a sinergia

5.2.3.1.          As teocracias antigas (entre as quais incluímos o Extremo Oriente: China, Índia, Japão) foram orgânicas e sinérgicas, mas, na medida em que as forças humanas não estavam desenvolvidas, não se constituiu o estado normal

5.2.3.2.          A Grécia antiga, devido ao caráter da sua filosofia e, de modo geral, da sua sociedade, foi particularmente anti-orgânica

5.2.3.3.          A sociedade romana foi orgânica, assim como, depois, foi a Idade Média e o Islã

5.2.3.4.          A situação ocidental depois da Idade Média não é nem orgânica, nem normal – embora o Positivismo forneça todos os elementos para a organicidade e a normalidade, ou melhor, para a positividade

5.2.4. O estado normal corresponde à plena positividade: altruísmo, relativismo, atividade pacífica; rejeição da violência, mátrias pequenas; importância superior do poder espiritual em relação ao poder temporal (ou seja, das condutas adotadas subjetivamente com autonomia e liberdade em relação às condutas impostas objetivamente); separação entre o poder temporal e o poder espiritual; adesão generalizada à Religião da Humanidade

5.3.   É importante comentarmos um pouco sobre a natureza humana:

5.3.1. Quando consideramos a natureza humana, temos a tendência de entendê-la apenas em termos individuais e estáticos: entretanto, isso é um erro, pois é intensamente parcial

5.3.1.1.          Aliás, esse viés na compreensão da natureza humana – individual e estático – costuma ser entendido da maneira mais estreita possível, em termos individualistas, egoístas e mecanicistas: segundo uma versão vulgar, a “natureza humana” seria exata e estritamente egoísta e individualista, sem outras características (altruístas, em particular), sem aspecto social e sem capacidade de discernimento

5.3.2. A concepção positiva – e é “positiva”, não “positivista” – da natureza humana baseia-se em investigações biológicas, histórico-sociológicas e morais, combinando ciência e filosofia; assim, deve-se considerar que o ser humano é ao mesmo tempo sentimentos, inteligência e atividade; que os sentimentos são egoístas e altruístas; que o ser humano desenvolve seus atributos necessariamente em sociedade e ao longo do tempo

5.3.3. Assim, convém enfatizar e sermos bastante explícitos: a natureza humana abrange, por um lado, (1) tanto o egoísmo quanto, principalmente, o altruísmo; por outro lado, (2) ela é antes de mais nada social e, a partir disso, também individual; por fim, (3) ela evolui com o passar do tempo, ou seja, ela é histórica, ela é dinâmica

5.3.3.1.          Além disso, também devemos notar que a natureza humana surgiu e desenvolveu-se em interação com o ambiente; dessa forma e por esse motivo, todos os principais traços da natureza humana são compartilhados com os animais superiores, isto é, com os mamíferos e com as aves

5.3.4. A natureza humana consiste principalmente no cérebro, que apresenta uma pluralidade de funções cerebrais (sentimentos, inteligência e atividade)

5.3.4.1.          Em virtude dessa pluralidade de funções cerebrais e, ainda mais, em virtude da pluralidade de funções afetivas (sete egoístas e três altruístas, em um total de dez), a natureza humana não é unificada, embora possa convergir para diversas situações de harmonia

5.4.   Passemos agora para a noção de harmonia:

5.4.1. A noção de harmonia humana consiste na situação em que as várias partes da natureza humana encontram-se em interação dinâmica, subordinadas a um centro que coordena e regula essas várias partes

5.4.1.1.          O centro coordenador é sempre e necessariamente afetivo; assim, ele pode ser egoísta ou altruísta

5.4.1.2.          Os instintos egoístas (seja em seu conjunto, seja cada um deles individualmente) são mais fortes que o altruísmo; mas eles disputam entre si, sem cessar, a supremacia, sem que nenhum deles consiga portanto constituir-se como centro coordenador da existência humana; além disso, não somente o egoísmo não permite a harmonia individual como, negando e/ou prejudicando as relações sociais, o egoísmo também é incapaz de coordenar a existência coletiva

5.4.1.3.          Embora o altruísmo seja mais fraco que o egoísmo, ele consegue estabelecer a harmonia mútua entre seus três instintos, que, com isso, fortalecem-se mutuamente; além disso, eles disciplinam e satisfazem os vários egoísmos; por fim, por definição os instintos altruístas estabelecem e regulam as relações coletivas: dessa forma, a coordenação humana é possível apenas com o altruísmo

5.4.1.3.1.              Vale notar que a capacidade própria aos instintos altruístas de harmonizarem-se e reforçarem-se mutuamente permite que, com freqüência, o altruísmo seja tratado em bloco, ao contrário do egoísmo, cujos vários instintos com freqüência têm que ser individualizados

5.4.2. A harmonia humana é uma condição realmente desafiadora, pois tem que se dar ao longo do tempo, ao mesmo tempo em termos coletivos e individuais, considerando o egoísmo e o altruísmo

5.4.2.1.          Como observa nosso mestre e como notamos há pouco, somente o altruísmo, em seus três instintos (apego, veneração e bondade), consegue a supremacia sobre os demais instintos de maneira estável, permitindo ao mesmo tempo a satisfação dos instintos egoístas

5.4.3. A harmonia humana é uma situação de equilíbrio variável, entre margens mais ou menos definidas; entre essas margens, temos variações ao longo de cada dia e ao longo de nossas vidas

5.4.4. A supremacia do altruísmo e, de qualquer maneira, as necessidades específicas com que nos defrontamos em cada instante resultam em que o ser humano tem que, de fato, coordenar suas várias partes a cada momento, resultando em sinergias individuais ao longo do tempo; é nessa sinergia mais ou menos durável mas variável que consiste a relativa unidade humana em seus comportamentos concretos (mas que a teologia chama de “alma” e que a metafísica chama de “ego” ou de “self”)

5.4.4.1.          A sinergia que se estabelece no âmbito individual tem que ocorrer também, e principalmente, em termos sociais; sem o âmbito social, a harmonia individual não é verdadeira possível, ou melhor, não é verdadeiramente estável

5.4.5. O caráter dinâmico e ao mesmo tempo múltiplo da natureza humana, além da efetiva força superior do egoísmo sobre o altruísmo: é tudo isso que torna tão difícil a harmonia humana

5.4.5.1.          A realização dessa harmonia múltipla, dinâmica e altruísta consiste no “problema humano”, conforme definido nosso mestre

5.4.5.2.          Tudo tem que concorrer para isso a resolução do problema humana; o que não auxilia é supérfluo, o que ativamente atrapalha é daninho

5.5.   Nosso mestre resume a questão da seguinte forma, no início da Síntese subjetiva (p. 1-2):

Subordinar o progresso à ordem, a análise à síntese e o egoísmo ao altruísmo: tais são os três enunciados – prático, teórico e moral – do problema humano, cuja solução deve constituir uma unidade completa e estável. Correspondendo, respectivamente, aos três elementos de nossa natureza, esses três modos distintos de formular uma mesma questão são não apenas conexos, mas equivalentes, em vista da dependência mútua entre a atividade, a inteligência e o sentimento. Apesar de sua coincidência necessária, o último enunciado supera os outros dois, por ser o único que se refere à fonte direta da solução comum. Pois a ordem pressupõe o amor, e a síntese só pode resultar da simpatia; a unidade teórica e a unidade prática são, portanto, impossíveis sem a unidade moral. Assim, a religião é tão superior à filosofia quanto à política. O problema humano pode, finalmente, resumir-se em constituir a harmonia afetiva, desenvolvendo o altruísmo e reprimindo o egoísmo; então, o aperfeiçoamento subordina-se à conservação, e o espírito de detalhe ao espírito de conjunto.

5.6.   Passemos por fim à noção de “utopia”:

5.6.1.  A última noção que – sem pretender esgotar o assunto – podemos comentar neste momento é a de “utopia”

5.6.2. A utopia, como se sabe, é um ideal mais ou menos distante que orienta a conduta ao longo do tempo; assim, ela tem o importante papel de servir de princípio orientador e coordenador em termos dinâmicos, em relação aos vários aspectos da natureza humana

5.6.3. O estado normal, indiscutivelmente, é uma utopia – seja porque a harmonia é sempre mais ou menos instável, seja porque ela é exigente, seja porque ela tem que se manter ao longo do tempo

5.6.4. A utopia corresponde a um ideal ao qual nos aproximamos sempre, sem nunca efetivamente chegar a ele – nosso mestre usa, não por acaso, a imagem da assíntota: no gráfico cartesiano, a assíntota é uma reta para a qual tende uma curva, sem que essa curva nunca chegue à reta

5.6.4.1.          Uma das máximas de Clotilde resume bem a importância das utopias:

Compreendi, melhor do que ninguém, a fraqueza de nossa natureza quando não é dirigida para um alvo elevado que seja inacessível às paixões

5.6.5.  No início da sua carreira, quando ainda estava impregnado de cientificismo (e de academicismo), nosso mestre tendia a considerar que toda utopia é irrealizável e, portanto, que as utopias deveriam ser deixadas de lado

5.6.5.1.          Mas o amadurecimento filosófico – afetivo e relativístico – de nosso mestre conduziu-o a distinguir as utopias das quimeras (e das concepções quiméricas): enquanto as utopias são ideais que orientam e coordenam nossas atividades, as quimeras são concepções que negam totalmente a natureza humana e as leis naturais

5.6.6. Há inúmeros outros aspectos que podemos indicar a respeito das utopias no âmbito do Positivismo; por ora, devemos notar que os preconceitos acadêmicos, metafísicos e teológicos contra o Positivismo – isto é, a má fé e a ignorância – estipulam pura e simplesmente que nós seríamos contra as utopias, em favor de perspectivas objetivistas, presentistas, a favor do status quo; inversamente, nossos críticos de má fé, mau caracteres, que atribuem a nós essas concepções, é que seriam generosos e proporiam futuros melhores

5.7.   Em suma:

5.7.1. O estado normal corresponde à situação idealizada de plena realização da harmonia humana, em seus múltiplos aspectos (coletivos e individuais; afetivos, intelectuais e práticos; subjetivos e objetivos), de maneira dinâmica e ao longo do tempo

5.7.1.1.          É claro que o estado normal corresponde à plena positividade: altruísmo, relativismo, atividade pacífica; rejeição da violência, mátrias pequenas; importância superior do poder espiritual em relação ao poder temporal (ou seja, das condutas adotadas subjetivamente com autonomia e liberdade em relação às condutas impostas objetivamente); separação entre o poder temporal e o poder espiritual; adesão generalizada à Religião da Humanidade

5.7.2. O estabelecimento dinâmico e ao longo do tempo da harmonia humana só é possível com a supremacia do altruísmo

5.7.2.1.          A harmonia humana baseada no altruísmo, disciplinando o egoísmo, corresponde ao problema humano fundamental; tudo tem que concorrer para isso a resolução do problema humana; o que não auxilia é supérfluo, o que ativamente atrapalha é daninho

5.7.3. O estado normal é uma utopia, na medida em que nos fornece parâmetros dinâmicos, ao longo do tempo, para a orientação de nossas condutas

6.     Término da prédica

 

Referências

- Auguste Comte (franc.), Síntese subjetiva (Paris, Exécution Téstamentaire d’Auguste Comte, 2ª ed., 1900): https://archive.org/details/lasynthsesubjec00comtgoog.

- Augusto Comte (franc.), Sistema de filosofia positiva (Paris, Bachelier, 1838).

- Augusto Comte (franc.), Sistema de política positiva (Paris. J.-B. Baillière, 4ª ed., 1880): https://archive.org/details/systmedepoliti01comt.

- Augusto Comte (port.), Apelo aos conservadores (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores.

- Augusto Comte (port.), Catecismo positivista (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 4ª ed., 1934).

- José Lonchampt (port.), Ensaio sobre a oração (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1896; catálogo da IPB, n. 165): https://archive.org/details/n.-165-jose-lonchampt-ensaio-sobre-a-oracao.

- Luís Lagarrigue (esp.), A poesia positivista (Santiago do Chile, 1890): https://archive.org/details/luis-lagarrigue-a-poesia-positivista-1890_202509.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), As últimas concepções de Augusto Comte (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-i e https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-ii.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), O ano sem par (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1900): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-o-ano-sem-par-portug._202312/page/n7/mode/2up.

17 novembro 2025

Monitor Mercantil: A República foi só um golpe?

O jornal carioca Monitor Mercantil publicou no dia 17.11.2025 um artigo de nossa autoria, em que celebramos a Proclamação da República, por meio da crítica à noção difundida atualmente de que esse importante evento histórico foi apenas mais um golpe.

Reproduzimos abaixo o texto.

A publicação original está disponível aqui: https://monitormercantil.com.br/a-republica-foi-mesmo-so-mais-um-golpe/.

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A República foi mesmo só mais um golpe?

Em face do desprezo à república e da ideia de que foi apenas um golpe, não é de estranhar a crise política e social que vivemos Por Gustavo Biscaia

Constituição da República Federativa do Brasil (Foto: Rodrigo Viana/Senado Federal)

Em diversas colunas anteriores escrevemos a respeito do conceito de república, bem como da importância de recuperarmos a experiência histórica da república no Brasil. Esses esforços não são exercícios academicistas nem a satisfação de vaidade pessoal; bem ao contrário, eles correspondem à necessária e urgente reafirmação de conceitos e práticas que condensam os mais generosos e realistas traços, projetos e aspirações sociais e políticas das sociedades contemporâneas.

No Brasil – mas, bem vistas as coisas, também no mundo de um modo geral – a manutenção do mito monarquista, a que se vincula de maneira íntima a também mistificada proposta do parlamentarismo, prejudica a noção de república. A tudo isso se soma a desinformação ao mesmo tempo liberal e marxista, que, com objetivos opostos, coincidem na afirmação reducionista de que o republicanismo seria apenas formalismo jurídico (e burguês), sem caráter social, quando não com caráter antissocial.

Como estamos justamente no período da Proclamação da República no Brasil, todas essas concepções ressurgem de maneira avassaladora. A grande síntese dessa degradação geral da utopia republicana é a afirmação atualmente reiterada urbi et orbi de que a Proclamação, no amanhecer de 15 de novembro de 1889, teria sido meramente um golpe militar.

Argumentar os graves erros dessa afirmação não é algo fácil nem, nos dias atuais, muito agradável; mas a autonomia intelectual e moral exige, precisamente, dizer com clareza o que, em determinado momento, não se deseja ouvir, mesmo (ou principalmente) quando quem não quer ouvir são “intelectuais”, bem-pensantes e/ou progressistas. Em outras palavras, bem aqueles que deveriam ser os mais sensíveis e simpáticos ao republicanismo.

O ideal republicano, seja como antimonarquia, seja como espaço de liberdades cívicas e sociais, já era manifestado no Brasil desde o século 18, a partir dos poderosos exemplos da independência dos Estados Unidos (1776-1781) e da Revolução Francesa (1789-1799), mas entrando no século 19, também com a independência de toda a América Espanhola (1808-1829) e, por fim, com a brutal Guerra contra o Paraguai (1864-1870).

A República no Brasil foi proposta pelo grande Tiradentes – cuja celebração, aliás, foi feita desde o início tanto pela independência nacional quanto pela república –; depois pela gloriosa Confederação do Equador (1817) e pelos amplos experimentos envolvidos na Revolução Farroupilha (1835-1845), com a República do Piratini e a República Juliana.

Se tudo isso não fosse pouco – e não é, na medida em que envolveu amplas camadas sociais, das elites aos pobres e aos escravos, de Norte a Sul do país – em termos institucionais o Patriarca da Independência, José Bonifácio, preferia a república à monarquia, mas manteve o regime de castas para manter a unidade territorial e, de maneira reveladora, porque o país somente se manteria uno se fosse com base na escravidão – e a escravidão exigia a monarquia. Além disso, no período regencial (1831-1840) vivemos uma experiência republicana verdadeira e legítima, ainda que tumultuada.

O grande marco do republicanismo brasileiro, todavia, foi a guerra contra o Paraguai, que evidenciou o atraso nacional, representado em particular pela escravidão, pelo imperialismo e, claro, pela própria monarquia. Após décadas de imperialismo e intervencionismo brasileiro na região do Prata, a guerra evidenciou o quanto a monarquia desrespeitava as demais nações; além disso, o sacrifício heroico e voluntário dos soldados paraguaios – que lutavam por sua própria pátria – chocou cada vez mais os brasileiros, que morriam para manter uma sociedade escravista, de castas, mantenedora ativa do atraso.

Não foi por acaso que, quando a guerra terminou, reiniciou-se o republicanismo brasileiro, com a fundação, em 1870, do Partido Republicano, em Itu. Em 2017, em homenagem a esse acontecimento, durante alguns dias o município de Itu foi tornado capital temporária do Brasil, assim como atualmente ocorre com Belém do Pará.

Para além das propostas e tentativas republicanas, é importante pura e simplesmente afirmar o crescente passivo social e político da monarquia. Nesse sentido, não podemos minimizar nem a guerra contra o Paraguai, nem a escravidão, nem o atraso geral do país.

A guerra foi realmente traumática, impondo sacrifícios a toda a população; o regime que, a partir do imperialismo, patrocinou e causou a guerra, merecidamente foi criticado. A partir do exemplo cidadão dos paraguaios, da pressão internacional e do desenvolvimento moral e político interno, a escravidão tornou-se cada vez mais intolerável.

Esses fardos sociais e políticos eram mantidos em conjunto e ao custo de um centralismo político brutal; uma política violentamente excludente e corrupta; uma economia atrasada. Tudo isso coroado por uma eventual sucessora do trono que era agressivamente teológica e cujo consorte era um príncipe estrangeiro. E por um imperador que fingia que nada disso ocorria ou que apoiava ativamente esses problemas, mas que, ao mesmo tempo, passava seu tempo escrevendo cartas para os sábios europeus e em caríssimas, longas e inúteis viagens internacionais.

Os dois lados da questão – a centenária campanha republicana e o pesado e crescente passivo da monarquia – sempre foram negadas pelos monarquistas brasileiros, sejam os antigos, sejam os recentes; sejam os explícitos, como Eduardo Prado, Oliveira Vianna ou José Murilo de Carvalho, sejam os disfarçados, como Lília Schwarcz ou Carlos Fico.

Em diferentes graus e com variadas ênfases, os meios adotados por esses autores são simples e conhecidos:

  1. negação da realidade histórica e/ou das virtudes morais e políticas da república;
  2. mistificação da monarquia por meio da omissão de todos os problemas indicados acima.

Para que não reste dúvida: desde o século 18 até a Proclamação da República (e mesmo além), o republicanismo foi proposto de maneira sincera e generosa, como a necessária condição para o desenvolvimento brasileiro, com liberdades civis, políticas e sociais.

A campanha republicana, paralelamente à campanha abolicionista, ganhou as ruas e as massas, sendo celebrada na cultura popular (modinhas, literatura, músicas, poemas, contos etc.): em outras palavras, muito longe da mistificação monarquista, o povo não estava alheio nem assistiu como uma besta à Proclamação.

Opondo-se à opressão e ao autoritarismo monárquico (colonial ou nacional), o que se desejava com a utopia republicana, era – para usar termos atuais – ampliar a esfera pública e o espaço da cidadania no país.

Aliás, é importante notar que, como prova tanto da sincera proposta de cidadania dos republicanos quanto da negação crítica dos (cripto)monarquistas, houve políticos e intelectuais que propuseram que o próprio imperador acabasse com a monarquia, proclamasse a república e candidatasse-se a presidente.

Essa proposta era a dos positivistas (Miguel Lemos e R. Teixeira Mendes à frente), para que o imperador realizasse ele mesmo a necessária transição do regime; entretanto, como é ao mesmo tempo conveniente, fácil e hipócrita ridicularizar a única proposta que conjugaria a mudança de regime com a alteração pacífica de status quo, a sugestão feita com ampla publicidade e durante anos pelos positivistas é atualmente ignorada ou desprezada pelos historiadores (marxistas, liberais e/ou [cripto]monarquistas), que também criticam o suposto caráter golpista da república.

Como se vê, nesse jogo retórico não há qualquer opção em favor da república e a única opção “boa” seria a permanência da monarquia, com o autoritarismo centralizador, a política excludente e de castas com religião oficial de Estado, o atraso social e econômico, o imperialismo externo.

Todas as afirmações acima se baseiam em ampla literatura histórica, sociológica, artística etc. e deixam claro que, pura e simplesmente, é falsa a afirmação corrente de que a Proclamação da República teria sido meramente uma quartelada realizada por oficiais autoritários e sedentos do poder civil, contra uma população alienada.

A Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, teve amplo apoio social (civil e militar, das elites às massas, do Norte ao Sul do país), correspondendo tanto a necessidades coletivas urgentes como a anseios profundos: foi um movimento legítimo e em favor das mais generosas, livres e fraternas utopias políticas.

Em face do desprezo que intelectuais, meios de comunicação e políticos votam hoje à república, não é de estranhar a crise política e social que vivemos e que opõe a ordem ao progresso. Já argumentamos várias vezes: recuperar esses ideais republicanos é uma necessidade atual urgente.


Gustavo Biscaia de Lacerda é doutor em Sociologia Política e sociólogo da UFPR.

15 outubro 2024

Vídeos dos ciclos de palestras do Centro Positivista do Lavradio: laicidade e utopia republicana

Nos dias 27 e 28 de Carlos Magno de 169 (13 e 14 de julho de 2023) foi criado o Centro Positivista do Lavradio, no Rio de Janeiro, com sede gentilmente compartilhada pela Sociedade Brasileira de Belas Artes. Na ocasião, marcando o acontecimento, ocorreu o I Ciclo de Palestras do Centro Positivista do Lavradio.

Já nos dias 13 e 14 de Frederico de 169 (17 e 18 de novembro de 2023) ocorreu o II Ciclo de Palestras do Centro Positivista do Lavradio.

Em cada uma dessas ocasiões fizemos palestras sobre e a partir do Positivismo: no dia 28 de Carlos Magno apresentamos a palestra "O Positivismo e a laicidade do Estado"; no dia 14 de Frederico apresentamos a palestra "Crítica à República e desistência de uma utopia".

Essas exposições foram gravadas; os seus vídos estão indicados abaixo:

- palestra "O Positivismo e a laicidade do Estado": disponível aqui: https://acesse.dev/J8lFm

- palestra "Crítica à República e desistência de uma utopia", parte 1: disponível aqui: https://l1nq.com/gD7KS

- palestra "Crítica à República e desistência de uma utopia", parte 2: disponível aqui: https://encr.pw/yjp6K

20 agosto 2024

Sobre as utopias

No dia 9 de Gutenberg de 170 (20.8.2024) realizamos nossa prédica positiva, dando continuidade à leitura comentada do Catecismo positivista, em sua duodécima conferência, dedicada à evolução histórica do desenvolvimento humano, ou seja, da religião (em particular, do fetichismo e do politeísmo).

No sermão abordamos as utopias.

A prédica foi transmitida nos canais Positivismo (aqui: https://encr.pw/CtK0V) e Igreja Positivista Virtual (aqui: https://acesse.one/pGUqa).

Os tempos da prédica foram os seguintes:

00 min 00 s - abertura da prédica

07 min 21 s - exortações iniciais

16 min 16 s - efeméride

20 min 02 s - leitura comentada do Catecismo positivista

1 h 10 min 58 s - início do sermão

2 h 26 min 28 s - encerramento da prédica

As anotações que serviram de base para a exposição oral encontram-se reproduzidas abaixo.

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Sobre as utopias

(9 de Arquimedes de 170/20.8.2024) 

1.       Abertura

2.       Exortações iniciais

2.1.    Sejamos altruístas!

2.2.    Façamos orações!

2.3.    Façam o Pix da Positividade! (Chave pix: ApostoladoPositivista@gmail.com)

3.       Efeméride:

3.1.    14 de Gutenberg: nascimento de Luís Hildebrando Horta Barbosa (1900)

4.       Leitura comentada do Catecismo positivista

4.1.    Continuação da duodécima conferência, sobre a evolução histórica do desenvolvimento humano, isto é, da religião, abordando em particular o fetichismo e o politeísmo

5.       Sermão: sobre as utopias

5.1.    O tema de hoje é algo recorrente nas reflexões políticas: as utopias

5.1.1. À primeira vista, ou melhor, a partir de vários preconceitos (entre os quais, em particular, os marxistas), o Positivismo não teria utopias e/ou seria contrário a elas

5.1.2. Todavia, para quem assiste às prédicas positivas e/ou para quem conhece o mínimo da obra de Augusto Comte, é bastante claro que as utopias integram plenamente o Positivismo

5.2.    Comecemos esclarecendo alguns conceitos gerais e limpando o terreno

5.2.1. A palavra utopia foi criada em 1516 pelo pensador e político inglês Tomás Morus, em uma obra chamada precisamente Utopia (na verdade, o título completo é este: “Um pequeno livro verdadeiramente dourado, não menos benéfico que entretedor, do melhor estado de uma república e da nova ilha Utopia”)

5.2.1.1.             O sentido da palavra “utopia” é o de “lugar nenhum”, ou melhor, de “lugar não existente”: seria, então, uma pura idealização

5.2.1.2.             O sentido da obra foi apresentar um ideal político, uma sociedade perfeita, e, a partir disso, avaliar e criticar a sociedade de seu tempo, em particular a Inglaterra absolutista de Henrique VIII

5.2.2. As utopias, portanto, aproximam-se da noção de “idealismo político”, desde que esta última expressão seja entendida como a concepção geral de uma sociedade ideal (e não no sentido da metafísica idealista)

5.2.3. Como vimos, a noção de utopia foi proposta no início do século XVI; essa concepção afirma-se no âmbito do humanismo e das concepções secularizantes posteriores à Idade Média

5.2.3.1.             A referência à Idade Média é importante porque, bem vistas as coisas, as concepções utópicas medievais baseavam-se na teologia: a Utopia de Tomás Morus já não é mais teológica; ela foi seguida por vários outros livros semelhantes, como A cidade do Sol, do frade dominicano Tomás de Campanella (1602), que, embora escrita por um frade, também era secularizada

5.2.4. A Utopia de Tomás Morus inaugura uma linha de reflexão social, política e moral que terá ampla descendência ao longo dos séculos, passando de comentários mais literários no início para propostas mais sociológicas e positivas no século XIX

5.2.4.1.             No século XIX vários pensadores (Roberto Owen, Pedro-José Proudhon, Carlos Fourier e mesmo Pedro Saint-Simon) propuseram seus esquemas sociais utópicos; em 1848 esses esquemas foram criticados em bloco por Carlos Marx, no Manifesto do Partido Comunista, e a expressão “socialismo utópico” foi contraposta a “socialismo científico”, criando-se uma clivagem dura entre as “utopias”, entendidas como puramente fantasiosas, e a cientificidade, entendida como não artística (e não literária) e verdadeiramente realista e exeqüível

5.2.5. Já no século XX, em parte devido aos desastres da II Guerra dos 30 Anos (1914-1945) e da Guerra Fria (1947-1989), mas em parte importante devido à mudança, ou melhor, à degradação da sensibilidade política e artística, a noção de utopia foi substituída pela noção de “distopia”

5.2.5.1.             Enquanto a utopia é um ideal desejável de uma sociedade (mais) perfeita, a distopia é um ideal indesejável, de uma sociedade decadente e/ou fracassada e/ou em colapso

5.2.5.2.             Como notamos quando tratamos das “ficções científicas”, pelo menos desde o final dos anos 1960 a imaginação social do Ocidente está cada vez mais marcada pelas distopias, com filmes mais ou menos decadentistas ou degradantes como Laranja mecânica (1972), Blade Runner (1982), O exterminador do futuro (1984), além das mais recentes tolices de “zumbis”

5.2.5.3.             Em face da importância social (no caso, política e artística) que as distopias apresentam no Ocidente, vale a pena insistir: não precisamos de distopias, mas, sim, de utopias

5.3.    Passemos então ao conceito de utopia no Positivismo

5.4.    Há várias maneiras de começarmos a abordar essa questão; começarei indicando dois aspectos complementares do Positivismo: por um lado, a importância da realidade com a utilidade; por outro lado, a importância da subjetividade

5.4.1. Como sabemos, o Positivismo afirma desde o início a importância do conhecimento da realidade em geral para disciplinar e orientar nossas vidas; de maneira correlata, nossas concepções têm que ser reais

5.4.2. Mas a mera realidade não basta: ela tem que complementada e orientada pela utilidade: assim, por um lado a utilidade restringe o âmbito das investigações reais (o que em particular evita o absolutismo) e, por outro lado, a utilidade estimula concepções que, sem negarem a realidade, estimulem a simpatia, a síntese e a sinergia

5.4.3. A utilidade, então, conduz-nos com facilidade para a importância da subjetividade – que, por si só, como sabemos, é algo de enorme importância no Positivismo, como âmbito da afetividade e também, em termos de concepções intelectuais, da imaginação

5.4.4. Esses aspectos que citamos até agora podem ser entendidos, do ponto de vista teórico, a partir da união dos sentidos da palavra “positivo” com a lei-mãe da Filosofia Primeira (que, no caso, é a primeira lei):

5.4.4.1.             Sentidos da palavra positivo (Apelo aos conservadores, p. 25): real, útil, certo, preciso, relativo, orgânico e simpático

5.4.4.2.             Lei-mãe da Filosofia Primeira: “Formar a hipótese mais simples e mais simpática que comporta o conjunto dos dados a representar”

5.4.5. Três observações específicas, antes de passarmos adiante:

5.4.5.1.             Certamente que a realidade deve ser limitada e reorientada pela utilidade; mas é necessário ter clareza de que a realidade é de fato um critério fundamental; nesse sentido, Augusto Comte distingue o “utópico” do “quimérico”, isto é, o ideal longínquo mas realizável da proposta puramente irrealizável (e, portanto, não positiva, que é apenas perda de tempo, energia e recursos em geral)

5.4.5.2.             Todas as nossas concepções devem corresponder à realidade; mas seja porque nossos recursos mentais são limitados, seja porque nossas concepções abstratas não abarcam toda a realidade, seja enfim porque a utilidade autoriza-nos a elaborar as ficções científicas, há sempre um espaço (maior ou menor) para elaborarmos diferentes enunciados ou formas de apresentar nossas concepções; nesse sentido muito específico, podemos sempre “manipular” nossas concepções, em particular no importante sentido de dotá-las de formas artísticas e altruísticas

5.4.5.3.             As utopias baseiam-se nas leis naturais; elas correspondem, então, em por um lado, às previsões científicas (especialmente as morais, sociológicas e biológicas) e, por outro lado, à extrapolação artística dessas previsões com objetivos práticos e morais[1]

5.5.    Além dos íntimos aspectos intelectuais e afetivos, que citamos até agora, devemos notar que a conduta cotidiana, isto é, a atividade prática precisa sempre de orientação geral, a fim de não nos perdermos nas preocupações cotidianas, no sem-número de questiúnculas, de mesquinharias, de egoísmos e de vistas particulares que nos desviam do altruísmo, do bem-estar coletivo e das vistas gerais

5.5.1. Clotilde resumiu exemplarmente bem essa necessidade ao afirmar: “Compreendi, melhor do que ninguém, a fraqueza de nossa natureza quando não é dirigida para um alvo elevado que seja inacessível às paixões” (3ª da suas máximas)

5.5.2. Aí entra o papel das utopias no Positivismo e na Religião da Humanidade

5.5.2.1.             Como deve estar ficando bastante claro, as utopias no Positivismo têm uma função prática, mas são profundamente orientadas por questões morais e intelectuais

5.5.2.2.             Em outras palavras, as utopias positivas são necessariamente religiosas, em vez de meramente políticas

5.5.2.2.1.                   Para evitar confusões, temos que lembrar: religião e teologia são coisas diferentes; a religião é a sistematização do conjunto da vida humana, em busca da unidade e da harmonia; a teologia é apenas uma das formas de entender o mundo que informou as religiões ao longo do tempo

5.6.    Assim, no v. IV da Política Positiva Augusto Comte afirmou a necessidade prática das utopias e, no caso do Positivismo, ele instituiu a utopia da virgem-mãe como supremo aperfeiçoamento humano, em que as mulheres poderiam conceber, sem a necessidade de intervenção masculina, ou seja, como um processo exclusivamente altruísta e puro

5.6.1. Faremos várias transcrições sobre esse tema, tomando por base as extensas citações de Teixeira Mendes em As últimas concepções de Augusto Comte (1898)

5.6.2. Sobre o papel das utopias:

“A fim de proceder melhor, convém primeiro explicar uma instituição religiosa, destinada especialmente a resumir o conjunto do nosso aperfeiçoamento, físico, intelectual e moral, concentrando-o em um progresso decisivo. Consiste ele em sistematizar a procriação humana, tornando-a exclusivamente feminina. Mas, antes de examinar esta utopia, indicada nos capítulos precedentes, devo caracterizar o seu destino, em virtude da necessidade de condensação peculiar a qualquer síntese, mesmo parcial, e sobretudo geral.

Tal concentração torna-se a conseqüência natural e o complemento necessário da divisão dos dois poderes, que é só o que a permite suscitando a sistematização, e a exige separando a teoria da prática. Não se pode desde então evitar ou reparar a dispersão dos sentimentos e dos pensamentos senão resumindo a síntese por uma instituição especial, para a qual convirjam as principais emoções e concepções. Mas essa necessidade comporta dois modos distintos de satisfação, os mistérios ou as utopias, conforme a religião é teológica ou positiva.

[...] Com efeito, a sistematização católica ficava essencialmente limitada ao sentimento, sem poder abraçar assaz a inteligência nem a atividade, cujas exigências soube iludir enquanto durou a transição afetiva. Pelo contrário, a plenitude necessária da síntese positiva obriga a instituição que deve resumi-la a representar simultaneamente os três elementos da natureza humana, segundo a verdadeira subordinação deles. É preciso, em uma palavra, que a sua conclusão sintética concilie a ordem e o progresso, instituindo um progresso que desenvolva o conjunto da ordem. Ora, tal é a aptidão das utopias convenientemente construídas, cujo surto crescente indicou, sem a satisfazer, a necessidade da unidade surgida da anarquia moderna” (Augusto Comte, Política positiva, p. 273-274, apud R. Teixeira Mendes, As últimas concepções de Augusto Comte, p. 452-454)

“Necessariamente conforme com a marcha da positividade, essas construções sintéticas foram até aqui limitadas à ordem exterior, sobretudo material, mas também vital. A mais bem elaborada e a mais eficaz surgiu, na Idade Média, com a química[2]. Durante a maior parte da revolução ocidental, a transmutação dos metais forneceu um admirável congraçamento a todos os esforços, teóricos e práticos, destinados a aperfeiçoar o nosso meio. O seu império prolongou-se até a aproximação da crise final[3], que veio enobrecer o surto utópico proporcionando-lhes sobretudo uma destinação social, anunciada, havia três séculos, por tentativas malogradas. Mas esse domínio final da positividade, tanto ideal como real, exigia uma doutrina universal, sem a qual a utopia, que deve constituir um resumo, pode somente tornar-se um apanhado, mais perturbador do que fecundo. Ora, essa condição fundamental acha-se suficientemente preenchida desde o advento decisivo da sociologia, donde resulta a irrevogável convergência da revolução ocidental para o estabelecimento da religião positiva. Este desenlace normal vem ao mesmo tempo eliminar as utopias perturbatrizes e substituí-las pelo congraçamento sintético de todas as dignas aspirações em torno de um progresso característico que representa a universal preponderância da moral.

Desde 1838, o terceiro volume da minha obra fundamental[4] anunciou espontaneamente semelhante tendência, propondo a introdução sistemática dos organismos fictícios para aperfeiçoar o conjunto da biologia. Mas essa primeira inspiração não tendo senão uma destinação intelectual, não se podia achar nela um tipo das utopias positivas, que devem ser tanto práticas como teóricas. Todavia, comparada com a transmutação dos metais, ela melhorava o surto utópico, estendendo-o da ordem material à ordem vital. Esse progresso foi melhor realizado na indicação inicial do presente tratado sobre a transformação dos herbívoros em carniceiros, encarada como o limite do aperfeiçoamento animal. Abrindo um vasto campo à ciência, tal utopia interessa igualmente à arte, não quanto aos laboratórios da nossa nutrição, nos quais o excesso de animalização seria nocivo, mas para os nossos companheiros de trabalho, que assim se tornariam mais ativos e mais inteligentes. Todavia, esse passo permanece insuficiente, pois que ele se limita ao domínio profano[5], sem levar a idealização positiva até a ordem humana, que constitui a sua principal destinação, como sendo ao mesmo tempo mais importante e mais modificável. Para instituir o surto utópico, que deve resumir a síntese final, é preciso pois estendê-lo ao domínio sagrado, que é o único capaz de condensar o progresso por meio da ordem, combinando os três modos ou graus do aperfeiçoamento, físico, intelectual e moral.

Tal é a teoria, ao mesmo tempo histórica e dogmática, das utopias positivas, nas quais a poesia e a filosofia devem concorrer melhor do que nas utopias teológicas e metafísicas, pois que o relativo aí sucede ao absoluto. Esta teoria torna-se aqui o complemento da da religião, resumindo a unidade real por um limite ideal, para o qual vêm especialmente convergir os votos, os projetos e as tentativas peculiares ao aperfeiçoamento contínuo da nossa tríplice natureza. Para melhor instituir esse congraçamento, é preciso especificar-lhe um só fito, salvo o renová-lo quando achar-se atingido; o que será sempre possível, atento o imenso domínio da providência humana, apenas esboçado até hoje, mesmo quanto ao meio.

Eis como sou conduzido a representar a utopia da Virgem-Mãe como o resumo sintético da religião positiva, cujos aspectos são todos combinados nela. A sua apreciação especial pertence ao tratado que prometi, para 1859, sobre a moral teórica e prática. Só posso aqui coordenar as principais indicações a esse respeito” (Augusto Comte, Política positiva, p. 274-276, apud R. Teixeira Mendes, As últimas concepções de Augusto Comte, p. 457-459)

5.6.3. Sobre a utopia da Virgem-Mãe:

“[...] A utopia da Virgem-Mãe tornar-se-á, para as mais puras e as mais eminentes, um limite ideal, diretamente apropriado a resumir o aperfeiçoamento humano, assim impelido a sistematizar a procriação nobilitando-a. Essa aptidão permanecerá sempre independente da solução real de tal problema, contanto que ele seja considerado como acessível, em vista do império, apenas esboçado até hoje, que a espécie mais modificável deve exercer sobre a sua própria constituição, mesmo física” (Augusto Comte, Política positiva, p. 240, apud R. Teixeira Mendes, As últimas concepções de Augusto Comte, p. 451)

5.7.    Alguns comentários adicionais:

5.7.1. O ideal da utopia da Virgem-Mãe foi proposto como sinal de desenvolvimento humano geral e não com o sentido exclusivista, discriminador e brutal do ultrapoliticismo feminista

5.7.2. De maneira mais concreta, no que se refere aos aspectos técnicos, devido aos avanços da medicina e da engenharia genética, a utopia da virgem-mãe realizou-se

5.7.2.1.             É necessário afirmar e reafirmar: essa realização dá-se apenas em termos técnicos; os necessários avanços morais, sociais e intelectuais estão muito atrás e, portanto, longe de terem sido realizados

5.7.2.2.             A respeito das novas utopias, Augusto Comte (Política positiva, p. 279, apud R. Teixeira Mendes, As últimas concepções de Augusto Comte, p. 464) recomenda que elas devem referir-se ao corpo humano, devido à íntima vinculação entre o progresso material e o aperfeiçoamento moral

5.7.3. Nas citações acima Augusto Comte observa que as utopias, além de serem um resumo sintético (ou melhor, religioso), são também um limite: a noção matemática de “assíntota” é sempre muito útil nesse caso

5.7.3.1.             A assíntota é uma função que tende no limite para um determinado valor (ainda que nunca chegue efetivamente a esse limite)

5.8.    A respeito das utopias meramente políticas:

5.8.1. Com base nas observações acima, torna-se bastante claro que e porquê de modo geral elas são falhas: ao não terem um aspecto sintético, ou religioso, elas não abarcam o conjunto da vida humana e, daí, sempre omitem ou sacrificam um ou outro aspecto

5.8.2. A partir de caminhos oblíquos, de modo geral se pensa no marxismo ou no socialismo ao falar-se atualmente em “utopias”; mas é claro que também devem entrar nesse título as utopias liberais (do livre mercado) e até mesmo as desgraças nazifascistas

5.8.2.1.             Na verdade, sendo mais correto, deve-se chamar os ideais marxistas, liberais e nazifascistas de “quimeras”, não de utopias

5.8.3. No que se refere ao Positivismo, com freqüência se afirma que a sociocracia é o nosso ideal político: evidentemente, isso é verdade; mas, a partir das observações acima, logo se vê que a sociocracia não é verdadeiramente a nossa “utopia”

6.       Encerramento



[1] Esse aspecto foi-me indicado, com o brilho e a generosidade habituais, por meu amigo Hernani Gomes da Costa.

[2] No caso, a referência é à alquimia e à busca da pedra filosofal ou, de maneira um pouco menos fantástica, à transformação de metais grosseiros (ferro e chumbo em particular) em ouro.

[3] Ou seja, da Revolução Francesa.

[4] Referência ao Sistema de filosofia positiva (1830-1842).

[5] Ou seja, às ciências inferiores (da Matemática à Biologia).