No sermão abordamos a noção de "estado normal", além das noções assessórias de "sociedade orgânica", "natureza humana", "harmonia" e "utopia".
A prédica foi transmitida nos canais Positivismo (https://youtube.com/live/y6qTKX-xevw) e Igreja Positivista Virtual (https://www.facebook.com/IgrejaPositivistaVirtual/videos/1003259092618009/).
As anotações que serviram de base para a exposição oral encontram-se reproduzidas abaixo.
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O estado normal
(6 de Carlos Magno de 172/23.6.2026)
1. Abertura da prédica
2. Datas e celebrações
2.1. Dia 8 de Carlos Magno (25.6): transformação de Martins Fontes (1937 – 89 anos)
2.2. Dia 10 de Carlos Magno (27.6): transformação de Harriet Martineau (1876 – 150 anos)
2.3. Dia 11 de Carlos Magno (28.6): transformação de Teixeira Mendes (1927 – 99 anos)
2.4. Dia 12 de Carlos Magno (29.6): nascimento de Júlio de Castilhos (1860 – 166 anos)
2.5. Dia 13 de Carlos Magno (30.6): nascimento de Carlos Torres Gonçalves (1875 – 151 anos)
2.6. Dia 13 de Carlos Magno (30.6): transformação de Lauro Muller (1926 – 100 anos)
3. Leitura comentada do Apelo aos conservadores
4. Exortações
4.1. Sejamos altruístas!
4.2. Façamos orações!
4.3. Como Igreja Positivista Virtual, ministramos os sacramentos positivos a quem tem interesse
4.4. Para apoiar as atividades dos nossos canais e da Igreja Positivista Virtual: façam o Pix da Positividade! (Chave Pix: ApostoladoPositivista@gmail.com)
5. Sermão: o estado normal
5.1. O sermão de hoje aborda um tema que freqüentemente é tratado em nossas prédicas, que nem sempre fica claro do que se trata mas que é central para o Positivismo e para a Religião da Humanidade: a noção de “estado normal”
5.1.1. Essa expressão e essa noção aparecem regularmente na obra de Augusto Comte, especialmente de maneira implícita; mas somente no final de sua carreira nosso mestre definiu-a de maneira mais sistemática – na “Conclusão” do Apelo aos conservadores em particular, aliás
5.1.2. A noção de estado normal, juntamente com outras (como síntese e religião) é ao mesmo tempo central e sintética, de tal sorte que reúne e pressupõe outros conceitos elementares, como natureza humana, harmonia e utopia (bem como relativismo, continuidade e altruísmo), além da rejeição e superação do estado crítico
5.2. Indo diretamente ao ponto: o “estado normal” corresponde à situação idealizada de plena realização da harmonia humana, em seus múltiplos aspectos (coletivos e individuais; afetivos, intelectuais e práticos; subjetivos e objetivos), de maneira dinâmica e ao longo do tempo
5.2.1. Uma noção assessória à de estado normal é a de sociedade orgânica (ou estado orgânico)
5.2.1.1. A sociedade orgânica corresponde à situação social em que vigem parâmetros compartilhados, capazes de regular o conjunto da sociedade, suas diversas partes entre si e também a atuação individual
5.2.1.2. Dessa forma, o estado orgânico é a antítese da “anarquia”
5.2.2. Como dissemos, o estado normal é a situação ideal em que as diversas partes da natureza humana encontram-se em harmonia dinâmica; esse equilíbrio dá-se com a aplicação de parâmetros que regulam a sociedade e os indivíduos: portanto, o estado normal corresponde a uma sociedade orgânica
5.2.2.1. Todavia, é bastante claro que uma sociedade orgânica qualquer não corresponde necessariamente ao estado normal
5.2.2.2. O estado normal exige o altruísmo, o relativismo, a atividade pacífica, colaborativa e construtiva
5.2.2.3. Assim, o estado normal exige o desenvolvimento prévio das forças humanas e corresponde à coordenação dessas forças
5.2.2.3.1. A maior dificuldade do estado normal não é o desenvolvimento das forças humanas (que já ocorreu, sob a teologia, na tríplice transição ocidental), mas, justamente, a coordenação positiva, isto é, a coordenação simultânea, altruísta, relativista e pacífica
5.2.2.3.2. Essa coordenação das diversas partes da natureza humana, na medida em que respeita cada uma dessas diversas partes, pode ser chamada de sinérgica (ou de harmoniosa)
5.2.3. É possível haver estados orgânicos sem que ocorra a coordenação dos diversos traços da natureza humana, isto é, sem que ocorra a sinergia
5.2.3.1. As teocracias antigas (entre as quais incluímos o Extremo Oriente: China, Índia, Japão) foram orgânicas e sinérgicas, mas, na medida em que as forças humanas não estavam desenvolvidas, não se constituiu o estado normal
5.2.3.2. A Grécia antiga, devido ao caráter da sua filosofia e, de modo geral, da sua sociedade, foi particularmente anti-orgânica
5.2.3.3. A sociedade romana foi orgânica, assim como, depois, foi a Idade Média e o Islã
5.2.3.4. A situação ocidental depois da Idade Média não é nem orgânica, nem normal – embora o Positivismo forneça todos os elementos para a organicidade e a normalidade, ou melhor, para a positividade
5.2.4. O estado normal corresponde à plena positividade: altruísmo, relativismo, atividade pacífica; rejeição da violência, mátrias pequenas; importância superior do poder espiritual em relação ao poder temporal (ou seja, das condutas adotadas subjetivamente com autonomia e liberdade em relação às condutas impostas objetivamente); separação entre o poder temporal e o poder espiritual; adesão generalizada à Religião da Humanidade
5.3. É importante comentarmos um pouco sobre a natureza humana:
5.3.1. Quando consideramos a natureza humana, temos a tendência de entendê-la apenas em termos individuais e estáticos: entretanto, isso é um erro, pois é intensamente parcial
5.3.1.1. Aliás, esse viés na compreensão da natureza humana – individual e estático – costuma ser entendido da maneira mais estreita possível, em termos individualistas, egoístas e mecanicistas: segundo uma versão vulgar, a “natureza humana” seria exata e estritamente egoísta e individualista, sem outras características (altruístas, em particular), sem aspecto social e sem capacidade de discernimento
5.3.2. A concepção positiva – e é “positiva”, não “positivista” – da natureza humana baseia-se em investigações biológicas, histórico-sociológicas e morais, combinando ciência e filosofia; assim, deve-se considerar que o ser humano é ao mesmo tempo sentimentos, inteligência e atividade; que os sentimentos são egoístas e altruístas; que o ser humano desenvolve seus atributos necessariamente em sociedade e ao longo do tempo
5.3.3. Assim, convém enfatizar e sermos bastante explícitos: a natureza humana abrange, por um lado, (1) tanto o egoísmo quanto, principalmente, o altruísmo; por outro lado, (2) ela é antes de mais nada social e, a partir disso, também individual; por fim, (3) ela evolui com o passar do tempo, ou seja, ela é histórica, ela é dinâmica
5.3.3.1. Além disso, também devemos notar que a natureza humana surgiu e desenvolveu-se em interação com o ambiente; dessa forma e por esse motivo, todos os principais traços da natureza humana são compartilhados com os animais superiores, isto é, com os mamíferos e com as aves
5.3.4. A natureza humana consiste principalmente no cérebro, que apresenta uma pluralidade de funções cerebrais (sentimentos, inteligência e atividade)
5.3.4.1. Em virtude dessa pluralidade de funções cerebrais e, ainda mais, em virtude da pluralidade de funções afetivas (sete egoístas e três altruístas, em um total de dez), a natureza humana não é unificada, embora possa convergir para diversas situações de harmonia
5.4. Passemos agora para a noção de harmonia:
5.4.1. A noção de harmonia humana consiste na situação em que as várias partes da natureza humana encontram-se em interação dinâmica, subordinadas a um centro que coordena e regula essas várias partes
5.4.1.1. O centro coordenador é sempre e necessariamente afetivo; assim, ele pode ser egoísta ou altruísta
5.4.1.2. Os instintos egoístas (seja em seu conjunto, seja cada um deles individualmente) são mais fortes que o altruísmo; mas eles disputam entre si, sem cessar, a supremacia, sem que nenhum deles consiga portanto constituir-se como centro coordenador da existência humana; além disso, não somente o egoísmo não permite a harmonia individual como, negando e/ou prejudicando as relações sociais, o egoísmo também é incapaz de coordenar a existência coletiva
5.4.1.3. Embora o altruísmo seja mais fraco que o egoísmo, ele consegue estabelecer a harmonia mútua entre seus três instintos, que, com isso, fortalecem-se mutuamente; além disso, eles disciplinam e satisfazem os vários egoísmos; por fim, por definição os instintos altruístas estabelecem e regulam as relações coletivas: dessa forma, a coordenação humana é possível apenas com o altruísmo
5.4.1.3.1. Vale notar que a capacidade própria aos instintos altruístas de harmonizarem-se e reforçarem-se mutuamente permite que, com freqüência, o altruísmo seja tratado em bloco, ao contrário do egoísmo, cujos vários instintos com freqüência têm que ser individualizados
5.4.2. A harmonia humana é uma condição realmente desafiadora, pois tem que se dar ao longo do tempo, ao mesmo tempo em termos coletivos e individuais, considerando o egoísmo e o altruísmo
5.4.2.1. Como observa nosso mestre e como notamos há pouco, somente o altruísmo, em seus três instintos (apego, veneração e bondade), consegue a supremacia sobre os demais instintos de maneira estável, permitindo ao mesmo tempo a satisfação dos instintos egoístas
5.4.3. A harmonia humana é uma situação de equilíbrio variável, entre margens mais ou menos definidas; entre essas margens, temos variações ao longo de cada dia e ao longo de nossas vidas
5.4.4. A supremacia do altruísmo e, de qualquer maneira, as necessidades específicas com que nos defrontamos em cada instante resultam em que o ser humano tem que, de fato, coordenar suas várias partes a cada momento, resultando em sinergias individuais ao longo do tempo; é nessa sinergia mais ou menos durável mas variável que consiste a relativa unidade humana em seus comportamentos concretos (mas que a teologia chama de “alma” e que a metafísica chama de “ego” ou de “self”)
5.4.4.1. A sinergia que se estabelece no âmbito individual tem que ocorrer também, e principalmente, em termos sociais; sem o âmbito social, a harmonia individual não é verdadeira possível, ou melhor, não é verdadeiramente estável
5.4.5. O caráter dinâmico e ao mesmo tempo múltiplo da natureza humana, além da efetiva força superior do egoísmo sobre o altruísmo: é tudo isso que torna tão difícil a harmonia humana
5.4.5.1. A realização dessa harmonia múltipla, dinâmica e altruísta consiste no “problema humano”, conforme definido nosso mestre
5.4.5.2. Tudo tem que concorrer para isso a resolução do problema humana; o que não auxilia é supérfluo, o que ativamente atrapalha é daninho
5.5. Nosso mestre resume a questão da seguinte forma, no início da Síntese subjetiva (p. 1-2):
Subordinar o progresso à ordem, a análise à síntese e o egoísmo ao
altruísmo: tais são os três enunciados – prático, teórico e moral – do problema
humano, cuja solução deve constituir uma unidade completa e estável.
Correspondendo, respectivamente, aos três elementos de nossa natureza, esses
três modos distintos de formular uma mesma questão são não apenas conexos, mas
equivalentes, em vista da dependência mútua entre a atividade, a inteligência e
o sentimento. Apesar de sua coincidência necessária, o último enunciado supera
os outros dois, por ser o único que se refere à fonte direta da solução comum.
Pois a ordem pressupõe o amor, e a síntese só pode resultar da simpatia; a
unidade teórica e a unidade prática são, portanto, impossíveis sem a unidade
moral. Assim, a religião é tão superior à filosofia quanto à política. O
problema humano pode,
finalmente, resumir-se em constituir a harmonia afetiva, desenvolvendo o
altruísmo e reprimindo o egoísmo; então, o aperfeiçoamento subordina-se à
conservação, e o espírito de detalhe ao espírito de conjunto.
5.6. Passemos por fim à noção de “utopia”:
5.6.1. A última noção que – sem pretender esgotar o assunto – podemos comentar neste momento é a de “utopia”
5.6.2. A utopia, como se sabe, é um ideal mais ou menos distante que orienta a conduta ao longo do tempo; assim, ela tem o importante papel de servir de princípio orientador e coordenador em termos dinâmicos, em relação aos vários aspectos da natureza humana
5.6.3. O estado normal, indiscutivelmente, é uma utopia – seja porque a harmonia é sempre mais ou menos instável, seja porque ela é exigente, seja porque ela tem que se manter ao longo do tempo
5.6.4. A utopia corresponde a um ideal ao qual nos aproximamos sempre, sem nunca efetivamente chegar a ele – nosso mestre usa, não por acaso, a imagem da assíntota: no gráfico cartesiano, a assíntota é uma reta para a qual tende uma curva, sem que essa curva nunca chegue à reta
5.6.4.1. Uma das máximas de Clotilde resume bem a importância das utopias:
Compreendi, melhor do que ninguém, a fraqueza de nossa natureza quando não é dirigida para um alvo elevado que seja inacessível às paixões
5.6.5. No início da sua carreira, quando ainda estava impregnado de cientificismo (e de academicismo), nosso mestre tendia a considerar que toda utopia é irrealizável e, portanto, que as utopias deveriam ser deixadas de lado
5.6.5.1. Mas o amadurecimento filosófico – afetivo e relativístico – de nosso mestre conduziu-o a distinguir as utopias das quimeras (e das concepções quiméricas): enquanto as utopias são ideais que orientam e coordenam nossas atividades, as quimeras são concepções que negam totalmente a natureza humana e as leis naturais
5.6.6. Há inúmeros outros aspectos que podemos indicar a respeito das utopias no âmbito do Positivismo; por ora, devemos notar que os preconceitos acadêmicos, metafísicos e teológicos contra o Positivismo – isto é, a má fé e a ignorância – estipulam pura e simplesmente que nós seríamos contra as utopias, em favor de perspectivas objetivistas, presentistas, a favor do status quo; inversamente, nossos críticos de má fé, mau caracteres, que atribuem a nós essas concepções, é que seriam generosos e proporiam futuros melhores
5.7.
Em
suma:
5.7.1. O estado normal corresponde à situação
idealizada de plena realização da harmonia humana, em seus múltiplos aspectos
(coletivos e individuais; afetivos, intelectuais e práticos; subjetivos e objetivos),
de maneira dinâmica e ao longo do tempo
5.7.1.1.
É claro
que o estado normal corresponde à plena positividade: altruísmo, relativismo,
atividade pacífica; rejeição da violência, mátrias pequenas; importância
superior do poder espiritual em relação ao poder temporal (ou seja, das
condutas adotadas subjetivamente com autonomia e liberdade em relação às
condutas impostas objetivamente); separação entre o poder temporal e o poder
espiritual; adesão generalizada à Religião da Humanidade
5.7.2. O estabelecimento dinâmico e ao longo do
tempo da harmonia humana só é possível com a supremacia do altruísmo
5.7.2.1.
A harmonia
humana baseada no altruísmo, disciplinando o egoísmo, corresponde ao problema humano
fundamental; tudo tem que concorrer para isso a resolução do problema humana; o
que não auxilia é supérfluo, o que ativamente atrapalha é daninho
5.7.3. O estado normal é uma utopia, na medida em
que nos fornece parâmetros dinâmicos, ao longo do tempo, para a orientação de
nossas condutas
6. Término da prédica
Referências
- Auguste Comte (franc.), Síntese subjetiva (Paris, Exécution Téstamentaire d’Auguste Comte, 2ª ed., 1900): https://archive.org/details/lasynthsesubjec00comtgoog.
- Augusto Comte (franc.), Sistema de
filosofia positiva (Paris, Bachelier, 1838).
- Augusto
Comte (franc.), Sistema de política
positiva (Paris. J.-B.
Baillière, 4ª ed., 1880): https://archive.org/details/systmedepoliti01comt.
- Augusto Comte (port.), Apelo aos conservadores (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores.
- Augusto Comte (port.), Catecismo positivista (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 4ª ed., 1934).
- José Lonchampt (port.), Ensaio sobre a oração (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1896; catálogo da IPB, n. 165): https://archive.org/details/n.-165-jose-lonchampt-ensaio-sobre-a-oracao.
- Luís Lagarrigue (esp.), A poesia positivista (Santiago do Chile, 1890): https://archive.org/details/luis-lagarrigue-a-poesia-positivista-1890_202509.
- Raimundo Teixeira Mendes (port.), As últimas concepções de Augusto Comte (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-i e https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-ii.
- Raimundo Teixeira Mendes (port.), O ano sem par (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1900): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-o-ano-sem-par-portug._202312/page/n7/mode/2up.
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