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18 junho 2026

Academicismo e preconceitos contra o Positivismo

No dia 1º de Carlos Magno de 172 (18.6.2026) tivemos a honra e a felicidade de participar do evento internacional “História, editoração e ensino em Ciências Sociais”, promovido pela Profª Fernanda H. Cupertino Alcântara, da UFJF; em particular, participamos da sessão virtual “Painel Virtual 03 – Autores clássicos e canonizados das Ciências Sociais”.

Nossa exposição chamou-se "Academicismo e preconceitos contra o Positivismo" (embora tenha sido inicialmente intitulada "A atualidade da sociologia de Augusto Comte, o fundador").

O evento foi transmitido no canal do Laboratório Harriet Martineau (aqui: https://www.youtube.com/live/Gjz2TzIcNEE).

As anotações que foram lidas em nossa exposição encontram-se reproduzidas abaixo.

*    *   *


Academicismo e preconceito contra o Positivismo

Gustavo Biscaia de Lacerda

1.Carlos Magno.172 (18.6.2026) 

Introdução

1.     Antes de mais nada, agradeço à Profª Fernanda H. Cupertino Alcântara pelo convite para participar do evento internacional “História, editoração e ensino em Ciências Sociais”, neste “Painel Virtual 03 – Autores clássicos e canonizados das Ciências Sociais”

2.     Fomos convidados para falar sobre Augusto Comte e sua sociologia; além de nossa tese de doutorado versar justamente sobre esse tema (em particular, sobre sua teoria política), somos positivistas e também sacerdote da Humanidade

2.1.   Citamos nossa condição de sacerdote não por vaidade, mas porque isso será relevante para nossa exposição, mais adiante

3.     Temos que indicar que se apresentam algumas dificuldades para a nossa exposição sobre a sociologia comtiana

3.1.   A primeira dificuldade, evidentemente, é a limitação do tempo: o tema é amplíssimo, o tempo é muito curto

3.2.   Em segundo lugar, a ignorância a respeito do tema é generalizada e profunda, o que exigiria uma exposição bastante elementar; isso por si só não apresenta problemas, é claro, mas por um lado exige que se faça uma ampla série de considerações preliminares (que, diga-se de passagem, já integram a sociologia comtiana, embora ultrapassam-na muito) e, por outro lado, dificulta que aprofundemos questões específicas, cuja apresentação seria em tese um dos objetivos deste belo evento

3.3.   Mas, em terceiro lugar, de maneira tão ou até mais importante que a limitação do tempo e a ignorância generalizada, uma dificuldade central na exposição da sociologia de Comte são os inúmeros, incoerentes e profundos preconceitos ativamente mantidos contra ele: antes e durante a exposição sobre Comte, é sempre necessário adotar uma postura sistemática de “contra-crítica”, o que é tanto cansativo e desgastante como demorado

3.3.1. Evidentemente, esse muro de preconceito – muro da vergonha, da humilhação, da degradação – é, estreitamente em conjunto com as modinhas acadêmicas e políticas, um dos motivos para a ignorância generalizada que pesa sobre Comte

3.3.2. Os preconceitos e as modinhas também resultam em que Augusto Comte, embora tenha sido verdadeiramente o fundador da Sociologia – no livro de 1822 Plano dos trabalhos científicos necessários para reorganizar a sociedade, bem como nas obras Sistema de filosofia positiva (1830-1842) e Sistema de política positiva (1851-1854) –, com freqüência é destituído desse belo e importante título, em favor de esquemas arbitrários e incoerentes, criados para a autojustificação de acadêmicos ambiciosos (em particular, Talcott Parsons e Anthony Giddens, com seus esquemas ultrassimplificadores dos “três porquinhos”)

3.3.3. Vale notar que foi devido a esses problemas que decidimos nomear inicialmente a nossa fala com o título meio prepotente de “A atualidade da sociologia de Augusto Comte, o fundador”, a fim de afirmar com clareza a importância histórica e intelectual de Comte

4.     Em virtude dos aspectos acima, tomamos a decisão de não apresentar diretamente a sociologia de Comte, que é o tema para o qual fomos convidados, mas, em vez disso, resolvemos, por um lado, fazer uma exposição apofática (ou seja, definir por meio das negações) e, por outro lado, fazer uma pequena sociologia da academia brasileira, com algo como um relato etnográfico, enfatizando os vícios academicistas contra o Positivismo

4.1.   Para deixar clara nossa perspectiva: nossa exposição será sobre a obra de Comte, mas não a encaramos como “comtismo”: a proposta, a inspiração de Comte resultou no Positivismo e não é redutível a “comtismo”; inversamente, contra as ampliações feitas pelos críticos, o Positivismo consiste nas concepções e nas práticas inspiradas por A. Comte (e, mais uma vez, não o que os críticos chamam de “positivismo”)

4.2.   Além disso, nossa exposição será bastante dura, especialmente na última parte, em que comentaremos a postura acadêmica/academicista a respeito do Positivismo

5.     Antes de seguirmos adiante, é importante afirmarmos com todas as letras e com o máximo de clareza que uma importantíssima exceção ao comportamento que descreveremos e criticaremos daqui a pouco é, justamente, a da Fernanda Alcântara, que, embora mantendo divergências conosco, de maneira muito honesta reconhece a importância de conhecer diretamente a obra de Augusto Comte e dos positivistas e de conversar com os positivistas para conhecê-los e entendê-los

Os preconceitos como postura e procedimentos básicos contra Comte e o Positivismo

6.     A postura básica a respeito de Comte e do Positivismo é a postura de “crítica”

6.1.   Qualquer “crítica”, para ser verdadeira e, talvez, frutífera, tem que se basear no mínimo no conhecimento efetivo daquilo que se critica, bem como tem que se basear na boa fé de quem critica a respeito de quem e do que é criticado

6.2.   Todavia, o que se verifica no Brasil (e nos Estados Unidos, na Inglaterra e na Alemanha – e daí para o mundo) é que a crítica precede, enviesa e impede o conhecimento, resultando pura e simplesmente em preconceitos, que retroalimenta a crítica e mais preconceitos

6.2.1. Esse tipo de crítica, portanto, não consiste em apreciações morais, intelectuais e práticas a partir de parâmetros expostos com clareza; as críticas preconceituosas são puramente destrutivas, encarando a má fé sistemática como um procedimento legítimo no curso de guerras intelectuais (luta de classes, luta de raças, luta de sexos etc.)

6.3.   Vemos esse comportamento a respeito do Positivismo, mas não somente em relação a ele – comportamento que é chocante e que deveria ser escandaloso – tanto da parte de marxistas quanto de liberais, tanto de teológicos quanto de pós-modernos, tanto há 60 anos (e muito antes), quanto há 30 anos, quanto atualmente: Sérgio Buarque (cf. Lacerda, 2019), Zilberman (2003), Rosenfield (2026)

7.     Comte e o Positivismo são o bode expiatório, a Geni, o “outro”: eles são o alvo preferencial contra o qual todos põem-se e todos precisam pôr-se; para que o Positivismo torne-se realmente um alvo, não se hesita em mentir e em falsear as opiniões, (1) seja com mentiras pura e simples, (2) seja com o sofisma do espantalho, (3) seja com a aplicação de dois pesos e duas medidas (ou seja, com hipocrisia)

7.1.   A esse respeito, um rápido comentário pessoal: eu disse antes que sou positivista e também sacerdote da Humanidade; além disso, também sou servidor da UFPR: não sou professor, sou sociólogo da instituição, ou seja, servidor técnico-administrativo de nível superior

7.2.   Os preconceitos político-intelectuais e o academicismo atuam agressivamente aí: somente professores podem falar e ser ouvidos e, ainda mais, somente professores de “programas de pós-graduação”; quem não é professor, quem não é professor de pós-graduação e quem não integra as modinhas acadêmicas é sumariamente excluído; a minha condição de sacerdote da Humanidade hipocritamente intensifica tudo isso

8.     É importante insistir em que a hipocrisia atua agressivamente: marxistas, feministas, liberais, pós-modernos; padres, pastores, pais/mães de santo, monges budistas; líderes sindicais, membros de ONGs etc.: todos esses são cuidadosamente e cada vez mais ouvidos nos meios de comunicação e na academia; mas não os positivistas, a quem se aplica uma censura consciente, seja em termos acadêmicos, seja em termos religiosos, seja em termos filosóficos

8.1.   Tal censura eu pessoalmente já sofri em inúmeras ocasiões, bem como inúmeros outros positivistas que sofreram tratamentos idênticos em inúmeras ocasiões

8.2.   Ora, a proposta de “inclusão” é defendida (pelos marxistas, pelos pós-modernos, pelas pessoas ligadas ao “Sul Global” etc.), mas faz-se questão de rejeitar sistematicamente o Positivismo

8.3.   Da mesma forma, afirma-se atualmente com estridência o “lugar de fala”, mas o Positivismo é impedido de falar: somente os críticos podem falar a seu respeito, em total desprezo para com os positivistas

9.     Na prática de considerar o Positivismo a partir de preconceitos, os seus críticos atribuem-lhe os próprios vícios, bem como todos os defeitos possíveis; inversamente, fazem questão de negar ao Positivismo suas características próprias, suas virtudes e, claro, os traços compartilhados com os próprios críticos (o que, vale notar, corresponde a uma combinação de preconceito, má fé e falta de relativismo e de generosidade)

9.1.   Vários exemplos de preconceitos, que servem tanto para recordarmos o que sempre se ouve e lê e para apresentar alguns conceitos do Positivismo:

9.1.1. Seguindo uma das modas atuais, repete-se o preceito de Donald Davidson de que a interpretação e as conversas devem ser pautadas pela boa fé e pela vontade; mas atribui-se ao Positivismo a má fé e o mecanicismo, desprezando-se a afirmação positivista do altruísmo e a lei-mãe da Filosofia Primeira (“formular a hipótese mais simples, mais estética e mais simpática que comporte os dados”), que estabelece que se deve partir sempre da boa fé

9.1.2. Afirma-se que o Positivismo seria “burguês”, mas desprezam-se as sistemáticas valorização e defesa positivista do proletariado e as conexas e duríssimas críticas positivistas contra a burguesia, contra o liberalismo econômico, contra o mesquinho egoísmo burguês, contra a irresponsável e criminosa proposta de “Estado mínimo” etc., além das atuações práticas dos positivistas em favor da inclusão social do proletariado e dos povos indígenas, da criação de bancos populares, de cooperativas de crédito, de sindicatos e de centrais sindicais etc.

9.1.3. Outro exemplo: afirma-se que o Positivismo seria estritamente racionalista, que seria colonialista, que seria eurocêntrico, que seria “capitalista”, que seria pela exploração predatória da natureza, que seria alienante, que seria anti-histórico etc. e, ao mesmo tempo, nega-se, recusa-se e despreza-se a valorização e a defesa positivista dos povos indígenas, do neofetichismo, dos animais, do “reencantamento do mundo” (ou melhor, da manutenção do “encantamento do mundo”), da noção afirmativa da Humanidade, da noção historicizante de continuidade etc.

9.1.4. Afirma-se que o Positivismo seria reducionista, materialista, cientificista, “naturalista”, contra a dignidade humana, contra a particularidade das ciências humanas, mas ao mesmo tempo, nega-se, recusa-se e despreza-se a valorização e a defesa positivista do método subjetivo, da superioridade das ciências humanas, da afirmação das ciências humanas como “ciências superiores” e “ciências sagradas”, da afirmação moral, intelectual e prática da Moral etc.

9.1.5. Afirma-se que o Positivismo seria reducionista, que não reconheceria a “complexidade”, que seria radicalmente materialista, que negaria a espontaneidade, que seria intelectualista e estritamente racionalista, que reduziria o ser humano ao intelecto e à ciência etc., mas ao mesmo tempo, nega-se, recusa-se e despreza-se a afirmação positivista clara, constante e fundamental da visão de conjunto, da perspectiva de totalidade, da noção de tríplice natureza humana, das múltiplas relações abstratas e concretas entre sentimentos, inteligência e atividade prática, da superioridade dos sentimentos sobre a inteligência, sobre o papel necessariamente regulador dos sentimentos e da atividade prática sobre a inteligência, da importância da arte e da complementaridade necessária entre arte e filosofia, da superioridade da filosofia sobre a ciência etc.

A crítica positivista ao academicismo

10.   A sociologia comtiana e a prática positivista são radicalmente contrárias ao academicismo[1]

10.1.               Mas o que podemos entender como sendo o academicismo? Podemos defini-lo a partir do Positivismo como sendo a tendência a considerar que somente na academia, isto é, nas universidades, é possível ser inteligente, produzir ciência e, de modo geral, produzir conhecimento

10.2.               Inversamente, o academicismo estabelece que qualquer produção intelectual que se desenvolva fora das universidades não tem valor intelectual

10.2.1.   O academicismo chega a tal ponto que muitas vezes nem mesmo instituições de pesquisa que não sejam “universidades” não são respeitadas

10.3.               Em virtude disso, o academicismo considera que, se alguém não possui um diploma, não tem valor intelectual

10.3.1.   Assim, o academicismo estabelece que o valor intelectual de alguém está vinculado à posse de algum(ns) pedaço(s) de papel

11.   Um cuidado que temos que adotar: é necessário termos clareza a respeito de um aspecto central: o vício moral-intelectual-institucional do academicismo é muito diferente da valorização da instrução e da busca de conhecimentos teóricos e práticos; em outras palavras, ao criticarmos o academicismo, não criticamos os esforços coletivos e individuais em prol do esclarecimento e do conhecimento

12.   Uma outra manifestação do academicismo é julgar que, se algum corpo doutrinário não foi elaborado nas universidades, ou não foi ensinado nas universidades, ele não tem existência efetiva e/ou não tem valor

12.1.               Esse vício tem aplicação geral, mas refere-se especificamente ao Positivismo: como a Sociologia foi fundada por Augusto Comte fora das universidades e ela só passou a ser ensinada nas universidades a partir dos anos 1890 (com uma outra geração de pensadores, que eram não positivistas e estreitamente vinculados a universidades), o academicismo pretende que a Sociologia só teria surgido a partir dos anos 1890

12.2.               Ou, inversamente: como Augusto Comte elaborou suas reflexões fora das universidades, a sua Sociologia não seria científica, não seria uma “verdadeira Sociologia”

12.3.               Essas concepções são aplicadas atualmente, mas é claro que sempre foram autoaplicadas pelo, ao e para o público universitário

12.3.1.   Além da aplicação à realidade atual, essas concepções também são ampliadas e exageradas para considerar que as universidades em geral, desde sempre, foram sempre bastiões do conhecimento verdadeiro

12.4.               O academicismo, dependendo da sua versão (ou dos seus exageros), pode ser cientificista ou não: ele pode fingir que as universidades durante séculos não foram bastiões conservadores ou retrógrados da metafísica e da teologia

13.   Pelo que falamos até agora, deve estar claro, mas convém repetir: ao contrário do que propõe mais um mito preconceituoso, o Positivismo é antiacademicista – e anticientificista

13.1.               Embora não possamos apresentá-la, importa afirmarmos que a concepção de ciência do Positivismo realmente valoriza a ciência, mas ao mesmo tempo, e mais importante, reconhece e estabelece limites para a ciência e, ao coordenar a existência humana, estabelece que a ciência ocupa uma posição necessariamente limitada e subordinada

13.1.1.   Para usar conceitos atuais: o Positivismo tem uma concepção reflexiva, profunda e densa da ciência e do conhecimento humano; dessa forma, sua concepção da ciência não é simplista e não a considera todo-poderosa

13.2.               Assim, o Positivismo é antiacademicista por si só, mas o anticientificismo do Positivismo reforça o antiacademicismo

13.3.               Além disso, o antiacademicismo do Positivismo também se vincula a um respeito pela sabedoria popular

14.   Devemos notar que um traço adicional do academicismo consiste em sua profunda ambigüidade – consciente e proposital, diga-se de passagem – a respeito de sua atuação como poder espiritual

14.1.               O que é o poder espiritual? O poder espiritual é um dos dois poderes fundamentais da sociedade; ele corresponde aos órgãos que modificam a conduta dos indivíduos a partir do aconselhamento, ou seja, subjetivamente, com base na educação, nos valores e idéias compartilhados, a partir da confiança pública; ao poder espiritual contrapõe-se de maneira complementar o poder temporal, que é o que chamamos de Estado e que modifica a conduta de maneira objetiva e impositiva, sempre com a possibilidade de emprego da violência

14.2.               A noção de poder espiritual, em contraposição complementar com a noção de poder temporal, estabelece condições de atuação e regras de funcionamento; impõe obrigações morais, intelectuais e práticas para os membros do poder espiritual e impõe estruturas institucionais para seu funcionamento

14.3.               A condição institucional básica é a separação entre o poder temporal e o poder espiritual, que vulgarmente é chamada de laicidade do Estado mas que é muito mais ampla: geralmente a laicidade é dirigida contra os teológicos (não raro com um viés anticlericalista), mas é claro que ela deve considerar também as universidades e os acadêmicos (e os próprios positivistas!)

15.   Os acadêmicos/academicistas não se vêem como membros do poder espiritual; não por acaso, com freqüência eles não têm pudor em empregar o Estado para imporem suas crenças

15.1.               Isso é mais notável no caso dos marxistas e dos pós-modernos/identitários – para quem tudo na sociedade é político e disputa de poder e, portanto, tudo é recurso mobilizável nos conflitos – e menos intenso no caso dos liberais

15.2.               Assim, o academicismo é a versão metafísica (e corrompida) do poder espiritual, da mesma forma que a igreja católica é um exemplo de poder espiritual teológico

15.3.               Quando convém, os acadêmicos/academicistas assumem-se como poder espiritual; quando convém, recusam essa postura; quando convém, são engajados; quando convém, são “científicos”: em tal oscilação há uma enorme hipocrisia – daí um dos aspectos que ilustram a degradação do poder temporal acadêmico/academicista

15.4.               Um dos aspectos da ambigüidade e da hipocrisia acadêmica/academicista é a manutenção intencional da “mente dividida”, ou da duplicidade mental e de comportamentos: na academia são “críticos” (secularistas, embora de modo geral sejam materialistas, ateus e anticlericalistas), mas fora da academia assumem teologias e metafísicas variadas

15.5.               Mais uma vez: em nome de supostos pluralismo e inclusão, os acadêmicos/academicistas ouvem e fazem questão de ouvir os mais variados grupos sociais, desde os mais grotescos, aberrantes e místicos até os mais razoáveis e aceitáveis; mas ao mesmo tempo fazem questão de rejeitar, ironizar e desprezar os positivistas, a Religião da Humanidade, a sociocracia, o neofetichismo etc.

16.   Como resumo e síntese dos inúmeros problemas que vimos indicando, os acadêmicos dizem desejar auxiliar a renovar a sociedade, mas suas atividades com frequência não têm objetivos claros além de pesquisas infindáveis e de críticas destruidoras sistemáticas; nisso, a ausência de completude e a precariedade filosófica são vistas como virtudes

16.1.               Tudo isso gera instabilidades moral e social imensas, que não por acaso são preenchidas pelas teologias e pelas concepções absolutas; os acadêmicos respeitam ou esnobam essas concepções, mas ao mesmo tempo e de maneira mais importante desprezam e combatem ativamente o Positivismo, que reconhece que a instabilidade é ruim, que a concepção de pesquisas acadêmicas infindáveis é pueril ou daninha e que propõe com clareza a sistematização e a disciplina positiva da existência humana

17.   Em face da ambigüidade acadêmica/academicista como poder espiritual, não causa nenhum espanto o Positivismo ser o alvo preferencial das críticas destrutivas e dos preconceitos acadêmicos/academicistas: o Positivismo é combatido por inveja, por mesquinhez e porque se percebe que o êxito do Positivismo corresponde ao fim da irresponsabilidade, da mediocridade e da mesquinhez academicista

 

Referências

Botelho, André. (org.) 2013. Sociologia essencial. São Paulo: Penguin-Companhia.

Comte, August. 1900. Synthèse subjective. 2e éd. Paris: Exécution Téstamentaire d’Auguste Comte.

Comte, Augusto. 1880. Système de politique positive. 4e éd. Paris: J.-B. Baillière.

Comte, Augusto. 1899. Apelo aos conservadores. Rio de Janeiro: Igreja Positivista do Brasil.

Comte, Augusto. 1934. Catecismo positivista. 4ª ed. Rio de Janeiro: Igreja Positivista do Brasil.

Comte, Augusto. 1972. Opúsculos de filosofia social. São Paulo: USP.

Lacerda, Gustavo B. 2016. Laicidade na I República brasileira: os positivistas ortodoxos. Curitiba: Appris.

Lacerda, Gustavo B. 2018. Comtianas brasileiras: Ciências Sociais, Brasil e cidadania. Curitiba: Appris.

Lacerda, Gustavo B. 2019. O momento comtiano: república e política no pensamento de Augusto Comte. Curitiba: UFPR.

Lacerda, Gustavo B. 2022. Positivismo, Augusto Comte e epistemologia das ciências humanas e naturais. Marília: Poiesis.

Lacerda, Gustavo B. 2023. Prédica positiva “Comentários sobre o cientificismo e o academicismo”. 10 de Aristóteles de 169 (4 de abril de 2023). Curitiba: Igreja Positivista Virtual. Disponível em: https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2023/04/comentarios-sobre-o-academicismo-e-o.html.

Lacerda, Gustavo B. 2026. Manifesto pela liberdade acadêmica sem (auto)responsabilização. Monitor Mercantil, Rio de Janeiro, 20 maio.

Lagarrigue, Luís. 1890. La poesía positivista. Santiago do Chile: s/n.

Lonchampt, José. 1896. Ensaio sobre a oração. Catálogo da Igreja Positivista do Brasil, n. 165. Rio de Janeiro: Igreja Positivista do Brasil.

Rosenfield, Luís. 2026. A era cientificista (1870-1904). Brasília: Senado Federal.

Teixeira Mendes, Raimundo. 1898. As últimas concepções de Augusto Comte. Rio de Janeiro: Igreja Positivista do Brasil.

Teixeira Mendes, Raimundo. 1900. O ano sem par. Rio de Janeiro: Igreja Positivista do Brasil.

Zilberman, Regina. 2003. O Positivismo e a história da literatura brasileira. In: Moreira, Maria Eunice. (org.). Histórias da literatura: teorias, temas e autores. Porto Alegre: Mercado Aberto.



[1] Retomamos nesta seção algumas observações feitas em Lacerda (2023).

30 abril 2026

Mais uma vez, os preconceitos disseminados nas pesquisas empíricas

Aforismos sociológicos XI - Mais uma vez, os preconceitos disseminados nas pesquisas empíricas



Comentários sobre o livro O Brasil no espelho (Rio de Janeiro, Globo Livros, 2025), de Felipe Nunes[1].

 

O livro O Brasil no espelho: um guia para entender o Brasil e os brasileiros, de Felipe Nunes – professor da Fundação Getúlio Vargas e dono do Instituto Quaest, de pesquisas de opinião – foi publicado em 2025 e apresenta os resultados de uma pesquisa sobre hábitos e opiniões da população brasileira a respeito das mais variadas questões: importância da família, preferências político-partidárias, confiança nas instituições etc. É um livro pequeno, com menos de 200 páginas, de leitura fácil e rápida, com muitos e muitos gráficos e a maior parte do texto escrito correspondendo à descrição e à interpretação desses gráficos.

Esse livro é interessante em vários sentidos: por um lado, apresenta informações interessantes, comparando-as com algumas pesquisas anteriores; por outro lado, ele é exemplar dos graves defeitos intelectuais e morais que as pesquisas de opinião (“pesquisas empíricas”, “pesquisas quantitativas”, “pesquisas científicas”) podem apresentar. Ou melhor, dizendo de outra maneira, de modo mais direto: esse livro é exemplar dos preconceitos que as pesquisas de opinião podem manter e estimular, de maneira consciente e proposital.

Embora seja o relatório de uma pesquisa de opinião, como é um livro que foi publicado por uma editora comercial, ele é orientado para o grande consumo popular, de modo que não há as reflexões metodológicas que sempre aparecem em pesquisas estritamente acadêmicas; além disso, o estilo de escrita é bastante acessível; por fim, pode-se conjecturar que algumas questões foram suprimidas dessa versão publicada, a fim de manter (ou garantir) o acesso popular dos resultados da pesquisa.

Para estruturar as respostas dos entrevistados, além das classificações em termos de gênero e da região do país, o autor considerou também a “raça” e, principalmente, as faixas etárias. Em termos de gêneros e de região, não há muito o que comentar; a respeito das “raças”, esse é um problema “misto”, na medida em que o autor entroniza um critério discriminador mas segue o padrão oficial brasileiro – adotado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE, e que desgraçadamente é racialista, isto é, racista.

Mas o que nos interessa aqui é a classificação das respostas a partir das faixas etárias. O autor agrupou os respondentes em quatro grupos, nomeados conforme o período de nascimento e de sociabilização básica:

-      grupo “Bossa Nova” (nascidos entre 1945 e 1965)

-      grupo “Ordem e Progresso” (nascidos entre 1965 e 1985)

-      grupo “Redemocratização” (nascidos entre 1985 e 2005)

-      grupo “Geração.Com” (nascidos entre 2005 e 2020)

O autor escolheu, conscientemente, deliberadamente, empregar a fórmula “Ordem e Progresso” para descrever o período autoritário. Em outras palavras, o autor associa direta e conscientemente o “Ordem e Progresso” – e, por extensão, o Positivismo – aos militares e ao autoritarismo.

Não há como diminuir ou minimizar os graves problemas morais e intelectuais dessa escolha feita pelo autor. Mesmo que, por hipótese, possa-se argumentar que tal vinculação foi “inocente” – como se o autor não tivesse desejado, propositalmente, vincular estreitamente o “Ordem e Progresso” à noção de autoritarismo –, o que a suposta inocência dessa vinculação comprovaria seria apenas superficialidade e irresponsabilidade do autor, atributos que, com certeza, ele rejeitaria e que o conjunto do livro, supostamente, demonstra. O fato é que, em todo o livro, “erros inocentes” desse tipo não são vistos a respeito de outros aspectos; além disso, de qualquer maneira, o título “Ordem e Progresso” foi empregado em um procedimento a posteriori e que, portanto, pode(ria) ser alterado a posteriori: em outras palavras, o autor decidiu conscientemente adotar a expressão “Ordem e Progresso” para descrever o período autoritário, vinculando a expressão ao autoritarismo.

A irresponsabilidade e a superficialidade intelectual, teórica e metodológica do autor estende-se também ao âmbito moral, na medida em que o “Ordem e Progresso”, à parte a sua origem positivista, integra o mais importante símbolo do país, que é a bandeira nacional[1]. Dessa forma, ao vincular o “Ordem e Progresso” ao autoritarismo militarista, o que o autor faz é vincular a bandeira nacional a esse autoritarismo militarista, corroborando os preconceitos da esquerda e da direita a respeito[2].

O caráter intencional e preconceituoso de Felipe Nunes ao escolher o rótulo “Ordem e Progresso” torna-se mais claro e mais intenso quando se considera que ele poderia ter escolhido inúmeros outros rótulos, com seriedade ou em tom de piada, para descrever a geração nascida entre 1964 e 1985. Assim, por exemplo, ele poderia ter usado “Anos de Chumbo”, “Autoritarismo”, “Regime Militar” – ou mesmo “Segurança e Desenvolvimento”: o autor não o fez simplesmente porque não o quis.

Ora, esse tipo de vício intelectual e moral – aliás, vício chamado “preconceito” – está presente em todo o livro e reflete um problema que acomete com enorme freqüência cientistas sociais dedicados a pesquisas empíricas, especialmente as quantitativas: são muito bons com números e com a manipulação estatística, mas são péssimos em termos conceituais. Por “péssimos em termos conceituais” o que queremos dizer é que esses pesquisadores lidam mal com os conceitos, não raras vezes sendo superficiais a esse respeito. Dito de outra maneira, são bons para contar coisas, mas fracassam (com freqüência, de maneira intencional) na parte que realmente importa, que é a reflexão intelectual.

Os grandes esquemas apresentados no livro refletem com clareza tal superficialidade conceitual, ou melhor, tal superficialidade teórica e filosófica: por exemplo, o autor opõe “conservadores” a “progressistas”, em que os “conservadores” são definidos como tais estritamente a partir do que a esquerda considera-o, da mesma forma que os “progressistas”. Não apenas o autor adota sem maiores cuidados uma classificação que é elaborada por um dos grupos sociais que ele pesquisa (e que, nas disputas partidário-eleitorais, é elaborada contra um outro grupo que ele também pesquisa), como o autor adota pessoalmente essa mesma classificação[3].

Infelizmente faz parte do repertório contemporâneo a afirmação (que em si é falaciosa) de que “tudo é política”, ou seja, de que tudo está em permanente disputa: se “tudo está em disputa”, com certeza os conceitos que esquerda e direita fazem de “conservadores” e “progressistas” também estão (e estão ainda mais) em disputa. Ora, não deveria ser obrigação profissional da parte do autor (como professor universitário, como pesquisador profissional, como dono de um instituto de pesquisa) distanciar-se um mínimo que fosse desses conceitos “em disputa”? Essa obrigação profissional deveria ser evidente para o autor, em termos científico-metodológicos, filosóficos e morais – para não ficarmos somente nos rasteiros termos políticos.

O primarismo conceitual do autor, bem como sua adesão acrítica aos valores partidário-eleitorais da esquerda, fica evidente tanto nas categorias utilizadas por ele para estruturar a pesquisa quanto nas interpretações que ele faz dos dados obtidos. Assim, por exemplo, em termos de categorias empregadas para organizar as respostas fornecidas pelos entrevistados, indicamos acima que o autor adota o conceito de “raças”; mas, para além da triste mas inevitável reprodução da política racialista oficial do Brasil, o fato é que o autor leva a sério a categoria “raça”. Ou seja, o autor reproduz o preconceito identitário segundo o qual o Brasil seria constitutiva e profundamente “racista”[4].

Em outro âmbito de reflexões, o autor afirma que “valorizar a família” seria um traço de conservadorismo – o que, inversamente, significa que desvalorizar a família seria uma perspectiva progressista! Em outras palavras, o que o autor sugere, ainda que de maneira subentendida, é que a desestruturação de lares, a fragilidade sistemática das relações humanas, a ausência de ambientes estáveis, acolhedores e estruturados – isso seria algo bom e desejável.

O autor não é explícito a respeito; em nenhum momento ele afirma com todas as eltras essas características. Na verdade, inversamente, o autor assume um certo objetivismo ligado ao seu quantitativismo; esse objetivismo serve na prática para que os pesquisadores quantitativistas escondam-se atrás de números e da retórica academicista-cientificista. (Tanto direita quanto esquerda fazem críticas contra o disfarce quantitativista das opiniões e dos preconceitos dos pesquisadores.) De qualquer maneira, a leitura atenta do livro evidencia com grande facilidade esses vícios, ou seja, a leitura atenta explicita o que o autor mantém implícito.

Há muitos outros aspectos em que o livro é superficial em termos de reflexões teóricas, de elaboração conceitual e de fundamentos filosóficos elementares. É claro que não seria possível o autor abordar com profundidade todos os aspectos implicados pela pesquisa e, por isso, não podemos cobrar essa postura. Entretanto, o autor dá certo destaque para algumas questões e sugere algumas conseqüências a respeito delas, mas silencia a propósito de outras que merecem (ou exigem) comentários e aprofundamento. Isso equivale a dizer que o autor escolhe conscientemente dar destaque a algumas coisas e a silenciar (ou omitir, ou ser superficial) a respeito de outras.

Um tema a respeito do qual o autor silencia é a chamada “laicidade do Estado”. O autor apresenta previamente vários resultados importantes – por exemplo, que a população brasileira acredita majoritariamente em divindades (monoteístas e politeístas) e que a população acredita no “poder da fé” –, para em seguida afirmar que isso tem relevância para políticas públicas, especialmente as que mobilizam mais diretamente a ciência (como as políticas de saúde e, indiretamente, de educação) e afirmar que se “deve levar a sério o peso das crenças populares, sob risco de as políticas públicas darem errado”: ora, o que se quer dizer com “levar a sério as crenças populares”? O autor silencia a respeito, mas sua omissão dá a impressão de que ele considera que governo e Estado devem incluir essas crenças nas políticas públicas – logo, o Estado deve deixar de lado a laicidade, o que deveria ser evidentemente inaceitável. Mas, em todo caso, como o autor silencia a respeito, temos apenas uma sugestão vaga e inconclusiva, mesmo que – como o próprio autor admite – seja a respeito de um aspecto central das políticas públicas.

Em face disso tudo, a vinculação cínica e ligeira do “Ordem e Progresso” ao militarismo e ao autoritarismo evidencia de maneira exemplar os vícios intelectuais e metodológicos do autor. Como vimos, o autor opõe de maneira simplista “conservadores” a “progressistas”: mais que apenas aderir de maneira indesculpável às disputas políticas contemporâneas e transferi-las para sua pesquisa, o que o autor faz é rejeitar qualquer possibilidade efetiva de superar essa oposição e de realizar a união proposta pela máxima “Ordem e Progresso”. O conjunto dos problemas teóricos, morais e políticos do livro deixa bastante claro que o autor não conhece a sociologia e a história subjacentes ao “Ordem e Progresso” e não entende a respectiva filosofia[5]: é difícil não chegarmos à conclusão de que se esconder atrás dos números para repetir e reproduzir preconceitos políticos nunca foi tão fácil e lucrativo.

Em textos de promoção comercial das obras do autor, afirma-se que ele é um “grande” pesquisador, com uma carreira de sucesso no Brasil e no exterior, tendo desenvolvido muitas pesquisas e elaborado um índice que é vendido para governos e empresas. À parte o exercício comercial desse tipo de comentário, o êxito acadêmico do autor deixa claro que não há motivo nenhum para ele cometer os erros e os vícios que comete – e ele de fato comete-os: sua habilidade estatística e empírica poderia com enorme facilidade evitar todos os problemas devidos ao seu primarismo teórico.

Em suma, é difícil não se ficar com grande irritação e má vontade com um livro e com um pesquisador que cometem erros tão grandes e superficiais, de maneira consciente e sistemática.

 

Gustavo Biscaia de Lacerda (GBLacerda@ufpr.br) é Doutor em Sociologia Política (UFSC) e Sociólogo da UFPR.

 

Referências bibliográficas

Abaixo-assinado “A bandeira nacional republicana não é fascista”. 2022. Disponível em: https://peticaopublica.com.br/pview.aspx?pi=BR127657. Acesso em 30 abr. 2026.

Comte, Augusto. 1898. Apelo aos conservadores. Rio de Janeiro: Igreja Positivista do Brasil.

Comte, Augusto. 1934. Catecismo positivista. 4ª ed. Rio de Janeiro: Igreja Positivista do Brasil.

Lacerda, Gustavo B. 2018. Comtianas brasileiras. Curitiba: Appris.

Lacerda, Gustavo B. 2019. O momento comtiano. Curitiba: UFPR.

Lacerda, Gustavo B. 2025. Sobre o livro “A utopia autoritária brasileira”, de Carlos Fico. Filosofia Social e Positivismo, Curitiba, 21 out. Disponível em: https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2025/10/sobre-o-livro-utopia-autoritaria.html. Acesso em: 30 abr. 2026.

Lacerda, Gustavo B. 2026. “O Brasil no espelho”, Dia das Mulheres, Castilhismo não é fascismo. Filosofia Social e Positivismo, Curitiba, 11 mar. Disponível em: https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2026/03/o-brasil-no-espelho-dia-das-mulheres.html. Acesso em: 30 abr. 2026.

Mounk, Yascha. 2024. A armadilha da identidade: uma história das ideias e do poder em nosso tempo. Rio de Janeiro: ed. 70.

Neiman, Susan. 2024. A esquerda não é woke. Belo Horizonte: Âyiné.

Nunes, Felipe. 2025. Brasil no espelho: um guia para entender o Brasil e os brasileiros. Rio de Janeiro: Globo.

Risério, Antônio. 2022. A crise da política identitária. Rio de Janeiro: Topbooks.

Teixeira Mendes, Raimundo Teixeira. 1898. As últimas concepções de Augusto Comte. Rio de Janeiro: Igreja Positivista do Brasil.



[1] Considerar que esse título foi devido a um erro “inocente” é, na melhor das hipóteses, um sofisma, ou, em linguagem direta, uma desculpa esfarrapada. Uma hipótese complementar, de que essa escolha teria sido uma espécie de piada política feita pelo autor, é ainda pior – que se torna mais degradante na medida em que se passa a ter em mente que o “Ordem e Progresso” integra a bandeira nacional brasileira.

[2] Devido a uma triste mas reveladora coincidência, no mesmo dia em que expusemos oralmente as críticas ao livro de Felipe Nunes, divulgamos uma postagem em que nos pusemos contra a pretensão de direitistas de associarem o Positivismo ao fascismo; trata-se do cartaz “O castilhismo não é fascista” (ver Lacerda, 2026); antes, em 2022, lançamos o abaixo-assinado “A bandeira nacional republicana não é fascista”.

A respeito dos preconceitos que a esquerda difunde contra o Positivismo, pode-se consultar Lacerda (2018), em que discutimos detalhadamente os mitos que Sérgio Buarque de Hollanda criou contra o Positivismo, e Lacerda (2025), em que tratamos do último livro do historiador Carlos Fico.

[3] Para não haver dúvidas: reconhecendo que no âmbito da centro-direita há elementos dignos de respeito e consideração aprofundada, nós, pessoalmente, somos simpáticos à centro-esquerda. O que cobramos do autor, no que se refere ao seu esquerdismo, não consiste portanto na adesão em si à esquerda, mas ao emprego completamente acrítico de conceitos próprios à disputa partidário-eleitoral em uma investigação que, por definição, deveria afastar-se em termos teóricos e metodológicos dessa disputa.

[4] Sobre os graves problemas morais, intelectuais e políticos do identitarismo em geral e, para o que nos interessa aqui, do identitarismo racialista-racista, cf. Risério (2022) e Mounk (2024). Susan Neiman (2024), a partir de uma perspectiva militante de esquerda, reafirma a crítica ao identitarismo.

[5] É claro que bastaria o autor ler diretamente Augusto Comte (por exemplo, 1898 ou 1934) a esse respeito; ou o nosso grande Raimundo Teixeira Mendes (por exemplo, 1898). Mas, caso quisesse usar a desculpa de que tais referências são difíceis de achar (o que é discutível, especialmente com os atuais e vastos repositórios eletrônicos, como o Internet Archive, o Google Books ou o Gallica), estão à disposição os livros de Lacerda (por exemplo, 2018 e 2019), bem mais recentes.