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08 novembro 2026

A autenticidade vulgar – a degradação (para)fascista das normas de convívio

 

Um dos aspectos mais cansativos e degradantes do fascismo é a pretensão de que o bem pensar consiste em ser agressivo e vulgar. Ou melhor, e sendo mais preciso: a pretensão de que a vulgaridade, ao rejeitar a civilização, o cuidado com os demais etc., corresponde à “autenticidade”.

Há aí o culto à violência e o desprezo pelas regras do que se considera de boa conduta. Na verdade, para a autenticidade vulgar a boa conduta é entendida como uma forma de diminuição do ser humano e, vinculada ao culto à violência, ela é entendida como uma diminuição, ou até uma negação, da virilidade, da força masculina.

A vulgaridade, por seu turno, consiste na sistemática ausência de autocontrole e na sistemática ausência de consideração para com a sensibilidade alheia. Na verdade, não se trata somente de uma ausência, mas também de uma presença; não se trata somente da ausência de autocontrole, mas de um comportamento ativo e proposital que começa com essa ausência e vai além, consciente e propositalmente. Falar palavrões, usar expressões de baixo calão, ser agressivo, empregar imagens de conteúdo sexual – tudo isso corresponderia à expressão verdadeira e legítima da “autenticidade” humana. Em contraposição, a civilização, os hábitos moderados, o autocontrole, a autolimitação tendo em vista os demais: tudo isso consistiria não na limitação, mas na própria negação de traços considerados fundamentais, verdadeiros, essenciais do ser humano (ou, sendo mais preciso, do homem, do macho).

Essa mentalidade é tipicamente guerreira e metafísica. Ela é incapaz de entender o ser humano (novamente: de modo mais preciso, o homem) fora do ambiente militar e bélico; ao mesmo tempo, a noção de “autenticidade” é própria da metafísica, na medida em que corresponde à crença em uma espécie de “núcleo duro” da personalidade individual, uma essência de cada pessoa, que deve ser afirmada sob risco de mentira inexpiável. Essa essência individual seria mascarada pelas regras de comportamento que se afastam da guerra e, em todo caso, da violência; tal essência seria, portanto, oposta à vida na sociedade industrial, pacífica, colaborativa, construtiva.

A respeito da noção de “sociedade industrial”, são necessárias duas digressões sociológicas e filosóficas:

1)     A noção de “sociedade industrial” empregada aqui, assim como a de metafísica, é a definida com clareza e inspiração por Augusto Comte. A sociedade industrial não é a sociedade das fábricas, das chaminés; ela define-se em oposição à sociedade militarista, violenta, guerreira, destruidora.

2)     Muitos pensadores são críticos da noção de sociedade moderna pacífica, colaborativa, construtiva; são pensadores que se dizem “críticos” e que adotam sistematicamente uma perspectiva contrária à sociedade moderna, ou até contrária à civilização moderna. Essa criticidade tem origem metafísica; são pensadores que de maneira entusiasmada, militante e (para usar uma palavra que está na moda) até “performática” criticam a sociedade moderna, mas que não se preocupam com o fato de que tais críticas estimulam as concepções contrárias (a violência, a agressividade, a destruição), nada acrescentando em seu lugar. Isso se refere em particular aos metafísicos alemães, sejam os neokantianos (na tradição seguida e estimulada por Max Weber), sejam os inúmeros marxistas; mas incluem-se aí também os metafísicos de origem mística, que se afastam do âmbito da modernidade e, na verdade, odeiam, repelem, desprezam a modernidade: são os tradicionalistas.

O desrespeito às leis, o estímulo à formação de grupos paramilitares (ou, na atual linguagem empregada no Brasil: de milícias), o desprezo pelas regras mais elementares de convívio pacífico e civilizado; por outro lado, o culto à liderança, em particular à liderança autoritária: essas são outras conseqüências dessa forma de pensar que busca a autenticidade e por meio da vulgaridade.

A autenticidade vulgar é algo próprio ao fascismo. Ela foi afirmada como concepção e realizada como prática na Itália e na Alemanha a partir da década de 1920, em ambos os países por grupos de ex-soldados que buscavam camaradagem, sentido na vida e sensação de pertencimento após a I Guerra Mundial.

Embora a autenticidade vulgar seja próprio ao fascismo, o seu duplo aspecto metafísico (o espírito destruidor e a “essência” individual) é atraente para muitos, em particular para espíritos literários, mesmo que tais literatos não sejam nem desejem ser fascistas ou próximos do fascismo. É claro que, ainda assim, mesmo a origem fascista pode tornar-se atraente, não porque ela em si mesma seja atraente, mas devido ao seu aspecto marginal, anticivilizado. Esse comportamento infantil, ou melhor, adolescente (em todo caso: totalmente imaturo) que é atraído pela marginalidade do fascismo foi um dos motivos que, a partir dos anos 1960, permitiu a recuperação do pensamento do direitista (na verdade, nazista) Martin Heidegger por muitos jovens e filósofos, muitos deles de esquerda (como pelo futuro líder da contracultura Daniel Cohn-Bendit).

O espírito destruidor é degradante por si só e torna-se ainda pior no âmbito das artes, no qual se converte em idealização da violência e que, com freqüência, mantém-se afastado das preocupações políticas. Mas, infelizmente, por outro lado, os hábitos da civilização podem às vezes se converter em afetação, em exageros, em formalismos que, em vez de regular e suavizar as relações sociais em geral e as relações entre individualidades em particular, acabam convertendo-se em normas que impedem a expressão de sentimentos e idéias pessoais.

Uma outra possibilidade, lamentavelmente própria da nossa época, consiste em exagerar a preocupação com a proteção da individualidade e em associar tal preocupação a ressentimentos tornados sistemáticos, negando assim o respeito geral pela dignidade humana: essa é a mentalidade “floco de neve”, própria ao identitarismo. A mentalidade floco de neve busca freneticamente denunciar opressões de opressores eternos e essenciais em todos os lugares e em todos os âmbitos; em face de tais opressões essenciais, eternas e ubíquas, procura constituir “lugares seguros”, isto é, espaços físicos e institucionais em que os oprimidos fiquem isolados de comentários e comportamentos que pareçam minimamente discordantes das opções de cada pessoa “oprimida”. (No caso de ter que lidar com qualquer comentário ou comportamento discordante, o oprimido considera-se profundamente atingido, humilhado, destratado, ofendido – em todo caso incapaz de lidar com a divergência, com a alteridade, enfim, com a existência de outros seres humanos). Nessa versão floco de neve, ou melhor, nessa versão identitária, a deriva da civilização não consiste em impedir a manifestação pessoal, mas, ao contrário, baseando-se na dupla consideração da essência individual e da opressão eterna e ubíqua, consiste em afirmar tanto e em levar tão adiante a preocupação pessoal que toda pessoa é encarada como sempre, profunda e intrinsecamente frágil, precisando sempre do máximo possível de proteção; qualquer afirmação ou qualquer ação que minimamente dê a impressão de discordar da expressão individual é vista como opressiva. Não deixa de ser altamente irônico que a mentalidade floco de neve no fundo tenha a mesma preocupação que a da vulgaridade: ambas desejam a autenticidade essencial e rejeitam as regulações sociais necessárias para a vida coletiva. No caso da autenticidade vulgar, rejeitam-se totalmente as regulações sociais; no caso do identitarismo, rejeitam-se as regulações não identitárias e, em todo caso, rejeita-se o senso comum e o bom senso na delimitação e na aplicação dessas regulações.

A vulgaridade autêntica manifesta-se de qualquer maneira como uma reação retardada do espírito militarista próprio a outras épocas e lugares, contra os hábitos pacíficos, construtivos e colaborativos da sociedade moderna. Por seu turno, o identitarismo floco de neve também se manifesta como uma expressão da busca de autenticidade individualista e ressentida. As origens de cada uma dessas buscas de autenticidade essencial são diferentes no tempo, no espaço e nos fundamentos morais; basta considerar que a autenticidade vulgar é de “direita”, enquanto a autenticidade floco de neve é de “esquerda”. Infelizmente, a partir de suas origens e de suas preocupações, ambas essas buscas de autenticidade essencial convivem e competem nos dias atuais, com o lamentável e desastroso resultado de que se reforçam mutuamente, seja devido às suas diferenças, seja devido às suas similitudes, seja enfim e principalmente porque cada uma deles vê na outra uma poderosa justificativa.

Com isso, encerramos estas reflexões voltando ao ponto de partida: nessa detestável lógica social e intelectual, a vulgaridade exerce seus efeitos degradantes e corrosivos contra os padrões de convivência, vista ora como digna de realização por si só, vista ora como justificada pela disputa com a mentalidade floco de neve.