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30 abril 2026

Mais uma vez, os preconceitos disseminados nas pesquisas empíricas

Aforismos sociológicos XI - Mais uma vez, os preconceitos disseminados nas pesquisas empíricas



Comentários sobre o livro O Brasil no espelho (Rio de Janeiro, Globo Livros, 2025), de Felipe Nunes[1].

 

O livro O Brasil no espelho: um guia para entender o Brasil e os brasileiros, de Felipe Nunes – professor da Fundação Getúlio Vargas e dono do Instituto Quaest, de pesquisas de opinião – foi publicado em 2025 e apresenta os resultados de uma pesquisa sobre hábitos e opiniões da população brasileira a respeito das mais variadas questões: importância da família, preferências político-partidárias, confiança nas instituições etc. É um livro pequeno, com menos de 200 páginas, de leitura fácil e rápida, com muitos e muitos gráficos e a maior parte do texto escrito correspondendo à descrição e à interpretação desses gráficos.

Esse livro é interessante em vários sentidos: por um lado, apresenta informações interessantes, comparando-as com algumas pesquisas anteriores; por outro lado, ele é exemplar dos graves defeitos intelectuais e morais que as pesquisas de opinião (“pesquisas empíricas”, “pesquisas quantitativas”, “pesquisas científicas”) podem apresentar. Ou melhor, dizendo de outra maneira, de modo mais direto: esse livro é exemplar dos preconceitos que as pesquisas de opinião podem manter e estimular, de maneira consciente e proposital.

Embora seja o relatório de uma pesquisa de opinião, como é um livro que foi publicado por uma editora comercial, ele é orientado para o grande consumo popular, de modo que não há as reflexões metodológicas que sempre aparecem em pesquisas estritamente acadêmicas; além disso, o estilo de escrita é bastante acessível; por fim, pode-se conjecturar que algumas questões foram suprimidas dessa versão publicada, a fim de manter (ou garantir) o acesso popular dos resultados da pesquisa.

Para estruturar as respostas dos entrevistados, além das classificações em termos de gênero e da região do país, o autor considerou também a “raça” e, principalmente, as faixas etárias. Em termos de gêneros e de região, não há muito o que comentar; a respeito das “raças”, esse é um problema “misto”, na medida em que o autor entroniza um critério discriminador mas segue o padrão oficial brasileiro – adotado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE, e que desgraçadamente é racialista, isto é, racista.

Mas o que nos interessa aqui é a classificação das respostas a partir das faixas etárias. O autor agrupou os respondentes em quatro grupos, nomeados conforme o período de nascimento e de sociabilização básica:

-        grupo “Bossa Nova” (nascidos entre 1945 e 1965)

-        grupo “Ordem e Progresso” (nascidos entre 1965 e 1985)

-        grupo “Redemocratização” (nascidos entre 1985 e 2005)

-        grupo “Geração.Com” (nascidos entre 2005 e 2020)

O autor escolheu, conscientemente, deliberadamente, empregar a fórmula “Ordem e Progresso” para descrever o período autoritário. Em outras palavras, o autor associa direta e conscientemente o “Ordem e Progresso” – e, por extensão, o Positivismo – aos militares e ao autoritarismo.

Não há como diminuir ou minimizar os graves problemas morais e intelectuais dessa escolha feita pelo autor. Mesmo que, por hipótese, possa-se argumentar que tal vinculação foi “inocente” – como se o autor não tivesse desejado, propositalmente, vincular estreitamente o “Ordem e Progresso” à noção de autoritarismo –, o que a suposta inocência dessa vinculação comprovaria superficialidade e irresponsabilidade do autor, atributos que, com certeza, ele rejeitaria e que o conjunto do livro, supostamente, demonstraria. Em todo o livro, “erros inocentes” desse tipo não são vistos a respeito de outros aspectos e, de qualquer maneira, o título “Ordem e Progresso” foi empregado em um procedimento a posteriori e que, de qualquer maneira, pode(ria) ser alterado a posteriori: em outras palavras, o autor decidiu conscientemente adotar a expressão “Ordem e Progresso” para descrever o período autoritário, vinculando a expressão ao autoritarismo.

A irresponsabilidade e a superficialidade intelectual, teórica e metodológica do autor estende-se também ao âmbito moral, na medida em que o “Ordem e Progresso”, à parte a sua origem positivista, integra o mais importante símbolo do país, que é a bandeira nacional[2]. Dessa forma, ao vincular o “Ordem e Progresso” ao autoritarismo militarista, o que o autor faz é vincular a bandeira nacional a esse autoritarismo militarista, corroborando os preconceitos da esquerda e da direita a respeito[3].

O caráter intencional e preconceituoso de Felipe Nunes ao escolher o rótulo “Ordem e Progresso” torna-se mais claro e mais intenso quando se considera que ele poderia ter escolhido inúmeros outros rótulos, com seriedade ou em tom de piada, para descrever a geração nascida entre 1964 e 1985. Assim, por exemplo, ele poderia ter usado “Anos de Chumbo”, “Autoritarismo”, “Regime Militar” – ou mesmo “Segurança e Desenvolvimento”: o autor não o fez simplesmente porque não quis.

Ora, esse tipo de vício intelectual e moral – aliás vício chamado “preconceito” – está presente em todo o livro e reflete um problema que acomete com enorme freqüência cientistas sociais dedicados a pesquisas empíricas, especialmente as quantitativas: são muito bons com números e com a manipulação estatística, mas são péssimos em termos conceituais. Por “péssimos em termos conceituais” o que queremos dizer é que esses pesquisadores lidam mal com os conceitos, não raras vezes sendo superficiais a esse respeito. Em outras palavras, são bons para contar coisas, mas fracassam (com freqüência, de maneira intencional) na parte que realmente importa, que é a reflexão intelectual.

Os grandes esquemas apresentados no livro refletem com clareza tal superficialidade conceitual, ou melhor, tal superficialidade teórica e filosófica: por exemplo, o autor opõe “conservadores” a “progressistas”, em que os “conservadores” são definidos como tais estritamente a partir do que a esquerda considera-o, da mesma forma que os “progressistas”. Em outras palavras, não apenas o autor adota sem maiores cuidados uma classificação que é elaborada por um dos grupos sociais que ele pesquisa (e que é elaborada contra um outro grupo que ele também pesquisa), como o autor adota pessoalmente essa mesma classificação.

Infelizmente faz parte do repertório contemporâneo a afirmação (que em si é falaciosa) de que “tudo é política”, ou seja, de que tudo está em permanente disputa: se “tudo está em disputa”, com certeza os conceitos que esquerda e direita fazem de “conservadores” e “progressistas” também estão (e estão ainda mais) em disputa. Ora, não deveria ser obrigação profissional da parte do autor (como professor universitário, como pesquisador profissional, como dono de um instituto de pesquisa) distanciar-se um mínimo que fosse desses conceitos “em disputa”? Essa obrigação profissional deveria ser evidente para o autor, em termos científico-metodológicos, filosóficos e morais – para não ficarmos somente nos rasteiros termos políticos.

O primarismo conceitual do autor, bem como sua adesão acrítica aos valores da esquerda, fica evidente tanto nas categorias utilizadas por ele para estruturar a pesquisa quanto nas interpretações que ele faz dos dados obtidos. Assim, por exemplo, em termos de categorias empregadas para organizar as respostas fornecidas pelos entrevistados, indicamos acima que o autor adota o conceito de “raças”; mas, para além da triste mas inevitável reprodução da política racialista oficial do Brasil, o fato é que o autor leva a sério a categoria “raça”. Ou seja, o autor reproduz o preconceito identitário segundo o qual o Brasil seria constitutiva e profundamente “racista”[4].

Em outro âmbito de reflexões, o autor afirma que “valorizar a família” seria um traço de conservadorismo – o que, inversamente, significa que desvalorizar a família seria uma perspectiva progressista! Em outras palavras, o que o autor sugere, ainda que de maneira subentendida, é que a desestruturação de lares, a fragilidade sistemática das relações humanas, a ausência de ambientes estáveis, acolhedores e estruturados – isso seria algo bom e desejável.

O autor não é explícito a respeito; ele não assume, em momento nenhum, tais características. Na verdade, inversamente, o autor assume um certo objetivismo ligado ao seu quantitativismo; esse objetivismo serve na prática para que os pesquisadores quantitativistas escondam-se atrás de números e da retórica academicista-cientificista. (Essa crítica é feita por autores/pesquisadores tanto da direita quanto da esquerda.) De qualquer maneira, a leitura atenta do livro evidencia com grande facilidade esses vícios.

Há muitos outros aspectos em que o livro é superficial em termos de reflexões teóricas, de elaboração conceitual, de fundamentos filosóficos elementares. É claro que não seria possível o autor abordar com profundidade todos os aspectos implicados pela pesquisa; entretanto, o autor dá certo destaque para algumas questões, sugere algumas conseqüências a respeito dessas questões e de algumas outras, mas silencia a propósito de outras que mereceriam (ou exigiriam) comentários e aprofundamento. Isto é, o autor escolhe conscientemente dar destaque a algumas coisas e a silenciar (ou omitir, ou ser superficial) a respeito de outras.

Um tema a respeito do qual o autor silencia é a chamada “laicidade do Estado”. O autor apresenta previamente vários resultados importantes – por exemplo, que a população brasileira acredita majoritariamente em divindades (monoteístas e politeístas) e que a população acredita no “poder da fé” –, para em seguida afirmar que isso tem relevância para políticas públicas, especialmente as que mobilizam mais diretamente a ciência (como as políticas de saúde e, indiretamente, de educação) e afirmar que se “deve levar a sério o peso das crenças populares, sob risco de as políticas públicas darem errado”: ora, o que se quer dizer com “levar a sério as crenças populares”? O autor silencia a respeito, mas sua omissão dá a impressão de que ele considera que governo e Estado devem incluir essas crenças nas políticas públicas – logo, o Estado deve deixar de lado a laicidade, o que deveria ser evidentemente inaceitável. Mas, em todo caso, como o autor silencia a respeito, temos apenas uma sugestão vaga e inconclusiva, mesmo que – como o próprio autor admite – seja a respeito de um aspecto central das políticas públicas.

Em face disso tudo, a vinculação cínica e ligeira do “Ordem e Progresso” ao militarismo e ao autoritarismo evidencia de maneira exemplar os vícios intelectuais e metodológicos do autor. Como vimos, o autor opõe de maneira simplista “conservadores” a “progressistas”: mais que apenas aderir de maneira indesculpável às disputas políticas contemporâneas e transferi-las para sua pesquisa, o que o autor faz é rejeitar qualquer possibilidade efetiva de superar essa oposição e de realizar a união proposta pela máxima “Ordem e Progresso”. O conjunto dos problemas teóricos, morais e políticos do livro deixa bastante claro que o autor não conhece a sociologia e a história subjacentes ao “Ordem e Progresso” e não entende a respectiva filosofia[5]: é difícil não chegarmos à conclusão de que se esconder atrás dos números para repetir e reproduzir preconceitos políticos nunca foi tão fácil e lucrativo.

Em textos de promoção comercial das obras do autor, afirma-se que ele é um “grande” pesquisador, com uma carreira de sucesso no Brasil e no exterior, tendo desenvolvido muitas pesquisas e elaborado um índice que é vendido para governos e empresas. À parte o exercício comercial desse tipo de comentário, o êxito acadêmico do autor deixa claro que não há motivo nenhum para ele cometer os erros e os vícios que comete – e ele de fato comete-os: sua habilidade estatística e empírica poderia com enorme facilidade evitar todos os problemas devidos ao seu primarismo teórico.

Em suma, é difícil não se ficar com grande irritação e má vontade com um livro e com um pesquisador que cometem erros tão grandes e superficiais, de maneira consciente e sistemática.

 

Gustavo Biscaia de Lacerda (GBLacerda@ufpr.br) é Doutor em Sociologia Política (UFSC) e Sociólogo da UFPR.

 

Referências bibliográficas

Abaixo-assinado “A bandeira nacional republicana não é fascista”. 2022. Disponível em: https://peticaopublica.com.br/pview.aspx?pi=BR127657. Acesso em 30 abr. 2026.

Comte, Augusto. 1898. Apelo aos conservadores. Rio de Janeiro: Igreja Positivista do Brasil.

Comte, Augusto. 1934. Catecismo positivista. 4ª ed. Rio de Janeiro: Igreja Positivista do Brasil.

Lacerda, Gustavo B. 2018. Comtianas brasileiras. Curitiba: Appris.

Lacerda, Gustavo B. 2019. O momento comtiano. Curitiba: UFPR.

Lacerda, Gustavo B. 2025. Sobre o livro “A utopia autoritária brasileira”, de Carlos Fico. Filosofia Social e Positivismo, Curitiba, 21 out. Disponível em: https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2025/10/sobre-o-livro-utopia-autoritaria.html. Acesso em: 30 abr. 2026.

Lacerda, Gustavo B. 2026. “O Brasil no espelho”, Dia das Mulheres, Castilhismo não é fascismo. Filosofia Social e Positivismo, Curitiba, 11 mar. Disponível em: https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2026/03/o-brasil-no-espelho-dia-das-mulheres.html. Acesso em: 30 abr. 2026.

Mounk, Yascha. 2024. A armadilha da identidade: uma história das ideias e do poder em nosso tempo. Rio de Janeiro: ed. 70.

Neiman, Susan. 2024. A esquerda não é woke. Belo Horizonte: Âyiné.

Nunes, Felipe. 2025. Brasil no espelho: um guia para entender o Brasil e os brasileiros. Rio de Janeiro: Globo.

Risério, Antônio. 2022. A crise da política identitária. Rio de Janeiro: Topbooks.

Teixeira Mendes, Raimundo Teixeira. 1898. As últimas concepções de Augusto Comte. Rio de Janeiro: Igreja Positivista do Brasil.



[1] Este documento retoma comentários feitos oralmente em Lacerda (2026).

[2] Considerar que esse título foi devido a um erro “inocente” é, na melhor das hipóteses, um sofisma, ou, em linguagem direta, uma desculpa esfarrapada. Uma hipótese complementar, de que essa escolha teria sido uma espécie de piada política feita pelo autor, é ainda pior – que se torna mais degradante na medida em que se passa a ter em mente que o “Ordem e Progresso” integra a bandeira nacional brasileira.

[3] Devido a uma triste mas reveladora coincidência, no mesmo dia em que expusemos oralmente as críticas ao livro de Felipe Nunes, divulgamos uma postagem em que nos pusemos contra a pretensão de direitistas de associarem o Positivismo ao fascismo; trata-se do cartaz “O castilhismo não é fascista” (ver Lacerda, 2026); antes, em 2022, lançamos o abaixo-assinado “A bandeira nacional republicana não é fascista”.

A respeito dos preconceitos que a esquerda difunde contra o Positivismo, pode-se consultar Lacerda (2018), em que discutimos detalhadamente os mitos que Sérgio Buarque de Hollanda criou contra o Positivismo, e Lacerda (2025), em que tratamos do último livro do historiador Carlos Fico.

[4] Sobre os graves problemas morais, intelectuais e políticos do identitarismo em geral e, para o que nos interessa aqui, do identitarismo racialista-racista, cf. Risério (2022) e Mounk (2024). Susan Neiman (2024), a partir da esquerda, reafirma a crítica ao identitarismo.

[5] É claro que bastaria o autor ler diretamente Augusto Comte (por exemplo, 1898 ou 1934) a esse respeito; ou o nosso grande Raimundo Teixeira Mendes (por exemplo, 1898). Mas, caso quisesse usar a desculpa de que tais referências são difíceis de achar (o que é discutível, especialmente com os atuais e vastos repositórios eletrônicos, como o Internet Archive, o Google Books ou o Gallica), estão à disposição os livros de Lacerda (por exemplo, 2018 e 2019), bem mais recentes.