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10 agosto 2026

Relato da prepotência militar

No dia 26 de Dante de 172 (10.8.2026) o jornal carioca Monitor Mercantil publicou o meu artigo "Relato da prepotência militar". O texto original encontra-se disponível aqui: https://monitormercantil.com.br/relato-da-prepotencia-militar/.

Reproduzimos abaixo o nosso artigo.

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Militares marchando (foto domínio público via Rawpixel).


Relato da prepotência militar

Para militares, civis devem respeitar ‘autoridade’ com base em autoritarismo e em submissão servil. Por Gustavo Biscaia de Lacerda

Nesta coluna eu apresento reflexões sociais, políticas e morais, sempre com um caráter geral; raras vezes (se é que o fiz em qualquer ocasião) fiz comentários especificamente pessoais. Mas toda regra tem exceções; assim, aproveito esta coluna para expor um lamentável episódio que recentemente aconteceu comigo. Julgo que este artigo será mais eficaz que denúncias junto ao Ministério Público Federal, ao Ministério Público Militar e/ou à Ouvidoria Pública Federal.

Na noite de 29 para 30 de julho, pouco depois da meia-noite, eu viajava de ônibus de Foz do Iguaçu para Curitiba. Na altura de Cascavel, o ônibus foi parado por uma blitz do Exército. Minha estada em Foz tinha sido ruim, eu estava cansado, com sono, de mau humor e ainda fui acordado por um tapa na perna dado por um “reco”. (“Reco” é a gíria depreciativa que se refere aos soldados recrutas. Como tal sujeito foi prepotente e recusou-se a dizer seu nome e patente, é justo que eu trate-o por “reco”.)

O “reco” que me acordara com um tapa foi perguntando a cada passageiro para onde viajava, o que fizera em Foz do Iguaçu, o que fazia da vida; todos respondendo com temerosa submissão. Novamente: cansado, com sono, irritado, acordado com um tapa. Além disso, como se diz, “quem não deve não teme”.

Quando eu fui inquirido pelo “reco”, respondi com firmeza e clareza: “Fui [a Foz do Iguaçu] gastar dinheiro”. O “reco” não gostou e tomou minha resposta por uma insolência; imediatamente me mandou descer do ônibus, indicar minha bagagem, abri-la e submeter-me a quaisquer outras ordens que ele e sua tropa de brucutus decidissem impor-me. Claro: todos devidamente armados, com fuzis e pistolas preparados para disparar. Respeito sob a mira da baioneta não tem muito valor.

Quem não deve não teme: fiz questão de apressar as coisas e de mostrar minha bagagem (uma mochila de 60 litros); na verdade, como a maior preocupação do “reco” era com a minha “insolência”, tive que insistir que ele fosse, de fato, ver minha mochila. Como eu estava sendo submetido a um exame invasivo, perguntei a outro “reco” o motivo da inspeção; a resposta, de má vontade: “Faça o que mandam; eu não responderei nada”.

Fiquei olhando o brucutu que se recusara a responder esvaziar minha mochila e intrometer-se em minha privacidade. O primeiro “reco” resolveu voltar à carga: “Que exemplo você quer dar ao desafiar uma autoridade?”.

Ora, o porte de fuzil e de pistolas não faz de ninguém uma autoridade. Ou melhor, fuzil e pistola não fazem de ninguém autoridade no Estado de Direito; com fascismo, comunismo e milícias/facções, a situação é outra.

Mas o fato é eu sou servidor civil público federal e, ainda mais, se isso tem algum valor, eu sou cidadão brasileiro no Estado de Direito; se havia alguma “autoridade” ali, era eu, não um “reco” prepotente. Foi o que eu disse – mais uma vez, com clareza e firmeza, mas agora escandalizado com a desfaçatez de ouvir uma carteirada de fuzil misturada com uma despropositada “lição de moral”.

A essa altura, já estando claro que eu não tinha nada a esconder, aproximou-se de mim um outro soldado – aliás, o único identificado com nome e patente: sargento ***. Talvez em uma versão militar do “tira bom, tira mau”, ele começou a conversar e esclarecer com calma a situação.

O que ele me perguntou foi o que o “reco” inicial perguntara; a minha resposta inicial foi a mesma: “Fui [a Foz do Iguaçu] gastar dinheiro”. Ora, Foz é uma cidade cara, organizada de maneira a explorar ao máximo os turistas, com uma infraestrutura precária e com atendimento sofrível; para quem quer fazer turismo sem gastar rios de dinheiro, é uma cidade que exaure.

O sargento *** ouviu minha resposta; em vez de entendê-la como uma insolência, deu uma leve risada e continuou a conversa; perguntou-me onde trabalho, o que faço da vida etc., ao que eu fui respondendo. Vale notar: eu afirmei e reiterei que conversava com calma, firmeza e sem medo. (Qual criminoso de estrada argumentaria assim?)

O “reco” inicial voltou mais uma vez à carga, ameaçando-me e dizendo que fazia questão de “redigir o relatório” a meu respeito. Suponho que fosse um relatório de crimes, mas, como tudo até ali, isso não foi explicado, embora o tom adotado de ameaça agressiva fosse evidente.

O sargento ***, em seu papel de “tira bom”, convenceu-se de que eu não tinha nada a esconder; conduziu-me de volta ao ônibus e até me explicou do que se tratava (combate a tráfico de armas, drogas e pessoas).

Agradeci e dei boa-noite; mas faltava o documento de identificação. Com quem estava? Com o “reco” inicial. Ele não me entregou o documento: jogou-o no colo (eu estava de braços cruzados); em face da ameaça de “relatório” contra mim, já cansado, eu perguntei em desafio se ele faria esse tal relatório; resposta: “Não tem relatório e não incomode”. Por fim, eu perguntei: “Qual sua patente?”; sua resposta foi a cereja do bolo: “Não tem patente, não tem nome, não tem nada e não incomode”.

Certamente me perguntarão: "por que, desde o começo, você não respondeu ao militar do jeito que ele queria?". Essa pergunta não faz sentido; ou melhor, até faz sentido, mas é profundamente degradante. Essa pergunta pressupõe que, mesmo no Estado de Direito, os cidadãos têm que temer os militares e devem tomar o máximo de cuidado para não ferirem as suscetibilidades dos recos.

Se no Brasil estivéssemos em situações excepcionais, mantidas pela arbitrariedade dos fuzis, a minha resposta inicial teria sido fatal. Mas não vivemos nem no fascismo, nem no comunismo, nem o percurso da BR-277 (que é a rodovia que atravessa o Paraná e liga Foz do Iguaçu a Curitiba) está submetido a milícias e/ou facções.

No setor privado e no serviço público civil, a minha resposta inicial não teria absolutamente nada de excepcional; o bom senso indica que bastaria um pouco de boa vontade para seguir a conversa. Mas por que ela não foi aceitável para os militares?

O motivo é tanto simples quanto, como já indicamos, é degradante. Minha resposta inicial foi inaceitável para os militares porque eles consideram que (1) as relações entre civis e militares devem espelhar as relações entre os próprios militares e, ainda mais, que (2) os civis devem respeitar os militares pura e simplesmente porque estes andam com fuzis e pistolas.

Em outras palavras, ainda (ou novamente) em 2026, para os militares a autoridade não consiste em respeito inspirado em serviços verdadeiros e bem prestados; para os militares, os civis devem respeitar a sua “autoridade” com base em autoritarismo prepotente e em submissão servil.

O comportamento do “reco” inicial foi apoiado por sua tropa e pelo “tira bom” sargento ***; dessa forma, não foi um comportamento excepcional. O problema não foi a frágil suscetibilidade do “reco” inicial; o problema é os militares considerarem que os civis, ou melhor, que os cidadãos devem temer, com servilismo, os fuzis e as pistolas. Em tal ambiente, pura e simplesmente não há e não é possível qualquer “cidadania”.

Gustavo Biscaia de Lacerda é sociólogo da UFPR e doutor em sociologia política.

14 abril 2026

A laicidade contra a misoginia

No dia 13 de abril de 2026 o jornal carioca Monitor Mercantil publicou o nosso artigo "A laicidade contra a misoginia". 

O artigo está reproduzido abaixo. A versão original encontra-se disponivel aqui: https://monitormercantil.com.br/a-laicidade-contra-a-misoginia/.

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A laicidade contra a misoginia

Misoginia é tratada como blasfêmia, sujeito ao punitivismo identitário Por Gustavo Biscaia de Lacerda

Na conturbada sociedade em que vivemos, é correto que cada vez mais se dissemine a noção de que a misoginia deve ser combatida. O desrespeito às mulheres, a violência contra elas, a concepção de que as mulheres seriam versões imperfeitas ou degradadas dos homens – tudo isso tem que ser visto como errado e degradante.

A relevância moral e a urgência política (mesmo policial) do tema exigem que o digamos com clareza, com todas as letras: as mulheres devem ser valorizadas e respeitadas; o fato de elas serem fisicamente mais frágeis não as diminui e, bem ao contrário, torna-as mais merecedoras de cuidado e atenção. Aliás, é exatamente a relativa fragilidade que justifica a novidade penal brasileira correspondente ao “feminicídio” e que torna essa forma de homicídio tão aviltante.

(Apenas pessoas abrutalhadas consideram que os mais fracos são desprezíveis; apenas o culto à violência, à lei do mais forte, chega à conclusão degradante de que ser mais fraco, mais frágil e, por vezes, mesmo inferior seria motivo para humilhação e desrespeito. Ao longo de nossas vidas, todos nós, em vários momentos, somos mais ou menos frágeis e ocupamos posições de inferioridade. Em si mesmo, nada disso é ou precisa ser degradante ou humilhante.)

Enfim, se felizmente há um crescente consenso de que a misoginia deve ser combatida, parece que há também um infeliz consenso a respeito dos meios a empregar nisso. O projeto de lei que está atualmente em tramitação no Congresso Nacional e que transforma em crime a misoginia corresponde precisamente a esse infeliz consenso.

Nossa época ultrapolitizada afirma que tudo é política, ou seja, tudo é poder e dominação. Essa dominação não corresponde ao mando com legitimidade a partir de critérios públicos, compartilhados e livremente aceitos. Se “tudo é política”, quem manda exerce o poder de maneira agressiva, submetendo passivamente os demais. Isso rejeita o verdadeiro consenso, os valores morais, as concepções compartilhadas etc.

Em suma, essa política consiste apenas na aplicação brutal e cínica da máxima “manda quem pode, obedece quem tem juízo”. Não por acaso, essa concepção foi defendida pelos nazistas Carl Schmitt e Martin Heidegger e, a partir deles, foi popularizada por Michel Foucault – que é o teórico do identitarismo.

Desprezo pelos inferiores (e pela inferioridade), brutalidade na política, rejeição de valores livremente compartilhados: aplicando-se todas essas concepções ao problema da misoginia, o resultado não poderia ser diferente da simples e direta criminalização da misoginia.

Deveria ser evidente que a misoginia basicamente é uma questão de opinião – ideias que, por sua vez, baseiam-se em valores e que, por sua vez, podem converter-se em atos concretos. Claro que podemos considerar muitas ideias como erradas e muitos valores como degradantes; mas ideias e valores não são atos concretos.

Quando necessária, a punição deve considerar atos, não ideias e valores; aliás, nem todos os atos podem ser punidos, na medida em que evidentemente há graus de aceitação de comportamentos inadequados. Os atos mais agressivos e/ou de efeitos mais duradouros: esses devem ser punidos com o poder do Estado; em todo caso, opiniões e valores são opiniões e valores e não podem ser punidos como tais.

A criminalização da misoginia deixa de lado os atos e vai para as ideias e opiniões. Essa é a tendência geral vista no Brasil recente – a renovada criminalização de ideias e valores. Aliás, de maneira exemplar, não há uma deputada federal que processa judicialmente toda e qualquer pessoa que ouse discordar publicamente dela?

Essa criminalização é promovida pelos grupos identitários – no presente caso da misoginia, por grupos feministas e simpáticos ao feminismo. Esses grupos têm restabelecido o crime de blasfêmia, o que não deixa de ser surpreendente e chocante, na medida em que tais grupos são quase todos anticlericais.

O emprego da violência do Estado para impor censura oficial sobre ideias e valores corresponde às concepções gêmeas de que tudo é política e de que valores livremente compartilhados são tolice. Essas concepções, longe de melhorarem a sociedade e diminuírem a violência, pioram a agressividade social ao apostarem na brutalidade e no punitivismo sistemático.

São concepções e práticas brutais; as ideias e os sentimentos estimulam a misoginia por si só (e também o desprezo aos/às fracos/as), e as práticas conduzem à violência contra as mulheres. É notável: embora afirmem defender grupos desrespeitados, os identitários apostam em concepções e práticas que conduzem exatamente ao desrespeito e à violência.

Essas concepções têm sido defendidas ativamente, de maneira militante, à direita e à esquerda, pelo Governo Federal (e por governos estaduais), pelos membros do Congresso Nacional, pelo Ministério Público, por grandes jornais diários e até pelos ministros do Supremo Tribunal Federal. Não há república e não há sociedade que resistam a tal assédio.

Em inúmeras ocasiões, observamos que os grupos identitários rejeitam a separação entre igreja e Estado, a chamada “laicidade do Estado”. A laicidade do Estado pressupõe que nem tudo na sociedade é política e que é inaceitável usar o poder do Estado para impor ideias e valores – ou, o que é equivalente, que é inaceitável usar o Estado para a censura.

A laicidade pressupõe também a realidade autônoma da sociedade civil, cuja dinâmica não se limita ao poder e à disputa política; em consequência disso, a sociedade civil mobiliza valores e ideias, que devem ser respeitados e que orientam a ação do Estado.

É importante indicarmos também que as concepções gêmeas de laicidade do Estado e de sociedade civil pressupõem a legitimidade dos valores morais. A ultrapolitização punitivista atual despreza os valores morais, tachando-os de “moralismo”. Entretanto, como devemos chamar as concepções de dignidade humana, de respeito às mulheres, de fraternidade, de pacifismo etc., senão de “valores morais”?

Se tudo é apenas política, essas concepções “morais” seriam apenas palavras a serem usadas de maneira cínica em disputas sem fim (e sem objetivo); mas, se tais palavras significam alguma coisa, elas têm necessariamente e, acima de tudo, um valor moral, que deve ser entendido como superior à disputa política.

Ao assumir a existência e a autonomia da sociedade civil, a laicidade do Estado pressupõe que problemas morais exigem soluções morais. Para o tema que nos preocupa, isso significa que a misoginia, por mais criticável que seja – e que de fato é – deve ser tratada como uma questão de debate e convencimento na sociedade civil, e não como um crime de blasfêmia, sujeito ao vigilante punitivismo identitário.

Gustavo Biscaia de Lacerda é sociólogo da UFPR e doutor em sociologia política.

19 dezembro 2023

Progresso versus cinismo

No dia 17 de Bichat de 169 (19.12.2023) realizamos nossa prédica positiva, dando continuidade à leitura comentada do Catecismo positivista, em sua nona conferência (dedicada ao conjunto do regime positivo).

No sermão abordamos a oposição entre a esperança vinculada ao progresso e o cinismo atual, buscando responder a uma questão ao mesmo tempo moral, intelectual, sociológica e histórica: como é que se passou da nobre e elevada esperança no aperfeiçoamento humano, vigente no século XIX, para o cinismo atual?

A prédica foi transmitida nos canais Positivismo (aqui: https://acesse.dev/W1qy7) e Igreja Positivista Virtual (aqui: https://l1nk.dev/6rird). O sermão começou em 1h.

As anotações que serviram de base para a exposição oral do sermão encontram-se reproduzidas abaixo.

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Progresso versus cinismo  

-        Hoje em dia, no início do século XXI, quando lemos Augusto Comte e os demais positivistas que escreviam no século XIX e início do século XX, dois aspectos surgem com grande clareza:

o   Por um lado, uma grande esperança no ser humano, no aperfeiçoamento das condições da humanidade (materiais, físicas, intelectuais e morais); essa esperança era sintetizada na noção de “progresso”

o   Por outro lado, seguindo o espírito da nossa época, quase instintivamente temos a impressão de que essa esperança mantida no século XIX era “ingênua”, da mesma forma que consideramos que seria mais “correta” uma perspectiva mais ressabiada, ou melhor, mais cínica

o   Entretanto, não há motivo nenhum para seguirmos o atual espírito da época e considerarmos que a esperança e o progresso do século XIX são ingênuos e, daí, desprezíveis

-        A respeito da esperança e do progresso afirmados pela Religião da Humanidade:

o   Afirmam a afetividade humana, o altruísmo, a possibilidade e a necessidade de conhecimento científico da realidade e do ser humano;

§  Afirmam esses conhecimentos a partir do relativismo e do historicismo, valorizando sempre a subjetividade humana

o   Também estabelecem um critério geral de moralidade (o estímulo ao altruísmo e a compressão do egoísmo), que ultrapassa o individualismo egoístico próprio às teologias e às suas metafísicas derivadas e que afirma a noção de dever acima da de direito

o   Afirmam que a paz, a fraternidade, o altruísmo, a colaboração surgem necessariamente da evolução histórica

§  Esses traços, de qualquer maneira, correspondem a tendências gerais, comportando variações e flutuações ao longo do tempo

§  Assim, não há motivo para supor que essas variações e flutuações correspondam à negação do progresso

o   Como observava Augusto Comte, o progresso é mais subjetivo que a ordem (ou seja, é mais diretamente relativa à realidade humana) e abarca aperfeiçoamentos em diversos âmbitos: material, físico, intelectual e, acima de tudo, moral

-        É importante considerarmos o que aconteceu nesse período, isto é, entre meados do século XIX e este início do século XXI:

o   Em termos afetivos, houve o seguinte:

§  Antes de mais nada, houve a fundação da Religião da Humanidade entre o final da década de 1840 e meados da de 1850, sistematizando tendências amplas e gerais da humanidade e fortalecendo laços fraternos e altruístas entre povos, classes e grupos variados sobre bases reais

§  O desenvolvimento simultâneo de perspectivas internacionalistas e particularistas, às vezes com sobreposição, às vezes com distanciamento entre elas:

·         O internacionalismo é a afirmação de perspectivas internacionais, de concórdia entre nações (às vezes, equivocadamente, de fim das nações)

·         Os particularismos assumiram formas variadas:

o   Os nacionalismos, às vezes xenofóbicos, mas inicialmente como movimentos de afirmação das nações contra os grandes impérios coloniais,

o   A perspectiva de classe, especialmente do proletariado, contra a burguesia e contra o capital

§  Por vezes o particularismo de classe manifestou-se contra as nações, mas muitas vezes ele foi a favor de nações proletárias

§  Em todo caso, com gigantesca freqüência, o particularismo proletário serviu de apoio, mesmo de desculpa, para movimentos de independência nacional

o   Houve formas especialmente mesquinhas e agressivas de particularismos sobre outras bases, como no caso dos racismos antissemita e de vários outros

·         Citamos aqui os particularismos negativos porque eles tiveram uma terrível importância durante 30 anos no século XX

o   Indiretamente, esses particularismos negativos serviram para evidenciar que eles, na medida em que são particularismos, não servem para fundar sociabilidades maiores, que são as sociabilidades próprias à sociedade pacífica e industrial

o   Em termos intelectuais, podemos indicar o seguinte:

§  Antes de mais nada, houve a fundação da Religião da Humanidade, sistematizando o conhecimento humano e permitindo e realizando a regularização e a moralização desses conhecimentos (ciência, filosofia, religião, arte, atividades práticas) em bases reais, humanas e relativas

§  Apesar desse importante acontecimento, a ciência continuou com seu impulso absoluto, indiferente à sua destinação humana

§  Ao mesmo tempo, tendências metafísicas particularistas ganharam espaço:

·         A psicanálise de Freud baseou-se no misticismo e na metafísica alemãs para tentar explicar a subjetividade humana, mas, além dos danos mentais causados em si pela metafísica, as noções de pansexualismo e de inconsciente estimularam, como estimulam, a desconfiança no ser humano

·         O marxismo, com suas infinitas correntes propositalmente “críticas”, estimulou (como estimula) o ódio entre as classes e os países e, daí, considera que tudo o que não é “proletário” é vil, enganador, mentiroso; além disso, a equívoca noção de “materialismo histórico” nega a realidade da moralidade

o   O marxismo é ambíguo a respeito da natureza humana: genericamente o ser humano é bom, mas só após a revolução comunista essa bondade manifestar-se-á

o   As desconfianças, o padrão crítico, o grande esquema histórico baseado na luta de classes: isso e muito mais serve de exemplo permanente para outros movimentos metafísicos e críticos, como o identitarismo negro de origem estadunidense e, ainda mais, o identitarismo feminista

·         Concepções irracionalistas, por vezes mais próximas da poesia e do misticismo que da ciência e da filosofia (como Nietzsche), além de concepções anticientíficas (como as de Bergson e de Max Weber) rejeitaram a possibilidade de estudos científicos do ser humano e de filosofias gerais (e relativistas e humanas) sobre a realidade

o   Muitas dessas concepções irracionalistas (incluindo aí nacionalismos e preconceitos de raça), não por acaso, nega(va)m a paz e estimula(va)m a violência e/ou o culto à violência

o   Em termos práticos, tivemos o seguinte:

§  Além dos amplos, gerais e consistentes esforços dos positivistas em todo o Ocidente em favor da paz, da concórdia, da fraternidade internacional e interna aos países, houve inúmeros movimentos pacifistas, internacionalistas, pela regularização das relações industriais etc.

·         Podemos incluir aí alguns grupos anarquistas, vários movimentos socialistas e mesmo alguns movimentos teológicos sensíveis às condições de vida dos trabalhadores e das sociedades modernas

·         Os nacionalismos de independência, de modo geral, também atuaram no sentido de melhorar as condições de vida, ao afirmarem o respeito às particularidades culturais locais

§  Ocorreu também a difusão do republicanismo, ou seja, da perspectiva humana e meritocrática na política, incluindo aí o estabelecimento da separação entre igreja e Estado

§  Uma prática internacional baseada na diplomacia de segredos (Bismarck) e da corrida colonial de prestígio

§  Afirmação de certos hábitos mentais e práticos burguesocráticos

o   Em suma: ao longo do século XIX tivemos grandes e importantes desenvolvimentos da Humanidade, ou seja, na direção da positividade, ao mesmo tempo que tendências metafísicas, críticas e destruidoras mantiveram seus ímpetos

o   O grande período de clivagem é a I Guerra Mundial (1914-1919), ou melhor, a II Guerra dos 30 Anos (1914-1945)

 

Os trechos abaixo, destacados em caixas, foram omitidos em linhas gerais na exposição oral da prédica, pois alongariam demais essa exposição oral; ainda assim, são observações úteis para a presente reflexão e, portanto, mantêm-se nestas anotações.

§  A II Guerra dos 30 Anos é composta por três fases: I Grande Guerra (1914-1919), Período de Paz Armada (1919-1939) e II Grande Guerra (1939-1945)

§  Para o que nos interessa, os períodos mais importantes são o da I Grande Guerra, que matou gerações de positivistas, e o Período da Paz Armada, que estimulou e deu livre curso às piores tendências negativas anteriores a 1914 (nacionalismo xenofóbico, irracionalismo, culto à violência, preconceitos de raça etc.)

·         A I Guerra apresentou uma dinâmica nova, em que os soldados ficavam meses a fio nas trincheiras, sob a tensão constante dos combates, sujeitos a ataques violentos e muito agressivos

·         Essas tendências, como se sabe, consubstanciaram-se em movimentos sociais como o comunismo (com as Revoluções Russas em 1917), o fascismo (com a Marcha sobre Roma, em 1922), o nazismo (desde 1922, no poder desde 1933) e diversos outros movimentos autoritários (Frente Nacional na França, franquismo na Espanha, Estado Novo em Portugal etc.)

·         Esses movimentos, devido a seus conteúdos, na esteira da violência da I Grande Guerra, puseram em suspeição as liberdades, o ideal de fraternidade etc.

o    O mundo não ficou incólume a isso: no Brasil tivemos a crítica à I República transformando-se em crítica degradante ao republicanismo; houve o elogio mundial ao autoritarismo; o Japão deu livre curso ao seu violento imperialismo no Leste Asiático etc.

·         A II Grande Guerra, além da sua violência própria, deu lugar ao chamado “Holocausto”, com o genocídio praticado em escala e com métodos industriais

-         A II Guerra dos 30 Anos estimulou movimentos irracionalistas, autoritários, genocidas etc.; mas, no final das contas, foi um longo e dolorosíssimo interregno entre aspirações altruístas, fraternas, pacifistas etc.

o    Um pequeno indicador desse caráter de interregno é a constituição da Organização das Nações Unidas logo em seguida ao conflito e cuja fundação foi acertada pelo menos desde o ano anterior ao término da guerra

-         Com o término da II Guerra dos 30 Anos, alguns movimentos positivos voltaram à ação; mas, ao mesmo tempo, elementos críticos também mantiveram seu curso

o    Um pouco do sentimento de esperança vigente antes da II Guerra dos 30 Anos foi recuperado após o conflito: novamente, a fundação da ONU e do sistema ONU é parte disso, assim como outros movimentos que tiveram lugar nas décadas seguintes: o reconhecimento e o repúdio aos crimes do nazismo; o desenvolvimento do Welfare State; o impulso para o desenvolvimento econômico e social; mais importante, a descolonização da África e da Ásia (iniciada em 1947 com a independência da Índia)

o    A Guerra Fria (1947-1991), baseada na disputa entre Estados Unidos e União Soviética, refletindo uma oposição ao mesmo tempo geopolítica e “ideológica”, teve um caráter ambígüo em termos da esperança e do progresso:

§  Por um lado, os países-líderes difundiam a esperança nas próprias perspectivas (limitadas em si mesmas) e degradavam as perspectivas rivais

§  Por outro lado, o aspecto de guerra por procuração entre as superpotências conduziu a uma instabilidade marcada nos países periféricos, que, a partir dos anos 1950, logo se converteu em golpes militares

§  O advento da televisão, da mentalidade “pós-materialista” no Ocidente e de guerras que se tornaram cada vez mais difíceis de serem justificadas (Vietnã para os Estados Unidos, Afeganistão para a União Soviética, mesmo Vietnã para a China) minaram a confiança internacional nas superpotências

o    Alguns outros aspectos podem ser indicados:

§  A reflexão sobre o Holocausto conduziu muitas pessoas a decretarem, pura e simplesmente, que a esperança na Humanidade e que a noção de progresso são ilusões, que devem ser descartadas e substituídas por um severo “realismo” – que, no final das contas e na prática é muito próximo do cinismo

§  Além disso, a partir dos anos 1960 a chamada “contracultura”, que já vinha desde a década anterior, atuou sistematicamente para minar todos os valores do Ocidente, evidenciando o caráter metafísico do seu irracionalismo, do seu amoralismo e da violenta ruptura entre gerações

§  O marxismo manteve sua atuação crítica, por meio de suas inúmeras metamorfoses, pró, anti, cripto ou parassoviéticas, mas todas elas afirmando os aspectos metafísicos dessa filosofia: a luta de classes e a desconfiança social erigida em princípio normativo, a degradação da moral via sua redução a interesses de classes, a rejeição de toda concepção que não seja marxista (ou que não seja da própria seita), o particularismo proletário-marxista – além do culto à violência, presente hipocritamente em Marx e repetido de diversas maneiras em muitas das suas seitas derivadas

-         O fim da Guerra Fria deu novo alento à noção de progresso, mas sua vinculação à metafísica triunfalista do liberalismo dos EUA, somada à crítica metafísica marxista, conduziu a um novo descrédito da noção de progresso e da esperança

-         Nas últimas duas décadas, duas correntes metafísicas têm tido grande sucesso, ambas contrárias à esperança e ao progresso:

o    A metafísica mística do tradicionalismo, altamente retrógrada e vigente, por exemplo, no Leste Europeu e na Rússia

o    A metafísica irracionalista, agressiva e particularista do identitarismo, que se difunde a partir dos Estados Unidos e, graças ao servilismo intelectual próprio às “elites” intelectuais brasileiras, tem tido grande sucesso em nosso país

 

-        A maior parte deste relato foi uma exposição histórica de como a bela idéia do progresso atuou no século XIX e no começo do século XX, mas viu-se combatida e combalida no século XX, com uma seqüência no século XXI

o   Os problemas enfrentados por essa concepção ligam-se, então, a movimentos autoritários, violentos, (ir)racionalistas do começo do século XX, bem como ao impulso irracionalista e crítico de intelectuais, a maior parte dos quais são academicistas

o   Aqui é necessário afirmar com clareza: os hábitos academicistas estimulam a criticidade antiprogressista e antiesperançosa como virtude moral e intelectual, como suposta marca de superioridade intelectual

§  Essa criticidade pode ser vista na metafísica dos marxistas e também na metafísica dos místicos

-        Entretanto, ninguém – ninguém! – vive sem esperança, ao mesmo tempo em que todos – todos! – alimentam noções de progresso

o   A esperança e o progresso são alimentados por todos mesmo que só de maneira implícita, muitas vezes sem que reconheçam (mesmo para si próprios) essas concepções

o   Todos afirmamos a esperança porque todos precisamos considerar que as coisas vão melhorar; assim, essa é uma questão de saúde mental

o   A noção de que as coisas vão melhorar implica, necessariamente, a noção de progresso, isto é, de desenvolvimento e de aperfeiçoamento material, físico, intelectual e moral

o   Só é possível haver progresso a partir das leis naturais, do relativismo, do subjetivismo, do historicismo próprios à Religião da Humanidade

§  Assim, só é possível haver esperança verdadeira nos quadros do Positivismo

-        No século XIX Augusto Comte reconhecia a validade moral, intelectual e mesmo artística das utopias

o   Na verdade, Augusto Comte afirmava mesmo que as utopias são um gênero literário moderno!

o   Nas últimas décadas – talvez desde os anos 1970 – em vez de utopias o que temos são as chamadas “distopias”

o   As “distopias” são idealizações invertidas, em que não se apresentam quadros da boa sociedade, mas das más sociedades

o   As distopias são produzidas por estúdios de cinema e TV que querem ganhar muito dinheiro com a degradação humana e são consumidas avidamente pelo Ocidente e, daí, pelo resto do mundo

§  Deveria ser evidente – mas a indústria cultural finge que não é – que as distopias alimentam o cinismo, a desconfiança, o isolamento, o egoísmo, o irracionalismo, o imoralismo

o   Assim, é necessário – com urgência e convicção – deixarmos de lado as degradantes "distopias", que no final servem apenas para a “indústria cultural capitalista”, e retomarmos as utopias

o   A retomada das utopias vincula-se intimamente à retomada das noções de esperança e de progresso

§  A retomada dessas noções fará bem para a saúde mental de cada um de nós; dará uma destinação social e altruísta clara para cada um nós; permitirá que os urgentes problemas sociais que vivemos sejam solucionados (ou, pelo menos, encaminhados)