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13 janeiro 2026

Intelectuais e vida coletiva: a laicidade do Estado

No dia 12 de Moisés de 172 (12.1.2026) o jornal carioca Monitor Mercantil publicou o nosso artigo "Intelectuais e vida coletiva - 2: a laicidade do Estado", dando continuidade a uma série de textos em que abordamos o papel dos intelectuais na sociedade.

O original encontra-se disponível aqui: https://monitormercantil.com.br/intelectuais-e-vida-coletiva-2/.

O texto está reproduzido abaixo.

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Intelectuais e vida coletiva – 2: a laicidade do Estado

Relação entre objetividade e subjetividade, ‘materialismo’ e ‘idealismo’ Por Gustavo Biscaia de Lacerda

Estudantes universitários em sala de aula (foto: ABr)

Em nosso último artigo iniciamos uma série de textos sobre o papel social dos intelectuais: aqui daremos continuidade a tal série, abordando o que se chama de “laicidade do Estado”. Mas, antes de mais nada, devemos começar pelo começo; assim, com um inevitável atraso: feliz Ano Novo! Feliz 2026!

No texto anterior, apresentamos alguns aspectos fundamentais: toda sociedade tem que ter governo (apesar dos anarquistas e liberais); os governos desdobram-se em materiais (o Estado), que governam objetivamente, recorrendo em última análise à força física, e espirituais (o sacerdócio, ou os intelectuais), que subjetivamente regulam ideias e valores a partir do aconselhamento e da educação.

O âmbito de atuação do poder espiritual é autônomo em relação ao poder material (ao contrário do que querem os marxistas e todos os materialistas e anticlericalistas); mas autonomia não significa insubordinação contra os aspectos materiais da vida (como querem os místicos e os idealistas).

Essa relação entre objetividade e subjetividade, entre “materialismo” e “idealismo”, é uma das mais difíceis de entender, e muitos intelectuais teimam ainda hoje em afirmá-la em termos dicotômicos, mas sua solução foi definida nos anos 1830 por Augusto Comte: “Os fenômenos mais nobres (subjetivos, humanos) modificam os fenômenos mais grosseiros (objetivos, materiais) subordinando-se a eles”.

É uma via de mão dupla que se aplica às relações entre o mundo natural e o mundo humano, às concepções filosóficas e científicas e às relações entre intelectuais e Estado.

As relações entre poderes material e espiritual são mais complicadas do que parecem à primeira vista. Há impulsos para simplificar tais relações, para elas serem entendidas e tratadas, e impulsos de dominação de um poder sobre o outro.

Em termos de dominação, historicamente os Estados foram mesmo dominados durante longos períodos pelos sacerdotes, que nas teocracias impunham-se sobre os guerreiros e os demais grupos sociais: tais domínios deram-se nos politeísmos conservadores (Egito antigo, China, Japão, Índia tradicionais). Quando os guerreiros romperam essa dominação no politeísmo progressista (caso específico do Ocidente a partir dos gregos), os sacerdotes foram submetidos, no que se chama de “cesaropapismo”.

As crenças teológicas são absolutas: são indiscutíveis e indemonstráveis; elas devem ser aceitas e ponto final. Já os guerreiros nos politeísmos fazem guerras de conquista: as ordens devem ser obedecidas, as sociedades são militaristas, os conquistadores saqueiam, os conquistados são escravizados.

Crenças indemonstráveis e atividade guerreira apoiam-se mutuamente; a questão que se apresenta para nós é a seguinte: essa confusão é aceitável nas sociedades contemporâneas? A resposta é negativa, e uma de suas faces institucionais é o que se chama de “laicidade do Estado”.

Se o Estado impõe-se pela força, sua atuação espiritual também é imposta. Mas a imposição de crenças (ideias, valores, concepções) é contra a dignidade humana e a legitimidade das crenças, além de estimular a hipocrisia; as igrejas apoiadas pelo Estado tornam-se opressivas e objeto de ódio ou aversão popular.

As crenças são aceitas pelo aconselhamento a partir da educação; trata-se de um processo de convencimento e, antes, de constituição das subjetividades, em que a liberdade deve ser mantida e garantida. A imposição de crenças não torna apenas o Estado ilegítimo; ele degrada as próprias crenças impostas.

Ao contrário das sociedades anteriores, nossas crenças contemporâneas são demonstráveis, e nossa concepção de dignidade implica a autonomia moral e intelectual, ou seja, cada pessoa, caso deseje, pode apreciar com liberdade as diversas concepções. Temos então aspectos intelectuais e políticos; não há nenhuma concepção que não possa ser apreciada publicamente.

É claro que essa liberdade de exame choca-se frontalmente com as crenças absolutas (teológicas e metafísicas) e com as ordens indiscutíveis do Estado militarista (para simplificar: o Estado autoritário).

Nas sociedades contemporâneas, a mudança radical do caráter das crenças e da legitimidade do Estado conduz a que as relações entre os poderes espiritual e material também se modifique radicalmente. O poder espiritual sempre foi o legitimador do Estado; assim, o caráter público, aberto e discutível das crenças contemporâneas aplica-se também ao Estado, que passa a ser fiscalizado pelo conjunto da sociedade a partir dos parâmetros e procedimentos próprios às crenças contemporâneas.

Essas crenças são influenciadas pela ciência, mas não se reduzem a ela; são crenças relativistas, isto é, não-absolutas, discutíveis e demonstráveis, cujo espírito dissemina-se por toda a sociedade (e que se aplicam à própria ciência). Há um aspecto adicional de acesso aos serviços públicos: Estados com doutrinas oficiais limitam o acesso aos serviços públicos em favor dos aderentes dessas doutrinas. Exemplos não faltam: URSS, Alemanha nazista, Brasil imperial, Inglaterra protestante.

A separação entre os poderes espiritual e material é constitutiva das sociedades atuais. É fácil perceber que o Estado militarista é inadequado à sociedade contemporânea e, de modo mais geral, o Estado é incompetente para decidir questões de foro íntimo.

Já a inadequação ainda mais profunda das crenças absolutas com as sociedades contemporâneas é mais difícil de ser aceita – não porque seja difícil de entender, mas porque se utilizam os mais variados expedientes morais, intelectuais e políticos para disfarçar-se tal inadequação ou fingir-se que ela não ocorre.

À parte o grosseiro sofisma que rasga a subjetividade entre “fé” e “razão”, a inadequação das teologias (e das metafísicas) às sociedades contemporâneas é comprovada diariamente pelos esforços incessantes das igrejas teológicas para sujeitar o Estado aos seus desígnios e (r)estabelecer diferentes teocracias.

Mas também devemos notar que, para que a separação dos dois poderes seja efetiva e não resulte em degradação e hipocrisia, ela tem que abarcar todas as crenças, o que inclui as metafísicas e as científicas (que constituem não teocracias, mas tecnocracias, acadêmicas ou não).

A chamada “laicidade” com frequência limita-se a rejeitar as teocracias, sem se preocupar com o “cesaropapismo” ou as tecnocracias. Muitos dos defensores da “laicidade” não têm pudor em defender e exigir que o Estado promova ativamente as crenças de suas preferências (sempre acadêmicas, isto é, universitárias).

Dessa forma, quando alguns defensores da “laicidade” limitam-se a afirmar a separação entre Estado e igrejas teológicas, sua ação passa da defesa da liberdade e da dignidade para a militância anticlericalista, da decência para a prepotência. Como Augusto Comte repetia sem cessar, a separação entre os dois poderes é mais importante, mais profunda e mais digna que a hipocrisia acadêmica.


Gustavo Biscaia de Lacerda é sociólogo da UFPR e doutor em Sociologia Política.

08 dezembro 2025

Monitor Mercantil: Intelectuais e vida coletiva – 1

No dia 6 de Bichat de 171 (8.12.2025) o jornal carioca Monitor Mercantil publicou um artigo de nossa autoria intitulado "Intelectuais e vida coletiva - 1". Esse artigo é o primeiro de uma série que abordará, nos próximos meses, a atuação pública e política dos chamados "intelectuais".

O original pode ser lido aqui: https://monitormercantil.com.br/intelectuais-e-vida-coletiva-1/.

Reproduzimos abaixo o texto.

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Pessoa com caderno e notebook (foto Unsplash).

Intelectuais e vida coletiva – 1

Quem são, qual o fundamento da sua ação, qual a sua situação institucional e para que servem os intelectuais? Por Gustavo Biscaia de Lacerda.


Um dos aspectos mais importantes em qualquer sociedade é a atuação dos intelectuais. Mas, ao mesmo tempo em que é importante, essa atuação é cada vez mais confusa e incompreendida, tanto da parte da sociedade quanto dos governos quanto, para piorar muito mais, da parte dos próprios intelectuais.

Qualquer pessoa que lê livros de história, sociologia, filosofia – ou melhor, qualquer pessoa que acompanhe os jornais diários percebe que as disputas políticas, as brigas intelectuais, as modas acadêmicas alteram profundamente a atuação dos intelectuais.

No dia a dia, o que vemos é esta verdadeira mixórdia:

  1. Quem são os intelectuais? Jornalistas, filósofos, professores, pesquisadores universitários, pesquisadores independentes, padres, pastores, pais/mães de santo, gurus, autores de autoajuda, influenciadores, agentes do governo? São pessoas que atuam isoladamente, que representam organizações, que falam em nome de corporações?
  2. Qual o fundamento da ação dos intelectuais? São pessoas que falam por inspiração divina, que falam ao incorporarem espíritos, que falam ao consumirem drogas alucinógenas, que falam como pesquisadores das ciências naturais, que falam como pesquisadores das ciências humanas, que falam como filósofos, que falam como líderes comunitários, que falam porque são pagos por jornais, que falam porque o governo manda, que falam porque estão em partidos políticos?
  3. Para que servem os intelectuais? Para explicar aspectos da realidade, para explicar a vida após a morte, para explicar a ira divina, para justificar a ordem social, para criticar a ordem social, para propor a revolução, para propor o retorno à ordem antiga, para justificar as ações de políticos e de governos, para aumentar a erudição pessoal, para disseminar o conhecimento, para estimular o amor, para estimular o ódio?
  4. A situação institucional dos intelectuais importa ou não? Um filósofo escondido nos confins do país tem a mesma “relevância” de quem é pago pelos principais jornais (impressos e da TV) para dar suas opiniões ou que os professores universitários das grandes universidades do Sudeste do Brasil?

Em meio a essa confusão – queremos evitar a palavra “caos” –, os chamados intelectuais atuam e influenciam. É importante, assim, entendermos um pouco o que eles são e como atuam – especialmente porque, como o parágrafo acima sugere, essas questões não são nada evidentes. Vale a pena dedicarmos alguns artigos desta coluna a essa questão.

O aspecto fundamental é: para que servem os intelectuais? A bem da verdade, não dá para responder a essa questão sem que se considere as várias sociedades envolvidas. Diferentes sociedades têm diferentes grupos de intelectuais, que atuam de diferentes maneiras. Apesar disso, ainda assim, todos precisamos de um conceito geral e básico, que permita começar a organizar a barafunda de possibilidades que vivemos hoje.

De nada nos serve pura e simplesmente afirmar a diversidade concreta de possibilidades de atuação dos intelectuais e achar que isso basta: se não tivermos uma clareza mínima nas ideias, o entendimento da realidade será pobre e, daí, nossas ações serão confusas e prejudiciais. (Aliás, isso já sugere algumas das funções dos intelectuais: explicar a realidade, organizar as ideias e permitir a orientação das condutas práticas.)

Para esse conceito mínimo dos intelectuais, a referência obrigatória nesse caso – como em inúmeros outros, aliás – é Augusto Comte, não por acaso o fundador da Sociologia. Para Comte, todas as sociedades se caracterizam por alguns elementos, que ele resume em número de cinco, ou melhor, seis: família, linguagem, propriedade, religião e governo; o governo desdobra-se em governo temporal e poder espiritual.

Para evitar confusões: a religião aqui tem que ser entendida como a regulação geral da existência humana; assim, ela não pode ser confundida com a teologia (que é só uma forma específica e transitória de religião). Já a propriedade, por seu turno, é a base material das sociedades, de modo que engloba a produção e a reprodução econômica e a organização social que se divide na força concentrada (com os chefes industriais) e a força dispersa (com os proletários).

Mas o que nos interessa é o governo: ele serve para impor à sociedade os rumos julgados mais importantes pelo conjunto da sociedade, o que equivale dizer que é a reação da sociedade sobre os indivíduos. Dessa forma, para Comte não existe sociedade sem governo (assim como, inversamente, não existe governo sem sociedade).

Há duas possibilidades gerais de atuação do governo: via força física, de maneira objetiva, e via aconselhamento, de maneira subjetiva. No primeiro caso nós temos o governo propriamente dito, também conhecido como Estado; é o que A. Comte chamava de “poder temporal”, que se impõe em última análise pela força física, isto é, pela violência legítima. Já o governo que se baseia no aconselhamento é o “poder espiritual”; ele convence as pessoas, a partir da educação, das ideias e dos valores compartilhados. É nele que atuam principalmente os “intelectuais”.

Como os fundamentos da atuação de cada um desses poderes são diferentes, convém que os responsáveis por eles estejam separados. É claro que há uma convergência geral nessas atuações, no sentido de que esses poderes visam a orientar a sociedade e os indivíduos; mas os resultados sobre os indivíduos e a sociedade são diferentes.

O Estado age de maneira objetiva e constrange os corpos; dessa forma, não lhe interessa se os indivíduos gostam ou não das decisões, se concordam ou não com elas: o que importa é que obedeçam e respeitem as decisões. (É claro que o Estado não pode desprezar a aceitação individual das decisões; mas, em última análise, caso necessário, ele imporá as decisões a despeito das vontades individuais.)

Como o poder espiritual aconselha a partir de ideias e valores compartilhados pela educação, a dignidade individual está subentendida aí: para que alguém seja convencido de algo, ele deve ter autonomia para isso, o que implica tempo e decisão individual.

Diversidade de meios, mas ação sobre as mesmas pessoas: o Estado e o poder espiritual podem ficar juntos ou separados. Ao longo da história, a sua união foi a regra, seja nas teocracias, seja no cesaropapismo; mas nos últimos dois séculos a sua separação é cada vez mais valorizada, no que se chama vulgarmente de “laicidade do Estado”. Isso será comentado na próxima coluna.

Gustavo Biscaia de Lacerda é doutor em Sociologia Política e sociólogo da UFPR.

25 setembro 2025

Comentários sobre PEC da Blindagem e Leandro Karnal

No dia 14 de Shakespeare de 171 realizamos nossa prédica positiva, dando continuidade à leitura comentada do Apelo aos conservadores (em sua Primeira Parte - doutrina destinada aos verdadeiros conservadores).

Comentamos também a chamada "PEC da Blindagem". Da mesma forma, comentamos a polêmica em torno da propaganda comercial estrelada pelo ex-historiador Leandro Karnal.

Começamos a fazer um sermão sobre as "éticas da convicção e da responsabilidade"; mas, devido à instabilidade da internet durante a prédica, tivemos que suspender o sermão e encerrar antecipadamente a prédica. Esse tema de sermão foi transferido para a semana seguinte.


As anotações que serviram de base para a exposição oral encontram-se reproduzidas abaixo.
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Comentários sobre PEC da Blindagem e Leandro Karnal

(14.Shakespeare.171/23.9.2025) 

1.       Invocação inicial

2.       Datas e celebrações:

2.1.    Dia 12 de Shakespeare (21.9): nascimento de Luís Lagarrigue (1854 – 171 anos)

2.2.    Dia 13 de Shakespeare (22.9): equinócio da primavera

3.       Comentário sobre a “PEC da Blindagem”

3.1.    No dia 16 de setembro, a Câmara dos Deputados aprovou em regime de urgência, em uma tramitação excepcionalíssima e extremamente suspeita, a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) n. 3/2021, a “PEC das Prerrogativas”

3.1.1. Embora proposta em 2021, essa PEC foi retomada e, na Câmara dos Deputados, foi estabelecida para blindar os parlamentares contra quaisquer tentativas de investigação criminal; não por acaso, ela foi retomada e aprovada na semana imediatamente posterior à condenação do núcleo duro dos golpistas fascistas pelo Supremo Tribunal Federal, em 11.9.2025

3.1.2. O Deputado Federal Nikolas Ferreira não teve pudor e assumiu que o objetivo dessa PEC é mesmo blindar os deputados contra investigações criminais

3.2.    Como sacerdote da Religião da Humanidade – que é uma religião cívica (embora não uma religião civil) –, manifestamo-nos completamente contrários à PEC da Blindagem, lembrando a observação decisiva de nosso mestre Augusto Comte (Sistema de política positiva, v. IV, 1854, p. 312):

Malgrado as precauções interessadas dos legisladores metafísicos, o instinto ocidental não tardará a ver a publicidade normal dos atos privados como a garantia necessária do verdadeiro civismo. [...] Todos os que se recusarem a viver às claras tornar-se-ão justamente suspeitos não quererem realmente viver para os outros”



4.       Comentário sobre Leandro Karnal como propagandista de banco

4.1.    Desde há algumas semanas o ex-historiador e atual autor de livros de auto-ajuda Leandro Karnal estrela propaganda de banco comercial (Bradesco: “Auto-ajude-se”)

4.1.1. Essa propaganda gerou diversas reações, ao criar a forte impressão de que o ex-historiador vendeu a sua credibilidade

4.2.    Criticado publicamente por degradar a sua atuação como intelectual pela colunista Tati Bernardi, da Folha de S. Paulo (“Karnal pode fazer campanha pra banco?”, 18.9.2025), o propagandista respondeu (1) que se trata de inveja de quem não foi convidado para fazer propagandas e (2) que tais pessoas devem insistir no “desafio do autoconhecimento” (Adrielly Souza, “‘Ressentimento’, diz Leandro Karnal sobre críticas por ter feito propaganda para banco”, Folha de S. Paulo, 21.9.2025)

4.3.    Concordamos com as críticas feitas ao ex-historiador:

4.3.1. O comum das pessoas pode vender sua imagem em propagandas comerciais; mas isso é totalmente inadequado para pessoas que ganham a vida oferecendo conselhos, ao ser incompatível com os fundamentos de suas atividades

4.3.2. Em vez de o ex-historiador assumir honestamente que se cansou de ser um intelectual e que quer ganhar (muito) dinheiro – seja com livros de auto-ajuda, seja com a venda de seu prestígio –, ele resolveu xingar e menosprezar seus críticos

4.3.3. A réplica do ex-historiador é uma tergiversação grosseira do problema; ele foge da crítica atribuindo o problema aos seus críticos, por meio de variadas formas do sofisma ad hominem (seus críticos não teriam razão e seriam apenas motivados pela inveja; dessa forma, deveriam calar-se e examinar suas motivações)

4.4.    A referência ao “desafio do autoconhecimento” é uma referência canhestra à fórmula do oráculo de Delfos celebrizada por Sócrates, o “conhece-te a ti mesmo”

4.4.1. Mas mesmo o procedimento moral e intelectual desonesto do ex-historiador indica a grave limitação do preceito socrático: como indicou Augusto Comte, não basta conhecer a si mesmo, pois é necessário usar esse conhecimento para o aperfeiçoamento (“conhece-te a ti mesmo a fim de te melhorares”) – coisa que evidentemente o ex-historiador não fez

4.5.    A cínica resposta do ex-historiador e seu desprezo tanto pelos críticos quanto pelos motivos que originaram as críticas tornam-se mais claros ao sabermos que, não por acaso, quando era professor da USP, o propagandista esmerava-se com orgulho em empregar bravatas tipicamente academicistas para os positivistas

4.5.1. Um desses xingamentos foi o de que os positivistas seríamos “idólatras de Clotilde de Vaux” (Leandro Karnal, Teatro da fé, São Paulo, Hucitec, 1998)

4.6.    Com essa bravata contra o Positivismo e seu desprezo pelos críticos à propaganda comercial, o ex-historiador cometeu de uma única vez uma quantidade enorme de graves defeitos:

4.6.1. Desprezou o Positivismo

4.6.2. Desprezou um culto humanista

4.6.3. Desprezou um culto apenas porque esse culto não é o que ele pessoalmente respeita (ou seja, cometeu o crime moral e jurídico da intolerância religiosa)

4.6.4. Baseou sua moralidade ao academicismo

4.6.5. Atuando de maneira exemplarmente academicista, demonstrou a característica coragem de gabinete própria aos literatos

4.6.6. Desprezou a separação entre o poder temporal e o poder espiritual

4.6.7. Desprezou também as inúmeras e importantíssimas exigências morais e sociais da atuação do sacerdócio (isto é, dos “intelectuais”)

4.7.    O problema com a propaganda estrelada pelo ex-historiador que se comprazia em evidenciar coragem de gabinete não é que ele ganhou dinheiro com um banco comercial; o problema é que, de fato, ele vendeu sua credibilidade

4.7.1. A resposta dada aos críticos evidencia que o ex-historiador não assume seu erro e que faz questão de desprezar sua condição de “intelectual”

4.7.2. Antes ainda, o desprezo academicista pelo Positivismo manifestado pelo ex-historiador evidencia que ele despreza igualmente a separação entre os dois poderes e, daí, as exigências morais, intelectuais e práticas específicas ao poder Espiritual

4.7.3. O poder Espiritual muda o comportamento humano a partir do aconselhamento; o aconselhamento, por sua vez, baseia-se na confiança depositada nele pelo público; isso implica que os membros do poder Espiritual não podem mandar (daí o que se chama vulgarmente de “laicidade do Estado”) e não podem vender sua imagem

4.7.4. O verdadeiro problema da propaganda estrelada pelo ex-historiador não é que ele, em particular, vendeu sua credibilidade: o problema é que, agindo assim, ele prejudica o poder Espiritual em geral; em outras palavras, não é um problema pessoal, mas um problema geral

4.7.5. Em face desse problema geral, há apenas duas possibilidades para o comportamento do ex-historiador:

4.7.5.1.             Ou ele sabe que esse problema existe, mas escolhe desprezá-lo

4.7.5.2.             Ou ele não sabe que esse problema existe, e escolhe ignorá-lo

4.7.5.3.             A imagem pública do ex-historiador, nos últimos anos, é o de uma pessoa “sábia”; é esse o fundamento dos seus livros de autoajuda; assim, ele supostamente deve conhecer o problema: mas se conhece, ele decidiu desprezá-lo

4.7.6. Em suma, é inaceitável – por ser imoral e antissocial – o comportamento do ex-historiador

5.       Leitura comentada do Apelo aos conservadores

5.1.    Antes de mais nada, devemos recordar algumas considerações sobre o Apelo:

5.1.1. O Apelo é um manifesto político e dirige-se não a quaisquer pessoas ou grupos, mas a um grupo específico: são os líderes políticos e industriais que tendem para a defesa da ordem (e que tendem para a defesa da ordem até mesmo devido à sua atuação como líderes políticos e industriais), mas que, ao mesmo tempo, reconhecem a necessidade do progresso (a começar pela república): são esses os “conservadores” a que Augusto Comte apela

5.1.1.1.             O Apelo, portanto, adota uma linguagem e um formato adequados ao público a que se dirige

5.1.1.2.             Empregamos a expressão “líderes industriais” no lugar de “líderes econômicos”, por ser mais específica e mais adequada ao Positivismo: a “sociedade industrial” não se refere às manufaturas, mas à atividade pacífica, construtiva, colaborativa, oposta à guerra

5.2.    Outras observações:

5.2.1. Uma versão digitalizada da tradução brasileira desse livro, feita por Miguel Lemos e publicada em 1899, está disponível no Internet Archive: https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores

5.2.2. O capítulo em que estamos é a “Primeira Parte”, cujo subtítulo é “Doutrina apropriada aos verdadeiros conservadores”

5.3.    Passemos, então, à leitura comentada do Apelo aos conservadores!

6.       Exortações

6.1.    Sejamos altruístas!

6.2.    Façamos orações!

6.3.    Como Igreja Positivista Virtual, ministramos os sacramentos positivos a quem tem interesse

6.4.    Para apoiar as atividades dos nossos canais e da Igreja Positivista Virtual: façam o Pix da Positividade! (Chave Pix: ApostoladoPositivista@gmail.com)

7.       Invocação final

 

Referências

- Augusto Comte (franc.), Sistema de filosofia positiva (Paris, Société Positiviste, 5e ed., 1893)

- Augusto Comte (franc.), Sistema de política positiva (Paris, L. Mathias, 1851-1854)

- Augusto Comte (port.), Apelo aos conservadores (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores.

- Augusto Comte (port.), Catecismo positivista (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 4ª ed., 1934).

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), As últimas concepções de Augusto Comte (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-i e https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-ii.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), O ano sem par (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1900): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-o-ano-sem-par-portug._202312/page/n7/mode/2up.

21 agosto 2025

Revista Parajás: entrevista com Gustavo Biscaia de Lacerda

A Revista Parajás publicou o artigo "Entre o Positivismo, a academia e o poder Espiritual: uma entrevista com Gustavo Biscaia de Lacerda" (Montes Claros, v. 7, n. 2, p. 1-65, 2024). É uma longa entrevista - com 65 páginas! -, que aborda os mais variados aspectos da minha atuação - como pesquisador, como positivista, como cidadão, como ser humano.

Agradeço imensamente à equipe da Revista Parajás, em particular a Ricardo Cortez Lopes e a Renat Nureyev Mendes, pela possibilidade de conceder essa entrevista.

O texto está disponível aqui: https://revistaparajas.com.br/index.php/rv1/article/view/133/99.




20 março 2024

Henri Gouhier: Augusto Comte, ordem social e críticas à economia política

Henri Gouhier comenta Augusto Comte sobre a noção de ordem social e as críticas à economia política

 

O trecho abaixo corresponde à tradução de um trecho do capítulo VI, “La Sociologie”, seção IV, “La préhistoire de la Religion de l’Humanité”, presente no livro La Jeunesse d’Auguste Comte et la formation du Positivisme – v. III: “Auguste Comte et Saint Simon”, de Henri Gouhier (Paris, J. Vrin, 1970, 2e ed., p. 328-330). (Tradução de Gustavo Biscaia de Lacerda.)

De modo específico, os trechos abaixo afirmam a importância irrecorrível do poder espiritual (ou dos elementos morais, ou dos valores e das idéias) na constituição de qualquer sociedade. Essa afirmação ocorre em contraposição às concepções dos economistas, segundo quem a sociedade constitui-se somente da justaposição dos interesses materiais individuais; além disso, ainda para os economistas, essa justaposição dos interesses individuais constituiria uma ordem natural que, por ser natural, não precisaria de regularização nem de disciplina – nem, em particular, da afirmação das perspectivas sociais contra os interesses individuais. Em outras palavras, trata-se ao mesmo tempo da afirmação do poder espiritual e, em conseqüência, da rejeição do “Estado mínimo” propugnado pelo liberalismo econômico.

Nos trechos abaixo, Henri Gouhier comenta o opúsculo Considerações sobre o poder espiritual, de 1826, escrito como continuação tanto do Conjunto dos trabalhos científicos necessários para reorganizar a sociedade, de 1822 (com reedição aumentada em 1824), quanto do opúsculo Considerações sobre as ciências e os cientistas, de 1825. Esses documentos foram publicados durante a fase adulta jovem de Augusto Comte (dos seus 21 aos 30 anos de idade), embora sejam popularmente conhecidos como “opúsculos de juventude”. Elas são seis publicações em um total de dezenas mais publicadas nessa época; eles correspondem aos únicos textos que Augusto Comte julgou dignos de serem preservados e que, de qualquer maneira, indicam com clareza sua preocupação precoce com o poder espiritual. Esses textos foram publicados como “Apêndice geral” do v. IV do Sistema de política positiva, de 1854. Em português há duas traduções desses textos: a primeira é de Dinarte Ribeiro (Porto Alegre, Globo, 1899) e a segunda é de Ivan Lins e de João Francisco de Souza (São Paulo, USP, 1972).

As notas de rodapé abaixo são de Henri Gouhier. A paginação indicada por H. Gouhier nessas notas de rodapé, por sua vez, refere-se a esta edição dos opúsculos de juventude de Augusto Comte: Opuscules de philosophie sociale –1819-1828 (Paris, E. Leroux, 1883 – disponível por exemplo aqui: https://archive.org/details/opusculesdephil00comtgoog).


Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/Henri_Gouhier


Fonte: https://www.amazon.com.br/Jeunesse-DAuguste-Comte-Formation-Positivisme/dp/271160313X

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A ordem é de essência moral. Seu princípio é o interesse geral; ele transcende o plano do temporal em que a utilidade é a lei dos indivíduos e das classes[1]. Economistas e industrialistas têm o defeito de remeterem-se demasiadamente de bom grado à natureza porque eles conhecem-na mal.

A moral positiva é terrestre; ela reina sobre uma humanidade virada para este mundo e destinada a viver o melhor possível ao explorar suas riquezas; não há mais pecado original; não há mais superstições angustiantes. O homem sem alma é entretanto um ser dividido; a sociedade inscreve em sua existência mesmo uma transcendência dramática; se não há nada acima da natureza, a exigência de superação subsiste no seio da natureza: ela revela-se no sacrifício. Quaisquer que sejam os progressos da civilização, a legítima preocupação do interesse pessoal torna-se normalmente uma tendência antissocial; entre a ordem e a felicidade, o conflito é então toda uma outra coisa que um acidente: a necessidade do sacrifício é uma lei da natureza[2].

À dualidade do bem geral e da utilidade particular corresponde a do espiritual e do temporal. É uma ilusão acreditar que os interesses industriais vão, por si sós, constituir uma ordem social: interesses temporais são interesses temporais; o espírito industrial “é como todo outro espírito puramente temporal”: o egoísmo é sua lógica[3]. Assim, os economistas desconhecem a natureza. Eles bem reconheceram nos agrupamentos humanos uma tendência espontânea e permanente de organização: eles supuseram rapidissimamente que ela coincidia com o interesse bem entendido; ela não tem então nenhuma necessidade, a seus olhos, de instituições governamentais e espirituais para assegurar sua predominância; bastaria esclarecer os produtores sobre as verdadeiras condições de sua felicidade. “Isso seria contar demais com o poder das demonstrações da economia política, retruca Augusto Comte, para provar a conformidade necessária dos diversos interesses industriais, que de esperar que ela possa bastar para sempre para discipliná-los”. Essas demonstrações talvez não tenham a eficácia que seus autores prometem; de uma outra parte, “o homem não é sempre, nem mesmo com freqüência, suscetível de calcular com justiça”; sobretudo, “ele não se conduz unicamente, nem mesmo principalmente, com base em cálculos”, como se ele estivesse “conduzido apenas pelo móvel do interesse pessoal”[4]. A sociabilidade é natural; o interesse pessoal é naturalmente antissocial; há uma contradição na natureza: os economistas não podem superá-la pois eles não a vêm.

A tendência muito real da humanidade para a ordem significa simplesmente que a ordem é possível e não que ela deva naturalmente se estabelecer apenas pelo jogo dos interesses econômicos bem compreendidos. A sociedade não se organiza no nível da produção. Não há ordem no plano temporal. Ter desconhecido a transcendência do princípio moral, tal é, no fundo, “o vício fundamental da economia política, vista como teoria social”[5]: em outras palavras, é isso que impede a economia política de tornar-se a ciência social.

  


[1] Considerações sobre o poder espiritual, p. 247-248, 282.

[2] Ibidem. Eis aqui este texto importantíssimo para compreender o poderoso impulso moral que conduzirá Comte na direção do positivismo religioso: “Quaisquer que possam ser os progressos da civilização, será sempre verdadeiro que, se o estado social é, em certos aspectos, um estado contínuo de satisfação individual, ele é também, sob outros aspectos não menos necessários, um estado contínuo de sacrifício. Em termos mais precisos, há para cada um, em todo ato particular, um certo grau de satisfação sem o qual a sociedade não seria possível e um certo grau de sacrifício sem o qual ela não poderia manter-se, vista a oposição das tendências individuais, que é absolutamente inevitável em uma proporção qualquer” (p. 273).

E ainda, p. 274: “A maior perfeição social imaginável consistiria evidentemente em que cada um cumpra sempre no sistema geral a função particular que lhe é mais apropriada. Ora, mesmo nesse exato extremo e que é puramente fictício (ainda que nos aproximemos dele sem cessar), os homens teriam necessidade de um governo moral, pois que ninguém saberia conter espontaneamente seus pendores pessoais nos limites conformes às suas próprias condições”. A natureza e a sociedade diversificam os papéis e, em conseqüência, as condições; ora, há entre todos um mesmo desejo de prazer. A educação moral deve limitar em cada um “o desejo de todos os prazeres que se pode observar nos outros, qualquer que seja a diferença das condições”, e esta, “habituando desde a infância à subordinação voluntária do voluntária do interesse particular em relação ao bem comum e ao reproduzir sem cessar na vida ativa, com todo o ascendente necessário, a consideração do ponto de vista social”.

[3] Considerações sobre o poder espiritual, p. 282.

[4] Ibidem, p. 281. Em nome da “fisiologia do século XIX”, ele denuncia aqui “a frivolidade dessas teorias metafísicas que representam o homem como um ser essencialmente calculador”. Ver também as exigências de ação que preservam o homem de uma “atividade esterilmente raciocinante”, p. 272-273.

[5] Ibidem, p. 281, nota 1. Eis este texto decisivo: “O vício fundamental da economia política, encarada como teoria social, consiste diretamente em que, por ter constatado, sob algumas relações particulares, que são bastante longe de serem as mais importantes, a tendência espontânea e permanente das sociedades humanas para uma certa ordem necessária, ela crê-se autorizada a concluir daí a inutilidade de regularizá-la por meio de instituições positivas; ao passo que essa grande verdade política, concebida em seu conjunto, prova somente a possibilidade de organização, ao mesmo tempo em que ela conduz a apreciar-lhe dignamente a importância capital”.