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22 abril 2026

Celebração de Tiradentes

No dia 27 de Arquimedes de 172 (20.4.2026) realizamos nossa prédica positiva, dando continuidade à leitura comentada do Apelo aos conservadores (dando início à sua Terceira Parte - postura dos positivistas em relação aos revolucionários).

No sermão celebramos a bela figura de Tiradentes.

Também aproveitamos para fazer alguns comentários sobre o Dia dos Índios/dos Povos Indígenas.

A prédica foi transmitida nos canais Positivismo (https://youtube.com/live/WyHiR0kx_ZE) e Igreja Positivista Virtual (https://www.facebook.com/IgrejaPositivistaVirtual/videos/2738122833210571).

As anotações que serviram de base para a exposição oral encontram-se reproduzidas abaixo.

*   *   *

Celebração de Tiradentes (2026)

(27 de Arquimedes de 172/21.4.2026) 

1.     Abertura da prédica

2.     Datas e celebrações

2.1.   Dia 25 de Arquimedes (19.4): Dia dos Povos Indígenas (antigo Dia do Índio)

2.1.1. Ele foi criado em 1943, por Getúlio Vargas, ao término de uma conferência interamericana de povos indígenas

2.1.2. A denominação original – “Dia do Índio” – evidentemente era genérica e referia-se à enorme quantidade de povos que viviam originalmente no território brasileiro e que, atravessando as maiores dificuldades e vicissitudes (entre as quais a escravidão e o extermínio puro e simples), sobreviveram até então (1943) e até atualmente

2.1.3. Os índios não são um grupo homogêneo; na verdade, não são nem mesmo um único grupo: são dezenas, ou melhor, centenas de grupos, de inúmeras etnias e grandes etnias, com variados hábitos, usos e costumes

2.1.4. Por meio das mais variadas relações sociais – desde as mais pacíficas até as mais agressivas –, desde 1500 os povos indígenas foram misturando-se com os colonizadores portugueses e, mais tarde, também com os escravos de origem africana: dessa tríplice mistura surgiu a população brasileira, de Norte a Sul

2.1.5. No conjunto, entretanto, os índios que não foram absorvidos foram dizimados ou empurrados cada vez mais para dentro do território

2.1.6. Vale notar, entretanto, que houve esforços em favor da preservação e do respeito aos índios: José Bonifácio pretendia exatamente isso; mais tarde, Miguel Lemos e Teixeira Mendes faziam a mesma proposta, com o adicional de que propunham que se deveria garantir metade do território brasileiro para os índios (“estados ocidentais do Brasil”), a serem reunidos na forma de uma confederação com o restante do país (os “estados orientais do Brasil”)

2.1.7. Sem entrar em maiores detalhes, vale notar que ao longo do século XX, devido a muitos esforços – entre os quais, em particular, os dos positivistas –, a situação dos povos indígenas começou a mudar de maneira mais clara; a Constituição Federal de 1988 aumentou a proteção devida a eles e as políticas indigenistas, com altos e baixos, passaram a ser melhores e mais abrangentes; com isso, a tendência geral de diminuição da população indígena alterou-se, ocorrendo uma certa estabilização e, em alguns casos, até aumento da população

2.1.8. Nos últimos anos, ao mesmo tempo tem que os índios padecem de grandes provações (invasão e degradação de suas terras; incúria do poder público no que se refere à saúde indígena; agressivo evangelismo cristão, tanto católico quanto, principalmente, evangélico), eles passaram a atuar com maior autonomia e autoconsciência: eleição de deputados indígenas; elaboração de gramáticas indígenas pelos próprios falantes; criação do Ministério dos Povos Indígenas (cuja titular é uma índia: Sônia Guajajara)

2.1.9. Apenas para citarmos, sem entrarmos em nenhum detalhe, a referência aos índios no âmbito do Positivismo é importante devido a dois aspectos: (1) devido ao fetichismo, que, unindo-se ao Positivismo, torna possíveis todos os grandes desenvolvimentos do neofetichismo na Religião da Humanidade; (2) a intensa prática indigenista brasileira, que durante várias décadas foi levada a cabo pelos positivistas – e, em particular, sob a inspiração e a orientação do nosso grande Cândido Rondon

3.     Leitura comentada do Apelo aos conservadores

4.     Exortações

4.1.   Sejamos altruístas!

4.2.   Façamos orações!

4.3.   Como Igreja Positivista Virtual, ministramos os sacramentos positivos a quem tem interesse

4.4.   Para apoiar as atividades dos nossos canais e da Igreja Positivista Virtual: façam o Pix da Positividade! (Chave Pix: ApostoladoPositivista@gmail.com)

5.     Sermão: celebração de Tiradentes

5.1.   Antes de mais nada, devo indicar que retomo aqui comentários feitos na prédica positiva “Celebraçãodo Dia do Índio/dos Povos Indígenas e do Dia de Tiradentes”, realizada em 24 de Arquimedes de 169 (ou 18.4.2023)

5.2.   No dia 21 de abril, ou melhor, 27 de Arquimedes – hoje! – celebramos Tiradentes, o protomártir da independência

5.2.1. Essa data, que é um feriado nacional, é importante para os positivistas porque celebra uma figura que nós mesmos propomos, além de ser um dos derradeiros feriados cívicos daqueles propostos por nós no final do Império e início da República

5.2.1.1.          Os feriados cívicos republicanos foram criados em 14 de janeiro de 1890, por meio do Decreto n. 155-B

5.2.1.2.          Os feriados estabelecidos por esse decreto foram os seguintes (os feriados em negrito são os que permanecem vigentes até hoje (abril de 2026)):

1)     1 de janeiro: fraternidade universal;

2)     21 de abril: precursores da independência do Brasil, resumidos em Tiradentes;

3)     3 de maio: descoberta do Brasil;

4)     13 de maio: fraternidade dos brasileiros;

5)     14 de julho: República, Liberdade e Independência dos povos americanos;

6)     7 de setembro: Independência do Brasil;

7)     12 de outubro: descoberta da América;

8)     2 de novembro: comemoração geral dos mortos (dia de finados);

9)     15 de novembro: Pátria Brasileira.

5.2.2. Além disso, o Dia de Tiradentes, juntamente com o Dia do Índio, tem um caráter geral, ou seja, são contra os particularismos e os facciosismos atuais

5.3.   Quem foi Tiradentes?

5.3.1. Joaquim José da Silva Xavier nasceu em 12.11.1746 e faleceu em 21.4.1792 (com 46 anos)

5.3.2. Ele teve inúmeras atividades ao longo de sua vida: dentista, boticário, sertanista, explorador de jazidas; essas várias atividades permitiram-lhe conhecer a região das Minas Gerais e mesmo até o Rio de Janeiro, além de, inversamente, tornar-se conhecido nessas regiões todas

5.3.3. Em 1780, aos 34 anos (já bem adulto, portanto) ingressou na tropa da capitania das Minas Gerais, assumindo um posto de liderança e mantendo a segurança das estradas da capitania – devemos lembrar que, além da segurança regular das estradas, o trajeto entre Minas e Rio tinha que ser preservado devido ao tráfego de ouro e diamantes que tinha lugar ali, evidentemente alvo de ladrões

5.3.4. Ele era alferes, o que corresponde atualmente ao posto de Segundo Tenente, de aspirante a oficial (o posto de alferes foi extinto no início do século XX, substituído pelo de Segundo Tenente); nessa posição, ele não integrava a soldadesca, mas, ao mesmo tempo, devido à sua origem social relativamente humilde, não conseguiu ascender na carreira do exército da nobreza, o que o desmotivou e resultou em baixa, em 1787, ou seja, após poucos anos de serviço na ativa

5.3.5. O apelido “Tiradentes” veio do fato de que, entre suas várias atividades, ele era também um dentista prático – literalmente, um “tira-dentes”

5.4.   Como sabemos, sua importância histórica liga-se à sua participação na conjura mineira (depois inconfidência mineira), isto é, ao episódio em que membros da elite das Minas Gerais tramaram em 1789 uma tentativa de tornar independente a sua província (provavelmente abrangendo também partes do Espírito Santo, para acesso ao mar)

5.4.1. A motivação imediata da sublevação foi a revolta das elites contra o aumento excessivo dos impostos na região das Minas; além disso, o governo português, tendo então à frente o Marquês de Pombal, implementou medidas duríssimas para cobrar esses impostos (a “derrama”): assim, além do aspecto econômico (os impostos majorados) havia o aspecto político (a cobrança autoritária)

5.4.1.1.          O aumento na dureza da cobrança de impostos da parte de Portugal deveu-se ao aumento das despesas metropolitanas, à redução da extração de riquezas na capitania e também à redução de fontes de renda disponíveis para Portugal

5.4.2. Ao contrário das concepções materialistas e economicistas, que reduzem a sociedade ao desejo de lucro e à busca de poder, devemos ter clareza que, antes de 1789, já haviam ocorrido inúmeras rebeliões e revoltas coloniais; essas revoltas com freqüência eram contra os abusos do poder de Portugal e de seus emissários locais: o movimento das Minas Gerais alterou esse padrão, exigindo, ou tencionando exigir, não o fim do abuso, mas a mudança de status político do Brasil (ou melhor, das Minas Gerais): tratava-se então de, explicitamente, propor a independência nacional

5.4.2.1.          Essa mudança de mentalidade foi largamente inspirada pelo republicanismo francês, defendido pelo Enciclopedismo em termos teóricos, e também pelo republicanismo estadunidense, a partir do exemplo prático dado pela Revolução Americana, que ocorreu com sucesso entre 1776 e 1781; além disso, a Revolução Francesa – que já começava em 1788 – serviu igualmente como um poderosíssimo estímulo para a instituição da república independente no Brasil

5.4.2.2.          Assim, devemos enfatizar que a sublevação das Minas Gerais era não somente pela independência nacional, mas também a favor da República (pelo menos para Tiradentes e alguns de seus companheiros)

5.4.3. Como sabemos, a sublevação foi tramada na capital da capitania das Minas Gerais, em Vila Rica (depois renomeada para Ouro Preto), local que era ao mesmo sede do governo local e núcleo da região extrativista; os integrantes da sublevação eram quase todos membros da elite política, econômica e administrativa local, com a notável e importante exceção de Tiradentes, que era de origem humilde, mas era também muito hábil em termos retóricos e tinha acesso fácil e amplo às camadas populares e médias da região, para quem fazia propaganda aberta dos ideais de independência e de república

5.4.4. Certamente Tiradentes não foi o líder nem o membro mais destacado da conjura mineira: houve outros mais importantes, mais ricos e/ou mais famosos; na verdade, após a traição de Joaquim Silvério dos Reis (dando início à “inconfidência mineira”), exatamente o caráter não elitista de Tiradentes tornou-o o bode expiatório ideal

5.4.4.1.          Nesse sentido, o que importa notar é que ele foi o único a manter-se firme em suas convicções e a não trair ninguém; além disso, ele foi o único a ser executado

5.4.5. Tiradentes foi preso em 1789, mantido na prisão durante três anos e executado em 1792; após sua morte, seu corpo foi esquartejado e suas partes foram exibidas em cidades de Minas Gerais em que ele pregara; sua cabeça nunca foi encontrada

5.5.   Para o conjunto da história do Brasil e para o Positivismo, qual a importância de Tiradentes?

5.5.1. A expressão “protomártir”, utilizada por Miguel Lemos e Teixeira Mendes, deve-se a que ele foi o primeiro mártir da independência nacional

5.5.2. Miguel Lemos e Teixeira Mendes, após 1889, ou seja, após a Proclamação da República, estabeleceram a trindade cívica brasileira: Tiradentes, José Bonifácio, Benjamin Constant

5.5.3. Em virtude do movimento pela independência, o nome de Tiradentes está necessariamente vinculado ao de José Bonifácio; assim, o 21 de abril liga-se ao 7 de setembro

5.5.4. Como vimos, Tiradentes propôs a independência, ao mesmo tempo com a república, sem escravidão mas limitada às Minas Gerais[1]; José Bonifácio realizou a independência de todo o Brasil e, por isso, e apesar de si mesmo, com escravidão e sem república; esses movimentos tiveram que ser finalizados e complementados pela República humana e social, ocorrida parte em 1888 mas sacramentada, ampliada e afirmada em 1889, cabendo gloriosamente a Benjamin Constant a responsabilidade por essa transformação definitiva

5.6.   A memória de Tiradentes é, acima de tudo, devida aos positivistas

5.6.1. Desde 1881, quando Miguel Lemos fundou a Igreja Positivista do Brasil, celebramos a memória de Tiradentes – celebração que sempre foi problemática para a monarquia, na medida em que (1) Tiradentes era republicano e (2) ele foi executado em 1792 pela mesma família que governou o país até 1889

5.6.2. Como vimos antes, por obra dos positivistas, via Decreto n. 155-B, a data de 21 de abril virou feriado em 1890; entretanto, em 1931 ela deixou de ser feriado, por obra de Getúlio Vargas, que não queria símbolos nacionais de origem particular, nem símbolos de resistência, nem símbolos efetivamente cívicos; apesar disso, Getúlio Vargas, em 1933, sob pressão política, viu-se obrigado a reinstituir a data como feriado cívico nacional

5.7.   Tiradentes é, sim, um símbolo nacional, bem como um herói nacional: é bom, é correto e é necessário que seja assim

5.7.1. Todo país precisa de personagens-símbolos, isto é, de personagens que corporificam os ideais superiores desse país (ou, por outra, personagens que estabelecem e definem os ideais que norteiam esse país)

5.7.2. As personagens-símbolos são necessárias porque elas correspondem a representações concretas de sentimentos, de idéias e de práticas, de modo a satisfazer necessidades humanas muito intensas; essas necessidades estão na base das relações sociais cívicas

5.7.3. O aspecto ideal dessas personagens-símbolo é duplo: por um lado, correspondem a idealizações mentais, a concepções puramente imaginativas; por outro lado, elas correspondem aos valores julgados importantes em um país

5.7.4. Dessa forma, convém que os heróis nacionais sejam de fato seres humanos superiores: ora, esse é precisamente o caso de Tiradentes, que, embora não fosse nem afetiva nem intelectualmente superior, soube comportar-se com gigantesca generosidade após a inconfidência, além de ter sido um dos grandes propagandistas e difusores do ideal de república independente entre o povo e as classes médias das Minas Gerais

5.7.5. É portanto espantoso que haja tanta gente que afirme que seria bom, correto, útil, necessário que um país não tenha heróis, nem símbolos: quem afirma esse tipo de coisa ou desconhece efetivamente a natureza humana ou finge desconhecê-la; em todo caso, presta um enorme desserviço em nome de supostos “realismo”, “criticidade” etc.

5.8.   Passando a reflexão mais diretamente para os dias recentes: é certo que o Brasil tem problemas e desafios que vão muito além do regime político; mas o simples fato de que a figura de Tiradentes é ignorada ou desdenhada – e, por extensão, a República não é valorizada –, isso indica o quão pobres e lastimáveis são nossos sentimentos e nossas idéias políticas atuais

5.8.1. Nesse sentido, é notável, chocante e triste que tudo o que o mais importante jornal do país, a Folha de S. Paulo, tem a dizer de Tiradentes seja apenas que ele “foi transformado em herói pelos militares”, em um artigo aliás anônimo e de 2018, requentado agora em 2026

5.8.2. O argumento institucional, oficial, da Folha de S. Paulo é bem claro: a figura de Tiradentes como herói nacional não tem valor nenhum, por ter sido erigida pelos “militares”, ou seja, por ser um símbolo do militarismo

5.8.2.1.          A instituição do feriado de Tiradentes em “1890, logo após a República”, seria um sinal adicional (ou inicial) do militarismo de tal celebração, na medida em que, para a Folha de S. Paulo, a República teria sido meramente uma quartelada

5.8.2.2.          Essas lamentáveis afirmações da Folha de S. Paulo são feitas de maneira sumária, sem nenhum exame cuidadoso da figura de Tiradentes, de seu papel histórico, das celebrações em seu favor ocorridas contra o Império e a favor da República

5.8.3. Vale notar que a Folha de S. Paulo, embora tenha os relativos méritos de ter feito uma certa oposição ao fascismo (durante 2019 e 2022) e de manter um certo pluralismo editorial, na verdade é um jornal liberal em termos econômicos e políticos que apoiou com entusiasmo convicto o militarismo entre 1964 e o início dos anos 1980; além disso, é um jornal ambígüo a respeito do fascismo e que promove com grande intensidade o identitarismo (seja o feminista, seja o racialista): o desprezo para com Tiradentes é um esforço para, sob um véu hipócrita de “criticidade”, tentar redimir-se pelo militarismo anterior e, ao mesmo tempo, satisfazer o facciosismo particularista dos identitários

5.8.3.1.          Ao mesmo tempo que degrada a figura de Tiradentes sob a desculpa esfarrapada do “militarismo”, a Folha de S. Paulo celebra as figuras próprias ao identitarismo, que são, todas elas, particularistas, facciosistas, que rejeitam a noção de bem comum e de vida compartilhada de maneira fraterna, livre e digna: pura e simplesmente não há como tornar o Brasil um país melhor com tais concepções e tais práticas

5.9.   Em suma:

5.9.1. Celebrar Tiradentes é valorizar alguns dos mais belos, profundos e importantes traços do ser humano em geral e dos brasileiros em particular

5.9.2. Suas virtudes práticas – sejam sua sinceridade e sua honestidade na expressão de seus ideais políticos, sejam seus vínculos com o povo, seja sua firmeza em não trair seus colegas, seja sua firmeza ao ser o único a ir ao patíbulo – são motivo para as mais intensas admiração e emulação

5.9.3. Não é por acaso que nós, positivistas, por meio de Miguel Lemos e Teixeira Mendes, elegemo-lo “protomártir da independência” e integrante da trindade cívica nacional, juntamente com José Bonifácio e Benjamin Constant

5.9.4. Com um profundo tom de lamento, temos que reconhecer que a desvalorização da figura de Tiradentes é um sinal inequívoco da degradação moral, intelectual e prático da vida cívica brasileira: aqueles que agora se dizem contra o militarismo fazem questão de desprezar todos os símbolos e valores que estimulam a fraternidade, a dignidade, a vida livre e pacífica em conjunto

6.     Término da prédica

 

Referências

- Auguste Comte (franc.), Síntese subjetiva (Paris, Exécution Téstamentaire d’Auguste Comte, 2ª ed., 1900): https://archive.org/details/lasynthsesubjec00comtgoog.

- Augusto Comte (franc.), Sistema de política positiva (Paris. J.-B. Baillière, 4ª ed., 1880): https://archive.org/details/systmedepoliti01comt.

- Augusto Comte (port.), Apelo aos conservadores (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores.

- Augusto Comte (port.), Catecismo positivista (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 4ª ed., 1934).

- Darcy Ribeiro (port.): Cândido Mariano da Silva Rondon (Rio de Janeiro, Global, 2017): http://etnolinguistica.wdfiles.com/local--files/biblio%3Aribeiro-1958-indigenista/Ribeiro_1958_OIndigenistaRondon.pdf e https://revistas.usp.br/ra/pt_BR/article/view/110382/108933.

- Gustavo Biscaia de Lacerda (port.), Prédica Positiva “Celebração do Dia do Índio/dos Povos Indígenas e do Dia de Tiradentes” (Curitiba, Igreja Positivista Virtual, 24.Arquimedes.169/18.4.2023): https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2023/04/celebracao-do-dia-do-indiodos-povos.html.

- José Lonchampt (port.), Ensaio sobre a oração (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1896; catálogo da IPB, n. 165): https://archive.org/details/n.-165-jose-lonchampt-ensaio-sobre-a-oracao.

- Luís Lagarrigue (esp.), A poesia positivista (Santiago do Chile, 1890): https://archive.org/details/luis-lagarrigue-a-poesia-positivista-1890_202509.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), As últimas concepções de Augusto Comte (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-i e https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-ii.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), Benjamin Constant: esboço de uma apreciação sintética da vida e da obra do fundador da República Brazileira (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1892): https://archive.org/details/n.120biografiadebenjaminconstantv.1 e https://archive.org/details/n.120biografiadebenjaminconstantv.2.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), O ano sem par (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1900): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-o-ano-sem-par-portug._202312/page/n7/mode/2up.

- Saiba quem foi Tiradentes, homenageado em 21 de abril e transformado em herói pelos militares (Folha de S. Paulo, 21.abr.2018, atualizado em 20.abr.2026): https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/04/militares-transformaram-tiradentes-em-heroi-nacional.shtml.



[1] Tiradentes era contra a escravidão; esse item, todavia, não era compartilhado pelos demais membros da conjura.

20 janeiro 2026

Celebração de Augusto Comte, Rosália e Rondon

No dia 19 de Moisés de 172 (19.1.2026) realizamos a celebração do nascimento de Augusto Comte; seguindo o calendário de comemorações da Igreja Positivista do Brasil, também celebramos a mãe de nosso mestre, Rosália Boyer. Por fim, fizemos uma breve menção a Rondon, cuja transformação ocorreu justamente em 19.1.1958.

A celebração foi transmitida nos canais Positivismo (https://youtube.com/live/emE1MZh85hM) e Igreja Positivista Virtual (https://www.facebook.com/100083198468982/videos/1848315862536670 e https://www.facebook.com/100083198468982/videos/1204025545275641).

As anotações que serviram de base para a exposição oral encontram-se reproduzidas abaixo.

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Celebração do nascimento de Augusto Comte

(19 de Moisés de 172 – 19 de janeiro de 2026) 

1.     Invocação inicial

2.     No dia de hoje retomamos as atividades regulares da Igreja Positivista Virtual

2.1.   Normalmente nossas atividades ocorreriam em uma terça-feira; mas como o aniversário de nosso mestre caiu neste ano em uma segunda-feira, decidimos antecipar em um dia a retomada de nossas atividades

3.     A celebração de hoje não é uma prédica: é um momento puramente cultual

3.1.   Dessa forma, ao contrário do comum das prédicas, hoje não serão possíveis perguntas, dúvidas, comentários em geral

4.     Na data de hoje celebramos o aniversário de nascimento de nosso mestre e pai espiritual, Augusto Comte, nascido em 19 de janeiro (19 de Moisés, na verdade) de 1798 – portanto, há 228 anos

4.1.   Sempre tomando em consideração o calendário de celebrações da Igreja Positivista do Brasil, na data de hoje comemoramos também a memória de Rosália Boyer (1764-1837), mãe de nosso mestre e um de seus anjos da guarda (juntamente com Clotilde e Sofia)

5.     Antes de celebrarmos nosso mestre e sua venerável mãe, devemos também lembrar uma outra data, que infelizmente acaba sendo deixada de lado: trata-se da transformação de Cândido Rondon, ocorrida em 19 de janeiro de 1958 – ela ocorreu, portanto, faz 68 anos

5.1.   Não podendo neste momento entrar em detalhes sobre a vida desse gigantesco positivista, devemos entretanto pelo menos indicar o mínimo de seu título de glória

5.2.   Rondon, explicitamente baseado e orientado pelo Positivismo, estabeleceu um padrão humano, altruísta, generoso – enfim, positivo em todos os melhores sentidos da expressão – de relacionamento entre as tribos indígenas e a civilização ocidental

5.3.   Cessando resolutamente o padrão de exploração e/ou extermínio dos povos indígenas, Rondon aplicou literal e zelosamente a máxima “Morrer se for preciso, matar nunca”

5.3.1. Com isso, Rondon aplicou na prática a política positiva recomendada por Augusto Comte, no sentido de que o Ocidente tem o dever moral de estar à altura de seu desenvolvimento, bem como de dar o exemplo a todos os demais povos no sentido de o que é a política positiva: pacífica, respeitadora dos demais povos

5.4.   É importante insistir que Rondon foi positivista, pois foi apenas a partir do Positivismo que essa política desenvolveu-se – e, aliás, apenas aqui no Brasil: os brasileiros e os estrangeiros não positivistas, bem como muitos dos positivistas não brasileiros, não a aplicaram, quando não a desprezaram

5.5.   Rondon inspirou inúmeros jovens, que, a partir de seu exemplo, seguiram sua atuação como sertanistas e indigenistas – em particular, muitos jovens positivistas

5.6.   Assim, enquanto tivemos Teixeira Mendes como um santo positivista, do ponto de vista moral e intelectual, tivemos Rondon como um herói (mas também como um santo) do ponto de vista prático

5.7.   Por fim, vale notar que, da minha parte, infelizmente só consegui dar-me plenamente conta da importância e da grandeza de Rondon com tardar e graças ao elogio que lhe dedicou Darcy Ribeiro, ao tratar de sua atuação no livro Os índios e a civilização

6.     Celebrar a vida e a obra de Augusto Comte é ao mesmo fácil e difícil:

6.1.   É fácil – pelo menos para quem é positivista ortodoxo – porque conhecemos bem o tema e não há propriamente dificuldade para a exposição

6.2.   Mas, por outro lado, é difícil porque é necessário fazer justiça à sua carreira e, ainda mais, à importância radical e profunda de sua obra – nada menos que a solução definitiva do problema humano, com a constituição da Religião da Humanidade!

7.     Ao mesmo tempo, há sempre uma certa exigência de ineditismo – mas apenas uma certa exigência, na medida em que, considerando o sempre presente relativismo, o pleno ineditismo por definição não é possível e, ainda mais, não é necessário

7.1.   Dessa forma, na presente celebração repetiremos algumas palavras que dissemos no ano passado (a respeito de Augusto Comte) e no ano retrasado (a respeito de Rosália)

7.1.1. Para a celebração de Augusto Comte, basear-nos-emos no que está disponível aqui: https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2025/01/celebracao-do-nascimento-de-augusto.html

7.1.2. Para a celebração de Rosália, basear-nos-emos no que está disponível aqui: https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2024/01/celebracao-de-rosalia-boyer.html

7.2.   Além disso, na sequência recitaremos dois poemas:

7.2.1. Oração anual, de Generino dos Santos

7.2.2. A Augusto Comte, de Charles Jundzill

8.     Passando à celebração de nosso mestre: devemos apresentar algumas breves notas biográficas sobre Augusto Comte; não pretendemos com elas expor um resumo completo de sua vida nem sermos detalhados, nem mesmo apresentar nenhuma novidade: o que importa é indicar as principais etapas de sua vida

8.1.   Nosso mestre nasceu Isidoro Augusto Francisco Xavier Comte, em 19 de janeiro de 1798, em Mompilher (Montpellier), no Sul da França, no departamento do Hérault; era filho de Luís-Augusto Comte e de Rosália Boyer Comte; teve dois irmãos menores, Alice (1800) e Adolfo (1802)

8.2.   Ele fez seus estudos iniciais em sua cidade natal; apresentava uma prodigiosa memória; com 16 anos, em 1814, foi aprovado em primeiro lugar para a Escola Politécnica, para cursar Engenharia em Paris, para lá se dirigindo em seguida; na capital conjugava estudos das ciências com estudos históricos, filosóficos e políticos, em um ambiente de republicanismo; mas foi expulso da Escola devido a uma sublevação estudantil

8.3.   Voltou a Mompilher, onde estudou Medicina por seis meses na famosa escola médica local; por decisão própria, voltou a Paris, onde obteve emprego como jornalista, com Saint-Simon; ele trabalhou com esse conde entre 1817 e 1824 enquanto continuava seus estudos e elaborava os fundamentos de sua obra; assim, em 1822 redigiu o seu “opúsculo fundamental”, o Plano dos trabalhos científicos necessários para reorganizar a sociedade, reeditado em 1824 e no qual fundou a Sociologia, ao apresentar a lei dos três estados, a lei da classificação das ciências e uma densa interpretação histórica da Europa moderna; também em 1825 casou-se com Carolina Massin, em um arroubo de generosidade somado à solidão que sentia

8.4.   Em 1826 suas reflexões científicas fundamentais estavam formuladas e começou a expor publicamente o Curso de filosofia positiva; entretanto, logo no início teve que suspender as exposições, pois sofrera um colapso nervoso, devido à tensão do curso, aos problemas conjugais (Carolina Massin era agressiva e infiel) e aos problemas financeiros; isso o levou a um internamento em uma clínica psiquiátrica, onde ficou por um ano e meio; depois que saiu, a fragilidade de sua situação levou-o ainda a tentar o suicídio: durante toda a recuperação, teve o apoio de sua mãe, Rosália, que, idosa, foi de Mompilher a Paris para ajudá-lo, e de sua esposa, Carolina, que, apesar dos pesares, soube cuidar do marido nessa fase; em 1828 Comte estava novamente em boas condições

8.5.   Em 1830 começou a publicação do Sistema de filosofia positiva, inicialmente chamado de Curso de filosofia positiva; deveria ter quatro volumes, mas teve seis e foi escrito até 1842; em 1841 Sofia Bliaux entrou para o serviço de Comte e, em seguida, Carolina saiu de casa pela última vez, embora o casamento não tenha sido rompido

8.6.   Em abril de 1845 Augusto Comte conheceu a irmã de seu aluno Maximilien Marie, Clotilde; apaixonou-se por ela e procurou aproximar-se dela (era amigo da família); ela era uma pessoa sofrida e pudica e que, por isso, impôs limites às tentativas de aproximação de nosso mestre; mas, apesar de seu ímpeto amoroso, a correção moral de nosso mestre soube respeitar a vontade, os sentimentos e o sofrimento de Clotilde, de modo que aos poucos o relacionamento amadureceu e a confiança mútua desenvolveu-se, com Augusto Comte moderando-se e com Clotilde abrindo-se para ele

8.7.   Os problemas de saúde de Clotilde, agravados por sua situação pessoal e familiar resultaram em seu óbito, em abril de 1846, após um “ano sem par”; a correspondência entre ambos é belíssima, notável e apresenta muitas das mais importantes produções do Positivismo, como as cartas filosóficas sobre a comemoração social, sobre o casamento, sobre o batismo, além das sete máximas, os poemas e as novelas de Clotilde (alguns dos quais, todavia, não eram inéditos); esse relacionamento, com uma mulher excepcional, foi o que permitiu e realizou a fundação da Religião da Humanidade e a ultrapassagem do cientificismo da Filosofia positiva

8.8.   Em 1848 Augusto Comte funda a Sociedade Positivista; nesse ano também começa a publicar as várias obras religiosas: o manifesto político-filosófico Discurso sobre o conjunto do Positivismo, no qual fala publicamente da Religião da Humanidade e do dogma da Humanidade; entre 1851 e 1854 publica a sua obra maior, o Sistema de política positiva, cujo subtítulo resume o seu objeto: “tratado de sociologia instituindo a Religião da Humanidade”; em 1852 publica o Catecismo positivista, em 1855 o Apelo aos conservadores, em 1856 o volume primeiro e único da Síntese subjetiva, além de uma extensa correspondência e um crescente círculo de discípulos

8.9.   Augusto Comte faleceu em 5 de setembro de 1857, talvez devido a câncer do estômago, deixando várias obras inconclusas e projetadas: os volumes 2 a 4 da Síntese subjetiva, livros didáticos, poemas épicos

9.     Vale a pena considerarmos a homenagem prestada a Augusto Comte: é normal, é natural que nós, positivistas, homenageemos nosso fundador; essa homenagem procura evidentemente seguir os parâmetros da Religião da Humanidade, isto é, do culto público, seguindo a orientação humanista, relativa, altruísta do Positivismo

9.1.   Nossa sociedade, seguindo um impulso que vem pelo menos desde o século XVIII, mas que lamentavelmente se intensificou no século XX, combina os hábitos mentais teológicos e a crítica destruidora metafísica, resultando em um ambiente mental e moral degradado, em que as noções de religião e de homenagem religiosa são entendidas como adoração teológica, isto é, com uma forma de adoração mística, fanática, intolerante, incapaz de realismo e de apreciação relativista

9.1.1. É dessa forma que, de maneira hipócrita e contraditória, tanto os teológicos e os metafísicos místicos quanto os metafísicos academicistas encaram o Positivismo, ou melhor, a Religião da Humanidade e o culto público

9.1.1.1.          Quem se mantém mais ou menos vinculado às ficções das divindades considera que a única forma verdadeiro de culto é a sua própria

9.1.1.2.          Aqueles que defendem o negativismo antiteológico, em sua emancipação incompleta, rejeitam qualquer forma de culto

9.2.   Esse amálgama de podridão moral e intelectual, misto de teologia e metafísica, atinge mesmo pessoas que se dizem positivistas ou que, de qualquer maneira, estão próximas de nós, na medida em que elas dizem que é necessário “ultrapassar” Augusto Comte ou, então, dizem ao mesmo tempo que a elaboração filosófica e política de Comte da fase da Religião da Humanidade apresenta aspectos brilhantes mas que a religião é uma concepção de um louco – repetindo, neste último caso, a difamação estimulada por Carolina Massin a fim de lucrar com a Filosofia e de destruir toda a produção religiosa de Augusto Comte (resultante, em última análise, de sua relação com Clotilde)

9.3.   O culto público e o culto privado – como, de resto, a parte cultual da Religião da Humanidade – não são formas de misticismo ou de fanatismo: são o reconhecimento da dívida de gratidão e de dívidas morais, intelectuais e práticas que todos temos para com nossos antecessores

9.3.1. Assim como um servidor da Humanidade deve merecer o culto, a contrapartida desse merecimento é exatamente a dívida de gratidão que devemos saldar e honrar

9.3.2. Além disso, vinculado ao culto e ao dogma da Religião da Humanidade, o neofetichismo fundamenta e dá corpo a essas práticas, satisfazendo necessidades fundamentais do ser humano, em termos de sentimentos, de imaginação, de relacionamento com o ambiente, com os animais, com os outros seres humanos

9.3.3. O culto da Religião da Humanidade, portanto, não é algo místico e fanático, mas, ao contrário, essas críticas é que são o podre amálgama de ciumento exclusivismo e de um seco intelectualismo

9.4.   Dito isso, podemos relacionar – mas sem nos estendermos a respeito – alguns dos elementos mais importantes da obra de Augusto Comte, ou seja, alguns dos elementos que justificam o culto público dedicado a ele:

9.4.1. Em nossas prédicas temos procurado sempre nos referir a produções de positivistas nossos antecessores, de modo a também os homenagear, a valorizar seus esforços e, assim, a combinar a ordem (no caso, a produção de nossos antecessores) com o progresso (nossa própria produção, feita considerando as questões contemporâneas a nós); assim, em 1915, o positivista inglês John Henry Bridges publicou o artigo “The Seven New Thoughts of the Positive Polity” no livro Ilustrações do Positivismo (p. 309-332), em que apresenta sete idéias centrais da política positiva[1]; são elas:

9.4.1.1.          A Humanidade

9.4.1.2.          O método subjetivo

9.4.1.3.          A teoria cerebral

9.4.1.4.          A Moral como ciência suprema

9.4.1.5.          A sociocracia baseada na separação entre os poderes Temporal e Espiritual

9.4.1.6.          A afinidade entre o fetichismo e o Positivismo

9.4.1.7.          O culto superior ao dogma

9.4.2. A relação acima é impressionante e de fato cobre várias das mais importantes concepções de Augusto Comte; vale notar que o fato de elas não serem muito conhecidas, mesmo hoje em dia, indica com clareza as limitações morais, intelectuais e políticas da nossa época

9.4.3. Além da relação acima, modestamente eu sugiro alguns outros itens, sem a menor pretensão de esgotar as possibilidades:

9.4.3.1.          A Religião da Humanidade

9.4.3.2.          As três leis dos três estados

9.4.3.3.          A Sociologia

9.4.3.4.          A classificação das ciências

9.4.3.5.          A teoria da classificação

9.4.3.6.          As concepções de ordem e progresso e a conciliação radical entre ordem e progresso

9.4.3.7.          A noção de altruísmo e sua compatibilidade com o egoísmo

9.4.3.8.          O conjunto do culto positivo

9.4.3.9.          A noção positiva dos “anjos da guarda”

10.   Devemos agora passar à celebração da venerável Rosália, mãe de nosso mestre

10.1.               No dia 19 de Moisés (19 de janeiro) celebra-se o nascimento de Augusto Comte; conforme o belo calendário estabelecido para os cultos públicos da Igreja Positivista do Brasil, também nessa data se celebra Rosália Boyer, mãe de nosso mestre e um de seus anjos da guarda. (Da mesma forma, no dia 5 de setembro celebra-se a transformação de nosso mestre – e Sofia Bliaux)

10.2.               Apesar da importância de Rosália, é notável que haja pouquíssimas indicações de sua vida. As biografias de Augusto Comte escritas pelo dr. Robinet (Notícia sobre a vida e a obra de Augusto Comte) e por José Lonchampt (Epítome da vida e dos escritos de Augusto Comte) apresentam apenas indicações gerais sobre ela, de modo geral relativas ao episódio da crise cerebral de 1826-1827. A biografia que apresenta mais dados sobre Rosália é a de Mary Pickering (Auguste Comte, An Intellectual Biography, v. 1), a despeito do desprezo da autora por Augusto Comte e pelo positivismo e do seu desejo de contradizer tudo o que a tradição positivista (e mesmo a não positivista, a exemplo de Henri Gouhier) disse sobre a vida de Augusto Comte[2]. Também nos valemos do belo volume cultual de Teixeira Mendes, Comte et Clotilde

10.3.               Rosália Boyer Comte nasceu Félicité-Rosalie Boyer em 28 de janeiro de 1764, na pequena comuna de Jonquières (no departamento do Hérault), e faleceu em 3 de março de 1837, em Mompilher (sede do Hérault) – portanto, com a idade de 73 anos

10.4.               A família de Rosália era de Jonquières; seu pai era mercador e vinha de uma conhecida família de doutores. Para os parâmetros da época, ela casou-se tarde, com 32 anos, em 1796, em Montpellier, e teve quatro filhos: Augusto (1798), Alice (1800), um logo falecido (em 1801) e Adolfo (1802). Na medida em que seu marido, Luís-Augusto Comte, passava a maior parte do tempo fora de casa, no trabalho, Rosália era a figura mais importante da casa; segundo a expressão de Augusto Comte em 1837, após a morte de sua mãe, ela também era a “figura mais apaixonada” da casa. Ainda segundo nosso mestre, fisicamente ele parecia-se com seu pai, mas suas características morais eram mais conforme sua mãe: seus sentimentos, sua inteligência, seu caráter. Apesar disso, as relações de Comte com sua mãe (e com seu pai) não eram muito próximas durante a infância de nosso mestre; os seus estudos foram realizados no liceu local, o que o afastava dos pais (e principalmente da mãe); mais tarde, com sua mudança para Paris, essa distância aumentou ainda mais, em particular devido às diferenças de opinião entre eles. Rosália era católica praticante e levava a sério as explicações teológicas da vida; além disso, ela compartilhava as opiniões monarquistas do seu marido

10.5.               Com a idade de 16 anos Augusto Comte foi admitido na Escola Politécnica, tendo obtido o primeiro lugar nos exames do Centro-Sul do país; a partir daí, apesar de uma temporada de retorno a Mompilher, Paris tornou-se a cidade do filósofo. Apesar disso, em Paris, as dificuldades financeiras, as opiniões políticas e filosóficas, as relações sociais (incluindo Saint-Simon) e, depois, também o casamento com Carolina Massin foram motivos de grande tensão entre Augusto Comte e seus pais

10.6.               A correspondência entre Augusto Comte e sua família (mãe, pai, irmã) indica reiterados pedidos de dinheiro da parte do filósofo, assim como cobranças da parte da família para que ele estabelecesse-se na vida, obtivesse um bom emprego, afastasse-se das más companhias, voltasse à religião católica etc. Isso gerou animosidade profunda de parte a parte, que só foi começou a ser revertida após a morte de Rosália, em 1837, e que só mudou efetivamente em 1855, com a reconciliação de Augusto Comte com seu pai

10.7.               Além dessa tensa e constante troca de cartas, o episódio mais importante da vida de Rosália para Augusto Comte já adulto foi o do acompanhamento da crise cerebral de 1826 e 1827

10.8.               Como se sabe, em 19.2.1825 Augusto Comte casou-se com Carolina Massin, contra a mais viva resistência dos pais. Um ano depois, em 2.4.1826, ele começou as aulas orais do “Curso de filosofia positiva”: entretanto, as enormes exigências intelectuais do curso, somadas ao comportamento reprovável de Carolina, bem como às dificuldades materiais do casal, conduziram Augusto Comte a uma crise nervosa após a terceira sessão do curso. Em 18.4.1826 Augusto Comte foi recolhido à clínica psiquiátrica do Esquirol, com o auxílio de Blainville. Mais tarde, no “Prefácio pessoal” do v. 6 do Sistema de filosofia positiva, de 1842, Augusto Comte observaria que essa crise por si só se resolveria naturalmente, caso o tratamento dispensado fosse o cuidado físico e a proteção moral; mas tanto o tratamento físico quanto os remédios aplicados por Esquirol e o ambiente alienado de sua clínica mantiveram e agravaram seu estado alterado

10.9.               Enfim, essa internação foi mantida em sigilo, para evitar prejudicar a reputação de Augusto Comte, de modo que nem a família Comte em Mompilher sabia do ocorrido. Mas o pai de Carolina escreveu uma carta à família Comte descrevendo o ocorrido; essa carta chegou em 17.5.1826: no dia seguinte Rosália partiu rumo a Paris, apesar da dureza e da duração da viagem e apesar de ter, à época, 62 anos e uma saúde mais ou menos frágil

10.10.             Sendo católica e detestando Carolina Massin, as primeiras ações de Rosália em Paris foram no sentido de tentar tirar Augusto Comte do Esquirol e/ou levá-lo para Mompilher ou interná-lo em alguma instituição católica. Como ambas essas iniciativas falharam, ela tentou em seguida realizar uma “intervenção” judicial, em que Augusto Comte seria tutelado por seu pai e residiria em sua cidade natal: uma reunião para essa intervenção realmente ocorreu, em 15.6.1826, mas, em face do estado do doente, foi necessária uma nova reunião subseqüente, que foi obstada por Carolina. A participação de Carolina em ambos os episódios foi depois considerada por Augusto Comte como a única ação verdadeiramente digna da sua esposa oficial

10.11.             A partir daí, Rosália e Carolina mais ou menos fizeram as pazes em prol do restabelecimento de Augusto Comte. Rosália só conseguiu autorização de Esquirol para ver o filho em 15.9.1826; em todo caso, Rosália ia à clínica todos os dias. Com a persistência do problema – e considerando os altos custos da clínica –, decidiu-se que seria melhor tirar Augusto Comte de lá, talvez para levá-lo a Montpellier; em 2.12.1826 ele voltou para o lar conjugal, onde, por insistência de Rosália e graças à intermediação do padre Lammenais, realizou-se imediatamente uma cerimônia católica de casamento, apesar de Augusto Comte não estar nas mínimas condições de participar dela. Após isso, Rosália partiu de Paris; reinstalado em sua casa, em um ambiente mais sadio, aos poucos ele recuperou sua normalidade. (Apesar disso, ao longo de 1827 ele manteve-se tenso e suscetível; assim, em abril desse ano ele tentou o suicídio no rio Sena, durante o dia. Salvo por um guarda real, envergonhado por sua ação, ele tomou a decisão de buscar ativamente o restabelecimento)

10.12.             Em agosto de 1828 Augusto Comte publicou o oitavo e último dos seus “opúsculos de juventude”, o exame do livro de Broussais sobre a irritação e a loucura. Por fim, em 4.1.1829, dois anos e meio após o início da primeira exposição oral do “Curso de filosofia positiva”, Augusto Comte reiniciou, desde a primeira lição, o curso

10.13.             Enfim: após a saída de Augusto Comte da clínica de Esquirol e a cerimônia católica de casamento, Rosália voltou a Mompilher; ela nunca mais veria o filho e este, desde 1825 (após o casamento com Carolina), nunca mais viu a mãe em condições de plena sanidade. Ainda assim, ao longo do primeiro semestre de 1827, ela enviou-lhe regularmente pequenas economias, para ajudar nosso mestre

10.14.             Quando Rosália faleceu em 1837, Augusto Comte aproveitou as viagens que ele fazia pelo Centro-Sul da França como examinador da Escola Politécnica para ir a Montpellier e visitar a família, hospedando-se na casa dos pais. Foi então que afirmou a importância da mãe em sua infância e em seu caráter; da mesma forma, a partir daí reconheceu – e lamentou – a relativa pouca influência que ela teve sobre ele, devida em parte ao sistema educacional de que participou, em parte devido ao que ele desejava para sua vida

10.15.             As limitações nas relações com sua mãe foram parcialmente corrigidas, e acima de tudo foram valorizadas e cultuadas, durante a carreira religiosa de Augusto Comte:

10.15.1.                 com o reconhecimento e com o lamento, no “prefácio” ao v. 1 do Sistema de política positiva, da sua falta de ternura para com sua mãe;

10.15.2.                 no Catecismo positivista, com a instituição dos “anjos da guarda”, em particular com os três anjos particulares de Augusto Comte: Clotilde, Rosália e Sofia;

10.15.3.                 com a previsão de dedicatória dos dois volumes da Moral positiva (volumes 2 e 3 da Síntese subjetiva, dedicados respectivamente à Moral Teórica e à Moral Prática) a Rosália;

10.15.4.                 com as suas preces cotidianas sendo dirigidas principalmente a Clotilde, mas também a Rosália e a Sofia;

10.15.5.                 com a sua planejada inumação entre seus três anjos da guarda.

10.16.             No velório de Augusto Comte, de 5 para 8 de setembro de 1857, lia-se a seguinte inscrição no caixão: “À la digne mère d’Auguste Comte, Rosalie Boyer, née le 28 janvier 1764, à Jonquières (Hérault), et dècèdée le 3 mars 1837, à Montpellier”[3].

10.17.             Rosália teve seus defeitos e, por vezes, agiu de maneira que não foi valorizada por Augusto Comte. Apesar disso – e essa restrição, o “apesar disso”, é central para nós –, ela foi uma pessoa que se preocupou, ao longo de toda a sua vida, com seus filhos e com sua família, mesmo que à distância; assim, literalmente, ela foi um anjo da guarda para Augusto Comte

10.17.1.                 Isso representa bem em que consiste a idealização proposta pelo Positivismo, ou melhor, pela Religião da Humanidade, especialmente no caso das mulheres: a dedicação com vistas ao aperfeiçoamento moral dos seres humanos

11.   Passemos à leitura de dois poemas em homenagem a nosso mestre:

11.1.               Oração anual, de Generino dos Santos

11.2.               A Augusto Comte, de Charles Jundzill

12.   Invocação final 

*   *   * 

ORAÇÃO ANUAL

A Augusto Comte incorporado

(Generino dos Santos)

 

In te misericordia, in te pietate,

In te magnificenza, in te s’aduna

Quantunque in creatura é de bontate[4].

(DanteDel Paradiso, Canto XXXIII, v. 19-21.)

 

             Tu, que ensinaste a amar a Humanidade,

E a conhecê-la por melhor servi-la,

Subordinando o egoísmo que aniquila

Do providente altruísmo à majestade;

 

E, sobre a lei da sociabilidade

De nossa espécie, a evoluir tranqüila,

O Grande Ser criaste, que assimila

E dá “quanto em Ti mesmo há de bondade”:

 

Mestre! alma obscura e agradecida

Que te ama, embora em cérebro inda inculto,

Vos deve a inteira e religada vida;

 

Em vem humildemente ante teu vulto,

Que paira sobre a espécie redimida,

Render-te esponte afetuoso culto.

 

(Rio, 24 de Gutenberg de 103 – 5 de setembro de 1891.) 

*   *   * 

A AUGUSTO COMTE

Esboço poético sobre o fundador do Positivismo[5]

(Charles Jundzill)

 

Quando em toda parte o solo

Sob os destroços se abala;

Quando o céu, de pólo a pólo,

Para que todo estala,

Nosso ânimo assombrado

Repousa o olhar desvairado

Nesse mundo a se arruir!

Buscando nesse naufrágio

O esperançoso presságio

Da salvação do Porvir.

 

Nosso séc’lo em desvario

Assim corria aos azares,

Qual se vê frágil navio

Entregue à fúria dos mares!

Saído da luta rude,

Que ameaçava a virtude,

Toda crença devorando,

Seu último íd’lo partido,

No vago desconhecido

Sem norte se ia engolfando.

 

Mas já por entre a ruína

Um novo símb’lo fulgura!

Grata luz nos ilumina

Que o mais belo dia augura!

Terrores de nossa idade,

Sumi-vos! Que a Humanidade

Jamais pode sucumbir!

Em vão se a crê que esvaece!

Engano! Rejuvenesce

Para um glorioso porvir...

 

A ti, Comte, a glória eterna

De, vencendo atrás torturas,

Achar a fonte superna

Da fé das eras futuras!

Debalde o Mundo em delírio,

Nas vascas do cru martírio,

Do erro a voz escutava;

Já teu gênio penetrante

De uma harmonia constante

As firmes leis formulava.

 

Enquanto a dúvida esgota

A seiva das velhas crenças,

Do tempo inquirindo a rota

As mutações lhe condensas:

E na onda movediça

Da evolução quebradiça

Das priscas opiniões,

Teu sublime engenho integra

Os elementos e a regra

Das modernas construções.

 

A ciência fica senhora

Quando a fé por fim naufraga.

Cada vez mais a vigora

Lei fatal que tudo esmaga.

Fornece ela o chão propício,

Alicerce do edifício

Da verdadeira união;

Teu labor por ela enceta,

E dela por ti completa

Tiraste a religião.

 

Do Mundo o extremo recesso

Sua luz já penetrara:

E da vida em seu progresso

A fértil lei desvendara;

Mas no ínclito sistema

Falta a ciência suprema

Que a meta final assina:

Revinha a questão urgente

Com que sempre a nossa mente

A Humanidade domina.

 

Dessa existência sem par

Restava ler os arcanos:

A marcha eterna apanhar

De seus passos soberanos!

Restava, e foi tua glória,

Traçar o plano da história

Que enfim nos fez descobrir

Como, nas eras correndo,

Qual da fonte um rio nascendo

Sai do Passado o Porvir.

 

Destarte finda, a ciência

As razões de tudo alcança;

Nessa base a inteligência

Os seus esforços descansa.

Desde então se mostra o mundo,

No seu concerto profundo,

A nossos livres olhares,

Como vasta economia,

Sujeita a certa harmonia

Sem caprichosos azares.

 

A Humanidade resume

As nossas cogitações;

A Ela sobe o perfume

Das mais santas afeições;

Foi Ela o ideal propício

Que pressentira o início

Dos povos na infância terna;

A Ela o homem se prostra,

E seu reino o fim só mostra

Da tempestade moderna.

 

Tal era o problema ingente

A que só teu gênio iguala!

O teu supremo ascendente

Toda dádiva avassala!

Que o vulto de nossas eras

Correndo após vãs quimeras

Os teus louvores postergue!

O Porvir, cujo mistério

Desvendaste, infindo império

Por entre bênçãos te ergue!

 



[2] As opiniões da autora são expostas ao mesmo tempo em que ela cita – mas não reproduz! – centenas de documentos, muitos dos quais inéditos; assim, os leitores temos pura e simplesmente que confiar na autoridade da autora. Inversamente, postura bem diversa foi adotada pelos positivistas: Miguel Lemos e Teixeira Mendes citavam extensa e profusamente Augusto Comte, tanto em português quanto em francês; da mesma forma, o dr. Robinet incluía em seus livros centenas de páginas de “peças justificativas”: com isso, qualquer leitor podia, como pode, avaliar as opiniões dos autores e historiadores a partir do cotejo direto com as personalidades citadas.

[3] “À digna mãe de Augusto Comte, Rosália Boyer, nascida em 28 de janeiro de 1764, em Jonquières (Hérault), e falecida em 3 de março de 1837, em Montpellier”.

[4] Segundo a tradução usada na Igreja Positivista do Brasil:

Em Ti misericórdia;

Em Ti piedade;

Em Ti magnificência;

Em Ti concorre

Tudo quanto no mundo

Há de bondade.

[5] Esse poema é de 1852 e foi originalmente publicado por Augusto Comte como quarto anexo do “Prefácio” do v. I da Síntese subjetiva (1856, p. L-LIII). Charles Jundzill era polonês; nascido em 1826, faleceu em 1856.

A presente tradução é de R. Teixeira Mendes e foi publicada no opúsculo n. 134 do catálogo da Igreja Positivista do Brasil (19 de Moisés de 113 – 19 de janeiro de 1901).