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15 abril 2026

Teocracia, democracia, sociocracia

No dia 20 de Arquimedes de 172 (14.4.2026) realizamos nossa prédica positiva, dando continuidade à leitura comentada do Apelo aos conservadores (concluindo a Segunda Parte - conduta dos positivistas em relação aos retrógrados).

No sermão abordamos brevemente os conceitos de "teocracia" (teológico), "democracia" (metafísico) e "sociocracia" (positivo).

A prédica foi transmitida nos canais Positivismo (https://youtube.com/live/bEgp1EHD0EE) e Igreja Positivista Virtual (https://www.facebook.com/IgrejaPositivistaVirtual/videos/1710328576819690).

As anotações que serviram de base para a exposição oral encontram-se reproduzidas abaixo.

*   *   *

Teocracia, democracia, sociocracia

(20 de Arquimedes de 172/14.4.2026) 

1.     Abertura da prédica

2.     Datas e celebrações

2.1.   Dia 22 de Arquimedes (16.4): nascimento de Ivan Lins (1904 – 122 anos)

3.     Leitura comentada do Apelo aos conservadores

4.     Exortações

4.1.   Sejamos altruístas!

4.2.   Façamos orações!

4.3.   Como Igreja Positivista Virtual, ministramos os sacramentos positivos a quem tem interesse

4.4.   Para apoiar as atividades dos nossos canais e da Igreja Positivista Virtual: façam o Pix da Positividade! (Chave Pix: ApostoladoPositivista@gmail.com)

5.     Sermão: teocracia, democracia, sociocracia

5.1.   O sermão de hoje aborda os regimes sociais e políticos próprios a cada uma das três grandes fases intelectuais humanas, a teologia, a metafísica e a positividade

5.1.1. Este sermão não é motivado por nenhum fator imediato, no sentido de que ninguém fez nenhuma pergunta, nenhum comentário a respeito; mas, ainda assim, como com freqüência tratamos desses conceitos, parece-me que vale a pena tratarmos deles com um pouco de cuidado

5.1.2. Este sermão apresentará apenas algumas breves indicações teóricas, históricas e práticas

5.2.   Este sermão corresponde, assim, ao cruzamento da lei intelectual dos três estados com práticas políticas; portanto, não se trata de apresentar, em si mesma, a lei prática dos três estados

5.2.1. Como já vimos inúmeras vezes, mesmo em uma prédica anterior (a do dia 14.Gutenberg.171/26.8.2025), existem três leis dos três estados – a intelectual, a prática e a afetiva

5.2.2. A lei intelectual corresponde à seqüência teologia-metafísica-positividade (ou, em termos mais gerais, absolutismo-relativismo); a lei prática corresponde à seqüência guerra de conquista-guerra defensiva-atividade pacífica produtiva; por fim, a lei afetiva corresponde à seqüência família-pátria-Humanidade

5.2.3. Como Augusto Comte observou reiteradas vezes, há uma correspondência geral entre cada um dos degraus dessas leis (por exemplo: positividade-atividade pacífica-Humanidade), o que aliás gera um reforço entre eles; ainda assim, o que queremos comentar não é uma exposição da lei prática dos três estados, mas uma aplicação prática da lei intelectual

5.3.   Antes de entrarmos no tema específico deste sermão, temos que lembrar que toda sociedade tem dois poderes, responsáveis pela regulação social: o poder temporal e o poder espiritual

5.3.1. O poder temporal regula objetivamente a sociedade, impondo comportamentos com base na violência física

5.3.2. O poder espiritual regula subjetivamente a sociedade, aconselhando comportamentos a partir da educação, das idéias e dos valores compartilhados

5.4.   Passemos então ao enunciado da lei intelectual dos três estados: conforme está no quadro da Filosofia Primeira[1], “Cada entendimento oferece a sucessão dos três estados, fictício, abstrato e positivo, em relação às nossas concepções quaisquer, mas com uma velocidade proporcional à generalidade dos fenômenos correspondentes”; trata-se da sétima lei, integrando o segundo grupo de leis (essencialmente subjetivo) e, neste grupo, correspondendo à segunda série de leis (as leis dinâmicas do entendimento)

5.4.1. Em outras palavras, toda concepção (toda idéia, toda noção) atravessa ao longo do tempo (em termos dinâmicos, portanto) um processo em que começa com referências às divindades (ou melhor, às divindades teológicas) e é positivada, com referências explícitas e conscientes ao ser humano, respeitando as leis naturais: em todo caso, esse processo corresponde à passagem do absolutismo ao relativismo

5.5.   Muitas concepções em si mesmas realizam essa transição de maneira um tanto autônoma, ou isolada; talvez, por exemplo, os raios nas tempestades; outras concepções, todavia, apresentam um desenvolvimento mais amplo, seja porque são mesmo mais amplas (referindo-se ao mesmo tempo a muitos aspectos da realidade), seja porque elas têm muitas aplicações específicas

5.5.1. Assim, o processo da positivação ocorre ao mesmo tempo em termos gerais e em termos específicos; forçando um pouco os termos, podemos dizer que a positivação ocorre tanto em termos sintéticos quanto analíticos, em que um apóia e reforça o outro

5.5.2. A visão geral do mundo é aplicada nas teorias do governo, isto é, nas teorias que justificam o governo e que, a partir disso, regulam as relações entre o mando e a obediência, entre o governo e a sociedade

5.5.3. Uma outra forma de entender essa questão é reconhecer que os elementos comuns a todas as sociedades – isto é, a sociologia estática, entre os quais se encontra, justamente, o governo – passam por uma evolução histórica específica – que é descrita e explicada pela sociologia dinâmica

5.6.   A evolução histórica do governo ocorre antes de mais nada em termos de justificativa, ou de legitimação, isto é, em termos dos princípios que explicam a dinâmica da sociedade e que tornam aceitáveis que os governantes mandem e que os governados obedeçam

5.6.1. A partir da legitimação geral temos formas específicas de organização do governo, ou melhor, formas específicas do poder temporal, do Estado

5.6.2. A legitimação consiste nos princípios socialmente compartilhados que tornam aceitável uma determinada forma de realizar o mando; essa forma não apenas é aceita como se torna obrigatória, contra outras formas possíveis

5.7.   Exemplificando e já passando para as formas de legitimação e de organização do Estado, consideremos a teologia e a teocracia

5.7.1. Sabemos que na teologia o mundo é explicado com referência às divindades teológicas, que são absolutas e caprichosas; o ser humano foi criado por elas para satisfação vaidosa dessas divindades, a quem se deve a adoração e a obediência e, inversamente, a quem não se pode desrespeitar: um mundo incompreensível, regido por uma entidade ciumenta, mantém e consagra um poder que não tolera discussão: temos aí um poder espiritual que exige para si o poder temporal, constituindo a teocracia

5.7.2. A teologia tem uma tendência fortíssima a sempre constituir teocracias

5.7.3. A teocracia verdadeiramente é o governo dos sacerdotes, em que o poder espiritual submete o poder temporal (representado pelos guerreiros); essa forma de governo é bastante estável e, historicamente, constituiu-se na forma de politeísmos conservadores

5.7.4. A confusão teológica dos dois poderes pode ocorrer no sentido oposto, com os guerreiros submetendo os sacerdotes; a literatura da ciência política no século XX passou a denominar essas formas de “cesaropapismo”, mas o Positivismo chama-os de “politeísmos progressistas” (Grécia e Roma)

5.7.5. No Ocidente, após os politeísmos conservador e progressista, tivemos o monoteísmo católico; o catolicismo teve a honra de, na Idade Média, ter ensaiado a separação entre os dois poderes, embora esse esforço tenha fracassado e a tendência geral para a teocracia afirmou-se no final; essa tendência afirmou-se na forma concreta do “direito divino dos reis”, em que os reis governam por mandato divino, submetendo-se e responsabilizando-se apenas perante deus

5.8.   Passando para a metafísica, ela é tão absoluta quanto a teologia, mudando de deus para entidades abstratas, geralmente “o povo”, mas também “a natureza”

5.8.1. A metafísica é tanto corrupção, degradação, da teologia quanto transição da teologia para a positividade; assim, a metafísica mantém o caráter absoluto – ou seja, indiscutível – da teologia, mas começa a incluir elementos humanos e sociais

5.8.2. Dessa forma, a metafísica substitui o direito divino dos reis, ou melhor, a soberania divina, pela soberania popular: a soberania popular é tão absoluta, indiscutível e intolerante quanto a soberania divina dos reis, mas começa a afirmar a importância do bem comum; em todo caso, a metafísica exige (tanto quanto a teologia) a confusão dos dois poderes ou é altamente permissiva a ela (ou rejeita a separação entre os dois poderes)

5.8.3. A metafísica política assumiu, nos séculos XVIII e XIX, variadas formas: nos países germânicos virou o Volk (que, no século XX, resultou no nazismo); na França virou “o povo”, ou a “soberania popular”

5.8.3.1.          A soberania popular resultou, por sua vez, na democracia, conforme ela foi proposta e justificada por J.-J. Rousseau

5.8.4. A obra de Rousseau não deixa dúvidas sobre o aspecto absolutista, autoritário e intolerante da “soberania popular”, bem como da exigência de confusão entre o poder temporal e o poder espiritual

5.8.4.1.          Rousseau afirmava que o governo precisa, necessariamente, de uma religião civil, mantida pelo Estado, com a adesão obrigatória a uma determinada profissão de fé, com itens específicos (nomeadamente, a crença em deus); quem se recusar a aceitar a religião civil deve ser preso ou expulso do país

5.8.4.2.          A democracia (de Rousseau) é a metafísica política; o comunismo soviético é outra metafísica política (não por acaso, também particularmente intolerante)

5.8.4.3.          Uma outra aplicação política atual da metafísica consiste no identitarismo: a política identitária rejeita raivosamente a separação entre igreja e Estado, reafirma o crime de blasfêmia e exige a submissão do Estado e da política a um pseudoclero composto pela pedantocracia e por movimentos sociais

5.8.5. O que se chama atualmente de “democracia” afirmou-se pelo mundo afora no século XX, a par da crescente influência mundial dos Estados Unidos, e consiste em um misto de (1) preocupação com o bem público, (2) submissão das elites políticas às massas via processo eleitoral e (3) mecanismos políticos derivados do liberalismo político inglês

5.8.6. Criticar a democracia, atualmente, é difícil, por um lado, devido às chamadas práticas “iliberais”, que são as defendidas pelos fascistas (e, nesse sentido, pode-se ter a impressão de que a crítica à democracia como metafísica corresponderia à defesa das “democracias iliberais” fascistas); por outro lado, mais que o seu conteúdo específico, a palavra “democracia” foi sacralizada e consagrada, independentemente do que ela propõe e independentemente da história da prática e do conceito

5.8.6.1.          Para não deixar qualquer dúvida, para não haver nenhum equívoco: a crítica que o Positivismo faz à democracia refere-se ao caráter metafísico, absoluto, autoritário da noção de “vontade popular”, da “soberania popular”, do Volk; inversamente, o Positivismo é radicalmente a favor das liberdades, da separação entre o poder temporal e o poder espiritual, a favor da dignidade humana, da autonomia individual, do respeito às mulheres, do respeito aos trabalhadores etc.

5.9.   Passando finalmente para a positividade, nós temos aqui a passagem do absolutismo para o relativismo, com a conseqüente passagem da confusão entre os poderes temporal e espiritual para a separação entre eles, bem como a passagem de concepções indiscutíveis e de um poder autoritário para concepções discutíveis e um poder que aceita e promove a liberdade; por fim, com a positividade as concepções extra-humanas (sejam as teológicas, sejam as puramente abstratas) cedem lugar às perspectivas humanas, em particular com a afirmação do bem comum

5.9.1. Augusto Comte, ao criar a sociologia, contrapôs essa nova ciência à teologia; a partir disso, ele propôs paralelos entre as palavras:

Teologia à sociologia

Teocracia à sociocracia

Teolatria à sociolatria

5.9.2. Assim, a sociocracia é o regime político das liberdades públicas, em que há a separação entre igreja e Estado; em que as concepções são passíveis de exame; em que a conduta dos líderes (em particular dos líderes políticos) é permanentemente passível de exame, de avaliação e de legitimação pública

5.9.3. O que se chama vulgarmente, nos dias atuais, de “democracia” na verdade deveria ser chamado de “sociocracia”

5.9.3.1.          Entretanto, não se trata apenas de um problema terminológico, isto é, de usar uma palavra no lugar de outra: o emprego da palavra “democracia” sugere e permite a política absolutista, intolerante, que com tanta freqüência temos que lidar; o surgimento das práticas autoritárias próprias ao fascismo, ao comunismo, ao identitarismo é possível graças à mentalidade metafísica própria à “democracia”

5.9.3.2.          A palavra “democracia”, no caso, serve como porta de entrada e como canal para as tendências autoritárias e absolutistas próprias à metafísica

5.9.3.3.          A substituição da palavra “democracia” por “sociocracia” é o primeiro passo, necessário (mas em si insuficiente), para a positivação da política

5.9.4. Augusto Comte propôs a sociocracia em 1848 e nós, positivistas, passamos a implementá-la imediatamente, seja como parâmetro de comportamento e de avaliação pública, seja como regime político e social: isso se deu na França, na Inglaterra, nos Países Baixos, em Portugal e na Espanha, na Suécia, no Brasil, na Argentina, no Chile, no México, no Uruguai, nos Estados Unidos, na Índia, na Turquia, no Japão etc. etc. etc.

5.9.4.1.          Em 1926, Cornelis “Kees” Boeke, um anarquista neerlandês de origem quacre (e, sendo anarquista, era metafísico) pensou na palavra “sociocracia”, gostou dela, considerou que ela seria um rótulo conveniente como alternativa à “democracia” e resolveu tomá-la para si; esse movimento afirma que o Positivismo jamais aplicou a sociocracia e/ou que as indicações de Augusto Comte a respeito teriam sido vagas e genéricas: evidentemente, essas observações foram feitas desprezando a história e, lamentavelmente, apesar do que pregam, também movidas por má fé

5.9.4.2.          Com Boeke tem-se, mais uma vez, o habitual problema a respeito do Positivismo: as concepções de Boeke até são generosas, fraternas etc., mas elas foram propostas investindo na má fé contra o Positivismo; essa ambigüidade é fatal, venenosa e não pode ser ignorada

6.     Término da prédica

 

Referências

- Auguste Comte (franc.), Síntese subjetiva (Paris, Exécution Téstamentaire d’Auguste Comte, 2ª ed., 1900): https://archive.org/details/lasynthsesubjec00comtgoog.

- Augusto Comte (franc.), Sistema de política positiva (Paris. J.-B. Baillière, 4ª ed., 1880): https://archive.org/details/systmedepoliti01comt.

- Augusto Comte (port.), Apelo aos conservadores (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores.

- Augusto Comte (port.), Catecismo positivista (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 4ª ed., 1934).

- Gustavo Biscaia de Lacerda (port.), O momento comtiano (Curitiba, UFPR, 2019).

- Gustavo Biscaia de Lacerda (port.), Prédica Positiva “As três leis dos três estados” (Curitiba, Igreja Positivista Virtual, 14.Gutenberg.171/26.8.2025): https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2025/08/o-inicio-do-positivismo-as-tres-leis.html.

- José Lonchampt (port.), Ensaio sobre a oração (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1896; catálogo da IPB, n. 165): https://archive.org/details/n.-165-jose-lonchampt-ensaio-sobre-a-oracao.

- Luís Lagarrigue (esp.), A poesia positivista (Santiago do Chile, 1890): https://archive.org/details/luis-lagarrigue-a-poesia-positivista-1890_202509.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), As últimas concepções de Augusto Comte (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-i e https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-ii.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), O ano sem par (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1900): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-o-ano-sem-par-portug._202312/page/n7/mode/2up.



[1] Fonte: Augusto Comte. 1934. Catecismo positivista ou sumária exposição da Religião da Humanidade. 4ª ed. Rio de Janeiro : Apostolado Positivista do Brasil, p. 479.

20 agosto 2024

Sobre as utopias

No dia 9 de Gutenberg de 170 (20.8.2024) realizamos nossa prédica positiva, dando continuidade à leitura comentada do Catecismo positivista, em sua duodécima conferência, dedicada à evolução histórica do desenvolvimento humano, ou seja, da religião (em particular, do fetichismo e do politeísmo).

No sermão abordamos as utopias.

A prédica foi transmitida nos canais Positivismo (aqui: https://encr.pw/CtK0V) e Igreja Positivista Virtual (aqui: https://acesse.one/pGUqa).

Os tempos da prédica foram os seguintes:

00 min 00 s - abertura da prédica

07 min 21 s - exortações iniciais

16 min 16 s - efeméride

20 min 02 s - leitura comentada do Catecismo positivista

1 h 10 min 58 s - início do sermão

2 h 26 min 28 s - encerramento da prédica

As anotações que serviram de base para a exposição oral encontram-se reproduzidas abaixo.

*   *   *

Sobre as utopias

(9 de Arquimedes de 170/20.8.2024) 

1.       Abertura

2.       Exortações iniciais

2.1.    Sejamos altruístas!

2.2.    Façamos orações!

2.3.    Façam o Pix da Positividade! (Chave pix: ApostoladoPositivista@gmail.com)

3.       Efeméride:

3.1.    14 de Gutenberg: nascimento de Luís Hildebrando Horta Barbosa (1900)

4.       Leitura comentada do Catecismo positivista

4.1.    Continuação da duodécima conferência, sobre a evolução histórica do desenvolvimento humano, isto é, da religião, abordando em particular o fetichismo e o politeísmo

5.       Sermão: sobre as utopias

5.1.    O tema de hoje é algo recorrente nas reflexões políticas: as utopias

5.1.1. À primeira vista, ou melhor, a partir de vários preconceitos (entre os quais, em particular, os marxistas), o Positivismo não teria utopias e/ou seria contrário a elas

5.1.2. Todavia, para quem assiste às prédicas positivas e/ou para quem conhece o mínimo da obra de Augusto Comte, é bastante claro que as utopias integram plenamente o Positivismo

5.2.    Comecemos esclarecendo alguns conceitos gerais e limpando o terreno

5.2.1. A palavra utopia foi criada em 1516 pelo pensador e político inglês Tomás Morus, em uma obra chamada precisamente Utopia (na verdade, o título completo é este: “Um pequeno livro verdadeiramente dourado, não menos benéfico que entretedor, do melhor estado de uma república e da nova ilha Utopia”)

5.2.1.1.             O sentido da palavra “utopia” é o de “lugar nenhum”, ou melhor, de “lugar não existente”: seria, então, uma pura idealização

5.2.1.2.             O sentido da obra foi apresentar um ideal político, uma sociedade perfeita, e, a partir disso, avaliar e criticar a sociedade de seu tempo, em particular a Inglaterra absolutista de Henrique VIII

5.2.2. As utopias, portanto, aproximam-se da noção de “idealismo político”, desde que esta última expressão seja entendida como a concepção geral de uma sociedade ideal (e não no sentido da metafísica idealista)

5.2.3. Como vimos, a noção de utopia foi proposta no início do século XVI; essa concepção afirma-se no âmbito do humanismo e das concepções secularizantes posteriores à Idade Média

5.2.3.1.             A referência à Idade Média é importante porque, bem vistas as coisas, as concepções utópicas medievais baseavam-se na teologia: a Utopia de Tomás Morus já não é mais teológica; ela foi seguida por vários outros livros semelhantes, como A cidade do Sol, do frade dominicano Tomás de Campanella (1602), que, embora escrita por um frade, também era secularizada

5.2.4. A Utopia de Tomás Morus inaugura uma linha de reflexão social, política e moral que terá ampla descendência ao longo dos séculos, passando de comentários mais literários no início para propostas mais sociológicas e positivas no século XIX

5.2.4.1.             No século XIX vários pensadores (Roberto Owen, Pedro-José Proudhon, Carlos Fourier e mesmo Pedro Saint-Simon) propuseram seus esquemas sociais utópicos; em 1848 esses esquemas foram criticados em bloco por Carlos Marx, no Manifesto do Partido Comunista, e a expressão “socialismo utópico” foi contraposta a “socialismo científico”, criando-se uma clivagem dura entre as “utopias”, entendidas como puramente fantasiosas, e a cientificidade, entendida como não artística (e não literária) e verdadeiramente realista e exeqüível

5.2.5. Já no século XX, em parte devido aos desastres da II Guerra dos 30 Anos (1914-1945) e da Guerra Fria (1947-1989), mas em parte importante devido à mudança, ou melhor, à degradação da sensibilidade política e artística, a noção de utopia foi substituída pela noção de “distopia”

5.2.5.1.             Enquanto a utopia é um ideal desejável de uma sociedade (mais) perfeita, a distopia é um ideal indesejável, de uma sociedade decadente e/ou fracassada e/ou em colapso

5.2.5.2.             Como notamos quando tratamos das “ficções científicas”, pelo menos desde o final dos anos 1960 a imaginação social do Ocidente está cada vez mais marcada pelas distopias, com filmes mais ou menos decadentistas ou degradantes como Laranja mecânica (1972), Blade Runner (1982), O exterminador do futuro (1984), além das mais recentes tolices de “zumbis”

5.2.5.3.             Em face da importância social (no caso, política e artística) que as distopias apresentam no Ocidente, vale a pena insistir: não precisamos de distopias, mas, sim, de utopias

5.3.    Passemos então ao conceito de utopia no Positivismo

5.4.    Há várias maneiras de começarmos a abordar essa questão; começarei indicando dois aspectos complementares do Positivismo: por um lado, a importância da realidade com a utilidade; por outro lado, a importância da subjetividade

5.4.1. Como sabemos, o Positivismo afirma desde o início a importância do conhecimento da realidade em geral para disciplinar e orientar nossas vidas; de maneira correlata, nossas concepções têm que ser reais

5.4.2. Mas a mera realidade não basta: ela tem que complementada e orientada pela utilidade: assim, por um lado a utilidade restringe o âmbito das investigações reais (o que em particular evita o absolutismo) e, por outro lado, a utilidade estimula concepções que, sem negarem a realidade, estimulem a simpatia, a síntese e a sinergia

5.4.3. A utilidade, então, conduz-nos com facilidade para a importância da subjetividade – que, por si só, como sabemos, é algo de enorme importância no Positivismo, como âmbito da afetividade e também, em termos de concepções intelectuais, da imaginação

5.4.4. Esses aspectos que citamos até agora podem ser entendidos, do ponto de vista teórico, a partir da união dos sentidos da palavra “positivo” com a lei-mãe da Filosofia Primeira (que, no caso, é a primeira lei):

5.4.4.1.             Sentidos da palavra positivo (Apelo aos conservadores, p. 25): real, útil, certo, preciso, relativo, orgânico e simpático

5.4.4.2.             Lei-mãe da Filosofia Primeira: “Formar a hipótese mais simples e mais simpática que comporta o conjunto dos dados a representar”

5.4.5. Três observações específicas, antes de passarmos adiante:

5.4.5.1.             Certamente que a realidade deve ser limitada e reorientada pela utilidade; mas é necessário ter clareza de que a realidade é de fato um critério fundamental; nesse sentido, Augusto Comte distingue o “utópico” do “quimérico”, isto é, o ideal longínquo mas realizável da proposta puramente irrealizável (e, portanto, não positiva, que é apenas perda de tempo, energia e recursos em geral)

5.4.5.2.             Todas as nossas concepções devem corresponder à realidade; mas seja porque nossos recursos mentais são limitados, seja porque nossas concepções abstratas não abarcam toda a realidade, seja enfim porque a utilidade autoriza-nos a elaborar as ficções científicas, há sempre um espaço (maior ou menor) para elaborarmos diferentes enunciados ou formas de apresentar nossas concepções; nesse sentido muito específico, podemos sempre “manipular” nossas concepções, em particular no importante sentido de dotá-las de formas artísticas e altruísticas

5.4.5.3.             As utopias baseiam-se nas leis naturais; elas correspondem, então, em por um lado, às previsões científicas (especialmente as morais, sociológicas e biológicas) e, por outro lado, à extrapolação artística dessas previsões com objetivos práticos e morais[1]

5.5.    Além dos íntimos aspectos intelectuais e afetivos, que citamos até agora, devemos notar que a conduta cotidiana, isto é, a atividade prática precisa sempre de orientação geral, a fim de não nos perdermos nas preocupações cotidianas, no sem-número de questiúnculas, de mesquinharias, de egoísmos e de vistas particulares que nos desviam do altruísmo, do bem-estar coletivo e das vistas gerais

5.5.1. Clotilde resumiu exemplarmente bem essa necessidade ao afirmar: “Compreendi, melhor do que ninguém, a fraqueza de nossa natureza quando não é dirigida para um alvo elevado que seja inacessível às paixões” (3ª da suas máximas)

5.5.2. Aí entra o papel das utopias no Positivismo e na Religião da Humanidade

5.5.2.1.             Como deve estar ficando bastante claro, as utopias no Positivismo têm uma função prática, mas são profundamente orientadas por questões morais e intelectuais

5.5.2.2.             Em outras palavras, as utopias positivas são necessariamente religiosas, em vez de meramente políticas

5.5.2.2.1.                   Para evitar confusões, temos que lembrar: religião e teologia são coisas diferentes; a religião é a sistematização do conjunto da vida humana, em busca da unidade e da harmonia; a teologia é apenas uma das formas de entender o mundo que informou as religiões ao longo do tempo

5.6.    Assim, no v. IV da Política Positiva Augusto Comte afirmou a necessidade prática das utopias e, no caso do Positivismo, ele instituiu a utopia da virgem-mãe como supremo aperfeiçoamento humano, em que as mulheres poderiam conceber, sem a necessidade de intervenção masculina, ou seja, como um processo exclusivamente altruísta e puro

5.6.1. Faremos várias transcrições sobre esse tema, tomando por base as extensas citações de Teixeira Mendes em As últimas concepções de Augusto Comte (1898)

5.6.2. Sobre o papel das utopias:

“A fim de proceder melhor, convém primeiro explicar uma instituição religiosa, destinada especialmente a resumir o conjunto do nosso aperfeiçoamento, físico, intelectual e moral, concentrando-o em um progresso decisivo. Consiste ele em sistematizar a procriação humana, tornando-a exclusivamente feminina. Mas, antes de examinar esta utopia, indicada nos capítulos precedentes, devo caracterizar o seu destino, em virtude da necessidade de condensação peculiar a qualquer síntese, mesmo parcial, e sobretudo geral.

Tal concentração torna-se a conseqüência natural e o complemento necessário da divisão dos dois poderes, que é só o que a permite suscitando a sistematização, e a exige separando a teoria da prática. Não se pode desde então evitar ou reparar a dispersão dos sentimentos e dos pensamentos senão resumindo a síntese por uma instituição especial, para a qual convirjam as principais emoções e concepções. Mas essa necessidade comporta dois modos distintos de satisfação, os mistérios ou as utopias, conforme a religião é teológica ou positiva.

[...] Com efeito, a sistematização católica ficava essencialmente limitada ao sentimento, sem poder abraçar assaz a inteligência nem a atividade, cujas exigências soube iludir enquanto durou a transição afetiva. Pelo contrário, a plenitude necessária da síntese positiva obriga a instituição que deve resumi-la a representar simultaneamente os três elementos da natureza humana, segundo a verdadeira subordinação deles. É preciso, em uma palavra, que a sua conclusão sintética concilie a ordem e o progresso, instituindo um progresso que desenvolva o conjunto da ordem. Ora, tal é a aptidão das utopias convenientemente construídas, cujo surto crescente indicou, sem a satisfazer, a necessidade da unidade surgida da anarquia moderna” (Augusto Comte, Política positiva, p. 273-274, apud R. Teixeira Mendes, As últimas concepções de Augusto Comte, p. 452-454)

“Necessariamente conforme com a marcha da positividade, essas construções sintéticas foram até aqui limitadas à ordem exterior, sobretudo material, mas também vital. A mais bem elaborada e a mais eficaz surgiu, na Idade Média, com a química[2]. Durante a maior parte da revolução ocidental, a transmutação dos metais forneceu um admirável congraçamento a todos os esforços, teóricos e práticos, destinados a aperfeiçoar o nosso meio. O seu império prolongou-se até a aproximação da crise final[3], que veio enobrecer o surto utópico proporcionando-lhes sobretudo uma destinação social, anunciada, havia três séculos, por tentativas malogradas. Mas esse domínio final da positividade, tanto ideal como real, exigia uma doutrina universal, sem a qual a utopia, que deve constituir um resumo, pode somente tornar-se um apanhado, mais perturbador do que fecundo. Ora, essa condição fundamental acha-se suficientemente preenchida desde o advento decisivo da sociologia, donde resulta a irrevogável convergência da revolução ocidental para o estabelecimento da religião positiva. Este desenlace normal vem ao mesmo tempo eliminar as utopias perturbatrizes e substituí-las pelo congraçamento sintético de todas as dignas aspirações em torno de um progresso característico que representa a universal preponderância da moral.

Desde 1838, o terceiro volume da minha obra fundamental[4] anunciou espontaneamente semelhante tendência, propondo a introdução sistemática dos organismos fictícios para aperfeiçoar o conjunto da biologia. Mas essa primeira inspiração não tendo senão uma destinação intelectual, não se podia achar nela um tipo das utopias positivas, que devem ser tanto práticas como teóricas. Todavia, comparada com a transmutação dos metais, ela melhorava o surto utópico, estendendo-o da ordem material à ordem vital. Esse progresso foi melhor realizado na indicação inicial do presente tratado sobre a transformação dos herbívoros em carniceiros, encarada como o limite do aperfeiçoamento animal. Abrindo um vasto campo à ciência, tal utopia interessa igualmente à arte, não quanto aos laboratórios da nossa nutrição, nos quais o excesso de animalização seria nocivo, mas para os nossos companheiros de trabalho, que assim se tornariam mais ativos e mais inteligentes. Todavia, esse passo permanece insuficiente, pois que ele se limita ao domínio profano[5], sem levar a idealização positiva até a ordem humana, que constitui a sua principal destinação, como sendo ao mesmo tempo mais importante e mais modificável. Para instituir o surto utópico, que deve resumir a síntese final, é preciso pois estendê-lo ao domínio sagrado, que é o único capaz de condensar o progresso por meio da ordem, combinando os três modos ou graus do aperfeiçoamento, físico, intelectual e moral.

Tal é a teoria, ao mesmo tempo histórica e dogmática, das utopias positivas, nas quais a poesia e a filosofia devem concorrer melhor do que nas utopias teológicas e metafísicas, pois que o relativo aí sucede ao absoluto. Esta teoria torna-se aqui o complemento da da religião, resumindo a unidade real por um limite ideal, para o qual vêm especialmente convergir os votos, os projetos e as tentativas peculiares ao aperfeiçoamento contínuo da nossa tríplice natureza. Para melhor instituir esse congraçamento, é preciso especificar-lhe um só fito, salvo o renová-lo quando achar-se atingido; o que será sempre possível, atento o imenso domínio da providência humana, apenas esboçado até hoje, mesmo quanto ao meio.

Eis como sou conduzido a representar a utopia da Virgem-Mãe como o resumo sintético da religião positiva, cujos aspectos são todos combinados nela. A sua apreciação especial pertence ao tratado que prometi, para 1859, sobre a moral teórica e prática. Só posso aqui coordenar as principais indicações a esse respeito” (Augusto Comte, Política positiva, p. 274-276, apud R. Teixeira Mendes, As últimas concepções de Augusto Comte, p. 457-459)

5.6.3. Sobre a utopia da Virgem-Mãe:

“[...] A utopia da Virgem-Mãe tornar-se-á, para as mais puras e as mais eminentes, um limite ideal, diretamente apropriado a resumir o aperfeiçoamento humano, assim impelido a sistematizar a procriação nobilitando-a. Essa aptidão permanecerá sempre independente da solução real de tal problema, contanto que ele seja considerado como acessível, em vista do império, apenas esboçado até hoje, que a espécie mais modificável deve exercer sobre a sua própria constituição, mesmo física” (Augusto Comte, Política positiva, p. 240, apud R. Teixeira Mendes, As últimas concepções de Augusto Comte, p. 451)

5.7.    Alguns comentários adicionais:

5.7.1. O ideal da utopia da Virgem-Mãe foi proposto como sinal de desenvolvimento humano geral e não com o sentido exclusivista, discriminador e brutal do ultrapoliticismo feminista

5.7.2. De maneira mais concreta, no que se refere aos aspectos técnicos, devido aos avanços da medicina e da engenharia genética, a utopia da virgem-mãe realizou-se

5.7.2.1.             É necessário afirmar e reafirmar: essa realização dá-se apenas em termos técnicos; os necessários avanços morais, sociais e intelectuais estão muito atrás e, portanto, longe de terem sido realizados

5.7.2.2.             A respeito das novas utopias, Augusto Comte (Política positiva, p. 279, apud R. Teixeira Mendes, As últimas concepções de Augusto Comte, p. 464) recomenda que elas devem referir-se ao corpo humano, devido à íntima vinculação entre o progresso material e o aperfeiçoamento moral

5.7.3. Nas citações acima Augusto Comte observa que as utopias, além de serem um resumo sintético (ou melhor, religioso), são também um limite: a noção matemática de “assíntota” é sempre muito útil nesse caso

5.7.3.1.             A assíntota é uma função que tende no limite para um determinado valor (ainda que nunca chegue efetivamente a esse limite)

5.8.    A respeito das utopias meramente políticas:

5.8.1. Com base nas observações acima, torna-se bastante claro que e porquê de modo geral elas são falhas: ao não terem um aspecto sintético, ou religioso, elas não abarcam o conjunto da vida humana e, daí, sempre omitem ou sacrificam um ou outro aspecto

5.8.2. A partir de caminhos oblíquos, de modo geral se pensa no marxismo ou no socialismo ao falar-se atualmente em “utopias”; mas é claro que também devem entrar nesse título as utopias liberais (do livre mercado) e até mesmo as desgraças nazifascistas

5.8.2.1.             Na verdade, sendo mais correto, deve-se chamar os ideais marxistas, liberais e nazifascistas de “quimeras”, não de utopias

5.8.3. No que se refere ao Positivismo, com freqüência se afirma que a sociocracia é o nosso ideal político: evidentemente, isso é verdade; mas, a partir das observações acima, logo se vê que a sociocracia não é verdadeiramente a nossa “utopia”

6.       Encerramento



[1] Esse aspecto foi-me indicado, com o brilho e a generosidade habituais, por meu amigo Hernani Gomes da Costa.

[2] No caso, a referência é à alquimia e à busca da pedra filosofal ou, de maneira um pouco menos fantástica, à transformação de metais grosseiros (ferro e chumbo em particular) em ouro.

[3] Ou seja, da Revolução Francesa.

[4] Referência ao Sistema de filosofia positiva (1830-1842).

[5] Ou seja, às ciências inferiores (da Matemática à Biologia).