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30 junho 2026

A igualdade perante o Positivismo

No dia 13 de Carlos Magno de 172 (30.6.2026) realizamos nossa prédica positiva, dando continuidade à leitura comentada do Apelo aos conservadores (em sua Terceira parte - postura dos positivistas em relação aos revolucionários).

No sermão abordamos o ideal da igualdade perante o Positivismo.

A prédica foi transmitida nos canais Positivismo (https://youtube.com/live/p--88YKEbN8) e Igreja Positivista Virtual (https://www.facebook.com/IgrejaPositivistaVirtual/videos/1565435151839838).

As anotações que serviram de base para a nossa exposição encontram-se reproduzidas abaixo.

*   *   *

A igualdade para o Positivismo

(13 de Carlos Magno de 172/30.6.2026) 

1.     Abertura da prédica

2.     Datas e celebrações

2.1.   Dia 11 de Carlos Magno (28.6): transformação de Teixeira Mendes (1927 – 99 anos)

2.2.   Dia 12 de Carlos Magno (29.6): nascimento de Júlio de Castilhos (1860 – 166 anos)

2.3.   Dia 13 de Carlos Magno (30.6): nascimento de Carlos Torres Gonçalves (1875 – 151 anos)

2.4.   Dia 13 de Carlos Magno (30.6): transformação de Lauro Muller (1926 – 100 anos)

2.5.   Entre 21 de Carlos Magno e 19 de Dante (8.7 e 3.8): recesso da Igreja Positivista Virtual

3.     Leitura comentada do Apelo aos conservadores

4.     Exortações

4.1.   Sejamos altruístas!

4.2.   Façamos orações!

4.3.   Como Igreja Positivista Virtual, ministramos os sacramentos positivos a quem tem interesse

4.4.   Para apoiar as atividades dos nossos canais e da Igreja Positivista Virtual: façam o Pix da Positividade! (Chave Pix: ApostoladoPositivista@gmail.com)

5.     Sermão: a igualdade para o Positivismo

5.1.   O tema do sermão desta semana aborda um tema a que já fizemos referência em outras ocasiões, mas sempre de maneira um tanto secundária; como, de qualquer maneira, já expusemos inúmeras outras concepções positivas e como fizemos referência direta à noção de igualdade (e, em particular, às duríssimas e claras críticas de Augusto Comte à igualdade) ao fazermos a leitura comentada do Apelo aos conservadores nas últimas semanas (em sua terceira parte, relativo à postura dos positivistas em relação aos revolucionários), parece-nos importante abordarmos diretamente esse tema

5.2.   Esse é um tema politicamente sensível, isto é, delicado; ele presta-se com uma facilidade gigantesca às mais amplas e profundas confusões

5.2.1. Além de ser politicamente delicado, esse tema também gera confusões devido a outros motivos:

5.2.1.1.          A sociedade brasileira, bem como inúmeras outras, caracteriza-se por grande miséria, por uma cultura da ganância (por vezes dissimulada) e também por uma cultura do desprezo social e da irresponsabilidade: a afirmação da igualdade seria uma forma de combater esses problemas e esses vícios

5.2.1.2.          De maneira correlata ao fator anterior (mas distinto dele), há uma confusão entre, de um lado, a igualdade e, de outro lado, a dignidade e a fraternidade

5.2.1.3.          Por fim, há uma confusão terminológica generalizada, em que o combate à miséria, às discriminações e às irresponsabilidades é confundido com e submetido a um sem-número de concepções de igualdade

5.3.   Devido à importância e à extensão que este sermão assumirá, vale a pena indicarmos que ele tratará dos seguintes temas:

5.3.1. Definições de igualdade

5.3.2. As críticas de Augusto Comte à igualdade

5.3.3. A regulação moral, política e social da sociedade e o combate às injustiças

5.3.4. O combate à miséria e às críticas de Augusto Comte à mesquinhez burguesa

5.4.   Devemos apresentar algumas distinções conceituais básicas:

5.4.1. Há várias concepções de “igualdade”, que se misturam, imbricam-se e confundem(-se): de status social, de condições materiais, de acesso aos serviços, de resultados, perante a lei, de responsabilidades

5.4.1.1.          Quando se fala de modo geral em “igualdade”, faz-se referência às desigualdades, em particular as desigualdades de renda

5.4.1.2.          Essa referência é economicista e, portanto, materialista; o que se deseja é criticar as desigualdades de renda e, em particular, a miséria

5.4.2. A igualdade costuma ser vinculada e/ou contraposta à liberdade, a partir da frase da Revolução Francesa, “Liberdade, igualdade, fraternidade”

5.4.2.1.          Nessa frase, costuma-se de fato contrapôr-se liberdade e igualdade, não por acaso se deixando de lado a fraternidade

5.4.2.2.          É importante afirmar com todas as letras: além da (re)afirmação central da fraternidade, é necessário ajuntar aí a dignidade e a responsabilidade

5.4.3. Além disso, há a noção disseminada do progresso como igualdade

5.4.3.1.          Por meio de uma série de deslizes, de escorregões, de mudanças pequenas mas claras, ao longo do século XIX, por obra dos socialistas, o conceito de progresso deixou de vincular-se ao aperfeiçoamento e vinculou-se à imposição da igualdade

5.4.3.1.1.              A noção intuitiva e fundamental do progresso considera que o ser humano, devido à sua constituição, desenvolve-se e aperfeiçoa-se ao longo do tempo; em outras palavras, essa concepção considera que (1) existe algo (2) que se desenvolve, ou seja, que a ordem é naturalmente dinâmica e modificável; em outras palavras, a noção intuitiva do progresso consagra por si só a união da ordem com o progresso (e do progresso com a ordem)

5.4.3.2.          A concepção do progresso como igualdade é particularmente disseminada pela chamada “esquerda”, seja a esquerda socialista, seja a esquerda marxista

5.4.3.2.1.              É claro que essa concepção abandona totalmente a noção habitual e intuitiva do progresso como “aperfeiçoamento” ou “desenvolvimento humano” em favor do seu aprisionamento pelas disputas políticas partidárias

5.4.3.2.1.1. Ao negar o progresso-desenvolvimento, o progresso-igualdade também nega a possibilidade de vinculação entre a ordem e o progresso – na verdade, o progresso-igualdade opõe a ordem e o progresso, criando problemas sociais, morais e intelectuais enormes

5.4.3.2.2.              No que se refere ao conceito de progresso, sua equivalência à igualdade resultou politicamente no seguinte: o progresso em si deixou de ser a concepção fundamental, que caracterizaria os “revolucionários” e, daí, a esquerda; a afirmação da igualdade, por seu turno, tornou-se a noção fundamental que define a “esquerda” e, por fim, a própria noção de “esquerda” tornou-se fundamental, em disputas políticas e partidárias com a “direita”: em outras palavras, o “progresso” deixou de ser uma noção básica e tornou-se um atributo meramente secundário, acessório e confuso da esquerda, que se define pela igualdade e contra a direita

5.4.3.3.          Essa concepção foi reafirmada há algumas décadas pelo filósofo e político italiano Norberto Bobbio: para ele, o que distingue e mantém a atualidade da distinção entre direita e esquerda é a atualidade da oposição, respectivamente, entre liberdade e igualdade

5.4.3.3.1.              Essa distinção de Bobbio, por um lado, buscava reafirmar a importância da distinção entre direita e esquerda e, por outro lado, esquematizou fortemente a prática histórica, em particular da esquerda: esse esquema, portanto, não pretendeu inovar e seguiu de maneira cerrada a tradição metafísica da esquerda

5.4.3.3.2.              Bobbio assume a concepção liberal de liberdade (que é uma concepção que oscila entre a omissão e a irresponsabilidade) e confunde a fraternidade com a igualdade

5.4.4. Uma outra concepção da igualdade opõe as “desigualdades” às “diferenças”

5.4.4.1.          De acordo com essa distinção, as diferenças seriam desigualdades positivas, ao passo que as desigualdades seriam sempre negativas

5.4.4.2.          As “diferenças” corresponderiam por exemplo às várias culturas, enquanto as “desigualdades” corresponderiam por exemplo (e de maneira central) às variações de renda

5.4.4.3.          Essa distinção é um exemplo característico das sutilezas metafísicas e busca manter a mentalidade metafísica própria ao igualitarismo, embora reconheça, imperfeita e limitadamente, que a sociedade é positivamente caracterizada por diferenças, ou melhor, por desigualdades

5.5.    Passando afinal para a igualdade no Positivismo:

5.5.1. Para Augusto Comte, o progresso consiste em melhoramento, em aperfeiçoamento – ou, em concepções mais simplistas, em desenvolvimento: assim, o progresso consiste necessariamente em aumento das diferenças, ou das desigualdades

5.5.1.1.          O conceito de progresso é amplo, ou melhor, nos termos atuais, ele é “multidimensional”: ele refere-se, necessariamente e nesta ordem, ao progresso material, biológico, intelectual e sobretudo moral

5.5.1.2.          Além disso, para nosso mestre, não faz sentido e não é aceitável opor “diferenças” a “desigualdades”

5.5.1.3.          A igualdade criticada por Augusto Comte, então, é basicamente a de situação material (isto é, de renda), abrangendo também a de status e a de resultados; mas não considera nessas críticas nem a igualdade de acesso (aos serviços públicos e ao mercado de trabalho) nem a igualdade perante a lei

5.5.2. Como o progresso ocorre naturalmente, o aumento das desigualdades ocorre naturalmente, isto é, em uma situação de liberdade; de maneira inversa, realizar a igualdade consiste em impedir o progresso, o que só pode acontecer por meio da imposição da força e da violência, em uma situação de restrição da liberdade

5.5.2.1.          Ora, restrição da liberdade com imposição da violência equivale, por definição, em autoritarismo

5.5.2.2.          Literalmente, isso é o que se viu e é o que se vê nos países soviéticos, em que a busca da igualdade resultou sempre, necessariamente, em agressivo autoritarismo – com a recriação, muito mais intensa, de desigualdades políticas, econômicas, sociais e religiosas

5.5.2.3.          Nos países soviéticos (estalinistas, leninistas, “comunistas”) a imposição pública de responsabilidades – as críticas – eram e são punidas com a cadeia ou coisa pior

5.5.3. Augusto Comte afirma a liberdade sobre a igualdade

5.5.3.1.          Mas é central que a afirmação da liberdade é feita em associação com a fraternidade, tendo como pressuposto a dignidade e a responsabilidade

5.5.3.2.          Aliás, devemos ter clareza: em quase todos os casos, quando se afirma a igualdade, o que se pressupõe é a fraternidade (em conjunto com a dignidade)

5.5.3.2.1.              É digno de nota que, ao solicitarmos ao Chat GPT para criar uma imagem representando a “igualdade”, ele gerou uma imagem que representa a fraternidade

5.5.3.3.          Devemos lembrar que a igualdade só é aceita como válida como um suposto antídoto (e um antídoto muito indireto) contra a miséria, contra a sociedade de castas, contra as discriminações e contra as irresponsabilidades

5.5.3.4.          Além disso, indo diretamente na direção do Positivismo e contra a liberdade liberal (isto é, do liberalismo) – que é um conceito da irresponsabilidade social e política em favor da exploração burguesa sobre o proletariado –, desenvolveram-se (ou melhor, retomaram-se) nas últimas décadas conceito sociais de liberdade, como o de “liberdade como capacidades” de Amartya Sen, além das “quatro liberdades” de F. D. Roosevelt (liberdade de expressão, liberdade de culto, liberdade da miséria e liberdade do medo)

5.6.   Além do progresso como desenvolvimento (e, portanto, como aumento das desigualdades), Augusto Comte é contra a noção de igualdade porque ela vai contra as distinções sociais e os atributos morais e políticos correlatos

5.6.1. Duas distinções elementares são negadas pela noção de igualdade: a que estabelece os governos (ou seja, a desigualdade política entre governantes e governados) e a que separa os patrícios dos proletários (ou seja, a separação econômica entre patrões e empregados)

5.6.1.1.          Em outras palavras, são as distinções que estabelecem os poderes materiais, dos ricos e dos poderosos

5.6.2. As distinções políticas e econômicas não deixarão nunca de ocorrer: mas negar tais distinções impede direta e imediatamente a determinação das responsabilidades mútuas dos ricos e dos poderosos, em particular em relação aos governados e aos proletários

5.6.2.1.          Em outras palavras, negar a existência dos ricos e dos poderosos impede a responsabilização social dos ricos e dos poderosos, o que conduz imediatamente à aceitação da irresponsabilidade dos ricos e dos poderosos

5.6.3. Observa Augusto Comte que, sob a teologia, as responsabilidades eram afirmadas dos fracos e pobres em favor dos ricos e poderosos

5.6.3.1.          Evidentemente isso em si mesmo está certo, mas isso sempre ocorreu em prejuízo da determinação e da cobrança das responsabilidades próprias aos ricos e poderosos

5.6.3.2.          A negação da existência dos ricos e poderosos, ou seja, a imposição (autoritária) da igualdade não impedirá a existência de ricos e poderosos, causará confusão social e, principalmente, não permitirá a determinação clara, honesta e explícita das responsabilidades próprias aos ricos e poderosos e não permitirá que os fracos e pobres cobrem tais responsabilidades

5.7.   Além de impedir o aperfeiçoamento humano, de promover e basear-se no autoritarismo e de promover a irresponsabilidade social e política, a proposta de igualdade é individualista e egoísta

5.7.1. As noções de igualdade e de individualismo andam, necessariamente, de mãos dadas: a “igualdade” só é possível a partir do individualismo; a partir daí, como ocorre a negação e o rompimento dos vínculos sociais, a igualdade só é possível em uma situação antissocial, de promoção do egoísmo

5.7.2. A promoção simultânea do individualismo, do egoísmo e da igualdade ocorreu justamente com o protestantismo: afinal, quando se considera que todo crente é infalível, que é todo-poderoso e onisciente em sua interpretação da Bíblia e em suas supostas conversas com a divindade, esse crente não aceita nenhuma superioridade humana, fica isolado da sociedade e busca a própria salvação

5.8.   Augusto Comte considera que a noção de igualdade é crítica, isto é, destrutiva: integrando a metafísica revolucionária, ela teve o papel de corroer e destruir as instituições do Antigo Regime

5.8.1. De uma perspectiva histórica, a noção de igualdade teve, então, sua importância, especialmente contra a sociedade de castas, isto é, a sociedade que juridicamente separa os cidadãos conforme o nascimento

5.8.1.1.          O papel destruidor da igualdade foi estabelecido pelo protestantismo e, em linha direta com ele (e não por acaso), foi afirmado pela metafísica política de Rousseau

5.8.2. Como indicamos, adicionalmente ao papel destruidor próprio à noção de igualdade, ela também mistura, mascara e torna confusas as noções de fraternidade e dignidade, além de negar a responsabilidade

5.9.   Ora, se Augusto Comte é a favor da liberdade, do progresso, da dignidade, da fraternidade e da responsabilidade – e, devido a tudo isso, ele é contra a igualdade –, ele tem clareza (1) de que o progresso conduz à sociocracia e (2) de que a submissão da política à moral conduz ao altruísmo

5.9.1. O caráter social e altruísta da república estimula, ou melhor, baseia-se nas responsabilidades – e, cabe notar, as responsabilidades pressupõem sempre as desigualdades de atribuições

5.9.2. Adicionalmente, as pátrias pequenas – ou melhor, as mátrias –, a partir do conhecimento pessoal e direto das pessoas entre si, são uma condição social e institucional importantíssima para a liberdade fraterna, digna e responsável

5.10.               Três comentários gerais extras:

5.10.1.   Implícita ou explicitamente, Augusto Comte é a favor da igualdade em três situações:

5.10.1.1.       Na homogeneidade de condições do proletariado – a “homogeneidade” não corresponde à igualdade, mas à forte e relativa semelhança de condições

5.10.1.2.       Na igualdade perante a lei (a chamada isonomia); aliás, a crítica à sociedade de castas (de que o feudalismo é a última forma) conduz necessariamente à igualdade perante a lei

5.10.1.3.       Nos estudos, que têm que ser idênticos entre homens e mulheres e, principalmente, entre patrícios e proletários (na verdade, a educação tem que ser melhor para os proletários que para os patrícios, devido às dificuldades materiais dos proletários, bem como à sua maior disponibilidade moral e intelectual)

5.10.1.4.       Como se vê, Augusto Comte reconhece e até estimula uma certa homogeneidade de condições em particular para o proletariado

5.11.               Alguns comentários sobre as riquezas e as responsabilidades materiais

5.11.1.   A pobreza é diferente da miséria

5.11.1.1.       A miséria tem um aspecto acima de tudo material e corresponde a uma carência generalizada de recursos e de condições de vida

5.11.1.1.1.            Se a miséria é basicamente material, ela apresenta e baseia-se em um aspecto moral: por um lado, a miséria também se caracteriza pela ausência de dignidade; por outro lado, ela corresponde à acachapante falta de fraternidade

5.11.1.1.2.            É claro que os aspectos materiais e morais da miséria (carência de recursos, ausência de dignidade, ausência de fraternidade) manifestam-se também por um elemento político, ou seja, pela falta de responsabilidade

5.11.1.2.       A pobreza, por outro lado, é relacional: o pobre é quem tem menos recursos, ou seja, o pobre é o não-rico

5.11.1.2.1.            O aspecto relacional da pobreza por definição não impede nem a dignidade, nem a fraternidade, nem a responsabilidade

5.11.1.3.       Em outras palavras, devemos combater com grande intensidade a miséria e sempre buscar melhorar as condições de vida dos pobres – considerando que o pobre deve ser o não rico, em vez de ser o miserável

5.11.2.   Augusto Comte não tinha medo nem vergonha de afirmar a necessidade social de concentração da riqueza, mas exigia a responsabilidade dos detentores do capital

5.11.2.1.       Para nosso mestre, se a riqueza tem origem social, ela tem que ter, necessariamente, destinação social

5.11.2.1.1.            Esse princípio corresponde à legitimação do capital, ou seja, a um princípio que torna aceitável a concentração do capital: dessa forma, isso está muito, muito, muito longe de ser secundário

5.11.2.1.2.            Quem nega esse princípio são os “materialistas” (de maneira exemplar, os marxistas), que consideram que os problemas sociais consistem apenas em disputas materiais de poder e riqueza; com isso, desprezam os aspectos intelectuais e morais da sociedade e, não por acaso, desprezam o conceito de “legitimação”; daí, tendem a ser autoritários, além de cínicos e/ou hipócritas

5.11.2.2.       A concepção corrente dos ricos como “donos” do capital está atrelada a uma noção absoluta da propriedade – em particular, de origem teológica, antissocial e egoísta –, em que eles fazem o que querem com suas propriedades, sem responsabilidade nem preocupações

5.11.2.2.1.            A concepção absoluta da propriedade teve a importância histórica de garantir a estabilidade da posse (contra os outros e contra os inferiores), mas, como é evidente, jamais garantiu a responsabilidade (perante os outros e perante os inferiores)

5.11.2.2.2.            A concepção positiva, relativa, da propriedade, em linha com a origem e a destinação sociais do capital, estabelece que os ricos são gestores do capital e, portanto, total e necessariamente responsáveis (e responsabilizáveis) por seu emprego

5.11.2.2.3.            Enquanto a concepção absoluta da propriedade garantia, até certo ponto, a posse em meio à guerra, ela é inadequada para uma sociedade pacífica, cooperativa, fraterna e produtiva: em uma sociedade positiva, ou melhor, em uma sociocracia, a propriedade tem que ser disciplinada por uma concepção relativa – mais uma vez, por uma concepção da responsabilidade coletiva, em benefício da sociedade e especialmente dos proletários

5.11.2.2.4.            Assim, os ricos devem ser ricos e os pobres não devem ser ricos, mas os ricos devem aplicar sua riqueza na geração de empregos de qualidade e na melhoria material da sociedade

5.11.2.2.5.            Devemos notar que a afirmação das responsabilidades do capital é feita como um princípio positivo, afirmativo, que postula exatamente isso (as responsabilidades sociais do capital), em vez de ser um princípio negativo e enviesado, como na metafísica, que usa a “igualdade” para defender a fraternidade, a generosidade e a responsabilidade

5.11.2.3.       Não apenas Augusto Comte era pela responsabilidade do capital como era radicalmente contrário à mesquinhez da burguesia

5.11.2.3.1.            As críticas de nosso mestre à burguesia eram extremamente duras; basta notar que ele distingue claramente a burguesia – mesquinha, fútil, egoísta – do patriciado – que se define, entre outras características, pela renovação moral

5.11.2.3.2.            Entre outros, dois hábitos burgueses eram criticados por nosso mestre: (1) a ênfase na poupança, isto é, na inutilidade e na inutilização do capital, por meio do entesouramento indefinido da riqueza, seja entre os próprios burgueses, seja especialmente entre os proletários (como proposto pelos pietistas e pelos protestantes elogiados por Max Weber); (2) a ostentação da riqueza, isto é, a demonstração da riqueza, com objetivo de humilhar os pobres

5.12.               Resumindo e retomando nossa exposição:

5.12.1.   Há várias concepções de “igualdade”, que se misturam, imbricam-se e confundem(-se): de status social, de condições materiais, de acesso aos serviços, de resultados, perante a lei, de responsabilidades

5.12.1.1.       Em particular, a noção mais disseminada de igualdade refere-se às desigualdades de renda

5.12.1.2.       O combate à miséria, às discriminações e às irresponsabilidades é confundido com um sem-número de concepções de igualdade

5.12.1.3.       Além disso, há a noção disseminada pela esquerda de que o progresso seria o desenvolvimento da igualdade – aliás, noção alegre e ativamente mantida pela direita

5.12.1.4.       A igualdade também se afirma negando, misturando, mascarando e tornando confusas as noções mais importantes e fundamentais de fraternidade, dignidade e responsabilidade

5.12.2.   Do ponto de vista histórico, a noção de igualdade sempre foi (como é) destruidora: integrando a metafísica revolucionária, ela teve o papel de corroer e destruir as instituições do Antigo Regime

5.12.3.   Além de impedir o aperfeiçoamento humano, promover e basear-se no autoritarismo e de promover a irresponsabilidade social e política, a proposta de igualdade é individualista e egoísta

5.12.4.   O progresso consiste em melhoramento, em aperfeiçoamento – ou, em concepções mais simplistas, em desenvolvimento: o progresso consiste necessariamente em aumento das diferenças, ou das desigualdades

5.12.5.   Augusto Comte é a favor da liberdade, do progresso, da dignidade, da fraternidade e da responsabilidade; o progresso conduz à sociocracia e a submissão da política à moral conduz ao altruísmo

5.12.5.1.       O caráter social e altruísta da república estimula e baseia-se nas responsabilidades; as responsabilidades pressupõem sempre as desigualdades de atribuições

5.12.6.   Implícita ou explicitamente, Augusto Comte é a favor da igualdade (1) na homogeneidade de condições do proletariado, (2) na igualdade perante a lei, (3) nos estudos, que têm que ser idênticos entre homens e mulheres e, principalmente, entre patrícios e proletários

5.12.7.   A pobreza é diferente da miséria: a miséria tem um aspecto acima de tudo material e corresponde a uma carência generalizada de recursos e de condições de vida; já a pobreza é relacional: o pobre é quem tem menos recursos, ou seja, o pobre é o não-rico

5.12.7.1.       O aspecto relacional da pobreza por definição não impede nem a dignidade, nem a fraternidade, nem a responsabilidade

5.12.7.2.       Devemos combater com grande intensidade a miséria e sempre buscar melhorar as condições de vida dos pobres – e o pobre deve ser o não rico, em vez de ser o miserável

5.12.8.   Augusto Comte afirmava a necessidade social de concentração da riqueza, mas exigia a responsabilidade dos detentores do capital

5.12.8.1.       Se a riqueza tem origem social, ela tem que ter destinação social

5.12.8.1.1.            A concepção absoluta da propriedade garantia a posse em meio à guerra, mas é inadequada para uma sociedade pacífica, cooperativa, fraterna e produtiva

5.12.8.1.2.            Os ricos devem aplicar sua riqueza na geração de empregos de qualidade e na melhoria material da sociedade

5.12.8.2.       Augusto Comte era radicalmente contrário à mesquinhez da burguesia

5.12.8.2.1.            Em particular, dois hábitos burgueses eram criticados por nosso mestre: (1) a inutilização do capital, entre os próprios burgueses e especialmente entre os proletários; (2) a ostentação da riqueza, para humilhar os pobres

6.     Término da prédica

 

Referências

- Auguste Comte (franc.), Síntese subjetiva (Paris, Exécution Téstamentaire d’Auguste Comte, 2ª ed., 1900): https://archive.org/details/lasynthsesubjec00comtgoog.

- Augusto Comte (franc.), Sistema de filosofia positiva (Paris, Bachelier, 1838), v. 3, 45e leçon (“Considérations générales sur l’étude positive des fonctions intellectuelles et morales, ou cérébrales”).

- Augusto Comte (franc.), Sistema de política positiva (Paris. J.-B. Baillière, 4ª ed., 1880): https://archive.org/details/systmedepoliti01comt.

- Augusto Comte (port.), Apelo aos conservadores (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores.

- Augusto Comte (port.), Catecismo positivista (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 4ª ed., 1934).

- Gustavo Biscaia de Lacerda (port.), O momento comtiano (Curitiba, UFPR, 2019).

- Gustavo Biscaia de Lacerda (port.), Comtianas brasileiras (Curitiba, Appris, 2018).

- José Lonchampt (port.), Ensaio sobre a oração (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1896; catálogo da IPB, n. 165): https://archive.org/details/n.-165-jose-lonchampt-ensaio-sobre-a-oracao.

- Luís Lagarrigue (esp.), A poesia positivista (Santiago do Chile, 1890): https://archive.org/details/luis-lagarrigue-a-poesia-positivista-1890_202509.

- Norberto Bobbio (port.), Direita e esquerda (São Paulo, Unesp, 3ª ed., 2012).

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), As últimas concepções de Augusto Comte (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-i e https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-ii.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), O ano sem par (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1900): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-o-ano-sem-par-portug._202312/page/n7/mode/2up

24 junho 2026

O estado normal

No dia 6 de Carlos Magno de 172 (23.6.2026) realizamos nossa prédica positiva, dando continuidade à leitura comentada do Apelo aos conservadores (em sua Terceira Parte - postura dos positivistas em relação aos revolucionários).

No sermão abordamos a noção de "estado normal", além das noções assessórias de "sociedade orgânica", "natureza humana", "harmonia" e "utopia".

A prédica foi transmitida nos canais Positivismo (https://youtube.com/live/y6qTKX-xevw) e Igreja Positivista Virtual (https://www.facebook.com/IgrejaPositivistaVirtual/videos/1003259092618009/).

As anotações que serviram de base para a exposição oral encontram-se reproduzidas abaixo.

*   *   *


O estado normal

(6 de Carlos Magno de 172/23.6.2026) 

1.     Abertura da prédica

2.     Datas e celebrações

2.1.   Dia 8 de Carlos Magno (25.6): transformação de Martins Fontes (1937 – 89 anos)

2.2.   Dia 10 de Carlos Magno (27.6): transformação de Harriet Martineau (1876 – 150 anos)

2.3.   Dia 11 de Carlos Magno (28.6): transformação de Teixeira Mendes (1927 – 99 anos)

2.4.   Dia 12 de Carlos Magno (29.6): nascimento de Júlio de Castilhos (1860 – 166 anos)

2.5.   Dia 13 de Carlos Magno (30.6): nascimento de Carlos Torres Gonçalves (1875 – 151 anos)

2.6.   Dia 13 de Carlos Magno (30.6): transformação de Lauro Muller (1926 – 100 anos)

3.     Leitura comentada do Apelo aos conservadores

4.     Exortações

4.1.   Sejamos altruístas!

4.2.   Façamos orações!

4.3.   Como Igreja Positivista Virtual, ministramos os sacramentos positivos a quem tem interesse

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5.     Sermão: o estado normal

5.1.   O sermão de hoje aborda um tema que freqüentemente é tratado em nossas prédicas, que nem sempre fica claro do que se trata mas que é central para o Positivismo e para a Religião da Humanidade: a noção de “estado normal”

5.1.1. Essa expressão e essa noção aparecem regularmente na obra de Augusto Comte, especialmente de maneira implícita; mas somente no final de sua carreira nosso mestre definiu-a de maneira mais sistemática – na “Conclusão” do Apelo aos conservadores em particular, aliás

5.1.2. A noção de estado normal, juntamente com outras (como síntese e religião) é ao mesmo tempo central e sintética, de tal sorte que reúne e pressupõe outros conceitos elementares, como natureza humana, harmonia e utopia (bem como relativismo, continuidade e altruísmo), além da rejeição e superação do estado crítico

5.2.   Indo diretamente ao ponto: o “estado normal” corresponde à situação idealizada de plena realização da harmonia humana, em seus múltiplos aspectos (coletivos e individuais; afetivos, intelectuais e práticos; subjetivos e objetivos), de maneira dinâmica e ao longo do tempo

5.2.1. Uma noção assessória à de estado normal é a de sociedade orgânica (ou estado orgânico)

5.2.1.1.          A sociedade orgânica corresponde à situação social em que vigem parâmetros compartilhados, capazes de regular o conjunto da sociedade, suas diversas partes entre si e também a atuação individual

5.2.1.2.          Dessa forma, o estado orgânico é a antítese da “anarquia”

5.2.2. Como dissemos, o estado normal é a situação ideal em que as diversas partes da natureza humana encontram-se em harmonia dinâmica; esse equilíbrio dá-se com a aplicação de parâmetros que regulam a sociedade e os indivíduos: portanto, o estado normal corresponde a uma sociedade orgânica

5.2.2.1.          Todavia, é bastante claro que uma sociedade orgânica qualquer não corresponde necessariamente ao estado normal

5.2.2.2.          O estado normal exige o altruísmo, o relativismo, a atividade pacífica, colaborativa e construtiva

5.2.2.3.          Assim, o estado normal exige o desenvolvimento prévio das forças humanas e corresponde à coordenação dessas forças

5.2.2.3.1.              A maior dificuldade do estado normal não é o desenvolvimento das forças humanas (que já ocorreu, sob a teologia, na tríplice transição ocidental), mas, justamente, a coordenação positiva, isto é, a coordenação simultânea, altruísta, relativista e pacífica

5.2.2.3.2.              Essa coordenação das diversas partes da natureza humana, na medida em que respeita cada uma dessas diversas partes, pode ser chamada de sinérgica (ou de harmoniosa)

5.2.3. É possível haver estados orgânicos sem que ocorra a coordenação dos diversos traços da natureza humana, isto é, sem que ocorra a sinergia

5.2.3.1.          As teocracias antigas (entre as quais incluímos o Extremo Oriente: China, Índia, Japão) foram orgânicas e sinérgicas, mas, na medida em que as forças humanas não estavam desenvolvidas, não se constituiu o estado normal

5.2.3.2.          A Grécia antiga, devido ao caráter da sua filosofia e, de modo geral, da sua sociedade, foi particularmente anti-orgânica

5.2.3.3.          A sociedade romana foi orgânica, assim como, depois, foi a Idade Média e o Islã

5.2.3.4.          A situação ocidental depois da Idade Média não é nem orgânica, nem normal – embora o Positivismo forneça todos os elementos para a organicidade e a normalidade, ou melhor, para a positividade

5.2.4. O estado normal corresponde à plena positividade: altruísmo, relativismo, atividade pacífica; rejeição da violência, mátrias pequenas; importância superior do poder espiritual em relação ao poder temporal (ou seja, das condutas adotadas subjetivamente com autonomia e liberdade em relação às condutas impostas objetivamente); separação entre o poder temporal e o poder espiritual; adesão generalizada à Religião da Humanidade

5.3.   É importante comentarmos um pouco sobre a natureza humana:

5.3.1. Quando consideramos a natureza humana, temos a tendência de entendê-la apenas em termos individuais e estáticos: entretanto, isso é um erro, pois é intensamente parcial

5.3.1.1.          Aliás, esse viés na compreensão da natureza humana – individual e estático – costuma ser entendido da maneira mais estreita possível, em termos individualistas, egoístas e mecanicistas: segundo uma versão vulgar, a “natureza humana” seria exata e estritamente egoísta e individualista, sem outras características (altruístas, em particular), sem aspecto social e sem capacidade de discernimento

5.3.2. A concepção positiva – e é “positiva”, não “positivista” – da natureza humana baseia-se em investigações biológicas, histórico-sociológicas e morais, combinando ciência e filosofia; assim, deve-se considerar que o ser humano é ao mesmo tempo sentimentos, inteligência e atividade; que os sentimentos são egoístas e altruístas; que o ser humano desenvolve seus atributos necessariamente em sociedade e ao longo do tempo

5.3.3. Assim, convém enfatizar e sermos bastante explícitos: a natureza humana abrange, por um lado, (1) tanto o egoísmo quanto, principalmente, o altruísmo; por outro lado, (2) ela é antes de mais nada social e, a partir disso, também individual; por fim, (3) ela evolui com o passar do tempo, ou seja, ela é histórica, ela é dinâmica

5.3.3.1.          Além disso, também devemos notar que a natureza humana surgiu e desenvolveu-se em interação com o ambiente; dessa forma e por esse motivo, todos os principais traços da natureza humana são compartilhados com os animais superiores, isto é, com os mamíferos e com as aves

5.3.4. A natureza humana consiste principalmente no cérebro, que apresenta uma pluralidade de funções cerebrais (sentimentos, inteligência e atividade)

5.3.4.1.          Em virtude dessa pluralidade de funções cerebrais e, ainda mais, em virtude da pluralidade de funções afetivas (sete egoístas e três altruístas, em um total de dez), a natureza humana não é unificada, embora possa convergir para diversas situações de harmonia

5.4.   Passemos agora para a noção de harmonia:

5.4.1. A noção de harmonia humana consiste na situação em que as várias partes da natureza humana encontram-se em interação dinâmica, subordinadas a um centro que coordena e regula essas várias partes

5.4.1.1.          O centro coordenador é sempre e necessariamente afetivo; assim, ele pode ser egoísta ou altruísta

5.4.1.2.          Os instintos egoístas (seja em seu conjunto, seja cada um deles individualmente) são mais fortes que o altruísmo; mas eles disputam entre si, sem cessar, a supremacia, sem que nenhum deles consiga portanto constituir-se como centro coordenador da existência humana; além disso, não somente o egoísmo não permite a harmonia individual como, negando e/ou prejudicando as relações sociais, o egoísmo também é incapaz de coordenar a existência coletiva

5.4.1.3.          Embora o altruísmo seja mais fraco que o egoísmo, ele consegue estabelecer a harmonia mútua entre seus três instintos, que, com isso, fortalecem-se mutuamente; além disso, eles disciplinam e satisfazem os vários egoísmos; por fim, por definição os instintos altruístas estabelecem e regulam as relações coletivas: dessa forma, a coordenação humana é possível apenas com o altruísmo

5.4.1.3.1.              Vale notar que a capacidade própria aos instintos altruístas de harmonizarem-se e reforçarem-se mutuamente permite que, com freqüência, o altruísmo seja tratado em bloco, ao contrário do egoísmo, cujos vários instintos com freqüência têm que ser individualizados

5.4.2. A harmonia humana é uma condição realmente desafiadora, pois tem que se dar ao longo do tempo, ao mesmo tempo em termos coletivos e individuais, considerando o egoísmo e o altruísmo

5.4.2.1.          Como observa nosso mestre e como notamos há pouco, somente o altruísmo, em seus três instintos (apego, veneração e bondade), consegue a supremacia sobre os demais instintos de maneira estável, permitindo ao mesmo tempo a satisfação dos instintos egoístas

5.4.3. A harmonia humana é uma situação de equilíbrio variável, entre margens mais ou menos definidas; entre essas margens, temos variações ao longo de cada dia e ao longo de nossas vidas

5.4.4. A supremacia do altruísmo e, de qualquer maneira, as necessidades específicas com que nos defrontamos em cada instante resultam em que o ser humano tem que, de fato, coordenar suas várias partes a cada momento, resultando em sinergias individuais ao longo do tempo; é nessa sinergia mais ou menos durável mas variável que consiste a relativa unidade humana em seus comportamentos concretos (mas que a teologia chama de “alma” e que a metafísica chama de “ego” ou de “self”)

5.4.4.1.          A sinergia que se estabelece no âmbito individual tem que ocorrer também, e principalmente, em termos sociais; sem o âmbito social, a harmonia individual não é verdadeira possível, ou melhor, não é verdadeiramente estável

5.4.5. O caráter dinâmico e ao mesmo tempo múltiplo da natureza humana, além da efetiva força superior do egoísmo sobre o altruísmo: é tudo isso que torna tão difícil a harmonia humana

5.4.5.1.          A realização dessa harmonia múltipla, dinâmica e altruísta consiste no “problema humano”, conforme definido nosso mestre

5.4.5.2.          Tudo tem que concorrer para isso a resolução do problema humana; o que não auxilia é supérfluo, o que ativamente atrapalha é daninho

5.5.   Nosso mestre resume a questão da seguinte forma, no início da Síntese subjetiva (p. 1-2):

Subordinar o progresso à ordem, a análise à síntese e o egoísmo ao altruísmo: tais são os três enunciados – prático, teórico e moral – do problema humano, cuja solução deve constituir uma unidade completa e estável. Correspondendo, respectivamente, aos três elementos de nossa natureza, esses três modos distintos de formular uma mesma questão são não apenas conexos, mas equivalentes, em vista da dependência mútua entre a atividade, a inteligência e o sentimento. Apesar de sua coincidência necessária, o último enunciado supera os outros dois, por ser o único que se refere à fonte direta da solução comum. Pois a ordem pressupõe o amor, e a síntese só pode resultar da simpatia; a unidade teórica e a unidade prática são, portanto, impossíveis sem a unidade moral. Assim, a religião é tão superior à filosofia quanto à política. O problema humano pode, finalmente, resumir-se em constituir a harmonia afetiva, desenvolvendo o altruísmo e reprimindo o egoísmo; então, o aperfeiçoamento subordina-se à conservação, e o espírito de detalhe ao espírito de conjunto.

5.6.   Passemos por fim à noção de “utopia”:

5.6.1.  A última noção que – sem pretender esgotar o assunto – podemos comentar neste momento é a de “utopia”

5.6.2. A utopia, como se sabe, é um ideal mais ou menos distante que orienta a conduta ao longo do tempo; assim, ela tem o importante papel de servir de princípio orientador e coordenador em termos dinâmicos, em relação aos vários aspectos da natureza humana

5.6.3. O estado normal, indiscutivelmente, é uma utopia – seja porque a harmonia é sempre mais ou menos instável, seja porque ela é exigente, seja porque ela tem que se manter ao longo do tempo

5.6.4. A utopia corresponde a um ideal ao qual nos aproximamos sempre, sem nunca efetivamente chegar a ele – nosso mestre usa, não por acaso, a imagem da assíntota: no gráfico cartesiano, a assíntota é uma reta para a qual tende uma curva, sem que essa curva nunca chegue à reta

5.6.4.1.          Uma das máximas de Clotilde resume bem a importância das utopias:

Compreendi, melhor do que ninguém, a fraqueza de nossa natureza quando não é dirigida para um alvo elevado que seja inacessível às paixões

5.6.5.  No início da sua carreira, quando ainda estava impregnado de cientificismo (e de academicismo), nosso mestre tendia a considerar que toda utopia é irrealizável e, portanto, que as utopias deveriam ser deixadas de lado

5.6.5.1.          Mas o amadurecimento filosófico – afetivo e relativístico – de nosso mestre conduziu-o a distinguir as utopias das quimeras (e das concepções quiméricas): enquanto as utopias são ideais que orientam e coordenam nossas atividades, as quimeras são concepções que negam totalmente a natureza humana e as leis naturais

5.6.6. Há inúmeros outros aspectos que podemos indicar a respeito das utopias no âmbito do Positivismo; por ora, devemos notar que os preconceitos acadêmicos, metafísicos e teológicos contra o Positivismo – isto é, a má fé e a ignorância – estipulam pura e simplesmente que nós seríamos contra as utopias, em favor de perspectivas objetivistas, presentistas, a favor do status quo; inversamente, nossos críticos de má fé, mau caracteres, que atribuem a nós essas concepções, é que seriam generosos e proporiam futuros melhores

5.7.   Em suma:

5.7.1. O estado normal corresponde à situação idealizada de plena realização da harmonia humana, em seus múltiplos aspectos (coletivos e individuais; afetivos, intelectuais e práticos; subjetivos e objetivos), de maneira dinâmica e ao longo do tempo

5.7.1.1.          É claro que o estado normal corresponde à plena positividade: altruísmo, relativismo, atividade pacífica; rejeição da violência, mátrias pequenas; importância superior do poder espiritual em relação ao poder temporal (ou seja, das condutas adotadas subjetivamente com autonomia e liberdade em relação às condutas impostas objetivamente); separação entre o poder temporal e o poder espiritual; adesão generalizada à Religião da Humanidade

5.7.2. O estabelecimento dinâmico e ao longo do tempo da harmonia humana só é possível com a supremacia do altruísmo

5.7.2.1.          A harmonia humana baseada no altruísmo, disciplinando o egoísmo, corresponde ao problema humano fundamental; tudo tem que concorrer para isso a resolução do problema humana; o que não auxilia é supérfluo, o que ativamente atrapalha é daninho

5.7.3. O estado normal é uma utopia, na medida em que nos fornece parâmetros dinâmicos, ao longo do tempo, para a orientação de nossas condutas

6.     Término da prédica

 

Referências

- Auguste Comte (franc.), Síntese subjetiva (Paris, Exécution Téstamentaire d’Auguste Comte, 2ª ed., 1900): https://archive.org/details/lasynthsesubjec00comtgoog.

- Augusto Comte (franc.), Sistema de filosofia positiva (Paris, Bachelier, 1838).

- Augusto Comte (franc.), Sistema de política positiva (Paris. J.-B. Baillière, 4ª ed., 1880): https://archive.org/details/systmedepoliti01comt.

- Augusto Comte (port.), Apelo aos conservadores (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores.

- Augusto Comte (port.), Catecismo positivista (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 4ª ed., 1934).

- José Lonchampt (port.), Ensaio sobre a oração (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1896; catálogo da IPB, n. 165): https://archive.org/details/n.-165-jose-lonchampt-ensaio-sobre-a-oracao.

- Luís Lagarrigue (esp.), A poesia positivista (Santiago do Chile, 1890): https://archive.org/details/luis-lagarrigue-a-poesia-positivista-1890_202509.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), As últimas concepções de Augusto Comte (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-i e https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-ii.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), O ano sem par (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1900): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-o-ano-sem-par-portug._202312/page/n7/mode/2up.