No dia complementar do ano de 171 (31.12.2025) celebramos a Festa Universal dos Mortos, em um momento puramente cultual.
A celebração foi transmitida nos canais Positivismo (https://youtube.com/live/OmourC0bxdU) e Igreja Positivista Virtual (https://www.facebook.com/IgrejaPositivistaVirtual/videos/841465818712249).
As anotações que serviram de base para a exposição oral encontram-se reproduzidas abaixo.
* * *
Festa Universal dos Mortos (171-2025)
Quem deixa um nome pode morrer?
O olvido é o nada; a glória é a outra vida!
A pedra do sepulcro é seu primeiro altar.
1. Abertura
2. Antes de mais nada, um lembrete e um aviso necessário: a celebração de hoje não é uma prédica, mas é um momento puramente cultual
2.1. Assim, embora sempre estimulemos a participação ao vivo, hoje isso não será possível, pois não é adequada
3. O dia de hoje, como sabemos, é o último dia do ano
3.1. No calendário positivista, ele não integra nenhum mês; ele corresponde a um dia complementar, necessário a que, do ponto de vista matemático-astronômico, o ano tenha de fato 365 dias (nos anos bissextos temos mais um dia complementar)
3.1.1. Trezes meses, cada um com 28 dias, dá um total de 364 dias: falta um dia
3.2. Como o calendário não tem por função apenas – na verdade, nem prioritariamente – regular a passagem do tempo, mas regular os cultos religiosos, a consagração do dia complementar a alguma função religiosa seria uma necessidade: daí ele ser dedicado à Festa Universal dos Mortos
4. O dia de hoje encerra o ano lembrando-nos dos que já se foram e prepara-nos para, no dia seguinte, realizarmos a festa de todos os seres humanos convergentes, a Festa da Humanidade
4.1. Assim, é uma celebração que integra ao mesmo tempo um ciclo e um desenvolvimento contínuo
4.2. Esse comentário – sobre o ciclo e o desenvolvimento contínuo – pode parecer curioso, talvez mesmo intelectualista, mas na verdade é uma reflexão necessária, tanto em termos só intelectuais quanto para preocupações do dia a dia: afinal de contas, todos nós dizemos, em diferentes momentos, que “nada nunca muda” (logo, tudo é igual, tudo é repetitivo, ou seja, tudo é cíclico) e também que “tudo muda o tempo todo” (logo, nada se mantém, ou seja, tudo altera-se ao longo do tempo)
5. A realidade humana é ao mesmo tempo cíclica e cambiante ao longo do tempo
5.1. Reconhecer esse duplo caráter não é fácil; mais uma vez: isso gera dificuldades para cada um de nós no dia a dia e mesmo os intelectuais têm grandes problemas para entendê-lo
5.2. Na verdade, esse duplo aspecto integra a realidade cósmica:
5.2.1. Há fenômenos que se repetem ao longo do tempo: de modo específico e exemplar, os fenômenos astronômicos (os dias, as fases da Lua, os anos, as estações)
5.2.2. Da mesma forma há fenômenos que se desenvolvem ao longo do tempo: de maneira muito clara, aqueles que se acumulam com o tempo, ou seja, as questões históricas (o desenvolvimento da Terra, as mudanças biológicas, a história humana propriamente dita, o desenvolvimento individual)
5.3. O caráter ao mesmo tempo cíclico e evolutivo da realidade e, por extensão, do ser humano, é consagrado pelo Positivismo nas noções de “Estática” e “Dinâmica” e, considerando a filosofia política, na fórmula “Ordem e Progresso”
5.4. O desenvolvimento histórico ocorre ao longo do tempo, sendo marcado ao mesmo tempo e necessariamente pelos aspectos cíclicos: daí a necessidade imperiosa de, ao longo de nossas vidas e de nossas histórias, celebrarmos periodicamente alguns valores e algumas concepções – na data da hoje, a Festa Universal dos Mortos
6. O culto aos mortos ocorre desde que o ser humano existe; ele é uma forma de respeito e gratidão
6.1. Quando pensamos no fetichismo, o culto aos mortos é uma conseqüência imediata dessa forma de entender o mundo: afinal de contas, se tudo é vivo, quando uma pessoa – ou, de modo mais amplo, quando um ser vivo – deixa de viver, ou seja, quando ele morre, essa morte corresponde não à cessação da vida, mas a uma transformação da vida; o culto aos mortos, nesse caso, corresponde a um diálogo e a um comércio contínuos,
6.2. No politeísmo e, ainda mais, no monoteísmo, os corpos deixam de ser animados por si sós; seu movimento é dado pela vontade divina, pelo “sopro” dos deuses que insere nos corpos as “almas” (essa é a explicação teológica da respiração e da consciência): os corpos, assim, são meramente pedaços de carne, sem valor nenhum (é essa a mentalidade brutal que justifica a prática da cremação): o culto aos mortos, nesses casos, corresponde por um lado a uma inconfessada e inconfessável permanência do fetichismo no politeísmo e, ainda mais inconfessável, no monoteísmo e, por outro lado, a uma tentativa de obter a intermediação dos mortos para os pedidos feitos pelos vivos às divindades
7. Na Religião da Humanidade, o culto aos mortos é entendido de maneira subjetiva
7.1. Enquanto na teologia a vida é entendida sempre e apenas de uma perspectiva objetiva (seja nesta realidade, seja em um irreal “além” ), no Positivismo a vida é entendida ao mesmo tempo como objetiva e subjetiva:
7.1.1. A troca simultânea, constante e permanente entre o corpo e o ambiente é a vida propriamente dita, entendida de maneira objetiva; já a memória que temos dos mortos é a vida subjetiva – e é aí, subjetivamente, que realizamos o culto aos mortos
8. A fórmula positiva que resume o caráter objetivo e subjetivo do culto aos mortos e que, no fundo, resume a existência humana, é esta: “Os vivos são sempre e cada vez mais, necessariamente, governados pelos mortos”
8.1. Eis um trecho de nosso mestre em que a fórmula acima é exposta e explicada (Catecismo, 2ª Conferência, p. 74-75):
Assim, a verdadeira sociabilidade consiste mais na
continuidade sucessiva do que na solidariedade atual. Os vivos são sempre, e
cada vez mais, governados necessariamente pelos mortos: tal é a lei fundamental
da ordem humana.
Para se conceber melhor esta lei, cumpre
distinguir, em cada verdadeiro servidor da humanidade, duas existências
sucessivas: uma, temporária, mas direta, constitui a vida propriamente dita; a
outra, indireta, mas permanente, só começa depois da morte. Sendo a primeira
sempre corporal, pode ser qualificada de objetiva; sobretudo por contraste com
a segunda, que, não deixando subsistir a cada um senão no coração e no espírito
de outrem, merece o nome de subjetiva. Tal é a nobre imortalidade,
necessariamente imaterial, que o positivismo reconhece à nossa alma,
conservando este termo precioso para designar o conjunto das funções
intelectuais e morais, sem nenhuma alusão à entidade correspondente.
8.2. Enquanto os fetichistas e, nós, positivistas celebramos com alegria o culto aos mortos, os teológicos – em particular os cristãos – vêem como algo ruim esse culto e, especialmente, a fórmula “Os vivos são sempre...”:
8.2.1. Para teológicos, essa fórmula tem um aspecto lúgubre, assim como os cemitérios: em vez de entenderem o culto de maneira subjetiva, eles consideram-no como algo objetivista, cujo resultado seria reviver os mortos, que se levantariam dos túmulos como seres humanos “desmortos”, em boas condições ou como zumbis
8.2.2. Por outro lado, os metafísicos, especialmente os materialistas, rejeitam totalmente o culto aos mortos, encarando-o como algo sem sentido – e, mais recentemente, temos alguns metafísicos liberais particularmente ignorantes do Positivismo (e, não por acaso, adeptos do “não li, não conheço, faço questão de não ler mas não gosto de nada do que estou falando”) querendo negar a historicidade e a subjetividade presente na fórmula “Os vivos são sempre....”
9. Mas o que importa notarmos é que é uma celebração acima de tudo de gratidão
9.1. Ao celebrarmos os mortos, o que fazemos é agradecer-lhes tudo o que recebemos e, daí, tudo o que torna possível a nossa vida
9.2. Nossa triste época metafísica rejeita o culto aos cultos e a gratidão por seus serviços afirmando que tais serviços não existiriam ou que seriam muito menores do que parecem, em virtude dos graves problemas que enfrentamos no mundo: guerras, fome, violência atual e anteriores
9.3. Certamente que o mundo atual tem muitos problemas e que muita gente sofre bastante, seja devido à crueldade de outrem, seja também devido à falta de condições materiais, intelectuais e morais para viverem bem e com dignidade
9.4. Ainda assim, o fato é que, ao longo do tempo (que está no âmbito das centenas de milhares de anos), o ser humano foi trabalhando, acumulando, sacrificando-se, sofrendo, mas também buscando melhorar, realizar coisas boas – enfim, buscando legar para o futuro, para seus descendentes, melhores condições de vida em termos morais, intelectuais e práticos
9.5. Se hoje consideramos que muita gente sofre e sofreu de maneira injusta – e concordamos totalmente com essa apreciação –, o fato é que essa forma de entender o mundo, os sentimentos envolvidos e mesmo os meios técnicos de remediar tais problemas – tudo isso se desenvolveu ao longo do tempo, graças aos esforços de nossos antepassados
9.6. Além disso – e este é um aspecto fundamental, que a metafísica desconhece ou que finge desconhecer –, a sensação de injustiça tem que ser necessariamente complementada, quando não ultrapassada, pelo sentimento de gratidão, pois, do contrário, não caminharemos para a efetiva solução dos problemas, mas ficaremos apenas na revolta, não caminharemos para o altruísmo, a fraternidade e a paz, mas ficaremos na raiva e na violência
9.7. O que a fórmula “Os vivos são sempre e cada vez mais, necessariamente, governados pelos mortos” indica é que o que chamamos de “ser humano”, ou melhor, a Humanidade é acima de tudo a massa de seres humanos passados, ou seja, dos mortos, cuja atuação acumulada permite que nós, vivos, atuemos e preparemos as condições de vida de nossos descendentes, do futuro
10. Resumindo o que dissemos: em face da atuação dos antepassados, o sentimento que devemos ter é o de gratidão: essa é a única forma de reconhecermos e valorizarmos o que eles fizeram e que nos legaram; ao mesmo tempo, é a única forma de reconhecermos que devemos tudo a eles e que, em comparação com eles, somos poucos, somos inferiores e que, de qualquer maneira, somos tão imperfeitos quanto a nossa arrogância atual – a nossa vergonhosa arrogância metafísica atual – insiste em fingir que não somos
11. Nossa gratidão para com os mortos não precisa e não pode ser só com os mortos “em geral”; na verdade, ela pode e deve começar com os mortos de nossas famílias, estender-se para os grandes mortos de nossas pátrias e então se estender para os mortos universais: nossos pais, irmãos, avós, tios, sobrinhos, mesmo filhos; depois amigos, compatriotas, líderes, chefes, subordinados; finalmente, os grandes seres humanos a quem devemos o desenvolvimento coletivo
11.1. Dito isso, há alguns nomes em que podemos e devemos inverter a seqüência acima: pensamos em particular em nossos pais espirituais, Augusto Comte e Clotilde de Vaux, bem como nos grandes apóstolos Miguel Lemos, Teixeira Mendes, Jorge e Luís Lagarrigue e muitos outros
12. Para concluir este culto, desejamos ler alguns poemas de positivistas, que realizam de maneira direta ou indireta outra o culto aos mortos:
12.1. Oração no campo-santo, de Martins Fontes
12.2. Viver para outrem, de Martins Fontes
12.3. O Coro invisível, de George Eliot
* * *
ORAÇÃO NO CAMPO-SANTO
No Dia das Santas Mulheres
Santa Mônica – Santa Pulquéria – Santa Genoveva – Santa Clotilde – Santa Batilde – Santa Matilde de Toscana – Heloísa – Beatriz – Branca de Castela – Santa Isabel da Hungria – Maria de Molina – Santa Catarina – Joana d’Arc – Isabel de Castela – Marina – Santa Teresa – Sofia Germain – Elisa Mercoeur – Rosália Boyer – Clotilde de Vaux – Sofia Bliaux.
Recebei, acolhei, almas cheias de graça,
A oferenda floral de um jardineiro inculto,
E desça, como um luar, de piedade e de indulto,
A Vossa proteção sobre o pobre que passa.
Eu, entre meus irmãos, a adorar-Vos exulto,
Sem achar o louvor com que me satisfaça,
Tanto a expressão humana é volátil e escassa,
Para bem traduzir ou conter o meu culto.
Seja a crença qual for, ou quais forem as seitas,
Viva e perpetuamente os Vossos fiéis proclamem
Vossa sublimidade, ó Mulheres Perfeitas!
Ergam-se as mãos em preces e os que sofrem Vos chamem
Lírios do eterno Amor, Milagrosas Eleitas!
Amem-nos sempre em Vós e só por Vós nos amem.
* * *
VIVER PARA OUTREM
Amem te plus quam me,
nec me nisi propter te[1].
Ama. Por teus pendores afetivos
Alcançarás a bem-aventurança.
E aqui mesmo na Terra os lenitivos
Hás de ter da doçura e da esperança.
Multiplica-te. Em beijos subjetivos,
Consola, como quem nunca se cansa
De legar e acrescer os donativos
Inesgotáveis de uma eterna herança.
Bem amar, é tão bom, meu confidente,
Que é melhor do que sermos bem amados,
Como demonstra a vida transcendente.
Pensa, evocando os teus antepassados,
Que os vivos, pelos mortos, moralmente,
Sempre, e cada vez mais, são governados.
* * *
Ó, que eu possa juntar-me ao coro
invisível
Longum illud tempus, quum non ero, magis me movet, quam hoc exiguum[2].—CICERO, ad Att., xii, 18.
Ó, que eu possa juntar-me ao coro invisível
Desses imortais mortos que vivem novamente
Em mentes feitas por suas presenças: vivem
Em pulsos agitados pela generosidade
Em feitos de desafiadora retidão – que desprezam
Os objetivos mesquinhos que se encerram em si mesmos –,
Em sublimes pensamentos que perfuram a noite como estrelas
E com sua meiga persistência persuadem os homens a buscarem
Temas mais vastos
Assim, o paraíso é viver:
Para fazer música imorredoura no mundo,
Respirando como a bela ordem que controla
Com crescente balanço a crescente vida do homem.
Assim, nós herdamos essa doce pureza
Pela qual lutamos, falhamos e agonizamos
Com retrospecto que se amplia aquele desespero criado.
Carne rebelde que não seria subjugada,
Um genitor vicioso ainda infamando sua criança,
Pobre e ansiosa penitência, é rapidamente dissolvida;
Suas discórdias, extintas por harmonias reunidas,
Morrem no amplo e caritativo ar
E todos os nossos mais raros, mais verdadeiros e melhores âmagos,
Que choraram religiosamente em canção ansiosa,
Que vigiou para minorar o fardo do mundo,
Laboriosamente traçando o que deve ser,
E o que deve ainda ser melhor – viram dentro
Uma imagem mais valorosa para o santuário,
E moldaram-no adiante, antes da multitude
Divinamente humana, elevando a adoração
Para tão mais alta reverência, mais misturada com o amor –
Que melhor âmago viverá até que o Tempo humano
Dobre suas pálpebras e o céu humano
Seja unido como um rolo no seio da tumba
Não lida para sempre.
Essa é a vida que virá,
Que homens martirizados tornaram mais gloriosa
Para nós que nos esforçamos para seguir. Possa eu alcançar
Esse paraíso mais puro, ser para outras almas
A taça de força em alguma grande agonia,
Acender o ardor generoso, alimentar o puro amor,
Procriar os sorrisos que não têm crueldade,
Ser a doce presença de um difundido bem
E que se difunde sempre mais intensamente.
Assim, que eu junte-me ao invisível coro
Cuja música é a alegria do mundo.
* * *
13. Término




