O altruísmo é sempre apenas a satisfação do
puro egoísmo?
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Durante a prédica do dia 9 de Aristóteles de 170
(5.3.2024) retomamos inicialmente as máximas morais apresentadas por Augusto
Comte no início da décima conferência do Catecismo
positivista, dedicada ao regime privado
o Após
retomarmos a máxima positivista – “Viver para outrem” –, surgiu uma
interessante dúvida: as nossas ações
altruístas visam sempre a satisfazer o egoísmo dos outros?
o Essa
dúvida não apenas é intelectualmente interessante; ela também é moral e
praticamente importante, pois diz respeito a como realizamos o altruísmo e à
orientação subjetiva que damos às nossas ações
o Além
disso, é importante notar que, também do ponto de vista intelectual, essa
questão é central para o Positivismo, pois tem a ver com como descrevemos as
relações entre o altruísmo e o egoísmo de diferentes pessoas
o Assim,
mesmo repetindo vários temas e várias
observações que fizemos na semana passada e mesmo hoje, devido à importância central
do tema julgamos importante dedicar todo um sermão a ele
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Comecemos por lembrar as características da
nossa máxima “Viver para outrem”:
o Antes
de mais nada: a palavra “outrem” significa “outro”, ou “outros”
o A
fórmula positivista é superior à máxima antiga (“Agir com os outros como
gostaria de ser tratado”) e à medieval (“Amar o próximo como a si mesmo”)
§ Essas
duas máximas apresentam uma certa evolução, na medida em que passam da conduta
externa (na fórmula antiga) para a motivação subjetiva (fórmula medieval)
§ Entretanto,
como é bastante claro, essas duas fórmulas concentram-se no egoísmo: não se
trata de afirmar e realizar o altruísmo, mas apenas de satisfazer o egoísmo e
de mais ou menos regular o egoísmo alheio
§ Ambas
as fórmulas, e em particular a segunda, baseiam-se no amor divino, que é
especialmente egoísta, antissocial e anti-humano
o O
“viver para outrem” orienta a vida de cada um diretamente para o altruísmo
§ Lembrando
a máxima de Clotilde (“Que prazeres podem exceder os da dedicação?”), resulta
que a lei do dever é também a fórmula da felicidade
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Passemos ao que nos interessa hoje; comecemos
lembrando que o “viver para outrem” tem duas partes:
o O
“viver para outrem”, que consiste na
orientação altruísta do conjunto da vida humana e na definição de um critério
claro para definirmos todas as pequenas, médias e grandes decisões que temos
que tomar no dia a dia
§ É
nessa parte que consiste a lei do dever
o O
“viver para outrem”, que consiste em
que cada um de nós tem que estar vivo, e em boas condições de saúde física e
mental, para podermos dedicar-nos aos outros
§ Assim,
essa parte consiste em garantir que os agentes humanos existam e, portanto, ela
garante a satisfação do egoísmo de cada um
·
A esse respeito, nota Augusto Comte que a
orientação para o altruísmo não pode consistir na negação do egoísmo, com isso
indicando que não devemos autoflagelar-nos (e, ainda menos, não devemos
suicidar-nos)
§ A
satisfação do egoísmo, nesse sentido, portanto, consiste na condição objetiva
(e até subjetiva) para a realização do altruísmo
§ Entretanto,
é fundamental termos clareza de que essa
satisfação do egoísmo tem que se submeter à regra do dever, ou seja, ao
estímulo do altruísmo e à compressão do egoísmo
·
Sem tal entendimento, a fórmula torna-se
incoerente e imoral
·
A
satisfação do egoísmo subordina-se à realização do altruísmo; assim, tal
satisfação consiste em uma condição (para o altruísmo) e não de um objetivo em
si mesmo
·
A
felicidade que devemos buscar não consiste na satisfação egoísta de algo
abstrato chamado “felicidade”: a felicidade que devemos, e que podemos, buscar
consiste em nossa dedicação para os demais
·
Todas
as formas de hedonismo enquadram-se na satisfação do egoísmo por si só, mesmo
que sob o rótulo enganador de “felicidade pessoal”
o Em
outras palavras, o hedonismo é uma via egoísta e individualista – e, portanto,
ilusória – de busca da felicidade
o Lembramos
aqui o caráter profundamente egoísta do hedonismo porque ele é uma característica
das sociedades ocidentais contemporâneas
§ As
sociedades ocidentais assim combinam o estímulo sistemático de inúmeras formas
de egoísmo e individualismo com o estímulo ao desejo de consumo (na maior parte
das vezes de produtos e serviços inúteis), em algo que, adotando a terminologia
metafísica do marxismo, poderíamos chamar de “capitalismo hedonista”
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Enfrentemos, agora, a pergunta inicial: as nossas ações altruístas visam sempre a
satisfazer o egoísmo dos outros?
o Em
uma primeira aproximação, sim: nossas ações buscam satisfazer necessidades
alheias
§ Mas
esta primeira aproximação é bastante grosseira
e, como veremos, é também bastante superficial
o Entretanto,
não devemos nem podemos considerar que a lei do dever consiste em atos
altruístas satisfazendo puros egoísmos, pois isso pressupõe (ou deixa de
pressupor) várias coisas e implica (ou deixa de implicar) outras tantas:
§ Antes
de mais nada, essa concepção – de que a lei do dever no fundo é um altruísmo
satisfazendo egoísmos puros – desconsidera o caráter relacional do ser humano,
em particular no sentido de que as concepções morais têm que ser generalizadas
·
Nesse sentido, essa concepção desconsidera a
noção de dever, isto é, de responsabilidades mútuas, válidas de todos para com
todos
§ Em
segundo lugar, essa concepção desconsidera o aspecto elementar de que a lei do
dever e da felicidade vale tanto para mim (que sou, ou que devo ser, altruísta)
como para os demais, que também devem ser altruístas
§ Em
terceiro lugar, temos que lembrar que a satisfação do egoísmo (no “viver” do
“viver para outrem”) tem que se limitar pelo e subordinar-se ao altruísmo
·
Nesse sentido, temos que lembrar que a
satisfação do egoísmo alheio ocorre não para o estímulo desse egoísmo, mas como condição para que essas outras pessoas possam desenvolver o
altruísmo
§ Em
quarto lugar, devemos notar que as nossas ações altruístas não são sempre nem
necessariamente dirigidas para indivíduos específicos, mas que muitas vezes
elas têm um foco coletivo e menos específico (de tal sorte que, nesse sentido,
elas não satisfazem nenhum egoísmo em particular)
·
As políticas públicas são exemplos fáceis desse
caráter difuso de muitas das ações altruístas
·
Mas é claro que, tanto antes quanto depois das
políticas públicas, muitas das nossas ações altruístas individuais também
apresentam um caráter difuso
§ Em
quinto lugar, considerando as características do regime público no Positivismo,
devemos notar que a educação positiva tem que estimular o altruísmo; dessa
forma, cria-se uma orientação geral na sociedade em favor do altruísmo,
evitando que as ações altruístas individuais visem apenas, ou principalmente, a
satisfazer o puro egoísmo dos outros
§ Em
sexto lugar, também temos que lembrar que o altruísmo realiza-se na prática por
meio de ações de aperfeiçoamento
·
Tais ações tornam concreto o altruísmo e evitam
que ele degenere em vaguezas místicas
·
O aperfeiçoamento tem vários âmbitos: material,
físico (biológico), intelectual e moral
·
Esses aperfeiçoamentos podem, e devem, tornar-se
diretamente altruístas por si sós, mesmo que muitas vezes eles tenham que
ocorrer em indivíduos específicos
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Devemos reforçar três aspectos específicos ao
apreciarmos a concepção de que “o altruísmo sempre satisfaz o puro egoísmo
alheio”
o Em
primeiro lugar, afirmarmos a primazia do altruísmo sobre o egoísmo é algo tanto
descritivo quanto prescritivo, ou seja, tanto corresponde à realidade dos fatos
quanto, a partir desse caráter descritivo, é também uma recomendação moral e prática
§ Em
outras palavras: a orientação moral e prática do “viver para outrem” não é uma
fórmula puramente “filosófica”, puramente “teórica”: ela baseia-se na realidade
dos fatos, ou melhor, na realidade da natureza humana, conforme ela desenvolveu-se
transparece ao longo da história e com base em pesquisas sociológicas e da
chamada neurociência
§ Como
vimos nos itens acima, o altruísmo
generalizado tem (1) uma base sociológica:
ele baseia-se no desenvolvimento histórico, em pressões sociais, em valores compartilhados,
em práticas coletivas
§ Além
disso, esse altruísmo generalizado
tem (2) uma base moral, neurocientífica:
o altruísmo é generalizável em termos de natureza humana, ao contrário do egoísmo;
o altruísmo consegue dominar e orientar o conjunto da existência humana (ou
seja, realiza a unidade moral), ao contrário do egoísmo
o Em
segundo lugar, ainda em termos sociológicos e morais, a concepção do “altruísmo
como apenas a satisfação do puro egoísmo alheio” deixa de lado o caráter
relacional do ser humano, ou seja, deixa de lado o seu aspecto social e concentra-se na concepção “ego-cêntrica”, que entende que a
sociedade é apenas a justaposição de indivíduos (que, portanto, reduzem-se aos
seus egoísmos)
o Em
terceiro lugar, em termos de história das idéias, essa concepção individualista
tem origem metafísica e, como
sabemos, difundiu-se muito a partir do liberalismo, com todas as filosofias e
“ideologias” de origem metafísica mais recente (como a doutrina dos “direitos
humanos”, o marxismo, os próprios liberalismos econômico e político etc.)
§ Nesse
sentido, a importância central de responder à questão baseia-se no fato de que
ela surge naturalmente do ambiente metafísico que caracteriza o conjunto do Ocidente
nas últimas décadas (ou seja, desde o final da II Guerra Mundial e que reforça
tendências críticas e negativas que, por sua vez, têm alguns séculos de existência)
§ Podemos
dizer, então, que a importância de responder à questão que motivou este sermão,
mesmo repetindo temas e concepções que têm sido apresentados nas últimas
semanas, deve-se a que é necessário afirmar
as concepções positivistas contra a imaginação sociológica metafísica atualmente
disseminada