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10 abril 2026

Celebração de Clotilde

No dia 15 de Arquimedes de 172 (9.4.2026) realizamos a celebração de Clotilde de Vaux, nossa mãe espiritual.


As anotações que serviram de base para a exposição oral encontram-se reproduzidas abaixo.

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Celebração de Clotilde de Vaux

(15 de Arquimedes de 172/9.4.2026) 

1.     Início

2.     Nos dias 9 e 11 de Arquimedes (3 e 5 de abril) celebramos o nascimento (1815) e a transformação (1846) de nossa mãe espiritual, Clotilde de Vaux

2.1.   Realizamos hoje, dia 15 de Arquimedes de 172 (9.4.2026), a celebração de Clotilde e não em outros dias devido a alguns motivos:

2.1.1. No dia 13 de Arquimedes (7.4) ficamos impossibilitados de realizar a prédica, devido a uma enxaqueca

2.1.2. Como indica Teixeira Mendes (O ano sem par, p. 782-783), nosso mestre decidiu que as cerimônias positivistas devem ocorrer às quintas-feiras

2.1.2.1.          Essa decisão decorreu, aliás, justamente, de dois acontecimentos ocorridos com  Clotilde, ambos em quintas-feiras: (1) a cerimônia de união espiritual entre ambos, de 28 de agosto de 1845 (batismo de Léon Marie, filho de Maximilien Marie, que teve como padrinhos Comte e Clotilde); (2) a extrema-unção de Clotilde, em 2 de abril de 1846.

2.1.3. Uma celebração dedicada unicamente a Clotilde, além de valorizar mais e melhor a nossa mãe espiritual, torna-se mais compreensível para o público

3.     A vida de Clotilde foi realmente sofrida

3.1.   Nascida em 3 de abril de 1815 com o nome de Carlota Clotilde Josefina Marie , filha do capitão Joseph Simon Marie e de Henriette-Joséphine de Ficquelmont,  casou-se com 20 anos com Amadeu de Vaux; após cerca de quatro anos de casamento, o marido acabou revelando-se mau-caráter, com falsificações, golpes e dívidas de jogo; ele fugiu, abandonando a esposa, que ficou largada à própria sorte; ele em seguida foi julgado réu revel e condenado: além de abandonada à penúria, Clotilde viu-se na degradante condição de carregar o sobrenome de um fugitivo condenado 

3.2.   Obrigada a voltar a viver com a família – ou seja, com os pais, com o irmão do meio (Maximilien) e sua cunhada –, não tinha renda própria, exceto uma pensão liberalmente concedida uma vez por ano por um tio conde, irmão de sua mãe e de sobrenome Ficquelmont, que ocupava um cargo de ministro na Áustria; esse dinheiro, embora fosse dedicado exclusivamente a Clotilde e desse-lhe um alívio material, era gerido ciosamente por sua mãe, que o empregava nos gastos familiares e não permitia que a própria Clotilde usasse-o: em outras palavras, ela estava reduzida à miséria, condição na qual sua família (sua mãe, na verdade), mantinha-a e pela qual era criticada – como se ela tivesse culpa disso e como se ela tivesse condições de evitar e/ou de sair dela!

3.3.   Após um certo tempo Clotilde envolveu-se em um romance, com um homem aparentemente casado; ela apaixonou-se perdidamente por ele e chegou a engravidar; ela acabou sofrendo um abortamento; as condições de casados de ambos impediram que o romance fosse levado adiante

3.4.   O irmão do meio de Clotilde, Maximilien, nascido em 1819, era aluno da Escola Politécnica e, desde antes de 1844, passou a ter aulas particulares de Matemática com Augusto Comte, aproveitando não somente o reforço didático como também as reflexões filosóficas e científicas; embora de modo geral Augusto Comte fosse um professor austero, ele acabou aproximando-se de Maximilien e tornando-se amigo de sua família, a quem passou a frequentar 

3.5.   A vida de Augusto Comte nessa altura era bastante solitária, basicamente ocupada com o trabalho (como professor e como filósofo); embora casado, Augusto Comte já tinha sido abandonado pela última vez por Carolina Massin em 1841; em 1842 ele concluiu a redação e a publicação da Filosofia positiva; desde 1841 ele residia no domicílio sagrado da rua Monsieur-le-Prince, n. 10, e contava com a assistência de Sofia: desde essa época até 1844, era essa a sua vida

3.6.   Em outubro de 1844, em uma das visitas de Augusto Comte à família Marie, ele por acaso conheceu a irmã de seu aluno; a partir daí, a vida solitária de nosso mestre reagiu sobre ele, aliada à simpatia que os sofrimentos de Clotilde despertaram nele e à relativa identidade desses sofrimentos; apaixonando-se por ela, em abril de 1845 ele escreveu-lhe uma carta, declarando-se

3.7.   Clotilde ficou surpresa com a intensa e inesperada declaração daquele austero filósofo e professor; a partir daí se seguiu uma belíssima troca de correspondência, em que nosso mestre aos poucos dá vazão aos seus sentimentos e com isso se controla e torna-se mais confiável para a jovem; por seu turno, Clotilde vai deixando seu susto e suas reservas e passa a confiar no filósofo; enquanto a troca de correspondência tinha lugar, nosso mestre continuava freqüentando a casa da família Marie, que passava assim a ter um atrativo adicional cada vez maior

3.8.   A paixão de Augusto Comte era muito intensa e foi a muito custo que ele controlou-a; esse controle deveu-se em grande medida à resistência pura de Clotilde, seja por sua pudicícia pessoal, seja porque nos primeiros meses da correspondência ela ainda se mantinha apaixonada pelo seu amante anterior

3.9.   Mas após cerca de seis meses, a situação resultou em um belo equilíbrio, em que nosso mestre afirmava com todas as letras que Clotilde poderia e deveria ser a mestre do relacionamento entre ambos; ao mesmo tempo, Clotilde confiava cada vez mais plenamente em nosso mestre, pedindo-lhe conselhos pessoais, de saúde, orientações filosóficas etc., além de fazer confidências pessoais e familiares

3.10.               Um aspecto belíssimo e notável é a preocupação mútua de cada qual: nosso mestre dava sugestões e estímulos para a carreira literária de Clotilde, que ambos viam como a forma de ela sair da penúria material e da relativa opressão familiar; Clotilde, por seu turno, preocupava-se que a paixão de Augusto Comte por ela afastasse-o de suas reflexões filosóficas

3.10.1.   A produção literária de Clotilde resultou, já naquela época, em vários poemas que ela escrevera antes, na novela epistolar Lúcia (largamente autobiográfica) e, no segundo semestre de 1845, no começo da redação do romance Guilhermina (no francês, originalmente Willelmine); além disso, as cartas escritas por Clotilde a Augusto Comte apresentam um tom filosófico e moral bastante intenso, revelando profundidade de espírito, intensa afetividade e emancipação filosófica

3.10.2.   Da parte de Augusto Comte, a paixão por Clotilde, em vez de distanciá-lo das reflexões filosóficas, renovou sua energia e seus temas; são dessa época inúmeras cartas filosóficas, sobre a celebração social (é a primeira Santa Clotilde, de 2.6.1845), sobre o casamento (12.1.1846), sobre o batismo cristão (28.8.1845)

3.11.               Já entrando no ano de 1846, a situação pessoal de ambos era precária: a saúde de Clotilde piorara muito, a perseguição academicista contra Augusto Comte retirara-lhe um de seus empregos; já a relação mútua entre ambos estava cada vez melhor, embora a família de Clotilde não confiasse na castidade desse relacionamento, passasse a apresentar obstáculos a Augusto Comte e impedisse Clotilde de administrar os recursos que ela recebia de seu tio austríaco; a partir de fevereiro de 1846 Clotilde adoeceu mais claramente e em março ela ficou cada vez mais prostrada; do final de março até o início de abril ela definhou, falecendo em 5 de abril

3.12.               A infundada desconfiança da família Marie para com Augusto Comte gerou equívocos e situações lamentáveis, que foram estimuladas pela situação desesperadora que todos eles atravessavam; em todo caso, nosso mestre manteve o apoio constante (e casto, convém notar), além de ceder os serviços de Sofia para Clotilde: nos termos de Clotilde, Sofia foi uma verdadeira irmã para ela, auxiliando-a de maneira importantíssima nas suas últimas duas semanas de vida; nesse período, Clotilde já se reconhecia apaixonada por Augusto Comte e retribuía o entendimento de que era sua esposa (subjetiva)

3.13.               As últimas palavras de Clotilde – “Comte, eu sofro sem ter merecido” – indicam o quanto ela dedicava-lhe profundo afeto e o quanto nosso mestre era realmente importante para ela

3.13.1.   O lamento de sofrer sem ter merecido, repetido várias vezes, além de ser extremamente preciso, também dão a indicação da redenção positiva da Humanidade: em vez de afirmar, com o catolicismo, que o ser humano atual sofre em virtude de supostos (e irracionais e imorais) crimes cometidos por seus antepassados (Adão) sob a influência negativa das mulheres, o Positivismo vê que sofremos sem merecer e que devemos agir para mudar esse quadro, melhorando o mundo, sob a inspiração da Humanidade e sob a influência benfazeja das mulheres

4.     Por que dizemos que Clotilde é nossa “mãe espiritual”?

4.1.   O amor dedicado por Augusto Comte a Clotilde forneceu-lhe o impulso, a direção e os elementos para que ele passasse da elaboração filosófica para a construção religiosa, ou seja, como ele dizia, para que ele passasse da carreira de Aristóteles para a de São Paulo; da mesma forma, esse amor permitiu-lhe realizar e satisfazer aspectos de sua vida que até então estavam tristemente represados e insatisfeitos: em outras palavras, com Clotilde nosso mestre realizou-se como ser humano: ao mesmo tempo e a partir disso, conseguiu ultrapassar o cientificismo e orientar-se com renovada e assombrosa energia ao desenvolvimento mais importante para o Positivismo, isto é, para o ser humano

4.1.1. O devotamento de Augusto Comte a Clotilde resultou na constituição das principais e mais importantes instituições do culto positivo: as orações, o culto privado, os anjos da guarda, vários dos sacramentos

4.1.2. Mas, ao mesmo tempo, esse desenvolvimento moral, afetivo e intelectual de Augusto Comte só foi possível porque Clotilde era realmente uma mulher superior, pelos sentimentos, pelo espírito e pelo caráter: ela era uma pessoa emancipada, que ao mesmo tempo entendia a importância histórica e social das instituições; era uma pessoa sensível, que sabia impor limites sem constranger os demais: não apenas Augusto Comte estabeleceu e reiteradamente reafirmou que Clotilde seria a diretora e juíza do relacionamento entre ambos, como ele também disse que, “para pensar como Comte seria necessário amar como Clotilde” (Teixeira Mendes, O ano sem par, p. 374-375)

4.1.3. As sete máximas de Clotilde, recolhidas por Augusto Comte em meio às cartas trocadas entre ambos, nas obras literárias de Clotilde e a algumas conversas pessoais, ilustram a sua superioridade

5.     A concepção de “mãe espiritual” estabelece o culto às mulheres e oferece um modelo e um início para o culto à Humanidade

5.1.   A mãe espiritual é u’a mulher, assim como, e não por acaso, a Humanidade: elas afirmam a superioridade moral das mulheres, que deve inspirar e orientar os sentimentos, as idéias e as ações dos homens

5.2.   A reverência e o culto que nosso mestre dedicou a Clotilde, como comentamos há pouco, inspiraram as principais características do culto à Humanidade

5.3.   Em virtude dessas múltiplas influências, Augusto Comte afirmava que a posteridade reconhecerá sempre, com justiça, que a Religião da Humanidade é uma criação tanto do próprio Comte quanto de Clotilde

6.     A concepção de “mãe espiritual”, muito mais que a mera adesão à Religião da Humanidade, estabelece com clareza a linha divisória entre os positivistas ortodoxos e os incompletos (ou cientificistas)

6.1.   É ao mesmo tempo triste e revelador dos hábitos mentais e morais contemporâneos, tanto de metafísicos quanto também de teológicos, que o nosso culto a Clotilde (a partir do culto a ela promovido por nosso mestre) seja sistematicamente desrespeitado e zombado: essas mesmíssimas pessoas, entretanto, ousam falar em dignidade da mulher, em dignidade do ser humano (embora às vezes falem, de maneira mais coerente, em cultuar apenas a divindade teológica, contra o ser humano), ao mesmo tempo em que elogiam implicitamente o cientificismo, ou afirmam que – para conveniência deles – o verdadeiro positivismo é, ou deveria ser, o cientificismo

6.2.   A noção de mãe espiritual também separa os positivistas completos de todos aqueles que rejeitam a noção de superioridade moral das mulheres – o que, por mais chocante que seja, inclui atualmente, acima de tudo, as próprias mulheres!

6.2.1. A rejeição da superioridade moral das mulheres baseia-se em uma concepção equivocada da dignidade feminina, mas tem como efeito a degradação moral da sociedade, a diminuição dos freios morais e afetivos à violência, o apoio à concepção materialista e brutal de que tudo na sociedade é apenas política, ou seja, poder, disputa, violência

6.2.2. Em outras palavras, a rejeição da superioridade moral das mulheres conduz, direta e indiretamente, à violência contra as mulheres, à misoginia e ao aumento do chamado “feminicídio”

7.     Leremos agora alguns poemas – alguns da própria Clotilde e outros compostos em sua homenagem

7.1.   O poema A infância  (com tradução de Teixeira Mendes)

7.2.   O poema fetichista Pensamentos de uma flor (com tradução de Teixeira Mendes)

7.3.   As sete máximas de Clotilde (publicadas pela primeira vez no Testamento de Augusto Comte e recolhidas por ele na correspondência sagrada, nas obras literárias de Clotilde e em conversas presenciais entre nossos pais espirituais)

7.4.   A Ave Clotilde de José Mariano de Oliveira (originalmente em italiano, com tradução do GPT para o português; ela será lida, mas deve ser cantada, ao som de Ave Maria, de Gounod)

7.5.   A Ave Clotilde de Henrique Batista da Silva Oliveira (originalmente em francês, com nossa tradução para o português; ela será lida, mas deve ser cantada, ao som de Ave Maria, de Gounod)

8.     Celebrar Clotilde faz-nos buscar ser melhores – mais afetivos, mais inteligentes, mais ativos –; ela faz-nos servir mais e melhor à Humanidade: é por isso que ela é e merece ser chamada de cofundadora da Religião da Humanidade, é por isso que ela é nossa mãe espiritual

9.     Término

 

Referências

- Auguste Comte (franc.), Síntese subjetiva (Paris, Exécution Téstamentaire d’Auguste Comte, 2ª ed., 1900): https://archive.org/details/lasynthsesubjec00comtgoog.

- Auguste Comte (franc.), Testamento (Paris, Exécution Téstamentaire d’Auguste Comte, 2ª ed., 1896).

- Augusto Comte (franc.), Sistema de política positiva (Paris. J.-B. Baillière, 4ª ed., 1880): https://archive.org/details/systmedepoliti01comt.

- Augusto Comte (port.), Apelo aos conservadores (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores.

- Augusto Comte (port.), Catecismo positivista (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 4ª ed., 1934).

- Gustavo Biscaia de Lacerda (port.), Prédica positiva “Sobre as máximas de Clotilde de Vaux” (Curitiba, Igreja Positivista Virtual, 3.César.169/25.4.2023): https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2023/04/sobre-as-maximas-de-clotilde-de-vaux.html.

- José Lonchampt (port.), Ensaio sobre a oração (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1896; catálogo da IPB, n. 165): https://archive.org/details/n.-165-jose-lonchampt-ensaio-sobre-a-oracao.

- Luís Lagarrigue (esp.), A poesia positivista (Santiago do Chile, 1890): https://archive.org/details/luis-lagarrigue-a-poesia-positivista-1890_202509.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), As últimas concepções de Augusto Comte (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-i e https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-ii.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), O ano sem par (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1900): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-o-ano-sem-par-portug._202312/page/n7/mode/2up. 

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A infância

(Clotilde de Vaux; tradução de Raimundo Teixeira Mendes)

 

Vem, criança gentil, mais perto... que m’encanta

Ver-te a madeixa loura, o meigo olhar formoso,

As graças naturais que têm tanto invejoso,

A fonte onde arde a inocência o templo seu levanta.

 

Vem, qu’eu gosto de ver-te o velho pai prezando

Mais que o ledo brincar que os anos seus molesta;

Gosto de ver fugir, dos beijos teus à festa,

A nuvem que, no olhar materno, ia assomando.

 

Gosto de ver o ancião que vai, a lento passo,

O humilde lar buscando, apoiado ao teu braço;

Gosto de ver-te a mão encheres, com carinho,

Do pobre que se senta à borda do caminho.

 

Por que se hão de ir embora encantos dessa idade,

Graças que as nossas mães com tanto amor afagam?

Os sonhos do porvir, por que se nos apagam?

Ah! Sim! É que é preciso um dia de saudade!

 

Os pensamentos de uma flor

(Clotilde de Vaux; tradução de Raimundo Teixeira Mendes)

 

Nasci p’ra ser amada: ó, graças, bom Destino!

Que os soberbos mortais praguejem teus azares!

O vento os arrebate aos pés de teus altares,

Eu tenho o meu perfume e o gozo matutino.

 

Tenho o primeiro olhar do rei da natureza,

Por gala o seu fulgor, seu beijo em chama acesa;

Tenho um sorrir de irmã da juvenil Aurora;

Tenho a brisa nascente a dulcidão que mora

Na gota pendurada à borda do meu cális.

Tenho o raio que brinca a se abismar nos vales;

Tenho o mago painel, a sena inigualada,

Do universo entreabrindo as portas da alvorada.

 

Jamais frio mortal haurir-me deve a vida:

No seio da volúpia a manso me adormeço;

Me guarda a natureza o esplêndido adereço;

Em seu festim de amor desperto embevecida.

 

Muita vez embelezo a formosura;

Num puro seio o meu candor se côa;

Enlaça-me o prazer n’alegre cr’ao,

E a seu lado me prende alma ventura.

 

                Quanto o rouxinol s’inspira

No meu talo em doce enleio,

Para não turvar-lhe o gorjeio

                               A natura inteira espira.

 

Amor me diz seus votos mais secretos;

Abrigo de seus ais grata saudade;

Dos seus mistérios zelo a f’licidade;

A chave sou dos corações secretos.

 

Ó! Doce Destino, se as leis que nos baixas

Suspiros profanos pudessem mudar,

Só eu haveria, nas diáfanas faixas,

De amor aos bafejos à vida tornar.

 

Da tempestade sombria

Poupa-me o horrendo furor;

Dá que sempre a leda flor

Nas tuas festas sorria.

 

As sete máximas de Clotilde (reunidas por Augusto em seu Testamento, p. 99)

 

-      É indigno dos grandes corações derramar as perturbações que sentem. (Lúcia, 7ª carta)

-      Que prazeres podem exceder os da dedicação? (Lúcia, 8ª carta)

-      Eu compreendi, melhor que ninguém, a fraqueza de nossa natureza quando ela não é dirigida para um objetivo elevado e que seja inacessível às paixões (T, p. 333)

-      São necessários à nossa espécie, mais que às outras, deveres para fazer sentimentos. (T, p. 374)      

-      Não há na vida nada de irrevogável senão a morte. (T, p. 419)

-      Todos temos ainda um pé no ar sobre o limiar da verdade. (T, p. 484)

-      Os maus têm com freqüência maior necessidade de piedade que os bons. (T, p. 537)

 

Ave Clotilde

(José Mariano de Oliveira)

(Cantada com a música da Ave Maria, de Gounod)

 

Ave, Clotilde

Esposa do Pai Supremo,

Que já ouviste, piedosa,

Sua dor sofrida;

Com Ele deste ao mundo

O fruto mais fecundo

Do mais profundo amor.

Santa Clotilde,

Por tua elevada virtude,

Acolhe em teu peito

Nosso imenso afeto,

Nossa gratidão.

Amém.

 

Ave Clotilde

(Henrique B. S. Oliveira)

 

Ave Clotilde,

De Comte, suave dama,

Que elevou ternamente

Seu nobre coração sofredor.

Saída dos dois, a mesma alma,

A dádiva, a mais fecunda,

Do amor, o mais profundo.

Santa Clotilde,

Por teu altruísmo pleno,

Acolhe em teu seio

A flor reconhecedora

De uma prece constante

Amém.

22 novembro 2024

Live AOP com Sebastiano Fontanari: relato de uma viagem a Paris

No dia 18 de Frederico de 170 (21.11.2024) realizamos uma Live AOP com o nosso amigo e Diretor do Apostolado Positivista da Itália, Sebastiano Fontanari. 

Ele apresentou um relato de uma viagem a Paris, feita por ele e por alguns de seus amigos, correligionários e membros do API (Mattia Caneppele e Vincenzo Pisani) no mês de Shakespeare de 170 (outubro de 2024).

A Live AOP foi transmitida no canal Positivismo e está disponível aqui: https://www.youtube.com/watch?v=i1JpHSVcgp4&t.



30 maio 2024

Da divindade à Humanidade

No dia 9 de São Paulo de 170 (28.5.2024) realizamos nossa prédica positiva, dando seguimento à leitura comentada do Catecismo positivista, em sua undécima conferência (dedicada ao regime público).

Na parte do sermão tratei do culto à Humanidade e da passagem da noção e do culto à divindade monoteísta para a noção e o culto à Humanidade.

A prédica foi transmitida nos canais Positivismo (aqui: https://acesse.dev/3Laee) e Igreja Positivista Virtual (aqui: https://acesse.one/XaHXi).

O sermão começou em 1 h 03 min 02 s.

As anotações que serviram de base para a exposição oral encontram-se reproduzidas abaixo.

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 Da divindade à Humanidade

-        O sermão de hoje foi sugerido por fontes variadas: textos em periódicos nacionais, dúvidas de neófitos

o   O que queremos comentar são alguns aspectos da passagem da divindade à Humanidade, em termos intelectuais e morais

-        Nos manuais de Filosofia, de História e de Sociologia, as referências contemporâneas a Augusto Comte costumam ser superficiais e limitadas a observações mecânicas e desconexas sobre a lei dos três estados

o   O enunciado final da lei intelectual dos três estado é o seguinte: “Cada entendimento oferece a sucessão dos três estados, fictício, abstrato e positivo, em relação às nossas concepções quaisquer, mas com uma velocidade proporcional à generalidade dos fenômenos correspondentes (VII)”

§  Essa lei é a sétima da Filosofia Primeira, integrando o “Segundo grupo, essencialmente subjetivo” e, então, a “2ª série: leis dinâmicas do entendimento”

-        Além disso, em uma carta ao dr. Audiffrent, de 15 de Homero de 69 (12.2.1857), Augusto Comte afirma que a positividade não se limita nem se reduz à mera ciência; além disso, em virtude de seu caráter analítico e, daí, da falta de vista de gerais, bem como dos vícios próprios ao academicismo, a ciência pode descambar para um absolutismo: o resultado disso tudo é que a verdadeira positividade constitui-se em um quarto estágio, que seria o da positividade sintética, necessariamente filosófica

o   Na minha opinião, essa observação de Augusto Comte resume-se na idéia de que devemos passar das concepções absolutas (e egoístas) para as relativas (e altruístas)

§  Assim, é necessário passar das concepções e do culto absolutos, à divindade, para a concepção e o culto relativos, à Humanidade

-        Passar da divindade à Humanidade é então uma questão inicialmente intelectual que tem conseqüências morais muito claras, muito grandes e muito imediatas

o   Seguindo o espírito metafísico da nossa época, quando alguém se emancipa intelectualmente, ou seja, quando alguém deixa de lado as ficções teológicas, o impulso básico é o de adotar um comportamento destruidor e negador

§  Isso significa, na prática, que a tendência, após a emancipação, é desprezar o culto e adotar uma perspectiva individualista, “isolacionista” e intelectualista

o   Mas é necessário agir contra essa tendência e assumir com clareza, sinceridade e altruísmo o culto à Humanidade

§  O culto à Humanidade consiste em amarmos essa figura bela e carinhosa, que nos conforta e prepara para a vida, bem como nos prepara para a transformação para a subjetividade

§  O culto à Humanidade, assim como, de modo geral, as orações positivistas, não é nunca interesseiro: buscamos reconhecer e agradecer àqueles (e àquelas!) que nos são e que nos foram importantes, por mais próximas ou mais distantes que estejam de nós; esse reconhecimento é a demonstração de gratidão e um esforço para ficarmos no nível dessas pessoas e da Humanidade

·         “Aqueles que estão mais próximos de nós”: pai, mãe, irmãos, irmãs, filhos, filhas, sobrinhos, sobrinhas, netos, netas, amigos

·          “Aqueles que estão mais distantes de nós”: desde pessoas que moram longe de nós até pessoas que morreram muito tempo atrás (Aristóteles, César, São Paulo, Dante – Augusto Comte, Clotilde, Miguel Lemos e Teixeira Mendes!) até aqueles que ainda não nasceram

·         Sem deixar de mencionar, é claro, os animais domésticos

-        Para dar continuidade à exposição, farei uma digressão baseada em um texto jornalístico – um texto em si degradante, mas que pode ajudar-nos a entender o culto à Humanidade

o   Em 8 de Moisés de 170 (8.1.2024), a Folha de S. Paulo publicou um artigo desprezível de um dito filósofo, o sr. Luís Felipe Pondé, intitulado “A ciência evoluiu a humanidade, mas você se reconhece nessa crença?”

§  O texto apresenta a idéia de que o progresso da ciência ajudou a humanidade e que, com isso e ao mesmo tempo, serviu para a emancipação mental, contra a teologia

§  O texto conclui afirmando que as mudanças indicadas acima tiveram desenvolvimento no Positivismo e na Religião da Humanidade – sendo que esta última consiste em “masturbação filosófica” (Pondé)

o   O sr. Luís Felipe Pondé esposa concepções teológicas agostinianas, preferindo a irracionalidade da fé absoluta e um pessimismo sobre o ser humano à racionalidade e ao otimismo humanista; ao mesmo tempo, seu comportamento indica que ele tem vergonha de assumir essas concepções, preferindo manifestar um desprezo generalizado pelos progressos do ser humano e uma atitude cínica a respeito dos seus problemas

§  O fato de que tanto o governo do estado de São Paulo, por meio da TV Cultura, quanto a Folha de S. Paulo dêem espaço privilegiado (e pago) para alguém como o sr. Luís Felipe Pondé dá a medida da degradação moral e intelectual do país – o que confirma um pouco o comportamento desprezível desse senhor, embora ele jamais vá assumir que é um representante perfeito do que ele mesmo despreza

§  Vale lembrar que o desprezo cínico pelos problemas humanos e a concepção, igualmente cínica, de que o ser humano é sempre ruim, é uma postura moral, intelectual e prática muito cômoda, em que a pessoa que a adota não ajuda nada nem ninguém, exime-se antecipadamente de qualquer problema e de qualquer responsabilidade mas goza do superficial prestígio da “criticidade”

o   A vulgar observação de Pondé repete, sob uma forma extremamente degradante, uma antiga crítica dos católicos (e dos monoteístas) ao culto da Humanidade: a de que o adorador celebra a si mesmo

§  Isso é falso desde o início, seja em relação à Humanidade, seja em relação à teologia

o   Augusto Comte foi sempre muito cuidadoso com essa concepção e elaborou tanto o dogma quanto o culto (e o regime) da Humanidade de modo que o adorador não se adore a si mesmo

§  Em primeiro lugar, temos que ter clareza desde o início de que, de fato há, sim, uma identidade de natureza entre a Humanidade e cada um dos seres humanos

·         Na seqüência veremos em que consiste essa “identidade de natureza”

§  Por outro lado, a Humanidade é um ser coletivo e é realmente superior a cada ser humano individual

§  A concepção da Humanidade é abstrata, mas sua atuação sobre nós é bastante concreta: ela existe desde muito tempo antes de nós e continuará existindo muito tempo depois; mesmo enquanto somos vivos, o conjunto dos seres humanos ainda é (cada vez) maior que nós mesmos

§  A concepção de Humanidade é a do “conjunto dos seres humanos convergentes, passados, futuros e presentes”

·         O aspecto da convergência já retira várias pessoas desse conjunto

·         O aspecto do passado e do futuro evidencia que se trata de uma concepção subjetiva e que o elemento objetivo é apenas um liame passageiro entre as duas massas subjetivas

·         Sempre é importante lembrar que também na Humanidade estão os animais úteis e/ou domésticos, que nos fazem companhia e que com freqüência se sacrificam em benefício do ser humano

§  De qualquer maneira, em relação aos seres humanos vivos, em relação à parte do “presente”, cada um não é integrante da Humanidade: enquanto vivemos objetivamente somos apenas servidores da Humanidade

·         A Humanidade não é todo-poderosa nem é unitária; ela precisa dos seres humanos vivos para manter-se e desenvolver-se; em outras palavras, ela precisa de nós

§  Como um conjunto, a Humanidade é um ser à parte de nós: o “viver para os outros” torna-se plenamente coerente nesse sentido, pois vivemos para melhorar as condições da Humanidade, isto é, de um ser que depende de nós mas que não somos nós

§  Somente após a transformação (isto é, após nossas mortes) é que poderemos, subjetivamente, integrar a Humanidade

·         Essa integração dá-se por meio do sacramento da incorporação: nesse processo, deixamos de ser servidores da Humanidade para passarmos a ser integrantes da Humanidade

o   A incorporação ocorre sete anos após a transformação e baseia-se em um exame cuidadoso da vida do falecido

·         A incorporação à Humanidade é uma recompensa adicional para cada digno servidor da Humanidade e sinal de que cada servidor foi, realmente, digno; mas a dedicação contínua como servidor (vivo) da Humanidade é uma satisfação e um objetivo por si só, além de indicar a dignidade de cada um e estabelecer se cada um merece ou não a incorporação à Humanidade

·         Em outras palavras, a incorporação à Humanidade é uma justa recompensa a vida digna e bem vivida, que, todavia, está bem longe de esgotar todo o valor de um ser humano individual

§  A identidade de natureza que indicamos antes, de cada ser humano individual com a Humanidade, esclarece-se plenamente agora: essa natureza idêntica é em relação às três partes do ser humano (afetividade, inteligência e atividade prática); mas isso não equivale a dizer que a Humanidade é igual a cada ser humano individual

·         Novamente: a Humanidade é maior, é anterior e posterior a nós e precisa de cada um de nós para existir, manter-se e desenvolver-se

o   A crítica teológica (“o adorador que adora a si mesmo”) só seria aceitável se a perspectiva individualista e egoísta, própria à teologia, mantivesse-se no Positivismo

§  Na teologia há indivíduos que se relacionam diretamente com a divindade e que se preocupam com o destino de suas próprias almas; o cuidado com os outros é mais ou menos acidental em relação à salvação da própria alma

·         A salvação da própria alma, além disso, é um capricho da divindade teológica, ou o resultado de uma barganha, ou o resultado de uma chantagem

§  Em total oposição à teologia (monoteísta), na Religião da Humanidade há seres humanos que atuam sempre em benefício dos demais e que vêem (isto é, que sentem e entendem) que atuar em benefício dos demais é uma satisfação por si só e que a incorporação póstuma e subjetiva à Humanidade é apenas o complemento e o reconhecimento dos méritos objetivos

o   Em suma: a crítica teológica ao culto da Humanidade mantém profundamente as concepções teológicas, não entendendo as motivações reais e profundas do culto à Humanidade

§  O sr. Luís Felipe Pondé, ao retomar essa crítica, nem foi intelectualmente original nela nem se preocupou em ser moralmente digno: ao retomá-la, o “filósofo” oficial de São Paulo foi apenas vulgar, mesquinho e superficial

-        Um aspecto importante para o culto à Humanidade: a Humanidade não é uma alegoria

o   Uma alegoria é um modo de falar, é apenas um símbolo

§  Se a Humanidade fosse apenas uma alegoria, isto é, um jeito de falar, o culto à Humanidade seria também apenas um jeito de falar

o   Mas a Humanidade é uma abstração que serve de verdade para o culto: ela estimula o altruísmo, estabelece o caráter histórico e subjetivo-objetivo do ser humano e concentra nossa atenção e nossos esforços afetivos, intelectuais e práticos

§  Assim, assumidamente a Humanidade é uma idealização e um ideal: é uma idealização porque é uma concepção abstrata (baseada em uma realidade concreta); é um ideal porque é um valor, u’a meta a ser perseguida

o   Além disso, sendo um ser superior, a adoração à Humanidade permite a digna submissão (que, por ser digna, não é degradante) – e, afinal, a submissão é a base do aperfeiçoamento

o   Assim, a Humanidade é realmente a nossa deusa positiva, isto é, a nossa deusa relativa, altruísta, subjetiva-altruísta