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21 maio 2026

Liberdade acadêmica sem (auto)responsabilização

No dia 20 de maio de 2026, o jornal carioca Monitor Mercantil publicou um texto de nossa autoria em que tratamos do Manifesto pelo Pluralismo e pela Liberdade Acadêmica.

Embora concordemos de modo geral com o conteúdo desse manifesto, ele apresenta uma série de defeitos que exigem reflexão.

O original do nosso artigo está disponível aqui. O nosso texto está reproduzido abaixo.

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Manifesto pela liberdade acadêmica sem (auto)responsabilização

A própria comunidade acadêmica é a responsável pelo que critica em manifesto. Por Gustavo Biscaia de Lacerda.

Estudantes universitários em sala de aula (foto: ABr)

Há algumas semanas, um grupo heterogêneo de professores universitários de ciências sociais lançou um Manifesto pelo Pluralismo e pela Liberdade Acadêmica. Esse documento é notável tanto pelo que diz quanto pelo que não diz, bem como pelo local em que foi redigido e por seus subscritores iniciais, e exige algumas reflexões.

O documento foi originalmente assinado por cientistas sociais de grande projeção nacional, alguns dos quais têm colunas fixas em grandes jornais impressos (Maria Hermínia Tavares e Wilson Gomes, na Folha de S. Paulo, Pablo Ortellado, no Estadão). Para além disso, há subscritores habitualmente discretos e que costumam recusar-se a assinar manifestos político-acadêmicos. (Fui aluno e tenho relações de amizade com vários deles, vale notar.)

Por outro lado, esse documento foi elaborado e publicado originalmente em São Paulo, reunindo pesquisadores que circundam o ambiente paulista (ou seja, que trabalham e/ou que estudaram lá). Claro que há exceções a essa descrição geral, mas, basicamente, trata-se de um documento paulista, aberto à adesão dos demais.

O que esse documento afirma explicitamente? Ele afirma que as universidades públicas (federais e estaduais) nos últimos anos têm sido caracterizadas por um ambiente político tóxico, de restrição das liberdades de pensamento e de exposição, com agressivos impedimentos da manifestação de ideias, bem como do mais intenso patrulhamento moral e ideológico. Em face disso, clama-se pela reversão da intolerância e pela reinstalação da liberdade acadêmica.

O documento tem tido muitas adesões, o que sugere que o problema denunciado é real; de nossa parte, a esse respeito, concordamos totalmente.

Mas, como dissemos há pouco, esse manifesto é notável não só pelo que explicita, mas também pelo silencia. E os silêncios são tão, ou até mais, eloquentes que suas afirmações.

O manifesto denuncia alguns graves problemas e clama por sua reversão; ou seja, ele critica alguns efeitos e busca a sua inversão. Todavia, o documento mantém-se resolutamente em silêncio a respeito dos fatores que resultaram nesses fenômenos, bem como de seus agentes produtores.

Assim, o manifesto age no vazio ou no limbo. Fala-se dos efeitos, mas cala-se a respeito das causas e dos causadores. Os autores do manifesto são cientistas sociais, todos com décadas de pesquisas empíricas e teóricas; o silêncio a respeito das causas e de seus produtores não é casual, mas profundamente intencional.

O fato simples e direto é que os causadores da situação denunciada no documento são os próprios acadêmicos. Por certo que a maior parte dos autores do manifesto são mais ou menos inocentes a respeito e que alguns deles há muito tempo são críticos francos da situação denunciada. Ainda assim, os professores universitários, em seu conjunto, são os responsáveis pela situação que criticam e de cujos efeitos agora padecem.

É porque não querem assumir as próprias responsabilidades – em bom português: porque não querem assumir as próprias mancadas – que o documento se mantém obsequiosamente em silêncio a respeito da origem e dos autores desses problemas.

Por que os professores universitários são os responsáveis pelo atual ambiente tóxico, de patrulhamento agressivo e intolerante? Pura e simplesmente, porque os professores universitários estimularam durante décadas (quando não ainda estimulam) esse comportamento; ou, então, porque se mantiveram (e mantêm-se) omissos a respeito.

Na verdade, o que o documento denuncia é a realidade social mais ampla há muito tempo: os professores universitários reclamam agora porque eles próprios têm que lidar com as consequências de suas ações e de suas omissões que, até então, graciosamente eles reservavam para “os outros”. (Perseguições, favorecimentos, vingancinhas, filhotismo… a academia é plena desse gênero de mesquinharia, inclusive praticada por vários dos autores do manifesto: cinismo e hipocrisia.)

Mais que apoio ativo ou omissão para comportamentos práticos, os professores universitários são os responsáveis pelo que agora denunciam porque muitas ideias (“teorias”) que ensinam, propagam, pelas quais militam, são ideias que conduzem diretamente ao resultado prático agora vivido.

É sempre fácil se afirmar que as ideias são apenas ideias, que não têm resultados práticos por si sós. Ora, nem os autores nem os subscritores do manifesto aceitarão a concepção academicista da “torre de marfim”, segundo a qual a ciência deve ser cultivada pela própria ciência, ou que a erudição deve ser cultivada pela própria erudição.

Claro que há correntes teóricas que não sabem justificar por que fazem o que fazem (é o caso dos weberianos); ainda assim, pelo menos em princípio, todos concordam que as produções acadêmicas, aí incluídas as teóricas, devem ter alguma utilidade social.

Quais ideias conduzem ao que se critica no manifesto? É certo que os autores e os subscritores do manifesto não têm todos as mesmas ideias; aliás, certamente, estão muito longe de convergências nesse sentido.

A despeito disso, na acadêmica vige a concepção de que a “crítica” sistemática é uma virtude intelectual, moral e prática: não o exame cuidadoso das ideias, das realidades, o confronto sistemático entre uma coisa e outra, mas a crítica como a destruição sistemática de todas as concepções, a noção de que o progresso consistiria na destruição sistemática do passado.

A isso se junta a concepção de que “tudo é poder”: se tudo é poder e política, tudo é disputa e, portanto, não há espaço para acordo, diálogo, tolerância, paciência – nem convencimento, nem pesquisa científica efetiva.

Essa mentalidade originalmente foi instalada na academia com o marxismo. Mas o marxismo tem um intelectualismo que se ajusta bem à vida acadêmica e, em todo caso, ele não é mais tão relevante. É um bastardo do marxismo o responsável pela situação denunciada no manifesto: o identitarismo. Todas as situações denunciadas no documento – facciosismo, estímulo ao ódio e ao ressentimento, particularismo agressivo, intolerância – são características de identitarismo.

Ocorre que muitos dos autores e subscritores do manifesto são promotores ativos do identitarismo. E, quando não são adeptos/promotores, são pelo menos omissos a respeito – todos fingindo que essas ideias não têm, necessariamente, os resultados que têm e que agora se voltam contra a academia.

(Por falta de espaço, não comentaremos a busca ávida dos identitários por influir nas políticas públicas. Notemos apenas que os identitários, não por acaso, abominam a laicidade do Estado, ou seja, buscam usar o Estado para impor agressivamente suas crenças.)

O identitarismo é uma filosofia e uma prática política profundamente acadêmica. Quando autores e subscritores do manifesto calam-se a respeito das causas do que denunciam, é porque não querem assumir que a própria academia, ao manter e estimular o identitarismo, é a responsável pelo que critica.

Assim, critica-se uma situação, mas não se assume a responsabilidade pela situação criticada. Afinal, quem quer fazer um mea culpa? Mais fácil que assumir as próprias mancadas é criticar no limbo uma situação e fingir que a culpa é “dos outros”.

Gustavo Biscaia de Lacerda é sociólogo da UFPR e doutor em sociologia política.

12 maio 2026

Da Abolição da Escravidão à escala 5x2

O jornal carioca Monitor Mercantil publicou em 19 de César de 172 (11.5.2026) o nosso artigo "Da Abolição da Escravidão à escala 5x2".

A publicação original encontra-se disponível aqui

Reproduzimos abaixo o texto.

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Da abolição da escravidão à escala 5×2

Críticos à redução da jornada não distinguem o trabalho da escravidão 

Por Gustavo Biscaia de Lacerda

Esacala 6x1 ( foto de José Cruz/Agência Brasil)

É uma feliz coincidência que este artigo sobre a escala 6×1 (ou melhor, escala 5×2) seja publicado no dia 11 de maio, antevéspera do 13 de Maio. Há muito tempo a data não é mais celebrada, mas o 13 de Maio, com justiça, já foi feriado nacional, que comemorava a fraternidade dos brasileiros a partir da abolição da escravidão.
Estabelecido pelo Decreto 155-B, de 14 de janeiro de 1891 – um monumento belíssimo de celebrações cívicas –, o nome do feriado já indicava que tal celebração não tinha nada a ver com a mistificação monarquista, antinacional e antirrepublicana em favor da Princesa Isabel.
A celebração da fraternidade dos brasileiros, celebrada durante a I República no dia 13 de maio, conjuga de maneira impressionante inúmeros elementos:

  1. a valorização do trabalho e dos trabalhadores, contra as concepções de que o trabalho é degradante, que é um castigo e que os trabalhadores têm que ser tratados como escravos;
  2. a libertação dos escravos, ocorrida em 1888 em relação aos descendentes dos africanos trazidos à força ao Brasil e, em 1758, em relação aos índios autóctones;
  3. o necessário concurso das várias etnias para a constituição do Brasil – concurso que, de qualquer maneira, tem que ser pacífico e voluntário.

Apesar de belas, importantes e necessárias, essas concepções foram e têm sido degradadas ao longo do tempo; como a própria noção de “república”, seu sentido tem sido desprezado e corrompido cada vez mais nos últimos 140 anos.

No caso da celebração da fraternidade dos brasileiros, essa degradação começou logo após o 13 de maio de 1888, a partir de uma intensa mistificação monarquista – mistificação, aliás, apoiada por movimentos sociais negros que, baseados em uma equivocada gratidão, constituíram a lamentável milícia da “Guarda Negra”, que espancava os republicanos em defesa da monarquia.

Ao longo do tempo, em vez de investir-se nas noções de que a abolição da escravidão foi uma vitória do conjunto do país, de que ela valoriza os brasileiros descendentes de africanos e de que celebra a dignidade do trabalho e dos trabalhadores; em vez de investirmos no republicanismo em geral e na celebração da fraternidade em particular, os brasileiros praticamos o desprezo pela república (que se torna desculpa para golpes e revoluções, do fascismo, do comunismo, do clericalismo, do monarquismo etc.) e o estímulo ao mito monarquista.

Essa dupla degradação tem sido reafirmada nas últimas décadas mesmo pelo movimento identitário negro, contrário às noções de república e de fraternidade universal. Aliás, o identitarismo negro finge que a Guarda Negra não existiu e estimula a mistificação monarquista contra a celebração republicana: isso em favor de um novo feriado nacional, lamentavelmente, mas não por acaso, particularista, contrário à fraternidade e, para piorar, que celebra uma figura que lutava contra a escravidão mantendo o seu próprio plantel de escravos.

O que isso tem a ver com a escala 5×2? Tudo. A proposta da mudança do regime de trabalho no Brasil surgiu como uma iniciativa da esquerda que, após décadas, finalmente apresentou uma proposta que não é exclusivista, particularista, facciosa e, ao contrário, beneficia todo o conjunto da população brasileira.

Mais importante que as disputas partidário-ideológicas, a proposta da escala 5×2 celebra uma concepção generosa e universalista da vida em sociedade, afirmando a fraternidade de todos os brasileiros, a dedicação dos trabalhadores para suas famílias, a dignidade humana em geral e a valorização do trabalho como atividade produtiva compartilhada.

Além disso, a escala 5×2 sacramenta o hábito ocidental de dois dias para o trabalhador dedicar-se à vida doméstica (sábado) e à vida coletiva (domingo) – o que, convenhamos, é o mínimo para uma vida digna e para uma justa retribuição pela atividade produtiva.

Nesse sentido, é revelador que os críticos da escala 5×2 adotem argumentos (1) economicistas e (2) que degradam a vida coletiva e o trabalho – argumentos convergentes, aliás.

O economicismo considera que apenas os aspectos econômicos da medida são os importantes; ele reduz o ser humano a uma máquina de trabalhar e de produzir. Há no economicismo um duplo cinismo: finge-se (1) que o trabalhador não é apenas um número que tem a obrigação de gerar riqueza e (2) que essa desumanização não é dirigida apenas contra os trabalhadores.

Nenhum capitalista aceitaria submeter a si próprio e à sua família aos raciocínios morais e às condições de trabalho envolvidos no argumento economicista; mas eles não têm pudor em exigir tal submissão aos “outros”.

Se isso não fosse pouco, argumenta-se também que os “custos” aumentarão e o “lucro” diminuirá com a escala 5×2: ora, cada vez mais temos à disposição (1) tecnologias que aumentam a produtividade, (2) o conhecimento de que qualidade de vida e satisfação aumentam a produtividade, (3) o aumento geral da renda com o aumento de trabalhadores no mercado de trabalho.

Os argumentos que degradam o trabalho são mais diretos; reacionários, com frequência são teológicos, todos são contra a dignidade do trabalho e da vida humana e a favor da ganância. Por exemplo: deputados-pastores afirmam que a escala 5×2 deixará muito tempo livre para os trabalhadores, tempo ocupado pelo Diabo (!): assim, os trabalhadores devem trabalhar sem cessar para que se esgotem e não possam aproveitar a vida nem refletir a respeito dela.

Outros críticos da escala 5×2 são diretamente bíblicos: o trabalho é a punição divina pela traição de Adão (causada, aliás, pela suposta mesquinhez de Eva).

Versões secularizadas disso consideram que o trabalho incessante é a única forma de dignificar a vida; viver-se-ia apenas para trabalhar, em vez de dignificar o trabalho como uma atividade que integra a vida, entre muitos outros aspectos.

Consequências imediatas disso: o salário deve ser o menor possível (forçando os trabalhadores a manterem-se em trabalhos ruins), e as condições de vida não podem ser muito boas (incluindo aí as longas horas entre a casa e o trabalho e o acúmulo com o trabalho doméstico).

Na crítica à escala 5×2, também há a noção de que a boa vida cabe apenas a alguns poucos – aos ricos; o trabalho serve para o enriquecimento alheio. Essa mentalidade prevalece nos Estados Unidos, onde a ganância é um valor fundamental; mas, no fundo, ela tem uma origem mais antiga e insidiosa: ela não distingue o trabalho da escravidão.

Não é casual que os monarquistas – que retornaram à ribalta na onda reacionária da última década – sejam críticos da escala 5×2: a monarquia no Brasil foi implantada exatamente para manter a escravidão. O antirrepublicanismo é pró-escravismo.

Celebremos, então, o 13 de Maio: o fim da escravidão, a fraternidade dos brasileiros e o republicanismo. Celebremos a dignidade do trabalho e dos trabalhadores: que venha a escala 5×2!

Gustavo Biscaia de Lacerda é sociólogo da UFPR e doutor em sociologia política.

14 abril 2026

A laicidade contra a misoginia

No dia 13 de abril de 2026 o jornal carioca Monitor Mercantil publicou o nosso artigo "A laicidade contra a misoginia". 

O artigo está reproduzido abaixo. A versão original encontra-se disponivel aqui: https://monitormercantil.com.br/a-laicidade-contra-a-misoginia/.

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A laicidade contra a misoginia

Misoginia é tratada como blasfêmia, sujeito ao punitivismo identitário Por Gustavo Biscaia de Lacerda

Na conturbada sociedade em que vivemos, é correto que cada vez mais se dissemine a noção de que a misoginia deve ser combatida. O desrespeito às mulheres, a violência contra elas, a concepção de que as mulheres seriam versões imperfeitas ou degradadas dos homens – tudo isso tem que ser visto como errado e degradante.

A relevância moral e a urgência política (mesmo policial) do tema exigem que o digamos com clareza, com todas as letras: as mulheres devem ser valorizadas e respeitadas; o fato de elas serem fisicamente mais frágeis não as diminui e, bem ao contrário, torna-as mais merecedoras de cuidado e atenção. Aliás, é exatamente a relativa fragilidade que justifica a novidade penal brasileira correspondente ao “feminicídio” e que torna essa forma de homicídio tão aviltante.

(Apenas pessoas abrutalhadas consideram que os mais fracos são desprezíveis; apenas o culto à violência, à lei do mais forte, chega à conclusão degradante de que ser mais fraco, mais frágil e, por vezes, mesmo inferior seria motivo para humilhação e desrespeito. Ao longo de nossas vidas, todos nós, em vários momentos, somos mais ou menos frágeis e ocupamos posições de inferioridade. Em si mesmo, nada disso é ou precisa ser degradante ou humilhante.)

Enfim, se felizmente há um crescente consenso de que a misoginia deve ser combatida, parece que há também um infeliz consenso a respeito dos meios a empregar nisso. O projeto de lei que está atualmente em tramitação no Congresso Nacional e que transforma em crime a misoginia corresponde precisamente a esse infeliz consenso.

Nossa época ultrapolitizada afirma que tudo é política, ou seja, tudo é poder e dominação. Essa dominação não corresponde ao mando com legitimidade a partir de critérios públicos, compartilhados e livremente aceitos. Se “tudo é política”, quem manda exerce o poder de maneira agressiva, submetendo passivamente os demais. Isso rejeita o verdadeiro consenso, os valores morais, as concepções compartilhadas etc.

Em suma, essa política consiste apenas na aplicação brutal e cínica da máxima “manda quem pode, obedece quem tem juízo”. Não por acaso, essa concepção foi defendida pelos nazistas Carl Schmitt e Martin Heidegger e, a partir deles, foi popularizada por Michel Foucault – que é o teórico do identitarismo.

Desprezo pelos inferiores (e pela inferioridade), brutalidade na política, rejeição de valores livremente compartilhados: aplicando-se todas essas concepções ao problema da misoginia, o resultado não poderia ser diferente da simples e direta criminalização da misoginia.

Deveria ser evidente que a misoginia basicamente é uma questão de opinião – ideias que, por sua vez, baseiam-se em valores e que, por sua vez, podem converter-se em atos concretos. Claro que podemos considerar muitas ideias como erradas e muitos valores como degradantes; mas ideias e valores não são atos concretos.

Quando necessária, a punição deve considerar atos, não ideias e valores; aliás, nem todos os atos podem ser punidos, na medida em que evidentemente há graus de aceitação de comportamentos inadequados. Os atos mais agressivos e/ou de efeitos mais duradouros: esses devem ser punidos com o poder do Estado; em todo caso, opiniões e valores são opiniões e valores e não podem ser punidos como tais.

A criminalização da misoginia deixa de lado os atos e vai para as ideias e opiniões. Essa é a tendência geral vista no Brasil recente – a renovada criminalização de ideias e valores. Aliás, de maneira exemplar, não há uma deputada federal que processa judicialmente toda e qualquer pessoa que ouse discordar publicamente dela?

Essa criminalização é promovida pelos grupos identitários – no presente caso da misoginia, por grupos feministas e simpáticos ao feminismo. Esses grupos têm restabelecido o crime de blasfêmia, o que não deixa de ser surpreendente e chocante, na medida em que tais grupos são quase todos anticlericais.

O emprego da violência do Estado para impor censura oficial sobre ideias e valores corresponde às concepções gêmeas de que tudo é política e de que valores livremente compartilhados são tolice. Essas concepções, longe de melhorarem a sociedade e diminuírem a violência, pioram a agressividade social ao apostarem na brutalidade e no punitivismo sistemático.

São concepções e práticas brutais; as ideias e os sentimentos estimulam a misoginia por si só (e também o desprezo aos/às fracos/as), e as práticas conduzem à violência contra as mulheres. É notável: embora afirmem defender grupos desrespeitados, os identitários apostam em concepções e práticas que conduzem exatamente ao desrespeito e à violência.

Essas concepções têm sido defendidas ativamente, de maneira militante, à direita e à esquerda, pelo Governo Federal (e por governos estaduais), pelos membros do Congresso Nacional, pelo Ministério Público, por grandes jornais diários e até pelos ministros do Supremo Tribunal Federal. Não há república e não há sociedade que resistam a tal assédio.

Em inúmeras ocasiões, observamos que os grupos identitários rejeitam a separação entre igreja e Estado, a chamada “laicidade do Estado”. A laicidade do Estado pressupõe que nem tudo na sociedade é política e que é inaceitável usar o poder do Estado para impor ideias e valores – ou, o que é equivalente, que é inaceitável usar o Estado para a censura.

A laicidade pressupõe também a realidade autônoma da sociedade civil, cuja dinâmica não se limita ao poder e à disputa política; em consequência disso, a sociedade civil mobiliza valores e ideias, que devem ser respeitados e que orientam a ação do Estado.

É importante indicarmos também que as concepções gêmeas de laicidade do Estado e de sociedade civil pressupõem a legitimidade dos valores morais. A ultrapolitização punitivista atual despreza os valores morais, tachando-os de “moralismo”. Entretanto, como devemos chamar as concepções de dignidade humana, de respeito às mulheres, de fraternidade, de pacifismo etc., senão de “valores morais”?

Se tudo é apenas política, essas concepções “morais” seriam apenas palavras a serem usadas de maneira cínica em disputas sem fim (e sem objetivo); mas, se tais palavras significam alguma coisa, elas têm necessariamente e, acima de tudo, um valor moral, que deve ser entendido como superior à disputa política.

Ao assumir a existência e a autonomia da sociedade civil, a laicidade do Estado pressupõe que problemas morais exigem soluções morais. Para o tema que nos preocupa, isso significa que a misoginia, por mais criticável que seja – e que de fato é – deve ser tratada como uma questão de debate e convencimento na sociedade civil, e não como um crime de blasfêmia, sujeito ao vigilante punitivismo identitário.

Gustavo Biscaia de Lacerda é sociólogo da UFPR e doutor em sociologia política.

10 março 2026

Dificuldade brasileira de lidar com a existência compartilhada

O jornal carioca Monitor Mercantil publicou em 9.3.2026 o nosso artigo "A dificuldade brasileira de lidar com a existência compartilhada".

O texto está reproduzido abaixo; o original pode ser lido aqui: https://monitormercantil.com.br/a-dificuldade-brasileira-de-lidar-com-a-existencia-compartilhada/.

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A dificuldade brasileira de lidar com a existência compartilhada

Entre a submissão ao exterior e o nacionalismo exagerado, os extremos da existência compartilhada. Por Gustavo Biscaia de Lacerda.

Cerimônia da troca de bandeiras do Brasil (foto de Fábio Pozzebom, ABr).

Nos anos 1930, Stefan Zweig afirmou que o Brasil seria o “país do futuro”. Ao mesmo tempo, muitos sociólogos e historiadores europeus e brasileiros afirmaram que o Brasil é um país “jovem”. Além disso, sempre ouvimos que o Brasil é um país continental.

A juventude do país pode ser avaliada não apenas pela sua história relativamente curta (a colonização sistemática do território tem apenas cerca de cinco séculos), mas principalmente devido aos desafios de infraestrutura (faltam estradas, falta integração) e de respeito à população (falta instrução, saúde etc.).

Sendo um país continental, o Brasil tem uma tendência fortíssima a concentrar-se em seus problemas internos, preocupando-se com o ambiente externo apenas e no máximo na medida em que esse ambiente externo influencia o interno.

Também temos uma preocupação imensa com as grandes potências de cada momento, em termos político-econômicos e culturais, a ponto de fazermos questão de sermos colonizados intelectual e moralmente. Nossas elites, com gosto, fazem questão de exibir seus gastos em Miami e na Europa, esnobando a produção nacional e dando a entender que quem consome produtos brasileiros vale menos ou que é um tipo pior de pessoa.

Por outro lado, desde os anos 1960, em face da mestiçagem e da miscigenação cultural brasileiras, Darcy Ribeiro propôs que o Brasil seja entendido e realize-se como uma “nova Roma”.

Por fim, em 2018, o prédio do Museu Nacional (que começou a ser construído em 1808), no Rio de Janeiro, sofreu um incêndio que o reduziu quase totalmente às cinzas. Já em 2019 a Catedral de Notre Dame (que começou a ser construído em 1163), em Paris, sofreu um incêndio; entretanto, ela não foi tão danificada quanto o nosso Palácio de São Cristóvão. Houve intelectuais de renome que disseram que a queima do Museu Nacional era muito pior que a de Notre Dame: a cultura nacional seria mais importante – e que os franceses que se danassem!

Os vários casos acima exemplificam diferentes formas de entender-se o Brasil e suas relações com a história e com outros povos. Nessa multiplicidade de situações, o que surge para nós são formas da incapacidade brasileira de lidar com a existência compartilhada – e, em particular, duas formas gerais dessa incapacidade.

A expressão “dificuldade em lidar com existência compartilhada” denota um problema mais facilmente compreensível em termos dos desvios e das degradações do nacionalismo, em que se rejeita o convívio com os outros países (e/ou outros povos, e/ou outras culturas). Mas ele é um problema não somente com os desvios do sentimento nacional, mas também com a sua ausência. Afinal de contas, não valorizar a si mesmo é um problema tão real quanto negar os outros (devido ou não à própria sobrevalorização).

A primeira modalidade, mais própria das elites, é a submissão, ou melhor, o servilismo aos outros países. Por certo que ela se baseia nos valores compartilhados, mas desconsidera, quando não despreza, a preocupação com o próprio país.

Como esse comportamento é mais próprio às elites, e elas têm grande facilidade de trânsito internacional, elas furtam-se às suas responsabilidades coletivas, produzindo resultados bastante negativos. Esta incapacidade de lidar com a existência compartilhada rejeita o próprio país; não se pode falar aí em “existência compartilhada”, na medida em que o compartilhamento pressupõe a existência do próprio país – e este comportamento despreza ou desdenha do próprio país.

A segunda forma de incapacidade de lidar com a existência compartilhada reconhece e afirma o próprio país, mas exagera tal afirmação. É claro que a força do nacionalismo depende da situação de cada país; um povo que lute por sua independência terá um nacionalismo intenso; mas um país que deseje dominar (ou conquistar) outro também será nacionalista.

Nesses casos, o problema não está em afirmar o próprio país, mas em reconhecer como legítimos os outros países (e/ou outros povos, e/ou outras culturas). Enquanto a modalidade cosmopolita de não saber lidar com a existência compartilhada baseia-se na ausência de sentimento nacional, a xenofobia e/ou o imperialismo consiste na degradação do sentimento nacional.

Em reação necessária à irresponsabilidade “cosmopolita” das elites, o nacionalismo afirma os valores e o interesse nacional. Sem tal afirmação, é impossível qualquer projeto efetivo de melhoria no país. A afirmação do sentimento nacional, portanto, é ao mesmo tempo necessária e legítima. Entretanto, com facilidade ele pode degradar-se em rejeição aos outros povos e xenofobia explícitas ou, de outra forma, na pretensão de que seríamos o renascimento da civilização.

A ideia de um país como renascimento da civilização é mais pacífica e mais generosa que a xenofobia; mas, ainda assim, o renascimento da civilização implica também a rejeição das outras sociedades, sejam as que vieram antes, sejam as que agora convivem conosco. Devemos lembrar que, no caso do Brasil, essas concepções têm o elemento adicional do ensimesmamento devido às dimensões continentais.

À primeira vista, a solução para o cínico cosmopolitismo seria o nacionalismo; mas, desenvolvido o sentimento nacional, os problemas próprios a ele com facilidade podem surgir. A solução para ambas as dificuldades para lidar com a existência compartilhada é e deve ser uma única. Aliás, o nome que estamos dando para o problema – dificuldade em lidar com a existência compartilhada – já sugere a solução necessária.

Para lidar com a degradação do sentimento nacional, não faz sentido, nem é possível, negar tal sentimento; o que deve ocorrer é sua modificação. De maneira direta, trata-se de afirmar que nenhum país existe sozinho no mundo e que todos os países do mundo desenvolvem-se ao longo do tempo, em um processo histórico que se iniciou há centenas de milhares de anos.

Em outras palavras, trata-se de afirmar com clareza e vigor a submissão moral (mas não submissão política) dos vários países à noção de Humanidade – e, além disso, da submissão da solidariedade (da existência hoje, no presente) à continuidade (da existência ao longo do tempo, na história, do passado rumo ao futuro).

Em outras palavras, sem negar a importância dos vários países e do sentimento nacional, trata-se de afirmar (em termos morais) que as pátrias não são a forma mais elevada de identidade social e política: sem tal submissão – e, sim, trata-se de uma submissão – o nacionalismo fica sem parâmetros e sujeito às piores degradações.

A noção de Humanidade tem que ser afirmada em termos morais e intelectuais; não faz sentido e não é aceitável sua conversão em uma realidade política, na forma quimérica de um “super-Estado” mundial. Todavia, por outro lado, é claro que a afirmação moral e intelectual da Humanidade tem que ter consequências políticas, a começar pela rejeição de toda violência entre as nações e pelo término de ambições expansionistas dos estados atuais (e começar pelos países que já são gigantescos, como Rússia e Estados Unidos).

Gustavo Biscaia de Lacerda é sociólogo da UFPR e doutor em Sociologia Política.

09 fevereiro 2026

Desvalorização dos intelectuais no século XX

No dia 9 de fevereiro de 2026 o jornal carioca Monitor Mercantil publicou um artigo de nossa autoria sobre a intensa desvalorização sofrida pelo conceito de "intelectuais" no século XX. 

O original foi publicado aqui: https://monitormercantil.com.br/intelectuais-e-vida-coletiva-3/.

O texto encontra-se reproduzido abaixo.

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Sociologia (foto CrazyCloud, AdobeStock)

Intelectuais e vida coletiva – 3

Ao longo do século 20 a noção dos intelectuais foi sistematicamente desvalorizada. Por Gustavo Biscaia de Lacerda.


Em nossas colunas anteriores (aqui aqui) tratamos das características gerais da atuação dos intelectuais, além da “laicidade do Estado”. As ideias gerais que procuramos transmitir são que os intelectuais atuam e devem atuar como conselheiros públicos (coletivos e individuais), a partir de valores e ideias compartilhados (ou seja, a partir da educação), sempre respeitando a dignidade individual.

O papel social dos intelectuais exige uma quantidade enorme de atributos: altruísmo e generosidade, responsabilidade moral, autonomia de julgamento, perspectiva de conjunto (histórica e social), amplos conhecimentos (filosófico-morais, científicos, artísticos), preocupação efetiva com o bem comum e com o bem-estar pessoal.

Esses atributos, para serem reunidos, exigem um esforço contínuo consciente e são necessários mesmo para tratar de questões específicas. Mesmo que isso seja custoso, nada altera tal necessidade. Não por acaso, a afirmação mais clara disso foi feita por Augusto Comte, o fundador da Sociologia, que considerava que os sociólogos devem atuar como poder espiritual, com os atributos acima.

Ora, é notável que ao longo do século 20 a noção dos intelectuais tenha sido sistematicamente desvalorizada, às vezes de maneira inesperada – com frequência, por sociólogos. Poderíamos multiplicar os exemplos, mas dois ou três são o suficiente para nós.

Comecemos com Émile Durkheim. Em 1898 ele afirmou que os intelectuais podem e devem ser “indivíduos”, ou seja, pessoas que falam publicamente sem qualquer vínculo explícito com qualquer organização; além disso, Durkheim afirmou que os intelectuais – como conselheiros públicos – não precisam ter qualquer qualificação específica para isso, podendo ser apenas cientistas compenetrados em suas atividades, seguindo com rigor o método científico.

Discutindo com pensadores católicos no âmbito do caso Dreyfus, o individualismo de Durkheim pôs-se contra a tradição filosófica própria à Igreja Católica, que reúne clérigos e o laicato. Embora fosse “progressista”, simpático aos dreyfusistas e contrário ao reacionarismo clerical-militar, a noção de intelectual como “indivíduo” proposta pelo sociólogo Durkheim, assumindo um caráter anticlericalista, era radicalmente anti-histórica e antissociológica, uma abstração socialmente etérea.

Durkheim também defendia que meramente o rigor metodológico da prática profissional dos cientistas garantiria que eles fossem bons intelectuais. Assim, um químico, como profissional da química, poderia opinar sobre a política urbana de uma cidade, mesmo que não tivesse nenhum conhecimento fora da química: à parte seus gostos pessoais, ele opinaria a respeito de aspectos lógicos das propostas urbanísticas (sentido, coerência etc.).

Com essa concepção, Durkheim apresentou-se como o porta-voz dos cientistas, que, no curso do caso Dreyfus, de modo geral eram dreyfusistas, em oposição aos literatos, que de modo geral eram antidreyfusistas. Moral e politicamente correto, essa concepção de Durkheim foi péssima, pois sacralizou o especialista palpiteiro e ignorante, que pode se sentir à vontade em torres de marfim e que está a um passo da tecnocracia.

Passemos a Pierre Bourdieu. Entre os anos 1960 e 1980, esse sociólogo sempre se mostrou ambivalente a respeito da atuação dos intelectuais e dos valores compartilhados: ele reconhecia a sua importância política, mas não assumia a legitimidade social dessa atuação. Para Bourdieu, os “intelectuais” vivem em seu mundinho, preocupados com disputas internas, relações de poder, influências, apoios a alguns, sabotagens a outros; basicamente, é nisso que consiste a atuação social dos intelectuais, para Bourdieu.

Aconselhamento, orientação, afirmação de valores? Tudo isso é meramente interesse de grupo, que, por sua vez, reduz-se ao interesse geral da classe social a que os intelectuais pertencem. Assim, Bourdieu renova a cínica concepção marxista de ideologia, em que as ideias e os valores são meramente instrumentos de disputas políticas e sociais, sem maior valor intrínseco.

A concepção de Bourdieu tem dois problemas evidentes. Por um lado, se nenhuma ideia tem valor intrínseco, as suas próprias análises não têm valor nenhum, mesmo em termos “científicos”; esse problema Bourdieu resolvia por decreto, afirmando pura e simplesmente que ele, com seu método específico, era o único científico e que todos os demais eram ideológicos.

Por outro lado, se a análise sociológica reduz-se a apresentar disputas de poder, que se limitam em si mesmas, mobilizadas por grupos e pessoas que falam coisas que não têm valor em si mesmas, então o aconselhamento público (e dos sociólogos em particular) é inútil e, de maneira mais ampla, as políticas públicas não têm nem legitimidade política nem justificativa técnico-científica.

A solução de Bourdieu para isso foi simplesmente fingir, a partir dos anos 1990, que suas concepções não têm os problemas que têm; com isso, ele passou a desdizer-se e a afirmar que é necessário, sim, que os sociólogos atuem como um poder espiritual, com perspectivas amplas e generosidade.

Um terceiro exemplo de sociólogo que negou o papel dos intelectuais é Michel Foucault. A bem da verdade, ele não negou o papel dos intelectuais, mas uniu dois traços que diminuem e descaracterizam os intelectuais.

Por um lado, para Foucault, tudo na sociedade é disputa de poder, incluindo as ideias; ou melhor, o poder cria as ideias e as verdades: assim, não existe nenhuma verdade, existem apenas relações de poder, de força, de dominação. Aliás, é essa concepção que fundamenta as afirmações atuais de que virtualmente tudo é “socialmente construído” (ou seja, tudo é criado pela vontade caprichosa e pelas relações de poder).

Por outro lado, como o conhecimento é meramente o poder manifestando-se, Foucault era contrário a concepções amplas. Refugiando-se então em perspectivas específicas, conscientemente parciais e contrárias à visão de conjunto, Foucault defendia que o bom intelectual (pós-)moderno é um especialista que despreza (por estratégia e/ou convicção) as concepções amplas sobre o ser humano.

É claro que a reunião dessas duas características conduz ao particularismo, ou melhor, ao facciosismo: não é por acaso que Foucault é reconhecido como um dos inspiradores da política identitária.

Como dissemos antes, poderíamos apresentar outras concepções de intelectuais. As ideias de Durkheim, Bourdieu e Foucault (mas não somente as deles) foram comentadas porque são de sociólogos, ou seja, por pensadores que deveriam ser sensíveis tanto à ciência quanto à política do poder espiritual. Entretanto, nesses três casos (e em inúmeros outros) as teorias são erradas (ou falsas), e as consequências políticas são ruins (quando não desastrosas).

O que fica evidente disso tudo é que o delicado equilíbrio entre realidade teórica e responsabilidade política, em termos de atuação dos intelectuais, foi obtido logo no início da Sociologia, com as concepções de Augusto Comte. O retorno ao Positivismo é urgente.

Gustavo Biscaia de Lacerda é doutor em Sociologia Política e sociólogo da UFPR.

08 dezembro 2025

Monitor Mercantil: Intelectuais e vida coletiva – 1

No dia 6 de Bichat de 171 (8.12.2025) o jornal carioca Monitor Mercantil publicou um artigo de nossa autoria intitulado "Intelectuais e vida coletiva - 1". Esse artigo é o primeiro de uma série que abordará, nos próximos meses, a atuação pública e política dos chamados "intelectuais".

O original pode ser lido aqui: https://monitormercantil.com.br/intelectuais-e-vida-coletiva-1/.

Reproduzimos abaixo o texto.

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Pessoa com caderno e notebook (foto Unsplash).

Intelectuais e vida coletiva – 1

Quem são, qual o fundamento da sua ação, qual a sua situação institucional e para que servem os intelectuais? Por Gustavo Biscaia de Lacerda.


Um dos aspectos mais importantes em qualquer sociedade é a atuação dos intelectuais. Mas, ao mesmo tempo em que é importante, essa atuação é cada vez mais confusa e incompreendida, tanto da parte da sociedade quanto dos governos quanto, para piorar muito mais, da parte dos próprios intelectuais.

Qualquer pessoa que lê livros de história, sociologia, filosofia – ou melhor, qualquer pessoa que acompanhe os jornais diários percebe que as disputas políticas, as brigas intelectuais, as modas acadêmicas alteram profundamente a atuação dos intelectuais.

No dia a dia, o que vemos é esta verdadeira mixórdia:

  1. Quem são os intelectuais? Jornalistas, filósofos, professores, pesquisadores universitários, pesquisadores independentes, padres, pastores, pais/mães de santo, gurus, autores de autoajuda, influenciadores, agentes do governo? São pessoas que atuam isoladamente, que representam organizações, que falam em nome de corporações?
  2. Qual o fundamento da ação dos intelectuais? São pessoas que falam por inspiração divina, que falam ao incorporarem espíritos, que falam ao consumirem drogas alucinógenas, que falam como pesquisadores das ciências naturais, que falam como pesquisadores das ciências humanas, que falam como filósofos, que falam como líderes comunitários, que falam porque são pagos por jornais, que falam porque o governo manda, que falam porque estão em partidos políticos?
  3. Para que servem os intelectuais? Para explicar aspectos da realidade, para explicar a vida após a morte, para explicar a ira divina, para justificar a ordem social, para criticar a ordem social, para propor a revolução, para propor o retorno à ordem antiga, para justificar as ações de políticos e de governos, para aumentar a erudição pessoal, para disseminar o conhecimento, para estimular o amor, para estimular o ódio?
  4. A situação institucional dos intelectuais importa ou não? Um filósofo escondido nos confins do país tem a mesma “relevância” de quem é pago pelos principais jornais (impressos e da TV) para dar suas opiniões ou que os professores universitários das grandes universidades do Sudeste do Brasil?

Em meio a essa confusão – queremos evitar a palavra “caos” –, os chamados intelectuais atuam e influenciam. É importante, assim, entendermos um pouco o que eles são e como atuam – especialmente porque, como o parágrafo acima sugere, essas questões não são nada evidentes. Vale a pena dedicarmos alguns artigos desta coluna a essa questão.

O aspecto fundamental é: para que servem os intelectuais? A bem da verdade, não dá para responder a essa questão sem que se considere as várias sociedades envolvidas. Diferentes sociedades têm diferentes grupos de intelectuais, que atuam de diferentes maneiras. Apesar disso, ainda assim, todos precisamos de um conceito geral e básico, que permita começar a organizar a barafunda de possibilidades que vivemos hoje.

De nada nos serve pura e simplesmente afirmar a diversidade concreta de possibilidades de atuação dos intelectuais e achar que isso basta: se não tivermos uma clareza mínima nas ideias, o entendimento da realidade será pobre e, daí, nossas ações serão confusas e prejudiciais. (Aliás, isso já sugere algumas das funções dos intelectuais: explicar a realidade, organizar as ideias e permitir a orientação das condutas práticas.)

Para esse conceito mínimo dos intelectuais, a referência obrigatória nesse caso – como em inúmeros outros, aliás – é Augusto Comte, não por acaso o fundador da Sociologia. Para Comte, todas as sociedades se caracterizam por alguns elementos, que ele resume em número de cinco, ou melhor, seis: família, linguagem, propriedade, religião e governo; o governo desdobra-se em governo temporal e poder espiritual.

Para evitar confusões: a religião aqui tem que ser entendida como a regulação geral da existência humana; assim, ela não pode ser confundida com a teologia (que é só uma forma específica e transitória de religião). Já a propriedade, por seu turno, é a base material das sociedades, de modo que engloba a produção e a reprodução econômica e a organização social que se divide na força concentrada (com os chefes industriais) e a força dispersa (com os proletários).

Mas o que nos interessa é o governo: ele serve para impor à sociedade os rumos julgados mais importantes pelo conjunto da sociedade, o que equivale dizer que é a reação da sociedade sobre os indivíduos. Dessa forma, para Comte não existe sociedade sem governo (assim como, inversamente, não existe governo sem sociedade).

Há duas possibilidades gerais de atuação do governo: via força física, de maneira objetiva, e via aconselhamento, de maneira subjetiva. No primeiro caso nós temos o governo propriamente dito, também conhecido como Estado; é o que A. Comte chamava de “poder temporal”, que se impõe em última análise pela força física, isto é, pela violência legítima. Já o governo que se baseia no aconselhamento é o “poder espiritual”; ele convence as pessoas, a partir da educação, das ideias e dos valores compartilhados. É nele que atuam principalmente os “intelectuais”.

Como os fundamentos da atuação de cada um desses poderes são diferentes, convém que os responsáveis por eles estejam separados. É claro que há uma convergência geral nessas atuações, no sentido de que esses poderes visam a orientar a sociedade e os indivíduos; mas os resultados sobre os indivíduos e a sociedade são diferentes.

O Estado age de maneira objetiva e constrange os corpos; dessa forma, não lhe interessa se os indivíduos gostam ou não das decisões, se concordam ou não com elas: o que importa é que obedeçam e respeitem as decisões. (É claro que o Estado não pode desprezar a aceitação individual das decisões; mas, em última análise, caso necessário, ele imporá as decisões a despeito das vontades individuais.)

Como o poder espiritual aconselha a partir de ideias e valores compartilhados pela educação, a dignidade individual está subentendida aí: para que alguém seja convencido de algo, ele deve ter autonomia para isso, o que implica tempo e decisão individual.

Diversidade de meios, mas ação sobre as mesmas pessoas: o Estado e o poder espiritual podem ficar juntos ou separados. Ao longo da história, a sua união foi a regra, seja nas teocracias, seja no cesaropapismo; mas nos últimos dois séculos a sua separação é cada vez mais valorizada, no que se chama vulgarmente de “laicidade do Estado”. Isso será comentado na próxima coluna.

Gustavo Biscaia de Lacerda é doutor em Sociologia Política e sociólogo da UFPR.

26 novembro 2025

Monitor Mercantil: Cancelamento do Positivismo, da academia à bandeira

No dia 21 de Frederico de 171 (25.11.2025) o jornal carioca Monitor Mercantil publicou o nosso artigo "Cancelamento do Positivismo: da academia à bandeira nacional".

Aliás, considerando o tema desse artigo, devemos manifestar aqui o nosso profundo agradecimento pelo jornal Monitor Mercantil, que há cerca de um ano e meio abriu-nos as portas para que, contra o cancelamento do Positivismo, pudéssemos manifestar nossas opiniões.

Reproduzimos abaixo o texto. O original está disponível aqui: https://monitormercantil.com.br/cancelamento-do-positivismo-da-academia-a-bandeira-nacional/.

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Bandeira do Brasil - Ordem e Progresso (foto de André Maceira, CC).


Cancelamento do positivismo: da academia à bandeira nacional

A regra sobre o positivismo é o cancelamento, que começa na academia e descamba para a política prática. Por Gustavo Biscaia de Lacerda.


Em diversas ocasiões apresentamos nesta página reflexões a partir do positivismo, às vezes fazendo comentários sobre ele. Desta vez temos que comentar diretamente o tratamento dispensado ao positivismo – que, para usar uma gíria atual, consiste em um cancelamento sistemático, que começa nas universidades e rapidamente descamba para a política prática.

Antes de mais nada, lembremos que o positivismo é uma das mais importantes filosofias, políticas e religiões; tratar dele – e com honestidade! – não é questão de gosto ou preferência pessoal ou filosófica. Ele é referência básica quando se trata de ciências humanas, e é impossível tratar da história do Brasil sem que se refira também a ele.

Além disso, a filosofia, a política e a religião criada por Augusto Comte afirma com todas as letras o pacifismo, a fraternidade universal e o universalismo de vistas, bem como o caráter social da República e o respeito digno e escrupuloso com os grupos sociais frágeis. Assim, deveria ser evidente que o positivismo seja lido e ouvido, pelo menos para que a discordância com ele seja baseada no efetivo conhecimento; mas com ele ocorre o clássico “não conheço, não li e não gosto”.

No ambiente acadêmico há um senso comum crítico que afirma que nada é puramente intelectual, havendo também sempre interesses políticos e sociais envolvidos. Essa ideia tem graves problemas intelectuais e políticos, mas ela torna-se bastante evidente quando é posta em prática por pesquisadores que fazem questão dela.

Os livros de coletâneas revelam em particular esses aspectos. As coletâneas têm várias utilidades; fiquemos com indicar os temas que devem ser abordados (que “prestam”) e quais os autores autorizados a falar do que quer que seja (que merecem ter prestígio).

Consideremos três cientistas sociais brasileiros consagrados: Lília Schwarcz, Celso Castro e Christian Lynch. Nos últimos 15 anos, cada um deles organizou numerosas coletâneas: Schwarcz organizou Um enigma chamado Brasil, Dicionário da República, Agenda brasileira, Cidadania: um projeto em construção; Castro organizou Além do cânone, Textos básicos de sociologia, Introdução às ciências sociais; Lynch organizou Interpretações do Brasil, Pensamento político brasileiro, Visões da independência.

Poderíamos citar outros pesquisadores; mas esses três conjugam a intensa atividade acadêmica com o profundo conhecimento teórico e empírico – incluindo sobre o positivismo.

Em face da importância intelectual e prática do positivismo, esses dez livros com uma profusão de autores e temas deveriam apresentar muitas referências a Comte, Benjamin Constant, Teixeira Mendes, Ivan Lins, Pereira Barreto, Laffitte, Rondon etc., bem como sobre republicanismo, bandeira nacional, filosofia das ciências, teoria do Brasil, abolição, trabalhismo, indigenismo etc. Aliás, não apenas “referências”, mas artigos e capítulos dedicados a isso. Ora, não há nada nesses livros que se refira ao positivismo. Nada.

Apesar da importância do positivismo para as ciências humanas e para a história do Brasil, os organizadores das coletâneas acima decidiram, de maneira muito consciente, que o positivismo não merece ser tratado ou abordado, assim como pesquisadores positivistas não merecem a dignidade de integrar coletâneas. Não se pode dizer que essas ausências se devam à ignorância dos organizadores; com certeza eles rejeitariam ser tratados como ignorantes.

Se a ciência não é apenas intelectual, mas tem profundos aspectos políticos, as decisões dos três pesquisadores acima são motivadas não somente por preferências filosóficas, mas também por interesses políticos. Ausência de referências, impossibilidade de manifestação, silenciamento de perspectivas: isso tem efeitos intelectuais e práticos. Por meio das coletâneas acima, decidiu-se que o positivismo não deve ser conhecido nem ouvido: ele não pode existir. Segundo a gíria identitário-digital, trata-se do mais puro cancelamento.

Essas práticas acadêmicas têm consequências políticas muito diretas e palpáveis. A mais recente consiste no Projeto de Lei 5.883/2025, de autoria do deputado federal Chico Alencar, protocolizado no dia 18 de novembro, em que o carioca propõe que se mude a bandeira nacional, incluindo a palavra “Amor” antes do “Ordem e Progresso”.

A proposta do deputado Alencar é generosa e, considerando a nossa agressiva época, faz sentido e até merece apoio. Na verdade, há vários anos, Alencar se manifesta nesse sentido, integrando um “Movimento Amor na Bandeira”.

Esse grupo refere-se ao positivismo, a Augusto Comte, a Teixeira Mendes; mas muitas das observações que eles fazem sobre o positivismo e os positivistas estão erradas, ao mesmo tempo em que se recusam a ouvir os positivistas. Repetem erros sobre uma doutrina e de seus praticantes, justamente em aspectos centrais para a vida e a prática política do país, mas recusam-se a ouvir alguns dos diretamente envolvidos. A inclusão do “Amor” talvez dê prestígio e votos, mas não impede o cancelamento.

Sem entrar no mérito da questão, Alencar e seu movimento difundem conscientemente dois erros:

  • 1) o “Ordem e Progresso” seria uma corrupção da máxima fundamental do positivismo, “O amor por princípio e a ordem por base; o progresso por fim”;
  • 2) o autor da bandeira, Raimundo Teixeira Mendes, ao resumir a fórmula completa, teria suprimido o “amor” por medo dos militares que proclamaram a República.

Esses dois erros fazem uma barafunda de muitas coisas ruins e algumas boas: ignorância sobre o positivismo e os positivistas; ignorância sobre a Proclamação da República, seus membros, seus ideais; mistificação sobre a monarquia; rejeição ao militarismo (em particular ao de 1964).

É claro que a frase “O amor por princípio…”, sendo filosófico-moral, é mais densa e profunda que o simples “Ordem e progresso”. Entretanto, o “Ordem e progresso” não é um resumo da outra frase, tendo existência por si só, ao representar ideais sociopolíticos. Estreitamente vinculadas, elas têm âmbitos diferentes e, daí, redações diferentes, relativas a situações diferentes. O “Ordem e progresso”, portanto, não é uma corrupção teórica.

Por outro lado, quando ocorreu a Proclamação da República, Teixeira Mendes projetou por si só uma bandeira que foi depois encaminhada ao governo provisório republicano por Benjamin Constant; como este era uma pessoa gentil, pacífica, convergente e extremamente respeitada, a proposta de Teixeira Mendes foi aceita. Portanto, nada de um covarde submetido a brucutus em meio a uma quartelada.

Como positivista, a difusão consciente desses erros causa-me irritação e tristeza. Mas como cidadão brasileiro tenho a sensação de que uma proposta simpática, que poderia suscitar uma boa reflexão e estimular bons sentimentos, apresenta vícios morais e intelectuais bem em sua origem e que traem a intenção da proposta.

Silenciamento, recusa em reconhecer os outros, recusa em ouvir aqueles de quem se fala… no que se refere ao positivismo, como se vê, a regra é o cancelamento, que começa na academia e que, da pior maneira possível, descamba para a política prática.

Gustavo Biscaia de Lacerda é doutor em Sociologia Política e sociólogo da UFPR.