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05 setembro 2026

Transformação de Augusto Comte e celebração de Sofia

No dia 24 de Gutenberg de 172 (5.9.2026) realizamos a celebração religiosa da transformação de nosso pai espiritual, Augusto Comte. Seguindo o calendário de celebrações da Igreja Positivista do Brasil, nessa data comemoramos também a memória de Sofia Bliaux, filha adotiva de Augusto Comte.

A celebração foi transmitida nos canais Positivismo (https://youtube.com/live/O_IMkDdEX08) e Igreja Positivista Virtual (https://www.facebook.com/IgrejaPositivistaVirtual/videos/1073815898368611).

As anotações que serviram de base para nossa celebração encontram-se reproduzidas abaixo.

*   *   *



Celebração da transformação de Augusto Comte (172/2026)

(24 de Gutenberg de 172/5.9.2026) 

1.     Invocação inicial

2.     Hoje celebramos o 169º aniversário de transformação de nosso mestre e pai espiritual, Augusto Comte

2.1.   Essa é uma data importante, tanto pelo desastre religioso e subjetivo que representou para a Humanidade quanto pela acontecimento objetivo que ocorre com todos nós

2.2.   Seguindo o calendário de festas da Igreja Positivista do Brasil, comemoramos também Sofia Bliaux (1804-1861), a filha adotiva de Augusto Comte

2.3.   Esta nossa pequena celebração não será original – na verdade, nunca é possível, nem mesmo necessário, sermos nem sempre nem totalmente originais

2.4.   Com adaptações e modificações secundárias, retomaremos daqui a pouco três documentos: (1) a celebração de Sofia que realizamos em 169/2023; (2) o belo documento de Miguel Lemos, que é um verdadeiro poema em prosa, a Comemoração anual da morte de Augusto Comte, de 1884; (3) por fim, o belo poema de Teixeira Mendes, A hora terrível, de 1917 (?)

2.4.1. O documento de Miguel Lemos e o poema de Teixeira Mendes foram enviados por nosso amigo Hernani Gomes da Costa

2.5.   Ao lermos as celebrações de Miguel Lemos e Teixeira Mendes, nós reconhecemos a superioridade sintética desses outros nossos pais espirituais como, também, homenageamo-los

3.     Antes de passarmos às comemorações, algumas palavras sobre a “transformação”

3.1.   A transformação é um dos nove sacramentos positivistas – o oitavo –, o que marca a morte do servidor da Humanidade

3.1.1. A morte não é o fim da pessoa; certamente é o encerramento da vida objetiva, do processo de trocas contínuas e permanentes entre o corpo e o ambiente; mas isso não equivale a dizer que aquele servidor da Humanidade não atua mais: a sua atuação mantém-se e até aumenta, mas agora em termos puramente subjetivos

3.1.2. Lembramos as belíssimas frases da poetisa francesa Elisa Mercoeur, que não por acaso eram citadas por nosso mestre:

          “O olvido é o nada; a glória é a outra vida”

          “Quem deixa um nome pode morrer?”

          “A pedra do sepulcro é seu primeiro altar”

3.2.   Por que em termos positivos nós dizemos “transformação” e não “morte”?

3.2.1. Não se trata de um eufemismo, mas de uma afirmação da realidade subjetiva humana: embora triste por si só, a transformação encerra a vida objetiva e inicia plenamente a vida subjetiva de cada um de nós nos outros – ou seja, vivemos para os demais para revivermos nos demais

3.2.1.1.          O nascimento deve ser sempre valorizado, mas é com a transformação que podemos avaliar a atividade realmente desenvolvida pelos indivíduos e, daí, podemos avaliar se foram altruístas ou egoístas, construtivos ou destruidores etc.

3.2.1.2.          Dessa forma, o nascimento é apenas uma promessa: certamente, sempre uma bela e fundamental promessa, mas, ainda assim, apenas uma promessa, uma esperança, que pode ou não se realizar; por isso, é com a transformação que avaliamos e, ainda mais, que celebramos efetivamente a vida de cada um

3.2.1.3.          Assim, a data da transformação é realmente uma data para ser celebrada

4.     Entendido o que é a transformação, passemos, então, à celebração de Sofia

4.1.   No calendário da Igreja Positivista do Brasil, no dia 19.1 celebramos o nascimento de Augusto Comte e a memória de sua mãe, Rosália Boyer; no dia 8.10, celebramos a festa de Comte e Clotilde

4.2.   Assim, considerando a importância de Sofia para a vida de Augusto Comte e a instituição dos seus “três anjos”, no dia 5.9 celebramos Sofia

5.     Sofia Bliaux nasceu em 18.9.1804, na pequena comuna de Oissy, no Somme (Norte da França)

5.1.1. Assim, ela era seis anos mais nova que Augusto Comte e 11 anos mais velha que Clotilde

5.2.   Quando criança mudou-se com os pais para Paris, onde levava uma vida pobre, tendo que trabalhar desde cedo, sempre com humildade e devotamento

5.3.   A obediência e o devotamento aos patrões era tanta que solicitou aos patrões a permissão para casar-se (no que foi atendida); seu marido, Martinho Thomas, era entregador de uma farmácia próxima à rua Monsieur-le-Prince; foi usando esse serviço, para receber poções e cremes de beleza, que Carolina Massin travou contato com Martinho Thomas e, a partir disso, soube das dificuldades crescentes de Sofia, que cuidava sozinha de uma casa grande com crianças que cresciam

5.4.   Após muitas insistências de Carolina Massin, Sofia afinal passou ao serviço de Augusto Comte em 1841, um ano antes de Carolina abandonar definitivamente o lar conjugal; na verdade, na época Sofia entrou ao serviço de Carolina e não propriamente ao de nosso mestre

5.5.   Logo Sofia percebeu, por um lado, que Carolina era uma péssima esposa e que não dava paz de espírito a nosso mestre; por outro lado, ela percebeu que Augusto Comte era uma pessoa simples, de existência modesta, mas cuja atividade era intensa e que era inteiramente dedicada à renovação moral, intelectual e social e que, por isso, precisava de apoio material

5.5.1. A partir de uma humildade simples, confrontando a grandeza moral de Augusto Comte com sua própria existência modesta, ela entendeu que poderia e deveria dedicar-se a auxiliá-lo o máximo que pudesse

5.6.   Em 1842, quando Carolina Massin abandonou o lar pela última vez, Sofia permaneceu na rua Monsieur-le-Prince; mas, devido à vinculação inicial de Sofia com Carolina Massin, e devido à péssima experiência que tivera com sua ex-esposa, Augusto Comte desconfiava profundamente dela

5.6.1. Apenas com o passar do tempo, e considerando as simpatias de Comte para com os proletários, Augusto Comte foi reconhecendo a sinceridade da devoção de Sofia e tornando-a, bem como ao seu marido, uma companheira habitual em seu lar

5.7.   Quando o amor de Comte por Clotilde irrompeu, logo Sofia percebeu a importância disso para o filósofo e com freqüência atuava como mensageira entre ambos; depois também se tornou confidente de Clotilde

5.8.   Devido à sua triste história, a saúde de Clotilde era frágil; em suas últimas semanas (março de 1846), Sofia foi enfermeira, cuidadora e verdadeira irmã de Clotilde, tendo pernoitado 18 dias na casa de Clotilde, até seu falecimento

5.8.1. Após a morte de Clotilde, Sofia reconfortou Augusto Comte e mesmo o afastou de pensamentos de suicídio

5.9.   Em virtude da perseguição acadêmica que Augusto Comte sofria, em 1847 e, ainda mais, em 1848 ele perdeu seus modestos empregos acadêmicos; nesses dois anos, em 1847 e, depois, em 1848, Sofia e seu marido ofereceram suas economias para auxiliar Augusto Comte em suas despesas (despesas que em sua maior parte eram destinadas à pensão de sua ex-esposa); o primeiro oferecimento foi recusado, mas o segundo nosso mestre viu-se obrigado a aceitar

5.10.               José Longchampt (Epítome da vida e dos escritos de Augusto Comte, p. 85) afirma que Sofia converteu-se à Religião da Humanidade: “Foi por estas conversações diárias que Augusto Comte realizou, na única mulher que dele se aproximava, a primeira conversão à Religião da Humanidade”

5.11.               Reconhecendo os sacrifícios feitos por Sofia ao longo dos anos, não apenas em termos de salário e de alimentação, mas também em termos de convívio com sua família, em 1848 Augusto Comte convidou Martinho Thomas que fosse morar em seu apartamento com Sofia e seu filho, o que o casal aceitou

5.11.1.   Esse reconhecimento foi devido não apenas ao devotamento do casal, mas também devido à valorização da domesticidade e mesmo do casamento

5.11.2.   Dando continuidade à afirmação da domesticidade em sua própria vida, Augusto Comte proclamou Sofia como sua filha em 18.7.1850, na cerimônia de casamento do dr. Segond

5.11.3.   Mais tarde, a valorização de Sofia atingiu seu máximo com a consagração de ser indicada como um dos seus “três anjos”

5.12.               Após a morte de nosso mestre, Sofia recebeu de Augusto Comte um retrato de Clotilde, bem como lhe foi destinado uma pensão até sua morte, sob responsabilidade dos executores testamenteiros, e o direito de residir no apartamento da rua Monsieur-le-Prince

5.13.               Ela morreu em 5.12.1861; conforme solicitação explícita de nosso mestre em seu Testamento, ela foi enterrada juntamente com Augusto Comte, no “cemitério do Leste” (o Père Lachaise)

5.13.1.   Em 28.3.1867 Martinho Thomas faleceu; seu filho, Paulo Thomas, ficou sob a responsabilidade de José Longchampt e tornou-se também positivista

6.     Passemos agora à leitura dos poemas de nossos apóstolos da Humanidade:

6.1.   Leitura da Comemoração anual da morte de Augusto Comte, de Miguel Lemos (1884)

6.2.   Leitura de A hora terrível, de Teixeira Mendes (1917?)

6.2.1. Esse poema integra um conjunto poético-relogioso de Teixeira Mendes: Hino ao amor, O ano sem par, A dor sem nome, A hora terrível – dedicados ao altruísmo e à Humanidade, ao amor de Comte e Clotilde, à morte de Clotilde e à morte de Augusto Comte

 

a  d  a

 

Miguel Lemos: “Comemoração anual da morte de Augusto Comte” (1884)[1]

 

COMEMORAÇÃO ANUAL

DA MORTE DE 

AUGUSTO COMTE

 

24 DE GUTENBERG DE 69

(5 DE SETEMBRO DE 1857)

 

Tu duca, tu signore, e tu maestro[2].          

(Dante, Inferno, Canto II.)                    

 

A Igreja Positivista celebra hoje a entrada do seu glorioso Fundador na imortalidade subjetiva.

Aos 24 de Gutenberg de 69 Augusto Comte era surpreendido pela morte em meio de sua tarefa ingente. Morria na pobreza, quase na obscuridade, rodeado apenas por um pequeno número de discípulos fiéis e só conhecido, fora deste grêmio, por aqueles que ele opulentara com as migalhas de seu gênio, e que ocultavam cuidadosamente a origem de tão súbita riqueza. Muitos deles pagaram-lhe as lições com o insulto, com a calúnia e com a traição...

Essa vida que terminava inopinadamente aos 59 anos fora toda consagrada com uma competência excepcional de coração, de inteligência e de caráter à solução do problema religioso.

Dar à sociedade futura uma religião científica, sem mistérios, sem absurdos, baseada na totalidade dos conhecimentos positivos e tendo por alvo supremo o maior aperfeiçoamento do homem, tal foi o fim que se propôs o grande Pensador.

O problema impunha-se com o peso de todo o passado. Resolvê-lo era reatar de novo o fio das idades e congraçar outra vez o homem com o homem. E por este modo a religião depois de ter sido espontânea no período fetichista, inspirada na fase politeica, revelada durante a concentração monoteísta, tornava-se, enfim, demonstrada. Diis extinctis, Deoque, successit Humanitas[3].

A profecia de José de Maistre estava realizada. Aparecera o homem prodigioso que devia terminar a obra demolidora do século XVIII, reunindo em si as afinidades da ciência e da religião.

Este empreendimento Augusto Comte o levou a cabo com um saber e uma grandeza moral inexcedíveis.

Foi um sábio e um santo.

A sua instrução aristotélica abraçava todas as ciências existentes no seu tempo, desde a Matemática até a Biologia. Criou mais uma, a Sociologia e lançou os fundamentos da Moral.

A sua abnegação não teve superior. Perseguido pelos corifeus da ciência oficial, viu-se despojado com a máxima iniqüidade das modestas ocupações que exercia, e aceitou a miséria com a serenidade do justo.

O pão chegou a faltar-lhe. Um dia a sua criada, testemunha comovida de tão dolorosa situação, lançou-se-lhe aos pés e rogou-lhe com lágrimas que aceitasse o pequeno auxílio de suas economias para não ver o seu amo morrer à fome!

O coração da humilde proletária compreendera o heroísmo desse homem, tão firme com os poderosos e tão bom para com os fracos e os pequenos.

Finalmente, um amor puro e imenso, assombro e escândalo da grosseria contemporânea, o elevou, sob o santo impulso de Clotilde de Vaux, às alturas ideais do mais sublime entusiasmo.

Aristóteles pela inteligência, São Paulo pelo coração, Júnio Bruto pelo caráter, tal foi o fundador da Religião da Humanidade.

Os Pósteros saberão comemorar melhor do que nós essa incomparável existência, para cuja apoteose concorreram todos os esplendores da arte regenerada por um novo culto e alimentada por uma comunhão espiritual até hoje desconhecida.

Do seio da paz universal irromperão os hinos sagrados em louvor do Divino Mestre. Todas as raças, todas as pátrias, todas as famílias, congraçadas por uma crença comum, instruídas do Passado, seguras do Porvir, recordarão unânimes os grandes serviços do egrégio Fundador.

Por enquanto cumpre ainda vencer. Os frêmitos da luta perturbam a expansão religiosa do dia de hoje. Um dia de festa é para nós um dia de trégua apenas. Amanhã será necessário continuar o apostolado, convencer, persuadir, repelir a calúnia e sofrer a injúria.

Não importa. As profecias científicas não mentem e os sinais certos da vitória já estão por toda parte.

Com os olhos fitos nessa unidade religiosa do futuro, Jerusalém espiritual e cidade celeste, sonhadas pelas grandes almas de Israel e do Catolicismo, satisfação real das aspirações prematuras dos generosos utopistas, termo da miséria e da guerra, advento da fraternidade universal, recordemos hoje os exemplos legados pelo indefeso Lidador e façamos votos de imitar a sua constância inabalável e a sua sublime dedicação pelos destinos da Humanidade. 

Miguel Lemos,                         

Diretor da Igreja Positivista do Brasil.   


 *   *   *

 

Raimundo Teixeira Mendes: A hora terrível (1917?)[4]

 

A HORA TERRÍVEL

 ENSAIO RELIGIOSO SOBRE A MORTE DO NOSSO SANTÍSSIMO MESTRE 

(Sugerido pelo Stabat Mater[5])

 

A dor que o Pai martiriza

Prende exausta a humilde Filha

Ao leito onde Ele agoniza...

No seu rosto já não brilha

A viva luz da esperança

Do Porvir mostrando a trilha...

Vago o olhar saudoso lança

Lampejos nas murchas Flores

De Clotilde augusta herança...

E os sumidos estertores

Vão o silêncio quebrando

Daquela tarde de horrores...

Té que aos lábios assomando

O sopro final s’exala,

Num terno beijo os cerrando...

Enquanto a alma que estala

Da miseranda Sofia

A catástrofe assinala...

Finda assim tua agonia

De amor num sublime extremo;

Mas a nossa principia

Nesse momento supremo

Em que geme a Humanidade

O seu infortúnio extremo...

Sua doce potestade

Em teu gênio condensara

De Clotilde a santidade.

E destarte em Ti salvara

Seu Porvir que o cego Fado

Em hora infausta arriscara...

Pobre Mãe! acabrunhado

Seu amor treme de ver-te

Precoce à vida arrancado...

Para os dias proteger-te

De um Anjo deu-te o desvelo...

Foi discípulos escolher-te...

Mão não pode o santo zelo,

Movendo o surdo Destino,

Sequer no curso detê-lo!...

No teu serviço divino,

Do terço final em meio,

Pende exame repentino

Da Humanidade no seio,

A fronte qu’Ela tornara

O seu sublimado esteio!...

Oh! como tem sido amarga

A feitura desse manto

Que contra o mal nos ampara!

Que de sangue! que de pranto!

Não tem a Deusa vertido

Nesse labor sacrossanto!

Porém o peito transido

De dor jamais tão pungente,

Sofreu qual quando, caído,

Nos braços sentiu-se algente,

Resumo do seu Passado,

Do seu Porvir, seu Presente!...

Doce Mãe! Nos fosse dado,

Na dor que teu peito estua,

Sentir o nosso abrasado...

Fundir nossa alma na sua

Entre seus Anjos queridos...

Estancar a fonte crua

Dos teus acerbos gemidos!...

R. Teixeira Mendes                              


*   *   *

 

7.     Invocação final

 

Referências

- Augusto Comte (port.), Catecismo positivista (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 4ª ed., 1934)

- Gustavo Biscaia de Lacerda (port.): Celebração de Sofia Bliaux; celebração de José Bonifácio (Curitiba, Igreja Positivista Virtual, 6.9.2023): https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2023/09/celebracao-de-sofia-bliaux-celebracao.html

- Gustavo Biscaia de Lacerda (port.): Celebração da transformação de Augusto Comte (Curitiba, Igreja Positivista Virtual, 6.9.2024): https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2024/09/celebracao-da-transformacao-de-augusto.html

- José Longchampt (port.): Epítome da vida e dos escritos de Augusto Comte (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/joseph-longchampt-epitome-da-vida-e-dos-escritos-de-a.-comte

- Miguel Lemos (port.): Comemoração anual da morte de Augusto Comte (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1884; n. 21 do catálogo da IPB): https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2025/09/miguel-lemos-comemoracao-anual-da-morte.html

- Miguel Lemos e Raimundo Teixeira Mendes (port.): Comemoração anual da morte de Augusto Comte/A hora terrível (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1936; n. 21 e 404E do catálogo da IPB): https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2025/09/miguel-lemos-e-teixeira-mendes.html

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), As últimas concepções de Augusto Comte (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-i e https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-ii.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), O ano sem par (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1900): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-o-ano-sem-par-portug._202312/page/n7/mode/2up.



[1] Transcrevemos a edição de 1936, mantendo a pontuação, mas atualizando a ortografia. A publicação original é de 96 (1884) e constitui o n. 21 do catálogo da Igreja e Apostolado Positivista do Brasil. Uma versão em francês foi incluída em uma publicação de 5 de setembro de 1951, em homenagem aos 2.000 anos da cidade de Paris; essa publicação foi reeditada em 1957, por ocasião do centenário da morte de Augusto Comte; correspondendo ao n. 548 do catálogo da Igreja Positivista, teve por título “Paris – publication commémorative de son bimillénaire – deuxième édition au centenaire de la mort d’Auguste Comte”.

[2] Em italiano no original: “Você é duque, você é senhor e você é mestre”.

[3] Em latim no original: “Mortos os deuses, e deus, sucedeu-lhes a Humanidade”.

[4] Transcrevemos a edição de 1936, mantendo a pontuação, mas atualizando a ortografia.

[5] Na Wikipédia há a seguinte explicação sobre o Stabat Mater: “O Stabat Mater (latim para Estava a mãe) é uma prece ou, mais precisamente, uma sequentia católica do século XIII. / Há dois hinos que são geralmente chamados de Stabat Mater: um deles é conhecido como Stabat Mater Dolorosa (Sobre as dores de Maria) e o outro, chamado Stabat Mater Speciosa, que, de maneira alegre, se refere ao nascimento de Jesus. A expressão Stabat Mater, porém, é mais utilizada para o primeiro caso – um hino do século XIII, em honra a Maria e atribuído ao franciscano Jacopone da Todi ou ao papa Inocêncio III” (https://pt.wikipedia.org/wiki/Stabat_Mater, acesso em 1.8.2024).

01 agosto 2026

Ano Teixeira Mendes

Em 173 (2027) ocorrerá o centenário de transformação do grande Raimundo Teixeira Mendes (1855-1927), vice-Diretor e fundador da Igreja Positivista do Brasil e autor da bandeira nacional republicana brasileira. 

Para celebrarmos essa data, lançamos o Ano Teixeira Mendes!




22 abril 2026

Celebração de Tiradentes

No dia 27 de Arquimedes de 172 (20.4.2026) realizamos nossa prédica positiva, dando continuidade à leitura comentada do Apelo aos conservadores (dando início à sua Terceira Parte - postura dos positivistas em relação aos revolucionários).

No sermão celebramos a bela figura de Tiradentes.

Também aproveitamos para fazer alguns comentários sobre o Dia dos Índios/dos Povos Indígenas.

A prédica foi transmitida nos canais Positivismo (https://youtube.com/live/WyHiR0kx_ZE) e Igreja Positivista Virtual (https://www.facebook.com/IgrejaPositivistaVirtual/videos/2738122833210571).

As anotações que serviram de base para a exposição oral encontram-se reproduzidas abaixo.

*   *   *

Celebração de Tiradentes (2026)

(27 de Arquimedes de 172/21.4.2026) 

1.     Abertura da prédica

2.     Datas e celebrações

2.1.   Dia 25 de Arquimedes (19.4): Dia dos Povos Indígenas (antigo Dia do Índio)

2.1.1. Ele foi criado em 1943, por Getúlio Vargas, ao término de uma conferência interamericana de povos indígenas

2.1.2. A denominação original – “Dia do Índio” – evidentemente era genérica e referia-se à enorme quantidade de povos que viviam originalmente no território brasileiro e que, atravessando as maiores dificuldades e vicissitudes (entre as quais a escravidão e o extermínio puro e simples), sobreviveram até então (1943) e até atualmente

2.1.3. Os índios não são um grupo homogêneo; na verdade, não são nem mesmo um único grupo: são dezenas, ou melhor, centenas de grupos, de inúmeras etnias e grandes etnias, com variados hábitos, usos e costumes

2.1.4. Por meio das mais variadas relações sociais – desde as mais pacíficas até as mais agressivas –, desde 1500 os povos indígenas foram misturando-se com os colonizadores portugueses e, mais tarde, também com os escravos de origem africana: dessa tríplice mistura surgiu a população brasileira, de Norte a Sul

2.1.5. No conjunto, entretanto, os índios que não foram absorvidos foram dizimados ou empurrados cada vez mais para dentro do território

2.1.6. Vale notar, entretanto, que houve esforços em favor da preservação e do respeito aos índios: José Bonifácio pretendia exatamente isso; mais tarde, Miguel Lemos e Teixeira Mendes faziam a mesma proposta, com o adicional de que propunham que se deveria garantir metade do território brasileiro para os índios (“estados ocidentais do Brasil”), a serem reunidos na forma de uma confederação com o restante do país (os “estados orientais do Brasil”)

2.1.7. Sem entrar em maiores detalhes, vale notar que ao longo do século XX, devido a muitos esforços – entre os quais, em particular, os dos positivistas –, a situação dos povos indígenas começou a mudar de maneira mais clara; a Constituição Federal de 1988 aumentou a proteção devida a eles e as políticas indigenistas, com altos e baixos, passaram a ser melhores e mais abrangentes; com isso, a tendência geral de diminuição da população indígena alterou-se, ocorrendo uma certa estabilização e, em alguns casos, até aumento da população

2.1.8. Nos últimos anos, ao mesmo tempo tem que os índios padecem de grandes provações (invasão e degradação de suas terras; incúria do poder público no que se refere à saúde indígena; agressivo evangelismo cristão, tanto católico quanto, principalmente, evangélico), eles passaram a atuar com maior autonomia e autoconsciência: eleição de deputados indígenas; elaboração de gramáticas indígenas pelos próprios falantes; criação do Ministério dos Povos Indígenas (cuja titular é uma índia: Sônia Guajajara)

2.1.9. Apenas para citarmos, sem entrarmos em nenhum detalhe, a referência aos índios no âmbito do Positivismo é importante devido a dois aspectos: (1) devido ao fetichismo, que, unindo-se ao Positivismo, torna possíveis todos os grandes desenvolvimentos do neofetichismo na Religião da Humanidade; (2) a intensa prática indigenista brasileira, que durante várias décadas foi levada a cabo pelos positivistas – e, em particular, sob a inspiração e a orientação do nosso grande Cândido Rondon

3.     Leitura comentada do Apelo aos conservadores

4.     Exortações

4.1.   Sejamos altruístas!

4.2.   Façamos orações!

4.3.   Como Igreja Positivista Virtual, ministramos os sacramentos positivos a quem tem interesse

4.4.   Para apoiar as atividades dos nossos canais e da Igreja Positivista Virtual: façam o Pix da Positividade! (Chave Pix: ApostoladoPositivista@gmail.com)

5.     Sermão: celebração de Tiradentes

5.1.   Antes de mais nada, devo indicar que retomo aqui comentários feitos na prédica positiva “Celebraçãodo Dia do Índio/dos Povos Indígenas e do Dia de Tiradentes”, realizada em 24 de Arquimedes de 169 (ou 18.4.2023)

5.2.   No dia 21 de abril, ou melhor, 27 de Arquimedes – hoje! – celebramos Tiradentes, o protomártir da independência

5.2.1. Essa data, que é um feriado nacional, é importante para os positivistas porque celebra uma figura que nós mesmos propomos, além de ser um dos derradeiros feriados cívicos daqueles propostos por nós no final do Império e início da República

5.2.1.1.          Os feriados cívicos republicanos foram criados em 14 de janeiro de 1890, por meio do Decreto n. 155-B

5.2.1.2.          Os feriados estabelecidos por esse decreto foram os seguintes (os feriados em negrito são os que permanecem vigentes até hoje (abril de 2026)):

1)     1 de janeiro: fraternidade universal;

2)     21 de abril: precursores da independência do Brasil, resumidos em Tiradentes;

3)     3 de maio: descoberta do Brasil;

4)     13 de maio: fraternidade dos brasileiros;

5)     14 de julho: República, Liberdade e Independência dos povos americanos;

6)     7 de setembro: Independência do Brasil;

7)     12 de outubro: descoberta da América;

8)     2 de novembro: comemoração geral dos mortos (dia de finados);

9)     15 de novembro: Pátria Brasileira.

5.2.2. Além disso, o Dia de Tiradentes, juntamente com o Dia do Índio, tem um caráter geral, ou seja, são contra os particularismos e os facciosismos atuais

5.3.   Quem foi Tiradentes?

5.3.1. Joaquim José da Silva Xavier nasceu em 12.11.1746 e faleceu em 21.4.1792 (com 46 anos)

5.3.2. Ele teve inúmeras atividades ao longo de sua vida: dentista, boticário, sertanista, explorador de jazidas; essas várias atividades permitiram-lhe conhecer a região das Minas Gerais e mesmo até o Rio de Janeiro, além de, inversamente, tornar-se conhecido nessas regiões todas

5.3.3. Em 1780, aos 34 anos (já bem adulto, portanto) ingressou na tropa da capitania das Minas Gerais, assumindo um posto de liderança e mantendo a segurança das estradas da capitania – devemos lembrar que, além da segurança regular das estradas, o trajeto entre Minas e Rio tinha que ser preservado devido ao tráfego de ouro e diamantes que tinha lugar ali, evidentemente alvo de ladrões

5.3.4. Ele era alferes, o que corresponde atualmente ao posto de Segundo Tenente, de aspirante a oficial (o posto de alferes foi extinto no início do século XX, substituído pelo de Segundo Tenente); nessa posição, ele não integrava a soldadesca, mas, ao mesmo tempo, devido à sua origem social relativamente humilde, não conseguiu ascender na carreira do exército da nobreza, o que o desmotivou e resultou em baixa, em 1787, ou seja, após poucos anos de serviço na ativa

5.3.5. O apelido “Tiradentes” veio do fato de que, entre suas várias atividades, ele era também um dentista prático – literalmente, um “tira-dentes”

5.4.   Como sabemos, sua importância histórica liga-se à sua participação na conjura mineira (depois inconfidência mineira), isto é, ao episódio em que membros da elite das Minas Gerais tramaram em 1789 uma tentativa de tornar independente a sua província (provavelmente abrangendo também partes do Espírito Santo, para acesso ao mar)

5.4.1. A motivação imediata da sublevação foi a revolta das elites contra o aumento excessivo dos impostos na região das Minas; além disso, o governo português, tendo então à frente o Marquês de Pombal, implementou medidas duríssimas para cobrar esses impostos (a “derrama”): assim, além do aspecto econômico (os impostos majorados) havia o aspecto político (a cobrança autoritária)

5.4.1.1.          O aumento na dureza da cobrança de impostos da parte de Portugal deveu-se ao aumento das despesas metropolitanas, à redução da extração de riquezas na capitania e também à redução de fontes de renda disponíveis para Portugal

5.4.2. Ao contrário das concepções materialistas e economicistas, que reduzem a sociedade ao desejo de lucro e à busca de poder, devemos ter clareza que, antes de 1789, já haviam ocorrido inúmeras rebeliões e revoltas coloniais; essas revoltas com freqüência eram contra os abusos do poder de Portugal e de seus emissários locais: o movimento das Minas Gerais alterou esse padrão, exigindo, ou tencionando exigir, não o fim do abuso, mas a mudança de status político do Brasil (ou melhor, das Minas Gerais): tratava-se então de, explicitamente, propor a independência nacional

5.4.2.1.          Essa mudança de mentalidade foi largamente inspirada pelo republicanismo francês, defendido pelo Enciclopedismo em termos teóricos, e também pelo republicanismo estadunidense, a partir do exemplo prático dado pela Revolução Americana, que ocorreu com sucesso entre 1776 e 1781; além disso, a Revolução Francesa – que já começava em 1788 – serviu igualmente como um poderosíssimo estímulo para a instituição da república independente no Brasil

5.4.2.2.          Assim, devemos enfatizar que a sublevação das Minas Gerais era não somente pela independência nacional, mas também a favor da República (pelo menos para Tiradentes e alguns de seus companheiros)

5.4.3. Como sabemos, a sublevação foi tramada na capital da capitania das Minas Gerais, em Vila Rica (depois renomeada para Ouro Preto), local que era ao mesmo sede do governo local e núcleo da região extrativista; os integrantes da sublevação eram quase todos membros da elite política, econômica e administrativa local, com a notável e importante exceção de Tiradentes, que era de origem humilde, mas era também muito hábil em termos retóricos e tinha acesso fácil e amplo às camadas populares e médias da região, para quem fazia propaganda aberta dos ideais de independência e de república

5.4.4. Certamente Tiradentes não foi o líder nem o membro mais destacado da conjura mineira: houve outros mais importantes, mais ricos e/ou mais famosos; na verdade, após a traição de Joaquim Silvério dos Reis (dando início à “inconfidência mineira”), exatamente o caráter não elitista de Tiradentes tornou-o o bode expiatório ideal

5.4.4.1.          Nesse sentido, o que importa notar é que ele foi o único a manter-se firme em suas convicções e a não trair ninguém; além disso, ele foi o único a ser executado

5.4.5. Tiradentes foi preso em 1789, mantido na prisão durante três anos e executado em 1792; após sua morte, seu corpo foi esquartejado e suas partes foram exibidas em cidades de Minas Gerais em que ele pregara; sua cabeça nunca foi encontrada

5.5.   Para o conjunto da história do Brasil e para o Positivismo, qual a importância de Tiradentes?

5.5.1. A expressão “protomártir”, utilizada por Miguel Lemos e Teixeira Mendes, deve-se a que ele foi o primeiro mártir da independência nacional

5.5.2. Miguel Lemos e Teixeira Mendes, após 1889, ou seja, após a Proclamação da República, estabeleceram a trindade cívica brasileira: Tiradentes, José Bonifácio, Benjamin Constant

5.5.3. Em virtude do movimento pela independência, o nome de Tiradentes está necessariamente vinculado ao de José Bonifácio; assim, o 21 de abril liga-se ao 7 de setembro

5.5.4. Como vimos, Tiradentes propôs a independência, ao mesmo tempo com a república, sem escravidão mas limitada às Minas Gerais[1]; José Bonifácio realizou a independência de todo o Brasil e, por isso, e apesar de si mesmo, com escravidão e sem república; esses movimentos tiveram que ser finalizados e complementados pela República humana e social, ocorrida parte em 1888 mas sacramentada, ampliada e afirmada em 1889, cabendo gloriosamente a Benjamin Constant a responsabilidade por essa transformação definitiva

5.6.   A memória de Tiradentes é, acima de tudo, devida aos positivistas

5.6.1. Desde 1881, quando Miguel Lemos fundou a Igreja Positivista do Brasil, celebramos a memória de Tiradentes – celebração que sempre foi problemática para a monarquia, na medida em que (1) Tiradentes era republicano e (2) ele foi executado em 1792 pela mesma família que governou o país até 1889

5.6.2. Como vimos antes, por obra dos positivistas, via Decreto n. 155-B, a data de 21 de abril virou feriado em 1890; entretanto, em 1931 ela deixou de ser feriado, por obra de Getúlio Vargas, que não queria símbolos nacionais de origem particular, nem símbolos de resistência, nem símbolos efetivamente cívicos; apesar disso, Getúlio Vargas, em 1933, sob pressão política, viu-se obrigado a reinstituir a data como feriado cívico nacional

5.7.   Tiradentes é, sim, um símbolo nacional, bem como um herói nacional: é bom, é correto e é necessário que seja assim

5.7.1. Todo país precisa de personagens-símbolos, isto é, de personagens que corporificam os ideais superiores desse país (ou, por outra, personagens que estabelecem e definem os ideais que norteiam esse país)

5.7.2. As personagens-símbolos são necessárias porque elas correspondem a representações concretas de sentimentos, de idéias e de práticas, de modo a satisfazer necessidades humanas muito intensas; essas necessidades estão na base das relações sociais cívicas

5.7.3. O aspecto ideal dessas personagens-símbolo é duplo: por um lado, correspondem a idealizações mentais, a concepções puramente imaginativas; por outro lado, elas correspondem aos valores julgados importantes em um país

5.7.4. Dessa forma, convém que os heróis nacionais sejam de fato seres humanos superiores: ora, esse é precisamente o caso de Tiradentes, que, embora não fosse nem afetiva nem intelectualmente superior, soube comportar-se com gigantesca generosidade após a inconfidência, além de ter sido um dos grandes propagandistas e difusores do ideal de república independente entre o povo e as classes médias das Minas Gerais

5.7.5. É portanto espantoso que haja tanta gente que afirme que seria bom, correto, útil, necessário que um país não tenha heróis, nem símbolos: quem afirma esse tipo de coisa ou desconhece efetivamente a natureza humana ou finge desconhecê-la; em todo caso, presta um enorme desserviço em nome de supostos “realismo”, “criticidade” etc.

5.8.   Passando a reflexão mais diretamente para os dias recentes: é certo que o Brasil tem problemas e desafios que vão muito além do regime político; mas o simples fato de que a figura de Tiradentes é ignorada ou desdenhada – e, por extensão, a República não é valorizada –, isso indica o quão pobres e lastimáveis são nossos sentimentos e nossas idéias políticas atuais

5.8.1. Nesse sentido, é notável, chocante e triste que tudo o que o mais importante jornal do país, a Folha de S. Paulo, tem a dizer de Tiradentes seja apenas que ele “foi transformado em herói pelos militares”, em um artigo aliás anônimo e de 2018, requentado agora em 2026

5.8.2. O argumento institucional, oficial, da Folha de S. Paulo é bem claro: a figura de Tiradentes como herói nacional não tem valor nenhum, por ter sido erigida pelos “militares”, ou seja, por ser um símbolo do militarismo

5.8.2.1.          A instituição do feriado de Tiradentes em “1890, logo após a República”, seria um sinal adicional (ou inicial) do militarismo de tal celebração, na medida em que, para a Folha de S. Paulo, a República teria sido meramente uma quartelada

5.8.2.2.          Essas lamentáveis afirmações da Folha de S. Paulo são feitas de maneira sumária, sem nenhum exame cuidadoso da figura de Tiradentes, de seu papel histórico, das celebrações em seu favor ocorridas contra o Império e a favor da República

5.8.3. Vale notar que a Folha de S. Paulo, embora tenha os relativos méritos de ter feito uma certa oposição ao fascismo (durante 2019 e 2022) e de manter um certo pluralismo editorial, na verdade é um jornal liberal em termos econômicos e políticos que apoiou com entusiasmo convicto o militarismo entre 1964 e o início dos anos 1980; além disso, é um jornal ambígüo a respeito do fascismo e que promove com grande intensidade o identitarismo (seja o feminista, seja o racialista): o desprezo para com Tiradentes é um esforço para, sob um véu hipócrita de “criticidade”, tentar redimir-se pelo militarismo anterior e, ao mesmo tempo, satisfazer o facciosismo particularista dos identitários

5.8.3.1.          Ao mesmo tempo que degrada a figura de Tiradentes sob a desculpa esfarrapada do “militarismo”, a Folha de S. Paulo celebra as figuras próprias ao identitarismo, que são, todas elas, particularistas, facciosistas, que rejeitam a noção de bem comum e de vida compartilhada de maneira fraterna, livre e digna: pura e simplesmente não há como tornar o Brasil um país melhor com tais concepções e tais práticas

5.9.   Em suma:

5.9.1. Celebrar Tiradentes é valorizar alguns dos mais belos, profundos e importantes traços do ser humano em geral e dos brasileiros em particular

5.9.2. Suas virtudes práticas – sejam sua sinceridade e sua honestidade na expressão de seus ideais políticos, sejam seus vínculos com o povo, seja sua firmeza em não trair seus colegas, seja sua firmeza ao ser o único a ir ao patíbulo – são motivo para as mais intensas admiração e emulação

5.9.3. Não é por acaso que nós, positivistas, por meio de Miguel Lemos e Teixeira Mendes, elegemo-lo “protomártir da independência” e integrante da trindade cívica nacional, juntamente com José Bonifácio e Benjamin Constant

5.9.4. Com um profundo tom de lamento, temos que reconhecer que a desvalorização da figura de Tiradentes é um sinal inequívoco da degradação moral, intelectual e prático da vida cívica brasileira: aqueles que agora se dizem contra o militarismo fazem questão de desprezar todos os símbolos e valores que estimulam a fraternidade, a dignidade, a vida livre e pacífica em conjunto

6.     Término da prédica

 

Referências

- Auguste Comte (franc.), Síntese subjetiva (Paris, Exécution Téstamentaire d’Auguste Comte, 2ª ed., 1900): https://archive.org/details/lasynthsesubjec00comtgoog.

- Augusto Comte (franc.), Sistema de política positiva (Paris. J.-B. Baillière, 4ª ed., 1880): https://archive.org/details/systmedepoliti01comt.

- Augusto Comte (port.), Apelo aos conservadores (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores.

- Augusto Comte (port.), Catecismo positivista (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 4ª ed., 1934).

- Darcy Ribeiro (port.): Cândido Mariano da Silva Rondon (Rio de Janeiro, Global, 2017): http://etnolinguistica.wdfiles.com/local--files/biblio%3Aribeiro-1958-indigenista/Ribeiro_1958_OIndigenistaRondon.pdf e https://revistas.usp.br/ra/pt_BR/article/view/110382/108933.

- Gustavo Biscaia de Lacerda (port.), Prédica Positiva “Celebração do Dia do Índio/dos Povos Indígenas e do Dia de Tiradentes” (Curitiba, Igreja Positivista Virtual, 24.Arquimedes.169/18.4.2023): https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2023/04/celebracao-do-dia-do-indiodos-povos.html.

- José Lonchampt (port.), Ensaio sobre a oração (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1896; catálogo da IPB, n. 165): https://archive.org/details/n.-165-jose-lonchampt-ensaio-sobre-a-oracao.

- Luís Lagarrigue (esp.), A poesia positivista (Santiago do Chile, 1890): https://archive.org/details/luis-lagarrigue-a-poesia-positivista-1890_202509.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), As últimas concepções de Augusto Comte (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-i e https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-ii.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), Benjamin Constant: esboço de uma apreciação sintética da vida e da obra do fundador da República Brazileira (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1892): https://archive.org/details/n.120biografiadebenjaminconstantv.1 e https://archive.org/details/n.120biografiadebenjaminconstantv.2.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), O ano sem par (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1900): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-o-ano-sem-par-portug._202312/page/n7/mode/2up.

- Saiba quem foi Tiradentes, homenageado em 21 de abril e transformado em herói pelos militares (Folha de S. Paulo, 21.abr.2018, atualizado em 20.abr.2026): https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/04/militares-transformaram-tiradentes-em-heroi-nacional.shtml.



[1] Tiradentes era contra a escravidão; esse item, todavia, não era compartilhado pelos demais membros da conjura.