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29 abril 2026

Sentimentos e inteligência dos animais

No dia 6 de César de 172 (28.4.2026) realizamos nossa prédica positiva, dando continuidade à leitura comentada do Apelo aos conservadores (em sua Terceira Parte - Conduta dos positivistas em relação aos revolucionários).

No sermão abordamos o tema dos sentimentos e da inteligência dos animais.

A prédica foi transmitida nos canais Positivismo (https://youtube.com/live/W9irV_EM0Nw) e Igreja Positivista Virtual (https://www.facebook.com/IgrejaPositivistaVirtual/videos/1632693707946642).

As anotações que serviram de base para a exposição oral encontram-se reproduzidas abaixo.

*   *   *

Os animais pensam (e sentem)?

(6 de César de 172/28.4.2026) 

1.     Abertura da prédica

2.     Datas e celebrações

2.1.   23 de abril a 20 de maio: mês de César – quinto mês do ano, a civilização militar

2.2.   Dia 2 de César (24.4): nascimento de Jean-François Eugène Robinet (1825 – 201 anos)

3.     Pesar pelo episódio lamentável em que o Guardião do Templo da Humanidade do Rio Grande do Sul, Érlon Jacques de Oliveira, sofreu várias facadas no dia 1º de César (23.4)

3.1.   As facadas foram dadas pelo filho da locadora do imóvel que fica nos fundos do terreno da Igreja Positivista do Rio Grande do Sul

3.2.   Tendo sido atingido no abdômen, Érlon foi para o hospital, internado na UTI e, no momento em que escrevemos, encontra-se em boas condições

4.     Leitura comentada do Apelo aos conservadores

5.     Exortações

5.1.   Sejamos altruístas!

5.2.   Façamos orações!

5.3.   Como Igreja Positivista Virtual, ministramos os sacramentos positivos a quem tem interesse

5.4.   Para apoiar as atividades dos nossos canais e da Igreja Positivista Virtual: façam o Pix da Positividade! (Chave Pix: ApostoladoPositivista@gmail.com)

6.     Sermão: os animais pensam (e sentem)?

6.1.   O sermão desta semana foi motivado por uma conversa com o Eugênio Macedo há algumas semanas, em que ele perguntou de fato se os animais pensam e sentem

6.1.1. Assim, este sermão baseia-se em algumas postagens do blogue, seja sobre os sentimentos dos animais, seja sobre as críticas de Augusto Comte às metafísicas psicológico-ideológicas

6.1.2. O grosso das reflexões baseia-se no último capítulo do v. 3 da Filosofia positiva de nosso mestre, publicado em 1838; esse volume foi dedicado ao exame da Biologia e esse capítulo em particular tem por título “Considérations générales sur l’étude positive des fonctions intellectuelles et morales, ou cérébrales”, isto é, “Considerações gerais sobre o estudo positivo das funções intelectuais e morais, ou cerebrais”

6.1.3. Além desse capítulo, basear-nos-emos em vários capítulos e volumes da Política positiva (publicados entre 1851 e 1854), especialmente o v. 1, cap. 3 – publicado em 1851, cujo título é “Introduction directe, naturellement syntéthique, ou Biologie” (“Introdução direta, naturalmente sintética, ou Biologia”)

6.1.4. As indicações que faremos neste sermão não têm a pretensão de esgotar o assunto; o que desejamos fazer é apenas (1) afirmar a realidade, que deveria ser evidente, de que os animais têm, sim, sentimentos e inteligência e (2) apresentar os argumentos históricos, filosóficos e biológicos que comprovam essa concepção

6.2.   A questão dos sentimentos e da inteligência dos animais é fundamental, (1) para entendermos o mundo, (2) para entendermos o ser humano, (3) para entendermos os animais e (4), por fim, para regularmos a ação humana no mundo

6.2.1. Para além da importância intelectual e filosófica, é impressionante o quanto a questão dos sentimentos e da inteligência dos animais desperta interesse – e, mais do que isso, entre os positivistas ela desperta vivas simpatias

6.3.   Sobre a inteligência dos animais, antes de mais nada temos que lembrar que aquilo que chamamos de “inteligência”, na verdade, é a combinação de vários fatores e elementos

6.3.1. Em primeiro lugar, o ser humano não existe como ser vivo isolado; ele não surgiu “pronto”

6.3.1.1.          Nós somente somos o que somos porque consistimos no grau máximo de uma evolução que aconteceu antes de nós

6.3.1.2.          Em outras palavras, os atributos que o ser humano apresenta são necessariamente compartilhados pelos animais superiores (o que abrange principalmente os mamíferos e as aves): a diferença é de grau, não de qualidade

6.3.2. Em segundo lugar, o entendimento que temos da realidade baseia-se nas relações (no “comércio”, como se dizia) entre os impulsos externos objetivos e o funcionamento interno subjetivo

6.3.2.1.          Como dizia Leibniz e como nosso mestre estabeleceu na Filosofia Primeira (quarta lei), “não existe nada na inteligência que não provenha dos sentidos, exceto a própria inteligência”[1]

6.3.2.2.          O que chamamos de “subjetividade” apresenta inúmeros sentidos, todos eles inter-relacionados, mas distintos: (1) sentimentos, (2) funcionamento cerebral autônomo, (3) sensibilidade neurológica interna, (4) imaginação, (5) valores e práticas sociais compartilhados – e (6) a chamada “inteligência”

6.3.2.3.          Novamente: é da relação entre os impulsos do ambiente com a atividade de cada ser vivo que se desenvolve a subjetividade e, a partir daí, os sentimentos e a inteligência. Dito de outra forma, a subjetividade desenvolve-se em parte em resposta ao ambiente, ou seja, ela é “adequada” ao ambiente

6.3.2.3.1.              Reiterando o que dissemos acima: isso é válido para os animais superiores e, portanto, para o homem; nada existe no ser humano que já não exista antes nos animais superiores

6.3.3. A partir da interação entre o ambiente objetivo e o corpo subjetivo, temos que o ser humano e os animais superiores são movidos por três lógicas, isto é, por três conjuntos de grandes princípios: os sentimentos, as imagens e os sinais

6.3.3.1.          A bem da verdade, só os sentimentos são “motores”; as imagens e os sinais são instrumentos para entendermos a realidade e, a partir disso, para agirmos

6.3.3.2.          A divisão que fazemos entre sentidos/sentimentos e inteligência é necessária (na medida em que são habilidades distintas entre si), mas, a bem da verdade, esses dois elementos correspondem um sistema único de interação recíproca do organismo com o ambiente, em que os corpos sentem a pressão externa, avaliam-na e (re)agem sobre ela

6.3.4. O resultado das indicações acima é que a inteligência, então, corresponde ao entendimento que se tem da realidade para atuar nela

6.3.4.1.          Não se trata de raciocínios lógico-matemáticos nem de pesquisas de laboratório – embora, em um sentido muito, muito, muito amplo, possa ser chamado de “conhecimento científico”

6.3.5. Por fim, além disso, nem os animais superiores nem o ser humano atuam de maneira mecânica, com automatismos

6.3.5.1.          A nossa subjetividade e o funcionamento interno autônomo existem de verdade e permitem-nos entendermos a realidade, termos vontades próprias, refletirmos sobre o que existe e, a partir daí, agirmos

6.3.5.2.          Nos animais superiores, é tão real a ausência de automatismos, por um lado, e a realidade dos sentimentos e da inteligência, por outro lado, que eles brincam e sentem o tédio

6.3.5.2.1.              Nosso mestre em uma passagem da Filosofia positiva assinala o tédio animal e, em outra passagem da Política positiva, nota que os leões enjaulados ficam deprimidos:

[...] Uma verdadeira disciplina afetiva, que deve sempre ser livre para tornar-se plenamente eficaz. É fácil senti-lo comparando o estado moral de um cão doméstico com o de um leão cativo. Quando uma longa experiência inspira ao segundo uma passiva resignação, a unidade moral não existe absolutamente nele: ele flutua sem cessar entre uma luta indefesa e um ignóbil torpor. Ao contrário, o desenvolvimento afetivo do primeiro torna-se direto e contínuo tão logo ele pode subordinar seus pendores egoístas a seus instintos simpáticos (Política, v. II, p. 15)[2]

6.4.   Resumindo e insistindo em três idéias gerais:

6.4.1. O ser humano não existe à parte da realidade (em particular, no presente caso, da realidade biológica): nós somos apenas o desenvolvimento máximo de um processo evolutivo que compartilhamos com os animais superiores;

6.4.2. Nós (“nós” = seres humanos e animais superiores) vivemos em interação com o ambiente, combinando a dinâmica interna autônoma com as pressões do ambiente, ao mesmo tempo em que exercemos pressão sobre o ambiente;

6.4.3. Os sentimentos são os motores internos e a inteligência é um instrumento de que nos valemos para conhecer o ambiente e agir sobre ele

6.5.   É importante afirmarmos com todas as letras que a rejeição dos sentimentos e da inteligência dos animais tem origem teológica, é repetida pelos metafísicos e continua valendo hoje em dia, sob os mais diferentes nomes e rótulos

6.5.1. Em termos teológicos, para os judeus e os cristãos o mundo foi criado à parte do ser humano, para usufruto do ser humano; o “sopro da vida” e o Verbo são exclusivos do ser humano

6.5.1.1.          A combinação do sopro da vida com o Verbo corresponde à “alma”, que se torna exclusiva dos seres humanos

6.5.1.2.          Em conseqüência disso, os teológicos judaico-cristãos dizem, literalmente, que os animais não têm “alma” (mas têm “um tipo de consciência”)

6.5.1.3.          É claro que, como de modo geral ocorre com a teologia, a sabedoria prática do sacerdócio com freqüência suplantou (como suplanta) os preconceitos teóricos, como nos belos exemplos de São Francisco de Assis e, mais recentemente, do Papa Francisco

6.5.2. Entre os metafísicos, essa tolice é compartilhada seja pelos materialistas, seja pelos espiritualistas; os primeiros a partir da hipótese mecanicista de Descartes, os segundos a partir mais clara e diretamente dos preconceitos teológicos

6.5.2.1.          A referência a Descartes não é para desvalorizarmo-lo: em seu esforço para positivar as concepções humanas, ele não tinha como não ser metafísico (fosse mecanicista em relação aos animais, fosse espiritualista a respeito do ser humano)

6.5.2.1.1.              Se Descartes não tinha como não ser metafísico, coisa muito diferente ocorre com os pensadores que vieram após ele, especialmente depois das pesquisas de Bichat, Gall e Augusto Comte, do século XIX em diante

6.5.2.2.          A metafísica mecanicista é exemplificada pelo comportamentalismo de Skinner, para quem os animais não têm subjetividade (ou não têm de fato ou agem como se não tivessem)

6.5.2.3.          O espiritualismo metafísico, de origem mais claramente teológica, é evidente entre os neokantianos alemães (Max Weber e seus êmulos), para quem há uma separação radical entre o ser humano e a natureza, incluindo aí os animais; o traço distintivo do ser humano para eles é a “cultura”, isto é, a subjetividade e a inteligência: essas concepções são versões um pouco secularizadas do mito judaico-cristão da criação do mundo em seis dias e da exclusividade humana do sopro e do Verbo

6.5.3. Como falamos em “alma”, algumas rápidas observações são necessárias:

6.5.3.1.          A concepção teológico-metafísica da alma, evidentemente, é apenas uma ficção sobrenatural: não existe essa coisa etérea, fumacenta, incorpórea, que entra nos corpos e fá-los moverem-se (e que, ainda por cima, atribui-se a ela a condição de participação na/da divindade!)

6.5.3.2.          A concepção positiva de alma consiste no conjunto das funções do cérebro, desenvolvidas ao longo do tempo primeiramente em termos biológicos e, no caso do ser humano, depois e principalmente em termos sociológicos e morais

6.5.3.3.          A concepção positiva de alma rejeita, por ser irracional e imoral, a pretensa divisão teológico-metafísica entre moralidade e “espiritualidade”

6.6.   O que comentamos até agora evidentemente combina vários elementos filosóficos e científicos: as reflexões de Augusto Comte a respeito da metafísica psicológico-ideológica, os resultados da neurociência, reflexões sobre a evolução humana, reflexões sobre as relações do ser humano (e, de modo mais amplo, dos seres vivos) com o ambiente, as leis de Filosofia Primeira, as reflexões sobre a subjetividade (sobre os sentimentos, sobre a inteligência, sobre o desenvolvimento histórico das idéias, sobre a imaginação)

6.6.1. Devemos notar que consideramos apenas a Biologia, deixando de lado a Sociologia, ou seja, o desenvolvimento histórico-sociológico das idéias e da autonomia da subjetividade: isso exigiria muitos mais comentários, cuja importância seria, além disso, um tanto indireta

6.7.   O trecho abaixo de Augusto Comte, escrito em 1838, é cristalino e, se tivesse sido levado mais a sério, teria evitado nos últimos 200 anos uma quantidade enorme de erros, mal-entendidos e más ações:

A palavra instinto não possui, em si mesma, outro sentido fundamental senão o de designar todo impulso espontâneo em uma direção determinada, independentemente de qualquer influência externa; nesse sentido primitivo, aplica-se evidentemente à atividade própria e direta de qualquer faculdade, tanto das faculdades intelectuais quanto das afetivas. Ela não se opõe, portanto, de modo algum ao termo inteligência, como se observa quando se fala daqueles que, sem qualquer educação, manifestam um talento pronunciado para a música, a pintura, a matemática etc. Sob esse ponto de vista, há certamente instinto – ou melhor, instintos – tanto e mesmo mais no homem do que nos animais. Se, por outro lado, caracterizarmos a inteligência pela aptidão de modificar a própria conduta conforme as circunstâncias de cada caso – o que constitui, de fato, o principal atributo prático da razão propriamente dita – torna-se ainda evidente que, sob esse aspecto, assim como sob o anterior, não há motivo para estabelecer, entre humanidade e animalidade, qualquer diferença essencial além daquela de grau mais ou menos desenvolvido de uma faculdade que é, por sua natureza, comum a toda vida animal e sem a qual não se poderia sequer conceber sua existência.

6.8.   Os animais devem ser valorizados e respeitados

6.8.1. Este sermão aborda os sentimentos e a inteligência dos animais – que, como vemos, são atributos necessariamente compartilhados pelos seres humanos com (em particular) os animais superiores e as aves

6.8.1.1.          O que queríamos apresentar hoje já foi apresentado; ainda assim, cremos que vale a pena expor uma ou duas reflexões adicionais, em particular no sentido de indicar que a Religião da Humanidade valoriza efetiva e necessariamente os animais

6.8.2. A primeira indicação adicional consiste em que os animais correspondem não somente a nossos companheiros de destino no planeta, mas também são nossos auxiliares – e, por isso, merecem mesmo respeito e dignificação

6.8.2.1.          O filme “Sempre ao seu lado” (dirigido por Lasse Hällstrom, de 2009) apresenta a grata e alegre devoção de um cachorro por seu dono, mesmo e principalmente após a transformação desse dono

6.8.2.1.1.              O filme é ambientado nos Estados Unidos dos anos 2000, mas a história original, que inspirou o filme, ocorreu no Japão dos anos 1920: o cachorro original recebeu uma estátua lá

6.8.2.2.          O trecho abaixo de nosso mestre é decisivo a respeito das possíveis homenagens que os animais podem receber da Humanidade:

“A propósito da incorporação dos animais: ‘A objeção principal de vossa primeira carta merece mais atenção, posto que eu pense também que a mesma leitura (isto é, do 4.° vol. da Política Positiva) vai em breve dissipá-la. Talvez, que ela me determine a pôr uma explicação especial sobre esse tópico, em caso de nova edição do Catecismo Positivista. Importa que o positivismo reerga os animais associáveis do desdém inspirado pelo monoteísmo, sobretudo ocidental; porquanto o islamismo acha-se, a este respeito, como a muitos outros, muito mais próximo do estado normal. Mas não creio que isso possa nunca fazer com que alguém receie qualquer assimilação degradante dos servidores diretos do Grande Ser ao seus auxiliares indiretos. Todas as honras merecidas por estes são ordinariamente privadas, mesmo em seus serviços. Contudo, eles podem excepcionalmente obter uma glorificação pública, em caso de devotamento eficacíssimo para com um digno servidor. Vossa respeitosa advertência faz-me ver a necessidade de não deixar implícito semelhante esclarecimento num opúsculo destinado naturalmente a leitores que, em sua maioria, não conhecerão o principal tratado’ (Lettres à Hutton, p. 43.)” (Catecismo positivista, Nota de Miguel Lemos à Quarta Conferência, 1934, 4ª ed., p. 467-468)

6.8.3. Além disso, assim como o ser humano tornou-se a espécie preponderante no planeta (devido ao seu intenso aspecto social), se nós não existíssemos, ou se tivéssemos sido extintos, alguma outra espécie ter-se-ia tornado dominante: essa outra espécie pode ser entendida como uma outra Humanidade, mas abortada:

“Porém o conjunto dos animais suscetíveis de formarem uma verdadeira série nos oferecerá sempre um profundo interesse abstrato, para esclarecermos o estudo geral de todas as nossas funções inferiores, acompanhando cada uma delas em sua simplificação e complicação graduais. A humanidade não constituindo, no fundo, senão o principal grau da animalidade, as mais elevadas noções da sociologia, e mesmo da moral, encontram necessariamente na biologia seu primeiro esboço, para os espíritos verdadeiramente filosóficos que sabem apanhá-las aí. Nossa concepção teórica mais sublime se torna, assim, mais apreciável, quando se considera cada espécie animal como um Grande Ser mais ou menos abortado, em virtude da inferioridade de sua própria organização e do surto do predomínio humano. Porque a existência coletiva constitui sempre a tendência necessária da vida de relação que caracteriza a animalidade. Mas este resultado geral não pode, sobre um mesmo planeta, desenvolver-se assaz senão em uma só das espécies sociais” (Catecismo positivista, Sétima Conferência, 1934, 4ª ed., p. 236-237)[3]

6.9.   Em suma:

6.9.1. Retomamos e reafirmamos mais uma vez três idéias gerais:

6.9.1.1.          O ser humano não existe à parte da realidade: nós somos apenas o desenvolvimento máximo de um processo evolutivo que compartilhamos com os animais superiores

6.9.1.2.          Nós (seres humanos e animais superiores) vivemos em interação com o ambiente, combinando a dinâmica interna autônoma com as pressões do ambiente, ao mesmo tempo em que exercemos pressão sobre o ambiente

6.9.1.3.          Os sentimentos são os motores internos e a inteligência é um instrumento de que nos valemos para conhecer o ambiente e agir sobre ele

6.10.               A desvalorização dos animais é principalmente devida à teologia (em particular a cristã), que separa radicalmente o ser humano dos animais, a partir da crença fictícia na “alma”

6.10.1.   A partir da crença na “alma”, a teologia degrada-se na metafísica, que, por sua vez, continua desvalorizando os animais, seja na metafísica materialista (com o mecanicismo), seja na metafísica espiritualista (com a secularização direta da teologia, resultando em concepções como o “Espírito”)

7.     Término da prédica

 

Referências

- Auguste Comte (franc.), Síntese subjetiva (Paris, Exécution Téstamentaire d’Auguste Comte, 2ª ed., 1900): https://archive.org/details/lasynthsesubjec00comtgoog.

- Augusto Comte (franc.), Sistema de filosofia positiva (Paris, Bachelier, 1838), v. 3, 45e leçon (“Considérations générales sur l’étude positive des fonctions intellectuelles et morales, ou cérébrales”).

- Augusto Comte (franc.), Sistema de política positiva (Paris. J.-B. Baillière, 4ª ed., 1880): https://archive.org/details/systmedepoliti01comt.

- Augusto Comte (port.), Apelo aos conservadores (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores.

- Augusto Comte (port.), Catecismo positivista (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 4ª ed., 1934).

- Gustavo Biscaia de Lacerda (port.), Afinal, os animais pensam (e sentem)? Filosofia Social e Positivismo, Curitiba, 8.abr.2026: https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2026/04/afinal-os-animais-pensam-e-sentem.html.

- Gustavo Biscaia de Lacerda (port.), Augusto Comte: metafísica psicológico-ideológica, inteligência dos animais e “observação interior”. Filosofia Social e Positivismo, Curitiba, 8.abr.2026: https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2026/04/augusto-comte-metafisica-psicologico.html.

- José Lonchampt (port.), Ensaio sobre a oração (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1896; catálogo da IPB, n. 165): https://archive.org/details/n.-165-jose-lonchampt-ensaio-sobre-a-oracao.

- Luís Lagarrigue (esp.), A poesia positivista (Santiago do Chile, 1890): https://archive.org/details/luis-lagarrigue-a-poesia-positivista-1890_202509.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), As últimas concepções de Augusto Comte (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-i e https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-ii.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), O ano sem par (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1900): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-o-ano-sem-par-portug._202312/page/n7/mode/2up.



[1] A quarta lei da filosofia primeira tem este enunciado: “Subordinar as construções subjetivas aos materiais objetivos (Aristóteles, Leibnitz, Kant)” (Augusto Comte. Catecismo positivista ou sumária exposição da Religião da Humanidade. 4ª ed. Rio de Janeiro: Apostolado Positivista do Brasil, 1934, p. 479).

[2] “[...] Une véritable discipline affective, qui doit toujours être libre pour devenir pleinement efficace. Il est aisé de le sentir en comparant l’état moral d’un chien domestique avec celui d’un lion captif. Quand une longue expérience inspire au second une passive résignation, l’unité morale n’existe point en lui : il flotte sans cesse entre une lutte impuissante et une ignoble torpeur. Au contraire, l’essor affectif du premier devient direct et continu aussitôt qu’il a pu subordonner ses penchants égoïstes à ses instincts sympathiques”.

[3] Ver também a Política positiva, v. IV, p. 222.

06 agosto 2025

Instituições positivistas próprias aos estadistas

No primeiro capítulo do Apelo aos conservadores (de 1855), intitulado “Primeira parte – doutrina apropriada aos verdadeiros conservadores”, Augusto Comte apresenta sete instituições próprias ao Positivismo e adequadas aos estadistas e àqueles a quem ele chama de “conservadores”. Essas instituições são apresentadas logo após a breve exposição de duas noções também próprias ao Positivismo: indicaremos abaixo todas elas, indicando a respectiva paginação na tradução brasileira do livro, de 1898, realizada por Miguel Lemos.

A tradução brasileira está disponível na internet aqui: https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores. Explicações sobre o Apelo podem ser lidas no blogue Filosofia Social e Positivismo nas postagens feitas a partir de 27 de novembro de 2024, começando por esta: https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2024/11/leitura-comentada-do-apelo-aos.html.

 


N.

Categorias gerais

Noção/instituição

1.                   

 

Sentidos da palavra “positivo”

2.                   

Resumos gerais 

(p. 25-30)

Noção moral de que a submissão é a base do aperfeiçoamento

 

3.                   

 

Supremacia dos sentimentos

4.                   

Condições fundamentais

(p. 30-35)

Relatividade completa

5.                   

 

Indivisibilidade da verdadeira síntese

6.                   

Princípio universal 

(p. 35-46)

Dogma da Humanidade

7.                   

 

Preponderância da moral

8.                   

Instituições características

(p. 46-55)

Separação dos dois poderes

9.                   

 

Dignidade da mulher

 


26 dezembro 2023

Augusto Comte: triplo ofício da arte e resumo da teoria positivista da arte


“A principal função da arte consiste sempre em construir os tipos de que a ciência fornece as bases. Ora, essa operação é sobretudo indispensável para a inauguração do novo regime. Quando a filosofia tiver elaborado suficientemente as suas diversas concepções essenciais, elas permanecerão ainda demasiadamente indeterminadas para bastarem ao seu destino prático. Afinal, o estudo sistemático do passado não pode fornecer-nos diretamente senão o caráter geral do porvir. Mesmo a respeito dos menores fenômenos, a determinação científica não poderia tornar-se completa sem ultrapassar os limites próprios à verdadeira demonstração. Nas pesquisas sociológicas, seus resultados devem então se manter mais abaixo do grau de plenitude, de clareza e de precisão que exigem noções destinadas à mais familiar universalidade. É então à poesia que convém preencher as inevitáveis lacunas da filosofia para inspirar a política. No começo do politeísmo, ela já realizou esse ofício natural em relação às criações imperfeitas da teologia sistemática. Pertence-lhe ainda mais completar uma apreciação objetiva em que a imaginação participa menos. Na conclusão geral deste discurso[1], eu indicarei mais essa indispensável função poética no tema da concepção central do Positivismo. O leitor poderá desde então estender a mesma explicação a todos os outros casos principais.

Para cumprir esse grande ofício, a arte positivista encontrar-se-á naturalmente conduzida a oferecer-nos quadros antecipados da regeneração humana, apreciada sob todos os aspectos suscetíveis de idealização. Essa será sua segunda cooperação geral para o impulso renovador, ao desenvolver sua participação inicial. No fundo, esse novo ofício reduz-se a regularizar as utopias, subordinando sempre a idealidade à realidade, como em toda outra composição poética. A liberdade especulativa que parece proporcionar-lhe a anarquia atual acaba restringindo bastante seu desenvolvimento efetivo, conforme os medos de divagação que ela inspira mesmo aos mais sonhadores, cujos espíritos não poderiam tornar-se insensíveis às necessidades comuns de harmonia mental. Mas, quando o domínio da imaginação limita-se em desenvolver e vivificar o da razão, os mais austeros pensadores sofrem de bom grado um encanto que, longe de alterar a realidade, não faz senão melhor sobressair sua principal característica, bem pouco determinada pela ciência. Assim, ao assinalar às utopias sua verdadeira destinação, o Positivismo estimulará bastante esse gênero moderno de composições poéticas, que, sob a inspiração sociológica, pode tanto concorrer para impulsionar o conjunto do povo ocidental em direção ao estado normal da humanidade. Os cinco modos estéticos[2] participarão todos desse salutar impulso, ao fazer-nos apreciar, antecipadamente, conforme a idealização própria a cada um deles, os encantos e a grandeza da nova existência, pessoal, doméstica e social.

Essa segunda assistência geral da arte na grande reconstrução suscitará naturalmente uma terceira, cuja necessidade não é menor hoje, para terminar de livrar [détacher] os ocidentais dos vãos destroços do passado que impedem de sentir o futuro. Bastará dar uma direção comparativa aos quadros antecipados que venho indicando. Depois do início da transição moderna, no século XIV, a arte é sobretudo desenvolvida sob uma intenção crítica[3], que entretanto convém pouco à sua natureza eminentemente sintética. Seu desenvolvimento orgânico pode então conciliar-se plenamente com a luta secundária que exige ainda a situação atual em relação às opiniões, e sobretudo os hábitos, que permanecem do regime caído ou da fase transitória. Essa comoção complementar, relativa às mais íntimas raízes do passado, alterará tanto menos a grande missão da arte positivista que ela realizar-se-á sem jamais exigir uma crítica direta. Nem em relação à teologia, nem somente quanto à metafísica, não termos doravante necessidade de nenhuma discussão, mesmo filosófica, e, com mais forte razão, poética. Tudo reduz-se agora a uma simples concorrência, o mais freqüentemente implícita, entre os modos opostos segundo os quais o catolicismo e os positivistas correspondem às mesmas necessidades morais e sociais. Ora, esse ofício assessório, cujas bases científicas já foram postas, é sobretudo da alçada da arte, pois que ele deve dirigir-se mais ao sentimento que à razão. Eu já indiquei o seu caso mais característico, no fim da quarta parte[4], para a nobre cooperação que reservava à minha santa colega[5] em relação à iniciação positivista de nossas duas populações meridionais[6], principalmente devida à intervenção estética das mulheres.

Nessa terceira função social, a nova poesia religará diretamente sua missão atual ao seu ofício final, ao idealizar o passado, como esta última o futuro. Afinal, o advento do Positivismo exige, a todos os respeitos, uma escrupulosa justiça em relação ao catolicismo. Longe de atenuar o mérito moral e político do regime próprio à Idade Média, a poesia, guiada pela filosofia, deverá inicialmente o glorificar dignamente, a fim de melhor caracterizar a superioridade necessária da ordem final. Ela constituirá, assim, o prelúdio de seu dever normal de reanimar o passado, cujo vínculo natural com o futuro deve tornar-se profundamente familiar, no interesse simultâneo da razão sistemática e do sentimento social.

Ainda que próximo, esse triplo ofício, por meio do qual a arte positivista inaugurará sua incorporação à ordem final, não poderá ser imediato, pois ele exige uma preparação filosófica que não foi ainda realizada, nem pelo público ocidental, nem por seus órgãos estéticos. A geração pacífica que começa, na França, a segunda parte da grande revolução, pode fazer livremente prevalecer o Positivismo, não somente entre os verdadeiros pensadores, mas também entre o povo parisiense encarregado dos comuns destinos do Ocidente, e mesmo entre as mulheres melhor dispostas. Elevada por esse impulso, a geração seguinte poderá então, antes do fim do século iniciado pela Convenção[7], completar espontaneamente essa inauguração mental e moral ao manifestar o novo caráter estético da humanidade regenerada.

 

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O conjunto desta quinta e última[8] parte representa diretamente a filosofia positiva como mais favorável que qualquer outra ao desenvolvimento contínuo de todas as belas-artes. Uma doutrina que chama a humanidade ao aperfeiçoamento universal deveria incorporar-se profundamente a especulações as mais próprias a desenvolver o nosso instinto da perfeição. Ela não os subordina ao estudo sistemático da realidade senão para fornecer à idealidade uma base objetiva, indispensável à sua consistência e à sua dignidade. Mas, assim constituídas, as funções estéticas convêm mais que as funções científicas, seja à natureza e ao alcance da nossa inteligência, seja sobretudo ao seu destino essencial, a organização da natureza humana; pois elas referem-se imediatamente ao princípio afetivo dessa sistematização. Após a cultura direta do sentimento, é a arte que pode habitualmente fornecer os melhores meios para tornar-nos ao mesmo tempo mais ternos e mais nobres.

Sua reação lógica deve mesmo aperfeiçoar nossa aptidão sistemática, ao familiarizar-nos cedo com as verdadeiras características de toda construção humana. A ciência pôde durante longo tempo preferir o regime analítico; ao passo que, mesmo em meio à sua anarquia, a arte visa sempre à síntese, objetivo necessário de todas as nossas contemplações. Quando, contra a sua natureza, ele trabalha para destruir, sua obra qualquer não se realiza ainda senão construindo. O gosto e o hábito das construções estéticas devem assim nos dispor a melhor construir sobre o solo mais refratário da realidade.

Por todos esses títulos, a arte, dirigida pelo sentimento, torna-se, para o Positivismo, a principal base da educação universal, em que a ciência não preside em seguida senão a uma indispensável sistematização objetiva. A vida ativa completa essa preponderância inicial ao imprimir um caráter mais estético que científico às funções regulares do poder moderador[9]. Os três elementos necessários da força moral[10] tornam-se assim os órgãos espontâneos da idealização, doravante inseparável da sistematização.

Uma tal fusão obriga os novos filósofos a sentir profundamente todas as belas-artes. Ainda que habitualmente passiva, essa aptidão deverá poder elevar-se, entre os principais dentre eles, à mais sublime atividade, nas idades de intermitência filosófica e de vivacidade poética. Sem esse difícil complemento, seu ofício não poderia obter o livre ascendente moral que comporta sua natureza e que exige sua destinação. O padre da Humanidade não desenvolverá sua superioridade necessária sobre o padre de Deus senão quando sua razão sistemática combinar-se dignamente com o entusiasmo do poeta comum como com a simpatia feminina e a energia proletária.”

 

Fonte: Augusto Comte. 1929. Aptitude estéthique du Positivisme. In: _____. Discours préliminaire sur l’ensemble du Positivisme[11]. 5e ed. Paris: Société Positiviste, p. 315-320. Tradução de Gustavo Biscaia de Lacerda.



[1] A referência é ao Discurso sobre o conjunto do Positivismo, de que o presente trecho integra o capítulo quinto e antepenúltimo. (Nota do tradutor.)

[2] Os cinco modos estéticos são, conforme o princípio de classificação (generalidade decrescente, particularidade crescente): poesia, música, pintura, escultura e arquitetura. (NT.)

[3] A palavra “crítica” é usada aqui no sentido de “destruidora”, “corrosiva”, conforme o sentido da “metafísica” para Augusto Comte. A esse respeito, cf. Gustavo Biscaia de Lacerda, “O Positivismo e o conceito de ‘metafísica’” (https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2011/03/o-positivismo-e-o-conceito-de.html).

[4] Referência ao capítulo quarto do Discurso preliminar sobre o conjunto do Positivismo, intitulado “Influência feminina do Positivismo”.

Talvez valha a pena indicarmos os títulos dos capítulos desse livro em sua edição de 1851, que é um verdadeiro “manifesto positivista” e uma exposição geral da doutrina e da religião:

- Preâmbulo geral

- Primeira parte: espírito fundamental do Positivismo

- Segunda parte: destinação social do Positivismo [, conforme sua conexão necessária com o conjunto da grande revolução ocidental]

- Terceira parte: eficácia popular do Positivismo

- Quarta parte: influência feminina do Positivismo

- Quinta parte: aptidão estética do Positivismo

- Conclusão geral do discurso preliminar [do discurso sobre o conjunto]: Religião da Humanidade

Os trechos entre colchetes referem-se aos subtítulos presentes na versão original do livro, publicada em 1848. (NT.)

[5] Referência a Clotilde de Vaux (1815-1846). (NT.)

[6] Referência à Espanha (e Portugal) e à Itália. (NT.)

[7] Referência à Convenção Nacional, fase da Revolução Francesa vigente entre 1792 e 1795, durante a qual, para Augusto Comte, após os momentos decisivamente destruidores do Antigo Regime próprios à Assembléia Nacional (1789-1792), desenvolveram-se os episódios mais progressistas da Revolução, em particular sob a liderança de Georges Danton (1759-1794). Evidentemente, o “século iniciado pela Convenção” é o século XIX. Sobre a avaliação positivista da Revolução Francesa e sobre o conceito de “estado normal”, bem como, de modo geral, para a filosofia positivista da história, cf. Augusto Comte, Catecismo positivista (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1934) e Apelo aos conservadores (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1899), além de Gustavo Biscaia de Lacerda, O momento comtiano (Curitiba, UFPR, 2019). (NT.)

[8] Augusto Comte refere-se ao capítulo quinto como sendo o “último”: é o último antes do capítulo final, intitulado “Conclusão geral” (e que, aliás, apresenta pela primeira vez os conceitos de “Humanidade” e de “religião da Humanidade”). (NT.)

[9] Referência ao poder Espiritual, que modifica a conduta de indivíduos e grupos via aconselhamento; ele contrapõe-se de maneira complementar ao poder Temporal, que modifica a conduta de indivíduos e grupos via coerção. Para mais detalhes, cf. os já citados Augusto Comte, Catecismo positivista e Apelo aos conservadores, além de Gustavo Lacerda, O momento comtiano. (NT.)

[10] Os três elementos componentes da força moral (isto é, do poder Espiritual) são: o sacerdócio, de caráter intelectual; o proletariado, de caráter prático; as mulheres, de caráter afetivo. Eles são abordados respectivamente nos capítulos dois, três e quatro do Discurso sobre o conjunto do Positivismo. (NT.)

[11] O Discurso sobre o conjunto do Positivismo foi originalmente publicado em 1848 e, com alterações tópicas, inserido em 1851 como apresentação geral do volume primeiro do Sistema de política positiva. (NT.)