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14 setembro 2026

Mistificações sobre o Brasil – e sobre o Positivismo

No dia 14 de setembro de 2026 o jornal carioca Monitor Mercantil publicou um artigo de nossa autoria, intitulado "Mistificações sobre o Brasil - e, para variar, sobre o Positivismo". Reproduzimos abaixo o texto.

A publicação original pode ser lida aqui: https://monitormercantil.com.br/mistificacoes-sobre-o-brasil-e-para-variar-sobre-o-positivismo/.

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Mistificações sobre o Brasil – e, para variar, sobre o Positivismo

A construção da sociedade brasileira envolve religiosidade popular, sincretismo, organização social e a defesa do Estado laico. Por Gustavo Biscaia


Em 5 de setembro último, a Gazeta do Povo publicou um artigo afirmando que não teria sido o Positivismo a criar a “alma brasileira”, mas a “cruz”. Essa afirmação dá o que pensar e merece resposta. Como, todavia, nas últimas décadas a Gazeta do Povo decidiu tornar-se um jornal agressivamente militante, com um perfil “conservador”, consideramos que é melhor publicar a resposta aqui do que tentar na folha original.

Antes de mais nada, é uma lamentável ironia e um triste sinal que o texto tenha saído na Gazeta do Povo, jornal que, em 1919, foi fundado por Benjamin Lins, que era um positivista. Além disso, durante décadas o jornal contou com a coluna “Veterana Verba”, do também positivista David Carneiro. Em seus 107 anos, o jornal mudou não apenas de donos como, principalmente, mudou de orientação editorial: a abertura para o debate amplo e a preferência por autores locais cedeu espaço para a polarização política e moral, favorecendo um conservadorismo cada vez mais agressivo e tradicionalista.

O texto que nos interessa intitula-se “A alma brasileira não nasceu de Comte, mas veio da Cruz” e foi publicado na coluna “Crônicas de um Estado laico”, de Jean Marques Regina e Thiago Rafael Vieira. Cada um dos autores apresenta um longo currículo, afirmando-se advogados que trabalham pela liberdade de expressão. O tom adotado no artigo dá a impressão de serem pessoas sabedoras das coisas; os “argumentos” apresentados indicam o contrário, mas eles falam com enorme convicção, o que substitui com eficiência o conhecimento efetivo.

Apesar disso, referindo-se a alguns dados históricos que, em si, são mais ou menos incontroversos, os autores retomam uma quantidade enorme de preconceitos (que, todavia, não podemos abordar aqui). Assim, é um artigo realmente exemplar por seus defeitos intelectuais, práticos e até morais; cremos que os autores não façam suas defesas jurídicas dessa forma e, com certeza, eles não aceitariam que façam com as igrejas que eles defendem o que eles praticam contra o Positivismo.

O objetivo do artigo é tortuoso, para não dizer confuso. Os autores começam falando das próximas eleições e da necessidade de escolher bons candidatos; passam então à renovação moral atualmente necessária, projeto afirmado há quase 140 anos, com a Proclamação da República (em 15 de novembro de 1889); daí chegam ao que querem – falar (mal) do Positivismo.

A partir daí, os autores realmente se esmeram e não têm dúvidas em repetir de modo sistemático todos os preconceitos, discriminações e desinformação antipositivista – um grave defeito intelectual, prático e moral que, diga-se de passagem, é tristemente ecumênico, sendo repetido pela direita (liberal, católica, evangélica e/ou tradicionalista) quanto pela esquerda (especialmente a marxista, mas também a socialista e a pós-moderna).

Além do sofisma do espantalho (criar uma visão simplificada e estereotipada de algo para combater esse estereótipo, em vez da realidade complexa), em poucas linhas os autores repetem que o Positivismo seria materialista, estritamente racionalista, anticlerical, reducionista, antirreligioso, preconceituoso, elitista etc. De modo mais direto para suas práticas profissionais, os autores afirmam que os teológicos teriam o monopólio da “religião”, que a religião seria sempre teologia, que a positividade é apenas o racionalismo frio e que negaria e rejeitaria a história e a religiosidade popular. Tudo isso como prévia para a afirmação de que a “alma brasileira” teria sido feita pela “cruz” (e não pelo Positivismo). Os autores são cristãos (o artigo não evidencia de qual cristianismo): se a verdade liberta, então a mentira aprisiona: sabemos ao que conduz a produção de mitos e a repetição de preconceitos.

Não é possível tratar de todas essas questões; recomendamos a leitura direta dos próprios positivistas. Tratemos, então, do suposto tema central para os autores.

Os autores acusam o Positivismo de negar e rejeitar a importância da “cruz” na formação histórica da “alma brasileira”. Essa frase é inteiramente da autoria dos próprios autores; nenhum positivista jamais disse nada que seja minimamente próximo disso. Mas ela tem uma quantidade adicional espantosa de erros e equívocos.

Antes de mais nada, se os autores buscassem a verdade que liberta e não mitos e preconceitos, eles teriam lido diretamente os próprios positivistas; não digo A. Comte, mas pelo menos M. Lemos, R. Teixeira Mendes, I. Lins, D. Carneiro, muitos outros autores – e o autor destas linhas. Entretanto, os argumentos repetidos pelos autores indicam que eles adotam o pior dos procedimentos: repetem comentários feitos por comentadores que repetem comentadores que repetem comentadores etc.

Em segundo lugar, os autores falam na importância da “cruz”, com isso se referindo a um cristianismo genérico; mas como é genérico, ele é inexistente e, como a caracterização que eles fizeram do Positivismo, é apenas um mito. O que importou para o Brasil não foi uma “cruz” genérica mas o catolicismo em particular. Mais: não foi a teologia católica, mas principalmente a ação da igreja católica; assim, o que importou não foi tanto a crença no sobrenatural, mas o gregarismo familiar e coletivo reunido nas missas, nos oratórios e nas procissões; o que importou foi a afetividade pessoal e coletiva.

Em terceiro lugar, a “alma brasileira” também se constitui, é claro, pela organização social – e, aí, o Brasil deve muito mais ao Estado português que à igreja católica. As origens feudais do Estado português acarretaram alguns graves problemas, mas também estimulou os hábitos cavalheirescos, a devoção aos próximos etc. (com a terrível exceção dos escravos – indígenas e/ou africanos). Esse mesmo Estado, aliás, controlou estreitamente a igreja e utilizou-a de maneira instrumental.

Em quarto lugar, o ambiente específico do Brasil caracterizou-se pelo sincretismo religioso a reboque da miscigenação étnico-cultural. Embora sob a presidência do catolicismo, a religiosidade brasileira sabidamente é o resultado da combinação com crenças e hábitos indígenas e crenças e hábitos africanos, todos eles variados como são. Em quinto lugar, os autores fazem outra confusão entre a religiosidade popular e a das elites: é claro que a das elites é mais intelectualizada e a popular é mais afetiva.

Em sexto lugar, os autores criticam os positivistas de quererem mudar a sociedade e os valores sociais; supostamente, isso seria um defeito, um verdadeiro crime moral. Autores tão doutos e especializados no cristianismo devem saber que o cristianismo não surgiu no vácuo, mas, com São Paulo, baseou-se em (e rompeu com) o judaísmo e usou a filosofia grega e a sociabilidade e o império de Roma para universalização. Com certeza Paulo de Tarso, os padres da igreja, os grandes papas e santos quiseram reformar a sociedade e mudar as crenças politeístas então vigentes; mutatis mutandis, podemos dizer o mesmo de Lutero, Calvino, G. Fox, J. Knox, J. Smith etc., em relação ao catolicismo. (Todos eles tinham clareza da distinção entre elites e massas.) Se isso foi permitido aos cristãos, por que deveria ser proibido aos positivistas? Convenhamos: é essa a questão central aqui.

É altamente sintomático que os autores reproduzam mitos em série e criem novos, mas silenciem justamente a respeito do que lhes diz respeito de maneira mais direta, profissional e pessoalmente: foram os positivistas que instituíram a separação entre igreja e Estado no Brasil, o que se chama vulgarmente de “laicidade do Estado”. Ao contrário da maioria absoluta das religiões teológicas e dos grupos metafísicos (marxistas, liberais, identitários, tradicionalistas etc.), desde cerca de 1860 os positivistas são o único grupo – a única religião – que defende de modo constante e sem titubear as liberdades de consciência, de expressão e de associação (além do pacifismo, não violência, dignidade humana, dignidade dos trabalhadores e das mulheres, antirracismo, respeito aos índios etc.).

O silêncio dos autores a respeito desse aspecto central, não somente para a vida institucional brasileira como para a religiosidade nacional e também para a prática profissional dos próprios autores, não parece casual. Na verdade, a impressão que se tem é que os autores criaram um mito antipositivista como cortina de fumaça porque não têm como argumentar com o duplo fato de que os positivistas garantiram a liberdade para todos, enquanto os próprios teológicos com freqüência a rejeitam (exceto para as próprias seitas).

Ah, não nos esqueçamos: a reforma moral, intelectual e prática, proclamada pelos positivistas mas estranhamente rejeitada pelos autores, é necessária com urgência.


Gustavo Biscaia de Lacerda é doutor em sociologia política e sociólogo da UFPR.