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01 janeiro 2026

Festa Universal dos Mortos (171-2025): gratidão, humildade, esperança

No dia complementar do ano de 171 (31.12.2025) celebramos a Festa Universal dos Mortos, em um momento puramente cultual.

A celebração foi transmitida nos canais Positivismo (https://youtube.com/live/OmourC0bxdU) e Igreja Positivista Virtual (https://www.facebook.com/IgrejaPositivistaVirtual/videos/841465818712249).

As anotações que serviram de base para a exposição oral encontram-se reproduzidas abaixo.

* * *

Festa Universal dos Mortos (171-2025)

 

Quem deixa um nome pode morrer?

O olvido é o nada; a glória é a outra vida!

A pedra do sepulcro é seu primeiro altar.

(Eliza Mercoeur) 

1.     Abertura

2.     Antes de mais nada, um lembrete e um aviso necessário: a celebração de hoje não é uma prédica, mas é um momento puramente cultual

2.1.   Assim, embora sempre estimulemos a participação ao vivo, hoje isso não será possível, pois não é adequada

3.     O dia de hoje, como sabemos, é o último dia do ano

3.1.   No calendário positivista, ele não integra nenhum mês; ele corresponde a um dia complementar, necessário a que, do ponto de vista matemático-astronômico, o ano tenha de fato 365 dias (nos anos bissextos temos mais um dia complementar)

3.1.1. Trezes meses, cada um com 28 dias, dá um total de 364 dias: falta um dia

3.2.   Como o calendário não tem por função apenas – na verdade, nem prioritariamente – regular a passagem do tempo, mas regular os cultos religiosos, a consagração do dia complementar a alguma função religiosa seria uma necessidade: daí ele ser dedicado à Festa Universal dos Mortos

4.     O dia de hoje encerra o ano lembrando-nos dos que já se foram e prepara-nos para, no dia seguinte, realizarmos a festa de todos os seres humanos convergentes, a Festa da Humanidade

4.1.   Assim, é uma celebração que integra ao mesmo tempo um ciclo e um desenvolvimento contínuo

4.2.   Esse comentário – sobre o ciclo e o desenvolvimento contínuo – pode parecer curioso, talvez mesmo intelectualista, mas na verdade é uma reflexão necessária, tanto em termos só intelectuais quanto para preocupações do dia a dia: afinal de contas, todos nós dizemos, em diferentes momentos, que “nada nunca muda” (logo, tudo é igual, tudo é repetitivo, ou seja, tudo é cíclico) e também que “tudo muda o tempo todo” (logo, nada se mantém, ou seja, tudo altera-se ao longo do tempo)

5.     A realidade humana é ao mesmo tempo cíclica e cambiante ao longo do tempo

5.1.   Reconhecer esse duplo caráter não é fácil; mais uma vez: isso gera dificuldades para cada um de nós no dia a dia e mesmo os intelectuais têm grandes problemas para entendê-lo

5.2.   Na verdade, esse duplo aspecto integra a realidade cósmica:

5.2.1. Há fenômenos que se repetem ao longo do tempo: de modo específico e exemplar, os fenômenos astronômicos (os dias, as fases da Lua, os anos, as estações)

5.2.2. Da mesma forma há fenômenos que se desenvolvem ao longo do tempo: de maneira muito clara, aqueles que se acumulam com o tempo, ou seja, as questões históricas (o desenvolvimento da Terra, as mudanças biológicas, a história humana propriamente dita, o desenvolvimento individual)

5.3.   O caráter ao mesmo tempo cíclico e evolutivo da realidade e, por extensão, do ser humano, é consagrado pelo Positivismo nas noções de “Estática” e “Dinâmica” e, considerando a filosofia política, na fórmula “Ordem e Progresso”

5.4.   O desenvolvimento histórico ocorre ao longo do tempo, sendo marcado ao mesmo tempo e necessariamente pelos aspectos cíclicos: daí a necessidade imperiosa de, ao longo de nossas vidas e de nossas histórias, celebrarmos periodicamente alguns valores e algumas concepções – na data da hoje, a Festa Universal dos Mortos

6.     O culto aos mortos ocorre desde que o ser humano existe; ele é uma forma de respeito e gratidão

6.1.   Quando pensamos no fetichismo, o culto aos mortos é uma conseqüência imediata dessa forma de entender o mundo: afinal de contas, se tudo é vivo, quando uma pessoa – ou, de modo mais amplo, quando um ser vivo – deixa de viver, ou seja, quando ele morre, essa morte corresponde não à cessação da vida, mas a uma transformação da vida; o culto aos mortos, nesse caso, corresponde a um diálogo e a um comércio contínuos,

6.2.   No politeísmo e, ainda mais, no monoteísmo, os corpos deixam de ser animados por si sós; seu movimento é dado pela vontade divina, pelo “sopro” dos deuses que insere nos corpos as “almas” (essa é a explicação teológica da respiração e da consciência): os corpos, assim, são meramente pedaços de carne, sem valor nenhum (é essa a mentalidade brutal que justifica a prática da cremação): o culto aos mortos, nesses casos, corresponde por um lado a uma inconfessada e inconfessável permanência do fetichismo no politeísmo e, ainda mais inconfessável, no monoteísmo e, por outro lado, a uma tentativa de obter a intermediação dos mortos para os pedidos feitos pelos vivos às divindades

7.     Na Religião da Humanidade, o culto aos mortos é entendido de maneira subjetiva

7.1.   Enquanto na teologia a vida é entendida sempre e apenas de uma perspectiva objetiva (seja nesta realidade, seja em um irreal “além” ), no Positivismo a vida é entendida ao mesmo tempo como objetiva e subjetiva:

7.1.1. A troca simultânea, constante e permanente entre o corpo e o ambiente é a vida propriamente dita, entendida de maneira objetiva; já a memória que temos dos mortos é a vida subjetiva – e é aí, subjetivamente, que realizamos o culto aos mortos

8.     A fórmula positiva que resume o caráter objetivo e subjetivo do culto aos mortos e que, no fundo, resume a existência humana, é esta: “Os vivos são sempre e cada vez mais, necessariamente, governados pelos mortos”

8.1.   Eis um trecho de nosso mestre em que a fórmula acima é exposta e explicada (Catecismo, 2ª Conferência, p. 74-75):

Assim, a verdadeira sociabilidade consiste mais na continuidade sucessiva do que na solidariedade atual. Os vivos são sempre, e cada vez mais, governados necessariamente pelos mortos: tal é a lei fundamental da ordem humana.

Para se conceber melhor esta lei, cumpre distinguir, em cada verdadeiro servidor da humanidade, duas existências sucessivas: uma, temporária, mas direta, constitui a vida propriamente dita; a outra, indireta, mas permanente, só começa depois da morte. Sendo a primeira sempre corporal, pode ser qualificada de objetiva; sobretudo por contraste com a segunda, que, não deixando subsistir a cada um senão no coração e no espírito de outrem, merece o nome de subjetiva. Tal é a nobre imortalidade, necessariamente imaterial, que o positivismo reconhece à nossa alma, conservando este termo precioso para designar o conjunto das funções intelectuais e morais, sem nenhuma alusão à entidade correspondente.

8.2.   Enquanto os fetichistas e, nós, positivistas celebramos com alegria o culto aos mortos, os teológicos – em particular os cristãos – vêem como algo ruim esse culto e, especialmente, a fórmula “Os vivos são sempre...”:

8.2.1. Para teológicos, essa fórmula tem um aspecto lúgubre, assim como os cemitérios: em vez de entenderem o culto de maneira subjetiva, eles consideram-no como algo objetivista, cujo resultado seria reviver os mortos, que se levantariam dos túmulos como seres humanos “desmortos”, em boas condições ou como zumbis

8.2.2. Por outro lado, os metafísicos, especialmente os materialistas, rejeitam totalmente o culto aos mortos, encarando-o como algo sem sentido – e, mais recentemente, temos alguns metafísicos liberais particularmente ignorantes do Positivismo (e, não por acaso, adeptos do “não li, não conheço, faço questão de não ler mas não gosto de nada do que estou falando”) querendo negar a historicidade e a subjetividade presente na fórmula “Os vivos são sempre....”

9.     Mas o que importa notarmos é que é uma celebração acima de tudo de gratidão

9.1.   Ao celebrarmos os mortos, o que fazemos é agradecer-lhes tudo o que recebemos e, daí, tudo o que torna possível a nossa vida

9.2.   Nossa triste época metafísica rejeita o culto aos cultos e a gratidão por seus serviços afirmando que tais serviços não existiriam ou que seriam muito menores do que parecem, em virtude dos graves problemas que enfrentamos no mundo: guerras, fome, violência atual e anteriores

9.3.   Certamente que o mundo atual tem muitos problemas e que muita gente sofre bastante, seja devido à crueldade de outrem, seja também devido à falta de condições materiais, intelectuais e morais para viverem bem e com dignidade

9.4.   Ainda assim, o fato é que, ao longo do tempo (que está no âmbito das centenas de milhares de anos), o ser humano foi trabalhando, acumulando, sacrificando-se, sofrendo, mas também buscando melhorar, realizar coisas boas – enfim, buscando legar para o futuro, para seus descendentes, melhores condições de vida em termos morais, intelectuais e práticos

9.5.   Se hoje consideramos que muita gente sofre e sofreu de maneira injusta – e concordamos totalmente com essa apreciação –, o fato é que essa forma de entender o mundo, os sentimentos envolvidos e mesmo os meios técnicos de remediar tais problemas – tudo isso se desenvolveu ao longo do tempo, graças aos esforços de nossos antepassados

9.6.   Além disso – e este é um aspecto fundamental, que a metafísica desconhece ou que finge desconhecer –, a sensação de injustiça tem que ser necessariamente complementada, quando não ultrapassada, pelo sentimento de gratidão, pois, do contrário, não caminharemos para a efetiva solução dos problemas, mas ficaremos apenas na revolta, não caminharemos para o altruísmo, a fraternidade e a paz, mas ficaremos na raiva e na violência

9.7.   O que a fórmula “Os vivos são sempre e cada vez mais, necessariamente, governados pelos mortos” indica é que o que chamamos de “ser humano”, ou melhor, a Humanidade é acima de tudo a massa de seres humanos passados, ou seja, dos mortos, cuja atuação acumulada permite que nós, vivos, atuemos e preparemos as condições de vida de nossos descendentes, do futuro

10.   Resumindo o que dissemos: em face da atuação dos antepassados, o sentimento que devemos ter é o de gratidão: essa é a única forma de reconhecermos e valorizarmos o que eles fizeram e que nos legaram; ao mesmo tempo, é a única forma de reconhecermos que devemos tudo a eles e que, em comparação com eles, somos poucos, somos inferiores e que, de qualquer maneira, somos tão imperfeitos quanto a nossa arrogância atual – a nossa vergonhosa arrogância metafísica atual – insiste em fingir que não somos

11.   Nossa gratidão para com os mortos não precisa e não pode ser só com os mortos “em geral”; na verdade, ela pode e deve começar com os mortos de nossas famílias, estender-se para os grandes mortos de nossas pátrias e então se estender para os mortos universais: nossos pais, irmãos, avós, tios, sobrinhos, mesmo filhos; depois amigos, compatriotas, líderes, chefes, subordinados; finalmente, os grandes seres humanos a quem devemos o desenvolvimento coletivo

11.1.               Dito isso, há alguns nomes em que podemos e devemos inverter a seqüência acima: pensamos em particular em nossos pais espirituais, Augusto Comte e Clotilde de Vaux, bem como nos grandes apóstolos Miguel Lemos, Teixeira Mendes, Jorge e Luís Lagarrigue e muitos outros

12.   Para concluir este culto, desejamos ler alguns poemas de positivistas, que realizam de maneira direta ou indireta outra o culto aos mortos:

12.1.               Oração no campo-santo, de Martins Fontes

12.2.               Viver para outrem, de Martins Fontes

12.3.               O Coro invisível, de George Eliot 

*   *   * 

ORAÇÃO NO CAMPO-SANTO 

No Dia das Santas Mulheres 

Santa Mônica – Santa Pulquéria – Santa Genoveva – Santa Clotilde – Santa Batilde – Santa Matilde de Toscana – Heloísa – Beatriz – Branca de Castela – Santa Isabel da Hungria – Maria de Molina – Santa Catarina – Joana d’Arc – Isabel de Castela – Marina – Santa Teresa – Sofia Germain – Elisa Mercoeur – Rosália Boyer – Clotilde de Vaux – Sofia Bliaux. 

Recebei, acolhei, almas cheias de graça,

A oferenda floral de um jardineiro inculto,

E desça, como um luar, de piedade e de indulto,

A Vossa proteção sobre o pobre que passa.

 

Eu, entre meus irmãos, a adorar-Vos exulto,

Sem achar o louvor com que me satisfaça,

Tanto a expressão humana é volátil e escassa,

Para bem traduzir ou conter o meu culto.

 

Seja a crença qual for, ou quais forem as seitas,

Viva e perpetuamente os Vossos fiéis proclamem

Vossa sublimidade, ó Mulheres Perfeitas!

 

Ergam-se as mãos em preces e os que sofrem Vos chamem

Lírios do eterno Amor, Milagrosas Eleitas!

Amem-nos sempre em Vós e só por Vós nos amem. 

*   *   * 

VIVER PARA OUTREM 

Amem te plus quam me,

nec me nisi propter te[1]. 

Ama. Por teus pendores afetivos

Alcançarás a bem-aventurança.

E aqui mesmo na Terra os lenitivos

Hás de ter da doçura e da esperança.

 

Multiplica-te. Em beijos subjetivos,

Consola, como quem nunca se cansa

De legar e acrescer os donativos

Inesgotáveis de uma eterna herança.

 

Bem amar, é tão bom, meu confidente,

Que é melhor do que sermos bem amados,

Como demonstra a vida transcendente.

 

Pensa, evocando os teus antepassados,

Que os vivos, pelos mortos, moralmente,

Sempre, e cada vez mais, são governados. 

*   *   * 

Ó, que eu possa juntar-me ao coro invisível 

Longum illud tempus, quum non ero, magis me movet, quam hoc exiguum[2].—CICERO, ad Att., xii, 18. 

Ó, que eu possa juntar-me ao coro invisível

Desses imortais mortos que vivem novamente

Em mentes feitas por suas presenças: vivem

Em pulsos agitados pela generosidade

Em feitos de desafiadora retidão – que desprezam

Os objetivos mesquinhos que se encerram em si mesmos –,

Em sublimes pensamentos que perfuram a noite como estrelas

E com sua meiga persistência persuadem os homens a buscarem

Temas mais vastos


             Assim, o paraíso é viver:

Para fazer música imorredoura no mundo,

Respirando como a bela ordem que controla

Com crescente balanço a crescente vida do homem.

Assim, nós herdamos essa doce pureza

Pela qual lutamos, falhamos e agonizamos

Com retrospecto que se amplia aquele desespero criado.

Carne rebelde que não seria subjugada,

Um genitor vicioso ainda infamando sua criança,

Pobre e ansiosa penitência, é rapidamente dissolvida;

Suas discórdias, extintas por harmonias reunidas,

Morrem no amplo e caritativo ar

E todos os nossos mais raros, mais verdadeiros e melhores âmagos,

Que choraram religiosamente em canção ansiosa,

Que vigiou para minorar o fardo do mundo,

Laboriosamente traçando o que deve ser,

E o que deve ainda ser melhor – viram dentro

Uma imagem mais valorosa para o santuário,

E moldaram-no adiante, antes da multitude

Divinamente humana, elevando a adoração

Para tão mais alta reverência, mais misturada com o amor –

Que melhor âmago viverá até que o Tempo humano

Dobre suas pálpebras e o céu humano

Seja unido como um rolo no seio da tumba

Não lida para sempre.


             Essa é a vida que virá,

Que homens martirizados tornaram mais gloriosa

Para nós que nos esforçamos para seguir. Possa eu alcançar

Esse paraíso mais puro, ser para outras almas

A taça de força em alguma grande agonia,

Acender o ardor generoso, alimentar o puro amor,

Procriar os sorrisos que não têm crueldade,

Ser a doce presença de um difundido bem

E que se difunde sempre mais intensamente.

Assim, que eu junte-me ao invisível coro

Cuja música é a alegria do mundo. 

*   *   * 

13.   Término



[1] “Que eu te ame mais do que a mim mesmo, e a mim somente por ti”.

[2] Aquele longo tempo em que não existirei comove-me mais do que este pequeno momento”.

21 janeiro 2022

Hernani Gomes da Costa: "Figuras da IPB com quem convivi"

O texto abaixo é a versão escrita e estendida de anotações que o meu querido amigo e correligionário Hernani Gomes da Costa leu no dia 1º de janeiro de 2022, como uma celebração da Festa Geral dos Mortos (ocorrida na véspera, no dia 31 de dezembro). Tal celebração ocorreu no lançamento da Rede Humanidade, iniciativa informal de Érlon Jacques de Oliveira.

As anotações abaixo servem de registro biográfico e também institucional de algumas das figuras mais belas e mais emblemáticas da Igreja Positivista do Brasil (IPB), entre as décadas de 1980 a 2000, e que revelam também o quanto o Positivismo pode ser, e de fato é, uma fonte de beleza, de ternura e de energia para o congraçamento e a melhoria da Humanidade.


*   *   *


Figuras da Igreja Positivista do Brasil com quem convivi

Celebração da Festa Geral dos Mortos

(1.1.2022)

 

Hernani Gomes da Costa

 

Quero dedicar este momento de gratidão à celebração da memória de alguns dos amigos e amigas que eu conheci do Templo da Humanidade, da Capela da Humanidade e do Centro Positivista do Paraná. Embora não mais se achando objetivamente entre nós, eles estão bem vivos em mim, na lembrança que tenho das imagens deles, nos doces sentimentos que estas evocam e nos hábitos que eu preciso imitar se quiser ser tão feliz como eles foram nessa existência tão rica quanto sóbria a que o Positivismo nos convida ao mais completo e perfeito desfrute e que a morte mesma só faz avivar.

-        Stella da Cunha Santos: Aquela cuja fala pausada e calma fazia-me prestar uma atenção dupla a cada vírgula do que me dizia (aliás nunca antes vírgulas puderam ser tão audíveis...). É também aquela com quem eu busco obter a virtude dessa serenidade que nada tem de fria e distante, assim como a aguda penetração psicológica que só possuem aqueles que se inclinam a ouvir com respeito o que uma outra alma tem a dizer, por mais tolo ou incompreensível que a princípio nos pareça.

-        Beatriz Torres Gonçalves, a Bia: jamais eu vi em outro rosto humano uma expressão tão gentil e que eu diria mesmo parecer haver se fixado, de tão habituais tornaram-se nela os exercícios dos músculos que à essa terna alegria correspondem. Dela eu busco obter (no que me couber) a exuberância de uma vitalidade que parecia transcender à fragilidade de um corpo de mais de 90 anos.

-        Wally Leal Freire de Souza: a pequena, bem humorada e por vezes rascante professora de música, cuja fala lembrava uma rápida sequência de minúsculas explosões, vindas de alguma artilharia de brinquedo; é também aquela de quem eu espero poder obter toda a inquebrantável altivez caso a vida me empurre a situação de ter de enfrentar, como essa corajosa mulher o fez, algum mal corpóreo incurável que não me permita senão um último ano de vida.

-        Sofia Torres Gonçalves, a irmã da Bia. Ela era de uma vozinha quase inaudível, um sussurro emanado de um corpo cuja severa e dolorosa escoliose eu logo me encarreguei de livrá-la na construção da imagem interior que dela formei, mesmo antes de sua transformação (e sem que a ausência desse estorvo oferecesse o menor prejuízo à realidade de sua vida subjetiva). Se da Wally eu obtive a coragem frente ao abalo de uma surpresa fatal, da Sofia eu obtive o exemplo complementar da resignação, diante de um longo convívio com limites físicos que, sem provocarem a morte ou encurtarem a vida, colocam-nos frente a única alternativa honrosa de aprender a melhor nos adaptarmos a eles pelo único caminho do suportar.

-        Tasso Bolívar Garcia Paula. O maior contador dos “causos” humorísticos e pitorescos de nossa Igreja, aquele que vendo em mim uma esperança apostólica, me proveio de um subsídio mensal tão logo eu comecei a realizar as prédicas dominicais. Um episódio tocante permitirá mostrar como era o seu carinho pela obra e pela pessoa de Comte. Certa vez ele declarou a mim que sempre foram muito difíceis os seus estudos da doutrina, através das leituras da Filosofia e da Política positiva, revelando-me também que certas passagens (e às vezes páginas inteiras consecutivas) escapavam-lhe totalmente à compreensão. Ele porém dizia que, mesmo assim, não se arrependia desse seu estudo, uma vez que também podemos sentir toda a beleza do canto de um pássaro sem no entanto compreender uma só palavra do que ele esteja querendo dizer.

-        Henrique Batista da Silva Oliveira, o Almirante Henrique, a quem eu encontrava no Clube Positivista, onde conversávamos longamente sobre a doutrina. Ele foi, ao que eu saiba, o nosso último confrade a receber o sacramento da destinação paramentado como aspirante ao apostolado da Humanidade. Foi a pessoa com quem eu mais me senti seguro em tudo o que se refere à formação teórica do Positivismo. E aquele portanto a quem, mesmo sem saber, eu gostava de me espelhar em todas as ocasiões em que se faziam necessárias exposições sintéticas do conjunto da doutrina. Sua personalidade dava-me uma sensação única de estar sobrepairando bem acima dos problemas do tempo presente. Jamais me foi possível ver tão bem combinados como em sua conversa o caráter solene de um assunto com o tom jovial de um simples e despretensioso bate-papo informal. Havia mesmo nele um certo sorriso de Gioconda e que o fazia parecer estar falando da glória a que está reservada a Humanidade nos tempos futuros, não como um teórico, mas como se ele próprio fosse um de seus habitantes, que nos houvesse voltado ao passado para nos dar mais uma chance. Devo confessar que ainda estou bem longe de aprender como é que se faz isso...

-        Rubem Descartes de Garcia Paula, a única pessoa nascida no século XIX que eu conheci em minha idade adulta; nós éramos unidos por uma ciência cultivada em comum – a Química – de onde ambos obtivemos os mais diretos subsídios teóricos para alcançar o estado positivo do entendimento. Seu livro Religião, uma criação da Humanidade, que eu li antes mesmo de minha primeira visita ao templo (livro que foi um dos pouquíssimos a manter o interesse do meu pai além da página cinco), proporcionou-me uma impressão que só hoje, enquanto escrevo essas linhas, pude notar como importou para o meu desejo de conhecer mais a fundo o Positivismo. Seu Descartes foi para mim o primeiro autor positivista contemporâneo a escrever (com a leveza e o frescor de um escritor contemporâneo) sobre a nossa doutrina, o que me permitiu num momento decisivo de minha formação reconhecer, já a partir do estilo, antes mesmo que pelo conteúdo, toda a atualidade da Religião da Humanidade, e que uma obra mais antiga talvez não me pudesse evidenciar.

-        Ruyter Demaria Boiteux, o médico com quem eu conversava sobre assuntos biológicos, foi o ser mais próximo da santidade que eu tive a ventura de conhecer na Igreja. Condecorado por heroísmo ao conseguir extrair um projétil explosivo da perna de um soldado, poupando-o da amputação, ele dedicava como médico boa parte de suas horas de trabalho a atendimentos gratuitos de quantos chegassem ao consultório. Seu bom humor auxiliado por uma generosa expressividade mímica eram tão envolventes e a medicina compunha de tal modo o seu ser que, ao conversar com ele, tinha-se a sensação de um vigor salutar renovado, de se estar falando mais rápido, respirando melhor e mesmo sacudindo partes do corpo que até então manteríamos prudentemente quietas.

-        Mozart Pereira Soares. Financiado pelo Doutor Ruyter, eu viajei à Capela da Humanidade para integrar aquele que seria o penúltimo encontro anual de positivistas; de que ele, Ruyter, fôra sempre o seu esteio. E foi na casa do Professor Mozart que eu e um outro confrade, Arthur Virmond de Lacerda, nos hospedamos por toda a duração do encontro, que embora breve, bastou para que eu obtivesse da amistosidade de seu caráter e de sua vasta erudição uma impressão perene junto a todas as demais pessoas aqui retratadas e com quem eu convivi por tão mais tempo. O meu carinho e respeito por ele tem um sabor todo especial, tendo o Professor Mozart me convidado para assistir ao filme do Batman (aquele contra o Pinguim), ocasião em que ele não perdeu nenhuma oportunidade de tecer considerações éticas às principais situações de sua trama.

-        Paulo de Tarso Monte Serrat, O psiquiatra paranaense que anualmente vinha nos brindar com suas práticas calorosas, sempre de grande impacto emocional. Dono de uma voz privilegiada, que conseguia a um tempo ser alta sem tornar-se agressiva e grave sem tornar-se lúgubre; suas conferências eram a ocasião esperada em que se podia experimentar todo o prazer das reverberações acústicas do Templo da Humanidade e cuja eficiência parecem desafiar as leis da Física. Ele era a meu ver o único confrade a fazer do otimismo diante da vida e das pessoas a sua principal plataforma religiosa. Por vezes somos, como positivistas, seduzidos a um perigo moral que consiste em acabarmos transformando o nosso amor à Humanidade numa falsa justificativa com a qual chegamos ao paradoxal resultado de gostar mais da Humanidade do que de gente. Contra esse perigo, as prédicas do Doutor Paulo de Tarso funcionaram sempre, e antes de tudo, como um santo remédio.

-        Alfredo de Moraes Filho: foi, de todos os vultos aqui retratados nestas brevíssimas pinceladas, aquele com quem eu convivi de mais perto e por mais tempo, juntamente com sua esposa, Ondina de Moraes. Seu temperamento enérgico porém não era de molde a nos permitir grandes aproximações. E se por um lado essa acolhida parcimoniosa e mesmo permanentemente desconfiada pôde ter servido como um filtro que evitou tanto quanto possível franquear-se a Igreja a todo tipo de pessoa, também infelizmente acabou isolando-a do mundo atual, em oposição ao que mais desejariam os apóstolos Miguel Lemos e Teixeira Mendes. Guardo dele, porém, a imagem daquele que, depois dos dois apóstolos, foi, ao meu ver, quem mais se dedicou e se sacrificou pela Igreja e pelo movimento positivista, inclusive em tempos de repressão política; onde a campanha do “Petróleo é Nosso” irmanou comunistas e positivistas num aspecto comum do trabalho de ambos em prol de um mundo mais justo.

Faltam algumas outras pessoas que o tempo de que disponho não me permite acrescentar aqui senão os nomes, mas sobre as quais eu teria tanto a dizer quanto já o fiz: Ondina de Moraes; Francisco Ribeiro Dantas; Ângelo Torres; Jorge Torres Gonçalves; Júlio Costa e Tales de Muriaé Garcia Paula.

22 dezembro 2020

Roteiro da exposição sobre o décimo-terceiro mês dos calendários positivistas (Bichat e Proletariado)

O vídeo do roteiro abaixo se encontra disponível aqui.


*   *   *


Roteiro da exposição sobre o décimo-terceiro mês dos calendários positivistas

 

Parte I – Mês concreto: Bichat

 



-        13º e último mês do calendário positivista concreto

o   Considerando o ano júlio-gregoriano de 2020 (ano bissexto), o mês de Bichat começa em 2 de dezembro e termina em 29 de dezembro

§  Após o décimo-terceiro mês, há dois dias complementares:

§  Festa Geral dos Mortos (30 de dezembro)

§  Festa das Mulheres Santas (31 de dezembro)

o   O décimo-terceiro mês concreto representa a ciência moderna

§  É o sexto mês da modernidade

§  Após os meses da Antigüidade e da Idade Média, a modernidade apresenta-se com seus seis meses (Dante, Gutenberg, Shakespeare, Descartes, Frederico, Bichat)

-        A ciência integra o que Augusto Comte chamava de “duplo movimento moderno”, isto é, de decomposição rápida (da teologia e do sobrenaturalismo, isto é, da síntese absoluta) e composição lenta (da ciência e naturalismo, isto é, da síntese relativa)

o   Enquanto a síntese absoluta ficou exausta já no término da Idade Média e foi destruída com as pesquisas de Copérnico e de Kepler (século XV) (e a respectiva ordem social foi posta abaixo na Revolução Francesa), a síntese relativa precisava percorrer toda a escala enciclopédica, não apenas para estender a todas as ordens de fenômenos o dogma das leis naturais, mas também para permitir que a Sociologia e a Moral constituídas exercessem seu papel de coordenação sobre o conjunto da existência humana (incluindo aí as ciências inferiores)

o   As bases da Matemática e da Astronomia foram lançadas na Antigüidade, bem como várias observações importantes mas mais ou menos dispersas das outras ciências (especialmente Biologia, Sociologia e Moral), da Física em diante as ciências constituíram-se apenas na modernidade: a Física com Galileu e Newton, a Química com Lavoisier, a Biologia com Bichat, Gall e Broussais – e, claro, a Sociologia e a Moral com Augusto Comte

o   A ciência tem uma importância pelo menos tripla para a Religião da Humanidade:

§  seu conjunto estabelece o dogma fundamental do Positivismo, que é o da realidade baseada nas leis naturais --> isso é o fundamento do relativismo

§  explica os vários fenômenos quaisquer --> a partir daí, rejeita-se a possibilidade de uma única grande lei explicativa do mundo (como seria a gravitação), pois os fenômenos são variados e as sete categorias fundamentais são irredutíveis umas às outras

§  Para Comte, uma ciência é um conjunto de princípios, leis, reflexões e métodos ao redor de um tipo de fenômenos; assim, há a possibilidade de aumentar-se ou diminuir-se a quantidade de “ciências”: as sete ciências fundamentais correspondem à quantidade mínima, irredutível, de ciências

§  O princípio fundamental do Positivismo, em relação às várias ciências, é que os fenômenos mais nobres são subordinados aos mais grosseiros

§  aplicações práticas, ou tecnologia, ou artes práticas, de que as duas primeiras são a Moral Prática (pedagogia e psicologia clínica) e a política

o   A ciência, portanto, é a base da síntese relativa; entretanto, a Religião da Humanidade não se limita à ciência, isto é, o Positivismo não é um cientificismo:

§  a ciência entregue a si mesma é dispersiva, ou seja, tende a considerar que suas investigações são importantes por si mesmas, independentemente de ou mesmo desprezando qualquer aplicação teórica ou prática à isso se baseia em um absolutismo objetivista, que considera que somente o que importa é a “realidade”, desprezando-se as necessidades humanas (portanto, subjetivas) e as nossas possibilidades de atuação

§  além disso, a ciência acarreta dois problemas morais: estimula o orgulho e a vaidade e seca o coração

o   A reunião desses dois problemas resulta em que a ciência é ambígua: embora ela seja necessária para a síntese relativa, entregue a si mesma ela torna-se contrária ao relativismo, rejeitando a disciplina moral e dando continuidade ao absolutismo e ao objetivismo

§  É devido a esses motivos que Augusto Comte afirmava, já em 1851, que a própria ciência é tão provisória quanto a teologia e a metafísica e, portanto, que deve ser tão ultrapassada quanto as duas modalidades anteriores de pensamento

§  A lei dos três estados seria, portanto, uma lei dos quatro estados, em que a ciência dividir-se-ia em estado científico (analítico) e em estado científico filosófico (sintético)

§  Teixeira Mendes observava que a lei dos três estados pode (e deve) ser entendida como a passagem do absolutismo para o relativismo

-        A importância de Bichat para a síntese positiva (isto é, subjetiva e relativista) está em que ele propôs a teoria positiva da vida, como sendo a troca permanente e dinâmica entre o organismo e o meio ambiente; além disso, ele afirmava que os seres vivos provêm dos próprios seres vivos

o   A obra de Bichat opunha-se às concepções mecanicistas (de Boerhaave, para quem a Biologia é redutível à Química) e às espiritualistas (de Stahl, para quem a vida ocorre devido a espíritos sobrenaturais)

o   A afirmação das leis biológicas põe por terra as pretensões de sínteses objetivistas (baseadas em particular na Física), ao mesmo tempo que a Biologia constitui a transição natural e necessária para as ciências superiores (Sociologia e Moral)

-        O mês e as semanas do mês de Bichat correspondem ao seguinte:

o   Bichat – é o fundador da teoria positiva da vida, que foi um passo fundamental para a constituição da síntese relativista e subjetiva

o   Galileu – corresponde à Física moderna

o   Newton – corresponde ao cálculo, que é o complemento da Física, da Astronomia e a parte superior da Matemática

o   Lavoisier – corresponde à Química moderna

o   Gall – corresponde à Biologia moderna e, em particular, às pesquisas que indicam que a “alma” consiste no conjunto das funções cerebrais

 

Parte II – Mês abstrato: o proletariado (providência geral)

-        O décimo-terceiro mês do calendário positivista abstrato celebra o proletariado, responsável pela providência geral

o   O proletariado deve ser entendido, por um lado, em estreita relação com o patriciado e, por outro lado, com seus vínculos com o sacerdócio (ao qual está associado com as mulheres)

§  A vinculação do proletariado com o patriciado está em que ambos são os responsáveis pela geração, manutenção e transmissão da riqueza; enquanto o patriciado corresponde ao poder concentrado, o proletariado corresponde ao poder disperso (e, portanto, a sua força vem de sua associação coletiva)

§  A vinculação do proletariado com o sacerdócio vem de seu papel fiscalizador do poder – seja do poder político, seja do poder econômico, seja mesmo do poder de aconselhamento do sacerdócio

§  O proletariado não é em si mesmo “ativo” no sentido que se dá ao governo e aos patrícios, mas é claro que em suas atividades profissionais e em seu papel fiscalizador ele é ativo, embora de uma forma diferente: fiscalizar não é o mesmo que realizar e/ou comandar

o   O proletariado deve corresponder ao conjunto da sociedade, devido ao seu peso numérico; a massa da classe média deve ser incorporada ao proletariado, enquanto a elite da classe média deve ser incorporada ao patriciado

§  A condição proletária do proletariado não deve implicar miséria nem propriamente pobreza à estão em questão aí as condições mínimas de vida (e não somente de sobrevida) e de dignidade

§  Os proletários têm que receber salários que lhes permitam viver com dignidade, isto é, tendo suas próprias moradias (mesmo que estas sejam financiadas ao longo do tempo) e podendo sustentar suas famílias (esposa, filhos, pais)

§  Os proletários devem ser os donos de seus instrumentos de uso contínuo e seus salários devem ser compostos de duas partes, uma fixa e outra variável (correspondente à produtividade e aos méritos de cada trabalhador)

§  Enquanto os proletários devem respeitar os seus patrões, os patrões devem verdadeiramente proteger e cuidar de seus trabalhadores ("dedicação dos fortes para com os fracos, veneração dos fracos pelos fortes")

§  De maneira acessória, a luta de classes pode ser utilizada para que os proletários lembrem aos patrícios suas responsabilidades

-        São quatro as modalidades determinadas por nosso mestre na providência geral, com as respectivas festas semanais:

1)      Proletariado ativo – Festa dos inventores (Gutenberg, Colombo, Vaucanson, Watt, Montgolfier) – corresponde ao conjunto dos proletários, que são trabalhadores (isto é, servidores ativos da Humanidade)

2)      Proletariado afetivo – corresponde às mulheres proletárias, que são as companheiras populares dos proletários

3)      Proletariado contemplativo – corresponde aos proletários estéticos e/ou científicos que não integram o sacerdócio mas têm um pendor mais teórico que prático; são eles que realizam a fiscalização proletária do governo, do patriciado e do sacerdócio

4)      Proletariado passivo (S. Francisco de Assis) – corresponde aos mendigos (passageiros ou permanentes), que lamentavelmente nunca deixarão de existir mas que podem exercer importantes reações morais, intelectuais e práticas sobre todas as classes sociais

 

Parte III – Comemorações de aniversários e feriados cívicos

-        Em termos de aniversários, comemoramos neste mês as seguintes figuras:

o   Gombert-Alexandre Réthoré (1820-1892) – 19 de Bichat (20 de dezembro)

 




 

Referências bibliográficas

Augusto Comte: Sistema de filosofia positiva, Sistema de política positiva, Catecismo positivista, Síntese subjetiva

Frederic Harrison: O novo calendário dos grandes homens

Raimundo Teixeira Mendes: As últimas concepções de Augusto Comte

David Carneiro: História da Humanidade através dos seus grandes tipos, v. 6

Ângelo Torres: Calendário Filosófico