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27 junho 2023

Sobre as qualidades práticas

No dia 10 de Carlos Magno de 169 (27.6.2023) realizamos nossa prédica positiva. Em um primeiro momento demos continuidade à leitura comentada do Catecismo positivista, em sua sétima conferência, dedicada à filosofia das ciências naturais.

Em seguida, na parte do sermão, abordamos as qualidades práticas, isto é, os atributos da natureza humana identificadas por Augusto Comte com a atividade prática - a coragem, a prudência e a perseverança. 

A prédica pode ser vista nos canais Positivismo (aqui: https://encr.pw/FNVUV) e Apostolado Positivista do Brasil (aqui: https://acesse.one/Dc5Bl). O sermão começa em 45' 38".

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Sobre as qualidades práticas
 

-        Ao tratar da natureza humana, Augusto Comte seguiu uma tradição que estabelecia o seu caráter triplo: sentimentos, inteligência e atividade prática

-        Geralmente, quando consideramos o quadro da natureza humana, ou quadro cerebral, ou quadro da alma, enfatizamos as funções afetivas, em número de dez (sete egoístas e três altruístas)

o   Nesse caso, as funções intelectuais e as práticas por vezes são desconsideradas – não porque sejam desimportantes, mas porque, sendo o grande problema humano vinculado à relação entre egoísmo e altruísmo, a atenção tende naturalmente a concentrar-se nos sentimentos

o   Assim, vale a pena fazermos algumas reflexões sobre as “qualidades práticas”, juntamente com alguns aspectos intelectuais e também as máximas morais propostas por Augusto Comte

-        Como sabemos, elas são em número de três: coragem, prudência e perseverança

o   A coragem e a prudência constituem a atividade; a perseverança constitui a firmeza

-        A coragem e a prudência representam impulsos em parte opostos, em parte complementares para a ação

o   A coragem é o impulso que nos leva efetivamente a agir; é o impulso que nos conduz a enfrentar os desafios, as dificuldades ou os perigos que a vida propõe-nos ou impõe-nos; é o impulso que nos leva a pôr-nos contra alguma coisa, alguém e/ou alguma situação

§  Continuamente precisamos de coragem, para as mais diferentes situações da vida: no trabalho, nas relações pessoais, nas idéias etc.

·         Se pensarmos bem, mesmo para sairmos da cama, após acordarmos, precisamos de coragem

§  Podemos portanto dizer que há vários tipos de coragem: física, intelectual, moral

§  A falta de coragem pode ser medo ou covardia: pode ser um receio mais ou menos momentâneo; pode ser um pavor patológico (no caso das fobias); pode ser a ausência corrente do impulso para enfrentar os desafios da vida

o   A prudência é o impulso que nos faz resguardar-nos em face dos perigos e/ou das dificuldades

§  Assim, enquanto a coragem leva-nos a agir, a prudência modera e altera esse impulso

§  Há na prudência um aspecto intelectual, ao mesmo tempo em que um sentimento de autopreservação

§  Assim como a coragem pode ser vários tipos, a prudência pode sugerir-nos várias possibilidades: o melhor momento, o melhor meio, as melhores disposições

o   Como indicamos antes, a coragem e a prudência representam impulsos ao mesmo tempo opostos e complementares:

§  A coragem leva-nos a afrontar algum desafio, enquanto a prudência sugere meios de isso ocorrer sem que soframos danos

§  A coragem sem prudência é a temeridade; a prudência sem coragem é covardia

-        A perseverança corresponde à firmeza, isto é, a capacidade de mantermos uma decisão ao longo do tempo e/ou apesar das dificuldades impostas a essa manutenção

o   A perseverança vincula-se, por um lado, à paciência e, por outro lado, também à esperança

o   A perseverança tem um aspecto temporal (manter uma postura ao longo do tempo) e também pode ter um aspecto de resistência (suportar as adversidades)

o   A perseverança é igualmente complementar à coragem e à prudência:

§  A coragem sem firmeza torna-se impulso momentâneo (“fogo de palha”) e aproxima-se da covardia ou da irresponsabilidade

§  A prudência sem firmeza transforma a coragem em temeridade

-        Embora as três qualidades práticas sejam claramente distintas entre si, fica bastante evidente que elas atuam de maneira necessariamente conjunta e convergente – isto é, sinérgica – nas vidas de todos os seres humanos, embora variem de acordo com o aspecto envolvido, o momento e o grupo/indivíduo

-        Também é importante notar que os atributos práticos implicam sempre vontades (mais ou menos conscientes)

o   Um sinônimo para as “vontades” são as “intenções”

o   As vontades conscientes implicam o conjunto da natureza humana (sentimentos, inteligência e atributos práticos), mas, de qualquer maneira, evidenciam uma inteligência atuante

§  Na Trindade Positiva, a inteligência – e, daí, a vontade – pertence exclusivamente ao Grande Ser, isto é, à Humanidade (o Grão-Meio, o Espaço, tem apenas sentimentos e o Grão-Fetiche, a Terra, tem sentimentos e atividade)

o   Na medida em que os atributos práticos implicam vontades humanas, nesse âmbito específico faz sentido perguntar-se os “porquês” das ações

o   Entretanto, há que se ter clareza: a vontade humana não é caprichosa nem arbitrária

§  Há uma diferença clara entre querer algo e obter esse algo: no puro ato da volição, o objeto do desejo até pode ser caprichoso e mais ou menos arbitrário; mas a obtenção efetiva desse objeto de desejo sempre se dá conforme os limites impostos pelas leis naturais e pelo princípio de que o ser humano modifica a natureza subordinando-se a ela (subordinação dos fenômenos mais nobres aos mais grosseiros)

-        Há um aspecto prático na concepção das leis naturais que com freqüência não é percebido pelas pessoas que estudam o Positivismo: trata-se do caráter geral das leis naturais e, portanto, de seu distanciamento dos casos específicos

o   Esse aspecto das leis naturais é decorrente do seu caráter abstrato, ou seja, do fato de que, para serem elaboradas, as leis têm necessariamente que desconsiderar uma série de aspectos concretos

o   Ao investigar-se um caso concreto, em que se busca aplicar uma lei natural, o arranjo geral estipulado pela lei é complementado pelo conhecimento concreto e específico de cada situação

§  Isso quer dizer, por seu turno, que é necessário querer conhecer os detalhes concretos: daí que “são necessárias vontades para completar as leis”

o   Esse aspecto de “incompletude generalista” das leis naturais tem dois resultados práticos importantes:

§  Por um lado, estabelece a diferença entre a teoria e a prática, entre as previsões teóricas e os resultados concretos

§  Por outro lado e em conseqüência do aspecto indicado acima, estabelece que não faz sentido nenhum falar em “determinismo” no âmbito do Positivismo

§  Por outro lado ainda, também como outra conseqüência dos aspectos indicados acima, não faz sentido falar em “leis probabilísticas” no âmbito do Positivismo

-        Há um outro aspecto vinculado os atributos práticos e as concepções de leis naturais, no que se refere ao “determinismo”:

o   Quanto mais complicados os fenômenos, maior a possibilidade de modificação dos arranjos secundários (isto é, da manipulação das variáveis)

§  No caso das ciências superiores, não apenas a amplitude dos fenômenos é muito maior como, também, a possibilidade de variação secundária é maior

o   Isso abre um amplo campo de atuação humana intencional, nas mais variadas áreas

§  As leis naturais correspondem à constância em meio à variedade

o   A complexidade dos fenômenos superiores e a definição das leis naturais permitem a atuação cada vez maior do ser humano, com sua digna liberdade, isto é, com uma vontade livre e respeitante das leis naturais

§  Isso, por definição, opõe-se tanto ao “determinismo” quanto à concepção teológico-metafísica de “liberdade”

-        Do que foi dito até agora, fica bastante claro que – como tudo na vida humana – os atributos práticos mantêm íntimas relações com a moral:

o   Em primeiro lugar, como já vimos, a atividade prática é o âmbito da vontade humana consciente: mas essa vontade não é arbitrária nem caprichosa

o   Em segundo lugar, a atividade prática é o âmbito de atuação efetiva dos sentimentos e de aplicação da inteligência

§  A atividade prática estabelece o critério da utilidade, que é o critério fundamental complementar à realidade das concepções humanas

§  Dessa forma, a realidade prática limita e orienta a inteligência, juntamente com os sentimentos

o   Em terceiro lugar, a atividade prática tem suas exigências específicas (por exemplo, as atividades econômicas e as políticas)

§  Mas é claro que, como tudo na vida, as exigências específicas da atividade prática têm que desenvolver a simpatia (isto é, o altruísmo), a partir das concepções sintéticas

o   Em quarto lugar, os atributos práticos devem ser regulados de acordo com as exigências simpáticas e sintéticas – daí uma importância adicional para as máximas de Augusto Comte:

§  “Agir por afeição e pensar para agir”: estabelece a relação normal do conjunto da natureza humana e, portanto, regula os atributos práticos

§  “Viver para outrem”: implica a perseverança e orienta a coragem

§  “Viver às claras”: implica a perseverança e regula também a prudência