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16 novembro 2015

Folha de S. Paulo: matéria sobre Igreja Positivista de Porto Alegre

No dia 15 de novembro de 2015 tivemos uma dupla boa notícia: por um lado, comemorou-se a Proclamação da República (1889); por outro lado, a Folha de S. Paulo estampou uma bela matéria sobre a Igreja Positivista de Porto Alegre (cujo original pode ser lido aqui).

Adicionalmente, é motivo de alegria o fato de que a matéria evitou lugares-comuns, não caiu no recurso fácil da ironia e foi fiel às corretas observações de Guardião Érlon Jacques. A única exceção a isso foi o comentário presente logo no título - comentário aliás tolo, desnecessário e incorreto - de que a Religião da Humanidade é uma "religião da ciência".

O texto está reproduzido logo abaixo. A versão eletrônica, que é a que reproduzimos, difere da versão impressa pela disponibilidade de fotos e gráficos animados.

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Porto Alegre tem único templo ativo de 'igreja da ciência'

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O único templo da Igreja Positivista em funcionamento no mundo abre suas portas de madeira pintadas de verde todos os domingos, das 10h às 13h, em Porto Alegre.
Um mestre guardião é responsável pelas chaves do lugar, que é mantido com o apoio de sete apóstolos e cerca de 30 confrades assíduos -os simpatizantes chegam a centenas, segundo ele.
A fama do lugar é internacional: o sociólogo Michel Maffesoli, conhecido por tratados sobre a pós-modernidade, esteve ali três vezes.
O prédio foi inaugurado em 1928 e tombado pelo patrimônio estadual em 2010. A planta arquitetônica segue o projeto do filósofo francês Auguste Comte (1798-1857), propagador do positivismo.
A doutrina inspirou movimentos políticos no mundo todo. No Brasil, a proclamação da República é seu principal fruto. A bandeira nacional sintetiza o positivismo com os dizeres "ordem e progresso". Na fachada do prédio gaúcho lê-se o lema original de Comte: "O amor por princípio e a ordem por base; o progresso por fim".
No Rio de Janeiro há um templo mais antigo, fechado. Em Curitiba, positivistas se reúnem numa sala comercial.
O positivismo é uma filosofia, mas gerou uma religião elaborada por Comte: ele descreveu como seriam o templo, os ritos e os símbolos.
"Comte concluiu que toda filosofia e sociologia à disposição do homem não bastavam para mudar a sociedade, e viu que a religião tinha esse poder. É utópica a nossa doutrina", afirma Erlon Jacques de Oliveira, atual guardião.
Oliveira, que é músico e adotou o positivismo há 15 anos, assumiu o posto depois que o antigo guardião, o empresário Afrânio Capelli, se "transformou", em 2013.
"Os positivistas não usam a palavra morte. Usamos a palavra 'transformação'", diz Oliveira. Depois vem a "incorporação", um ritual póstumo realizado após sete anos em que as cinzas do positivista são jogadas no "bosque sagrado", uma incorporação simbólica à humanidade.
"O lugar fica atrás do templo. Avaliamos em uma cerimônia se a vida do confrade foi convergente ou divergente", diz Oliveira. Os convergentes tiveram vida exemplar, enquanto os divergentes podem ter cometido atos de corrupção, por exemplo, e não são incorporados.
Templo positivista
RITUAIS E SÍMBOLOS
Na infância, Oliveira passava diante do templo quando ia ao parque da Redenção, a poucos metros dali, com o pai. O portão de ferro com a inscrição "Os vivos são sempre e cada vez mais necessariamente governados pelos mortos" assustava o garoto.
"Pensava que era coisa de fantasma. Hoje entendo que serve até como filtro, para afastar místicos", afirma.
O positivismo tem como dogma a ciência e o conhecimento. Nada que não possa ser "comprovado", como espíritos, por exemplo, é propagado. "Comte criou uma religião com dogma sempre atualizado", diz o guardião.
Os degraus da escada do templo têm inscrições que simbolizam a evolução da humanidade, objetivo da doutrina. O altar é adornado com bustos de "grandes homens" que representam áreas do conhecimento, como Gutenberg (indústria) e Arquimedes (ciência antiga).
O positivismo tem calendário próprio, com 13 meses. O marco zero é o ano de 1789, ano da Revolução Francesa.
Em um culto do mês de Descartes do ano 226 do calendário positivista, ou seja, em outubro de 2015, Oliveira falou sobre o "poder da internet, tanto para a informação como para a alienação". Os temas são sempre debatidos em grupo e buscam divulgar o conhecimento "clássico".
Para o futuro, os planos são realizar os ritos estabelecidos por Comte. "Já realizamos o fúnebre, agora vamos celebrar casamentos e batizados", revela Oliveira. 
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Livraria da Folha

15 abril 2013

"Um positivista ortodoxo"

O original da matéria encontra-se aqui.

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Um positivista ortodoxoImprimir
Escrito por Gabriel Guidotti   
Quinta, 11 de Abril de 2013 - 16:22
Guardiao do_Templo_13Nas manhãs de domingo, na Avenida João Pessoa,em Porto Alegre, um simpático senhor de barba branca rompe o lacre do cadeado e abre as portas daquele que é o último reduto gaúcho de uma doutrina criada pelo filósofo francês August Comte [sic], o Positivismo. Vestindo um terno suntuoso e uma cartola imponente, como se ainda nos encontrássemos em um passado não tão distante, o Sr. Afrânio Capelli oferece sua história como um brinde àqueles que vivem suas vidas em torno de um ideal.
Nas escadas que levam pórtico de entrada do Templo, Capelli é analítico. Em cada degrau há uma palavra escrita que dirige à religião. A subida, portanto, é escalonada em princípios do Positivismo. A cada domingo, impreterivelmente, Afrânio Capelli, abre as portas do Templo, esperando por pessoas que desejam conhecer mais sobre sua doutrina. Aos 82 anos, compila suas atividades de confrade com o ramo industrial, de onde tira seu sustento. Para a manutenção do Templo, não aceita doações externas. Tudo é mantido por ele e seus companheiros.
Durante sua explanação, fala com emoção e orgulho do Positivismo. Quando inquirido por um visitante se a religião é uma disciplina reacionária, muda seu perfil simpático para um jeito austero que antecede a resposta. Levanta-se de sua bem trabalhada cadeira de madeira e conta que impingiram na cabeça das pessoas a ideia de um Positivismo tirânico, argumentando que foi sim um governo exigente e forte, mas jamais reacionário. Como positivista ortodoxo, defende ferrenhamente os traços da religião, acentuando as dificuldades impostas por ela. “Ser um positivista ortodoxo é quase impossível. Ela exige de seus confra­des uma conduta ética que é quase impos­sível. Mas eu não prego a doutrina religio­sa positivista, eu prego o conhecimento so­ciológico”.
A palestra, entretanto, é interrompida por um barulho que vem do lado de fora. Em ritmo de brincadeiras infantis, os gritos histéricos de algumas crianças desviam a atenção do guardião. Por alguns segundos, cerra as palavras, esperando que o barulho termine. Não termina. Capelli busca, então, se socorrer de seu assessor, o Sr. Érlon, para intervir junto aos pequenos. Na retomada de seu raciocínio, é novamente interrompido por um som alto de rock n´ roll gospel. Tenta continuar, mas o foco de sua mente se dirige à casa ao lado, visível através de uma janela lateral do Templo. A igreja evangélica também estava em sessão. Um grupo de jovens comemorava, através da música, seus valores religiosos. Capelli levanta-se de sua cadeira e retira-se da sala por alguns momentos. Misteriosamente, o som se acaba. Em seu retorno, afirma: “Religião é aquilo que você se concentra para meditar, raciocinar; essa música não é religião, é carnaval”.
Na medida em que debate problemas sociais, dá o recado aos jovens: “qualifiquem-se e façam aquilo que vocês gostam. Se você faz o que você gosta, não é trabalho”. Nesse contexto, define sua infância como a de um menino muito pobre, cujo primeiro sapato decente foi concedido no exército. Mais tarde, visto a falta de oportunidades, estudou “feito um louco”, adentrando o SENAI da Rua Sertório. “Tive a felicidade de, nessa escola, encontrar um professor positivista. Foi ele que me incentivou. Eu o carrego na memória até hoje”. Ao falar de seu antigo mestre, lágrimas sinceras correm por seus olhos. A emoção forte o faz ter um mal estar momentâneo, necessitando de um copo d’água. A saudade é sentida por todos no salão.
Entre explicações históricas, visões políticas ou, simplesmente, interrupções não previstas, Afrânio Capelli encerra sua palestra convidando as pessoas a visitarem as outras localidades do Templo. Despede-se perguntando se há alguma pergunta da plateia. Poucos se manifestam, mas são prontamente atendidos. Os visitantes são conduzidos para o lado de fora onde o Sr. Érlon explica o significado de cada degrau da entrada. Sozinho, Afrânio Capelli permanece no limite do pórtico, apenas observando as pessoas, exibindo uma cara de satisfação. Mais um dia de trabalho bem feito. Uma manhã onde um novo grupo recebeu os mesmos ensinamentos que ele aprendeu com seu falecido professor. Relapso em pensamentos, entra novamente no Templo e lá permanece, como permaneceu durante grande parte de sua vida.

Templo do Positivismo
Endereço: Rua João Pessoa, 1058.
Aberto aos domingos
Horário: das 10h às 13h.
Entrada franca.