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18 agosto 2026

As trindades positivas

No dia 6 de Gutenberg de 172 (18.8.2026) realizamos nossa prédica positiva, dando continuidade à leitura comentada do Apelo aos conservadores (iniciando a Conclusão - Missão peculiar aos verdadeiros conservadores).

No sermão abordamos as duas concepções de trindade positiva.

A prédica foi transmitida no canal Igreja Positivista Virtual (https://www.facebook.com/IgrejaPositivistaVirtual/videos/1417814206827155). Infelizmente, a transmissão via Youtube (no canal Positivismo) apresentou sucessivos problemas.

As anotações que serviram de base para a exposição oral encontram-se reproduzidas abaixo.

*   *   *

As trindades positivas

(6 de Gutenberg de 172/18.8.2026) 

1.     Abertura da prédica

2.     Datas e celebrações

2.1.   Dia 1º de Gutenberg (13.8): início das atividades do COMTE-Grupo Clotilde

2.2.   Dia 4 de Gutenberg (16.8): nascimento de David Carneiro, Jr. (1926 – 100 anos)

2.3.   De 13 de agosto a 9 de setembro: mês de Gutenberg, nono mês do ano, dedicado à indústria moderna

3.     Leitura comentada do Apelo aos conservadores

4.     Exortações

4.1.   Sejamos altruístas!

4.2.   Façamos orações!

4.3.   Como Igreja Positivista Virtual, ministramos os sacramentos positivos a quem tem interesse

4.4.   Para apoiar as atividades dos nossos canais e da Igreja Positivista Virtual: façam o Pix da Positividade! (Chave Pix: ApostoladoPositivista@gmail.com)

5.     Sermão: as trindades positivas

5.1.   As trindades positivas muitas vezes não são muito conhecidas

5.1.1. Elas integram a fase de pleno desenvolvimento religioso de nosso mestre e correspondem à aplicação, ou melhor, à junção do neofetichismo ao Positivismo

5.1.2. Assim, em certo sentido, podemos dizer que quem é plenamente religioso, ou, o que dá no mesmo, quem é plenamente positivista conhece e aplica as trindades positivas

5.2.   Quando falamos em trindade positiva, costumamos pensar em apenas uma, mas na verdade há duas trindades

5.2.1. Uma primeira trindade foi proposta por Augusto Comte em 1855 no Apelo aos conservadores, distinguindo a Prioridade (os seres humanos passados), a Posteridade (os seres humanos futuros) e o Público (os seres humanos presentes)

5.2.2. Uma segunda trindade positiva foi proposta por Augusto Comte em 1856 na Síntese positiva, distinguindo o Grão Meio (o Espaço), o Grão Fetiche (a Terra) e o Grão Ser (a Humanidade)

5.2.3. As datas de proposição dessas duas trindades já deixam claro que se tratam de concepções bastante avançadas: elas são posteriores à fundação da Religião da Humanidade (1848 e 1851-1854) e já entrando em novos âmbitos de atuação (a regulação da ação política, a regulação da subjetividade positiva)

5.2.4. Para facilitar o entendimento e distinguir uma da outra, podemos chamar a trindade do Apelo aos conservadores de “trindade social”; já a da Síntese subjetiva podemos chamar de “trindade religiosa”; os motivos para isso ficarão claros na seqüência

5.3.   Quais são as características da trindade positiva presente no Apelo aos conservadores?

5.3.1. Suas apresentações e características encontram-se na Primeira Parte (p. 39-40) e na Terceira Parte (p. 134-135) do livro

5.3.2. A Prioridade, a Posteridade e o Público representam os aspectos plenamente subjetivos e o objetivo da Humanidade

5.3.3. Em uma primeira abordagem, Augusto Comte considera cada um desses elementos e seus nomes:

5.3.3.1.          A Posteridade foi a primeira ser nomeada, referindo-se primeiro ao âmbito doméstico, depois ao cívico e por fim ao universal

5.3.3.2.          O Público refere-se aos servidores objetivos e diretos da Humanidade e apresenta uma autoridade crescente em relação aos negócios públicos

5.3.3.3.          Enquanto os nomes “Posteridade” e “Público” surgiram espontaneamente, coube a Augusto Comte denominar o elemento subjetivo prévio de “Prioridade” (empregando a aliteração com a letra “P”[1])

“[...] O elemento passado da população subjetiva, que é o único que fornece ao mesmo tempo os impulsos e os meios exigidos pela conservação e pelo aperfeiçoamento da suprema existência. Mas, além de que poderia ser chamado Prioridade, o conjunto dos predecessores tornando-se o principal objeto do culto universal, fica dispensado de um nome distinto, podendo sempre ser designado, sem confusão, como o Grão-Ser, do qual ele forma, cada vez mais, a base necessária” (Apelo, p. 40)

5.3.4. Em um segundo momento, nosso mestre considera a composição dos elementos da trindade positiva social, em particular para indicar as características do Público e seus atributos políticos:

“Comparando a Prioridade, o Público e a Posteridade, que compõem a trindade positiva, o grupo mais imperfeito aí sobreleva-se em virtude de sua subordinação necessária aos dois extremos, dos quais derivam a base e o fim de sua própria atividade. Apesar de sua menor perfeição, o ente médio participa da depuração característica; ele não admite senão os dignos membros da população objetiva e os classifica segundo o verdadeiro valor deles; nos tempos excepcionais, a ligação do porvir ao passado poderia concentrar-se numa única alma. A noção de Público, diretamente subordinada à da Humanidade, bastaria para superar o dogma da soberania popular. Os verdadeiros partidários do progresso social não tardarão em reconhecer que a insurreição dos vivos contra os mortos é contraditória com a digna preparação de um futuro que supõe o passado. Basta mesmo invocar a origem histórica do proletariado moderno para fazer sentir convenientemente, no caso mais decisivo e difícil, a correlação necessária entre os dois elementos da população subjetiva” (Apelo, p. 134-135).

5.4.   Quais são as características da trindade positiva presente na Síntese subjetiva?

5.4.1.  Antes de mais nada, temos que ter clareza que a trindade positiva religiosa é, ao mesmo tempo, mais ampla e mais profunda que a trindade social

5.4.1.1.          A trindade religiosa realiza de maneira plena a incorporação do fetichismo inicial ao Positivismo final, por meio do neofetichismo

5.4.1.2.          Em que consiste essa incorporação? Na afirmação plena da subjetividade e da afetividade na existência humana; na Síntese subjetiva (ou melhor, na primeira parte da “Introdução” dessa obra) essa afirmação é estabelecida como princípio regulador, que ao mesmo tempo disciplina a imaginação e a lógica humana

5.4.1.3.          Com essa regulação, a lógica deixa de ser – como é com a metafísica – meramente intelectual e meramente baseada nos sinais para ampliar-se e consistir nos procedimentos adotados para inspirar as concepções humanas, a partir dos sentimentos, das imagens e dos sinais

5.4.1.4.          A fim de estender a afetividade a toda a realidade humana, bem como aplicar a ela a subjetividade positiva, além de tornar a realidade mais racional, Augusto Comte elaborou a trindade religiosa

5.4.2. A trindade religiosa é composta pelo Grão Meio (o Espaço), pelo Grão Fetiche (a Terra) e pelo Grão Ser (a Humanidade)

5.4.2.1.          O Grão Meio, o Espaço, é abstrato; é nele que as leis naturais ocorrem; seu âmbito intelectual é principalmente lógico (a Lógica, que é como Augusto Comte renomeia, a partir da renovação religiosa, a Matemática)

5.4.2.2.          O Grão Fetiche é a Terra; acompanhada dos astros próximos e povoada pelas plantas e pelos animais, ela é concreta, é o nosso local de vida e é o primeiro objeto de adoração; seu âmbito intelectual são as ciências inferiores, ou melhor, a Física (incluindo aí a Astronomia, a Física propriamente dita e a Química)

5.4.2.3.          O Grão Ser é a Humanidade; ela é abstrata e concreta; ela é composta pela Prioridade, pela Posteridade e pelo Público; seu âmbito de atuação é a Moral (incluindo aí a Biologia como preâmbulo e a Sociologia como estudo próprio ao ser humano coletivo)

5.4.3. Há algumas propriedades adicionais em cada um dos elementos da trindade religiosa:

5.4.3.1.          Seguindo a afirmação generalizada da afetividade e a exclusividade humana da vontade (que é o emprego direcionado da inteligência), o Espaço é entendido como afetivo mas inerte e cego; a Terra é entendida como afetiva, ativa e cega; a Humanidade, por fim, é afetiva, ativa e inteligente

5.4.3.1.1.              Como dissemos, a vontade é um atributo vinculado à inteligência: a Humanidade é a única dotada de vontade, portanto

5.4.3.2.          Considerando as relações entre o mundo, o ser humano individual e o ser humano coletivo, Augusto Comte estabeleceu que “Entre o homem e o mundo é necessária a Humanidade”

5.4.4. Um outro aspecto importante é que, com o neofetichismo e a trindade religiosa, não somente o mundo torna-se mais racional, como se torna também mais afetivo e mais ativo:

5.4.4.1.          A maior racionalidade consiste em que o mundo torna-se melhor explicado e melhor sistematizado (de maneira muito, muito, muito grosseira poderíamos dizer que ele torna-se melhor “esquematizado”), com vários graus sucessivos de aproximação entre a realidade concreta e a realidade abstrata, entre o mundo e o ser humano

5.4.4.2.          A maior afetividade consiste em que a realidade como um todo é entendida, de fato, como afetiva, agindo passiva ou ativamente em nosso benefício: o mundo deixa ser um lugar seco, frio, estéril, como o monoteísmo apresenta e como a metafísica (seja a metafísica espiritualista, seja a metafísica materialista, seja também, em particular, a metafísica cientificista) reafirma, e torna-se um ambiente afetuoso, quente, aconchegante

5.4.4.3.          A maior atividade torna-se possível porque se afirma que, “para completar as leis são necessárias vontades”, ou seja, as preocupações especificamente humanas e as concepções neofetichistas completam com os dados concretos, específicos a cada caso, o que leis abstratas apresentam-nos de maneira geral (e sempre, necessariamente, incompleta)

5.4.4.3.1.              Devemos lembrar que as leis naturais integram o regime mental próprio à positividade e ao relativismo; além disso, elas são gerais, ao passo que as vontades (relativas ou absolutas) são sempre particulares

5.4.4.3.2.              As “vontades” que devem completar as leis são vontades relativas, isto é, destituídas da arbitrariedade e do capricho próprios ao absolutismo teológico-metafísico

5.4.5. As características da trindade religiosa podem ser sumariadas como segue: 

Elemento da trindade

Características

Método específico

Meio lógico

Ciência

Grão-Ser

(Humanidade)

-    Sentimentos

-    Atividade

-    Inteligência

(Vontade esclarecida)

Construção

Sentimentos

Moral (única final)

Grão-Fetiche

(Terra)

-    Sentimentos

-    Atividade

(Vontade cega)

Indução

Imagens

Física (preliminar: doutrina)

Grão-Meio

(Espaço)

-    Sentimentos

Dedução

Sinais

Lógica (preliminar: método)

 5.5.   Como relacionar as duas trindades?

5.5.1. O que propomos aqui é uma interpretação nossa, na medida em que nosso mestre não desenvolveu esse aspecto

5.5.2. Não nos parece difícil conciliar as duas trindades, na medida em que cada uma delas têm âmbitos diferentes: a trindade “social” refere-se aos três aspectos da historicidade humana e da própria Humanidade, ao passo que a trindade “religiosa” refere-se a três âmbitos sucessivos da realidade subjetividade humana em geral

5.5.3. A trindade religiosa é mais ampla, ou melhor, mais geral que a trindade social e, nesse sentido, ela merece o título de trindade positiva por excelência

5.5.4. Assim, temos a trindade positiva por excelência, que é a trindade religiosa (Grão Meio, Grão Fetiche, Grão Ser); ao considerarmos a Humanidade, ela desdobra-se na trindade social (Prioridade, Posteridade, Público)

6.     Término da prédica

 

Referências

- Auguste Comte (franc.), Síntese subjetiva (Paris, Exécution Téstamentaire d’Auguste Comte, 2ª ed., 1900): https://archive.org/details/lasynthsesubjec00comtgoog.

- Augusto Comte (franc.), Sistema de política positiva (Paris. J.-B. Baillière, 4ª ed., 1880): https://archive.org/details/systmedepoliti01comt.

- Augusto Comte (port.), Apelo aos conservadores (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores.

- Augusto Comte (port.), Catecismo positivista (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 4ª ed., 1934).

- José Lonchampt (port.), Ensaio sobre a oração (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1896; catálogo da IPB, n. 165): https://archive.org/details/n.-165-jose-lonchampt-ensaio-sobre-a-oracao.

- Luís Bueno Horta Barbosa (port.): Introdução geral ao estudo da lógica, ou matemática (Rio de Janeiro, Jornal do Comércio, 1933): https://archive.org/details/augusto-comte-logica-positiva.

- Luís Lagarrigue (esp.), A poesia positivista (Santiago do Chile, 1890): https://archive.org/details/luis-lagarrigue-a-poesia-positivista-1890_202509.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), As últimas concepções de Augusto Comte (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-i e https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-ii.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), O ano sem par (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1900): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-o-ano-sem-par-portug._202312/page/n7/mode/2up.



[1] A aliteração é um recurso estilístico em que sons de consoantes são repetidos no início das palavras (ou também no meio delas). Augusto Comte empregou a aliteração com o “P” na trindade positiva da Humanidade, assim como, na Política positiva (v. IV, p. 477), ao propor três festas para celebrar serviços cívicos pacíficos: Poste, Presse e Police (Correios, Imprensa e Polícia).

29 junho 2026

Luiz Gustavo Mota: "Hino a Augusto, mestre do amor"

Reproduzimos abaixo mais uma canção composta por Luiz Gustavo Mota, agora em homenagem a Augusto Comte: Hino a Augusto, mestre do amor.

Uma interpretação feita por inteligência artificial está disponível no Internet Archive, aqui: https://archive.org/details/luiz-gustavo-mota-hino-a-augusto-mestre-do-amor-2026.6.28.

*    *    *


Hino a Augusto, Mestre do Amor

Luiz Gustavo Mota

 

De pé, irmãos, ao Grande Ser

Que é a Humanidade a renascer

Erguei as mãos em devoção

Ao templo eterno do coração

 

Salve, Comte, mestre do amor

Teu livro acende o nosso ardor

Na Ordem santa, no Progresso em fé

Cantamos todos: assim seja, amém

 

Que o altar do lar nos una enfim

Pai, mãe, filho, um só jardim

E a Pátria seja em comunhão

Reflexo puro da compaixão

 

Salve, Comte, mestre do amor

Teu livro acende o nosso ardor

Na Ordem santa, no Progresso em fé

Cantamos todos: assim seja, amém

 

Oh, Lei Suprema a nos guiar

Viver para o outro é rezar

No hino eterno da fraternidade

Viva a Luz da Humanidade


11 junho 2026

Humanidade, Comte e Clotilde

Duas imagens geradas pelo Chat GPT, em que se pediu que aparecessem Augusto Comte, Clotilde de Vaux e a Humanidade (u'a mulher de cerca de 30 anos, com uma criança no colo). 

Após vários ajustes, chegamos aos dois resultados abaixo; o primeiro (de 8.6.2026) é o resultado-padrão do GPT e o outro (de  11.6.2026) é mais próprio à realidade brasileira.








21 maio 2026

Músicas positivistas

Em uma bela e importante iniciativa que retoma uma antiga mas - até agora - abandonada tradição, nosso correligionário Luiz Gustavo Mota compôs músicas positivistas. Luiz Gustavo redigiu as letras e solicitou à inteligência artificial que compusesse a melodia e que interpretasse as canções. Os resultados estão abaixo.

São duas músicas, disponíveis abaixo, a partir da coleção "Positivism" do Internet Archive:


 

Fonte: GPT, 21.5.2026.

Eis a letra do "Hino a Clotilde".


Hino a Clotilde, Anjo da Humanidade

Letra: Luiz Gustavo Mota

 

Salve, Clotilde, estrela da manhã,

Guia sublime do nosso coração.

Teu puro amor, que a terra não profana,

Nos ensinou a santa compaixão.

 

Ó Anjo nosso, vela por nós!

Ensina-nos a Ordem pelo Amor.

Que a Humanidade, em teu nome,

Caminhe unida ao Progresso e à Flor.

 

Da tua vida breve, fez-se luz,

Farol de altruísmo a nos guiar.

Morreste cedo, mas tua alma conduz

O Grande Ser que havemos de exaltar.

 

Ó Anjo nosso, vela por nós!

Ensina-nos a Ordem pelo Amor.

Que a Humanidade, em teu nome,

Caminhe unida ao Progresso e à Flor.

 

No altar da Pátria e no lar sagrado,

Teu nome inspira o viver para outrem.

Que cada gesto, por ti abençoado,

Seja o amor que a morte não consome.

 

“Viver para outrem, viver no outro,

Viver com o outro, pelo outro”.

Eis o lema que nos deste,

Ó Mãe eterna do Mundo Novo.

 

Ó Anjo nosso, vela por nós!

Ensina-nos a Ordem pelo Amor.

Que a Humanidade, em teu nome,

Caminhe unida ao Progresso e à Flor.


05 abril 2026

Celebrações de Clotilde de Vaux

Nos dias 9 e 11 de Arquimedes (3 e 5 de abril) celebramos o nascimento (1815) e a transformação (1846) de Clotilde de Vaux, a mãe espiritual do Positivismo.

Essas duas datas estão sendo celebradas por vários positivistas, do Brasil e da Itália. Para valorizar e perpetuar tais homenagens, reproduzimos abaixo as gravuras elaboradas.


Cartaz elaborado por Luiz Gustavo Mota.

Cartaz elaborado por Luiz Gustavo Mota.

Tradução do francês de Gustavo Biscaia de Lacerda.

Documento enviado por Mattia Caneppele.

Tradução do italiano solicitada ao GPT por Eugênio Macedo.

Temos abaixo duas versões da Ave Maria, de Gounod; uma cantada e outra executada no violino, ambas devidamente acompanhadas pelo piano.



10 março 2026

Dificuldade brasileira de lidar com a existência compartilhada

O jornal carioca Monitor Mercantil publicou em 9.3.2026 o nosso artigo "A dificuldade brasileira de lidar com a existência compartilhada".

O texto está reproduzido abaixo; o original pode ser lido aqui: https://monitormercantil.com.br/a-dificuldade-brasileira-de-lidar-com-a-existencia-compartilhada/.

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A dificuldade brasileira de lidar com a existência compartilhada

Entre a submissão ao exterior e o nacionalismo exagerado, os extremos da existência compartilhada. Por Gustavo Biscaia de Lacerda.

Cerimônia da troca de bandeiras do Brasil (foto de Fábio Pozzebom, ABr).

Nos anos 1930, Stefan Zweig afirmou que o Brasil seria o “país do futuro”. Ao mesmo tempo, muitos sociólogos e historiadores europeus e brasileiros afirmaram que o Brasil é um país “jovem”. Além disso, sempre ouvimos que o Brasil é um país continental.

A juventude do país pode ser avaliada não apenas pela sua história relativamente curta (a colonização sistemática do território tem apenas cerca de cinco séculos), mas principalmente devido aos desafios de infraestrutura (faltam estradas, falta integração) e de respeito à população (falta instrução, saúde etc.).

Sendo um país continental, o Brasil tem uma tendência fortíssima a concentrar-se em seus problemas internos, preocupando-se com o ambiente externo apenas e no máximo na medida em que esse ambiente externo influencia o interno.

Também temos uma preocupação imensa com as grandes potências de cada momento, em termos político-econômicos e culturais, a ponto de fazermos questão de sermos colonizados intelectual e moralmente. Nossas elites, com gosto, fazem questão de exibir seus gastos em Miami e na Europa, esnobando a produção nacional e dando a entender que quem consome produtos brasileiros vale menos ou que é um tipo pior de pessoa.

Por outro lado, desde os anos 1960, em face da mestiçagem e da miscigenação cultural brasileiras, Darcy Ribeiro propôs que o Brasil seja entendido e realize-se como uma “nova Roma”.

Por fim, em 2018, o prédio do Museu Nacional (que começou a ser construído em 1808), no Rio de Janeiro, sofreu um incêndio que o reduziu quase totalmente às cinzas. Já em 2019 a Catedral de Notre Dame (que começou a ser construído em 1163), em Paris, sofreu um incêndio; entretanto, ela não foi tão danificada quanto o nosso Palácio de São Cristóvão. Houve intelectuais de renome que disseram que a queima do Museu Nacional era muito pior que a de Notre Dame: a cultura nacional seria mais importante – e que os franceses que se danassem!

Os vários casos acima exemplificam diferentes formas de entender-se o Brasil e suas relações com a história e com outros povos. Nessa multiplicidade de situações, o que surge para nós são formas da incapacidade brasileira de lidar com a existência compartilhada – e, em particular, duas formas gerais dessa incapacidade.

A expressão “dificuldade em lidar com existência compartilhada” denota um problema mais facilmente compreensível em termos dos desvios e das degradações do nacionalismo, em que se rejeita o convívio com os outros países (e/ou outros povos, e/ou outras culturas). Mas ele é um problema não somente com os desvios do sentimento nacional, mas também com a sua ausência. Afinal de contas, não valorizar a si mesmo é um problema tão real quanto negar os outros (devido ou não à própria sobrevalorização).

A primeira modalidade, mais própria das elites, é a submissão, ou melhor, o servilismo aos outros países. Por certo que ela se baseia nos valores compartilhados, mas desconsidera, quando não despreza, a preocupação com o próprio país.

Como esse comportamento é mais próprio às elites, e elas têm grande facilidade de trânsito internacional, elas furtam-se às suas responsabilidades coletivas, produzindo resultados bastante negativos. Esta incapacidade de lidar com a existência compartilhada rejeita o próprio país; não se pode falar aí em “existência compartilhada”, na medida em que o compartilhamento pressupõe a existência do próprio país – e este comportamento despreza ou desdenha do próprio país.

A segunda forma de incapacidade de lidar com a existência compartilhada reconhece e afirma o próprio país, mas exagera tal afirmação. É claro que a força do nacionalismo depende da situação de cada país; um povo que lute por sua independência terá um nacionalismo intenso; mas um país que deseje dominar (ou conquistar) outro também será nacionalista.

Nesses casos, o problema não está em afirmar o próprio país, mas em reconhecer como legítimos os outros países (e/ou outros povos, e/ou outras culturas). Enquanto a modalidade cosmopolita de não saber lidar com a existência compartilhada baseia-se na ausência de sentimento nacional, a xenofobia e/ou o imperialismo consiste na degradação do sentimento nacional.

Em reação necessária à irresponsabilidade “cosmopolita” das elites, o nacionalismo afirma os valores e o interesse nacional. Sem tal afirmação, é impossível qualquer projeto efetivo de melhoria no país. A afirmação do sentimento nacional, portanto, é ao mesmo tempo necessária e legítima. Entretanto, com facilidade ele pode degradar-se em rejeição aos outros povos e xenofobia explícitas ou, de outra forma, na pretensão de que seríamos o renascimento da civilização.

A ideia de um país como renascimento da civilização é mais pacífica e mais generosa que a xenofobia; mas, ainda assim, o renascimento da civilização implica também a rejeição das outras sociedades, sejam as que vieram antes, sejam as que agora convivem conosco. Devemos lembrar que, no caso do Brasil, essas concepções têm o elemento adicional do ensimesmamento devido às dimensões continentais.

À primeira vista, a solução para o cínico cosmopolitismo seria o nacionalismo; mas, desenvolvido o sentimento nacional, os problemas próprios a ele com facilidade podem surgir. A solução para ambas as dificuldades para lidar com a existência compartilhada é e deve ser uma única. Aliás, o nome que estamos dando para o problema – dificuldade em lidar com a existência compartilhada – já sugere a solução necessária.

Para lidar com a degradação do sentimento nacional, não faz sentido, nem é possível, negar tal sentimento; o que deve ocorrer é sua modificação. De maneira direta, trata-se de afirmar que nenhum país existe sozinho no mundo e que todos os países do mundo desenvolvem-se ao longo do tempo, em um processo histórico que se iniciou há centenas de milhares de anos.

Em outras palavras, trata-se de afirmar com clareza e vigor a submissão moral (mas não submissão política) dos vários países à noção de Humanidade – e, além disso, da submissão da solidariedade (da existência hoje, no presente) à continuidade (da existência ao longo do tempo, na história, do passado rumo ao futuro).

Em outras palavras, sem negar a importância dos vários países e do sentimento nacional, trata-se de afirmar (em termos morais) que as pátrias não são a forma mais elevada de identidade social e política: sem tal submissão – e, sim, trata-se de uma submissão – o nacionalismo fica sem parâmetros e sujeito às piores degradações.

A noção de Humanidade tem que ser afirmada em termos morais e intelectuais; não faz sentido e não é aceitável sua conversão em uma realidade política, na forma quimérica de um “super-Estado” mundial. Todavia, por outro lado, é claro que a afirmação moral e intelectual da Humanidade tem que ter consequências políticas, a começar pela rejeição de toda violência entre as nações e pelo término de ambições expansionistas dos estados atuais (e começar pelos países que já são gigantescos, como Rússia e Estados Unidos).

Gustavo Biscaia de Lacerda é sociólogo da UFPR e doutor em Sociologia Política.