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11 fevereiro 2026

A Humanidade como deusa positiva - 1

No dia 13 de Homero de 172 (10.2.2026) realizamos nossa prédica positiva, dando continuidade à leitura comentada do Apelo aos conservadores (em sua Segunda Parte - conduta dos positivistas em relação aos retrógrados).

No sermão contamos com a colaboração de nosso correligionário Hernani Gomes da Costa, que apresentou suas reflexões sobre a Humanidade como deusa positiva.

Devido ao seu caráter compartilhado, a prédica foi transmitida exclusivamente pelo nosso canal Positivismo (https://youtu.be/xuoG6o2BxcY).

As anotações que orientaram a exposição oral encontram-se reproduzidas abaixo.

*   *   *


A Humanidade como deusa positiva

(13 de Homero de 172/10.2.2026) 

1.      Abertura da prédica

2.      Datas e celebrações:

2.1.   Dia 10 de Homero (7 de fevereiro): nascimento de Paulo de Tarso Monte Serrat (1923 – 103 anos)

2.2.   Mês de Homero: segundo mês do ano, dedicado à arte antiga

3.      Leitura comentada do Apelo aos conservadores

3.1.   Antes de mais nada, devemos recordar algumas considerações sobre o Apelo:

3.1.1.O Apelo é um manifesto político e dirige-se não a quaisquer pessoas ou grupos, mas a um grupo específico: são os líderes políticos e industriais que tendem para a defesa da ordem (e que tendem para a defesa da ordem até mesmo devido à sua atuação como líderes políticos e industriais), mas que, ao mesmo tempo, reconhecem a necessidade do progresso (a começar pela república): são esses os “conservadores” a que Augusto Comte apela

3.1.2.O Apelo, portanto, adota uma linguagem e um formato adequados ao público a que se dirige

3.1.3.Empregamos a expressão “líderes industriais” no lugar de “líderes econômicos”, por ser mais específica e mais adequada ao Positivismo: a “sociedade industrial” não se refere às manufaturas, mas à atividade pacífica, construtiva, colaborativa, oposta à guerra

3.2.   Outras observações:

3.2.1.Uma versão digitalizada da tradução brasileira desse livro, feita por Miguel Lemos e publicada em 1899, está disponível no Internet Archive: https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores

3.2.2.O capítulo em que estamos é a “Segunda Parte”, cujo subtítulo é “Conduta dos conservadores em relação aos retrógrados”

3.3.   Passemos, então, à leitura comentada do Apelo aos conservadores!

4.      Exortações

4.1.   Sejamos altruístas!

4.2.   Façamos orações!

4.3.   Como Igreja Positivista Virtual, ministramos os sacramentos positivos a quem tem interesse

4.4.   Para apoiar as atividades dos nossos canais e da Igreja Positivista Virtual: façam o Pix da Positividade! (Chave Pix: ApostoladoPositivista@gmail.com)

5.      Sermão: a Humanidade como deusa positiva

5.1.   Este sermão será um pouco diferente do habitual, seja por sua origem, seja por sua estrutura

5.1.1.Há alguns meses, para uma pesquisa universitária, nosso jovem correligionário Emerson propôs-nos – na verdade, a nós e a nosso amigo Hernani – um questionário, em que uma das questões referia-se à eventual existência de alguma noção de “deus” no âmbito do Positivismo; essa é uma questão interessante, que, apesar dos pesares, não é tão evidente quanto pode parecer à primeira vista;

5.1.2.Assim, considerando sua importância, decidimos apresentar publicamente nossa resposta (que, de qualquer maneira, é pública por si só), assim como a do Hernani

5.2.   Vamos, então, à resposta de Hernani!

6.      Término da prédica

 

Referências

- Auguste Comte (franc.), Síntese subjetiva (Paris, Exécution Téstamentaire d’Auguste Comte, 2ª ed., 1900): https://archive.org/details/lasynthsesubjec00comtgoog.

- Augusto Comte (franc.), Discurso sobre o espírito positivo, in: Sistema de política positiva (Paris. J.-B. Baillière, 4ª ed., 1880): https://archive.org/details/systmedepoliti01comt.

- Augusto Comte (franc.), Sistema de filosofia positiva (Paris, Société Positiviste, 5e ed., 1893).

- Augusto Comte (port.), Apelo aos conservadores (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores.

- Augusto Comte (port.), Catecismo positivista (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 4ª ed., 1934).

- Luís Lagarrigue (esp.), A poesia positivista (Santiago do Chile, 1890): https://archive.org/details/luis-lagarrigue-a-poesia-positivista-1890_202509.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), As últimas concepções de Augusto Comte (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-i e https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-ii.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), O ano sem par (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1900): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-o-ano-sem-par-portug._202312/page/n7/mode/2up

06 agosto 2025

Instituições positivistas próprias aos estadistas

No primeiro capítulo do Apelo aos conservadores (de 1855), intitulado “Primeira parte – doutrina apropriada aos verdadeiros conservadores”, Augusto Comte apresenta sete instituições próprias ao Positivismo e adequadas aos estadistas e àqueles a quem ele chama de “conservadores”. Essas instituições são apresentadas logo após a breve exposição de duas noções também próprias ao Positivismo: indicaremos abaixo todas elas, indicando a respectiva paginação na tradução brasileira do livro, de 1898, realizada por Miguel Lemos.

A tradução brasileira está disponível na internet aqui: https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores. Explicações sobre o Apelo podem ser lidas no blogue Filosofia Social e Positivismo nas postagens feitas a partir de 27 de novembro de 2024, começando por esta: https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2024/11/leitura-comentada-do-apelo-aos.html.

 


N.

Categorias gerais

Noção/instituição

1.                   

 

Sentidos da palavra “positivo”

2.                   

Resumos gerais 

(p. 25-30)

Noção moral de que a submissão é a base do aperfeiçoamento

 

3.                   

 

Supremacia dos sentimentos

4.                   

Condições fundamentais

(p. 30-35)

Relatividade completa

5.                   

 

Indivisibilidade da verdadeira síntese

6.                   

Princípio universal 

(p. 35-46)

Dogma da Humanidade

7.                   

 

Preponderância da moral

8.                   

Instituições características

(p. 46-55)

Separação dos dois poderes

9.                   

 

Dignidade da mulher

 


04 julho 2025

A. Comte dignificando as mulheres

As citações abaixo apresentam diversas avaliações de Augusto Comte a respeito das mulheres. Contra o senso comum acadêmico e o senso comum politicamente correto (a começar pelo das feministas), o fundador da Sociologia evidencia valorizar extremamente as mulheres, indicando chegeram elas a ser superiores aos homens.

Os trechos que reproduzimos correspondem a escritos de Augusto Comte publicados nos anos de 1848 a 1855, ou seja, após o venturoso relacionamento de Comte com Clotilde Vaux no "ano sem par" (entre 1845 e 1846) e até pouco antes de sua morte (em 1857). Eles contrastam fortemente com os escritos de Comte anteriores ao "ano sem par".

Enquanto a carreira de Comte anterior a 1845 foi entendida pelo próprio pensador em termos que hoje chamaríamos de "cientificista", os seus escritos posteriores a essa data são religiosos. Ora, é notável, para não dizer chocante ou até escandoloso, que a fase religiosa de Comte seja considerada como produto de "loucura" ou de "decadência mental". Essa avaliação degradante é ruim por si mesma; quando relacionada à opinião de Comte sobre as mulheres, tem o contraditório resultado de que, nos termos do senso comum acadêmico e feminista, a valorização das mulheres por Augusto Comte corresponde a uma decadência mental. (Evidentemente, é melhor para o senso comum acadêmico (e feminista) desprezar a fase religiosa de Augusto Comte e os seus intensos elogios às mulheres, por meio do expediente de selecionar, como em um buffet intelectual, o que julgam "correto" no pensamento do fundador da Sociologia.)

Os trechos abaixo não esgotam nem as avalições de A. Comte sobre as mulheres nem os elogios a elas; são apenas alguns trechos que recolhemos com rapidez para responder a uma odiosa provocação academicista, contra Augusto Comte, feita no Facebook. Tendo sido feita com rapidez, não consultamos nem o Sistema de política positiva, nem a correspondência trocada entre Augusto Comte e Clotilde de Vaux, nem o conjunto da correspondência de Augusto Comte; caso tivéssemos pesquisado nesses outros documentos, a quantidade de citações seria bem maior.

*   *   *

Citações disponíveis no portal Auguste Comte et le Positivisme, sobre a mulher (http://confucius.chez.com/clotilde/analects/femme.xml)

- “Uma convicção familiar fará profundamente sentir a todo positivista que nossa verdadeira felicidade, tanto privada quanto pública, depende sobretudo do aperfeiçoamento moral e que este resulta principalmente da influência da mulher sobre o homem” (Sistema de política positiva, v. I, 1851, p. 259).

- “Superiores pelo amor, mais dispostas a sempre subordinar ao sentimento a inteligência e a atividade, as mulheres constituem espontaneamente os seres intermediários entre a Humanidade os homens” (Sistema de política positiva, v. II, 1852, p. 63).

- “A revolução feminina deve agora completar a revolução proletária, como esta consolida a revolução burguesa, emanada inicialmente da revolução filosófica” (Catecismo positivista, Prefácio).

 

Trechos do Discurso sobre o conjunto do Positivismo (1848), quarta parte: “Influência feminina do Positivismo” (tradução brasileira, edição de 1945)

- “Esse sexo [o feminino] é certamente superior ao nosso [masculino], quanto ao atributo mais fundamental da espécie humana, a tendência a fazer prevalecer a sociabilidade sobre a personalidade. Por esse título moral, independentemente de toda destinação material, ele merece sempre a nossa terna veneração, como o tipo mais puro e mais direto da humanidade, que nenhum emblema representará dignamente sob forma masculina” (p. 11).

- “Em virtude do conjunto desta quarta parte [do livro Discurso sobre o conjunto do Positivismo], o elemento mais sistemático do poder moderador não tem meios afinidade com o elemento mais simpático do que com o mais sinérgico. Só tal adesão feminina permite aos filósofos completarem a organização da força moral, fundada primeiro na aliança popular. Instituindo hoje o impulso regenerador que deve terminar a revolução, esse concurso decisivo inaugurará já a ordem final [...]” (p. 51).

 

Trechos do Catecismo positivista (1852; tradução brasileira, quarta edição, 1934)

- “Por mais sólidos que sejam os fundamentos lógicos e científicos da disciplina intelectual que a filosofia positiva institui, esse regime severo é demasiado antipático aos espíritos atuais para que ele possa prevalecer jamais sem o apoio irresistível das mulheres e dos proletários” (Prefácio, p. 11).

- “A MULHER – Pois que o culto íntimo se torna, assim, a primeira base de todas as nossas práticas sagradas, rogo-vos, meu pai, que me expliqueis diretamente a verdadeira natureza dele.

O SACERDOTE – Ele consiste, minha filha, na adoração cotidiana das melhores personificações que nos seja dado assinalar à Humanidade, à vista do conjunto de nossas relações privadas.

Toda a existência do Ser supremo fundando-se no amor, único laço que reúne voluntariamente os seus elementos separáveis, o sexo afetivo constitui naturalmente o representante mais perfeito, e ao mesmo tempo o principal ministro do Grande Se. A arte jamais poderá representar a Humanidade de modo condigno senão sob a forma feminina” (4ª Conferência, p. 120).

 

Trechos do Apelo aos conservadores (1855; tradução brasileira, 1898)

- “Essas aspirações são diretamente realizadas e desenvolvidas na religião positiva, na qual, a existência do Grão-Ser [a Humanidade], fundando-se sempre no amor, o sexo amante fornece a melhor personificação desse Ser. A mulher, que oferece, a todos os respeitos, o verdadeiro tipo de nossa espécie, constitui um mediador necessário entre o homem e a Humanidade, como o sacerdócio se interpõe entre os dois sexos” (p. 54).

- “Por seu turno, as mulheres apreciarão a moralidade da única fé capaz de identificar a felicidade e o dever, colocando aquele e esta no exercício contínuo dos instintos simpáticos, mediante o impulso conexo da vida privada e da vida pública. Sem renunciarem às convicções provenientes de sua educação e de seus hábitos, elas reconhecerão que a imortalidade subjetiva, fundada sobre o altruísmo, é superior a uma ressurreição objetiva em que prevalece o egoísmo” (p. 121).

23 junho 2025

Décio Villares: "A Humanidade" e variações

O grande artista brasileiro - e positivista - Décio Villares (1851-1931) pintou a tela "A Humanidade", em que se vê a Humanidade com os traços de Clotilde de Vaux (segundo os votos de Augusto Comte), segurando no colo o futuro; a criança segura em sua mão (e olha para ele) um medalhão com o "dom do coração", ou seja, u'a mecha de cabelos de Clotilde, que esta presenteou a Augusto Comte durante o "ano sem par" (1845-1846). Essa belíssima tela embeleza o Catecismo positivista, especialmente em sua quarta edição, de 1936.

Reproduzimos abaixo essa tela. Na seqüência incluímos algumas variações elaboradas pelo Chat GPT em 16.6.2025; como se vê, a inteligência artificial apresenta grandes dificuldades de executar a contento alterações solicitadas.







07 maio 2025

Diálogo sobre o sincretismo no Positivismo 1

 


O texto abaixo corresponde a uma versão editada de um diálogo que ocorreu no dia 6 de maio de 2025, em um grupo do Whattsapp que trata do Positivismo e da Religião da Humanidade. Esse diálogo foi motivado por um participante do grupo, um jovem estudante interessado no Positivismo, que, em meio às conversas do grupo, teve uma dúvida sobre o sincretismo religioso. As respostas foram dadas por Hernani Gomes da Costa. Esse diálogo foi tão esclarecedor que julgamos valer a pena publicá-lo.

O diálogo foi editado com dois objetivos principais: por um lado, adequar a conversa a uma versão publicada; por outro lado, preservar a privacidade do estudante.

 

*   *   *

 

Estudante

Uma pergunta, que pode parecer bobagem. Nas religiões afro-brasileiras é comum o sincretismo dos santos católicos com os orixás (São Jorge = Ogum etc.) por questões históricas. No Positivismo em algum momento houve o sincretismo da Humanidade com a Virgem Maria? Os positivistas podem associar os dois símbolos (Humanidade e Maria) nos cultos? Seja em particular, seja em público – por exemplo, fazendo um altar positivista com a imagem de Maria.

 

Hernani

Excelente pergunta! O Positivismo procura antes de tudo compreender qual foi o processo de construção dos símbolos, bem como as razões pelas quais eles se tornam populares durante um tempo e são em seguida substituídos por outros.

Nesse sentido, interpretamos a Virgem Mãe como representando o ideal humano que consiste no máximo de pureza e de ternura juntos. A pureza significa a compressão do egoísmo e é representada pela idéia da Virgem; a ternura é a expansão do altruísmo, representada, no caso, pela idéia da mãe. A necessidade sociológica e moral que criou esse símbolo obedeceu inconscientemente a uma tentativa de conjugar a pureza e a ternura numa só imagem.

O sincretismo operou-se em todas as religiões de modo inconsciente e espontâneo, mediante as associações formadas entre as idéias de vários deuses que se assemelhavam em seus papéis e personalidade. A proposta do Positivismo é a de tornar esse processo sincrético algo consciente e deliberado, de modo a assim sistematizá-lo.

Augusto Comte manifestou o desejo de que as futuras representações de imagens da Humanidade tivessem os traços de Clotilde de Vaux. Mas ele também elegeu uma imagem católica de sua preferência.

Tudo quanto importa no caso, portanto, é que não haja confusão entre as crenças. Qualquer símbolo que estimule o amor pode integrar o altar. Seja de que religião for. Mas esse culto se tornará de fato sobrenatural se os símbolos que adotarmos ainda se referirem às crenças originais correspondentes aos mitos, tais como eles foram a princípio imaginados.

 

Estudante

Compreendo. Então o sincretismo dentro do positivismo pode ser benéfico se não misturamos os significados. É necessário ressignificar o símbolo.

 

Hernani

Sim! O símbolo pode ser ressignificado de pelo menos duas formas. Mantendo sua identidade original e mudando seu modo de sua existência; de objetiva para subjetiva. Ou então cultuando-o segundo uma interpretação nova. Vejamos um exemplo. Podemos historicamente cultuar Prometeu na qualidade de uma criação mítica da Humanidade que veio a compor certa religião. Nesse caso mantivemos o conteúdo original da idéia de Prometeu, e apenas mudamos sua existência, de objetiva para subjetiva. Mas podemos também ver Prometeu como símbolo que representa o primeiro ser humano a obter fogo através de fricção. Nesse último caso o símbolo de Prometeu sofreu uma mudança de significado, passando a representar uma outra idéia. (Citei Prometeu pelo fato de ele representar o primeiro dia do ano no Calendário Positivista concreto).

28 agosto 2024

Programa republicano mínimo – Orientações para o voto no dia 6 de outubro

IGREJA POSITIVISTA VIRTUAL

Programa republicano mínimo  

Orientações para o voto no dia 6 de outubro

  

1. Introdução: a necessidade de critérios para escolher candidatos

 

Neste ano, no dia 6 de outubro, teremos eleições municipais, em que a população brasileira elegerá seus novos prefeitos e vereadores; desde o dia 16 de agosto temos campanha eleitoral. Os partidos políticos, a Justiça Eleitoral, os meios de comunicação e vários grupos da sociedade civil afirmam que é importante “votar com consciência”, “votar de maneira esclarecida”, “buscar os melhores candidatos”, mas muito raramente, para não dizer nunca, são apresentados com clareza os critérios que definem a “consciência”, o “esclarecimento”, os “melhores”. No máximo há a afirmação de que os candidatos escolhidos devem “representar” os eleitores, com isso querendo dizer que os candidatos devem pensar e agir de maneira semelhante aos eleitores – o que, dizendo com clareza, está muito distante dos verdadeiros interesses sociais.

 

Com o objetivo de auxiliar a reflexão pública e, na medida do possível, orientar nossos concidadãos eleitores na escolha de candidatos a prefeito e a vereador, apresentaremos neste documento alguns critérios positivos e critérios negativos – ou seja, opiniões e comportamentos que os candidatos devem apresentar para serem escolhidos, bem como opiniões e comportamentos que são motivos para rejeitar candidatos.

 

Este manifesto é dirigido a todos e todas os brasileiros e brasileiras, nossos concidadãos eleitores e nossas concidadãs eleitoras. Como se verá, à primeira vista talvez o programa abaixo pareça muito exigente: mas, por um lado, isso não é motivo para desconsiderá-lo; por outro lado, isso indica o quanto estamos distantes do republicanismo no Brasil.

 

Antes, porém, é importante expor os fundamentos políticos, sociais e morais dos critérios que apresentaremos.

 

2. A política positiva e a república

 

Desde 15 de novembro de 1889 o Brasil é uma República. Embora à primeira vista o conceito de “república” pareça pouco, na verdade ele é um dos mais densos e importantes na vida de qualquer cidadão. A noção de república é um ideal: nem sempre esse ideal realiza-se na prática, mas isso não é motivo para desvalorizar o ideal, nem para rejeitá-lo. Vejamos, então, quais são os elementos desse ideal.

 

O sentido fundamental da república é o bem comum: efetivamente se dedicar ao bem-estar coletivo, superando o individualismo, o egoísmo, os particularismos, isso é ser republicano. Além disso, a república também se opõe à monarquia e, portanto, à sociedade de castas; em outras palavras, na república o valor de uma pessoa é dado pelo mérito individual, em vez de ser pelas condições em que nasceu (pelo “berço”).

 

Mais importante do que isso, a dedicação ao bem comum significa a subordinação da política à moral, ou seja, a subordinação da política aos princípios e valores maiores da Humanidade, em que a família subordina-se à pátria e a pátria subordina-se à Humanidade. Somente assim a atividade política pode ser entendida como a dedicação ao bem comum e, a partir disso, ser fiscalizada e responsabilizada.

 

Disso se seguem várias conseqüências. A primeira delas é que o conjunto da sociedade deve sempre ser levado em consideração. A fraternidade universal é um valor básico: como todos devem orientar suas condutas para a melhoria de vida de todos, o respeito mútuo e a afirmação da dignidade fundamental de todos são pilares da vida coletiva. Daí se segue também que as relações sociais têm que ser pacíficas: qualquer forma de violência degrada as relações humanas e o ambiente social. O pacifismo e a fraternidade universal impõem, por seu turno, o repúdio ao racismo e às discriminações de “gênero”; da mesma forma, eles exigem o respeito ao meio ambiente e, claro, aos animais.

 

Uma segunda conseqüência é que, embora toda sociedade moderna seja composta por patrícios e proletários, a maior parte da sociedade é composta pelo proletariado (ou seja, pelos trabalhadores) e os esforços sociais têm que se orientar para a melhoria das suas condições de vida: é esse o objetivo que deve orientar a ação dos patrícios.

 

A regra republicana básica é o “viver às claras”: cada um deve adotar valores em sua vida que sejam publicamente defensáveis e de fato viver conforme esses valores. No caso dos governantes e das figuras públicas, o viver às claras também significa que todos os seus atos são responsabilizáveis, ou seja, são passíveis de acompanhamento, avaliação e cobrança públicas. A publicidade dos atos e das motivações é a regra, nunca a exceção. Como conseqüência do viver às claras, todos devem sempre falar a verdade e cumprir o prometido – ou, em outras palavras, não se deve mentir nem se deve trair.

 

A instituição republicana básica é a separação entre igreja e Estado: o aconselhamento não pode nem precisa da violência do Estado para fazer-se valer, nem o Estado pode condicionar os seus serviços à aceitação de crenças oficiais. Isso é o que se chama vulgarmente de “laicidade”; uma de suas conseqüências é que sacerdotes devem manter-se afastados do Estado a fim de garantirem sua dignidade, assim como o Estado deve recusar sacerdotes para não ser usado como instrumento de opressão. O afastamento dos sacerdotes em relação à política não quer dizer alienação nem indiferença; quer dizer que, como sacerdotes, não podem trabalhar para o Estado.

 

A separação entre igreja e Estado é a base das liberdades fundamentais: são as liberdades de crença, de manifestação e de associação, assim como o direito de ir e vir, o habeas corpus e o devido processo legal. Adicionalmente, os órgãos do Estado – especialmente os que são responsáveis diretos pelo atendimento à população – e os servidores públicos devem ser valorizados, mantendo-se sempre também a dignidade da chamada iniciativa privada.

 

Finalmente, as instituições sociais fundamentais devem ser valorizadas, a começar pela família. Entre a família e a sociedade política (as pátrias) as relações são de complementaridade, não de oposição; o papel da família é o de desenvolvimento afetivo e de educação moral, preparando os cidadãos para a vida na sociedade mais ampla; o papel da sociedade política é o de realizar os trabalhos práticos necessários para manter e desenvolver a vida de todos. Como é mais ampla, a sociedade política regula e protege a família. As pátrias, por sua vez, devem todas unir-se em prol da Humanidade. Assim como os proletários devem ser valorizados e respeitados, as mulheres devem ser valorizadas e ter sua dignidade mantida e afirmada.

 

Esses valores e essas práticas constituem muito do que é a república, embora não a esgotem. Tudo isso almeja a realização dos um dos supremos ideais dos brasileiros e de todos os seres humanos, que é a união da ordem com o progresso. Como dissemos em outro manifesto[1], quando a ordem e o progresso ficam separados, eles tornam-se antagônicos um em relação ao outro, de tal maneira que a ordem transforma-se em ordem retrógrada e opressiva e o progresso torna-se caótico e também opressivo. Apenas a união das duas perspectivas, em que ambas sejam simultaneamente respeitadas e valorizadas, torna possível que cada uma delas seja cumprida. A ordem consiste na consolidação do progresso, ao passo que o progresso é o desenvolvimento da ordem; o vínculo entre ambos é o amor, que, em termos políticos, deve ser entendido em termos de fraternidade, respeito mútuo e tolerância. O respeito à ordem não equivale à submissão cega ou servil ao poder político; da mesma forma, a verdadeira relação entre o poder e os cidadãos não é a de um soldado que se submete ao seu comandante.

 

3. Recomendações positivas: procurar candidatos com este perfil

 

Considerando os valores e os princípios indicados acima, recomendamos que se vote em candidatos a prefeito ou a vereador que apresentem estas características:

 

-        respeitem e façam valer a separação entre igreja e Estado (a chamada “laicidade do Estado”)

 

-        respeitem a dignidade humana e a fraternidade universal

 

-        respeitem a dignidade do espaço público e das instituições republicanas

 

-        respeitem a dignidade e valorizem as condições de vida da população brasileira, em particular dos trabalhadores e dos mais pobres, além dos povos indígenas

 

-        respeitem a dignidade e valorizem a família, independentemente da orientação sexual de cada família

 

-        respeitem e valorizem a dignidade das mulheres

 

-        tenham histórico de combate ao racismo e a outras discriminações

 

-        tenham histórico de defesa da dignidade e das condições de vida dos animais

 

-        tenham histórico de defesa do meio ambiente

 

4. Recomendações negativas: recusar candidatos com este perfil

 

Considerando os valores e os princípios indicados acima, recomendamos que não se vote em candidatos a prefeito ou a vereador que tenham um histórico pessoal e intelectual contrário ao republicanismo. De modo específico, rejeitamos candidaturas que apresentem estas características:

 

-        sejam membros de cleros, ou seja, sacerdotes, padres, pastores ou equivalentes

 

-        promovam o clericalismo nas funções públicas (o uso do Estado para promover cultos e/ou doutrinas)

 

-        desvalorizem os problemas sociais e/ou criminalizem a pobreza

 

-        promovam a cultura da violência, em particular estimulando a difusão e o uso de armas de fogo pela população civil

 

-        promovam valores e práticas exclusivistas e excludentes, incluindo aí as chamadas pautas identitárias

 

-        neguem os problemas ambientais (os “negacionistas climáticos”)

 

-        promovam a “cultura do cancelamento”

 

-        promovam a “cultura da baixaria”

 

-        tenham histórico de ligação com o crime, na forma de apoio ou participação em milícias; de apoio ou participação no crime organizado; de irresponsabilidade pessoal

 

-        promovam o racismo, a misoginia e preconceitos diversos

 

 

 

Curitiba, 28 de agosto de 2024.

 

 



[1] Abaixo-assinado A bandeira nacional republicana não é fascista, de 26 de outubro de 2022, disponível em: https://peticaopublica.com.br/pview.aspx?pi=BR127657.