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02 janeiro 2026

Festa da Humanidade (172/2026): esperança, altruísmo, acolhimento

No dia 1º de Moisés de 172 (1º de janeiro de 2026) celebramos a Festa da Humanidade, a mais importante comemoração possível.

Na celebração, como forma de homenagear a Humanidade e inspirar os seres humanos, sugerimos três coisas:

  1. substituir a raiva, esse sentimento tão disseminado atualmente e que consiste na violência estimulando o instinto destruidor, por algum outro, diretamente atruísta e construtivo: nossa proposta, na falta de melhor opção atual, é o lamento
  2. ao contrário do que os teológicos e os metafísicos afirmam, deixar para trás as noções das divindades não joga o ser humano em uma solidão cósmica: a Humanidade fornece apoio, companhia, conforto permanentes, não somente objetivamente e com seres humanos, mas acima de tudo subjetivamente e com os animais, as plantas e com o planeta Terra de modo geral; 
  3. a Humanidade fornece esperança - e, bem vistas as coisas, a Humanidade é o único ser que pode, realmente, satisfazer as nossas esperanças. 

A celebração foi transmitida nos canais Positivismo (https://youtu.be/sjHUhE3Ftg4?si=jONvWUCk6KXzvc5d) e Igreja Positivista Virtual (Facebook.com/IgrejaPositivistaVirtual/888302053642657).

As anotações que serviram de base para a exposição oral encontram-se reproduzidas abaixo.

*   *   *

Festa da Humanidade

(1º de Moisés de 172/1º de janeiro de 2026) 

1.     Abertura

2.     Retomaremos hoje algumas observações que fizemos ontem, quando realizamos a celebração da Festa Universal dos Mortos

3.     Antes de mais nada, um lembrete e um aviso necessário: a celebração de hoje não é uma prédica, mas é um momento puramente cultual

3.1.   Assim, embora sempre estimulemos a participação ao vivo, hoje isso não será possível, pois não é adequada

4.     No dia de hoje realizamos a celebração anual da festa de todos os seres humanos convergentes, a Festa da Humanidade, que é a mais importante do ano

5.     O calendário não tem por função apenas – na verdade, nem prioritariamente – regular a passagem do tempo, mas regular os cultos religiosos; assim, todos os dias podem e devem ser consagrados a alguma coisa e faz todo o sentido que o dia que inicia o ano seja dedicado à mais importante das celebrações

5.1.   Essa celebração integra ao mesmo tempo um ciclo e um desenvolvimento contínuo

5.1.1. Na verdade, a realidade humana é ao mesmo tempo cíclica e cambiante ao longo do tempo

5.2.   Reconhecer esse duplo caráter não é fácil; mais uma vez: isso gera dificuldades para cada um de nós no dia a dia e mesmo os intelectuais têm grandes problemas para entendê-lo

5.3.   Na verdade, esse duplo aspecto integra a realidade cósmica:

5.3.1. Há fenômenos que se repetem ao longo do tempo: de modo específico e exemplar, os fenômenos astronômicos (os dias, as fases da Lua, os anos, as estações)

5.3.2. Da mesma forma há fenômenos que se desenvolvem ao longo do tempo: de maneira muito clara, aqueles que se acumulam com o tempo, ou seja, as questões históricas (o desenvolvimento da Terra, as mudanças biológicas, a história humana propriamente dita, o desenvolvimento individual)

5.4.   O caráter ao mesmo tempo cíclico e evolutivo da realidade e, por extensão, do ser humano, é consagrado pelo Positivismo nas noções de “Estática” e “Dinâmica” e, considerando a filosofia política, na fórmula “Ordem e Progresso”

5.5.   O desenvolvimento histórico ocorre ao longo do tempo, sendo marcado ao mesmo tempo e necessariamente pelos aspectos cíclicos: daí a necessidade imperiosa de, ao longo de nossas vidas e de nossas histórias, celebrarmos periodicamente alguns valores e algumas concepções – na data da hoje, a Festa da Humanidade

6.     Afirmamos e repetimos hoje que a Festa da Humanidade é a mais importante comemoração do ano: ela celebra o verdadeiro Grão-Ser, ao qual dedicamos e devemos nossas vidas

6.1.   Há muito para falar sobre a Humanidade; em certo sentido, tudo pode e deve ser dito a seu respeito, na medida em que ela resume todos os conhecimentos e, antes, todos os sentimentos e todas as ações humanas

6.2.   Ontem, ao encerrar o ano anterior na Festa Universal dos Mortos, lembramos a subjetividade e demos um pouco de ênfase à gratidão: hoje, ao falarmos da Humanidade, queremos comentar como o lamento é mais altruísta que a raiva e que a Humanidade dá-nos acolhimento e esperança

6.3.   Mas, para isso, temos que nos lembrar de qual a noção de Humanidade

7.     Nosso mestre é muito claro no Catecismo positivista, no qual dedica um capítulo (a segunda conferência) à noção de Humanidade (Catecismo, 2ª Conferência, p. 72-74):

O SACERDOTE — Para o conseguirdes [uma noção mais clara da Humanidade], deveis, minha filha, definir em primeiro lugar a humanidade como o conjunto dos seres humanos, passados, futuros e presentes. Esta palavra conjunto indica-vos bastante que não se deve compreender aí todos os homens, mas só aqueles que são realmente assimiláveis, por efeito de uma verdadeira cooperação na existência comum. Posto que todos nasçam necessariamente filhos da humanidade, nem todos se tornam seus servidores, e muitos permanecem no estado parasitário, que só foi desculpável durante a sua educação. Os tempos anárquicos fazem sobretudo pulular, e demasiadas vezes florescer, esses tristes fardos do verdadeiro Grande Ser. [...]

Vedes assim que, a este como a qualquer outro respeito, a inspiração poética antecedeu muito a sistematização filosófica. Seja como for, se esses parasitas não fazem realmente parte da humanidade, uma justa compensação vos prescreve de agregardes ao novo Ente Supremo todos os seus dignos auxiliares animais. Toda útil cooperação habitual nos destinos humanos, quando exercida voluntariamente, erige o ser correspondente em elemento real dessa existência composta, com um grau de importância proporcional à dignidade da espécie e à eficácia do indivíduo. Para avaliar este complemento indispensável, basta imaginar que ele nos falta. Ninguém hesitará, então, em considerar tais cavalos, cães, bois, etc., como mais estimáveis que certos homens.

Nesta primeira concepção do concurso humano, a atenção volta-se naturalmente para a solidariedade, de preferência à continuidade. Mas, conquanto esta seja a princípio menos sentida, por exigir um exame mais profundo, é a noção dela que deve finalmente prevalecer, porquanto o surto social pouco tarda em depender mais do tempo que do espaço. Não é só hoje que cada homem, esforçando-se por apreciar o que deve aos outros, reconhece uma participação muito maior no conjunto de seus predecessores do que no de seus contemporâneos. Semelhante superioridade manifesta-se em menores proporções nas épocas mais remotas, como o indica o culto comovente que sempre nesses tempos se rendeu aos mortos [...].

Assim, a verdadeira sociabilidade consiste mais na continuidade sucessiva do que na solidariedade atual. Os vivos são sempre, e cada vez mais, governados necessariamente pelos mortos: tal é a lei fundamental da ordem humana.

7.1.   Resumindo de maneira muito grosseira as observações acima, podemos entender a Humanidade como o conjunto dos seres humanos convergentes passados, futuros e presentes, em que há uma realidade subjetiva (os seres humanos mortos e os ainda não nascidos) e uma realidade objetiva (os seres humanos atualmente vivos), em que a continuidade histórica subjetiva é mais importante e relevante que a solidariedade objetiva; além disso, o aspecto de “convergência” refere-se às ações altruístas, construtivas, relativistas etc. É importante indicar que os animais úteis incluem-se na Humanidade e, por vezes, merecem mais essa inclusão que muitos seres humanos

7.1.1. Na medida em que é objetiva e subjetiva, a Humanidade é também um ser abstrato e concreto: ela existe realmente, ela atua de verdade, mas sua existência e sua atividade dependem dos seres humanos concretos, vivos; sua existência e sua atividade tornam-se mais claras em termos subjetivos, isto é, abstratos, quando examinamos essa atuação ao longo do tempo

7.1.2. A idéia de um grande ser que se desenvolve ao longo do tempo e que, ao mesmo tempo, atualiza-se e realiza-se apenas por meio dos seres humanos vivos – uma deusa real que “é filha de seu filho” – exige, necessariamente, um conceito claro e, mais ainda, uma representação física: é por isso que a Humanidade tem um conceito claro e uma imagem igualmente clara

7.1.3. A Humanidade não são as ficções teológicas (politeístas, monoteístas, panteístas, deístas), nem são as abstrações metafísicas (“Natureza”, “Povo”, “Sociedade”, “Raça”, “Classe”, “Patriarcado”), nem é um ser sem rosto e sem forma: a Humanidade é uma deusa verdadeira, real, que existe concretamente mas que depende de seus filhos para manter-se e desenvolver-se; ela não é puramente abstrata, suas qualidades não são atributos arbitrários necessariamente impossíveis de serem verificados e provados; inversamente, ela não é uma abstração genérica sem sede, sem agentes, sem nome, sem representação física; por fim, a Humanidade, ao idealizar todos os nossos melhores traços (a começar pelos nossos aspectos morais), é representada necessariamente por u’a mulher para englobar todos os seres humanos

7.2.   A noção de Humanidade não se esgota nessas características que apresentamos; daqui a pouco veremos outras características tão importantes quanto belas; mas, de qualquer maneira, é importante lembrarmos que a Humanidade realiza os atributos da positividade, da mesma forma que ela constitui o clímax de cada uma das leis dos três estados:

7.2.1. A partir da positividade, a Humanidade é real, útil, certa, precisa, relativa, orgânica e simpática

7.2.2. A partir das leis dos três estados, a Humanidade (1) é positiva (ou seja, é relativa); (2) é pacífica, construtiva, convergente; (3) é universal, tanto no espaço quanto, principalmente, no tempo, nas concepções filosóficas e na fraternidade

8.     A noção de Humanidade orienta-nos claramente para o altruísmo, para o amor e para a paz; mas a nossa época é cada vez mais caracterizada pelas denúncias de crimes, de injustiças, de violências: em tal situação, a resposta mais comum – e é a mais comum porque é a mais difundida e é a mais estimulada – é a raiva em face de tais problemas

8.1.   Ora, como lidar com isso? Isto é, como lidar com a raiva?

8.2.   Em face das injustiças, é muito comum que as crescentes quantidade e intensidade das denúncias contra elas conduzam a um pessimismo generalizado em relação ao ser humano, resultando em que se considera que o ser humano “não prestaria”, ou que as coisas “não teriam salvação” etc.

8.2.1. Em outras palavras, embora nominalmente busquem a melhoria das condições humanas, o fato é que a quantidade e a intensidade das denúncias conduzem, contraditoriamente, à desesperança, o que não faz o menor sentido

8.2.2. O que está em questão aqui, evidentemente, não são as denúncias por si sós: o problema consiste em ficar apenas nas denúncias e não se preocupar com as soluções, pois isso por um lado estimula o pessimismo e, por outro lado, afasta a busca de concepções gerais (logo, de soluções gerais)

8.3.   Associada às denúncias contra as injustiças e resultado direto dessas denúncias, temos o sentimento da raiva, que, segundo a lógica afetiva, torna-se por sua vez o móvel de novas denúncias (bem entendido: denúncias desesperançadas)

8.3.1. Mas a raiva, por mais poderosa que seja – e todos sabemos como ela de fato é poderosa – consiste apenas em uma reação violenta e destruidora em face de alguma situação que consideramos ruim ou problemática; em outras palavras, a raiva é uma reação profunda e violenta do instinto destruidor

8.4.   A raiva e o pessimismo com freqüência andam de mãos dadas e retroalimentam-se, da mesma forma que eles afastam a serenidade e a esperança; aliás, a raiva, em particular, sendo a manifestação (1) violenta do (2) instinto egoísta destruidor, afasta também o altruísmo e o amor

9.     O que propomos aqui é que, em vez de estimularmos e promovermos a raiva, em vez de propormos a raiva como o sentimento fundamental ante situações que julgamos ruins, degradantes, injustas etc., procuremos sentimentos que sejam ao mesmo tempo diretamente altruístas e que reconheçam o aspecto problemático das situações que denunciamos

9.1.   Neste momento, propomos então o lamento no lugar da raiva

9.1.1. Eu sugiro aqui o lamento porque é o sentimento que me vem à mente agora; entretanto, tenho clareza de que ele tem, ou pode ter, um déficit de energia e que, portanto, talvez outro sentimento seja mais adequado para ser proposto: estou ansiosamente aberto a sugestões

9.2.   É certo que a raiva conduz-nos diretamente para a ação, ou seja, tem um aspecto ativo muito evidente, ao passo que o lamento tem um aspecto mais passivo; isso nos parece realmente uma dificuldade, ainda que não seja uma dificuldade insuperável

9.3.   Mas, de qualquer maneira, a questão que nos parece central aqui é que, embora seja extremamente ativa, o ativismo próprio à raiva não compensa a violência que ela mobiliza, nem a destruição que ela busca realizar; em outras palavras, os aspectos negativos da raiva superam muito os seus aspectos positivos

9.4.   Mantendo o lamento como uma sugestão (portanto, com um caráter provisório), o fato é que o lamento reconhece as injustiças, os problemas, as situações degradantes, mas não conduz à violência nem nos submerge no egoísmo destruidor: o lamento é o altruísmo mantendo-se altruísta e reconhecendo uma situação injusta e que deve mudar

9.5.   O lamento apresenta um outro aspecto importante, ao rejeitar a violência e a destruição: ele mantém a esperança – a esperança de que as coisas podem melhorar e a esperança de que as coisas têm condições reais de melhorarem

9.6.   A substituição da raiva como sentimento padrão em face dos problemas que vivemos por sentimentos realmente altruístas não é algo secundário: na verdade, é uma necessidade urgente, em vista do altruísmo, da paz, da fraternidade, da esperança

10.   Falamos em esperança: a única verdadeira esperança que podemos ter é a dada pela Humanidade

10.1.               A Humanidade dá-nos esperança de múltiplas formas:

10.1.1.   Ao ser a única e verdadeira providência humana, ou seja, o único e verdadeiro ser que realiza as coisas e que, portanto, é capaz de melhorar as coisas

10.1.2.   Ao definir-se pelo altruísmo, pela paz, pela fraternidade, pela realidade e pela utilidade, ou seja, ao dispor dos meios e dos sentimentos capazes de melhorar as coisas

10.1.3.   Ao afirmar sempre, com clareza, que os melhoramentos são sempre, antes de mais nada, melhoramentos morais, depois intelectuais e somente por fim melhoramentos materiais/físicos (ou seja, melhoramentos do amor, da ordem e do progresso)

10.1.4.   Ao evidenciar que, por mais problemática que com freqüência seja a existência humana, o progresso ocorre de verdade e que, ao longo do tempo, nossos antepassados legaram-nos melhoramentos efetivos, que podem e devem ser agora e sempre utilizados, aprofundados e ampliados

10.2.               A metafísica dissolvente, o pessimismo próprio ao denuncismo incessante, a violência destruidora própria à raiva – tudo isso converge de maneira tão intensa no mundo atual que mesmo pessoas que se dizem positivistas, ou que estão na órbita do Positivismo, muitas vezes repetem esse pessimismo e são incapazes de entender e de sentir a efetividade da esperança dada pela Humanidade

11.   Se falamos da esperança no sentido de correção de injustiças, a Humanidade também nos dá esperança em outro sentido: não vivemos sozinhos no mundo

11.1.               O espírito metafísico, sendo a negação da teologia, considera que a existência humana começa e termina ao tratar das divindades; da mesma forma, a metafísica, ao negar os deuses, consegue apenas afirmar o individualismo egoísta e/ou afirmar uma “solidão cósmica

11.1.1.   Só o fato de limitar-se à teologia evidencia o quanto a metafísica é restrita e superficial; entretanto, infelizmente, como já indicamos em muitas vezes anteriores, a nossa época é profundamente metafísica (em particular devido à influência daninha dos Estados Unidos e, de modo geral, dos protestantismos), de modo que a crítica à teologia mantém como resultados o individualismo, a anarquia e/ou a “solidão cósmica”

11.1.2.   Essas três conclusões metafísicas da crítica à teologia (individualismo, anarquia, solidão cósmica), que não esgotam as possibilidades metafísicas, são bastante claras nos ambientes anglossaxões, como Nietzsche e Max Weber exemplificam de maneira gritante (o que, aliás, é mais que motivo para deixar-se de lado tais autores)

12.   Afirmamos há pouco que a noção de Humanidade é esperançosa: como dissemos, não se trata apenas da esperança de melhorias, mas de esperança também no sentido de conforto, ou melhor, de acolhimento; em outras palavras, com a Humanidade os vícios morais, intelectuais e práticos decorrentes da metafísica não se verificam

12.1.               Sem nos determos nos vícios do individualismo e da anarquia, podemos perguntar com clareza: como é possível falarmos em “solidão cósmica”, em “isolamento”, em falta de apoio, quando, na, pela e com a Humanidade todos nós vivemos em meio aos outros seres humanos, que nos dão apoio, conforto, estímulo? Como podemos com sinceridade falar em “solidão” quando vivemos cercados da memória constante dos mortos?

12.2.               O sentido positivo da religião já deixa claro que não somos nunca sozinhos, mesmo que estejamos eventualmente isolados: a religião é o religare, é o “religar”, é o ligar duas vezes – ligar-nos internamente pelo amor, ligar-nos externamente pela fé

12.3.               A Humanidade, como vimos antes, é acima de tudo os mortos e quem ainda não nasceu; assim, a Humanidade é acima de tudo subjetiva: como é possível estarmos subjetivamente sozinhos, em solidão, se subjetivamente estamos cercados de fraternidade, de apoio, de afeto?

12.3.1.   Nesse sentido, por exemplo, a oração positiva é um instrumento poderosíssimo para relacionar-nos uns aos outros: os nossos anjos da guarda estão sempre conosco, enriquecendo, aquecendo e melhorando nossas vidas

12.4.               Mas a Humanidade não é somente os seres humanos: ela incorpora necessariamente também os animais úteis, muitos dos quais se sacrificam por nós, além dos animais domésticos: quem pode dizer, com sinceridade, que o seu cão de estimação, ou seu gato, ou seu papagaio, ou até seu cavalo ou porco, não faz parte da família? Apenas de maneira arbitrária, cruel e irracional rompem-se os vínculos que ligam o ser humano ao conjunto dos seres vivos; apenas de maneira arbitrária, cruel e irracional os teológicos, mas também muitos metafísicos, afirmam que só o ser humano é “racional”, é “verdadeiramente sociável”, que o planeta Terra é para usufruto exclusivo dos humanos

12.5.               A Humanidade, na generosa e genial elaboração de nosso mestre, amplia-se radicalmente, ao estabelecer o neofetichismo, no qual a síntese inicial é incorporada à síntese final

12.5.1.   Com o neofetichismo foi possível a nosso mestre estabelecer a Trindade Positiva, ultrapassando de maneira radical os desrespeitos teológico-metafísicos pelo planeta e por nossa existência; com a Trindade Positiva, o ser humano finalmente voltou a viver em um ambiente terno, aconchegante, afetivo, no qual a luta pela existência, embora ainda exista, torna-se subjetivamente menos dura e, ao mesmo tempo, mais recompensadora

12.5.2.   A Trindade Positiva é composta pelas seguintes entidades: o Grão-Meio, o Espaço, que é apenas afetivo e no qual têm lugar os fenômenos naturais abstratos; o Grão-Fetiche, a Terra, caracterizada pelos sentimentos e pela atividade, mas não pela inteligência, na qual nossas existências têm lugar e ao qual devemos diversos cultos; por fim e acima de tudo, o Grão-Ser, a Humanidade, dotada de sentimentos, atividade e inteligência, capaz de orientar sua ação com vistas à melhoria da realidade

13.   Na Festa da Humanidade, em meio a tantas possíveis homenagens e reflexões, creio que as duas que apresentei – o abandono da raiva como sentimento-padrão e a afirmação do caráter aconchegante do Grande Ser – permitem entendermos e valorizarmos um pouco mais e melhor a nossa deusa verdadeira

14.   Para terminar estas reflexões, recitaremos um belo poema de Generino dos Santos, Ato de fé positivista 

*   *   * 

ATO DE FÉ POSITIVISTA 

Credo quia demonstrandum[1]. 

Creio em Ti, Grande Ser, Mãe carinhosa,

Que, em teu fecundo seio imaculado,

Engendraste o presente do passado

Conformado o porvir que Te endeusa.

 

             Tudo que sou, t’o devo – És bondadosa

Providência Moral que me há guiado;

Pois, sem Ti, todo amor fora pecado,

Toda ciência egoística e vaidosa;

 

             Eu que, outrora, sem Ti, lutava a esmo,

Por Ti me agito – e teu sofrer partilho,

Partilho teu destino afortunado.

 

Ó Virgem Mãe! Ó Filha do teu Filho!

Que eu ame mais a Ti do que a mim mesmo,

E nem a mim, senão por ter-Te amado! 

*   *   * 

15.   Término



[1]Creio porque pode ser demonstrado”. 

04 setembro 2025

A frase "fazer o bem, não importa a quem"

No dia 21 de Gutenberg de 171 (2.9.2025) realizamos nossa prédica, dando continuidade à leitura comentada do Apelo aos conservadores (em sua Primeira Parte - doutrina apropriada aos verdadeiros conservadores).

No sermão abordamos a frase popular "fazer o bem, não importa a quem", indicando que, se ela tem bons sentimentos, sua orientação é cega e tem resultados daninhos e injustos.

No final do sermão apresentamos trechos do belíssimo poema de Raimundo Teixeira Mendes, Exortação à Fraternidade.


As anotações que serviram de base para a exposição oral encontram-se reproduzidas abaixo.

*   *   *


A expressão “Fazer o bem, não importa a quem”

(21.Gutenberg.171/2.9.2025) 

1.       Invocação inicial

2.       Datas e celebrações:

2.1.    Dia 23 de Gutenberg (4.9): nascimento de Richard Congreve (1818 – 207 anos)

2.2.    Dia 24 de Gutenberg (5.9): transformação de Augusto Comte (1857 – 168 anos); comemoração de Sofia Bliaux

2.3.    Dia 25 de Gutenberg (6.9): nascimento de Henrique Oliveira (1908 – 117 anos)

2.4.    Dia 26 de Gutenberg (7.7): Independência do Brasil (1822 – 203 anos); glorificação de José Bonifácio

3.       Leitura comentada do Apelo aos conservadores

3.1.    Antes de mais nada, devemos recordar algumas considerações sobre o Apelo:

3.1.1. O Apelo é um manifesto político e dirige-se não a quaisquer pessoas ou grupos, mas a um grupo específico: são os líderes políticos e industriais que tendem para a defesa da ordem (e que tendem para a defesa da ordem até mesmo devido à sua atuação como líderes políticos e industriais), mas que, ao mesmo tempo, reconhecem a necessidade do progresso (a começar pela república): são esses os “conservadores” a que Augusto Comte apela

3.1.1.1.             O Apelo, portanto, adota uma linguagem e um formato adequados ao público a que se dirige

3.1.1.2.             Empregamos a expressão “líderes industriais” no lugar de “líderes econômicos”, por ser mais específica e mais adequada ao Positivismo: a “sociedade industrial” não se refere às manufaturas, mas à atividade pacífica, construtiva, colaborativa, oposta à guerra

3.2.    Outras observações:

3.2.1. Uma versão digitalizada da tradução brasileira desse livro, feita por Miguel Lemos e publicada em 1899, está disponível no Internet Archive: https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores

3.2.2. O capítulo em que estamos é a “Primeira Parte”, cujo subtítulo é “Doutrina apropriada aos verdadeiros conservadores”

3.3.    Passemos, então, à leitura comentada do Apelo aos conservadores!

4.       Exortações

4.1.    Sejamos altruístas!

4.2.    Façamos orações!

4.3.    Como Igreja Positivista Virtual, ministramos os sacramentos positivos a quem tem interesse

4.4.    Para apoiar as atividades dos nossos canais e da Igreja Positivista Virtual: façam o Pix da Positividade! (Chave Pix: ApostoladoPositivista@gmail.com)

5.       Sermão: a fórmula “fazer o bem, não importa a quem”

5.1.    O sermão de hoje abordará alguns temas que se referem a situações com que todos nós defrontamo-nos todos os dias e que, além disso, também se referem diretamente à Religião da Humanidade: a obrigação de sermos corteses, a tolerância mútua como base da fraternidade

5.2.    Comecemos com a máxima popular “fazer o bem, não importa a quem”

5.2.1. Essa fórmula apresenta um imperativo que, a princípio, é convergente com a Religião da Humanidade: nossa obrigação de sermos altruístas

5.2.2. Todavia, essa fórmula é extremamente vaga – e essa vagueza é fatal

5.2.3. Adiantando o tema, convém desde já reconhecer que, apesar da vagueza da fórmula, ainda assim ela procura resolver uma condição que é difícil por si só

5.3.    Ainda antes de seguirmos adiante, também vale a pena indicar que esse tema na verdade foi-me perguntado pelo nosso correligionário Eugênio Macedo

5.3.1. A dúvida do Eugênio era pessoal, dele, mas evidentemente ela pode e deve ser tratada de maneira mais ampla, na medida em que afeta todos nós e que, de qualquer maneira, mesmo que não fosse comum a todos nós, poderia interessar a outras pessoas

5.3.1.1.             É claro que essa dúvida pode ser tratada publicamente sem dificuldades, isto é, sem criar nenhum constrangimento

5.3.1.2.             O “viver às claras” refere-se aos nossos atos, mas também às motivações de nossas ações; a publicidade de nossas vidas não pode corresponder a indiscrições nem a situações vexaminosas

5.3.2. Transformar dúvidas individuais de nossos correligionários em temas de sermões é uma forma simples e eficiente de ajudar as pessoas e de demonstrar que o Positivismo é, e deve ser, útil

5.3.2.1.             Dessa forma, fica aqui o convite e o estímulo: quem tiver dúvidas, questões, comentários, apresente-os sem medo, que procuraremos responder, orientar e aconselhar

5.4.    A Religião da Humanidade proclama que a lei do dever e a fórmula da felicidade são uma única: é o “viver para outrem”

5.4.1. Devemos notar que a fórmula positivista tem um imperativo geral – devemos ser altruístas e dedicarmo-nos aos demais –, mas não é um imperativo vago; além disso, ela pressupõe o cuidado com nós mesmos e veda a autoimolação

5.5.    O problema da vagueza da fórmula popular é que ela não faz distinções de merecimento das pessoas que receberão o benefício, nem afirma os cuidados com nós mesmos

5.5.1. No que se refere ao mérito dos beneficiários: devemos, sim, considerar quem recebe o bem, pois diferentes pessoas têm diferentes comportamentos, diferentes necessidades, diferentes possibilidades; evidentemente, algumas são melhores que outras, enquanto algumas são piores que outras: tudo isso deve necessariamente ser levado em conta

5.5.2. O nosso dever de altruísmo não é unilateral; na verdade, como se trata de um dever, é uma relação, ou seja, é uma obrigação mútua: assim como cada um de nós deve ser altruísta, os demais também devem ser altruístas; a reciprocidade deve ser levada em conta e valorizada

5.5.2.1.             O “fazer o bem, não importa a quem”, especialmente na parte do “não importa a quem”, deixa de lado o aspecto relacional da vida humana; portanto, ele ignora de verdade o seu caráter de dever, apenas criando direitos para os outros, sem lhes impor também deveres mútuos

5.5.3. Devemos considerar também a justiça de nossas ações: pessoas boas que sofrem injustiças devem ser bem tratadas; pessoas que erraram mas que manifestam desejar melhorar também devem ser valorizadas; a quem errou deve ser dada a oportunidade real de emendar-se; mas quem errou, persistiu no erro e rejeitou a emenda, qual o sentido de fazer indefinidamente o bem para ela?

5.5.4. Assim, há um aspecto de valorizar a bondade e de punir a maldade – sem que haja injustiça, crueldade nem que se vede a possibilidade de emendar-se o mal

5.6.    À parte esses graves problemas de mérito e de justiça – que a fórmula popular “fazer o bem, não importa a quem” é incapaz de enfrentar –, devemos convir que a dificuldade prática nessa condição é que, qualquer que seja a fórmula – “viver para outrem”, ou “fazer o bem, não importa a quem” –, desejamos ser altruístas e generosos, mas defrontamo-nos com a necessidade concreta de limitarmos esse altruísmo e mesmo de fazermos valer o nosso egoísmo

5.6.1. Indiscutivelmente, essa é uma situação frustrante; não há como a evitar

5.6.2. Um aspecto que se evidencia a partir dela é que o também altruísmo deve ser bem orientado

5.6.2.1.             Na verdade, a correta orientação do altruísmo foi afirmada por Augusto Comte quando ele apreciou o comunismo, que, para ele, consistia em uma orientação incorreta do altruísmo e que, mesmo por isso, era superior ao individualismo liberal-burguês, que consiste no exagero do egoísmo

5.6.3. A solução para esse problema, parece-me, consiste em que devemos ser generosos, tolerantes e ter uma orientação altruísta geral; além disso, devemos considerar que todos a princípio merecem nosso respeito, nossa estima, nosso altruísmo; mas essa estima básica também deve ser confirmada cotidianamente, especialmente lembrando que o viver para outrem é uma obrigação mútua

5.6.4. O “fazer o bem, não importa a quem” tenta lidar com o egoísmo por meio da sua negação; mas, ao negar, ele não lida de verdade com ele e, em particular, ele não regula o egoísmo: mas a questão, no caso, é exatamente essa: é necessário ao mesmo tempo estimular o altruísmo e regular (pelo altruísmo) o egoísmo

5.7.    Um outro aspecto que devemos considerar é que, se devemos viver para outrem, o nosso altruísmo não se desenvolve nem se mantém no vazio, como pura abstração: ele exige objetos concretos, relações reais

5.7.1. Em outras palavras, o desenvolvimento e a manutenção iniciais do altruísmo necessitam de focalização e personalização

5.7.2. Nosso mestre indicou com clareza, na parte do culto, os objetos de nosso altruísmo; eles são ascendentes, passando de relações pessoais para relações familiares, então para relações cívicas e daí para relações universais

5.7.3. Em outras palavras, começamos com nossas mães, nossos cônjuges, nossos filhos, pais e irmãos; seguimos para nossas famílias ampliadas; então vamos para as relações cívicas (colegas de trabalho, chefes, subordinados, concidadãos, líderes); ampliamos então para a Humanidade; tudo isso começando com relações objetivas mas logo devendo estender-se também para as relações subjetivas

5.7.4. Bem vistas as coisas, essa seqüência ascendente corresponde a uma aplicação da terceira lei dos três estados, ou seja, da lei afetiva (de que tratamos em uma prédica anterior)

5.7.5. Esse desenvolvimento progressivo do altruísmo, para o que estamos tratando aqui, consiste também na ampliação progressiva do “fazer o bem” – mas que, como estamos afirmando, não pode ser “não importa a quem”

5.8.    Um problema relacionado com o do “fazer o bem, não importa a quem” é: como estimular o altruísmo?

5.8.1. A teologia e a metafísica prometem recompensas ou punições; em qualquer caso, os móveis são sempre egoístas

5.8.2. A Religião da Humanidade, a partir da experiência cotidiana e multimilenar, afirma que o altruísmo é a própria recompensa

5.8.3. Como sintetizou com beleza Clotilde de Vaux, “Não há prazeres maiores que os da dedicação”

5.9.    Para concluir estes comentários, quero aproveitar para referir-me a um poema de Teixeira Mendes

5.9.1. Trata-se do Exortação à Fraternidade, que foi composto no aniversário de transformação de Clotilde, ou seja, em 5 de abril de 1911

5.9.2. Esse poema tem o seguinte comentário explicativo: “Ensaio de uma paráfrase positivista do Capítulo XVI, Livro I, da Imitação de Tomás de Kempis, segundo a tradução em verso de Corneille: Como se deve sofrer os defeitos de outrem

5.9.3. Em outras palavras, Teixeira Mendes afirma, ou lembra, que a fraternidade exige que todos tenhamos paciência uns com os outros, pois todos temos defeitos

5.9.4. É claro que o poema todo vale a pena; mas citaremos só as partes III e IV

III. Queremos cada qual sujeito à disciplina,

            Sofrendo a necessária correção;

Revolta-nos, porém, se alguém nos examina,

E à conduta nossa o seu valor assina,

            Realçando qualquer imperfeição.

 

Exprobramos aos mais o quanto d’indulgência

            Consigo têm e o que se dão de gozos;

E é ofensa atroz não ter-se a complacência

De nada recusar, com suma deferência,

            Aos nossos movimentos caprichosos.

 

Estatutos prendendo em rigoroso laço

            Severamente aos outros desejamos;

E, seja de quem for, o mais ligeiro traço,

Ao nosso bel-prazer, criando um embaraço

            D’império absoluto, a mal levamos.

 

Onde se esconde, pois, o férvido Altruísmo,

            Que Viver para outrem nos sugere?

E como então sentir que, ou seja no heroísmo,

Ou na dedicação comum, ou no ascetismo,

            Prazer algum não há que os seus supere.

 

No Mundo, a imperfeição por toda parte abunda,

            A jerarquia eterna acompanhando,

Que, sob a mais grosseira, a lei mais nobre funda;

Somente a paciência, em méritos fecunda

            Essa ordem fatal vai mitigando.

 

IV. É pois na sujeição qu’ensina a Humanidade

            O aperfeiçoamento basear-se;

Não há beleza inteira, ou íntegra bondade;

Assim é dever nosso e nossa felicidade

            Uns aos outros o fardo aliviar-se.

 

Ninguém é sem senão, ninguém é sem fraqueza;

            Ninguém sem precisar d’algum amparo;

Ninguém tem de ciência, em si, assaz riqueza;

Ninguém é forte assaz com a própria fortaleza.

            Para não sentir faltar-lhe apoio caro.

 

Urge pois entre-amar-se, urge pois entre-instruir-se

            Urge pois, em tudo, entre-auxiliar-se;

Urge entre-prestar-se o olhar a dirigir-se;

Urge entre-estender-se a mão conduzir-se;

            Urge um ao outro dar com quem curar-se.

 

Quanto maior a dor, mais fácil prova of’rece

            Até que ponto fora alguém perfeito;

E os golpes mais cruéis que uma alma então padece

Não são que a fazem fraca; apenas se conhece

            Assim o que ela vale com efeito.

6.       Invocação final

 

Referências

- Augusto Comte (franc.), Sistema de filosofia positiva (Paris, Société Positiviste, 5e ed., 1893)

- Augusto Comte (franc.), Sistema de política positiva (Paris, L. Mathias, 1851-1854)

- Augusto Comte (port.), Apelo aos conservadores (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores.

- Augusto Comte (port.), Catecismo positivista (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 4ª ed., 1934)

- Gustavo Biscaia de Lacerda (port.), Prédica "O início do Positivismo: as três leis dos três estados" (Curitiba, Igreja Positivista Virtual, 26.8.2025): https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2025/08/o-inicio-do-positivismo-as-tres-leis.html

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), As últimas concepções de Augusto Comte (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-i e https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-ii.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), O ano sem par (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1900): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-o-ano-sem-par-portug._202312/page/n7/mode/2up.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.): Exortação à Fraternidade (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1911; opúsculo n. 316): https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2025/08/teixeira-mendes-exortacao-fraternidade.html