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28 setembro 2026

Por uma política republicana sociocrática

No dia 28.9.2026, o jornal carioca Monitor Mercantil publicou o nosso artigo "Por uma política republicana sociocrática", que foi escrito levando em consideração as eleições do dia 4.10.2026.

O original pode ser lido aqui.

Reproduzimos abaixo o texto.

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Constituição da República Federativa do Brasil (Foto: Rodrigo Viana/Senado Federal)


Por uma política republicana sociocrática

A relação entre bem comum, fraternidade, liberdade, transparência e responsabilidade orienta a discussão sobre os valores da política republicana Por Gustavo Biscaia

No próximo final de semana teremos eleições gerais e, nesse contexto, convém contribuirmos para a reflexão pública, com a exposição de critérios para a definição do voto. Os critérios que apresentaremos aqui foram expostos com mais detalhes no documento “Por uma política republicana sociocrática – orientações para as eleições de 4 de outubro”. Desde 15 de novembro de 1889, o Brasil é uma República. Embora, às vezes, isso possa parecer pouco, a ideia de “república” é uma das mais densas e importantes, especialmente quando se compreende seu sentido profundo, que é o da sociocracia. As noções de república e de sociocracia são ideais; nem sempre se realizam na prática, mas, ao contrário do que tem ocorrido com triste frequência, isso não é motivo para desvalorizá-las ou rejeitá-las.

O sentido fundamental da república é o bem comum: dedicar-se efetivamente ao bem-estar coletivo, superando o individualismo, o egoísmo e os particularismos. Além disso, a república também se opõe à monarquia e, portanto, à sociedade de castas. Em outras palavras, na república, o valor de uma pessoa, consideradas as particularidades sociológicas de cada indivíduo, é determinado pelo mérito individual, e não pelas condições em que nasceu, pelo “berço”.

Mais importante, a dedicação ao bem comum significa a subordinação da política à moral, ou seja, a subordinação da política aos princípios e valores maiores da Humanidade, em que a família se subordina à pátria e a pátria se subordina à Humanidade. Somente assim a atividade política pode ser entendida como dedicação ao bem comum e, a partir disso, ser fiscalizada e responsabilizada. De modo mais específico, subordinar a política à moral significa reconhecer que a política deve pautar-se pela fraternidade universal e pela atividade pacífica, convergente e construtiva, em oposição à violência, à guerra, aos egoísmos e às mesquinharias.

Daí decorrem várias consequências. A primeira delas é que o conjunto da sociedade deve sempre ser levado em consideração. A fraternidade universal é um valor básico: como todos devem orientar suas condutas para a melhoria da vida de todos, o respeito mútuo e a afirmação da dignidade fundamental de cada pessoa são pilares da vida coletiva. As relações sociais também devem ser pacíficas, pois qualquer forma de violência degrada as relações humanas e o ambiente social. O pacifismo e a fraternidade universal impõem, por sua vez, o repúdio ao racismo e às discriminações de “gênero”; da mesma forma, exigem o respeito ao meio ambiente e, claro, aos animais.

Embora toda sociedade moderna seja composta por patrícios e proletários, a maior parte da sociedade é formada pelo proletariado (pelos trabalhadores), e os esforços sociais devem se orientar para a melhoria de suas condições de vida. Qualquer política que ignore ou menospreze os interesses do proletariado é uma política antirrepublicana, antissociocrática.

Uma terceira consequência é que a preocupação com o bem comum implica também ter vistas gerais. Todos devemos nos preocupar com as localidades em que residimos, mas, ao mesmo tempo, devemos estar atentos aos ambientes mais amplos – estaduais, nacionais e internacionais. A ênfase excessiva ou exclusiva nas questões locais é uma forma de egoísmo e alienação. Esse princípio deve ser generalizado: a subordinação das famílias às pátrias, das pátrias à Humanidade presente e da Humanidade presente à Humanidade histórica é o único antídoto contra bairrismos, provincianismos, nacionalismos xenofóbicos e etnocentrismos.

Um caso particular de afirmação das vistas gerais e da fraternidade contra a violência, o ódio e os particularismos é a rejeição das concepções e das práticas baseadas no ressentimento e no facciosismo. Isso inclui não apenas os nacionalismos xenofóbicos como também os identitarismos, todos eles produtores de violências e agressões entre e dentro dos vários países.

A regra republicana básica é o “viver às claras”: cada um deve adotar valores em sua vida que sejam publicamente defensáveis e de fato viver conforme esses valores. No caso dos governantes e das figuras públicas, o viver às claras também significa que todos os seus atos são responsabilizáveis, passíveis de acompanhamento, avaliação e cobrança. A publicidade dos atos e das motivações é a regra, nunca a exceção. Assim, todos devem sempre falar a verdade e cumprir o prometido ou, em outras palavras, não se deve mentir nem se deve trair.

A instituição republicana básica é a separação entre igreja e Estado: o aconselhamento não precisa da violência do Estado para fazer-se valer, nem pode o Estado condicionar os seus serviços à aceitação de crenças oficiais. Isso é o que se chama vulgarmente de “laicidade”. Nesse cenário, sacerdotes devem manter-se afastados do Estado a fim de garantirem sua dignidade, assim como o Estado deve recusar sacerdotes para não ser usado como instrumento de opressão. O afastamento dos sacerdotes em relação à política não quer dizer alienação nem indiferença; quer dizer que os sacerdotes devem manter sua autonomia moral e não podem trabalhar para o Estado.

A separação entre igreja e Estado é a base das liberdades fundamentais: são as liberdades de crença, de manifestação e de associação, assim como o direito de ir e vir, o habeas corpus e o devido processo legal. Adicionalmente, os órgãos do Estado – especialmente os que são responsáveis diretos pelo atendimento à população – e os servidores públicos devem ser valorizados, ao mesmo tempo em que se mantém a dignidade da chamada iniciativa privada.

Finalmente, as instituições sociais fundamentais devem ser valorizadas, a começar pela família. Entre a família e a sociedade política (as pátrias) as relações são de complementaridade, não de oposição. O papel da família é o de desenvolvimento afetivo e de educação moral, preparando os cidadãos para a vida na sociedade mais ampla; o papel da sociedade política é o de realizar os trabalhos práticos necessários para manter e desenvolver a vida de todos. Como é mais ampla, a sociedade política regula e protege a família. As pátrias, por sua vez, devem todas unir-se em prol da Humanidade. Assim como os proletários devem ser valorizados e respeitados, as mulheres devem ser valorizadas e ter sua dignidade mantida e afirmada: a violência contra as mulheres é inaceitável.

Os valores e práticas constituem, sem esgotar, muito do que é a república, ou melhor, a sociocracia. Tudo isso almeja a realização dos um dos supremos ideais dos brasileiros e de todos os seres humanos – a união da ordem com o progresso. Quando ordem e progresso ficam separados, eles tornam-se antagônicos, em que a ordem torna-se retrógrada e opressiva e o progresso torna-se caótico e também opressivo. Apenas a união das duas perspectivas, em que sejam simultaneamente respeitadas e valorizadas, torna possível que cada uma delas seja cumprida. A ordem é a consolidação do progresso e o progresso é o desenvolvimento da ordem; o seu vínculo é o amor, que, em termos políticos, é fraternidade, respeito mútuo e tolerância. O respeito à ordem não equivale à submissão cega ou servil ao poder político; da mesma forma, a verdadeira relação entre o poder e os cidadãos não é a de um soldado que se submete ao seu comandante.


Gustavo Biscaia de Lacerda é doutor em sociologia política e sociólogo da UFPR.

14 setembro 2026

Mistificações sobre o Brasil – e sobre o Positivismo

No dia 14 de setembro de 2026 o jornal carioca Monitor Mercantil publicou um artigo de nossa autoria, intitulado "Mistificações sobre o Brasil - e, para variar, sobre o Positivismo". Reproduzimos abaixo o texto.

A publicação original pode ser lida aqui: https://monitormercantil.com.br/mistificacoes-sobre-o-brasil-e-para-variar-sobre-o-positivismo/.

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Bandeira-do-Brasil-Ordem-e-Progresso-foto-de-Andre-Maceira-CC-1024x676


Mistificações sobre o Brasil – e, para variar, sobre o Positivismo

A construção da sociedade brasileira envolve religiosidade popular, sincretismo, organização social e a defesa do Estado laico. Por Gustavo Biscaia


Em 5 de setembro último, a Gazeta do Povo publicou um artigo afirmando que não teria sido o Positivismo a criar a “alma brasileira”, mas a “cruz”. Essa afirmação dá o que pensar e merece resposta. Como, todavia, nas últimas décadas a Gazeta do Povo decidiu tornar-se um jornal agressivamente militante, com um perfil “conservador”, consideramos que é melhor publicar a resposta aqui do que tentar na folha original.

Antes de mais nada, é uma lamentável ironia e um triste sinal que o texto tenha saído na Gazeta do Povo, jornal que, em 1919, foi fundado por Benjamin Lins, que era um positivista. Além disso, durante décadas o jornal contou com a coluna “Veterana Verba”, do também positivista David Carneiro. Em seus 107 anos, o jornal mudou não apenas de donos como, principalmente, mudou de orientação editorial: a abertura para o debate amplo e a preferência por autores locais cedeu espaço para a polarização política e moral, favorecendo um conservadorismo cada vez mais agressivo e tradicionalista.

O texto que nos interessa intitula-se “A alma brasileira não nasceu de Comte, mas veio da Cruz” e foi publicado na coluna “Crônicas de um Estado laico”, de Jean Marques Regina e Thiago Rafael Vieira. Cada um dos autores apresenta um longo currículo, afirmando-se advogados que trabalham pela liberdade de expressão. O tom adotado no artigo dá a impressão de serem pessoas sabedoras das coisas; os “argumentos” apresentados indicam o contrário, mas eles falam com enorme convicção, o que substitui com eficiência o conhecimento efetivo.

Apesar disso, referindo-se a alguns dados históricos que, em si, são mais ou menos incontroversos, os autores retomam uma quantidade enorme de preconceitos (que, todavia, não podemos abordar aqui). Assim, é um artigo realmente exemplar por seus defeitos intelectuais, práticos e até morais; cremos que os autores não façam suas defesas jurídicas dessa forma e, com certeza, eles não aceitariam que façam com as igrejas que eles defendem o que eles praticam contra o Positivismo.

O objetivo do artigo é tortuoso, para não dizer confuso. Os autores começam falando das próximas eleições e da necessidade de escolher bons candidatos; passam então à renovação moral atualmente necessária, projeto afirmado há quase 140 anos, com a Proclamação da República (em 15 de novembro de 1889); daí chegam ao que querem – falar (mal) do Positivismo.

A partir daí, os autores realmente se esmeram e não têm dúvidas em repetir de modo sistemático todos os preconceitos, discriminações e desinformação antipositivista – um grave defeito intelectual, prático e moral que, diga-se de passagem, é tristemente ecumênico, sendo repetido pela direita (liberal, católica, evangélica e/ou tradicionalista) quanto pela esquerda (especialmente a marxista, mas também a socialista e a pós-moderna).

Além do sofisma do espantalho (criar uma visão simplificada e estereotipada de algo para combater esse estereótipo, em vez da realidade complexa), em poucas linhas os autores repetem que o Positivismo seria materialista, estritamente racionalista, anticlerical, reducionista, antirreligioso, preconceituoso, elitista etc. De modo mais direto para suas práticas profissionais, os autores afirmam que os teológicos teriam o monopólio da “religião”, que a religião seria sempre teologia, que a positividade é apenas o racionalismo frio e que negaria e rejeitaria a história e a religiosidade popular. Tudo isso como prévia para a afirmação de que a “alma brasileira” teria sido feita pela “cruz” (e não pelo Positivismo). Os autores são cristãos (o artigo não evidencia de qual cristianismo): se a verdade liberta, então a mentira aprisiona: sabemos ao que conduz a produção de mitos e a repetição de preconceitos.

Não é possível tratar de todas essas questões; recomendamos a leitura direta dos próprios positivistas. Tratemos, então, do suposto tema central para os autores.

Os autores acusam o Positivismo de negar e rejeitar a importância da “cruz” na formação histórica da “alma brasileira”. Essa frase é inteiramente da autoria dos próprios autores; nenhum positivista jamais disse nada que seja minimamente próximo disso. Mas ela tem uma quantidade adicional espantosa de erros e equívocos.

Antes de mais nada, se os autores buscassem a verdade que liberta e não mitos e preconceitos, eles teriam lido diretamente os próprios positivistas; não digo A. Comte, mas pelo menos M. Lemos, R. Teixeira Mendes, I. Lins, D. Carneiro, muitos outros autores – e o autor destas linhas. Entretanto, os argumentos repetidos pelos autores indicam que eles adotam o pior dos procedimentos: repetem comentários feitos por comentadores que repetem comentadores que repetem comentadores etc.

Em segundo lugar, os autores falam na importância da “cruz”, com isso se referindo a um cristianismo genérico; mas como é genérico, ele é inexistente e, como a caracterização que eles fizeram do Positivismo, é apenas um mito. O que importou para o Brasil não foi uma “cruz” genérica mas o catolicismo em particular. Mais: não foi a teologia católica, mas principalmente a ação da igreja católica; assim, o que importou não foi tanto a crença no sobrenatural, mas o gregarismo familiar e coletivo reunido nas missas, nos oratórios e nas procissões; o que importou foi a afetividade pessoal e coletiva.

Em terceiro lugar, a “alma brasileira” também se constitui, é claro, pela organização social – e, aí, o Brasil deve muito mais ao Estado português que à igreja católica. As origens feudais do Estado português acarretaram alguns graves problemas, mas também estimulou os hábitos cavalheirescos, a devoção aos próximos etc. (com a terrível exceção dos escravos – indígenas e/ou africanos). Esse mesmo Estado, aliás, controlou estreitamente a igreja e utilizou-a de maneira instrumental.

Em quarto lugar, o ambiente específico do Brasil caracterizou-se pelo sincretismo religioso a reboque da miscigenação étnico-cultural. Embora sob a presidência do catolicismo, a religiosidade brasileira sabidamente é o resultado da combinação com crenças e hábitos indígenas e crenças e hábitos africanos, todos eles variados como são. Em quinto lugar, os autores fazem outra confusão entre a religiosidade popular e a das elites: é claro que a das elites é mais intelectualizada e a popular é mais afetiva.

Em sexto lugar, os autores criticam os positivistas de quererem mudar a sociedade e os valores sociais; supostamente, isso seria um defeito, um verdadeiro crime moral. Autores tão doutos e especializados no cristianismo devem saber que o cristianismo não surgiu no vácuo, mas, com São Paulo, baseou-se em (e rompeu com) o judaísmo e usou a filosofia grega e a sociabilidade e o império de Roma para universalização. Com certeza Paulo de Tarso, os padres da igreja, os grandes papas e santos quiseram reformar a sociedade e mudar as crenças politeístas então vigentes; mutatis mutandis, podemos dizer o mesmo de Lutero, Calvino, G. Fox, J. Knox, J. Smith etc., em relação ao catolicismo. (Todos eles tinham clareza da distinção entre elites e massas.) Se isso foi permitido aos cristãos, por que deveria ser proibido aos positivistas? Convenhamos: é essa a questão central aqui.

É altamente sintomático que os autores reproduzam mitos em série e criem novos, mas silenciem justamente a respeito do que lhes diz respeito de maneira mais direta, profissional e pessoalmente: foram os positivistas que instituíram a separação entre igreja e Estado no Brasil, o que se chama vulgarmente de “laicidade do Estado”. Ao contrário da maioria absoluta das religiões teológicas e dos grupos metafísicos (marxistas, liberais, identitários, tradicionalistas etc.), desde cerca de 1860 os positivistas são o único grupo – a única religião – que defende de modo constante e sem titubear as liberdades de consciência, de expressão e de associação (além do pacifismo, não violência, dignidade humana, dignidade dos trabalhadores e das mulheres, antirracismo, respeito aos índios etc.).

O silêncio dos autores a respeito desse aspecto central, não somente para a vida institucional brasileira como para a religiosidade nacional e também para a prática profissional dos próprios autores, não parece casual. Na verdade, a impressão que se tem é que os autores criaram um mito antipositivista como cortina de fumaça porque não têm como argumentar com o duplo fato de que os positivistas garantiram a liberdade para todos, enquanto os próprios teológicos com freqüência a rejeitam (exceto para as próprias seitas).

Ah, não nos esqueçamos: a reforma moral, intelectual e prática, proclamada pelos positivistas mas estranhamente rejeitada pelos autores, é necessária com urgência.


Gustavo Biscaia de Lacerda é doutor em sociologia política e sociólogo da UFPR.

10 agosto 2026

Relato da prepotência militar

No dia 26 de Dante de 172 (10.8.2026) o jornal carioca Monitor Mercantil publicou o meu artigo "Relato da prepotência militar". O texto original encontra-se disponível aqui: https://monitormercantil.com.br/relato-da-prepotencia-militar/.

Reproduzimos abaixo o nosso artigo.

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Militares marchando (foto domínio público via Rawpixel).


Relato da prepotência militar

Para militares, civis devem respeitar ‘autoridade’ com base em autoritarismo e em submissão servil. Por Gustavo Biscaia de Lacerda

Nesta coluna eu apresento reflexões sociais, políticas e morais, sempre com um caráter geral; raras vezes (se é que o fiz em qualquer ocasião) fiz comentários especificamente pessoais. Mas toda regra tem exceções; assim, aproveito esta coluna para expor um lamentável episódio que recentemente aconteceu comigo. Julgo que este artigo será mais eficaz que denúncias junto ao Ministério Público Federal, ao Ministério Público Militar e/ou à Ouvidoria Pública Federal.

Na noite de 29 para 30 de julho, pouco depois da meia-noite, eu viajava de ônibus de Foz do Iguaçu para Curitiba. Na altura de Cascavel, o ônibus foi parado por uma blitz do Exército. Minha estada em Foz tinha sido ruim, eu estava cansado, com sono, de mau humor e ainda fui acordado por um tapa na perna dado por um “reco”. (“Reco” é a gíria depreciativa que se refere aos soldados recrutas. Como tal sujeito foi prepotente e recusou-se a dizer seu nome e patente, é justo que eu trate-o por “reco”.)

O “reco” que me acordara com um tapa foi perguntando a cada passageiro para onde viajava, o que fizera em Foz do Iguaçu, o que fazia da vida; todos respondendo com temerosa submissão. Novamente: cansado, com sono, irritado, acordado com um tapa. Além disso, como se diz, “quem não deve não teme”.

Quando eu fui inquirido pelo “reco”, respondi com firmeza e clareza: “Fui [a Foz do Iguaçu] gastar dinheiro”. O “reco” não gostou e tomou minha resposta por uma insolência; imediatamente me mandou descer do ônibus, indicar minha bagagem, abri-la e submeter-me a quaisquer outras ordens que ele e sua tropa de brucutus decidissem impor-me. Claro: todos devidamente armados, com fuzis e pistolas preparados para disparar. Respeito sob a mira da baioneta não tem muito valor.

Quem não deve não teme: fiz questão de apressar as coisas e de mostrar minha bagagem (uma mochila de 60 litros); na verdade, como a maior preocupação do “reco” era com a minha “insolência”, tive que insistir que ele fosse, de fato, ver minha mochila. Como eu estava sendo submetido a um exame invasivo, perguntei a outro “reco” o motivo da inspeção; a resposta, de má vontade: “Faça o que mandam; eu não responderei nada”.

Fiquei olhando o brucutu que se recusara a responder esvaziar minha mochila e intrometer-se em minha privacidade. O primeiro “reco” resolveu voltar à carga: “Que exemplo você quer dar ao desafiar uma autoridade?”.

Ora, o porte de fuzil e de pistolas não faz de ninguém uma autoridade. Ou melhor, fuzil e pistola não fazem de ninguém autoridade no Estado de Direito; com fascismo, comunismo e milícias/facções, a situação é outra.

Mas o fato é eu sou servidor civil público federal e, ainda mais, se isso tem algum valor, eu sou cidadão brasileiro no Estado de Direito; se havia alguma “autoridade” ali, era eu, não um “reco” prepotente. Foi o que eu disse – mais uma vez, com clareza e firmeza, mas agora escandalizado com a desfaçatez de ouvir uma carteirada de fuzil misturada com uma despropositada “lição de moral”.

A essa altura, já estando claro que eu não tinha nada a esconder, aproximou-se de mim um outro soldado – aliás, o único identificado com nome e patente: sargento ***. Talvez em uma versão militar do “tira bom, tira mau”, ele começou a conversar e esclarecer com calma a situação.

O que ele me perguntou foi o que o “reco” inicial perguntara; a minha resposta inicial foi a mesma: “Fui [a Foz do Iguaçu] gastar dinheiro”. Ora, Foz é uma cidade cara, organizada de maneira a explorar ao máximo os turistas, com uma infraestrutura precária e com atendimento sofrível; para quem quer fazer turismo sem gastar rios de dinheiro, é uma cidade que exaure.

O sargento *** ouviu minha resposta; em vez de entendê-la como uma insolência, deu uma leve risada e continuou a conversa; perguntou-me onde trabalho, o que faço da vida etc., ao que eu fui respondendo. Vale notar: eu afirmei e reiterei que conversava com calma, firmeza e sem medo. (Qual criminoso de estrada argumentaria assim?)

O “reco” inicial voltou mais uma vez à carga, ameaçando-me e dizendo que fazia questão de “redigir o relatório” a meu respeito. Suponho que fosse um relatório de crimes, mas, como tudo até ali, isso não foi explicado, embora o tom adotado de ameaça agressiva fosse evidente.

O sargento ***, em seu papel de “tira bom”, convenceu-se de que eu não tinha nada a esconder; conduziu-me de volta ao ônibus e até me explicou do que se tratava (combate a tráfico de armas, drogas e pessoas).

Agradeci e dei boa-noite; mas faltava o documento de identificação. Com quem estava? Com o “reco” inicial. Ele não me entregou o documento: jogou-o no colo (eu estava de braços cruzados); em face da ameaça de “relatório” contra mim, já cansado, eu perguntei em desafio se ele faria esse tal relatório; resposta: “Não tem relatório e não incomode”. Por fim, eu perguntei: “Qual sua patente?”; sua resposta foi a cereja do bolo: “Não tem patente, não tem nome, não tem nada e não incomode”.

Certamente me perguntarão: "por que, desde o começo, você não respondeu ao militar do jeito que ele queria?". Essa pergunta não faz sentido; ou melhor, até faz sentido, mas é profundamente degradante. Essa pergunta pressupõe que, mesmo no Estado de Direito, os cidadãos têm que temer os militares e devem tomar o máximo de cuidado para não ferirem as suscetibilidades dos recos.

Se no Brasil estivéssemos em situações excepcionais, mantidas pela arbitrariedade dos fuzis, a minha resposta inicial teria sido fatal. Mas não vivemos nem no fascismo, nem no comunismo, nem o percurso da BR-277 (que é a rodovia que atravessa o Paraná e liga Foz do Iguaçu a Curitiba) está submetido a milícias e/ou facções.

No setor privado e no serviço público civil, a minha resposta inicial não teria absolutamente nada de excepcional; o bom senso indica que bastaria um pouco de boa vontade para seguir a conversa. Mas por que ela não foi aceitável para os militares?

O motivo é tanto simples quanto, como já indicamos, é degradante. Minha resposta inicial foi inaceitável para os militares porque eles consideram que (1) as relações entre civis e militares devem espelhar as relações entre os próprios militares e, ainda mais, que (2) os civis devem respeitar os militares pura e simplesmente porque estes andam com fuzis e pistolas.

Em outras palavras, ainda (ou novamente) em 2026, para os militares a autoridade não consiste em respeito inspirado em serviços verdadeiros e bem prestados; para os militares, os civis devem respeitar a sua “autoridade” com base em autoritarismo prepotente e em submissão servil.

O comportamento do “reco” inicial foi apoiado por sua tropa e pelo “tira bom” sargento ***; dessa forma, não foi um comportamento excepcional. O problema não foi a frágil suscetibilidade do “reco” inicial; o problema é os militares considerarem que os civis, ou melhor, que os cidadãos devem temer, com servilismo, os fuzis e as pistolas. Em tal ambiente, pura e simplesmente não há e não é possível qualquer “cidadania”.

Gustavo Biscaia de Lacerda é sociólogo da UFPR e doutor em sociologia política.

13 julho 2026

O Brasil, da rejeição do Ocidente à ilusão do reinício da história

No dia 13 de julho de 2026 o jornal carioca Monitor Mercantil publicou nosso artigo "O Brasil, da rejeição do Ocidente à ilusão do reinício da história - 1".

O texto original encontra-se disponível aqui: https://monitormercantil.com.br/o-brasil-da-rejeicao-do-ocidente-a-ilusao-do-reinicio-da-historia-1/.

O artigo pode ser lido abaixo.

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Mapa Múndi (foto de Leandro Barreto na Unsplash).

O Brasil, da rejeição do Ocidente à ilusão do reinício da história – 1

Nos afastamos de nossa ocidentalidade. Esse afastamento, ou essa rejeição, são graves e muito ruins. Por Gustavo Biscaia de Lacerda.

Um dos traços mais notáveis da política brasileira no último século é a nossa insistente dificuldade, ou nossa franca rejeição, de conjugarmos (1) a filiação à civilização ocidental com (2) a autonomia nacional e perspectivas universalistas. Essa conjugação não tem nada de excepcional e não é em si mesma contraditória, mas sua realização exige vontade e esforços conscientes. Cada vez mais o que se vê é que tais vontade e esforços não ocorrem – bem ao contrário, aliás.

Genericamente e a princípio, as perspectivas universalistas são o respeito a todas as culturas e civilizações existentes, bem como a abertura e o bom relacionamento com elas, a partir de critérios aplicáveis a todas, com dignidade e uniformidade.

A autonomia nacional corresponde à capacidade de decidirmos o que desejamos fazer, com quem desejamos relacionar-nos, quais os valores que nos orientam – o que tem um aspecto interno e outro externo.

Já a filiação à civilização ocidental corresponde ao fato de que o Brasil surgiu a partir dos esforços expansionistas europeus, sob a orientação política, cultural e moral portuguesa, com diversas modalidades de interação com as populações autóctones e de outras áreas nesse esforço.

Muitas vezes os europeus foram brutais, mesmo criminosos, gerando situações que se tornaram problemáticas; ainda assim, daí surgiram novas sociedades, sob a orientação do que posteriormente se ampliou para a concepção de “Ocidente” – e que não se reduz aos seus aspectos problemáticos, apresentando muitos e importantes aspectos positivos.

A autonomia nacional brasileira é um valor que mais ou menos não se discute, pelo menos ao afirmar-se internamente a originalidade de nossa sociedade e, em decorrência, as nossas preocupações externas específicas. Mas – e é esse o começo do problema que desejamos comentar – essa autonomia (interna e externa) é entendida como rejeição do pertencimento ao Ocidente, o que, por sua vez, conduz a um universalismo no mínimo claudicante.

Não se pode fingir que o Ocidente teve ao longo da história um comportamento exemplar. A própria noção de “Ocidente” com frequência é manipulada para induzir, ou impor, comportamentos que beneficiam apenas alguns países em particular; além disso, em inúmeros períodos ela justificou práticas odiosas, como a escravidão e/ou extermínio de outros povos.

A expressão “fardo do homem branco” (white man’s burden) resume isso muito bem, em termos de colonialismo imperialista ou de restrição do próprio “Ocidente” a alguns países (em particular Alemanha, Inglaterra e, mais recentemente, Estados Unidos).

Os problemas ligados ao “Ocidente” não são poucos e muitos deles são realmente graves: isso explica e às vezes justifica inúmeras reações, começando pela descolonização, passando por distanciamentos variados e chegando à franca rejeição. Depois de 1945, isso assumiu as formas do Movimento dos Países Não-Alinhados, do Movimento do Terceiro Mundo e atualmente do Sul Global. Esses movimentos transitam entre o distanciamento e a rejeição, com a crítica ao (ou a um) falso universalismo e eventualmente com a defesa de particularismos supostamente virtuosos.

Mas, em contraposição aos problemas acima, o Ocidente é o fundamento efetivo da identidade de dezenas de países, tanto na Europa quanto nas Américas e em outras partes. Além disso, concepções fundamentais da vida contemporânea têm origem no Ocidente, em particular o universalismo secular, a tolerância e a atividade pacífica e cooperativa. Essas concepções fundamentam várias das mais importantes instituições atuais, organizadas no sistema da Organização das Nações Unidas, mas não somente nele.

Por outro lado, muitas das demandas não-ocidentais valem-se explicitamente das concepções ocidentais, como o uso sistemático da “crítica”, a exigência de tolerância, autonomia e soberania nacionais etc. Essas concepções são usadas por países não-ocidentais mesmo quando as concepções próprias a esses países são diametralmente opostas às ocidentais; muitos dos países que criticam o Ocidente adotam, eles mesmos, comportamentos criticáveis: imperialismo, colonialismo, falso universalismo etc., resultando em hipocrisias múltiplas e cruzadas.

Esse comportamento, que de maneira suave podemos chamar apenas de “ambíguo”, é compartilhado por intelectuais, em particular pelos intelectuais “críticos”. Assim como vários países, muitos intelectuais frequentes vezes usam o universalismo criado pelo Ocidente para sabotar esse mesmo universalismo, em favor de concepções e práticas que muitas vezes são particularistas, autoritárias, discriminatórias etc.

Essa conduta dos intelectuais é ainda estimulada pela teoria e prática do identitarismo; no fundo, ele é apenas uma variedade de etnocentrismo e, portanto, potencialmente “universal”, mas a sua forma específica, em voga desde há algumas décadas, é estadunidense (logo, plenamente ocidental). O identitarismo sistematiza e estimula os ressentimentos de grupos sociais e políticos que são minoritários ou que se vêem assim, enfatizando de maneira agressiva os particularismos e os facciosismos: é claro que as ambiguidades do Ocidente são um campo fértil para o identitarismo.

É nesse intrincado ambiente que se inclui a situação brasileira, que é muito específica, em múltiplos sentidos. Somos um país de dimensões continentais, o que nem sempre percebemos com clareza e que nos conduz a concentrar-nos em demasia em nossos problemas internos, ignorando o ambiente externo e a dependência de todos os países em relação a isso.

Também somos o único país lusofalante nas Américas, cercado por sete países hispanofalantes; além disso, em um continente republicano, nossa independência manteve a monarquia, para garantir a escravidão e o território gigantesco. Mas fomos colonizados por um povo ibérico, cuja plasticidade social é universalmente reconhecida. Além disso, compartilhamos também os aspectos positivos do Ocidente, herdando o racionalismo universalista, a trilha para a atividade livre e cooperativa, o estímulo à tolerância etc.

Retornamos aqui à afirmação inicial deste artigo: nós, brasileiros, lidamos muito mal com nosso caráter ocidental. Certamente que os problemas próprios ao Ocidente (e que, lamentavelmente, não são exclusivos do Ocidente) não ajudam nessa relação, como nos casos dos valores compartilhados e dos falsos universalismos usados externamente como pretextos para a dominação e a exploração, ou, internamente, para degradações étnicas.

Esses aspectos negativos estimulam a rejeição dos nossos aspectos ocidentais; a agressividade identitária de origem estadunidense dá uma camada extra à problemática relação que mantemos com nossa identidade nacional.

O resultado disso tudo é que nos afastamos de nossa ocidentalidade – e, no limite, tendemos a rejeitá-la. Deveria ser evidente que esse afastamento, ou essa rejeição, são graves e muito ruins. Ainda assim, uma série de práticas daí derivadas deixa claro que essa evidência, infelizmente, não é tão evidente assim, o que justifica as presentes reflexões.

Desenvolveremos essas questões em nosso próximo artigo.

Gustavo Biscaia de Lacerda é sociólogo da UFPR e doutor em Sociologia Política.

08 junho 2026

Desregulação do poder no Brasil, moralidade e politização

O jornal carioca Monitor Mercantil publicou em 8.6.2026 o nosso artigo "Desregulação do poder no Brasil, moralidade e politização". O original pode ser lido aqui: https://monitormercantil.com.br/desregulacao-do-poder-no-brasil-moralidade-e-politizacao/.

O texto encontra-se abaixo.

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Politicians participating in political debate. Concept business team vector illustration, Teams, Debate, Meeting.


Desregulação do poder no Brasil, moralidade e politização

Precisamos recuperar a noção de república e convencimento pacífico 

Por Gustavo Biscaia de Lacerda

O poder está desregulado no Brasil. Isso pode parecer bastante abstrato (e, em certo sentido, é, sim, abstrato), mas, bem vistas as coisas, o problema é bastante concreto e, desgraçadamente, bastante geral. Não é o Estado, não são as instituições, não são nem os partidos políticos: é o poder, é o mecanismo geral de tomadas de decisões e de imposição das ordens; é isso que está desregulado, e severamente desregulado, no Brasil.

A direita, organizada na aliança entre Centrão, fascistas e evangélicos, não tem pudor em aumentar cada vez mais os privilégios parlamentares, clericais e militarescos, com o orçamento impositivo e secreto, a proposta de completa isenção fiscal para as igrejas, feriados e benefícios clericalistas e um projeto geral de instituição de uma teocracia evangélica com apoio das baionetas.

A esquerda, embora minoritária, não fica atrás, especialmente a esquerda identitária, que, da mesma forma, obtém feriados particularistas, benefícios clericalistas e projetos de lei que estipulam agressivas doutrinas oficiais de Estado e crimes de opinião.

Há a hipocrisia habitual, em que a direita e a esquerda criticam uma à outra, porque ambas fazem as mesmas coisas com os mesmos objetivos. Mas, para além da polarização costumeira, muitos críticos afirmam que o problema seria o “moralismo” dessas perspectivas, e a solução seria, no lugar da moralidade, a “politização” das questões.

Falar em “politizar” o debate dá a impressão de grande sabedoria prática, além de conhecimento histórico e teórico. Os marxistas repetem, desde sempre, que é necessário “politizar” os debates; já a tradição maquiavélica separa a política da moral e afirma a superioridade (moral) da primeira sobre a última.

O problema que enfrentamos não é de moralização da política, nem a solução seria a politização dos debates. Não existe política sem moralidade; quem afirma tal ideia é ignorante, ingênuo ou hipócrita. O ser humano sempre age com base em valores e preocupações; esses valores podem ser altruístas ou egoístas; se tiver consciência dos seus valores, pode orientar-se para o altruísmo, mas, se for inconsciente, acabará sendo egoísta. Assim, quem afirma que a política pode e deve ser sem valores está, na verdade, praticando a moralidade egoísta – egoísmo individual, familista, de classe, profissional, nacional, de igreja.

Por outro lado, como sabemos desde Hobbes e, como foi reafirmado por Augusto Comte, a política baseia-se na mobilização de valores, mas pratica-se pela imposição da força. Quem quer substituir a moralidade pela política deseja que a política vire pura imposição da força. Assim, mais uma vez, quem afirma tal ideia é ignorante, ingênuo ou hipócrita.

O diagnóstico da “moralidade como problema” erra duas vezes. Na verdade, ele erra três vezes: ao criticar a moralidade, ao defender a politização e ao ignorar o fato de que direita e esquerda apostam na mais crua política para impor suas crenças.

Direita e esquerda concordam em uma visão violentamente ultrapolitizada para agir; ambas concordam que, por terem o poder, devem impor suas crenças sobre os demais; ambas consideram que a tolerância, o convencimento e a liberdade de pensamento são tolices heréticas a serviço do erro e que, portanto, devem ser combatidas violentamente.

A direita adota a concepção teocrática de que o Estado deve estar a serviço da igreja dominante, da crença dominante. Embora a Igreja Católica defenda, quando convém, a laicidade do Estado, o fato é que seus bispos, arcebispos e cardeais nunca fingiram que não querem a teocracia. Os protestantes históricos sempre foram mais cuidadosos, mas os evangélicos são agressivamente teocráticos e não têm pudores em defender a instrumentalização do poder e do Estado para seus fins teológicos e eclesiais.

A esquerda não fica atrás. Os marxistas sempre consideraram ilusões burguesas (ou liberais) as ideias de tolerância, liberdade de expressão e laicidade — exceto para si próprios e enquanto estivessem sem o poder.

Depois da queda do Muro de Berlim, o marxismo “raiz” foi substituído pelos identitarismos. Embora suas origens sociais sejam diversas e suas bases filosóficas sejam outras, os identitários são filhos bastardos e academicistas do marxismo: basta bom senso para perceber-se que o “patriarcado” é a versão feminista da “burguesia” (ou do “capitalismo”), que o “lugar de fala” é a versão feminista-queer-racialista da “consciência de classe”, que a ciência/filosofia/arte feminista-queer-racialista é a versão identitária da ciência/filosofia/arte “proletária”.

Mas há um aspecto em que esses filhos bastardos ultrapassaram o pai: na concepção pós-moderna (devida a Foucault, que se baseou em Nietzsche e no nazista Heidegger) de que tudo na sociedade é política (ou “socialmente construído”), ou seja, tudo é luta de poder.

Essas concepções pervadem partidos políticos, todo o Congresso Nacional e a maior parte dos governos, além do Judiciário e da barafunda que é o Ministério Público. Assim, a prática do poder em geral, no Brasil, está desregulada. A solução não será maior politização, pois isso resultará em mais do que já temos. Precisamos é de regulação — e a regulação tem um aspecto institucional, por certo, mas baseia-se, antes, na moralidade. O problema não é a moralização, mas a aplicação de moralidades ruins e inadequadas.

Não se trata de moralidades que, em si, seriam boas, mas que estão sendo pervertidas ou corrompidas. Se estivéssemos na Mesopotâmia de 2.500 anos atrás ou, quem sabe, no Consistório de Genebra que Rousseau considerava o ideal democrático, talvez fossem moralidades aceitáveis; mas estamos na modernidade, hoje. A moralidade teocrática é inaceitável, seja ela teológica (da direita), seja ela metafísica (da esquerda).

O que nós precisamos é re-regular o poder no Brasil — e, bem vistas as coisas, no Ocidente de um modo geral e, aliás, no mundo como um todo. Em vez de combatermos, abstratamente, a moralidade em nome de uma politização que, concretamente, resultará em mais violência, precisamos recuperar a moralidade que foi e é combatida pela direita teocrática e pela esquerda metafísica: precisamos recuperar a noção de república, de coisa pública, de tolerância, de convencimento pacífico, de rejeição da violência. Além disso, precisamos reafirmar e retomar a condição institucional disso tudo, que é a separação entre igreja e Estado — vulgarmente, a “laicidade”.

Temos que retomar concepções e práticas. Por um lado, os valores do bem comum, do convencimento livre, da liberdade de pensamento, da dignidade individual. Por outro lado, as práticas da tolerância, do respeito mútuo, do convencimento. Mas também temos que retomar as noções de que o Estado é incompetente para decidir sobre questões de foro íntimo e que igreja (e partido, e seita acadêmica) e Estado devem ser separados.

Não será algo fácil. Essa retomada irá contra ideias, práticas e decisões atuais. Mas, fora disso, não teremos futuro.

Gustavo Biscaia de Lacerda é sociólogo da UFPR e doutor em Sociologia Política.

21 maio 2026

Liberdade acadêmica sem (auto)responsabilização

No dia 20 de maio de 2026, o jornal carioca Monitor Mercantil publicou um texto de nossa autoria em que tratamos do Manifesto pelo Pluralismo e pela Liberdade Acadêmica.

Embora concordemos de modo geral com o conteúdo desse manifesto, ele apresenta uma série de defeitos que exigem reflexão.

O original do nosso artigo está disponível aqui. O nosso texto está reproduzido abaixo.

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Manifesto pela liberdade acadêmica sem (auto)responsabilização

A própria comunidade acadêmica é a responsável pelo que critica em manifesto. Por Gustavo Biscaia de Lacerda.

Estudantes universitários em sala de aula (foto: ABr)

Há algumas semanas, um grupo heterogêneo de professores universitários de ciências sociais lançou um Manifesto pelo Pluralismo e pela Liberdade Acadêmica. Esse documento é notável tanto pelo que diz quanto pelo que não diz, bem como pelo local em que foi redigido e por seus subscritores iniciais, e exige algumas reflexões.

O documento foi originalmente assinado por cientistas sociais de grande projeção nacional, alguns dos quais têm colunas fixas em grandes jornais impressos (Maria Hermínia Tavares e Wilson Gomes, na Folha de S. Paulo, Pablo Ortellado, no Estadão). Para além disso, há subscritores habitualmente discretos e que costumam recusar-se a assinar manifestos político-acadêmicos. (Fui aluno e tenho relações de amizade com vários deles, vale notar.)

Por outro lado, esse documento foi elaborado e publicado originalmente em São Paulo, reunindo pesquisadores que circundam o ambiente paulista (ou seja, que trabalham e/ou que estudaram lá). Claro que há exceções a essa descrição geral, mas, basicamente, trata-se de um documento paulista, aberto à adesão dos demais.

O que esse documento afirma explicitamente? Ele afirma que as universidades públicas (federais e estaduais) nos últimos anos têm sido caracterizadas por um ambiente político tóxico, de restrição das liberdades de pensamento e de exposição, com agressivos impedimentos da manifestação de ideias, bem como do mais intenso patrulhamento moral e ideológico. Em face disso, clama-se pela reversão da intolerância e pela reinstalação da liberdade acadêmica.

O documento tem tido muitas adesões, o que sugere que o problema denunciado é real; de nossa parte, a esse respeito, concordamos totalmente.

Mas, como dissemos há pouco, esse manifesto é notável não só pelo que explicita, mas também pelo silencia. E os silêncios são tão, ou até mais, eloquentes que suas afirmações.

O manifesto denuncia alguns graves problemas e clama por sua reversão; ou seja, ele critica alguns efeitos e busca a sua inversão. Todavia, o documento mantém-se resolutamente em silêncio a respeito dos fatores que resultaram nesses fenômenos, bem como de seus agentes produtores.

Assim, o manifesto age no vazio ou no limbo. Fala-se dos efeitos, mas cala-se a respeito das causas e dos causadores. Os autores do manifesto são cientistas sociais, todos com décadas de pesquisas empíricas e teóricas; o silêncio a respeito das causas e de seus produtores não é casual, mas profundamente intencional.

O fato simples e direto é que os causadores da situação denunciada no documento são os próprios acadêmicos. Por certo que a maior parte dos autores do manifesto são mais ou menos inocentes a respeito e que alguns deles há muito tempo são críticos francos da situação denunciada. Ainda assim, os professores universitários, em seu conjunto, são os responsáveis pela situação que criticam e de cujos efeitos agora padecem.

É porque não querem assumir as próprias responsabilidades – em bom português: porque não querem assumir as próprias mancadas – que o documento se mantém obsequiosamente em silêncio a respeito da origem e dos autores desses problemas.

Por que os professores universitários são os responsáveis pelo atual ambiente tóxico, de patrulhamento agressivo e intolerante? Pura e simplesmente, porque os professores universitários estimularam durante décadas (quando não ainda estimulam) esse comportamento; ou, então, porque se mantiveram (e mantêm-se) omissos a respeito.

Na verdade, o que o documento denuncia é a realidade social mais ampla há muito tempo: os professores universitários reclamam agora porque eles próprios têm que lidar com as consequências de suas ações e de suas omissões que, até então, graciosamente eles reservavam para “os outros”. (Perseguições, favorecimentos, vingancinhas, filhotismo… a academia é plena desse gênero de mesquinharia, inclusive praticada por vários dos autores do manifesto: cinismo e hipocrisia.)

Mais que apoio ativo ou omissão para comportamentos práticos, os professores universitários são os responsáveis pelo que agora denunciam porque muitas ideias (“teorias”) que ensinam, propagam, pelas quais militam, são ideias que conduzem diretamente ao resultado prático agora vivido.

É sempre fácil se afirmar que as ideias são apenas ideias, que não têm resultados práticos por si sós. Ora, nem os autores nem os subscritores do manifesto aceitarão a concepção academicista da “torre de marfim”, segundo a qual a ciência deve ser cultivada pela própria ciência, ou que a erudição deve ser cultivada pela própria erudição.

Claro que há correntes teóricas que não sabem justificar por que fazem o que fazem (é o caso dos weberianos); ainda assim, pelo menos em princípio, todos concordam que as produções acadêmicas, aí incluídas as teóricas, devem ter alguma utilidade social.

Quais ideias conduzem ao que se critica no manifesto? É certo que os autores e os subscritores do manifesto não têm todos as mesmas ideias; aliás, certamente, estão muito longe de convergências nesse sentido.

A despeito disso, na acadêmica vige a concepção de que a “crítica” sistemática é uma virtude intelectual, moral e prática: não o exame cuidadoso das ideias, das realidades, o confronto sistemático entre uma coisa e outra, mas a crítica como a destruição sistemática de todas as concepções, a noção de que o progresso consistiria na destruição sistemática do passado.

A isso se junta a concepção de que “tudo é poder”: se tudo é poder e política, tudo é disputa e, portanto, não há espaço para acordo, diálogo, tolerância, paciência – nem convencimento, nem pesquisa científica efetiva.

Essa mentalidade originalmente foi instalada na academia com o marxismo. Mas o marxismo tem um intelectualismo que se ajusta bem à vida acadêmica e, em todo caso, ele não é mais tão relevante. É um bastardo do marxismo o responsável pela situação denunciada no manifesto: o identitarismo. Todas as situações denunciadas no documento – facciosismo, estímulo ao ódio e ao ressentimento, particularismo agressivo, intolerância – são características de identitarismo.

Ocorre que muitos dos autores e subscritores do manifesto são promotores ativos do identitarismo. E, quando não são adeptos/promotores, são pelo menos omissos a respeito – todos fingindo que essas ideias não têm, necessariamente, os resultados que têm e que agora se voltam contra a academia.

(Por falta de espaço, não comentaremos a busca ávida dos identitários por influir nas políticas públicas. Notemos apenas que os identitários, não por acaso, abominam a laicidade do Estado, ou seja, buscam usar o Estado para impor agressivamente suas crenças.)

O identitarismo é uma filosofia e uma prática política profundamente acadêmica. Quando autores e subscritores do manifesto calam-se a respeito das causas do que denunciam, é porque não querem assumir que a própria academia, ao manter e estimular o identitarismo, é a responsável pelo que critica.

Assim, critica-se uma situação, mas não se assume a responsabilidade pela situação criticada. Afinal, quem quer fazer um mea culpa? Mais fácil que assumir as próprias mancadas é criticar no limbo uma situação e fingir que a culpa é “dos outros”.

Gustavo Biscaia de Lacerda é sociólogo da UFPR e doutor em sociologia política.