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24 junho 2026

O estado normal

No dia 6 de Carlos Magno de 172 (23.6.2026) realizamos nossa prédica positiva, dando continuidade à leitura comentada do Apelo aos conservadores (em sua Terceira Parte - postura dos positivistas em relação aos revolucionários).

No sermão abordamos a noção de "estado normal", além das noções assessórias de "sociedade orgânica", "natureza humana", "harmonia" e "utopia".

A prédica foi transmitida nos canais Positivismo (https://youtube.com/live/y6qTKX-xevw) e Igreja Positivista Virtual (https://www.facebook.com/IgrejaPositivistaVirtual/videos/1003259092618009/).

As anotações que serviram de base para a exposição oral encontram-se reproduzidas abaixo.

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O estado normal

(6 de Carlos Magno de 172/23.6.2026) 

1.     Abertura da prédica

2.     Datas e celebrações

2.1.   Dia 8 de Carlos Magno (25.6): transformação de Martins Fontes (1937 – 89 anos)

2.2.   Dia 10 de Carlos Magno (27.6): transformação de Harriet Martineau (1876 – 150 anos)

2.3.   Dia 11 de Carlos Magno (28.6): transformação de Teixeira Mendes (1927 – 99 anos)

2.4.   Dia 12 de Carlos Magno (29.6): nascimento de Júlio de Castilhos (1860 – 166 anos)

2.5.   Dia 13 de Carlos Magno (30.6): nascimento de Carlos Torres Gonçalves (1875 – 151 anos)

2.6.   Dia 13 de Carlos Magno (30.6): transformação de Lauro Muller (1926 – 100 anos)

3.     Leitura comentada do Apelo aos conservadores

4.     Exortações

4.1.   Sejamos altruístas!

4.2.   Façamos orações!

4.3.   Como Igreja Positivista Virtual, ministramos os sacramentos positivos a quem tem interesse

4.4.   Para apoiar as atividades dos nossos canais e da Igreja Positivista Virtual: façam o Pix da Positividade! (Chave Pix: ApostoladoPositivista@gmail.com)

5.     Sermão: o estado normal

5.1.   O sermão de hoje aborda um tema que freqüentemente é tratado em nossas prédicas, que nem sempre fica claro do que se trata mas que é central para o Positivismo e para a Religião da Humanidade: a noção de “estado normal”

5.1.1. Essa expressão e essa noção aparecem regularmente na obra de Augusto Comte, especialmente de maneira implícita; mas somente no final de sua carreira nosso mestre definiu-a de maneira mais sistemática – na “Conclusão” do Apelo aos conservadores em particular, aliás

5.1.2. A noção de estado normal, juntamente com outras (como síntese e religião) é ao mesmo tempo central e sintética, de tal sorte que reúne e pressupõe outros conceitos elementares, como natureza humana, harmonia e utopia (bem como relativismo, continuidade e altruísmo), além da rejeição e superação do estado crítico

5.2.   Indo diretamente ao ponto: o “estado normal” corresponde à situação idealizada de plena realização da harmonia humana, em seus múltiplos aspectos (coletivos e individuais; afetivos, intelectuais e práticos; subjetivos e objetivos), de maneira dinâmica e ao longo do tempo

5.2.1. Uma noção assessória à de estado normal é a de sociedade orgânica (ou estado orgânico)

5.2.1.1.          A sociedade orgânica corresponde à situação social em que vigem parâmetros compartilhados, capazes de regular o conjunto da sociedade, suas diversas partes entre si e também a atuação individual

5.2.1.2.          Dessa forma, o estado orgânico é a antítese da “anarquia”

5.2.2. Como dissemos, o estado normal é a situação ideal em que as diversas partes da natureza humana encontram-se em harmonia dinâmica; esse equilíbrio dá-se com a aplicação de parâmetros que regulam a sociedade e os indivíduos: portanto, o estado normal corresponde a uma sociedade orgânica

5.2.2.1.          Todavia, é bastante claro que uma sociedade orgânica qualquer não corresponde necessariamente ao estado normal

5.2.2.2.          O estado normal exige o altruísmo, o relativismo, a atividade pacífica, colaborativa e construtiva

5.2.2.3.          Assim, o estado normal exige o desenvolvimento prévio das forças humanas e corresponde à coordenação dessas forças

5.2.2.3.1.              A maior dificuldade do estado normal não é o desenvolvimento das forças humanas (que já ocorreu, sob a teologia, na tríplice transição ocidental), mas, justamente, a coordenação positiva, isto é, a coordenação simultânea, altruísta, relativista e pacífica

5.2.2.3.2.              Essa coordenação das diversas partes da natureza humana, na medida em que respeita cada uma dessas diversas partes, pode ser chamada de sinérgica (ou de harmoniosa)

5.2.3. É possível haver estados orgânicos sem que ocorra a coordenação dos diversos traços da natureza humana, isto é, sem que ocorra a sinergia

5.2.3.1.          As teocracias antigas (entre as quais incluímos o Extremo Oriente: China, Índia, Japão) foram orgânicas e sinérgicas, mas, na medida em que as forças humanas não estavam desenvolvidas, não se constituiu o estado normal

5.2.3.2.          A Grécia antiga, devido ao caráter da sua filosofia e, de modo geral, da sua sociedade, foi particularmente anti-orgânica

5.2.3.3.          A sociedade romana foi orgânica, assim como, depois, foi a Idade Média e o Islã

5.2.3.4.          A situação ocidental depois da Idade Média não é nem orgânica, nem normal – embora o Positivismo forneça todos os elementos para a organicidade e a normalidade, ou melhor, para a positividade

5.2.4. O estado normal corresponde à plena positividade: altruísmo, relativismo, atividade pacífica; rejeição da violência, mátrias pequenas; importância superior do poder espiritual em relação ao poder temporal (ou seja, das condutas adotadas subjetivamente com autonomia e liberdade em relação às condutas impostas objetivamente); separação entre o poder temporal e o poder espiritual; adesão generalizada à Religião da Humanidade

5.3.   É importante comentarmos um pouco sobre a natureza humana:

5.3.1. Quando consideramos a natureza humana, temos a tendência de entendê-la apenas em termos individuais e estáticos: entretanto, isso é um erro, pois é intensamente parcial

5.3.1.1.          Aliás, esse viés na compreensão da natureza humana – individual e estático – costuma ser entendido da maneira mais estreita possível, em termos individualistas, egoístas e mecanicistas: segundo uma versão vulgar, a “natureza humana” seria exata e estritamente egoísta e individualista, sem outras características (altruístas, em particular), sem aspecto social e sem capacidade de discernimento

5.3.2. A concepção positiva – e é “positiva”, não “positivista” – da natureza humana baseia-se em investigações biológicas, histórico-sociológicas e morais, combinando ciência e filosofia; assim, deve-se considerar que o ser humano é ao mesmo tempo sentimentos, inteligência e atividade; que os sentimentos são egoístas e altruístas; que o ser humano desenvolve seus atributos necessariamente em sociedade e ao longo do tempo

5.3.3. Assim, convém enfatizar e sermos bastante explícitos: a natureza humana abrange, por um lado, (1) tanto o egoísmo quanto, principalmente, o altruísmo; por outro lado, (2) ela é antes de mais nada social e, a partir disso, também individual; por fim, (3) ela evolui com o passar do tempo, ou seja, ela é histórica, ela é dinâmica

5.3.3.1.          Além disso, também devemos notar que a natureza humana surgiu e desenvolveu-se em interação com o ambiente; dessa forma e por esse motivo, todos os principais traços da natureza humana são compartilhados com os animais superiores, isto é, com os mamíferos e com as aves

5.3.4. A natureza humana consiste principalmente no cérebro, que apresenta uma pluralidade de funções cerebrais (sentimentos, inteligência e atividade)

5.3.4.1.          Em virtude dessa pluralidade de funções cerebrais e, ainda mais, em virtude da pluralidade de funções afetivas (sete egoístas e três altruístas, em um total de dez), a natureza humana não é unificada, embora possa convergir para diversas situações de harmonia

5.4.   Passemos agora para a noção de harmonia:

5.4.1. A noção de harmonia humana consiste na situação em que as várias partes da natureza humana encontram-se em interação dinâmica, subordinadas a um centro que coordena e regula essas várias partes

5.4.1.1.          O centro coordenador é sempre e necessariamente afetivo; assim, ele pode ser egoísta ou altruísta

5.4.1.2.          Os instintos egoístas (seja em seu conjunto, seja cada um deles individualmente) são mais fortes que o altruísmo; mas eles disputam entre si, sem cessar, a supremacia, sem que nenhum deles consiga portanto constituir-se como centro coordenador da existência humana; além disso, não somente o egoísmo não permite a harmonia individual como, negando e/ou prejudicando as relações sociais, o egoísmo também é incapaz de coordenar a existência coletiva

5.4.1.3.          Embora o altruísmo seja mais fraco que o egoísmo, ele consegue estabelecer a harmonia mútua entre seus três instintos, que, com isso, fortalecem-se mutuamente; além disso, eles disciplinam e satisfazem os vários egoísmos; por fim, por definição os instintos altruístas estabelecem e regulam as relações coletivas: dessa forma, a coordenação humana é possível apenas com o altruísmo

5.4.1.3.1.              Vale notar que a capacidade própria aos instintos altruístas de harmonizarem-se e reforçarem-se mutuamente permite que, com freqüência, o altruísmo seja tratado em bloco, ao contrário do egoísmo, cujos vários instintos com freqüência têm que ser individualizados

5.4.2. A harmonia humana é uma condição realmente desafiadora, pois tem que se dar ao longo do tempo, ao mesmo tempo em termos coletivos e individuais, considerando o egoísmo e o altruísmo

5.4.2.1.          Como observa nosso mestre e como notamos há pouco, somente o altruísmo, em seus três instintos (apego, veneração e bondade), consegue a supremacia sobre os demais instintos de maneira estável, permitindo ao mesmo tempo a satisfação dos instintos egoístas

5.4.3. A harmonia humana é uma situação de equilíbrio variável, entre margens mais ou menos definidas; entre essas margens, temos variações ao longo de cada dia e ao longo de nossas vidas

5.4.4. A supremacia do altruísmo e, de qualquer maneira, as necessidades específicas com que nos defrontamos em cada instante resultam em que o ser humano tem que, de fato, coordenar suas várias partes a cada momento, resultando em sinergias individuais ao longo do tempo; é nessa sinergia mais ou menos durável mas variável que consiste a relativa unidade humana em seus comportamentos concretos (mas que a teologia chama de “alma” e que a metafísica chama de “ego” ou de “self”)

5.4.4.1.          A sinergia que se estabelece no âmbito individual tem que ocorrer também, e principalmente, em termos sociais; sem o âmbito social, a harmonia individual não é verdadeira possível, ou melhor, não é verdadeiramente estável

5.4.5. O caráter dinâmico e ao mesmo tempo múltiplo da natureza humana, além da efetiva força superior do egoísmo sobre o altruísmo: é tudo isso que torna tão difícil a harmonia humana

5.4.5.1.          A realização dessa harmonia múltipla, dinâmica e altruísta consiste no “problema humano”, conforme definido nosso mestre

5.4.5.2.          Tudo tem que concorrer para isso a resolução do problema humana; o que não auxilia é supérfluo, o que ativamente atrapalha é daninho

5.5.   Nosso mestre resume a questão da seguinte forma, no início da Síntese subjetiva (p. 1-2):

Subordinar o progresso à ordem, a análise à síntese e o egoísmo ao altruísmo: tais são os três enunciados – prático, teórico e moral – do problema humano, cuja solução deve constituir uma unidade completa e estável. Correspondendo, respectivamente, aos três elementos de nossa natureza, esses três modos distintos de formular uma mesma questão são não apenas conexos, mas equivalentes, em vista da dependência mútua entre a atividade, a inteligência e o sentimento. Apesar de sua coincidência necessária, o último enunciado supera os outros dois, por ser o único que se refere à fonte direta da solução comum. Pois a ordem pressupõe o amor, e a síntese só pode resultar da simpatia; a unidade teórica e a unidade prática são, portanto, impossíveis sem a unidade moral. Assim, a religião é tão superior à filosofia quanto à política. O problema humano pode, finalmente, resumir-se em constituir a harmonia afetiva, desenvolvendo o altruísmo e reprimindo o egoísmo; então, o aperfeiçoamento subordina-se à conservação, e o espírito de detalhe ao espírito de conjunto.

5.6.   Passemos por fim à noção de “utopia”:

5.6.1.  A última noção que – sem pretender esgotar o assunto – podemos comentar neste momento é a de “utopia”

5.6.2. A utopia, como se sabe, é um ideal mais ou menos distante que orienta a conduta ao longo do tempo; assim, ela tem o importante papel de servir de princípio orientador e coordenador em termos dinâmicos, em relação aos vários aspectos da natureza humana

5.6.3. O estado normal, indiscutivelmente, é uma utopia – seja porque a harmonia é sempre mais ou menos instável, seja porque ela é exigente, seja porque ela tem que se manter ao longo do tempo

5.6.4. A utopia corresponde a um ideal ao qual nos aproximamos sempre, sem nunca efetivamente chegar a ele – nosso mestre usa, não por acaso, a imagem da assíntota: no gráfico cartesiano, a assíntota é uma reta para a qual tende uma curva, sem que essa curva nunca chegue à reta

5.6.4.1.          Uma das máximas de Clotilde resume bem a importância das utopias:

Compreendi, melhor do que ninguém, a fraqueza de nossa natureza quando não é dirigida para um alvo elevado que seja inacessível às paixões

5.6.5.  No início da sua carreira, quando ainda estava impregnado de cientificismo (e de academicismo), nosso mestre tendia a considerar que toda utopia é irrealizável e, portanto, que as utopias deveriam ser deixadas de lado

5.6.5.1.          Mas o amadurecimento filosófico – afetivo e relativístico – de nosso mestre conduziu-o a distinguir as utopias das quimeras (e das concepções quiméricas): enquanto as utopias são ideais que orientam e coordenam nossas atividades, as quimeras são concepções que negam totalmente a natureza humana e as leis naturais

5.6.6. Há inúmeros outros aspectos que podemos indicar a respeito das utopias no âmbito do Positivismo; por ora, devemos notar que os preconceitos acadêmicos, metafísicos e teológicos contra o Positivismo – isto é, a má fé e a ignorância – estipulam pura e simplesmente que nós seríamos contra as utopias, em favor de perspectivas objetivistas, presentistas, a favor do status quo; inversamente, nossos críticos de má fé, mau caracteres, que atribuem a nós essas concepções, é que seriam generosos e proporiam futuros melhores

5.7.   Em suma:

5.7.1. O estado normal corresponde à situação idealizada de plena realização da harmonia humana, em seus múltiplos aspectos (coletivos e individuais; afetivos, intelectuais e práticos; subjetivos e objetivos), de maneira dinâmica e ao longo do tempo

5.7.1.1.          É claro que o estado normal corresponde à plena positividade: altruísmo, relativismo, atividade pacífica; rejeição da violência, mátrias pequenas; importância superior do poder espiritual em relação ao poder temporal (ou seja, das condutas adotadas subjetivamente com autonomia e liberdade em relação às condutas impostas objetivamente); separação entre o poder temporal e o poder espiritual; adesão generalizada à Religião da Humanidade

5.7.2. O estabelecimento dinâmico e ao longo do tempo da harmonia humana só é possível com a supremacia do altruísmo

5.7.2.1.          A harmonia humana baseada no altruísmo, disciplinando o egoísmo, corresponde ao problema humano fundamental; tudo tem que concorrer para isso a resolução do problema humana; o que não auxilia é supérfluo, o que ativamente atrapalha é daninho

5.7.3. O estado normal é uma utopia, na medida em que nos fornece parâmetros dinâmicos, ao longo do tempo, para a orientação de nossas condutas

6.     Término da prédica

 

Referências

- Auguste Comte (franc.), Síntese subjetiva (Paris, Exécution Téstamentaire d’Auguste Comte, 2ª ed., 1900): https://archive.org/details/lasynthsesubjec00comtgoog.

- Augusto Comte (franc.), Sistema de filosofia positiva (Paris, Bachelier, 1838).

- Augusto Comte (franc.), Sistema de política positiva (Paris. J.-B. Baillière, 4ª ed., 1880): https://archive.org/details/systmedepoliti01comt.

- Augusto Comte (port.), Apelo aos conservadores (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores.

- Augusto Comte (port.), Catecismo positivista (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 4ª ed., 1934).

- José Lonchampt (port.), Ensaio sobre a oração (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1896; catálogo da IPB, n. 165): https://archive.org/details/n.-165-jose-lonchampt-ensaio-sobre-a-oracao.

- Luís Lagarrigue (esp.), A poesia positivista (Santiago do Chile, 1890): https://archive.org/details/luis-lagarrigue-a-poesia-positivista-1890_202509.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), As últimas concepções de Augusto Comte (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-i e https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-ii.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), O ano sem par (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1900): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-o-ano-sem-par-portug._202312/page/n7/mode/2up.

22 março 2023

Sobre a harmonia

No dia 24 de Aristóteles de 169 (21 de março de 2023) fizemos nossa prédica positiva. Demos continuidade à leitura comentada do Catecismo positivista, em sua sexta conferência (dedicada ao conjunto do dogma); em seguida, nosso sermão abordou o ideal da harmonia. As anotações que serviram de base para a nossa exposição oral estão reproduzidas abaixo.

A prédica foi transmitida nos canais Apostolado Positivista (aqui: acesse.one/NW3xS) e Positivismo (aqui: encr.pw/PZoE3). O sermão sobre a harmonia está disponível a partir de 1h 59' 55".

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Anotações sobre a harmonia

 -        Um dos objetivos e um dos conceitos humanos mais importantes é a harmonia

o   Geralmente ela é tratada em termos individuais (no sentido, por exemplo, de serenidade e de autocontrole), mas é necessário notarmos com clareza e desde o início que ela é também, e mesmo antes, um objetivo e conceito social

-        A harmonia humana é delicada e exige muitos esforços e reforços, vindos de muitos lugares diferentes

-        Em uma primeira abordagem, o que seria a harmonia?

o   Ela consiste no equilíbrio dinâmico das várias partes da nossa natureza, em que cada uma das partes está satisfeita e colabora com a satisfação das demais

o   A harmonia também pode ser entendida como serenidade; mas, por outro lado, também pode ser entendida como alegria

-        Além do fato de que ela é antes social e depois individual, a delicadeza e a dificuldade de realização da harmonia está em que ela tem que ser entendida (e praticada) em termos dinâmicos, não estáticos

-        A concepção estática da harmonia considera que, (1) embora a vida tenha muito movimento, é (2) na ausência de movimento e (3) na ausência de interações que se obtém a harmonia

o   Geralmente a noção de “equilíbrio” associa-se à concepção estática

§  Em termos geométricos, esse equilíbrio, essa harmonia é entendido como um ponto isolado no espaço ou mesmo como uma barra de metal apoiada em algo e que, por estar em uma situação extremamente delicada, tem que ser mantida isolada de tudo e de todos

o   Isso resulta, então, em que todos deveriam ficar parados e isolados para mantermo-nos harmônicos

§  Esse isolamento parado constitui o quietismo (de que o ascetismo é uma variação)

§  Ao propor o isolamento parado, o quietismo corresponde a uma concepção individualista e, no limite, antissocial do ser humano

§  Em virtude dessas características, torna-se claro que o quietismo não é, de fato, uma solução real, ou seja, não é uma solução que possa ser generalizada para as sociedades e para todos os seres humanos e que possa ser mantido ao longo do tempo

-        A concepção dinâmica, em contraposição, considera que a harmonia obtém-se (1) em meio ao movimento e (2) graças aos movimentos da vida

o   Nesse caso, pode-se falar, embora de maneira um pouco inadequada, de “equilíbrio dinâmico”

§  Esse equilíbrio é entendido como u’a margem, um espaço dentro do qual variamos diariamente e também ao longo da vida

§  Os próprios limites variam ao longo do tempo

o   A concepção dinâmica incorpora os movimentos e pressupõe que é graças às interações com o mundo e, principalmente, graças às interações sociais que se desenvolve o equilíbrio

o   Há, portanto, a afirmação do caráter relacional e, em particular, do caráter social do ser humano

o   A rejeição do quietismo na concepção dinâmica não significa que, às vezes, não sejam necessários o relativo isolamento e a introspecção

-        A concepção dinâmica da harmonia, como afirma o caráter social do ser humano, estabelece que a harmonia tem que se dar tanto para o indivíduo quanto para a sociedade

o   Mais do que isso: a harmonia social surge como poderosa influência para a harmonia individual

-        A falta de harmonia pode ser entendida como a ausência de acordo entre as várias disposições individuais entre si e também a ausência de acordo entre as disposições do ser humano com o mundo e a sociedade

o   Do que estamos expondo fica muito claro que esse problema é realmente gigantesco; o quietismo foi uma solução tentada ao longo da história e aparentemente eficaz, mas que se comprovou que, no fundo, é somente um escapismo antissocial

-        A solução para o problema da harmonia deve consistir em buscar algum princípio que, ao mesmo tempo, estabeleça a harmonia individual e a harmonia coletiva

o   A partir de reflexões morais de caráter histórico e sobre as relações entre o ser humano e o mundo, Augusto Comte percebeu que a única solução possível para a harmonia é a subordinação do egoísmo ao altruísmo, via Humanidade

o   A subordinação do egoísmo ao altruísmo permite a disciplina e a regulação dos egoísmos, em termos individuais e coletivos

o   Além disso, o caráter social do ser humano atua como um poderoso auxílio nesse sentido, ao impor limites para os egoísmos individuais e ao estimular condutas altruístas

§  As sociedades positivas tendem, cada vez mais, para a realização desses ideais e dessas concepções

§  Ao mesmo tempo, a realização desses ideais e valores implica também que os indivíduos incorporem-nos como ideais e valores pessoais e, dessa forma, que os assumam e pratiquem

§  Em outras palavras, a busca e a realização da harmonia é tanto uma situação de fato (ela realiza-se cotidianamente) quanto uma prescrição (ela deve ser buscada)

o   Tal solução envolve o conjunto da existência humana: envolve e satisfaz os sentimentos, requer e disciplina o uso da inteligência, tem fins práticos; disciplina os indivíduos e organiza a vida coletiva

o   Daí a importância central da concepção e do ideal de “Humanidade”

-        Vale a pena repetir: o problema da harmonia é enorme e delicado

o   As indicações acima representam a única solução possível; mas, ao mesmo tempo, temos que admitir que elas apresentam um caráter geral e abstrato

o   A cada momento, tanto os indivíduos quanto as sociedades devem realizar ao máximo todos os esforços possíveis para aplicar esses princípios, conforme as situações concretas que todos e cada um vivem

o   É importante lembrar que a orientação altruísta do egoísmo não significa a negação do egoísmo: em outras palavras, os interesses e os pendores pessoais e coletivos devem ser entendidos como legítimos, sendo aceitos e respeitados

o   Assim, em cada interação social, em cada proposta elaborada, em cada ação realizada deve-se tentar aplicar esse princípio: o processo contínuo de aperfeiçoamento individual e coletivo, na forma da orientação altruísta do egoísmo, resulta em esforços educativos e religiosos

o   A imensidão e a dificuldade do problema exigem que todos os recursos e os esforços destinados a colaborar com a harmonia individual e coletiva devem ser empregados ao máximo, o tempo todo: como sabemos, essa é a definição positiva da moralidade

§  Inversamente, o que afasta esses recursos e esforços desses objetivos deve ser entendido como imoral

-        A Religião da Humanidade é um grande sistema que reconhece, disciplina e orienta os nossos vários recursos para a busca e a realização da harmonia humana

o   Como sabemos, a concepção central, que unifica e coordena todos esses esforços, é a Humanidade

o   No que se refere à harmonia, todas essas várias concepções foram resumidas por Augusto Comte nas fórmulas “agir por afeição e pensar para agir” e “viver para outrem”