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10 agosto 2026

Relato da prepotência militar

No dia 26 de Dante de 172 (10.8.2026) o jornal carioca Monitor Mercantil publicou o meu artigo "Relato da prepotência militar". O texto original encontra-se disponível aqui: https://monitormercantil.com.br/relato-da-prepotencia-militar/.

Reproduzimos abaixo o nosso artigo.

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Militares marchando (foto domínio público via Rawpixel).


Relato da prepotência militar

Para militares, civis devem respeitar ‘autoridade’ com base em autoritarismo e em submissão servil. Por Gustavo Biscaia de Lacerda

Nesta coluna eu apresento reflexões sociais, políticas e morais, sempre com um caráter geral; raras vezes (se é que o fiz em qualquer ocasião) fiz comentários especificamente pessoais. Mas toda regra tem exceções; assim, aproveito esta coluna para expor um lamentável episódio que recentemente aconteceu comigo. Julgo que este artigo será mais eficaz que denúncias junto ao Ministério Público Federal, ao Ministério Público Militar e/ou à Ouvidoria Pública Federal.

Na noite de 29 para 30 de julho, pouco depois da meia-noite, eu viajava de ônibus de Foz do Iguaçu para Curitiba. Na altura de Cascavel, o ônibus foi parado por uma blitz do Exército. Minha estada em Foz tinha sido ruim, eu estava cansado, com sono, de mau humor e ainda fui acordado por um tapa na perna dado por um “reco”. (“Reco” é a gíria depreciativa que se refere aos soldados recrutas. Como tal sujeito foi prepotente e recusou-se a dizer seu nome e patente, é justo que eu trate-o por “reco”.)

O “reco” que me acordara com um tapa foi perguntando a cada passageiro para onde viajava, o que fizera em Foz do Iguaçu, o que fazia da vida; todos respondendo com temerosa submissão. Novamente: cansado, com sono, irritado, acordado com um tapa. Além disso, como se diz, “quem não deve não teme”.

Quando eu fui inquirido pelo “reco”, respondi com firmeza e clareza: “Fui [a Foz do Iguaçu] gastar dinheiro”. O “reco” não gostou e tomou minha resposta por uma insolência; imediatamente me mandou descer do ônibus, indicar minha bagagem, abri-la e submeter-me a quaisquer outras ordens que ele e sua tropa de brucutus decidissem impor-me. Claro: todos devidamente armados, com fuzis e pistolas preparados para disparar. Respeito sob a mira da baioneta não tem muito valor.

Quem não deve não teme: fiz questão de apressar as coisas e de mostrar minha bagagem (uma mochila de 60 litros); na verdade, como a maior preocupação do “reco” era com a minha “insolência”, tive que insistir que ele fosse, de fato, ver minha mochila. Como eu estava sendo submetido a um exame invasivo, perguntei a outro “reco” o motivo da inspeção; a resposta, de má vontade: “Faça o que mandam; eu não responderei nada”.

Fiquei olhando o brucutu que se recusara a responder esvaziar minha mochila e intrometer-se em minha privacidade. O primeiro “reco” resolveu voltar à carga: “Que exemplo você quer dar ao desafiar uma autoridade?”.

Ora, o porte de fuzil e de pistolas não faz de ninguém uma autoridade. Ou melhor, fuzil e pistola não fazem de ninguém autoridade no Estado de Direito; com fascismo, comunismo e milícias/facções, a situação é outra.

Mas o fato é eu sou servidor civil público federal e, ainda mais, se isso tem algum valor, eu sou cidadão brasileiro no Estado de Direito; se havia alguma “autoridade” ali, era eu, não um “reco” prepotente. Foi o que eu disse – mais uma vez, com clareza e firmeza, mas agora escandalizado com a desfaçatez de ouvir uma carteirada de fuzil misturada com uma despropositada “lição de moral”.

A essa altura, já estando claro que eu não tinha nada a esconder, aproximou-se de mim um outro soldado – aliás, o único identificado com nome e patente: sargento ***. Talvez em uma versão militar do “tira bom, tira mau”, ele começou a conversar e esclarecer com calma a situação.

O que ele me perguntou foi o que o “reco” inicial perguntara; a minha resposta inicial foi a mesma: “Fui [a Foz do Iguaçu] gastar dinheiro”. Ora, Foz é uma cidade cara, organizada de maneira a explorar ao máximo os turistas, com uma infraestrutura precária e com atendimento sofrível; para quem quer fazer turismo sem gastar rios de dinheiro, é uma cidade que exaure.

O sargento *** ouviu minha resposta; em vez de entendê-la como uma insolência, deu uma leve risada e continuou a conversa; perguntou-me onde trabalho, o que faço da vida etc., ao que eu fui respondendo. Vale notar: eu afirmei e reiterei que conversava com calma, firmeza e sem medo. (Qual criminoso de estrada argumentaria assim?)

O “reco” inicial voltou mais uma vez à carga, ameaçando-me e dizendo que fazia questão de “redigir o relatório” a meu respeito. Suponho que fosse um relatório de crimes, mas, como tudo até ali, isso não foi explicado, embora o tom adotado de ameaça agressiva fosse evidente.

O sargento ***, em seu papel de “tira bom”, convenceu-se de que eu não tinha nada a esconder; conduziu-me de volta ao ônibus e até me explicou do que se tratava (combate a tráfico de armas, drogas e pessoas).

Agradeci e dei boa-noite; mas faltava o documento de identificação. Com quem estava? Com o “reco” inicial. Ele não me entregou o documento: jogou-o no colo (eu estava de braços cruzados); em face da ameaça de “relatório” contra mim, já cansado, eu perguntei em desafio se ele faria esse tal relatório; resposta: “Não tem relatório e não incomode”. Por fim, eu perguntei: “Qual sua patente?”; sua resposta foi a cereja do bolo: “Não tem patente, não tem nome, não tem nada e não incomode”.

Certamente me perguntarão: "por que, desde o começo, você não respondeu ao militar do jeito que ele queria?". Essa pergunta não faz sentido; ou melhor, até faz sentido, mas é profundamente degradante. Essa pergunta pressupõe que, mesmo no Estado de Direito, os cidadãos têm que temer os militares e devem tomar o máximo de cuidado para não ferirem as suscetibilidades dos recos.

Se no Brasil estivéssemos em situações excepcionais, mantidas pela arbitrariedade dos fuzis, a minha resposta inicial teria sido fatal. Mas não vivemos nem no fascismo, nem no comunismo, nem o percurso da BR-277 (que é a rodovia que atravessa o Paraná e liga Foz do Iguaçu a Curitiba) está submetido a milícias e/ou facções.

No setor privado e no serviço público civil, a minha resposta inicial não teria absolutamente nada de excepcional; o bom senso indica que bastaria um pouco de boa vontade para seguir a conversa. Mas por que ela não foi aceitável para os militares?

O motivo é tanto simples quanto, como já indicamos, é degradante. Minha resposta inicial foi inaceitável para os militares porque eles consideram que (1) as relações entre civis e militares devem espelhar as relações entre os próprios militares e, ainda mais, que (2) os civis devem respeitar os militares pura e simplesmente porque estes andam com fuzis e pistolas.

Em outras palavras, ainda (ou novamente) em 2026, para os militares a autoridade não consiste em respeito inspirado em serviços verdadeiros e bem prestados; para os militares, os civis devem respeitar a sua “autoridade” com base em autoritarismo prepotente e em submissão servil.

O comportamento do “reco” inicial foi apoiado por sua tropa e pelo “tira bom” sargento ***; dessa forma, não foi um comportamento excepcional. O problema não foi a frágil suscetibilidade do “reco” inicial; o problema é os militares considerarem que os civis, ou melhor, que os cidadãos devem temer, com servilismo, os fuzis e as pistolas. Em tal ambiente, pura e simplesmente não há e não é possível qualquer “cidadania”.

Gustavo Biscaia de Lacerda é sociólogo da UFPR e doutor em sociologia política.

13 julho 2026

O Brasil, da rejeição do Ocidente à ilusão do reinício da história

No dia 13 de julho de 2026 o jornal carioca Monitor Mercantil publicou nosso artigo "O Brasil, da rejeição do Ocidente à ilusão do reinício da história - 1".

O texto original encontra-se disponível aqui: https://monitormercantil.com.br/o-brasil-da-rejeicao-do-ocidente-a-ilusao-do-reinicio-da-historia-1/.

O artigo pode ser lido abaixo.

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Mapa Múndi (foto de Leandro Barreto na Unsplash).

O Brasil, da rejeição do Ocidente à ilusão do reinício da história – 1

Nos afastamos de nossa ocidentalidade. Esse afastamento, ou essa rejeição, são graves e muito ruins. Por Gustavo Biscaia de Lacerda.

Um dos traços mais notáveis da política brasileira no último século é a nossa insistente dificuldade, ou nossa franca rejeição, de conjugarmos (1) a filiação à civilização ocidental com (2) a autonomia nacional e perspectivas universalistas. Essa conjugação não tem nada de excepcional e não é em si mesma contraditória, mas sua realização exige vontade e esforços conscientes. Cada vez mais o que se vê é que tais vontade e esforços não ocorrem – bem ao contrário, aliás.

Genericamente e a princípio, as perspectivas universalistas são o respeito a todas as culturas e civilizações existentes, bem como a abertura e o bom relacionamento com elas, a partir de critérios aplicáveis a todas, com dignidade e uniformidade.

A autonomia nacional corresponde à capacidade de decidirmos o que desejamos fazer, com quem desejamos relacionar-nos, quais os valores que nos orientam – o que tem um aspecto interno e outro externo.

Já a filiação à civilização ocidental corresponde ao fato de que o Brasil surgiu a partir dos esforços expansionistas europeus, sob a orientação política, cultural e moral portuguesa, com diversas modalidades de interação com as populações autóctones e de outras áreas nesse esforço.

Muitas vezes os europeus foram brutais, mesmo criminosos, gerando situações que se tornaram problemáticas; ainda assim, daí surgiram novas sociedades, sob a orientação do que posteriormente se ampliou para a concepção de “Ocidente” – e que não se reduz aos seus aspectos problemáticos, apresentando muitos e importantes aspectos positivos.

A autonomia nacional brasileira é um valor que mais ou menos não se discute, pelo menos ao afirmar-se internamente a originalidade de nossa sociedade e, em decorrência, as nossas preocupações externas específicas. Mas – e é esse o começo do problema que desejamos comentar – essa autonomia (interna e externa) é entendida como rejeição do pertencimento ao Ocidente, o que, por sua vez, conduz a um universalismo no mínimo claudicante.

Não se pode fingir que o Ocidente teve ao longo da história um comportamento exemplar. A própria noção de “Ocidente” com frequência é manipulada para induzir, ou impor, comportamentos que beneficiam apenas alguns países em particular; além disso, em inúmeros períodos ela justificou práticas odiosas, como a escravidão e/ou extermínio de outros povos.

A expressão “fardo do homem branco” (white man’s burden) resume isso muito bem, em termos de colonialismo imperialista ou de restrição do próprio “Ocidente” a alguns países (em particular Alemanha, Inglaterra e, mais recentemente, Estados Unidos).

Os problemas ligados ao “Ocidente” não são poucos e muitos deles são realmente graves: isso explica e às vezes justifica inúmeras reações, começando pela descolonização, passando por distanciamentos variados e chegando à franca rejeição. Depois de 1945, isso assumiu as formas do Movimento dos Países Não-Alinhados, do Movimento do Terceiro Mundo e atualmente do Sul Global. Esses movimentos transitam entre o distanciamento e a rejeição, com a crítica ao (ou a um) falso universalismo e eventualmente com a defesa de particularismos supostamente virtuosos.

Mas, em contraposição aos problemas acima, o Ocidente é o fundamento efetivo da identidade de dezenas de países, tanto na Europa quanto nas Américas e em outras partes. Além disso, concepções fundamentais da vida contemporânea têm origem no Ocidente, em particular o universalismo secular, a tolerância e a atividade pacífica e cooperativa. Essas concepções fundamentam várias das mais importantes instituições atuais, organizadas no sistema da Organização das Nações Unidas, mas não somente nele.

Por outro lado, muitas das demandas não-ocidentais valem-se explicitamente das concepções ocidentais, como o uso sistemático da “crítica”, a exigência de tolerância, autonomia e soberania nacionais etc. Essas concepções são usadas por países não-ocidentais mesmo quando as concepções próprias a esses países são diametralmente opostas às ocidentais; muitos dos países que criticam o Ocidente adotam, eles mesmos, comportamentos criticáveis: imperialismo, colonialismo, falso universalismo etc., resultando em hipocrisias múltiplas e cruzadas.

Esse comportamento, que de maneira suave podemos chamar apenas de “ambíguo”, é compartilhado por intelectuais, em particular pelos intelectuais “críticos”. Assim como vários países, muitos intelectuais frequentes vezes usam o universalismo criado pelo Ocidente para sabotar esse mesmo universalismo, em favor de concepções e práticas que muitas vezes são particularistas, autoritárias, discriminatórias etc.

Essa conduta dos intelectuais é ainda estimulada pela teoria e prática do identitarismo; no fundo, ele é apenas uma variedade de etnocentrismo e, portanto, potencialmente “universal”, mas a sua forma específica, em voga desde há algumas décadas, é estadunidense (logo, plenamente ocidental). O identitarismo sistematiza e estimula os ressentimentos de grupos sociais e políticos que são minoritários ou que se vêem assim, enfatizando de maneira agressiva os particularismos e os facciosismos: é claro que as ambiguidades do Ocidente são um campo fértil para o identitarismo.

É nesse intrincado ambiente que se inclui a situação brasileira, que é muito específica, em múltiplos sentidos. Somos um país de dimensões continentais, o que nem sempre percebemos com clareza e que nos conduz a concentrar-nos em demasia em nossos problemas internos, ignorando o ambiente externo e a dependência de todos os países em relação a isso.

Também somos o único país lusofalante nas Américas, cercado por sete países hispanofalantes; além disso, em um continente republicano, nossa independência manteve a monarquia, para garantir a escravidão e o território gigantesco. Mas fomos colonizados por um povo ibérico, cuja plasticidade social é universalmente reconhecida. Além disso, compartilhamos também os aspectos positivos do Ocidente, herdando o racionalismo universalista, a trilha para a atividade livre e cooperativa, o estímulo à tolerância etc.

Retornamos aqui à afirmação inicial deste artigo: nós, brasileiros, lidamos muito mal com nosso caráter ocidental. Certamente que os problemas próprios ao Ocidente (e que, lamentavelmente, não são exclusivos do Ocidente) não ajudam nessa relação, como nos casos dos valores compartilhados e dos falsos universalismos usados externamente como pretextos para a dominação e a exploração, ou, internamente, para degradações étnicas.

Esses aspectos negativos estimulam a rejeição dos nossos aspectos ocidentais; a agressividade identitária de origem estadunidense dá uma camada extra à problemática relação que mantemos com nossa identidade nacional.

O resultado disso tudo é que nos afastamos de nossa ocidentalidade – e, no limite, tendemos a rejeitá-la. Deveria ser evidente que esse afastamento, ou essa rejeição, são graves e muito ruins. Ainda assim, uma série de práticas daí derivadas deixa claro que essa evidência, infelizmente, não é tão evidente assim, o que justifica as presentes reflexões.

Desenvolveremos essas questões em nosso próximo artigo.

Gustavo Biscaia de Lacerda é sociólogo da UFPR e doutor em Sociologia Política.

08 junho 2026

Desregulação do poder no Brasil, moralidade e politização

O jornal carioca Monitor Mercantil publicou em 8.6.2026 o nosso artigo "Desregulação do poder no Brasil, moralidade e politização". O original pode ser lido aqui: https://monitormercantil.com.br/desregulacao-do-poder-no-brasil-moralidade-e-politizacao/.

O texto encontra-se abaixo.

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Politicians participating in political debate. Concept business team vector illustration, Teams, Debate, Meeting.


Desregulação do poder no Brasil, moralidade e politização

Precisamos recuperar a noção de república e convencimento pacífico 

Por Gustavo Biscaia de Lacerda

O poder está desregulado no Brasil. Isso pode parecer bastante abstrato (e, em certo sentido, é, sim, abstrato), mas, bem vistas as coisas, o problema é bastante concreto e, desgraçadamente, bastante geral. Não é o Estado, não são as instituições, não são nem os partidos políticos: é o poder, é o mecanismo geral de tomadas de decisões e de imposição das ordens; é isso que está desregulado, e severamente desregulado, no Brasil.

A direita, organizada na aliança entre Centrão, fascistas e evangélicos, não tem pudor em aumentar cada vez mais os privilégios parlamentares, clericais e militarescos, com o orçamento impositivo e secreto, a proposta de completa isenção fiscal para as igrejas, feriados e benefícios clericalistas e um projeto geral de instituição de uma teocracia evangélica com apoio das baionetas.

A esquerda, embora minoritária, não fica atrás, especialmente a esquerda identitária, que, da mesma forma, obtém feriados particularistas, benefícios clericalistas e projetos de lei que estipulam agressivas doutrinas oficiais de Estado e crimes de opinião.

Há a hipocrisia habitual, em que a direita e a esquerda criticam uma à outra, porque ambas fazem as mesmas coisas com os mesmos objetivos. Mas, para além da polarização costumeira, muitos críticos afirmam que o problema seria o “moralismo” dessas perspectivas, e a solução seria, no lugar da moralidade, a “politização” das questões.

Falar em “politizar” o debate dá a impressão de grande sabedoria prática, além de conhecimento histórico e teórico. Os marxistas repetem, desde sempre, que é necessário “politizar” os debates; já a tradição maquiavélica separa a política da moral e afirma a superioridade (moral) da primeira sobre a última.

O problema que enfrentamos não é de moralização da política, nem a solução seria a politização dos debates. Não existe política sem moralidade; quem afirma tal ideia é ignorante, ingênuo ou hipócrita. O ser humano sempre age com base em valores e preocupações; esses valores podem ser altruístas ou egoístas; se tiver consciência dos seus valores, pode orientar-se para o altruísmo, mas, se for inconsciente, acabará sendo egoísta. Assim, quem afirma que a política pode e deve ser sem valores está, na verdade, praticando a moralidade egoísta – egoísmo individual, familista, de classe, profissional, nacional, de igreja.

Por outro lado, como sabemos desde Hobbes e, como foi reafirmado por Augusto Comte, a política baseia-se na mobilização de valores, mas pratica-se pela imposição da força. Quem quer substituir a moralidade pela política deseja que a política vire pura imposição da força. Assim, mais uma vez, quem afirma tal ideia é ignorante, ingênuo ou hipócrita.

O diagnóstico da “moralidade como problema” erra duas vezes. Na verdade, ele erra três vezes: ao criticar a moralidade, ao defender a politização e ao ignorar o fato de que direita e esquerda apostam na mais crua política para impor suas crenças.

Direita e esquerda concordam em uma visão violentamente ultrapolitizada para agir; ambas concordam que, por terem o poder, devem impor suas crenças sobre os demais; ambas consideram que a tolerância, o convencimento e a liberdade de pensamento são tolices heréticas a serviço do erro e que, portanto, devem ser combatidas violentamente.

A direita adota a concepção teocrática de que o Estado deve estar a serviço da igreja dominante, da crença dominante. Embora a Igreja Católica defenda, quando convém, a laicidade do Estado, o fato é que seus bispos, arcebispos e cardeais nunca fingiram que não querem a teocracia. Os protestantes históricos sempre foram mais cuidadosos, mas os evangélicos são agressivamente teocráticos e não têm pudores em defender a instrumentalização do poder e do Estado para seus fins teológicos e eclesiais.

A esquerda não fica atrás. Os marxistas sempre consideraram ilusões burguesas (ou liberais) as ideias de tolerância, liberdade de expressão e laicidade — exceto para si próprios e enquanto estivessem sem o poder.

Depois da queda do Muro de Berlim, o marxismo “raiz” foi substituído pelos identitarismos. Embora suas origens sociais sejam diversas e suas bases filosóficas sejam outras, os identitários são filhos bastardos e academicistas do marxismo: basta bom senso para perceber-se que o “patriarcado” é a versão feminista da “burguesia” (ou do “capitalismo”), que o “lugar de fala” é a versão feminista-queer-racialista da “consciência de classe”, que a ciência/filosofia/arte feminista-queer-racialista é a versão identitária da ciência/filosofia/arte “proletária”.

Mas há um aspecto em que esses filhos bastardos ultrapassaram o pai: na concepção pós-moderna (devida a Foucault, que se baseou em Nietzsche e no nazista Heidegger) de que tudo na sociedade é política (ou “socialmente construído”), ou seja, tudo é luta de poder.

Essas concepções pervadem partidos políticos, todo o Congresso Nacional e a maior parte dos governos, além do Judiciário e da barafunda que é o Ministério Público. Assim, a prática do poder em geral, no Brasil, está desregulada. A solução não será maior politização, pois isso resultará em mais do que já temos. Precisamos é de regulação — e a regulação tem um aspecto institucional, por certo, mas baseia-se, antes, na moralidade. O problema não é a moralização, mas a aplicação de moralidades ruins e inadequadas.

Não se trata de moralidades que, em si, seriam boas, mas que estão sendo pervertidas ou corrompidas. Se estivéssemos na Mesopotâmia de 2.500 anos atrás ou, quem sabe, no Consistório de Genebra que Rousseau considerava o ideal democrático, talvez fossem moralidades aceitáveis; mas estamos na modernidade, hoje. A moralidade teocrática é inaceitável, seja ela teológica (da direita), seja ela metafísica (da esquerda).

O que nós precisamos é re-regular o poder no Brasil — e, bem vistas as coisas, no Ocidente de um modo geral e, aliás, no mundo como um todo. Em vez de combatermos, abstratamente, a moralidade em nome de uma politização que, concretamente, resultará em mais violência, precisamos recuperar a moralidade que foi e é combatida pela direita teocrática e pela esquerda metafísica: precisamos recuperar a noção de república, de coisa pública, de tolerância, de convencimento pacífico, de rejeição da violência. Além disso, precisamos reafirmar e retomar a condição institucional disso tudo, que é a separação entre igreja e Estado — vulgarmente, a “laicidade”.

Temos que retomar concepções e práticas. Por um lado, os valores do bem comum, do convencimento livre, da liberdade de pensamento, da dignidade individual. Por outro lado, as práticas da tolerância, do respeito mútuo, do convencimento. Mas também temos que retomar as noções de que o Estado é incompetente para decidir sobre questões de foro íntimo e que igreja (e partido, e seita acadêmica) e Estado devem ser separados.

Não será algo fácil. Essa retomada irá contra ideias, práticas e decisões atuais. Mas, fora disso, não teremos futuro.

Gustavo Biscaia de Lacerda é sociólogo da UFPR e doutor em Sociologia Política.

21 maio 2026

Liberdade acadêmica sem (auto)responsabilização

No dia 20 de maio de 2026, o jornal carioca Monitor Mercantil publicou um texto de nossa autoria em que tratamos do Manifesto pelo Pluralismo e pela Liberdade Acadêmica.

Embora concordemos de modo geral com o conteúdo desse manifesto, ele apresenta uma série de defeitos que exigem reflexão.

O original do nosso artigo está disponível aqui. O nosso texto está reproduzido abaixo.

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Manifesto pela liberdade acadêmica sem (auto)responsabilização

A própria comunidade acadêmica é a responsável pelo que critica em manifesto. Por Gustavo Biscaia de Lacerda.

Estudantes universitários em sala de aula (foto: ABr)

Há algumas semanas, um grupo heterogêneo de professores universitários de ciências sociais lançou um Manifesto pelo Pluralismo e pela Liberdade Acadêmica. Esse documento é notável tanto pelo que diz quanto pelo que não diz, bem como pelo local em que foi redigido e por seus subscritores iniciais, e exige algumas reflexões.

O documento foi originalmente assinado por cientistas sociais de grande projeção nacional, alguns dos quais têm colunas fixas em grandes jornais impressos (Maria Hermínia Tavares e Wilson Gomes, na Folha de S. Paulo, Pablo Ortellado, no Estadão). Para além disso, há subscritores habitualmente discretos e que costumam recusar-se a assinar manifestos político-acadêmicos. (Fui aluno e tenho relações de amizade com vários deles, vale notar.)

Por outro lado, esse documento foi elaborado e publicado originalmente em São Paulo, reunindo pesquisadores que circundam o ambiente paulista (ou seja, que trabalham e/ou que estudaram lá). Claro que há exceções a essa descrição geral, mas, basicamente, trata-se de um documento paulista, aberto à adesão dos demais.

O que esse documento afirma explicitamente? Ele afirma que as universidades públicas (federais e estaduais) nos últimos anos têm sido caracterizadas por um ambiente político tóxico, de restrição das liberdades de pensamento e de exposição, com agressivos impedimentos da manifestação de ideias, bem como do mais intenso patrulhamento moral e ideológico. Em face disso, clama-se pela reversão da intolerância e pela reinstalação da liberdade acadêmica.

O documento tem tido muitas adesões, o que sugere que o problema denunciado é real; de nossa parte, a esse respeito, concordamos totalmente.

Mas, como dissemos há pouco, esse manifesto é notável não só pelo que explicita, mas também pelo silencia. E os silêncios são tão, ou até mais, eloquentes que suas afirmações.

O manifesto denuncia alguns graves problemas e clama por sua reversão; ou seja, ele critica alguns efeitos e busca a sua inversão. Todavia, o documento mantém-se resolutamente em silêncio a respeito dos fatores que resultaram nesses fenômenos, bem como de seus agentes produtores.

Assim, o manifesto age no vazio ou no limbo. Fala-se dos efeitos, mas cala-se a respeito das causas e dos causadores. Os autores do manifesto são cientistas sociais, todos com décadas de pesquisas empíricas e teóricas; o silêncio a respeito das causas e de seus produtores não é casual, mas profundamente intencional.

O fato simples e direto é que os causadores da situação denunciada no documento são os próprios acadêmicos. Por certo que a maior parte dos autores do manifesto são mais ou menos inocentes a respeito e que alguns deles há muito tempo são críticos francos da situação denunciada. Ainda assim, os professores universitários, em seu conjunto, são os responsáveis pela situação que criticam e de cujos efeitos agora padecem.

É porque não querem assumir as próprias responsabilidades – em bom português: porque não querem assumir as próprias mancadas – que o documento se mantém obsequiosamente em silêncio a respeito da origem e dos autores desses problemas.

Por que os professores universitários são os responsáveis pelo atual ambiente tóxico, de patrulhamento agressivo e intolerante? Pura e simplesmente, porque os professores universitários estimularam durante décadas (quando não ainda estimulam) esse comportamento; ou, então, porque se mantiveram (e mantêm-se) omissos a respeito.

Na verdade, o que o documento denuncia é a realidade social mais ampla há muito tempo: os professores universitários reclamam agora porque eles próprios têm que lidar com as consequências de suas ações e de suas omissões que, até então, graciosamente eles reservavam para “os outros”. (Perseguições, favorecimentos, vingancinhas, filhotismo… a academia é plena desse gênero de mesquinharia, inclusive praticada por vários dos autores do manifesto: cinismo e hipocrisia.)

Mais que apoio ativo ou omissão para comportamentos práticos, os professores universitários são os responsáveis pelo que agora denunciam porque muitas ideias (“teorias”) que ensinam, propagam, pelas quais militam, são ideias que conduzem diretamente ao resultado prático agora vivido.

É sempre fácil se afirmar que as ideias são apenas ideias, que não têm resultados práticos por si sós. Ora, nem os autores nem os subscritores do manifesto aceitarão a concepção academicista da “torre de marfim”, segundo a qual a ciência deve ser cultivada pela própria ciência, ou que a erudição deve ser cultivada pela própria erudição.

Claro que há correntes teóricas que não sabem justificar por que fazem o que fazem (é o caso dos weberianos); ainda assim, pelo menos em princípio, todos concordam que as produções acadêmicas, aí incluídas as teóricas, devem ter alguma utilidade social.

Quais ideias conduzem ao que se critica no manifesto? É certo que os autores e os subscritores do manifesto não têm todos as mesmas ideias; aliás, certamente, estão muito longe de convergências nesse sentido.

A despeito disso, na acadêmica vige a concepção de que a “crítica” sistemática é uma virtude intelectual, moral e prática: não o exame cuidadoso das ideias, das realidades, o confronto sistemático entre uma coisa e outra, mas a crítica como a destruição sistemática de todas as concepções, a noção de que o progresso consistiria na destruição sistemática do passado.

A isso se junta a concepção de que “tudo é poder”: se tudo é poder e política, tudo é disputa e, portanto, não há espaço para acordo, diálogo, tolerância, paciência – nem convencimento, nem pesquisa científica efetiva.

Essa mentalidade originalmente foi instalada na academia com o marxismo. Mas o marxismo tem um intelectualismo que se ajusta bem à vida acadêmica e, em todo caso, ele não é mais tão relevante. É um bastardo do marxismo o responsável pela situação denunciada no manifesto: o identitarismo. Todas as situações denunciadas no documento – facciosismo, estímulo ao ódio e ao ressentimento, particularismo agressivo, intolerância – são características de identitarismo.

Ocorre que muitos dos autores e subscritores do manifesto são promotores ativos do identitarismo. E, quando não são adeptos/promotores, são pelo menos omissos a respeito – todos fingindo que essas ideias não têm, necessariamente, os resultados que têm e que agora se voltam contra a academia.

(Por falta de espaço, não comentaremos a busca ávida dos identitários por influir nas políticas públicas. Notemos apenas que os identitários, não por acaso, abominam a laicidade do Estado, ou seja, buscam usar o Estado para impor agressivamente suas crenças.)

O identitarismo é uma filosofia e uma prática política profundamente acadêmica. Quando autores e subscritores do manifesto calam-se a respeito das causas do que denunciam, é porque não querem assumir que a própria academia, ao manter e estimular o identitarismo, é a responsável pelo que critica.

Assim, critica-se uma situação, mas não se assume a responsabilidade pela situação criticada. Afinal, quem quer fazer um mea culpa? Mais fácil que assumir as próprias mancadas é criticar no limbo uma situação e fingir que a culpa é “dos outros”.

Gustavo Biscaia de Lacerda é sociólogo da UFPR e doutor em sociologia política.

12 maio 2026

Da Abolição da Escravidão à escala 5x2

O jornal carioca Monitor Mercantil publicou em 19 de César de 172 (11.5.2026) o nosso artigo "Da Abolição da Escravidão à escala 5x2".

A publicação original encontra-se disponível aqui

Reproduzimos abaixo o texto.

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Da abolição da escravidão à escala 5×2

Críticos à redução da jornada não distinguem o trabalho da escravidão 

Por Gustavo Biscaia de Lacerda

Esacala 6x1 ( foto de José Cruz/Agência Brasil)

É uma feliz coincidência que este artigo sobre a escala 6×1 (ou melhor, escala 5×2) seja publicado no dia 11 de maio, antevéspera do 13 de Maio. Há muito tempo a data não é mais celebrada, mas o 13 de Maio, com justiça, já foi feriado nacional, que comemorava a fraternidade dos brasileiros a partir da abolição da escravidão.
Estabelecido pelo Decreto 155-B, de 14 de janeiro de 1891 – um monumento belíssimo de celebrações cívicas –, o nome do feriado já indicava que tal celebração não tinha nada a ver com a mistificação monarquista, antinacional e antirrepublicana em favor da Princesa Isabel.
A celebração da fraternidade dos brasileiros, celebrada durante a I República no dia 13 de maio, conjuga de maneira impressionante inúmeros elementos:

  1. a valorização do trabalho e dos trabalhadores, contra as concepções de que o trabalho é degradante, que é um castigo e que os trabalhadores têm que ser tratados como escravos;
  2. a libertação dos escravos, ocorrida em 1888 em relação aos descendentes dos africanos trazidos à força ao Brasil e, em 1758, em relação aos índios autóctones;
  3. o necessário concurso das várias etnias para a constituição do Brasil – concurso que, de qualquer maneira, tem que ser pacífico e voluntário.

Apesar de belas, importantes e necessárias, essas concepções foram e têm sido degradadas ao longo do tempo; como a própria noção de “república”, seu sentido tem sido desprezado e corrompido cada vez mais nos últimos 140 anos.

No caso da celebração da fraternidade dos brasileiros, essa degradação começou logo após o 13 de maio de 1888, a partir de uma intensa mistificação monarquista – mistificação, aliás, apoiada por movimentos sociais negros que, baseados em uma equivocada gratidão, constituíram a lamentável milícia da “Guarda Negra”, que espancava os republicanos em defesa da monarquia.

Ao longo do tempo, em vez de investir-se nas noções de que a abolição da escravidão foi uma vitória do conjunto do país, de que ela valoriza os brasileiros descendentes de africanos e de que celebra a dignidade do trabalho e dos trabalhadores; em vez de investirmos no republicanismo em geral e na celebração da fraternidade em particular, os brasileiros praticamos o desprezo pela república (que se torna desculpa para golpes e revoluções, do fascismo, do comunismo, do clericalismo, do monarquismo etc.) e o estímulo ao mito monarquista.

Essa dupla degradação tem sido reafirmada nas últimas décadas mesmo pelo movimento identitário negro, contrário às noções de república e de fraternidade universal. Aliás, o identitarismo negro finge que a Guarda Negra não existiu e estimula a mistificação monarquista contra a celebração republicana: isso em favor de um novo feriado nacional, lamentavelmente, mas não por acaso, particularista, contrário à fraternidade e, para piorar, que celebra uma figura que lutava contra a escravidão mantendo o seu próprio plantel de escravos.

O que isso tem a ver com a escala 5×2? Tudo. A proposta da mudança do regime de trabalho no Brasil surgiu como uma iniciativa da esquerda que, após décadas, finalmente apresentou uma proposta que não é exclusivista, particularista, facciosa e, ao contrário, beneficia todo o conjunto da população brasileira.

Mais importante que as disputas partidário-ideológicas, a proposta da escala 5×2 celebra uma concepção generosa e universalista da vida em sociedade, afirmando a fraternidade de todos os brasileiros, a dedicação dos trabalhadores para suas famílias, a dignidade humana em geral e a valorização do trabalho como atividade produtiva compartilhada.

Além disso, a escala 5×2 sacramenta o hábito ocidental de dois dias para o trabalhador dedicar-se à vida doméstica (sábado) e à vida coletiva (domingo) – o que, convenhamos, é o mínimo para uma vida digna e para uma justa retribuição pela atividade produtiva.

Nesse sentido, é revelador que os críticos da escala 5×2 adotem argumentos (1) economicistas e (2) que degradam a vida coletiva e o trabalho – argumentos convergentes, aliás.

O economicismo considera que apenas os aspectos econômicos da medida são os importantes; ele reduz o ser humano a uma máquina de trabalhar e de produzir. Há no economicismo um duplo cinismo: finge-se (1) que o trabalhador não é apenas um número que tem a obrigação de gerar riqueza e (2) que essa desumanização não é dirigida apenas contra os trabalhadores.

Nenhum capitalista aceitaria submeter a si próprio e à sua família aos raciocínios morais e às condições de trabalho envolvidos no argumento economicista; mas eles não têm pudor em exigir tal submissão aos “outros”.

Se isso não fosse pouco, argumenta-se também que os “custos” aumentarão e o “lucro” diminuirá com a escala 5×2: ora, cada vez mais temos à disposição (1) tecnologias que aumentam a produtividade, (2) o conhecimento de que qualidade de vida e satisfação aumentam a produtividade, (3) o aumento geral da renda com o aumento de trabalhadores no mercado de trabalho.

Os argumentos que degradam o trabalho são mais diretos; reacionários, com frequência são teológicos, todos são contra a dignidade do trabalho e da vida humana e a favor da ganância. Por exemplo: deputados-pastores afirmam que a escala 5×2 deixará muito tempo livre para os trabalhadores, tempo ocupado pelo Diabo (!): assim, os trabalhadores devem trabalhar sem cessar para que se esgotem e não possam aproveitar a vida nem refletir a respeito dela.

Outros críticos da escala 5×2 são diretamente bíblicos: o trabalho é a punição divina pela traição de Adão (causada, aliás, pela suposta mesquinhez de Eva).

Versões secularizadas disso consideram que o trabalho incessante é a única forma de dignificar a vida; viver-se-ia apenas para trabalhar, em vez de dignificar o trabalho como uma atividade que integra a vida, entre muitos outros aspectos.

Consequências imediatas disso: o salário deve ser o menor possível (forçando os trabalhadores a manterem-se em trabalhos ruins), e as condições de vida não podem ser muito boas (incluindo aí as longas horas entre a casa e o trabalho e o acúmulo com o trabalho doméstico).

Na crítica à escala 5×2, também há a noção de que a boa vida cabe apenas a alguns poucos – aos ricos; o trabalho serve para o enriquecimento alheio. Essa mentalidade prevalece nos Estados Unidos, onde a ganância é um valor fundamental; mas, no fundo, ela tem uma origem mais antiga e insidiosa: ela não distingue o trabalho da escravidão.

Não é casual que os monarquistas – que retornaram à ribalta na onda reacionária da última década – sejam críticos da escala 5×2: a monarquia no Brasil foi implantada exatamente para manter a escravidão. O antirrepublicanismo é pró-escravismo.

Celebremos, então, o 13 de Maio: o fim da escravidão, a fraternidade dos brasileiros e o republicanismo. Celebremos a dignidade do trabalho e dos trabalhadores: que venha a escala 5×2!

Gustavo Biscaia de Lacerda é sociólogo da UFPR e doutor em sociologia política.

14 abril 2026

A laicidade contra a misoginia

No dia 13 de abril de 2026 o jornal carioca Monitor Mercantil publicou o nosso artigo "A laicidade contra a misoginia". 

O artigo está reproduzido abaixo. A versão original encontra-se disponivel aqui: https://monitormercantil.com.br/a-laicidade-contra-a-misoginia/.

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A laicidade contra a misoginia

Misoginia é tratada como blasfêmia, sujeito ao punitivismo identitário Por Gustavo Biscaia de Lacerda

Na conturbada sociedade em que vivemos, é correto que cada vez mais se dissemine a noção de que a misoginia deve ser combatida. O desrespeito às mulheres, a violência contra elas, a concepção de que as mulheres seriam versões imperfeitas ou degradadas dos homens – tudo isso tem que ser visto como errado e degradante.

A relevância moral e a urgência política (mesmo policial) do tema exigem que o digamos com clareza, com todas as letras: as mulheres devem ser valorizadas e respeitadas; o fato de elas serem fisicamente mais frágeis não as diminui e, bem ao contrário, torna-as mais merecedoras de cuidado e atenção. Aliás, é exatamente a relativa fragilidade que justifica a novidade penal brasileira correspondente ao “feminicídio” e que torna essa forma de homicídio tão aviltante.

(Apenas pessoas abrutalhadas consideram que os mais fracos são desprezíveis; apenas o culto à violência, à lei do mais forte, chega à conclusão degradante de que ser mais fraco, mais frágil e, por vezes, mesmo inferior seria motivo para humilhação e desrespeito. Ao longo de nossas vidas, todos nós, em vários momentos, somos mais ou menos frágeis e ocupamos posições de inferioridade. Em si mesmo, nada disso é ou precisa ser degradante ou humilhante.)

Enfim, se felizmente há um crescente consenso de que a misoginia deve ser combatida, parece que há também um infeliz consenso a respeito dos meios a empregar nisso. O projeto de lei que está atualmente em tramitação no Congresso Nacional e que transforma em crime a misoginia corresponde precisamente a esse infeliz consenso.

Nossa época ultrapolitizada afirma que tudo é política, ou seja, tudo é poder e dominação. Essa dominação não corresponde ao mando com legitimidade a partir de critérios públicos, compartilhados e livremente aceitos. Se “tudo é política”, quem manda exerce o poder de maneira agressiva, submetendo passivamente os demais. Isso rejeita o verdadeiro consenso, os valores morais, as concepções compartilhadas etc.

Em suma, essa política consiste apenas na aplicação brutal e cínica da máxima “manda quem pode, obedece quem tem juízo”. Não por acaso, essa concepção foi defendida pelos nazistas Carl Schmitt e Martin Heidegger e, a partir deles, foi popularizada por Michel Foucault – que é o teórico do identitarismo.

Desprezo pelos inferiores (e pela inferioridade), brutalidade na política, rejeição de valores livremente compartilhados: aplicando-se todas essas concepções ao problema da misoginia, o resultado não poderia ser diferente da simples e direta criminalização da misoginia.

Deveria ser evidente que a misoginia basicamente é uma questão de opinião – ideias que, por sua vez, baseiam-se em valores e que, por sua vez, podem converter-se em atos concretos. Claro que podemos considerar muitas ideias como erradas e muitos valores como degradantes; mas ideias e valores não são atos concretos.

Quando necessária, a punição deve considerar atos, não ideias e valores; aliás, nem todos os atos podem ser punidos, na medida em que evidentemente há graus de aceitação de comportamentos inadequados. Os atos mais agressivos e/ou de efeitos mais duradouros: esses devem ser punidos com o poder do Estado; em todo caso, opiniões e valores são opiniões e valores e não podem ser punidos como tais.

A criminalização da misoginia deixa de lado os atos e vai para as ideias e opiniões. Essa é a tendência geral vista no Brasil recente – a renovada criminalização de ideias e valores. Aliás, de maneira exemplar, não há uma deputada federal que processa judicialmente toda e qualquer pessoa que ouse discordar publicamente dela?

Essa criminalização é promovida pelos grupos identitários – no presente caso da misoginia, por grupos feministas e simpáticos ao feminismo. Esses grupos têm restabelecido o crime de blasfêmia, o que não deixa de ser surpreendente e chocante, na medida em que tais grupos são quase todos anticlericais.

O emprego da violência do Estado para impor censura oficial sobre ideias e valores corresponde às concepções gêmeas de que tudo é política e de que valores livremente compartilhados são tolice. Essas concepções, longe de melhorarem a sociedade e diminuírem a violência, pioram a agressividade social ao apostarem na brutalidade e no punitivismo sistemático.

São concepções e práticas brutais; as ideias e os sentimentos estimulam a misoginia por si só (e também o desprezo aos/às fracos/as), e as práticas conduzem à violência contra as mulheres. É notável: embora afirmem defender grupos desrespeitados, os identitários apostam em concepções e práticas que conduzem exatamente ao desrespeito e à violência.

Essas concepções têm sido defendidas ativamente, de maneira militante, à direita e à esquerda, pelo Governo Federal (e por governos estaduais), pelos membros do Congresso Nacional, pelo Ministério Público, por grandes jornais diários e até pelos ministros do Supremo Tribunal Federal. Não há república e não há sociedade que resistam a tal assédio.

Em inúmeras ocasiões, observamos que os grupos identitários rejeitam a separação entre igreja e Estado, a chamada “laicidade do Estado”. A laicidade do Estado pressupõe que nem tudo na sociedade é política e que é inaceitável usar o poder do Estado para impor ideias e valores – ou, o que é equivalente, que é inaceitável usar o Estado para a censura.

A laicidade pressupõe também a realidade autônoma da sociedade civil, cuja dinâmica não se limita ao poder e à disputa política; em consequência disso, a sociedade civil mobiliza valores e ideias, que devem ser respeitados e que orientam a ação do Estado.

É importante indicarmos também que as concepções gêmeas de laicidade do Estado e de sociedade civil pressupõem a legitimidade dos valores morais. A ultrapolitização punitivista atual despreza os valores morais, tachando-os de “moralismo”. Entretanto, como devemos chamar as concepções de dignidade humana, de respeito às mulheres, de fraternidade, de pacifismo etc., senão de “valores morais”?

Se tudo é apenas política, essas concepções “morais” seriam apenas palavras a serem usadas de maneira cínica em disputas sem fim (e sem objetivo); mas, se tais palavras significam alguma coisa, elas têm necessariamente e, acima de tudo, um valor moral, que deve ser entendido como superior à disputa política.

Ao assumir a existência e a autonomia da sociedade civil, a laicidade do Estado pressupõe que problemas morais exigem soluções morais. Para o tema que nos preocupa, isso significa que a misoginia, por mais criticável que seja – e que de fato é – deve ser tratada como uma questão de debate e convencimento na sociedade civil, e não como um crime de blasfêmia, sujeito ao vigilante punitivismo identitário.

Gustavo Biscaia de Lacerda é sociólogo da UFPR e doutor em sociologia política.

10 março 2026

Dificuldade brasileira de lidar com a existência compartilhada

O jornal carioca Monitor Mercantil publicou em 9.3.2026 o nosso artigo "A dificuldade brasileira de lidar com a existência compartilhada".

O texto está reproduzido abaixo; o original pode ser lido aqui: https://monitormercantil.com.br/a-dificuldade-brasileira-de-lidar-com-a-existencia-compartilhada/.

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A dificuldade brasileira de lidar com a existência compartilhada

Entre a submissão ao exterior e o nacionalismo exagerado, os extremos da existência compartilhada. Por Gustavo Biscaia de Lacerda.

Cerimônia da troca de bandeiras do Brasil (foto de Fábio Pozzebom, ABr).

Nos anos 1930, Stefan Zweig afirmou que o Brasil seria o “país do futuro”. Ao mesmo tempo, muitos sociólogos e historiadores europeus e brasileiros afirmaram que o Brasil é um país “jovem”. Além disso, sempre ouvimos que o Brasil é um país continental.

A juventude do país pode ser avaliada não apenas pela sua história relativamente curta (a colonização sistemática do território tem apenas cerca de cinco séculos), mas principalmente devido aos desafios de infraestrutura (faltam estradas, falta integração) e de respeito à população (falta instrução, saúde etc.).

Sendo um país continental, o Brasil tem uma tendência fortíssima a concentrar-se em seus problemas internos, preocupando-se com o ambiente externo apenas e no máximo na medida em que esse ambiente externo influencia o interno.

Também temos uma preocupação imensa com as grandes potências de cada momento, em termos político-econômicos e culturais, a ponto de fazermos questão de sermos colonizados intelectual e moralmente. Nossas elites, com gosto, fazem questão de exibir seus gastos em Miami e na Europa, esnobando a produção nacional e dando a entender que quem consome produtos brasileiros vale menos ou que é um tipo pior de pessoa.

Por outro lado, desde os anos 1960, em face da mestiçagem e da miscigenação cultural brasileiras, Darcy Ribeiro propôs que o Brasil seja entendido e realize-se como uma “nova Roma”.

Por fim, em 2018, o prédio do Museu Nacional (que começou a ser construído em 1808), no Rio de Janeiro, sofreu um incêndio que o reduziu quase totalmente às cinzas. Já em 2019 a Catedral de Notre Dame (que começou a ser construído em 1163), em Paris, sofreu um incêndio; entretanto, ela não foi tão danificada quanto o nosso Palácio de São Cristóvão. Houve intelectuais de renome que disseram que a queima do Museu Nacional era muito pior que a de Notre Dame: a cultura nacional seria mais importante – e que os franceses que se danassem!

Os vários casos acima exemplificam diferentes formas de entender-se o Brasil e suas relações com a história e com outros povos. Nessa multiplicidade de situações, o que surge para nós são formas da incapacidade brasileira de lidar com a existência compartilhada – e, em particular, duas formas gerais dessa incapacidade.

A expressão “dificuldade em lidar com existência compartilhada” denota um problema mais facilmente compreensível em termos dos desvios e das degradações do nacionalismo, em que se rejeita o convívio com os outros países (e/ou outros povos, e/ou outras culturas). Mas ele é um problema não somente com os desvios do sentimento nacional, mas também com a sua ausência. Afinal de contas, não valorizar a si mesmo é um problema tão real quanto negar os outros (devido ou não à própria sobrevalorização).

A primeira modalidade, mais própria das elites, é a submissão, ou melhor, o servilismo aos outros países. Por certo que ela se baseia nos valores compartilhados, mas desconsidera, quando não despreza, a preocupação com o próprio país.

Como esse comportamento é mais próprio às elites, e elas têm grande facilidade de trânsito internacional, elas furtam-se às suas responsabilidades coletivas, produzindo resultados bastante negativos. Esta incapacidade de lidar com a existência compartilhada rejeita o próprio país; não se pode falar aí em “existência compartilhada”, na medida em que o compartilhamento pressupõe a existência do próprio país – e este comportamento despreza ou desdenha do próprio país.

A segunda forma de incapacidade de lidar com a existência compartilhada reconhece e afirma o próprio país, mas exagera tal afirmação. É claro que a força do nacionalismo depende da situação de cada país; um povo que lute por sua independência terá um nacionalismo intenso; mas um país que deseje dominar (ou conquistar) outro também será nacionalista.

Nesses casos, o problema não está em afirmar o próprio país, mas em reconhecer como legítimos os outros países (e/ou outros povos, e/ou outras culturas). Enquanto a modalidade cosmopolita de não saber lidar com a existência compartilhada baseia-se na ausência de sentimento nacional, a xenofobia e/ou o imperialismo consiste na degradação do sentimento nacional.

Em reação necessária à irresponsabilidade “cosmopolita” das elites, o nacionalismo afirma os valores e o interesse nacional. Sem tal afirmação, é impossível qualquer projeto efetivo de melhoria no país. A afirmação do sentimento nacional, portanto, é ao mesmo tempo necessária e legítima. Entretanto, com facilidade ele pode degradar-se em rejeição aos outros povos e xenofobia explícitas ou, de outra forma, na pretensão de que seríamos o renascimento da civilização.

A ideia de um país como renascimento da civilização é mais pacífica e mais generosa que a xenofobia; mas, ainda assim, o renascimento da civilização implica também a rejeição das outras sociedades, sejam as que vieram antes, sejam as que agora convivem conosco. Devemos lembrar que, no caso do Brasil, essas concepções têm o elemento adicional do ensimesmamento devido às dimensões continentais.

À primeira vista, a solução para o cínico cosmopolitismo seria o nacionalismo; mas, desenvolvido o sentimento nacional, os problemas próprios a ele com facilidade podem surgir. A solução para ambas as dificuldades para lidar com a existência compartilhada é e deve ser uma única. Aliás, o nome que estamos dando para o problema – dificuldade em lidar com a existência compartilhada – já sugere a solução necessária.

Para lidar com a degradação do sentimento nacional, não faz sentido, nem é possível, negar tal sentimento; o que deve ocorrer é sua modificação. De maneira direta, trata-se de afirmar que nenhum país existe sozinho no mundo e que todos os países do mundo desenvolvem-se ao longo do tempo, em um processo histórico que se iniciou há centenas de milhares de anos.

Em outras palavras, trata-se de afirmar com clareza e vigor a submissão moral (mas não submissão política) dos vários países à noção de Humanidade – e, além disso, da submissão da solidariedade (da existência hoje, no presente) à continuidade (da existência ao longo do tempo, na história, do passado rumo ao futuro).

Em outras palavras, sem negar a importância dos vários países e do sentimento nacional, trata-se de afirmar (em termos morais) que as pátrias não são a forma mais elevada de identidade social e política: sem tal submissão – e, sim, trata-se de uma submissão – o nacionalismo fica sem parâmetros e sujeito às piores degradações.

A noção de Humanidade tem que ser afirmada em termos morais e intelectuais; não faz sentido e não é aceitável sua conversão em uma realidade política, na forma quimérica de um “super-Estado” mundial. Todavia, por outro lado, é claro que a afirmação moral e intelectual da Humanidade tem que ter consequências políticas, a começar pela rejeição de toda violência entre as nações e pelo término de ambições expansionistas dos estados atuais (e começar pelos países que já são gigantescos, como Rússia e Estados Unidos).

Gustavo Biscaia de Lacerda é sociólogo da UFPR e doutor em Sociologia Política.