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11 março 2026

"O Brasil no espelho", Dia das Mulheres, Castilhismo não é fascismo

No dia 13 de Aristóteles de 172 (10.3.2026) realizamos nossa prédica positiva, dando continuidade à leitura comentada do Apelo aos conservadores (em sua Segunda Parte - Postura dos positivistas em relação aos retrógrados).

Comentamos também o livro de Felipe Nunes, O Brasil no espelho - livro que, apesar de trazer dados estatísticos interessantes sobre os brasileiros, comete erros primários, grosseiros e preconceituosos em termos conceituais e filosóficos, especialmente a respeito do Positivismo.

Além disso, reafirmamos a campanha O castilhismo não é fascista, que lançamos em virtude de um movimento fascista baseado no Rio Grande do Sul pretender usar a figura de Júlio de Castilhos para justificar o fascismo.


As anotações que serviram de base para a exposição oral encontram-se reproduzidas abaixo.

*    *    *





Leitura do Apelo aos conservadores

(13 de Aristóteles de 172/10.3.2026) 

1.     Abertura da prédica

2.     Datas e celebrações:

2.1.   Dia 11 de Aristóteles (8 de março): Dia Internacional das Mulheres

3.     Algumas manifestações públicas:

3.1.   Mensagens trocadas com a Fundação Darcy Ribeiro, a propósito da ausência de positivistas na sua “Biblioteca Básica Brasileira”, apesar da presença simultânea de monarquistas, liberais, escravistas etc.

3.1.1. O mesmo pode ser dito a respeito da sua “Biblioteca Básica Latino-Americana”, mas em menor grau

3.1.2. Recebemos resposta sem assinatura da diretoria da Fundação reconhecendo essa limitação (embora não a justificando) e pedindo nosso apoio em futuras publicações

3.2.   Lançamento do cartaz “O castilhismo não é fascista!

3.2.1. Pretensão de um movimento fascista gaúcho de basear-se em Júlio de Castilhos para justificar o seu fascismo

3.3.   Ausência completa de resposta do Deputado Chico Alencar, a propósito do projeto de lei que altera a bandeira nacional (PL n. 5883/2025)

4.     Comentários sobre o livro O Brasil no espelho (Rio de Janeiro, Globo, 2025), de Felipe Nunes

4.1.   Esse livro foi publicado em 2025 e apresenta os resultados de uma pesquisa sobre hábitos e opiniões da população brasileira a respeito das mais variadas questões: importância da família, preferências político-partidárias, confiança nas instituições etc.

4.1.1. É um livro pequeno, com menos de 200 páginas, de leitura fácil e rápida, com muitos e muitos gráficos e a maior parte do texto escrito correspondendo à descrição e à interpretação desses gráficos

4.1.2. Como é um livro publicado, ele é orientado para o grande consumo popular, de modo que não há as reflexões metodológicas que sempre aparecem em pesquisas estritamente acadêmicas; além disso, o estilo de escrita é bastante acessível; por fim, pode-se conjecturar que algumas questões foram suprimidas dessa versão publicada, a fim de manter (ou garantir) o acesso popular dos resultados da pesquisa

4.2.   Além das classificações em termos de gênero e região do país, o autor considerou também a “raça” e, principalmente, as faixas etárias

4.2.1. Em termos de faixas etárias, já indicando alguns dos vícios desse livro, o autor agrupou os respondentes em quatro grupos, nomeados conforme o período de nascimento e de sociabilização básica: grupo “Bossa Nova” (nascidos entre 1945 e 1965); grupo “Ordem e Progresso” (1965-1985); grupo “Redemocratização” (1985-2005); grupo “Geração.Com” (2005-2020)

4.3.   A fórmula “Ordem e Progresso” é usada para descrever o período autoritário; em outras palavras, o autor associa direta e conscientemente o “Ordem e Progresso” – e, por extensão, o Positivismo – aos militares e ao autoritarismo

4.3.1. Mesmo que, por hipótese, possa-se argumentar que tal vinculação foi inocente, o fato é que ela com certeza foi superficial e irresponsável; esse “erro inocente” o autor não comete a respeito de outros aspectos e, de qualquer maneira, o título “Ordem e Progresso” foi empregado em um procedimento a posteriori e que, de qualquer maneira, pode(ria) ser alterado a posteriori: em outras palavras, o autor decidiu conscientemente adotar a expressão “Ordem e Progresso” para descrever o período autoritário, vinculando a expressão ao autoritarismo

4.3.2. A irresponsabilidade e a superficialidade intelectual, teórica e metodológica do autor estende-se também ao âmbito moral, na medida em que o “Ordem e Progresso”, à parte a sua origem positivista, integra o mais importante símbolo do país, que é a bandeira nacional; dessa forma, ao vincular o “Ordem e Progresso” ao autoritarismo militarista, o que o autor faz é vincular a bandeira nacional a esse autoritarismo militarista, corroborando os preconceitos da esquerda e da direita a respeito

4.3.3. Embora tenha degradado o “Ordem e Progresso” e a bandeira nacional a partir de preconceitos políticos, o autor poderia com enorme facilidade usar outros títulos para descrever a geração nascida entre 1964 e 1985; por exemplo, “Anos de Chumbo”, “Autoritarismo”, “Regime Militar” – ou mesmo “Segurança e Desenvolvimento”: o autor não o fez porque não quis

4.4.   Esse tipo de vício teórico está presente em todo o livro e reflete um problema que acomete com enorme freqüência cientistas sociais dedicados a pesquisas empíricas, especialmente as quantitativas: são muito bons com números e com a manipulação estatística, mas são péssimos em termos conceituais

4.4.1. Por “péssimos em termos conceituais” o que queremos dizer é que esses pesquisadores lidam mal com os conceitos, não raras vezes sendo superficiais a esse respeito

4.5.   As questões expostas no livro refletem com clareza tal superficialidade conceitual, ou melhor, tal superficialidade teórica: o autor opõe “conservadores” a “progressistas”, em que os conservadores são definidos como tais a partir do que a esquerda considera-o, da mesma forma que os progressistas; assim, não apenas o autor adota sem maiores cuidados uma classificação que é elaborada por um dos grupos sociais que ele pesquisa (e que é elaborada contra um outro grupo que ele também pesquisa), como o autor esposa essa classificação da esquerda

4.5.1. O primarismo conceitual do autor, bem como sua adesão acrítica aos valores da esquerda, fica evidente tanto nas categorias utilizadas por ele para estruturar a pesquisa quanto nas interpretações que ele faz dos dados obtidos

4.5.1.1.          Em termos de categorias empregadas, por exemplo, ele adota o conceito de “raças” e leva a sério essa categoria

4.5.1.2.          Em termos de interpretações, o autor afirma que valorizar a família é um traço de conservadorismo (!)

4.5.2. O autor não é explícito a respeito – ou seja, ele não assume, em momento nenhum, tais características e, inversamente, ele assume um certo objetivismo ligado ao seu quantitativismo –, mas a leitura atenta do livro evidencia com grande facilidade esses vícios

4.6.   A vinculação cínica e ligeira do “Ordem e Progresso” ao militarismo e ao autoritarismo, então, evidencia de maneira exemplar esses vícios intelectuais e metodológicos do autor

4.6.1. Além disso, como vimos, o autor opõe de maneira simplista “conservadores” a “progressistas”: mais que apenas aderir de maneira indesculpável às disputas políticas contemporâneas e transferi-las para sua pesquisa, o que o autor faz é rejeitar qualquer possibilidade efetiva de superar essa oposição e de realizar a união proposta pela máxima “Ordem e Progresso” (que o autor, sem dúvida, não entende)

4.7.   Em textos de promoção comercial das obras do autor, afirma-se que ele é um “grande” pesquisador, com uma carreira de sucesso no Brasil e no exterior, tendo desenvolvido muitas pesquisas e elaborado um índice que é vendido para governos e empresas

4.7.1. À parte o exercício comercial desse tipo de comentário, o êxito acadêmico do autor deixa claro que não há motivo nenhum para ele cometer os erros e os vícios que comete – e ele de fato comete-os: sua habilidade estatística e empírica poderia com enorme facilidade evitar todos os problemas devidos ao seu primarismo teórico

4.8.   Há outros aspectos em que o livro é superficial

4.8.1. Certamente não seria possível o autor abordar com profundidade todos os aspectos implicados pela pesquisa; entretanto, o autor dá certo destaque para algumas questões, sugere algumas conseqüências a respeito dessas questões e de algumas outras, mas silencia a propósito de outras que mereceriam (ou exigiriam) comentários e aprofundamento

4.8.2. Um exemplo de questão a respeito da qual o autor silencia é a chamada laicidade do Estado: o autor apresenta previamente vários resultados importantes – que a população brasileira acredita majoritariamente em divindades (monoteístas e politeístas) e que a população acredita no “poder da fé” –, para em seguida afirmar que isso tem relevância para políticas públicas, especialmente as que mobilizam mais diretamente a ciência (como as políticas de saúde e, indiretamente, de educação), e afirmar que se “deve levar a sério o peso das crenças populares, sob risco de as políticas públicas darem errado”: ora, o que se quer dizer com “levar a sério as crenças populares”? O autor silencia a respeito, mas sua omissão dá a impressão de que ele considera que governo e Estado devem incluir nas políticas públicas essas crenças – logo, o Estado deve deixar de lado a laicidade, o que deveria ser evidentemente inaceitável

4.9.   Em suma, é difícil não se ficar com grande irritação e má vontade com um livro e um pesquisador que comete erros tão grandes e superficiais, de maneira consciente e sistemática

5.     Exortações

5.1.   Sejamos altruístas!

5.2.   Façamos orações!

5.2.1. Hoje, em favor das orações positivistas, leremos alguns trechos da “Introdução” ao Ensaio sobre a oração, de José Lonchampt (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1896; catálogo da IPB, n. 165; páginas 11-14; ortografia atualizada):

[...]

A Humanidade não é a espécie humana, e não compreende a universalidade dos homens: a Humanidade é a memória dos mortos inspirando e guiando os vivos; é a suma de todos os altos pensamentos, de todos os nobres sentimentos, de todos os grandes esforços, referidos a um só e mesmo Ente, cuja alma é formada por esse conjunto, e cujo vasto corpo é constituído pelos vivos. Esta influência incessante do passado sobre o presente é tão salutar quanto necessária. Suponhamos, com efeito, uma geração humana inteiramente subtraída à influência das gerações anteriores: seria apenas uma cabilda[1] de rudes selvagens, tremendo diante de cada novo fenômeno da natureza, e levando a ferocidade ao ponto de comer carne humana; em uma palavra, essa geração reproduziria o estado primitivo de onde a Humanidade partiu para efetuar a sua gloriosa evolução. Assim, é a esse Grande-Ser que devemos tudo quanto suaviza, eleva, nobilita e deleita nossa vida: conhecê-lo, é portanto amá-lo.

A Humanidade, tão boa para nós, tão benfazeja em relação a nós, vive no presente por meio de homens como nós: destes servidores vivos dependem sobretudo a velocidade e a segurança de sua marcha. O amor que sentimos pela Humanidade nos incitará, pois, a servi-la com zelo, a fim de apressar, tanto quanto caiba em nós, a sua progressão para esse feliz estado social, em cujo limiar as gerações atuais podem prelibar[2] os seus mais delicados eflúvios[3].

[...]

Um dos meios mais seguros de consagrarmos todos os nossos esforços ao serviço do novo Ser Supremo consiste na prática quotidiana da oração. Rezar à Humanidade não será pedir ao seu poder uma mudança imediata na economia real, ou implorar de sua bondade um auxílio direto no infortúnio; semelhante prece seria contrária ao conhecimento que a ciência nos ministra a respeito da suprema existência, a qual acha-se submetida, como a nossa, a leis invariáveis: a Humanidade modifica, é verdade, os fenômenos da natureza, porém de um modo lento e regular; a Humanidade vem em auxílio dos sofrimentos humanos, porém somente melhorando cada vez mais as condições de nossa existência.

Rezar é expandir nosso reconhecimento e nosso amor para com a Humanidade: é também pedir nobres progressos para a nossa alma. Este pedido é sempre satisfeito: porque a sincera confissão de nossos defeitos e de nossas faltas, e o ardente desejo de melhorar e purificar o nosso coração, são os penhores[4] de um êxito infalível.

A oração quotidiana nos tornará, pois, melhores, e aperfeiçoando-nos, ela será útil à Humanidade, porque este novo Grande Ser precisa do nosso concurso; e como a reza consolida e acrisola[5] esse concurso, ele aproveita com as nossas orações. O Deus criador do Universo podia prescindir das preces e das ações de graças de suas criaturas; bastavam-lhe sua onipotência e majestade. A prece do Cristão, como a do Muçulmano, só era útil a ele próprio; ao passo que a nossa oração é não só proveitosa para nós, mas ainda para a Humanidade.Como Igreja Positivista Virtual, ministramos os sacramentos positivos a quem tem interesse

[...]

5.3.   Como Igreja Positivista Virtual, ministramos os sacramentos positivos a quem tem interesse

5.4.   Para apoiar as atividades dos nossos canais e da Igreja Positivista Virtual: façam o Pix da Positividade! (Chave Pix: ApostoladoPositivista@gmail.com)

6.     Leitura comentada do Apelo aos conservadores

6.1.   Antes de mais nada, devemos recordar algumas considerações sobre o Apelo:

6.1.1. O Apelo é um manifesto político e dirige-se não a quaisquer pessoas ou grupos, mas a um grupo específico: são os líderes políticos e industriais que tendem para a defesa da ordem (e que tendem para a defesa da ordem até mesmo devido à sua atuação como líderes políticos e industriais), mas que, ao mesmo tempo, reconhecem a necessidade do progresso (a começar pela república): são esses os “conservadores” a que Augusto Comte apela

6.1.2. O Apelo, portanto, adota uma linguagem e um formato adequados ao público a que se dirige

6.1.3. Empregamos a expressão “líderes industriais” no lugar de “líderes econômicos”, por ser mais específica e mais adequada ao Positivismo: a “sociedade industrial” não se refere às manufaturas, mas à atividade pacífica, construtiva, colaborativa, oposta à guerra

6.2.   Outras observações:

6.2.1. Uma versão digitalizada da tradução brasileira desse livro, feita por Miguel Lemos e publicada em 1899, está disponível no Internet Archive: https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores

6.2.2. O capítulo em que estamos é a “Segunda Parte”, cujo subtítulo é “Conduta dos conservadores em relação aos retrógrados”

6.3.   Passemos, então, à leitura comentada do Apelo aos conservadores!

7.     Término da prédica 

Referências

- Auguste Comte (franc.), Síntese subjetiva (Paris, Exécution Téstamentaire d’Auguste Comte, 2ª ed., 1900): https://archive.org/details/lasynthsesubjec00comtgoog.

- Augusto Comte (franc.), Sistema de política positiva (Paris. J.-B. Baillière, 4ª ed., 1880): https://archive.org/details/systmedepoliti01comt.

- Augusto Comte (port.), Apelo aos conservadores (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores.

- Augusto Comte (port.), Catecismo positivista (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 4ª ed., 1934).

- Felipe Nunes (port.): O Brasil no espelho (Rio de Janeiro, Globo, 2025).

- José Lonchampt (port.), Ensaio sobre a oração (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1896; catálogo da IPB, n. 165): https://archive.org/details/n.-165-jose-lonchampt-ensaio-sobre-a-oracao.

- Luís Lagarrigue (esp.), A poesia positivista (Santiago do Chile, 1890): https://archive.org/details/luis-lagarrigue-a-poesia-positivista-1890_202509.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), As últimas concepções de Augusto Comte (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-i e https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-ii.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), O ano sem par (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1900): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-o-ano-sem-par-portug._202312/page/n7/mode/2up.



[1] Tribo.

[2] Sentir antecipadamente um prazer.

[3] Emanações sutis, perfumes.

[4] Garantias.

[5] Protege.