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30 abril 2026

Mais uma vez, os preconceitos disseminados nas pesquisas empíricas

Aforismos sociológicos XI - Mais uma vez, os preconceitos disseminados nas pesquisas empíricas



Comentários sobre o livro O Brasil no espelho (Rio de Janeiro, Globo Livros, 2025), de Felipe Nunes[1].

 

O livro O Brasil no espelho: um guia para entender o Brasil e os brasileiros, de Felipe Nunes – professor da Fundação Getúlio Vargas e dono do Instituto Quaest, de pesquisas de opinião – foi publicado em 2025 e apresenta os resultados de uma pesquisa sobre hábitos e opiniões da população brasileira a respeito das mais variadas questões: importância da família, preferências político-partidárias, confiança nas instituições etc. É um livro pequeno, com menos de 200 páginas, de leitura fácil e rápida, com muitos e muitos gráficos e a maior parte do texto escrito correspondendo à descrição e à interpretação desses gráficos.

Esse livro é interessante em vários sentidos: por um lado, apresenta informações interessantes, comparando-as com algumas pesquisas anteriores; por outro lado, ele é exemplar dos graves defeitos intelectuais e morais que as pesquisas de opinião (“pesquisas empíricas”, “pesquisas quantitativas”, “pesquisas científicas”) podem apresentar. Ou melhor, dizendo de outra maneira, de modo mais direto: esse livro é exemplar dos preconceitos que as pesquisas de opinião podem manter e estimular, de maneira consciente e proposital.

Embora seja o relatório de uma pesquisa de opinião, como é um livro que foi publicado por uma editora comercial, ele é orientado para o grande consumo popular, de modo que não há as reflexões metodológicas que sempre aparecem em pesquisas estritamente acadêmicas; além disso, o estilo de escrita é bastante acessível; por fim, pode-se conjecturar que algumas questões foram suprimidas dessa versão publicada, a fim de manter (ou garantir) o acesso popular dos resultados da pesquisa.

Para estruturar as respostas dos entrevistados, além das classificações em termos de gênero e da região do país, o autor considerou também a “raça” e, principalmente, as faixas etárias. Em termos de gêneros e de região, não há muito o que comentar; a respeito das “raças”, esse é um problema “misto”, na medida em que o autor entroniza um critério discriminador mas segue o padrão oficial brasileiro – adotado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE, e que desgraçadamente é racialista, isto é, racista.

Mas o que nos interessa aqui é a classificação das respostas a partir das faixas etárias. O autor agrupou os respondentes em quatro grupos, nomeados conforme o período de nascimento e de sociabilização básica:

-      grupo “Bossa Nova” (nascidos entre 1945 e 1965)

-      grupo “Ordem e Progresso” (nascidos entre 1965 e 1985)

-      grupo “Redemocratização” (nascidos entre 1985 e 2005)

-      grupo “Geração.Com” (nascidos entre 2005 e 2020)

O autor escolheu, conscientemente, deliberadamente, empregar a fórmula “Ordem e Progresso” para descrever o período autoritário. Em outras palavras, o autor associa direta e conscientemente o “Ordem e Progresso” – e, por extensão, o Positivismo – aos militares e ao autoritarismo.

Não há como diminuir ou minimizar os graves problemas morais e intelectuais dessa escolha feita pelo autor. Mesmo que, por hipótese, possa-se argumentar que tal vinculação foi “inocente” – como se o autor não tivesse desejado, propositalmente, vincular estreitamente o “Ordem e Progresso” à noção de autoritarismo –, o que a suposta inocência dessa vinculação comprovaria seria apenas superficialidade e irresponsabilidade do autor, atributos que, com certeza, ele rejeitaria e que o conjunto do livro, supostamente, demonstra. O fato é que, em todo o livro, “erros inocentes” desse tipo não são vistos a respeito de outros aspectos; além disso, de qualquer maneira, o título “Ordem e Progresso” foi empregado em um procedimento a posteriori e que, portanto, pode(ria) ser alterado a posteriori: em outras palavras, o autor decidiu conscientemente adotar a expressão “Ordem e Progresso” para descrever o período autoritário, vinculando a expressão ao autoritarismo.

A irresponsabilidade e a superficialidade intelectual, teórica e metodológica do autor estende-se também ao âmbito moral, na medida em que o “Ordem e Progresso”, à parte a sua origem positivista, integra o mais importante símbolo do país, que é a bandeira nacional[1]. Dessa forma, ao vincular o “Ordem e Progresso” ao autoritarismo militarista, o que o autor faz é vincular a bandeira nacional a esse autoritarismo militarista, corroborando os preconceitos da esquerda e da direita a respeito[2].

O caráter intencional e preconceituoso de Felipe Nunes ao escolher o rótulo “Ordem e Progresso” torna-se mais claro e mais intenso quando se considera que ele poderia ter escolhido inúmeros outros rótulos, com seriedade ou em tom de piada, para descrever a geração nascida entre 1964 e 1985. Assim, por exemplo, ele poderia ter usado “Anos de Chumbo”, “Autoritarismo”, “Regime Militar” – ou mesmo “Segurança e Desenvolvimento”: o autor não o fez simplesmente porque não o quis.

Ora, esse tipo de vício intelectual e moral – aliás, vício chamado “preconceito” – está presente em todo o livro e reflete um problema que acomete com enorme freqüência cientistas sociais dedicados a pesquisas empíricas, especialmente as quantitativas: são muito bons com números e com a manipulação estatística, mas são péssimos em termos conceituais. Por “péssimos em termos conceituais” o que queremos dizer é que esses pesquisadores lidam mal com os conceitos, não raras vezes sendo superficiais a esse respeito. Dito de outra maneira, são bons para contar coisas, mas fracassam (com freqüência, de maneira intencional) na parte que realmente importa, que é a reflexão intelectual.

Os grandes esquemas apresentados no livro refletem com clareza tal superficialidade conceitual, ou melhor, tal superficialidade teórica e filosófica: por exemplo, o autor opõe “conservadores” a “progressistas”, em que os “conservadores” são definidos como tais estritamente a partir do que a esquerda considera-o, da mesma forma que os “progressistas”. Não apenas o autor adota sem maiores cuidados uma classificação que é elaborada por um dos grupos sociais que ele pesquisa (e que, nas disputas partidário-eleitorais, é elaborada contra um outro grupo que ele também pesquisa), como o autor adota pessoalmente essa mesma classificação[3].

Infelizmente faz parte do repertório contemporâneo a afirmação (que em si é falaciosa) de que “tudo é política”, ou seja, de que tudo está em permanente disputa: se “tudo está em disputa”, com certeza os conceitos que esquerda e direita fazem de “conservadores” e “progressistas” também estão (e estão ainda mais) em disputa. Ora, não deveria ser obrigação profissional da parte do autor (como professor universitário, como pesquisador profissional, como dono de um instituto de pesquisa) distanciar-se um mínimo que fosse desses conceitos “em disputa”? Essa obrigação profissional deveria ser evidente para o autor, em termos científico-metodológicos, filosóficos e morais – para não ficarmos somente nos rasteiros termos políticos.

O primarismo conceitual do autor, bem como sua adesão acrítica aos valores partidário-eleitorais da esquerda, fica evidente tanto nas categorias utilizadas por ele para estruturar a pesquisa quanto nas interpretações que ele faz dos dados obtidos. Assim, por exemplo, em termos de categorias empregadas para organizar as respostas fornecidas pelos entrevistados, indicamos acima que o autor adota o conceito de “raças”; mas, para além da triste mas inevitável reprodução da política racialista oficial do Brasil, o fato é que o autor leva a sério a categoria “raça”. Ou seja, o autor reproduz o preconceito identitário segundo o qual o Brasil seria constitutiva e profundamente “racista”[4].

Em outro âmbito de reflexões, o autor afirma que “valorizar a família” seria um traço de conservadorismo – o que, inversamente, significa que desvalorizar a família seria uma perspectiva progressista! Em outras palavras, o que o autor sugere, ainda que de maneira subentendida, é que a desestruturação de lares, a fragilidade sistemática das relações humanas, a ausência de ambientes estáveis, acolhedores e estruturados – isso seria algo bom e desejável.

O autor não é explícito a respeito; em nenhum momento ele afirma com todas as eltras essas características. Na verdade, inversamente, o autor assume um certo objetivismo ligado ao seu quantitativismo; esse objetivismo serve na prática para que os pesquisadores quantitativistas escondam-se atrás de números e da retórica academicista-cientificista. (Tanto direita quanto esquerda fazem críticas contra o disfarce quantitativista das opiniões e dos preconceitos dos pesquisadores.) De qualquer maneira, a leitura atenta do livro evidencia com grande facilidade esses vícios, ou seja, a leitura atenta explicita o que o autor mantém implícito.

Há muitos outros aspectos em que o livro é superficial em termos de reflexões teóricas, de elaboração conceitual e de fundamentos filosóficos elementares. É claro que não seria possível o autor abordar com profundidade todos os aspectos implicados pela pesquisa e, por isso, não podemos cobrar essa postura. Entretanto, o autor dá certo destaque para algumas questões e sugere algumas conseqüências a respeito delas, mas silencia a propósito de outras que merecem (ou exigem) comentários e aprofundamento. Isso equivale a dizer que o autor escolhe conscientemente dar destaque a algumas coisas e a silenciar (ou omitir, ou ser superficial) a respeito de outras.

Um tema a respeito do qual o autor silencia é a chamada “laicidade do Estado”. O autor apresenta previamente vários resultados importantes – por exemplo, que a população brasileira acredita majoritariamente em divindades (monoteístas e politeístas) e que a população acredita no “poder da fé” –, para em seguida afirmar que isso tem relevância para políticas públicas, especialmente as que mobilizam mais diretamente a ciência (como as políticas de saúde e, indiretamente, de educação) e afirmar que se “deve levar a sério o peso das crenças populares, sob risco de as políticas públicas darem errado”: ora, o que se quer dizer com “levar a sério as crenças populares”? O autor silencia a respeito, mas sua omissão dá a impressão de que ele considera que governo e Estado devem incluir essas crenças nas políticas públicas – logo, o Estado deve deixar de lado a laicidade, o que deveria ser evidentemente inaceitável. Mas, em todo caso, como o autor silencia a respeito, temos apenas uma sugestão vaga e inconclusiva, mesmo que – como o próprio autor admite – seja a respeito de um aspecto central das políticas públicas.

Em face disso tudo, a vinculação cínica e ligeira do “Ordem e Progresso” ao militarismo e ao autoritarismo evidencia de maneira exemplar os vícios intelectuais e metodológicos do autor. Como vimos, o autor opõe de maneira simplista “conservadores” a “progressistas”: mais que apenas aderir de maneira indesculpável às disputas políticas contemporâneas e transferi-las para sua pesquisa, o que o autor faz é rejeitar qualquer possibilidade efetiva de superar essa oposição e de realizar a união proposta pela máxima “Ordem e Progresso”. O conjunto dos problemas teóricos, morais e políticos do livro deixa bastante claro que o autor não conhece a sociologia e a história subjacentes ao “Ordem e Progresso” e não entende a respectiva filosofia[5]: é difícil não chegarmos à conclusão de que se esconder atrás dos números para repetir e reproduzir preconceitos políticos nunca foi tão fácil e lucrativo.

Em textos de promoção comercial das obras do autor, afirma-se que ele é um “grande” pesquisador, com uma carreira de sucesso no Brasil e no exterior, tendo desenvolvido muitas pesquisas e elaborado um índice que é vendido para governos e empresas. À parte o exercício comercial desse tipo de comentário, o êxito acadêmico do autor deixa claro que não há motivo nenhum para ele cometer os erros e os vícios que comete – e ele de fato comete-os: sua habilidade estatística e empírica poderia com enorme facilidade evitar todos os problemas devidos ao seu primarismo teórico.

Em suma, é difícil não se ficar com grande irritação e má vontade com um livro e com um pesquisador que cometem erros tão grandes e superficiais, de maneira consciente e sistemática.

 

Gustavo Biscaia de Lacerda (GBLacerda@ufpr.br) é Doutor em Sociologia Política (UFSC) e Sociólogo da UFPR.

 

Referências bibliográficas

Abaixo-assinado “A bandeira nacional republicana não é fascista”. 2022. Disponível em: https://peticaopublica.com.br/pview.aspx?pi=BR127657. Acesso em 30 abr. 2026.

Comte, Augusto. 1898. Apelo aos conservadores. Rio de Janeiro: Igreja Positivista do Brasil.

Comte, Augusto. 1934. Catecismo positivista. 4ª ed. Rio de Janeiro: Igreja Positivista do Brasil.

Lacerda, Gustavo B. 2018. Comtianas brasileiras. Curitiba: Appris.

Lacerda, Gustavo B. 2019. O momento comtiano. Curitiba: UFPR.

Lacerda, Gustavo B. 2025. Sobre o livro “A utopia autoritária brasileira”, de Carlos Fico. Filosofia Social e Positivismo, Curitiba, 21 out. Disponível em: https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2025/10/sobre-o-livro-utopia-autoritaria.html. Acesso em: 30 abr. 2026.

Lacerda, Gustavo B. 2026. “O Brasil no espelho”, Dia das Mulheres, Castilhismo não é fascismo. Filosofia Social e Positivismo, Curitiba, 11 mar. Disponível em: https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2026/03/o-brasil-no-espelho-dia-das-mulheres.html. Acesso em: 30 abr. 2026.

Mounk, Yascha. 2024. A armadilha da identidade: uma história das ideias e do poder em nosso tempo. Rio de Janeiro: ed. 70.

Neiman, Susan. 2024. A esquerda não é woke. Belo Horizonte: Âyiné.

Nunes, Felipe. 2025. Brasil no espelho: um guia para entender o Brasil e os brasileiros. Rio de Janeiro: Globo.

Risério, Antônio. 2022. A crise da política identitária. Rio de Janeiro: Topbooks.

Teixeira Mendes, Raimundo Teixeira. 1898. As últimas concepções de Augusto Comte. Rio de Janeiro: Igreja Positivista do Brasil.



[1] Considerar que esse título foi devido a um erro “inocente” é, na melhor das hipóteses, um sofisma, ou, em linguagem direta, uma desculpa esfarrapada. Uma hipótese complementar, de que essa escolha teria sido uma espécie de piada política feita pelo autor, é ainda pior – que se torna mais degradante na medida em que se passa a ter em mente que o “Ordem e Progresso” integra a bandeira nacional brasileira.

[2] Devido a uma triste mas reveladora coincidência, no mesmo dia em que expusemos oralmente as críticas ao livro de Felipe Nunes, divulgamos uma postagem em que nos pusemos contra a pretensão de direitistas de associarem o Positivismo ao fascismo; trata-se do cartaz “O castilhismo não é fascista” (ver Lacerda, 2026); antes, em 2022, lançamos o abaixo-assinado “A bandeira nacional republicana não é fascista”.

A respeito dos preconceitos que a esquerda difunde contra o Positivismo, pode-se consultar Lacerda (2018), em que discutimos detalhadamente os mitos que Sérgio Buarque de Hollanda criou contra o Positivismo, e Lacerda (2025), em que tratamos do último livro do historiador Carlos Fico.

[3] Para não haver dúvidas: reconhecendo que no âmbito da centro-direita há elementos dignos de respeito e consideração aprofundada, nós, pessoalmente, somos simpáticos à centro-esquerda. O que cobramos do autor, no que se refere ao seu esquerdismo, não consiste portanto na adesão em si à esquerda, mas ao emprego completamente acrítico de conceitos próprios à disputa partidário-eleitoral em uma investigação que, por definição, deveria afastar-se em termos teóricos e metodológicos dessa disputa.

[4] Sobre os graves problemas morais, intelectuais e políticos do identitarismo em geral e, para o que nos interessa aqui, do identitarismo racialista-racista, cf. Risério (2022) e Mounk (2024). Susan Neiman (2024), a partir de uma perspectiva militante de esquerda, reafirma a crítica ao identitarismo.

[5] É claro que bastaria o autor ler diretamente Augusto Comte (por exemplo, 1898 ou 1934) a esse respeito; ou o nosso grande Raimundo Teixeira Mendes (por exemplo, 1898). Mas, caso quisesse usar a desculpa de que tais referências são difíceis de achar (o que é discutível, especialmente com os atuais e vastos repositórios eletrônicos, como o Internet Archive, o Google Books ou o Gallica), estão à disposição os livros de Lacerda (por exemplo, 2018 e 2019), bem mais recentes.

26 novembro 2025

Monitor Mercantil: Cancelamento do Positivismo, da academia à bandeira

No dia 21 de Frederico de 171 (25.11.2025) o jornal carioca Monitor Mercantil publicou o nosso artigo "Cancelamento do Positivismo: da academia à bandeira nacional".

Aliás, considerando o tema desse artigo, devemos manifestar aqui o nosso profundo agradecimento pelo jornal Monitor Mercantil, que há cerca de um ano e meio abriu-nos as portas para que, contra o cancelamento do Positivismo, pudéssemos manifestar nossas opiniões.

Reproduzimos abaixo o texto. O original está disponível aqui: https://monitormercantil.com.br/cancelamento-do-positivismo-da-academia-a-bandeira-nacional/.

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Bandeira do Brasil - Ordem e Progresso (foto de André Maceira, CC).


Cancelamento do positivismo: da academia à bandeira nacional

A regra sobre o positivismo é o cancelamento, que começa na academia e descamba para a política prática. Por Gustavo Biscaia de Lacerda.


Em diversas ocasiões apresentamos nesta página reflexões a partir do positivismo, às vezes fazendo comentários sobre ele. Desta vez temos que comentar diretamente o tratamento dispensado ao positivismo – que, para usar uma gíria atual, consiste em um cancelamento sistemático, que começa nas universidades e rapidamente descamba para a política prática.

Antes de mais nada, lembremos que o positivismo é uma das mais importantes filosofias, políticas e religiões; tratar dele – e com honestidade! – não é questão de gosto ou preferência pessoal ou filosófica. Ele é referência básica quando se trata de ciências humanas, e é impossível tratar da história do Brasil sem que se refira também a ele.

Além disso, a filosofia, a política e a religião criada por Augusto Comte afirma com todas as letras o pacifismo, a fraternidade universal e o universalismo de vistas, bem como o caráter social da República e o respeito digno e escrupuloso com os grupos sociais frágeis. Assim, deveria ser evidente que o positivismo seja lido e ouvido, pelo menos para que a discordância com ele seja baseada no efetivo conhecimento; mas com ele ocorre o clássico “não conheço, não li e não gosto”.

No ambiente acadêmico há um senso comum crítico que afirma que nada é puramente intelectual, havendo também sempre interesses políticos e sociais envolvidos. Essa ideia tem graves problemas intelectuais e políticos, mas ela torna-se bastante evidente quando é posta em prática por pesquisadores que fazem questão dela.

Os livros de coletâneas revelam em particular esses aspectos. As coletâneas têm várias utilidades; fiquemos com indicar os temas que devem ser abordados (que “prestam”) e quais os autores autorizados a falar do que quer que seja (que merecem ter prestígio).

Consideremos três cientistas sociais brasileiros consagrados: Lília Schwarcz, Celso Castro e Christian Lynch. Nos últimos 15 anos, cada um deles organizou numerosas coletâneas: Schwarcz organizou Um enigma chamado Brasil, Dicionário da República, Agenda brasileira, Cidadania: um projeto em construção; Castro organizou Além do cânone, Textos básicos de sociologia, Introdução às ciências sociais; Lynch organizou Interpretações do Brasil, Pensamento político brasileiro, Visões da independência.

Poderíamos citar outros pesquisadores; mas esses três conjugam a intensa atividade acadêmica com o profundo conhecimento teórico e empírico – incluindo sobre o positivismo.

Em face da importância intelectual e prática do positivismo, esses dez livros com uma profusão de autores e temas deveriam apresentar muitas referências a Comte, Benjamin Constant, Teixeira Mendes, Ivan Lins, Pereira Barreto, Laffitte, Rondon etc., bem como sobre republicanismo, bandeira nacional, filosofia das ciências, teoria do Brasil, abolição, trabalhismo, indigenismo etc. Aliás, não apenas “referências”, mas artigos e capítulos dedicados a isso. Ora, não há nada nesses livros que se refira ao positivismo. Nada.

Apesar da importância do positivismo para as ciências humanas e para a história do Brasil, os organizadores das coletâneas acima decidiram, de maneira muito consciente, que o positivismo não merece ser tratado ou abordado, assim como pesquisadores positivistas não merecem a dignidade de integrar coletâneas. Não se pode dizer que essas ausências se devam à ignorância dos organizadores; com certeza eles rejeitariam ser tratados como ignorantes.

Se a ciência não é apenas intelectual, mas tem profundos aspectos políticos, as decisões dos três pesquisadores acima são motivadas não somente por preferências filosóficas, mas também por interesses políticos. Ausência de referências, impossibilidade de manifestação, silenciamento de perspectivas: isso tem efeitos intelectuais e práticos. Por meio das coletâneas acima, decidiu-se que o positivismo não deve ser conhecido nem ouvido: ele não pode existir. Segundo a gíria identitário-digital, trata-se do mais puro cancelamento.

Essas práticas acadêmicas têm consequências políticas muito diretas e palpáveis. A mais recente consiste no Projeto de Lei 5.883/2025, de autoria do deputado federal Chico Alencar, protocolizado no dia 18 de novembro, em que o carioca propõe que se mude a bandeira nacional, incluindo a palavra “Amor” antes do “Ordem e Progresso”.

A proposta do deputado Alencar é generosa e, considerando a nossa agressiva época, faz sentido e até merece apoio. Na verdade, há vários anos, Alencar se manifesta nesse sentido, integrando um “Movimento Amor na Bandeira”.

Esse grupo refere-se ao positivismo, a Augusto Comte, a Teixeira Mendes; mas muitas das observações que eles fazem sobre o positivismo e os positivistas estão erradas, ao mesmo tempo em que se recusam a ouvir os positivistas. Repetem erros sobre uma doutrina e de seus praticantes, justamente em aspectos centrais para a vida e a prática política do país, mas recusam-se a ouvir alguns dos diretamente envolvidos. A inclusão do “Amor” talvez dê prestígio e votos, mas não impede o cancelamento.

Sem entrar no mérito da questão, Alencar e seu movimento difundem conscientemente dois erros:

  • 1) o “Ordem e Progresso” seria uma corrupção da máxima fundamental do positivismo, “O amor por princípio e a ordem por base; o progresso por fim”;
  • 2) o autor da bandeira, Raimundo Teixeira Mendes, ao resumir a fórmula completa, teria suprimido o “amor” por medo dos militares que proclamaram a República.

Esses dois erros fazem uma barafunda de muitas coisas ruins e algumas boas: ignorância sobre o positivismo e os positivistas; ignorância sobre a Proclamação da República, seus membros, seus ideais; mistificação sobre a monarquia; rejeição ao militarismo (em particular ao de 1964).

É claro que a frase “O amor por princípio…”, sendo filosófico-moral, é mais densa e profunda que o simples “Ordem e progresso”. Entretanto, o “Ordem e progresso” não é um resumo da outra frase, tendo existência por si só, ao representar ideais sociopolíticos. Estreitamente vinculadas, elas têm âmbitos diferentes e, daí, redações diferentes, relativas a situações diferentes. O “Ordem e progresso”, portanto, não é uma corrupção teórica.

Por outro lado, quando ocorreu a Proclamação da República, Teixeira Mendes projetou por si só uma bandeira que foi depois encaminhada ao governo provisório republicano por Benjamin Constant; como este era uma pessoa gentil, pacífica, convergente e extremamente respeitada, a proposta de Teixeira Mendes foi aceita. Portanto, nada de um covarde submetido a brucutus em meio a uma quartelada.

Como positivista, a difusão consciente desses erros causa-me irritação e tristeza. Mas como cidadão brasileiro tenho a sensação de que uma proposta simpática, que poderia suscitar uma boa reflexão e estimular bons sentimentos, apresenta vícios morais e intelectuais bem em sua origem e que traem a intenção da proposta.

Silenciamento, recusa em reconhecer os outros, recusa em ouvir aqueles de quem se fala… no que se refere ao positivismo, como se vê, a regra é o cancelamento, que começa na academia e que, da pior maneira possível, descamba para a política prática.

Gustavo Biscaia de Lacerda é doutor em Sociologia Política e sociólogo da UFPR.

12 janeiro 2013

Ódios históricos - Sérgio Buarque e os positivistas

Li há pouco o capítulo que Sérgio Buarque de Holanda redigiu sobre o Positivismo e os positivistas ortodoxos para o v. 7 do “História geral da civilização brasileira”, dedicado ao final do Império brasileiro. (O título do capítulo é: “Da maçonaria ao positivismo”.)

Fiquei assustado com o que li. Sérgio Buarque pode gozar de uma grande reputação como historiador (e até como sociólogo), mas certamente não é devido a esse capítulo. Todas as observações feitas sobre Augusto Comte, Miguel Lemos e Raimundo Teixeira Mendes estão ou erradas ou profundamente distorcidas. Não há nada no texto que se possa identificar como “objetividade”, “neutralidade”, “isenção”; cada palavra expõe as “interpretações” do autor, todas elas com evidentes raiva e desprezo. Ou melhor, com ódio.

Exemplos tirados ao acaso do texto:

(1) os positivistas brasileiros seriam contrários ao fim imediato e sem compensação aos donos de escravos: mentira! Lemos e Teixeira Mendes afirmavam que a escravidão é um crime e que os escravos é que deveriam ser ressarcidos.

(2) Comte e os positivistas apoiariam os militares e o militarismo na política: falso! Eles eram contra a violência na política e nas relações sociais, defendendo o poder do aconselhamento, contra a truculência do Estado e dos poderosos sobre os fracos; em particular, eram contrários ao militarismo, atitude compartilhada pelo Coronel Benjamin Constant.

(3) A “ditadura republicana” era uma modalidade de autoritarismo: falso! Ela consiste no governo exclusivamente civil e não opinativo, ou seja, na rigorosa aplicação da laicidade do Estado, com a cuidadosa garantia de todas as liberdades civis, sociais e coletivas.

Sérgio Buarque cita algumas vezes o próprio Augusto Comte; mas provavelmente é pelo mesmo expediente adotado, depois, por Roberto Romano (em Brasil: igreja contra Estado – São Paulo: Kairós, 1979): cita literatura de segunda mão e a partir dela obtém as referências de Comte – sem indicar a literatura secundária de origem e, mais importante, sem ter lido o próprio Comte (veja-se o meu comentário sobre R. Romano e os positivistas aqui: http://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com.br/2012/02/carvalho-romano-catolicos-desmerecendo.html).

A leitura direta das obras dos próprios positivistas já bastaria para indicar o quanto de ódio Sérgio Buarque nutria pelos positivistas. Mas, afinal, quem lê os positivistas hoje, não é mesmo? Quem tem coragem de dizer, com simplicidade e tranqüilidade, que um dos “grandes historiadores” nacionais claramente destilou preconceitos em vez de adotar minimamente o procedimento sine ira et studio?

Livros cujas leituras demonstram cabalmente os erros sistemáticos de S. Buarque:

- Ivan Lins, História do Positivismo no Brasil (Brasília: Senado Federal, 2009, 3ª ed.);

- João Pernetta, Os dois apóstolos (Curitiba: Centro de Propaganda do Positivismo no Paraná, 1927-1929, 3 v.; facilmente encontrado em sebos);

- Gustavo Biscaia de Lacerda, O momento comtiano (tese de doutorado em Sociologia Política, UFSC, 2010; disponível aqui: http://www.tede.ufsc.br/teses/PSOP0369-T.pdf); convertido em livro de mesmo nome (Curitiba: UFPR, 2019), à venda na página da editora ou na Amazon.

Última observação: qual a origem do ódio nutrido por Sérgio Buarque pelos positivistas? De modo geral considera-se que ele não era “ideológico”, como os comunistas, os liberais e/ou os católicos. Seria inveja, ciúme? Em todo caso, o dano por ele causado e eternizado já está feito, com resultados a olhos vistos.


*   *   *

Observação de 8.3.2020: as observações feitas acima, de 12.1.2013, foram extensamente desenvolvidas em alguns artigos e livros publicados nos anos seguintes:

- como parte dos argumentos desenvolvidos no livro Laicidade na I República: os positivistas ortodoxos (Curitiba: Appris, 2016), à venda na página da editora ou na Amazon;

- de maneira completa e sistemática no capítulo "O 'secreto horror à realidade' dos positivistas: discutindo uma hipótese de Sérgio Buarque", presente no livro Comtianas brasileiras: Ciências Sociais, Brasil e cidadania (Curitiba: Appris, 2018), à venda na página da editora ou na Amazon;

- em uma versão resumida das exposições acima, na revista Educere et Educare (Cascavel (Paraná), v. 12, n. especial, 2017), no artigo de título "O 'secreto horror à realidade': exame das críticas de Sérgio Buarque aos positivistas".

A leitura dos textos acima não deixa dúvidas: Sérgio Buarque era movido ao mesmo tempo por enormes má-fé e, antes, má vontade para com o Positivismo. Ele não hesitou em mentir e distorcer, em falsear e sofismar a respeito de Augusto Comte e dos positivistas, em mais de uma ocasião - e isso apesar de afirmar a necessidade da "honestidade histórica".

31 outubro 2012

Crítica ao espírito absoluto das ciências naturais

Comenta-se com grande freqüência - quando não se acusa - que o Positivismo é cientificista, que introduz nas ciências humanas a lógica das ciências naturais e, principalmente, que faz a apologia da ciência - apologia que, não raro, é considerada acrítica. (Pós-modernos, adeptos da "Teoria Crítica", "hermenêuticos", marxistas, feministas e "reflexivos" são alguns que repetem, com grande satisfação, tais comentários.)

Pois bem: a passagem abaixo evidencia com clareza meridiana o quanto as observações acima são incorretas. (São tão incorretas que é chocante perceber que elas sejam tão repetidas. Cabe aí, sem dúvida, uma sociologia do conhecimento e, ainda mais, uma sociologia da ideologia.)

Para Augusto Comte, embora as ciências naturais sejam a base lógica e teórica do Positivismo, elas não são nem um pouco infensas a críticas nem são totalmente modelos de pensamento. Na verdade, como estão longe da Humanidade, isto é, como estão distantes do que se chama atualmente de "ciências humanas", as ciências naturais estão mais sujeitas a desvios teóricos de origem metodológica e moral. Quais são esses desvios? Por um lado, eles consistem na preservação do espírito absoluto nas ciências; por outro lado, como conseqüência do problema anterior, as ciências naturais são mais dispersivas, são mais avessas a qualquer disciplina intelectual, são menos preocupadas com o bem-estar coletivo: em suma, elas afirmam a ciência pela ciência, como se a ciência pudesse ser uma justificativa para si própria, sem preocupações morais mais profundas.

Por fim, cabe notar que as críticas de Augusto Comte ao absoluto na(s) ciência(s) rejeitam a "separação entre fato e valor" e a completa desvinculação das pesquisas científicas com respeito às questões sociais. Disso se seguem duas observações:

1) Exatamente porque conhecia com profundidade a ciência - sua história, sua lógica, seus encadeamentos - é que Augusto Comte pôde fazer tais críticas, ao contrário dos filósofos que pelo menos desde fins do século XIX tentam criticar a ciência (Nietzsche, Bergson, Macintyre, Sheldon Wolin, Charles Taylor, Adorno & Horkheimer etc. etc. etc.).

2) No Brasil do final do século XIX e do início do século XX, as preocupações morais e sociais do Positivismo eram vistas como obstáculos a pesquisas científicas: os cientistas nacionais - em particular os matemáticos - afirmavam a ciência pela ciência, as pesquisas feitas sem outras preocupações que não aquelas vinculadas a vasculhar cada vez mais sobre aspectos cada vez mais especializados da realidade. A ciência, para tais pesquisadores, seria uma prática voltada para si própria, um conhecimento esotérico. Hoje, no início do século XXI, tal perspectiva não é mais aceita, não é mais vista como legítima: mas o Positivismo continua sendo mal-visto e, por mais espantoso que seja, a ele são creditados os problemas que ele mesmo combatia.

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Plus indépendantes que toutes les autres, moins liées à l’Humanité, et comportant, avec une extension indéfinie, une culture plus facile et plus parfaite, les études cosmologiques sont à la fois les plus rebelles à toute saine discipline et celles que en ont le plus besoin. Après avoir longtemps fourni les sources exclusives de la véritable philosophie, elles constituent aujourd’hui le principal obstacle à sa systématisation finale. L’esprit absolu y trouve indirectement ses seuls appuis sérieux, plus nuisibles au vrai régime logique que les illusions directes d’une métaphysique discréditée. Par une étrange inversion, la nouvelle méthode subjective est, au fond, plus relative que l’ancienne méthode objective, qui doit lui emprunter aujourd’hui un caractére d’abord émané d’elle-même. Les divagations scientifiques de la cosmologie actuelle correspondent trop exactement à ses déviations logiques. Des recherches puériles et incohérents, inspirées par des conceptions antipositives, y dénaturent de plus en plus toutes les notions essentielles, que cette anarchie expose même à une prochaine décomposition” (Comte, Système de politique positive, v. I, p. 455-456).

22 junho 2012

"Preconceitos acadêmicos: um estudo de caso"



Reproduzo abaixo o texto "Preconceitos acadêmicos: um estudo de caso", de autoria de Ramon Cardinali. Esse texto toma as idéias de Augusto Comte e Edgar Morin para, contrapondo-as, indicar de maneira concreta como os preconceitos acadêmicos muitas vezes são meramente isso - preconceitos - e, a partir de rótulos, impedem que se abordem teorias, idéias e abordagens que podem ser frutíferas.


A postagem original do texto original está disponível aqui.


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Preconceitos acadêmicos: um estudo de caso

Autor: Ramon Cardinali


O preconceito acadêmico é um fenômeno comum e razoavelmente compreensível.
 Nós simplesmente não temos tempo e recursos suficientes para nos aprofundar no estudo de todasescolas filosóficas, psicológicas, sociológicas etc., e em decorrência disso, as chances de que nós venhamos a desenvolver concepções reduzidas/simplificadas de tudo aquilo que foge aos nossos interesses mais imediatos são bastante elevadas. Soma-se a isso o fato de inúmeros fatores sócio-culturais (dentro e fora do âmbito acadêmico) se agregarem no sentido de favorecer o surgimento e a manutenção de uma espécie de "culto à autoridade", onde muito do que é dito pordoutoresprofessores e cientistas é tomado como verdade absoluta e instantânea.

Quando alguém afirma que não gosta da Psicanálise porque ela "interpreta todos os fenômenos humanos apenas em termos de sexualidade" (ou em versão taquigráfica: pra Psicanálise "tudo é sexo!"), evidencia a formação daquilo que estou chamando de um preconceito acadêmico - no caso, uma descrição excessivamente simplificada/reduzida da teoria psicanalítica. Será que esta pessoa - nosso crítico fictício da Psicanálise - já se debruçou sobre as discussões a respeito da noção de "sexo" em Freud? Mais do que isso, será que ela tem o mínimo de interesse e ou condições (tempo e recursos principalmente) de fazer isto? Provavelmente ela construiu uma concepção simplificada da Psicanálise baseada única e exclusivamente naquilo que ouviu falar ou leu de maneira despretenciosa.¹

Por outro lado, há momentos em que esta redução/simplificação se torna um valioso recurso argumentativo, adotado de maneira consciente por acadêmicos que desejam ressaltar a "profundidade" ou relevância de uma determinada concepção em detrimento de outra - este procedimento se enquadra bem naquilo que se convencionou chamar de falácia do espantalho.
Um exemplo da argumentação falaciosa descrita acima pode ser encontrado nos momentos em que o psicólogo evolucionista Steven Pinker se propõe a criticar o behaviorismo de B.F. Skinner, simplificando ao máximo a concepção skinneriana com o intuito tornar sua concepção (a Psicologia Evolucionista) ainda mais relevante para o público. (Mais informações sobre este caso específico podem ser encontradas aqui)

A formação de preconceitos acadêmicos como os apresentados acima é recorrente no meio acadêmico e de maneira geral nenhuma concepção-a-respeito-de-alguma-coisa está imune a este fenômeno. 

Para nos aprofundarmos um pouco mais neste problema, gostaria de fazer uma breve digressão, contrapondo alguns trechos da obra de dois autores: Auguste Comte (1798-1857) e Edgar Morin(1921-). O primeiro é muitas vezes conhecido como o "pai da Sociologia" e fundador doPositivismo - o segundo, como idealizador da epistemologia da Complexidade, ou pensamento complexo. Devo ressaltar de antemão que foge completamente às minhas pretensões elaborar uma exposição e análise completa da obra destes autores. Irei apenas contrapôr alguns trechos específicos de textos específicos que me permitirão explicitar ainda mais algumas das consequências negativas do preconceito acadêmico.

Em determinado momento da produção de suas obras, tanto Morin quanto Comte elaboraram críticas ao processo de "hiperespecialização" (nos termos de Morin) ou "especialização excessiva" (nos termos de Comte) do saber científico. Em linhas gerais, trata-se de uma crítica a uma constatação feita por ambos, a saber, de que a ciência tem progredido através da excessiva compartimentalização de seus problemas - o que acaba por resultar em profissionais especializados, pouco capazes de dialogar com as demais disciplinas científicas. Ademais, a multiplicação desenfreada das especialidades científicas aumenta as fronteiras interdisciplinares e reduz a probabilidade de que o conhecimento produzido por estas diversas disciplinas possam ser integrados em visões globais, coerentes e bem contextualizadas.

Deixemos os próprios autores nos ajudarem no restante desta digressão. Meus comentários e grifos apenas ressaltarão os pontos de contato entre o pensamento de ambos.

Este processo de especialização excessiva das disciplinas científicas tem o seu lado positivo, como afirma Comte:
"É a essa repartição de diversas espécies de pesquisas entre diferentes ordens de sábios que devemos, evidentemente, o desenvolvimento tão notável que tomou, enfim, em nossos dias, cada classe distinta dos conhecimentos humanos[...]"²
Entretanto, já na primeira metade do século XIX, Comte começa a vislumbrar alguns aspectos negativos deste processo:
"Embora reconhecendo os prodigiosos resultados dessa divisão, vendo de agora em diante nela a verdadeira base fundamental da organização geral do mundo dos cientistas, é impossível não se aperceber dos inconvenientes capitais que engendra em seu estado atual, em virtude da excessiva particularidade das idéias de que se ocupa exclusivamente cada inteligência individual."
E ele continua: "É urgente ocupar-se com isso de modo sério, pois tais inconvenientes que, por sua natureza, tendem a crescer sem parar, começam a vir a ser muito sensíveis. Todos o admitem, as divisões, estabelecidas para a maior perfeição de nossos trabalhos, nos diversos ramos da filosofia natural, são por fim artificiais."
Em seguida, Comte chama a atenção para a importância de remediarmos "este mal antes que se agrave", e afirma que: 
"[...]hoje cada uma dessas ciências tomou separadamente extensão suficiente para que o exame de suas relações mútuas possa dar lugar a trabalhos contínuos, ao mesmo tempo que essa nova ordem de estudos torna-se indispensável para prevenir a dispersão das concepções humanas."
Comte expõe a sua solução da seguinte maneira:
"O verdadeiro meio de cessar a influência deletéria que parece ameaçar o porvir intelectual, em conseqüência duma demasiada especialização das pesquisas individuais, não poderia ser, evidentemente, voltar a essa antiga confusão de trabalhos, que tenderia a fazer retroceder o espírito humano e que se tornou hoje, felizmente, impossível. Consiste, ao contrário, no aperfeiçoamento da própria divisão de trabalho. Basta fazer do estudo das generalidades científicas outra grande especialidade.
Que uma classe nova de cientistas, preparados por uma educação conveniente, sem se entregar à cultura especial de algum ramo particular da filosofia natural, se ocupe unicamente, considerando as diversas ciências positivas em seu estado atual, em determinar exatamente o espírito de cada uma delas, em descobrir suas relações e seus encadeamentos, em resumir, se for possível, todos os seus princípios próprios num número menor de princípios comuns, conformando-se sem cessar às máximas fundamentais do método positivo. Ao mesmo tempo, outros cientistas, antes de entregar-se a suas especialidades respectivas, devem tornar-se aptos, de agora em diante, graças a uma educação abrangendo o conjunto dos conhecimentos positivos, a tirar proveito das luzes propagadas por esses cientistas votados ao estudo de generalidades e, reciprocamente, a retificar seus resultados, estado de coisas de que os cientistas atuais se aproximam cada vez mais. [...] Existindo uma classe distinta, incessantemente controlada por todas as outras, tendo por função própria e permanente ligar cada nova descoberta particular ao sistema geral, não cabe mais temer que demasiada atenção seja dada aos pormenores, impedindo de perceber o conjunto."
Em suma, Comte propõe um trabalho de reflexão constante sobre o modo como às disciplinas científicas se relacionam umas as outras e as eventuais consequências destes entrelaçamentos. Além disso, propõe também um processo educacional que conscientize os futuros cientistas da existência de tais relações e do modo como elas ocorrem.

Ao contrário de Comte (autor pouco reconhecido por propostas como a apresentada acima), Morin é um autor contemporâneo que obteve grande reconhecimento no final do século XX por elaborar uma proposta que, pelo menos em alguns aspectos, se assemelha à de Comte: a noção depensamento complexo.

Morin, assim como Comte mais de um século antes, também elabora sua reflexão sobre o problema da hiperespecialização do conhecimento científico (apesar de em alguns momentos apontar o "positivismo" como uma corrente totalmente contrária à sua epistemologia da complexidade), e afirma que a ciência atual tem necessidade
"[...] não apenas de um pensamento apto a considerar a complexidade do real, mas desse mesmo pensamento para considerar sua própria complexidade e a complexidade das questões que ela levanta para a humanidade. É dessa complexidade que se afastam os cientistas não apenas burocratizados, mas formados segundo os modelos clássicos do pensamento. Fechados em e por sua disciplina, eles se trancafiam em seu saber parcial, sem duvidar de que só o podem justificar pela idéia geral a mais abstrata, aquela de que é preciso desconfiar das idéias gerais!"³
No momento em que condena os chamados "modelos clássicos de pensamento", ele frequentemente se refere ao pensamento moderno (em contraposição ao pós-moderno), que tem o Positivismo como um de seus expoentes.

De todo modo, Morin sugere que passemos a fazer "ciência com consciência" - uma ciência capaz de pensar o seu próprio processo de desenvolvimento das fronteiras interdisciplinares e que esteja apta a construir "pontes" que conectem uma disciplina a outra, promovendo um quadro que ele chama de transdisciplinaridade. Em suas palavras:
"De toda parte surge a necessidade de um princípio de explicação mais rico do que o princípio de simplificação (separação/ redução), que podemos denominarprincípio de  complexidade. É certo que ele se baseia na necessidade de distinguir e de analisar, como o precedente, mas, além disso, procura estabelecer a comunicação entre aquilo que é distinguido: o objeto e o ambiente, a coisa observada e o seu observador. Esforça-se não por sacrificar o todo à parte, a parte ao todo, mas por conceber a difícil problemática da organização[...]
Afirma por fim:
"Precisamos, portanto, para promover uma nova transdisciplinaridade, de um paradigma que, decerto, permite distinguir, separar, opor, e, portanto, dividir relativamente esses domínios científicos, mas que possa fazê-los se comunicarem sem operar a redução. O paradigma que denomino simplificação (redução/separação) é insuficiente e mutilante. É preciso um paradigma de complexidade, que, ao mesmo tempo, separe e associe, que conceba os níveis de emergência da realidade sem os reduzir às unidades elementares e às leis gerais."
Em mais de uma oportunidade Morin citou um pensamento do filósofo Blaise Pascal para ilustrar o pensamento complexo: "é impossível conhecer as partes sem conhecer o todo, como é impossível conhecer o todo sem conhecer particularmente as partes". Pelo que pudemos observar, a proposta de Comte envolve um processo semelhante - se não idêntico.
Morin dá o nome de pensamento complexo à sua proposta justamente por definir "complexus" como "aquilo que é 'tecido' junto'", justificando assim a necessidade de uma abordagem transdisciplinar, que dê conta de lidar com o mundo de forma integrada e não mutilada - da mesma forma que Comte já considerava as fronteiras entre disciplinas científicas como criações humanas; artificiais.
  
Não obstante, assim como também pudemos ler nas citações anteriores de Comte, Morin salienta a importância de se reformular o processo educacional nos moldes de seu pensamento complexo - chegando ao ponto de explicitar esta proposta em um livro chamado "Os sete saberes necessários à educação".

O problema da hiperespecialização do conhecimento científico e da necessidade de promoção da transdisciplinaridade é extremamente interessante, e, sem dúvidas, continuará fazendo parte de diversas discussões filosóficas contemporâneas. O fato de podermos identificar um autor da primeira metade do século XIX e, muitos anos depois, outro da segunda metade do século XX discorrendo sobre esta questão evidencia a pertinência histórica do tema. Entretanto, minha digressão se encerra aqui. Por ora, o objetivo desta postagem é utilizar deste diálogo Comte-Morincomo um meio, e não como fim.

O que importa no momento é a constatação de que, na medida em que deixamos os próprios autores dialogarem, através da sucessão de (por vezes longas) citações, podemos identificar o quão semelhante é a descrição do problema e a solução por eles proposta. Apesar de utilizarem vocabulários distintos, a existência de convergências no pensamento dos dois autores é notável.

O motivo de ter optado por contrapôr trechos da obra de Comte com a de Morin é justamente pelo fato do primeiro ser um dos maiores alvos de preconceitos acadêmicos, enquanto o segundo goza de um prestígio proporcionalmente inverso. Concordo com Gustavo Biscaia de Lacerda - estudioso da obra de Comte e do Positivismo - quando este afirma que é "consensual no âmbito das ciências sociais que a palavra 'Positivismo' tem um significado negativo" e que este costuma ser o "grande arquiinimigo de várias das principais correntes teóricas nas ciências sociais". No meio acadêmico atual (e isso aparece inclusive na obra de Morin) o Positivismo é tomado como representante máximo da simplificação, do reducionismo e da ingenuidade filosófica.

O "como" e o "por que" do termo "Positivismo" ter adquirido uma conotação pejorativa é assunto muito longo e foge também aos objetivos deste post - podendo ser melhor compreendido à luzdeste artigo de Lacerda. O cerne da questão, entretanto, é a constatação de que o preconceito acadêmico em relação às idéias de Comte (por este ser considerado o "positivista paradigmático") é frequente, e faz com que muitos deixem de entrar em contato direto com a obra deste autor.

Impedindo que muitos estudantes ou profissionais entrem em contato com a grande e diversa obra de Comte, o preconceito acadêmico faz com que certos pensamentos e idéias que podem se mostrar extremamente relevantes e atuais - como este breve diálogo entre Comte e Morin nos mostra - passem completamente despercebidos. Por mais que os problemas da hiperespecialização das disciplinas científicas estejam muito mais evidentes hoje do que nos tempos de Comte, sua proposta de solução a esta questão deve ser julgada após uma leitura e análise mais detalhada, e não aprioristicamente, justificada pura e simplesmente por se tratar de um autor "ultrapassado" e vinculado a uma corrente filosófica já "superada".

O exemplo desenvolvido neste texto é apenas um dos inúmeros possíveis, e pode nos servir também para lembrar das consequências negativas envolvidas na prática do tal "culto à autoridade", mencionado no início desta postagem.

Por fim, se não temos tempo e recursos suficientes para entrar em contato direto com a obra de todos os autores, que pelo menos tenhamos consciência deste fato e sejamos mais humildes em relação às concepções que formamos sobre os diversos aspectos que compõe este universo que é o conhecimento humano.

Notas 

¹ Em encontro recente do nosso grupo "Círculo da Savassi", Vinícius Garcia me chamou a atenção para a existência de preconceitos semelhantes relacionados ao Liberalismo, apontando como é recorrente a interpretação (por demais simplista e apressada) de que o liberalismo - com sua defesa da liberdade individual - se vincula necessariamente à uma defesa do livre-arbítrio.

² Todas as citações de Auguste Comte foram retiradas do livro Curso de Filosofia Positiva.Originalmente de 1848 - p.52/55. Versão digitalizada disponível em:http://search.4shared.com/postDownload/iYxCaxVS/COMTE_Curso_de_filosofia_posit.html 


³ Todas as citações de Edgar Morin foram retiradas do livro Ciência com Consciência 8ª edição, 2001 - p.9/10, 138 e 215.