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11 março 2026

"O Brasil no espelho", Dia das Mulheres, Castilhismo não é fascismo

No dia 13 de Aristóteles de 172 (10.3.2026) realizamos nossa prédica positiva, dando continuidade à leitura comentada do Apelo aos conservadores (em sua Segunda Parte - Postura dos positivistas em relação aos retrógrados).

Comentamos também o livro de Felipe Nunes, O Brasil no espelho - livro que, apesar de trazer dados estatísticos interessantes sobre os brasileiros, comete erros primários, grosseiros e preconceituosos em termos conceituais e filosóficos, especialmente a respeito do Positivismo.

Além disso, reafirmamos a campanha O castilhismo não é fascista, que lançamos em virtude de um movimento fascista baseado no Rio Grande do Sul pretender usar a figura de Júlio de Castilhos para justificar o fascismo.


As anotações que serviram de base para a exposição oral encontram-se reproduzidas abaixo.

*    *    *





Leitura do Apelo aos conservadores

(13 de Aristóteles de 172/10.3.2026) 

1.     Abertura da prédica

2.     Datas e celebrações:

2.1.   Dia 11 de Aristóteles (8 de março): Dia Internacional das Mulheres

3.     Algumas manifestações públicas:

3.1.   Mensagens trocadas com a Fundação Darcy Ribeiro, a propósito da ausência de positivistas na sua “Biblioteca Básica Brasileira”, apesar da presença simultânea de monarquistas, liberais, escravistas etc.

3.1.1. O mesmo pode ser dito a respeito da sua “Biblioteca Básica Latino-Americana”, mas em menor grau

3.1.2. Recebemos resposta sem assinatura da diretoria da Fundação reconhecendo essa limitação (embora não a justificando) e pedindo nosso apoio em futuras publicações

3.2.   Lançamento do cartaz “O castilhismo não é fascista!

3.2.1. Pretensão de um movimento fascista gaúcho de basear-se em Júlio de Castilhos para justificar o seu fascismo

3.3.   Ausência completa de resposta do Deputado Chico Alencar, a propósito do projeto de lei que altera a bandeira nacional (PL n. 5883/2025)

4.     Comentários sobre o livro O Brasil no espelho (Rio de Janeiro, Globo, 2025), de Felipe Nunes

4.1.   Esse livro foi publicado em 2025 e apresenta os resultados de uma pesquisa sobre hábitos e opiniões da população brasileira a respeito das mais variadas questões: importância da família, preferências político-partidárias, confiança nas instituições etc.

4.1.1. É um livro pequeno, com menos de 200 páginas, de leitura fácil e rápida, com muitos e muitos gráficos e a maior parte do texto escrito correspondendo à descrição e à interpretação desses gráficos

4.1.2. Como é um livro publicado, ele é orientado para o grande consumo popular, de modo que não há as reflexões metodológicas que sempre aparecem em pesquisas estritamente acadêmicas; além disso, o estilo de escrita é bastante acessível; por fim, pode-se conjecturar que algumas questões foram suprimidas dessa versão publicada, a fim de manter (ou garantir) o acesso popular dos resultados da pesquisa

4.2.   Além das classificações em termos de gênero e região do país, o autor considerou também a “raça” e, principalmente, as faixas etárias

4.2.1. Em termos de faixas etárias, já indicando alguns dos vícios desse livro, o autor agrupou os respondentes em quatro grupos, nomeados conforme o período de nascimento e de sociabilização básica: grupo “Bossa Nova” (nascidos entre 1945 e 1965); grupo “Ordem e Progresso” (1965-1985); grupo “Redemocratização” (1985-2005); grupo “Geração.Com” (2005-2020)

4.3.   A fórmula “Ordem e Progresso” é usada para descrever o período autoritário; em outras palavras, o autor associa direta e conscientemente o “Ordem e Progresso” – e, por extensão, o Positivismo – aos militares e ao autoritarismo

4.3.1. Mesmo que, por hipótese, possa-se argumentar que tal vinculação foi inocente, o fato é que ela com certeza foi superficial e irresponsável; esse “erro inocente” o autor não comete a respeito de outros aspectos e, de qualquer maneira, o título “Ordem e Progresso” foi empregado em um procedimento a posteriori e que, de qualquer maneira, pode(ria) ser alterado a posteriori: em outras palavras, o autor decidiu conscientemente adotar a expressão “Ordem e Progresso” para descrever o período autoritário, vinculando a expressão ao autoritarismo

4.3.2. A irresponsabilidade e a superficialidade intelectual, teórica e metodológica do autor estende-se também ao âmbito moral, na medida em que o “Ordem e Progresso”, à parte a sua origem positivista, integra o mais importante símbolo do país, que é a bandeira nacional; dessa forma, ao vincular o “Ordem e Progresso” ao autoritarismo militarista, o que o autor faz é vincular a bandeira nacional a esse autoritarismo militarista, corroborando os preconceitos da esquerda e da direita a respeito

4.3.3. Embora tenha degradado o “Ordem e Progresso” e a bandeira nacional a partir de preconceitos políticos, o autor poderia com enorme facilidade usar outros títulos para descrever a geração nascida entre 1964 e 1985; por exemplo, “Anos de Chumbo”, “Autoritarismo”, “Regime Militar” – ou mesmo “Segurança e Desenvolvimento”: o autor não o fez porque não quis

4.4.   Esse tipo de vício teórico está presente em todo o livro e reflete um problema que acomete com enorme freqüência cientistas sociais dedicados a pesquisas empíricas, especialmente as quantitativas: são muito bons com números e com a manipulação estatística, mas são péssimos em termos conceituais

4.4.1. Por “péssimos em termos conceituais” o que queremos dizer é que esses pesquisadores lidam mal com os conceitos, não raras vezes sendo superficiais a esse respeito

4.5.   As questões expostas no livro refletem com clareza tal superficialidade conceitual, ou melhor, tal superficialidade teórica: o autor opõe “conservadores” a “progressistas”, em que os conservadores são definidos como tais a partir do que a esquerda considera-o, da mesma forma que os progressistas; assim, não apenas o autor adota sem maiores cuidados uma classificação que é elaborada por um dos grupos sociais que ele pesquisa (e que é elaborada contra um outro grupo que ele também pesquisa), como o autor esposa essa classificação da esquerda

4.5.1. O primarismo conceitual do autor, bem como sua adesão acrítica aos valores da esquerda, fica evidente tanto nas categorias utilizadas por ele para estruturar a pesquisa quanto nas interpretações que ele faz dos dados obtidos

4.5.1.1.          Em termos de categorias empregadas, por exemplo, ele adota o conceito de “raças” e leva a sério essa categoria

4.5.1.2.          Em termos de interpretações, o autor afirma que valorizar a família é um traço de conservadorismo (!)

4.5.2. O autor não é explícito a respeito – ou seja, ele não assume, em momento nenhum, tais características e, inversamente, ele assume um certo objetivismo ligado ao seu quantitativismo –, mas a leitura atenta do livro evidencia com grande facilidade esses vícios

4.6.   A vinculação cínica e ligeira do “Ordem e Progresso” ao militarismo e ao autoritarismo, então, evidencia de maneira exemplar esses vícios intelectuais e metodológicos do autor

4.6.1. Além disso, como vimos, o autor opõe de maneira simplista “conservadores” a “progressistas”: mais que apenas aderir de maneira indesculpável às disputas políticas contemporâneas e transferi-las para sua pesquisa, o que o autor faz é rejeitar qualquer possibilidade efetiva de superar essa oposição e de realizar a união proposta pela máxima “Ordem e Progresso” (que o autor, sem dúvida, não entende)

4.7.   Em textos de promoção comercial das obras do autor, afirma-se que ele é um “grande” pesquisador, com uma carreira de sucesso no Brasil e no exterior, tendo desenvolvido muitas pesquisas e elaborado um índice que é vendido para governos e empresas

4.7.1. À parte o exercício comercial desse tipo de comentário, o êxito acadêmico do autor deixa claro que não há motivo nenhum para ele cometer os erros e os vícios que comete – e ele de fato comete-os: sua habilidade estatística e empírica poderia com enorme facilidade evitar todos os problemas devidos ao seu primarismo teórico

4.8.   Há outros aspectos em que o livro é superficial

4.8.1. Certamente não seria possível o autor abordar com profundidade todos os aspectos implicados pela pesquisa; entretanto, o autor dá certo destaque para algumas questões, sugere algumas conseqüências a respeito dessas questões e de algumas outras, mas silencia a propósito de outras que mereceriam (ou exigiriam) comentários e aprofundamento

4.8.2. Um exemplo de questão a respeito da qual o autor silencia é a chamada laicidade do Estado: o autor apresenta previamente vários resultados importantes – que a população brasileira acredita majoritariamente em divindades (monoteístas e politeístas) e que a população acredita no “poder da fé” –, para em seguida afirmar que isso tem relevância para políticas públicas, especialmente as que mobilizam mais diretamente a ciência (como as políticas de saúde e, indiretamente, de educação), e afirmar que se “deve levar a sério o peso das crenças populares, sob risco de as políticas públicas darem errado”: ora, o que se quer dizer com “levar a sério as crenças populares”? O autor silencia a respeito, mas sua omissão dá a impressão de que ele considera que governo e Estado devem incluir nas políticas públicas essas crenças – logo, o Estado deve deixar de lado a laicidade, o que deveria ser evidentemente inaceitável

4.9.   Em suma, é difícil não se ficar com grande irritação e má vontade com um livro e um pesquisador que comete erros tão grandes e superficiais, de maneira consciente e sistemática

5.     Exortações

5.1.   Sejamos altruístas!

5.2.   Façamos orações!

5.2.1. Hoje, em favor das orações positivistas, leremos alguns trechos da “Introdução” ao Ensaio sobre a oração, de José Lonchampt (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1896; catálogo da IPB, n. 165; páginas 11-14; ortografia atualizada):

[...]

A Humanidade não é a espécie humana, e não compreende a universalidade dos homens: a Humanidade é a memória dos mortos inspirando e guiando os vivos; é a suma de todos os altos pensamentos, de todos os nobres sentimentos, de todos os grandes esforços, referidos a um só e mesmo Ente, cuja alma é formada por esse conjunto, e cujo vasto corpo é constituído pelos vivos. Esta influência incessante do passado sobre o presente é tão salutar quanto necessária. Suponhamos, com efeito, uma geração humana inteiramente subtraída à influência das gerações anteriores: seria apenas uma cabilda[1] de rudes selvagens, tremendo diante de cada novo fenômeno da natureza, e levando a ferocidade ao ponto de comer carne humana; em uma palavra, essa geração reproduziria o estado primitivo de onde a Humanidade partiu para efetuar a sua gloriosa evolução. Assim, é a esse Grande-Ser que devemos tudo quanto suaviza, eleva, nobilita e deleita nossa vida: conhecê-lo, é portanto amá-lo.

A Humanidade, tão boa para nós, tão benfazeja em relação a nós, vive no presente por meio de homens como nós: destes servidores vivos dependem sobretudo a velocidade e a segurança de sua marcha. O amor que sentimos pela Humanidade nos incitará, pois, a servi-la com zelo, a fim de apressar, tanto quanto caiba em nós, a sua progressão para esse feliz estado social, em cujo limiar as gerações atuais podem prelibar[2] os seus mais delicados eflúvios[3].

[...]

Um dos meios mais seguros de consagrarmos todos os nossos esforços ao serviço do novo Ser Supremo consiste na prática quotidiana da oração. Rezar à Humanidade não será pedir ao seu poder uma mudança imediata na economia real, ou implorar de sua bondade um auxílio direto no infortúnio; semelhante prece seria contrária ao conhecimento que a ciência nos ministra a respeito da suprema existência, a qual acha-se submetida, como a nossa, a leis invariáveis: a Humanidade modifica, é verdade, os fenômenos da natureza, porém de um modo lento e regular; a Humanidade vem em auxílio dos sofrimentos humanos, porém somente melhorando cada vez mais as condições de nossa existência.

Rezar é expandir nosso reconhecimento e nosso amor para com a Humanidade: é também pedir nobres progressos para a nossa alma. Este pedido é sempre satisfeito: porque a sincera confissão de nossos defeitos e de nossas faltas, e o ardente desejo de melhorar e purificar o nosso coração, são os penhores[4] de um êxito infalível.

A oração quotidiana nos tornará, pois, melhores, e aperfeiçoando-nos, ela será útil à Humanidade, porque este novo Grande Ser precisa do nosso concurso; e como a reza consolida e acrisola[5] esse concurso, ele aproveita com as nossas orações. O Deus criador do Universo podia prescindir das preces e das ações de graças de suas criaturas; bastavam-lhe sua onipotência e majestade. A prece do Cristão, como a do Muçulmano, só era útil a ele próprio; ao passo que a nossa oração é não só proveitosa para nós, mas ainda para a Humanidade.Como Igreja Positivista Virtual, ministramos os sacramentos positivos a quem tem interesse

[...]

5.3.   Como Igreja Positivista Virtual, ministramos os sacramentos positivos a quem tem interesse

5.4.   Para apoiar as atividades dos nossos canais e da Igreja Positivista Virtual: façam o Pix da Positividade! (Chave Pix: ApostoladoPositivista@gmail.com)

6.     Leitura comentada do Apelo aos conservadores

6.1.   Antes de mais nada, devemos recordar algumas considerações sobre o Apelo:

6.1.1. O Apelo é um manifesto político e dirige-se não a quaisquer pessoas ou grupos, mas a um grupo específico: são os líderes políticos e industriais que tendem para a defesa da ordem (e que tendem para a defesa da ordem até mesmo devido à sua atuação como líderes políticos e industriais), mas que, ao mesmo tempo, reconhecem a necessidade do progresso (a começar pela república): são esses os “conservadores” a que Augusto Comte apela

6.1.2. O Apelo, portanto, adota uma linguagem e um formato adequados ao público a que se dirige

6.1.3. Empregamos a expressão “líderes industriais” no lugar de “líderes econômicos”, por ser mais específica e mais adequada ao Positivismo: a “sociedade industrial” não se refere às manufaturas, mas à atividade pacífica, construtiva, colaborativa, oposta à guerra

6.2.   Outras observações:

6.2.1. Uma versão digitalizada da tradução brasileira desse livro, feita por Miguel Lemos e publicada em 1899, está disponível no Internet Archive: https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores

6.2.2. O capítulo em que estamos é a “Segunda Parte”, cujo subtítulo é “Conduta dos conservadores em relação aos retrógrados”

6.3.   Passemos, então, à leitura comentada do Apelo aos conservadores!

7.     Término da prédica 

Referências

- Auguste Comte (franc.), Síntese subjetiva (Paris, Exécution Téstamentaire d’Auguste Comte, 2ª ed., 1900): https://archive.org/details/lasynthsesubjec00comtgoog.

- Augusto Comte (franc.), Sistema de política positiva (Paris. J.-B. Baillière, 4ª ed., 1880): https://archive.org/details/systmedepoliti01comt.

- Augusto Comte (port.), Apelo aos conservadores (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores.

- Augusto Comte (port.), Catecismo positivista (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 4ª ed., 1934).

- Felipe Nunes (port.): O Brasil no espelho (Rio de Janeiro, Globo, 2025).

- José Lonchampt (port.), Ensaio sobre a oração (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1896; catálogo da IPB, n. 165): https://archive.org/details/n.-165-jose-lonchampt-ensaio-sobre-a-oracao.

- Luís Lagarrigue (esp.), A poesia positivista (Santiago do Chile, 1890): https://archive.org/details/luis-lagarrigue-a-poesia-positivista-1890_202509.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), As últimas concepções de Augusto Comte (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-i e https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-ii.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), O ano sem par (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1900): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-o-ano-sem-par-portug._202312/page/n7/mode/2up.



[1] Tribo.

[2] Sentir antecipadamente um prazer.

[3] Emanações sutis, perfumes.

[4] Garantias.

[5] Protege.

09 março 2026

Richard Congreve: abertura da Festa da Humanidade

Transcrevemos abaixo o belo discurso de abertura pronunciado por Richard Congreve em sua celebração anual da Festa da Humanidade. Congreve foi um dos discípulos diretos de Augusto Comte.

As referências da citação são estas:

Richard Congreve: “Apêndice: Discurso de abertura da Festa da Humanidade” (in: José Lonchampt, Ensaio sobre a oração (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1896; catálogo da IPB, n. 165; páginas 61-63; ortografia atualizada)). Disponível em: https://archive.org/details/n.-165-jose-lonchampt-ensaio-sobre-a-oracao.

*   *   *

APÊNDICE

A exemplo dos editores franceses deste Ensaio, julgo útil ajuntar aqui uma tradução literal da prece com que o Sr. Ricardo Congreve abre todos os anos a Festa geral da Humanidade. Segui a redação inglesa, tal como vem no ú1timo discurso anual do nosso eminente confrade ele Londres. – M. L. [Nota de Miguel Lemos, tradutor do opúsculo.] 

a d a 

Com todos os centros de nossa fé onde quer que existam; com todos os seus discípulos esparsos, com os fieis de todas as outras religiões ou crenças quaisquer, Monoteístas, Politeístas ou Fetichistas, subordinando todas as distinções secundárias ao laço exclusivo de uma aspiração religiosa comum; com toda a raça humana; isto é, com o homem, onde quer que se ache e qualquer que seja a sua condição, subordinando também todas as distinções secundarias ao laço único de nossa comum humanidade; com as raças animais que foram, durante a longa e trabalhosa ascensão humana, os nossos companheiros e auxiliares, como ainda o são; estejamos hoje, nesta festa da Humanidade, unidos por uma consciente simpatia.

E não é somente com os nossos contemporâneos que devemos hoje estar em comunhão simpática, mas também e sobretudo com esta parte preponderante de nossa espécie que representa o Passado. Comemoramos com reconhecimento os serviços de todas essas gerações que nos legaram o fruto de seus labores, desejando transmitir esta herança aumentada aos nossos sucessores. Nós aceitamos o jugo dos Mortos.

Comemoramos também com gratidão todos os serviços de nossa Mãe comum, a Terra, o planeta que nos serve de morada, e com ela o orbe que forma o Sistema Solar, o nosso Mundo. Não separemos desta última comemoração a do meio em que colocamos esse sistema, o Espaço, que foi sempre tão propício ao Homem, e que está destinado, mediante uma sábia aplicação, a prestar-lhe ainda maiores serviços, pois que ele torna-se a sede reconhecida da abstração, a sede das leis superiores que coletivamente constituem o Destino do Homem, e como tal introduzido em toda a nossa educação intelectual e moral.

Do Presente e do Passado estendamos as nossas simpatias ao Porvir, às gerações futuras que com sorte mais feliz nos sucederão sobre a Terra; tenhamo-las sempre presentes ao nosso espírito a fim de completar a concepção da Humanidade, tal como nos foi revelada pelo Fundador de nossa Religião, pela plena aceitação da continuidade que constitui o Seu mais nobre característico.

A memória do maior dos servidores da Humanidade, Augusto Comte, e a dos seus três Anjos da Guarda, ocorre naturalmente nesta Sua máxima festa, consagrada principalmente à memória de todos os que A têm servido, sejam conhecidos ou anônimos, e à comemoração de todos os resultados obtidos por eles e pelos quais sobrevivem.

Oh! o mais sábio e o mais nobre dos Mestres! possamos nós que nos proclamamos teus discípulos, animados pelo teu exemplo, sustentados pela tua doutrina, guiados pelas tuas teorias, vencer todos os obstáculos que a indiferença ou a hostilidade semeia no nosso caminho; possamos nós, no meio desta época revolucionária, sem nos deixar degradar por qualquer esperança de recompensa, nem desviar por qualquer insucesso dos nossos esforços, num espírito de submissiva veneração, levar por diante a grande empresa a que consagraste a tua vida, a empresa da regeneração humana, por meio e no seio do culto sistemático da Humanidade.

José Lonchampt: excertos do "Ensaio sobre a oração"

Transcrevemos abaixo alguns trechos da "Introdução" do belo Ensaio sobre a oração, de José Lonchampt, que foi discípulo direto de Augusto Comte.

As referências da citação são estas:

José Lonchampt, Ensaio sobre a oração (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1896; catálogo da IPB, n. 165; páginas 11-14; ortografia atualizada). Disponível em: https://archive.org/details/n.-165-jose-lonchampt-ensaio-sobre-a-oracao.

*   *   *

[...]

A Humanidade não é a espécie humana, e não compreende a universalidade dos homens: a Humanidade é a memória dos mortos inspirando e guiando os vivos; é a suma de todos os altos pensamentos, de todos os nobres sentimentos, de todos os grandes esforços, referidos a um só e mesmo Ente, cuja alma é formada por esse conjunto, e cujo vasto corpo é constituído pelos vivos. Esta influencia incessante do passado sobre o presente é tão salutar quanto necessária. Suponhamos, com efeito, uma geração humana inteiramente subtraída à influência das gerações anteriores: seria apenas uma cabilda de rudes selvagens, tremendo diante de cada novo fenômeno da natureza, e levando a ferocidade ao ponto de comer carne humana; em uma palavra, essa geração reproduziria o estado primitivo de onde a Humanidade partiu para efetuar a sua gloriosa evolução. Assim, é a esse Grande-Ser que devemos tudo quanto suaviza, eleva, nobilita e deleita nossa vida: conhecê-lo, é portanto amá-lo.

A Humanidade, tão boa para nós, tão benfazeja em relação a nós, vive no presente por meio de homens como nós: destes servidores vivos dependem sobretudo a velocidade e a segurança de sua marcha. O amor que sentimos pela Humanidade nos incitará, pois, a servi-la com zelo, a fim de apressar, tanto quanto caiba em nós, a sua progressão para esse feliz estado social, em cujo limiar as gerações atuais podem prelibar os seus mais delicados eflúvios.

[...]

Um dos meios mais seguros de consagrarmos todos os nossos esforços ao serviço do novo Ser-Supremo consiste na pratica quotidiana da oração. Rezar à Humanidade não será pedir ao seu poder uma mudança imediata na economia real, ou implorar de sua bondade um auxilio direto no infortúnio; semelhante prece seria contrária ao conhecimento que a ciência nos ministra a respeito da suprema existência, a qual acha-se submetida, como a nossa, a leis invariáveis: a Humanidade modifica, é verdade, os fenômenos da natureza, porém de um modo lento e regular; a Humanidade vem em auxilio dos sofrimentos humanos, porem somente melhorando cada vez mais as condições de nossa existência.

Rezar é expandir nosso reconhecimento e nosso amor para com a Humanidade: é também pedir nobres progressos para a nossa alma. Este pedido é sempre satisfeito: porque a sincera confissão de nossos defeitos e de nossas faltas, e o ardente desejo de melhorar e purificar o nosso coração, são os penhores de um êxito infalível.

A oração quotidiana nos tornará, pois, melhores, e aperfeiçoando-nos, ela será útil à Humanidade, porque este novo Grande Ser precisa do nosso concurso; e como a reza consolida e acrisola esse concurso, ele aproveita com as nossas orações. O Deus criador do Universo podia prescindir das preces e das ações de graças de suas criaturas; bastavam-lhe sua onipotência e majestade. A prece do Cristão, como a do Muçulmano, só era útil a ele próprio; ao passo que a nossa oração é não só proveitosa para nós, mas ainda para a Humanidade.

[...]

17 dezembro 2025

Moral metafísica: pensar só com base em exceções

No dia 14 de Bichat de 171 (16.12.2025) realizamos nossa prédica positiva, dando continuidade à leitura comentada do Apelo aos conservadores (em sua Segunda Parte - "Postura dos positivistas em relação aos retrógrados").

No sermão apresentamos algumas indicações iniciais sobre a moral metafísica, lamentavelmente tão difundida nos dias atuais.

Também se apresentaram outras coisas:

- a programação de final de ano da Igreja Positivista Virtual

- o calendário positivista de parede

- algumas sugestões de poemas e de livros positivistas para as orações cotidianas

A prédica foi transmitida nos canais Positivismo (https://youtube.com/live/6dFq2p88UYo) e Igreja Positivista Virtual (https://www.facebook.com/IgrejaPositivistaVirtual/videos/1376627027149498).

As anotações que serviram de base para a exposição oral encontram-se disponíveis abaixo. 

*   *   *

A moral metafísica

(14 de Bichat de 171/16.12.2025) 

1.     Abertura da prédica

2.     Datas e celebrações:

2.1.   Dia 9 de Bichat (11.12): nascimento de Manoel de Almeida Cavalcanti (1865 – 160 anos)

2.2.   Dia 15 de Bichat (17.12): transformação de Eduardo de Sá (1940 – 85 anos)

2.3.   Dia 19 de Bichat (21.12): solstício – início do verão

3.     Calendário de atividades nas próximas semanas:

3.1.   Recesso entre 15 de Bichat de 171 (17.12.2025) e 19 de Moisés de 172 (19.1.2026)

3.2.   Mas: celebrações da Festa Universal dos Mortos de 171 (31.12.2025) e, principalmente, da Festa da Humanidade de 172 (1.1.2026)

4.     Divulgação do calendário positivista de parede para 172-238

5.     Leitura comentada do Apeloaos conservadores

5.1.   Antes de mais nada, devemos recordar algumas considerações sobre o Apelo:

5.1.1. O Apelo é um manifesto político e dirige-se não a quaisquer pessoas ou grupos, mas a um grupo específico: são os líderes políticos e industriais que tendem para a defesa da ordem (e que tendem para a defesa da ordem até mesmo devido à sua atuação como líderes políticos e industriais), mas que, ao mesmo tempo, reconhecem a necessidade do progresso (a começar pela república): são esses os “conservadores” a que Augusto Comte apela

5.1.2. O Apelo, portanto, adota uma linguagem e um formato adequados ao público a que se dirige

5.1.3. Empregamos a expressão “líderes industriais” no lugar de “líderes econômicos”, por ser mais específica e mais adequada ao Positivismo: a “sociedade industrial” não se refere às manufaturas, mas à atividade pacífica, construtiva, colaborativa, oposta à guerra

5.2.   Outras observações:

5.2.1. Uma versão digitalizada da tradução brasileira desse livro, feita por Miguel Lemos e publicada em 1899, está disponível no Internet Archive: https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores

5.2.2. O capítulo em que estamos é a “Segunda Parte”, cujo subtítulo é “Conduta dos conservadores em relação aos retrógrados”

5.3.   Passemos, então, à leitura comentada do Apelo aos conservadores!

6.     Exortações

6.1.   Sejamos altruístas!

6.2.   Façamos orações!

6.2.1. Livros de orações:

6.2.1.1.          Cartilha maternal positivista, de Américo Silvado

6.2.1.2.          Centenário subjetivo de Clotilde de Vaux, organizado pela Delegação Executiva da IPB

6.2.1.3.          Comte e Clotilde, organizado por Teixeira Mendes

6.2.1.4.          Ensaio sobre a oração, de José Lonchampt

6.2.1.5.          Humaníadas, de Edgar Proença Rosa

6.2.1.6.          Humaníadas, de Generino dos Santos

6.2.1.7.          Imitação maternal, de Américo Silvado

6.2.1.8.          Poemas de R. Teixeira Mendes (“A hora terrível”, “A dor sem nome”, “Hino ao amor”, “Exortação à fraternidade”)

6.2.1.9.          Prece à Humanidade, de Richard Congreve

6.2.1.10.       Profilaxia da neurose, de Paulo de Tarso Monte Serrat

6.3.   Como Igreja Positivista Virtual, ministramos os sacramentos positivos a quem tem interesse

6.4.   Para apoiar as atividades dos nossos canais e da Igreja Positivista Virtual: façam o Pix da Positividade! (Chave Pix: ApostoladoPositivista@gmail.com)

7.     Alguns comentários sobre a moral metafísica

7.1.   O sermão de hoje tem um objetivo modesto: queremos apenas apresentar algumas aplicações concretas e específicas do conceito de “moral metafísica” – bem entendido, apresentá-las e indicar como e porque elas estão erradas

7.1.1. Talvez convenha insistir que as situações que comentaremos são generalizações de casos concretos

7.1.2. Nosso objetivo não é desenvolver de maneira aprofundada essas questões; queremos somente examinar situações que observamos, compartilhamos, notamos

7.1.3. Assim, da maneira mais modesta possível, desejamos apenas aconselhar quem estiver assistindo à prédica

7.2.   Comecemos lembrando os dois conceitos iniciais, de moral e de metafísica

7.2.1. O que é a “moral”?

7.2.1.1.          A moral é um dos conceitos centrais da Religião da Humanidade; desde o início de sua carreira Augusto Comte afirmava a importância da moral, fosse como princípios normativos abstratos, fosse como conhecimento empírico da alma humana

7.2.1.1.1.              A importância concedida por nosso mestre à moral evoluiu e amadureceu ao longo do tempo, com o aumento da consciência dessa importância, a afirmação do método subjetivo a partir de 1845-1846 e a constituição da ciência da Moral em 1852

7.2.1.2.          A moral como conhecimento da alma humana significa que a moral é a ciência que estuda o ser humano individual

7.2.1.2.1.              A ciência da moral vem depois (e acima) da sociologia, o que significa que é necessário contextualizar cada ser humano para podermos entender os sentimentos, as paixões, as qualidades, os defeitos, as possibilidades, os traumas de cada um

7.2.1.2.2.              A ciência da moral é vulgarmente chamada de “psicologia”

7.2.1.3.          A moral como princípios normativos quer dizer que todas as pessoas vivem e atuam em suas vidas seguindo parâmetros; esses parâmetros são em parte conscientes, em parte inconscientes

7.2.1.3.1.              Quando falamos em “princípios normativos”, queremos dizer que apreciamos as pessoas, as coisas, os acontecimentos considerando que elas são boas ou más, belas ou feias, úteis ou inúteis etc.

7.2.1.4.          Quando afirmamos o sentido da moral como “princípios normativos abstratos”, consideramos também o seu aspecto sociológico

7.2.1.4.1.              Essa é uma das conseqüências de a Sociologia posicionar-se antes da Moral na escala enciclopédica e resulta em que toda sociedade tem valores compartilhados, que orientam o conjunto da sociedade e que têm conseqüências concretas, sejam coletivas, sejam individuais

7.2.1.5.          Um outro aspecto da moral – seja como conhecimento do ser humano individual, seja como princípios normativos – pode ser moral privada ou moral pública

7.2.1.5.1.              A moral privada refere-se aos princípios morais de cada pessoa (moral individual) e aos princípios que temos e aplicamos em nossas famílias (moral doméstica)

7.2.1.5.2.              A moral pública refere-se aos princípios que temos na vida em sociedade, isto é, como cidadãos, como profissionais etc.

7.2.1.5.3.              A moral pública e a moral privada são coisas diferentes, mas elas mantêm relações profundas entre si: elas são diferentes, mas não podem ser opostas entre si

7.2.1.6.          Sem esgotar a questão, também temos que lembrar que a moral e a moralidade não podem ser confundidas com o “moralismo

7.2.1.6.1.              Na verdade, como já comentamos em várias ocasiões, a noção de “moralismo” é tipicamente uma concepção destruidora (metafísica, portanto) que serve apenas para criticar a hipocrisia mas que ataca a necessidade geral de termos todos (coletiva e individualmente, e individualmente a partir de parâmetros coletivos) parâmetros normativos compartilhados

7.2.2. Temos agora que lembrar o que é a “metafísica”

7.2.2.1.          Aplicando o conceito de moral à noção de metafísica, temos que os parâmetros sociais compartilhados seguem princípios gerais, que podem (e devem) ser classificados nos termos gerais da lei dos três estados, isto é, como teológicos, como metafísicos ou como positivos

7.2.2.2.          Simplificando, os princípios teológicos são absolutos e recorrem às ficções sobrenaturais; os princípios positivos são relativos e referem-se ao ser humano

7.2.2.3.          Já os princípios metafísicos ficam no meio do caminho, sendo absolutos, não se referindo às divindades mas ainda não abordando diretamente o ser humano (ou abordando o ser humano mas de maneira absoluta, individualista e individualizada)

7.2.2.3.1.              Um traço importante da metafísica é seu aspecto negativo: ela é principalmente negadora; mesmo que ela afirme alguma coisa (a respeito do que quer que seja), sua motivação fundamental é a negação da teologia e, a partir daí, a negação de princípios anteriores

7.2.2.4.          Na passagem dos parâmetros teológicos para os positivos, há um avanço progressivo da positivação, começando nas concepções mais grosseiras e subindo em direção às concepções mais nobres, seguindo a escala enciclopédica

7.2.2.4.1.              A positivação das nossas concepções e dos nossos parâmetros é um desafio, especialmente em épocas metafísicas como a nossa

7.2.2.4.2.              A coerência geral dos nossos parâmetros é uma necessidade moral e intelectual (uma necessidade “psicológica”)

7.2.2.4.2.1. Devemos, sim, sem dúvida e necessariamente, ser ao máximo positivos e deixar para trás os traços teológicos e metafísicos (em todo caso, absolutos)

7.2.2.4.2.2. A convivência de múltiplos princípios gera conflitos pessoais e coletivos e, daí, gera profundos sofrimentos

7.2.2.4.3.              Entretanto, temos que ter clareza de que, enquanto vivemos na transição revolucionária, ou seja, enquanto a Religião da Humanidade não se difunde de maneira geral, essa uniformização de princípios consiste em um enorme desafio, especialmente em termos pessoais, pois implica tornar conscientes e manipuláveis aspectos que são originalmente inconscientes; esses elementos que se tornam conscientes devem depois retornar à condição de inconsciência

7.2.2.4.3.1. Além disso, há também sempre o peso do aspecto social dos parâmetros que adotamos, no sentido de que a sociedade necessariamente exerce pressão sobre nós, facilitando ou dificultando a adoção de uma ou outra concepção

7.3.   O que entendemos aqui por “moral metafísica”?

7.3.1. Para nós, nesta exposição, a noção de “moral metafísica” tem um sentido mais específico: ela não é somente a aplicação da metafísica às considerações morais, mas é uma forma toda específica de entender e de aplicar a moralidade

7.3.2. O princípio geral da moral metafísica consiste em assumir como permanentes as soluções que são somente provisórias e transitórias

7.3.2.1.          Um exemplo bastante simples e bastante claro é o liberalismo (seja político, seja econômico): o liberalismo assume que todo poder é ruim e que, portanto, deve-se desconfiar dele

7.3.2.2.          Com o liberalismo, as noções de confiança e de responsabilidade são jogadas fora; o poder político não é entendido como algo positivo e útil (ainda que potencialmente problemático) e ele não é regulado, mas apenas “domado”

7.3.2.2.1.              O anarquismo radicaliza os defeitos do liberalismo, ao rejeitar totalmente o poder político (e, para piorar, com freqüência – mas não sempre – ao promover de maneira consciente e intencional a violência política)

7.3.2.3.          A solução provisória do liberalismo consiste em que, de fato, na época em que se constituiu o liberalismo, era necessário conter o arbítrio do poder político – e, em particular, do absolutismo teológico

7.3.2.4.          Mas não somente o liberalismo institucionalizou a desconfiança política como foi incapaz de efetivamente substituir o arbítrio teológico pelo relativismo positivo

7.4.   Para o que nos interessa, uma primeira aplicação prática da noção de “moral metafísica” consiste em raciocinar com base em exceções e nunca em termos de regras

7.4.1. Os resultados disso, então, consistem em (1) recusar as regras gerais meramente com base nas exceções e (2) generalizar as próprias exceções (!)

7.4.2. Dois exemplos bastante simples são os das críticas às famílias contemporâneas e às escolas: em cada um desses casos, porque há mais ou menos dificuldades com essas instituições, a moral metafísica assume que essas dificuldades resumem tudo que tais instituições oferecem e, portanto, a solução consistiria em negá-las, restringindo-as ou destruindo-as pura e simplesmente

7.4.3. Uma forma bem simples e muito eficiente de sintetizar esta modalidade – e, no fundo, de resumir a moral metafísica – é perceber que a moral teológica absolutiza as regras, ao passo que a moral metafísica absolutiza as exceções

7.5.   Uma segunda possibilidade da moral metafísica consiste em assumir que dificuldades especificamente pessoais são justificativas adequadas para rejeitar situações gerais

7.5.1. De uma perspectiva individual, muitas vezes os problemas ou os sofrimentos de que padecemos em determinadas situações levam-nos a rejeitar em regra todas essas situações

7.5.1.1.          Esse comportamento consiste em sofrer um trauma e pautar a própria conduta por esse trauma, a fim de evitar a sua repetição e/ou de tentar expurgar, subjetivamente, o trauma

7.5.1.2.          De uma perspectiva estritamente pessoal e afetiva, esse comportamento até faz sentido; entretanto, ele está longe de poder ser chamado de maduro e, de qualquer maneira, quase não seria necessário afirmar que não dá para adotar o trauma pessoal como parâmetro geral

7.5.2. A adoção do trauma individual como parâmetro geral é literalmente a aplicação pessoal da moral metafísica, em que se generalizam exceções

7.5.3. Não podemos exigir de ninguém que recuse a dor de um trauma, da mesma forma que não podemos exigir de ninguém que busque repetir as situações e os sofrimentos que constituíram o trauma

7.5.3.1.          Todavia, inversamente, uma coisa muito diferente é raciocinar com base nas exceções e generalizar a própria recusa, apenas porque um determinado indivíduo recusa-se (com suas razões) a afastar-se do trauma

7.5.4. É necessário termos clareza de que, no presente caso, o amadurecimento consiste em aprender a raciocinar e a generalizar sem adotar o próprio trauma como parâmetro de avaliação

7.5.4.1.          Um amadurecimento ainda maior consiste em superar o trauma

7.5.5. Considerando esta modalidade de moral metafísica, a vida de Augusto Comte, mais uma vez, é exemplar no sentido da positividade

7.5.5.1.          Apesar do trauma que ele sofreu e que viveu a vida inteira devido ao péssimo comportamento de sua esposa oficial, Carolina Massin, ele soube deixar de lado seus problemas pessoais e considerar em geral a situação das mulheres e das famílias

7.5.5.2.          Na verdade, não somente nosso mestre não deixou seus traumas interferirem em suas reflexões como ele ultrapassou esses traumas, tanto em sua vida quanto em suas elaborações: tal superação ocorreu graças à influência benfazeja de Clotilde de Vaux

7.5.5.3.          Ao não permitir que seus traumas desviassem e prejudicassem suas elaborações e, em seguida, ao superar esses traumas, Augusto Comte pôde criar a Religião da Humanidade, valorizar profunda e radicalmente as mulheres e instituir necessariamente as mulheres como símbolos da Humanidade

7.6.   A terceira possibilidade de moral metafísica que queremos comentar consiste em considerar que o ressentimento é uma base adequada para qualquer moral (pública ou privada)

7.6.1. Essa é uma forma particularmente agressiva e destruidora de moral e, nesse sentido, é uma forma particularmente extrema da metafísica

7.6.1.1.          O ressentimento atua como base da moral identitária, que, lamentavelmente, é uma das formas atuais mais disseminadas de moral

7.6.1.2.          Aliás, as duas modalidades anteriores de moral metafísica também estão disseminadas no Ocidente, impedindo e rejeitando generalizações (e as regras), ao mesmo tempo em que se sacralizam e eternizam soluções parciais, instáveis e temporárias

7.6.2. O ressentimento combina os vícios intelectuais de (1) rejeitar generalizações e de (2) raciocinar como base em exceções com o vício moral de (3) rejeitar generalizações e de (4) raciocinar com base em traumas individuais e, ainda mais, (5) combina-os com o estímulo ao ódio, à violência, à falta de afeto, de fraternidade (em suma, com o que há de pior no instinto destruidor)

7.6.2.1.          Dessa forma, o ressentimento cristaliza traumas e defeitos do passado, mantendo-os no presente e reproduzindo-os para o futuro

7.6.3. O ressentimento como fundamento do identitarismo tem, portanto, uma quantidade e uma profundidade inacreditável de defeitos: esse é um dos motivos mais importantes por que rejeitamos o identitarismo

7.7.   Em suma:

7.7.1. O princípio geral da moral metafísica, para o que nos interessa, consiste em tornar permanente o que é apenas transitório

7.7.1.1.          Uma forma alternativa de entender esse conceito é perceber que a moral metafísica rejeita as generalizações verdadeiras a partir de casos excepcionais e, inversamente, generaliza o que é excepcional

7.7.1.2.          Negar as generalizações, de uma perspectiva estritamente intelectual, é um erro lógico primário (isto é, um erro infantil), em que se pretende rejeitar totalmente uma regra (ou uma generalização) apenas porque se determinou uma única exceção – ou seja, em que não se reconhece que a exceção é, de fato, apenas e pura e simplesmente uma exceção

7.7.2. Não se deve desprezar as exceções nem se deve rejeitar as soluções temporárias; com freqüência, é necessário (ou apenas convém) respeitar as exceções em prol da dignidade humana

7.7.3. Dito isso, é claro que respeitar as exceções é muito, muito, muito diferente de, com base nelas, rejeitar as generalizações, eternizar soluções temporárias e generalizar a partir das exceções

7.7.4. Sem nenhuma pretensão de esgotar as possibilidades, identificamos três possibilidades concretas da moral metafísica:

7.7.4.1.          Raciocinar exclusivamente com base em exceções e em casos particulares (a moral teológica absolutiza as regras, ao passo que a moral metafísica absolutiza as exceções)

7.7.4.2.          Estabelecer experiências pessoais (ou melhor, traumas pessoais) como fundamentos para regras e/ou para rejeitar generalizações

7.7.4.3.          Estabelecer o ressentimento como base para a moral (pública e privada)

8.     Término da prédica

 

Referências

- Augusto Comte (franc.), Sistema de filosofia positiva (Paris, Société Positiviste, 5e ed., 1893).

- Augusto Comte (port.), Apelo aos conservadores (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores.

- Augusto Comte (port.), Catecismo positivista (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 4ª ed., 1934).

- Luís Lagarrigue (esp.), A poesia positivista (Santiago do Chile, 1890): https://archive.org/details/luis-lagarrigue-a-poesia-positivista-1890_202509.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), As últimas concepções de Augusto Comte (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-i e https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-ii.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), O ano sem par (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1900): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-o-ano-sem-par-portug._202312/page/n7/mode/2up.