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07 outubro 2026

As teorias da conspiração

No dia 27 de Shakespeare de 172 (6.10.2026) realizamos nossa prédica positiva, dando continuidade à leitura comentada do Apelo aos conservadores (em sua "Conclusão - missão peculiar aos verdadeiros conservadores").

No sermão abordamos as teorias da conspiração à luz do Positivismo.


As anotações que serviram de base para a exposição oral encontram-se reproduzidas abaixo.

*   *   *

Teorias da conspiração

(27 de Shakespeare de 172/6.10.2026) 

1.     Abertura da prédica

2.     Datas e celebrações

2.1.   Dia 22 de Shakespeare (1º.10): nascimento de José Lonchampt (1825 – 201 anos)

2.2.   Dia 1º de Descartes (8.10): festa de Clotilde e Augusto Comte (8.10.1844 – 182 anos)

2.3.   Dia 2 de Descartes (9.10): transformação de Afrânio Capelli (2009 – 17 anos)

2.4.   Dia 3 de Descartes (10.10): nascimento de Paulo Carneiro (1901 – 125 anos)

2.5.   Dia 3 de Descartes (10.10): transformação de David Carneiro, Jr. (1997 – 29 anos)

2.6.   Mês de Descartes (8.10 a 4.11): undécimo mês, referente à filosofia moderna

3.     Apóiem a Igreja Positivista Virtual!

3.1.   Colaborem com o que puderem; com boa fé e boa vontade, toda e qualquer colaboração é necessária e bem-vinda!

3.1.1. Inscrevam-se no canal, compartilhem, divulguem nossas atividades!

3.2.   Para apoiar as atividades dos nossos canais e da Igreja Positivista Virtual: façam o Pix da Positividade! (Chave Pix: ApostoladoPositivista@gmail.com)

4.     Leitura comentada do Apelo aos conservadores

5.     Espiritualidade positiva

5.1.   Esta talvez seja a seção mais importante das prédicas!

5.2.   Sejamos altruístas!

5.2.1. Sejamos generosos, tolerantes etc.

5.2.2. Devemos orientar toda a nossa vida pelo altruísmo: quando o altruísmo regula e orienta a vida, o resultado é que o altruísmo (a dedicação para os demais) e o egoísmo (a satisfação das necessidades pessoais) não são incompatíveis, pois só o altruísmo permite unir o bem comum à felicidade pessoal

5.3.   Façamos orações!

5.3.1. A oração positiva é a base do culto íntimo; assim, é tanto a base do aperfeiçoamento pessoal quanto da espiritualidade positiva de modo geral

5.4.   Como Igreja Positivista Virtual, ministramos os sacramentos positivos a quem tem interesse

5.4.1. Em um total de nove, os sacramentos são a celebração de momentos centrais na vida de todos nós – momentos que devem ser celebrados, afirmados, compartilhados (o nascimento/a adoção, o casamento, a aposentadoria, a transformação (a morte) etc.)

6.     Sermão: comentários sobre as teorias da conspiração

6.1.   Os comentários que farei neste sermão não são nem pretender ser exaustivos; são apenas alguns apontamentos que faço a partir do Positivismo, considerando uma pequena conversa que tive com Sandra Fernandes no dia 29.9.2026

6.1.1. As anotações abaixo se baseiam em leituras diversas e esparsas, em reflexões pessoais e, claro, no estudo e na aplicação do Positivismo

6.2.   Eis o diálogo havido em 29.9.2026, entre Sandra Fernandes e um seu amigo dela

 

 

6.2.1. A postagem – em sua afirmação de que o candidato Lula estaria na verdade morto e que a pessoa que se apresenta como ele seria um sósia (ou até mesmo um clone!)[1] – é exemplar de teorias da conspiração

6.2.2. Essa postagem constitui uma hipótese (1) elaborada totalmente sem dados, (2) que despreza os dados disponíveis e que, acima de tudo, (3) elabora hipóteses egoístas, destrutivas e extremamente complicadas

6.3.   Podemos definir as teorias da conspiração como concepções que afirmam que a realidade como é geralmente percebida, na verdade, é uma enganação feita por grupos pequenos (as “elites”, as “cabalas” (cabals, em inglês), o “Estado profundo” (Deep State, em inglês) etc.) – grupos socialmente mal definidos, embora com nomes claros –, a fim de manipular e explorar o conjunto da sociedade; adicionalmente, os propositores dessas concepções são também grupos pequenos, “contraelites”, que seriam populares perspicazes e que se devotariam a denunciar e a combater as conspirações; as “falsas verdades” englobam as mais variadas possibilidades: a Terra oca ocupada pelos “reptilianos”, a existência de alienígenas encoberta pelo governo dos Estados Unidos, a rede de exploração infantil do Partido Democrata dos Estados Unidos, a conspiração internacional dos judeus, a conspiração eterna dos homens, a conspiração internacional dos burgueses etc.

6.4.   A partir do Positivismo, parece-me que as teorias da conspiração são combinações de (1) má fé e falta de confiança, (2) instinto destruidor e (3) ausência de controle da imaginação

6.4.1. Antes de mais nada, as teorias da conspiração correspondem a uma falta generalizada e sistemática de confiança: os seus adeptos não confiam nas autoridades constituídas (temporais e/ou espirituais), desconsideram ou desprezam as pessoas que confiam e valorizam apenas aqueles, que, como eles mesmos, desconfiam dos demais (sua identidade baseia-se, portanto, na desconfiança compartilhada)

6.4.2. As teorias da conspiração têm elementos do instinto destruidor porque, por definição, desejam destruir, ser “do contra”; em contraposição a essa postura conspiracionista, a construção baseia-se na confiança mútua e pública e no esforço coletivo compartilhado

6.4.2.1.          Há um forte elemento maniqueísta, de “nós” contra “eles”, nas teorias da conspiração – e, também de maneira característica, “nós” somos poucos e “não nos deixamos enganar”, “eles” são muitos e/ou são os dominadores; a “nossa” ação tem que ser destruidora

6.4.3. De uma perspectiva intelectual, a teoria da conspiração rejeita as provas disponíveis em proveito das meras possibilidades: trata-se, portanto, de uma afirmação sistemática do meramente possível contra o efetivamente provável (e/ou o realmente comprovado)

6.4.4. É importante termos em mente que as teorias da conspiração apresentam um aspecto ativo, em que se postula que a realidade é ativamente camuflada por grupos que buscam enganar e manipular

6.5.   De uma perspectiva sociológica e histórica mais ampla, no âmbito do Positivismo devemos (ou podemos) igualmente entender as teorias da conspiração como um problema da liberdade absoluta de consciência

6.5.1. A liberdade absoluta de consciência foi apresentada por Augusto Comte nos seus Opúsculos de juventude (como no “Reorganizar a sociedade”, de 1822, e no “Considerações sobre o poder espiritual”, de 1826)

6.5.1.1.          Na verdade, nosso mestre fala em “liberdade ilimitada”; eu uso “liberdade absoluta” para evitar confusões e dissabores nos dias atuais

6.5.2. A idéia presente no conceito da “liberdade absoluta de consciência” consiste em que os indivíduos passam a considerar-se as autoridades supremas sobre quaisquer temas e questões, independentemente de sua preparação prévia específica para isso

6.5.3. A liberdade ilimitada de consciência substitui a infalibilidade papal pela infalibilidade individual

6.5.3.1.          Dessa forma, a liberdade ilimitada de consciência é a afirmação extrema da razão individual, ou melhor, individualista; trata-se, portanto, de um princípio essencialmente metafísico, antissocial, anti-histórico e destruidor

6.5.4. A liberdade ilimitada de consciência foi (e é) afirmada pelo protestantismo a partir da pretensão de que cada indivíduo é o supremo juiz da interpretação da Bíblia

6.5.4.1.          Seja porque é destruidor, seja porque afirma a infalibilidade individual, seja porque é protestante, o princípio da liberdade ilimitada de consciência foi criado e é empregado de maneira sistemática e não por acaso para combater e destruir o poder espiritual

6.5.5. Para evitar más interpretações e ambigüidades daninhas, convém esclarecermos que o problema com o princípio da liberdade absoluta de consciência não está no exame individual das várias questões, ou seja, não está na autonomia individual

6.5.5.1.          O problema está na arrogância individual e no desprezo individual para com a sabedoria coletiva (e, em todo caso, alheia)

6.5.5.2.          Em outras palavras e repetindo o que comentamos há pouco, o problema consiste na alucinada presunção da infalibilidade individual

6.6.   Há aspectos menores nas teorias da conspiração, embora muitas vezes relevantes: (1) substituição das crenças teológicas por crenças metafísicas e/ou alucinadas; (2) sentimentos de baixa autoestima; (3) desejo de pertencimento a grupos

6.6.1. A substituição de crenças teológicas por crenças metafísicas corresponde a uma secularização parcial e degradada; é importante notar que à metafísica intelectual soma-se u’a metafísica moral, ou seja, u’a moralidade corrompida associa-se a concepções degradadas, resultando em teorias da conspiração

6.6.2. Os sentimentos de baixa autoestima e o desejo de pertencimento a grupos, embora sejam aspectos distintos, andam juntos: pessoas que não se sentem valorizadas ou não se encaixam em nenhum grupo passam a justificar suas dificuldades pessoais e sociais por meio da atribuição de comportamentos voluntários contra elas mesmas

6.6.2.1.          Além de serem explicações fáceis (“não me encaixo porque os outros ativamente me excluem”), as teorias da conspiração criam esquemas que dão sentido às vidas de pessoas solitárias e que lhes permitem comportamentos ativos (em vez de passivos ou meramente reativos)

6.6.2.2.          Da mesma forma, as teorias da conspiração compartilhadas criam vínculos entre os indivíduos

6.6.2.3.          Os aspectos práticos das teorias da conspiração oferecem elementos que dão a sensação de superioridade a pessoas que se consideram inferiores e/ou desprezadas: esses elementos são (1) a suposta perspicácia de descobrir o que deveria estar encoberto e (2) o suposto combate aos grupos conspiradores

6.6.3. O fato de muitas teorias da conspiração serem sucedâneas de teologias – ou seja, versões secularizadas ou concepções herdeiras das teologias – não pode ser diminuído, especialmente em sociedades e ambientes marcados pelas teologias mais irracionalistas

6.6.3.1.          Na medida em que as teologias com freqüência são imunes às provas empíricas e à racionalidade (e algumas são-no mais que outras), essa mentalidade própria à teologia é transmitida para as teorias da conspiração, o que as torna mais impermeáveis às evidências empíricas e à argumentação

6.6.3.2.          Os Estados Unidos são particularmente suscetíveis desses problemas todos, na medida em que têm lugar, lá, as teologias mais irracionalistas e mais afirmadoras da pura “fé”, bem como é um país profundamente individualista

6.7.   Reunindo os vários aspectos e problemas anteriores, na medida em que se trata da desconfiança individualista e sistemática de “nós” contra “eles”, a teoria da conspiração é a afirmação coletiva da paranóia individual

6.7.1. Como as teorias da conspiração são a coletivização da paranóia individual, estimulada por um ambiente e/ou u’a mentalidade metafísica, é bastante claro que elas constituem uma grave deformação da espiritualidade humana

6.7.2. Talvez os únicos aspectos positivos das teorias da conspiração – mas sempre de maneira profundamente enviesada e prejudicial – sejam o aumento da autoestima, a constituição de grupos de apoio, a valorização do bem público e a valorização da publicidade

6.8.   Passando da caracterização das teorias da conspiração para os meios de evitá-las, veremos agora como o Positivismo fornece elementos poderosos contra essas paranóias coletivas

6.8.1. Comentamos antes que as teorias da conspiração consistem em problemas da imaginação humana: elas consistem no desprezo prático (e, com freqüência, também desprezo teórico) das leis da Filosofia Primeira e da lógica positiva

6.9.   As leis da Filosofia Primeira são absolutamente aplicáveis e necessárias

6.9.1. A Filosofia Primeira corresponde aos únicos princípios realmente universais, aplicáveis a todos os fenômenos, e referem-se tanto à descrição da realidade quanto aos princípios que o ser humano segue e deve seguir para apreender adequadamente a realidade

6.9.1.1.          Augusto Comte estabeleceu 15 leis da Filosofia Primeira

6.9.2. Por si só, a primeira lei – não por acaso, a chamada “lei-mãe” – bastaria para evitar desvios e aberrações como as teorias da conspiração

6.9.2.1.          A primeira lei é: “Formar a hipótese mais simples e mais simpática que comporta o conjunto dos dados a representar (I)”

6.9.2.1.1.              A aplicação desse princípio às teorias da conspiração é bem direta: as teorias da conspiração são hipóteses complicadas, destruidoras, baseadas na má fé e na desconfiança e que desprezam os dados disponíveis – ou seja, justamente o oposto do pensar de maneira sã

6.9.3. Mas há outras leis da Filosofia Primeira aplicáveis aqui:

6.9.3.1.          Essas outras leis são a quarta, a quinta e a sexta; elas integram o “Segundo grupo, essencialmente subjetivo”, em sua “Primeira série – leis estáticas do entendimento”:

6.9.3.1.1.              “Subordinar as construções subjetivas aos materiais objetivos (Aristóteles, Leibnitz, Kant) (IV)”

6.9.3.1.2.              “As imagens interiores são sempre menos vivas e menos nítidas que as impressões exteriores (V)”

6.9.3.1.3.              “A imagem normal deve ser preponderante sobre as que a agitação cerebral faz simultaneamente surgir (VI)”

6.9.3.1.4.              O conjunto das leis acima corrobora e reforça que, em vez de elaborar hipóteses aberrantes em teorias da conspiração, deve-se regular a imaginação e prestar atenção aos dados objetivos, sem os desprezar

6.10.               A lógica positiva (especialmente conforme desenvolvida na Síntese subjetiva, de 1856, embora também presente no v. I da Política positiva, de 1851, e no Catecismo positivista, de 1852) também é largamente aplicável:

6.10.1.   A imaginação, exatamente como a inteligência, tem que ser disciplinada; na verdade, o mesmo esforço dedicado à ciência e à filosofia tem que ser feito para a arte e a imaginação em geral

6.10.2.   A disciplina da imaginação baseia-se no altruísmo e no caráter social do ser humano; em última análise é necessário respeitar a lei-mãe da Filosofia Primeira (bem como as leis quatro a seis)

6.10.2.1.       Eis a definição da lógica positiva: “O concurso normal dos sentimentos, das imagens e dos sinais, para inspirar-nos as concepções que convêm às nossas necessidades morais, intelectuais e físicas” (Síntese, p. 26)

6.10.2.1.1.            A lógica positiva busca inspirar concepções generosas; sem se aferrar aos dados empíricos, ela deve propor concepções que não ofendam os dados

6.10.2.1.2.            Repetindo: essa concepção serve para disciplinar a inteligência, isto é, tanto a ciência e a filosofia quanto a arte e a imaginação

6.10.2.1.3.            Essa disciplina baseia-se nas concepções sociais (e sociológicas) em vez de nas concepções individuais e individualistas próprias à teologia

6.10.2.1.4.            A disciplina social baseia-se na digna submissão e, daí, na digna obediência; inversamente, a síntese teológica (absoluta) afirmava um ser caprichoso, egoísta e irresponsável

6.10.2.2.       Como isso se aplica às teorias da conspiração?

6.10.2.2.1.            Do ponto de vista da lógica positiva, as teorias da conspiração caracterizam-se por uma imaginação indisciplinada, egoísta, arbitrária; como vimos antes, embora elas satisfaçam de maneira muito secundária algumas necessidades humanas, tal satisfação dá-se a partir de características profunda e radicalmente antissociais

6.11.               Em suma:

6.11.1.   Como vimos acima, coletivamente as teorias da conspiração correspondem à sistematização do individualismo, do desprezo pela autoridade espiritual, do desprezo pela confiança compartilhada, do espírito profundamente metafísico, agressivo e destruidor próprio à liberdade absoluta de consciência; já em termos individuais, as teorias da conspiração surgem da baixa autoestima de pessoas que se sentem deslocadas e/ou desprovidas da sensação de ação, em ambientes que estimulam crenças irracionais e impassíveis de comprovação

6.11.1.1.       Em outras palavras, as teorias da conspiração correspondem a uma degradação profunda da espiritualidade humana em ambientes metafísicos em termos intelectuais e morais

6.11.1.2.       Devemos ter em mente a positividade e não esquecer, nunca, que a espiritualidade positiva só se afirma com um forte elemento social e altruísta, seja como objetivo, seja como meio, seja como princípio orientador: sem isso não é possível distanciar das teorias da conspiração quem se encontra submetido a elas

6.11.2.   Assim, para evitar as teorias da conspiração, temos que ter em mente aspectos sociais (coletivos) e pessoais, da mesma forma que elementos morais e intelectuais

6.11.3.   O Positivismo, ou melhor, a Religião da Humanidade estabelece precisamente elementos para essa regulação:

6.11.3.1.       O estímulo à confiança mútua

6.11.3.2.       A digna subordinação como base do aperfeiçoamento e o reconhecimento das limitações pessoais (em termos intelectuais, práticos e morais)

6.11.3.3.       O desenvolvimento e o reforço dos vínculos coletivos

6.11.3.4.       O “Viver às claras”, ou seja, a abertura e as justificativas públicas dos comportamentos

6.11.3.5.       A disciplina, a regulação e a orientação altruísta da imaginação (via Filosofia Primeira e lógica positiva)

7.     Término da prédica

 

Referências

- Auguste Comte (franc.), Síntese subjetiva (Paris, Exécution Téstamentaire d’Auguste Comte, 2ª ed., 1900): https://archive.org/details/lasynthsesubjec00comtgoog.

- Augusto Comte (franc.), Sistema de filosofia positiva (Paris, Bachelier, 1838), v. 3, 45e leçon (“Considérations générales sur l’étude positive des fonctions intellectuelles et morales, ou cérébrales”).

- Augusto Comte (franc.), Sistema de política positiva (Paris. J.-B. Baillière, 4ª ed., 1880): https://archive.org/details/systmedepoliti01comt.

- Augusto Comte (port.), Apelo aos conservadores (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores.

- Augusto Comte (port.), Catecismo positivista (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 4ª ed., 1934).

- José Lonchampt (port.), Ensaio sobre a oração (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1896; catálogo da IPB, n. 165): https://archive.org/details/n.-165-jose-lonchampt-ensaio-sobre-a-oracao.

- Luís Bueno Horta Barbosa (port.): Introdução geral ao estudo da lógica, ou matemática (Rio de Janeiro, Jornal do Comércio, 1933): https://archive.org/details/augusto-comte-logica-positiva

- Luís Lagarrigue (esp.), A poesia positivista (Santiago do Chile, 1890): https://archive.org/details/luis-lagarrigue-a-poesia-positivista-1890_202509.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), As últimas concepções de Augusto Comte (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-i e https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-ii.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), O ano sem par (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1900): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-o-ano-sem-par-portug._202312/page/n7/mode/2up.



[1] Embora à primeira vista essa teoria pareça apenas uma piada, na verdade, inacreditavelmente, ela é realmente afirmada – e por uma parcela substancial dos brasileiros (https://www.dw.com/pt-br/como-a-teoria-falsa-de-que-lula-morreu-amea%C3%A7a-a-democracia/a-79311276).

08 dezembro 2022

Comentários sobre o sobrenatural

No dia 4 de Bichat de 2022 (6.12.2022), após nossa prédica positiva (dedicada à leitura comentada da continuação da teoria do culto privado - quarta conferência do Catecismo Positivista), na parte das reflexões semanais, fizemos algumas reflexões sobre o "sobrenatural" (e, feitas as devidas adaptações, também às teorias da conspiração).

As anotações que elaborei e nas quais me baseei para a exposição reproduzidas abaixo.

É possível assistir ao vídeo dessas reflexões no canal Positivismo (aqui: l1nq.com/Predica) e no canal Apostolado Positivista (aqui: l1nq.com/Sobrenatural). No canal Apostolado Positivista, essas reflexões podem ser vistas a partir de 49' 10''.

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Comentários sobre o sobrenatural

 

-        A noção de sobrenatural é um problema ao mesmo tempo intelectual e afetivo

o   A parte intelectual exige maiores comentários que a afetiva

o   As partes intelectual e afetiva encontram soluções na Religião da Humanidade

§  O que se chama atualmente de “sobrenatural” é o resquício de teologia e metafísica em uma sociedade que se torna, felizmente, cada vez mais positiva e relativista

o   É possível incluir na forma de pensar própria ao “sobrenatural” também as chamadas “teorias da conspiração”

§  As teorias da conspiração, evidentemente, têm um caráter formalmente menos teológico que o “sobrenatural”; mas, ainda assim, mantêm e até acentuam, de maneira radical, a busca do absoluto, a rejeição do relativismo e as mais complicadas hipóteses e interpretações da realidade[1]

-        A noção de “sobrenatural” é contraditória: se algo existe, evidentemente é “natural”

o   Da mesma forma, a expressão “ciências ocultas”, que se aproxima da de “sobrenatural”, também não faz o menor sentido

o   A expressão “ciência oculta” não faz sentido em termos de objeto e de sujeito:

§  No que se refere ao objeto: se é ciência, o seu objetivo é desvelar, é revelar, ou seja, é acabar com o caráter “oculto” do objeto

§  No que se refere ao sujeito: a ciência é pública e, portanto, ela repele em princípio qualquer caráter exotérico ou esotérico

-        A noção de sobrenatural vincula-se ao âmbito do imaginário: é um desejo de que existam coisas que não se verifica empiricamente

-        Durante a teologia e até durante a metafísica, o sobrenatural é aceitável:

o   Seja porque, por definição, o sobrenatural corresponde à explicação disponível na teologia e, assim, o sobrenatural como que integre o mundo durante essas fases da Humanidade

o   Seja porque o ser humano não tem base empírica suficiente para avaliar o mundo, isto é, para avaliar o que existe ou não no mundo

o   Seja porque não se tem o conhecimento das leis naturais e, daí, explica-se o mundo por meio de vontades arbitrárias invisíveis

§  Nesse sentido, a invisibilidade das vontades aproxima o “sobrenatural” do “metafísico”

-        A manutenção atual da crença no “sobrenatural” vincula-se a diversos fatores:

o   Persistência da crença na teologia (de maneira implícita ou explícita)

o   Sensação de que o que existe efetivamente é “pouco” (ou, inversamente, sensação de que é limitador considerar que somente a “nossa” realidade existe de fato)

-        Os motivos que justificariam a crença atual no “sobrenatural”, portanto, são puramente subjetivos e rejeitam a realidade e a objetividade

o   Cada vez mais, eles referem-se à pura crença na existência do “sobrenatural”

o   É importante insistir: se algo existe de verdade, é natural e não há necessidade de nenhuma “crença” para que essa existência seja provada empiricamente

§  A ciência por si só é cética a respeito das afirmações quaisquer (em última análise é a navalha de Ockham) e, no que se refere ao “sobrenatural”, tal ceticismo chega no máximo ao agnosticismo

§  O ônus da prova cabe sempre a quem afirma algo, não a quem descrê da afirmação

o   Essa pura crença no sobrenatural é muito próxima da estrutura mental da do protestantismo e, em particular, da do protestantismo dos EUA

-        Mas a crença no sobrenatural não se justifica atualmente:

o   O ser humano já conhece muito do mundo para saber o que existe e o que não existe

§  É importante reiterar: o ônus da prova cabe a quem afirma!

§  É importante reiterar: a mera crença subjetiva, o mero “crer”, não é prova de nada (ou melhor: nada além de que o ser humano é capaz de manter crenças subjetivas)!

o   A realidade é maior e mais ampla do que qualquer pessoa consegue imaginar:

§  Não se trata, com essa afirmação, de propor que o “sobrenatural” existe, mas, bem ao contrário, trata-se de considerar que a exploração do que existe de verdade é sempre surpreendente

§  O conhecimento da realidade satisfaz muito a nossa imaginação:

·         Seja porque conhecer novas coisas com freqüência é surpreendente

·         Seja porque para explicar as coisas temos que usar muito a imaginação

·         Como sugere Christopher Hitchens (deus não é grande), muitas das explicações científicas propostas são tão ou mais surpreendentes que muitas daquelas propostas pela teologia e pela metafísica

o   As explicações científicas, ou melhor, as leis naturais rejeitam as vontades arbitrárias invisíveis

§  Vale lembrar que o sobrenatural é a persistência da crença em vontades arbitrárias invisíveis

§  Vale também lembrar que essas vontades arbitrárias são apenas a postulação-transposição de que uma realidade puramente subjetiva existe objetivamente

-        Os comentários até aqui foram basicamente de caráter intelectual; mas importa notar que, em termos morais, a crença no sobrenatural combina um quê de arrogância com um quê de insatisfação com os limites da realidade

o   Assim, em qualquer caso, a crença atual no sobrenatural é uma forma de imaturidade

-        Ainda assim, há um aspecto que convém também reconhecer: como o próprio Augusto Comte afirmava, a ciência por si só resseca o coração; as tendências materialistas da ciência tendem a tornar o mundo um ambiente radicalmente seco e “desértico”

o   Isso é o que a metafísica idealista alemã chamava de “desencantamento do mundo”

-        A Religião da Humanidade resolve – na verdade, evita – o problema do “desencantamento do mundo”:

o   Augusto Comte, após resolver diretamente o principal problema humano (obtenção da harmonia via disciplinamento altruísta do egoísmo), aprofundou suas reflexões e percebeu que o primado da afetividade na existência humana é um princípio realmente geral e que deve ser aplicado de maneira sistemática

o   Em outras palavras, a Religião da Humanidade estabelece que o mundo todo deve ser objeto (e sujeito!) da afetividade

o   O meio para a “afetivização” geral da realidade é a incorporação do fetichismo inicial ao positivismo final, na forma do “neofetichismo”

o   De modo mais específico, a Trindade Positiva estabelece subjetivamente que tudo no mundo é dotado de afetividade, com variados graus de atividade e de inteligência

§  Trindade Positiva: Grão Ser (Humanidade: inteligente, ativa e afetiva), Grão Fetiche (Terra: ativa e afetiva), Grão Meio (Espaço: só afetivo)



[1] A extensão destas reflexões sobre o sobrenatural às teorias da conspiração (feitas as devidas adaptações) tornou-se evidente (para mim, pelo menos) à medida que lia descrições de algumas dessas teorias, em particular vinculadas ao nazismo (cf. Conspirações sobre Hitler, de Richard Evans (Crítica, São Paulo, 2022)).

Por outro lado, em conversa pessoal, após a exposição destas anotações no dia 6.12.2022, nosso amigo Hernani Gomes da Costa sugeriu que as teorias da conspiração correspondem à metafísica própria à fase militar defensiva da Humanidade; além disso, ele notou que essas teorias atribuem aos “grupos secretos” um poder e uma eficácia social muito maior que aquela atribuída, na Idade Média, ao diabo – embora a função social supostamente desempenhada pelos grupos secretos seja idêntica à atribuída ao diabo.