20 fevereiro 2026

Hernani Gomes da Costa: Definição geral de "deus" e deificação da Humanidade

Na prédica positiva do dia 13 de Homero de 172 (10.2.2026) nosso amigo Hernani Gomes da Costa abordou no sermão o tema "Definição geral de 'deus' e deificação da Humanidade".

Devido ao seu caráter compartilhado, a prédica foi transmitida exclusivamente pelo nosso canal Positivismo (https://youtu.be/xuoG6o2BxcY).

As anotações gerais da prédica encontram-se aqui.

Já as anotações que orientaram a exposição oral encontram-se reproduzidas abaixo.

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A definição geral de "deus" e a deificação da Humanidade

Hernani Gomes da Costa


Foi-nos apresentado há poucos meses – e a título de pedido de auxílio para a conclusão de uma tarefa acadêmica – um questionário contendo dez interessantes itens, oferecidos sob a forma de perguntas bastante diretas.

Dentre todas elas, uma em particular – a de número quatro no conjunto – pareceu-nos dever ser destacada aqui, como merecedora de especial atenção.

Ei-la transcrita literalmente: “Existe na Religião da Humanidade algum conceito semelhante ao conceito de Deus, tal como entendido pelos cristãos?”

Apesar de tal pergunta traduzir uma dúvida bastante específica em seu alvo, clara em sua formulação, rigorosa em seus termos, e até relativamente simples – pelo menos no sentido de exigir-nos pouca elaboração textual – tratou-se, na verdade, para nós de um desses inesperados desafios, cujo enfrentamento nos trouxe alguns problemas.

De fato, estamos diante daquele gênero de perguntas a respeito das quais muito haveríamos que comentar, antes mesmo de poder começar a pensar em respondê-la.

Em primeiro lugar, temos a examinar aqui qual seja a importância radical da questão, considerada em si mesma.

Ora, sua posição no conjunto das perguntas virtualmente formuláveis sobre a Religião da Humanidade é tal, que muitas questões só podem ser entendidas de verdade, na dependência do que tenha sido a compreensão extraída da resposta que formos capazes de oferecer-lhe.

Se esquadrinhássemos o próprio Catecismo Positivista à procura de encontrar para ela a exata posição que aí lhe coubesse; se houvéssemos de incluí-la como uma das questões que a mulher trouxe e discutiu junto ao sacerdote da Humanidade, nós não poderíamos deixá-la para o fim do livro.

Pelo contrário, nos parece evidente que ela deveria figurar logo no início da segunda conferência, que trata do próprio conceito religioso da Humanidade.

A pergunta pois, é daquelas que nos oferecem uma ótima chance de desenvolver um ponto fundamental da nossa doutrina: a saber, a justificativa para a deificação da Humanidade;

Formulamos aqui a suposição de que esse ponto, embora de extrema importância por Augusto Comte, também tenha muito possivelmente sido visto por ele como de facílima demonstração; de modo a não haver merecido receber dele – nem no Catecismo Positivista, nem noutro lugar – nenhum esmiuçamento dedutivo especial.

Ora, quem quer que conheça o mínimo da obra comtiana não ignora que o Positivismo ergue a Humanidade à categoria de Ser Supremo, isto é de Deus.

Já a segunda conferência do Catecismo – e, a partir daí, todo o resto dessa obra – desenvolve-se partindo de tal pressuposto, tomando-o como ponto pacífico.

Todavia – perguntamos – o que fazer se essa simples indicação ainda não houver deixado claro ao espírito – e sobretudo ao coração – do leitor iniciante, qual foi o modo específico – bem como os detalhes – do processo lógico mediante o qual o Fundador obteve justificar e realizar a deificação da Humanidade?

E o que fazer se, como consequência dessa insuficiência, aquela honra ainda parecer estranha, extravagante, bizarra, artificiosa, cerebrina, dispensável, mal articulada ou mesmo desproporcional?

Ora, tais críticas já foram, de fato, feitas contra o Positivismo.

Mas se por um lado é certamente a falta de veneração que nos deve fazer compreender e lamentar o que tenha sido a maior parte de tais críticas, devemos por outro lado convir em que a deificação de algo está bem longe de corresponder – mesmo sob a forma emocionalmente diluída de simples expressão teórica – a um processo óbvio.

Assim, a menos, que nos seja dado fazer compreender o que entendemos como a necessidade de considerar a Humanidade como deusa, nossa resposta à questão que nos foi feita, qualquer que seja – afirmativa, negativa ou o que mais for – não poderá oferecer sequer a garantia intelectual mínima para ao menos parecer referir-se à pergunta proposta, prestando-se a todo tipo de mal entendido.

Não há pois que iludir o problema, apresentando-o como se já houvesse – entre nossos mais prováveis interlocutores e nós – algum acordo tácito a respeito disso. Arriscamo-nos mesmo a dizer que tal compreensão não exista.

Precisamos pois, providenciá-la – e urgentemente – não mais deixando a questão tal como se encontra na obra do nosso Mestre, apenas subentendida por ele.

Acrescente-se que os sentimentos envolvidos em algo como uma deificação, encontram-se hoje cercados de vários obstáculos; ainda maiores, mais numerosos e diversificados do que aqueles com os quais o próprio Augusto Comte precisou lidar e superar; inclusive em si mesmo.

E não estamos sequer nos referindo aqui ao típico repúdio, com o qual sempre poderemos contar, vindo dos nossos adversários teológicos.

Se – quanto a estes últimos – a nossa deificação da Humanidade não lhes pode senão parecer profanatória, idólatra e sacrílega; se não pode, pois, estar reservado a nós senão o pior dos julgamentos, vindo daqueles que advertem: “maldito é o homem que confia noutro homem.”; temos sobretudo hoje de temer e combater antes disso, o que é – fora dos círculos teológicos – o paralelo agravamento do que chamaríamos de disposições anti-Humanidade, sintetizadas todas no horroroso slogan – cada vez mais perigosamente entranhado entre os proletários e mesmo entre as mulheres – “A Humanidade não presta”.

Trata-se aqui de todo um estilo de pensamento que o nosso meio cético, individualista, materialista e competitivo alimenta; e que lança cada um de nós a uma luta aberta e permanente contra a própria espécie a qual pertencemos.

Esses pessimistas – dentre os quais não faltam agnósticos e ateus – selecionando apenas o quanto os seres humanos já fizeram de pior, e fingindo não encontrarem em meio a tudo aquilo, nenhuma dignidade – nem no que foram as reações bem sucedidas de nossa espécie na batalha contra tais calamidades, e nem sobretudo nenhum exemplo no que foram os malogrados esforços de suas gloriosas derrotas – esses pessimistas, repito, são os mesmos que não hesitam em apostar – contra o futuro onde habitarão seus próprios filhos – no império de uma desoladora distopia ou mesmo num apocalipse – alinhando-se assim estranhamente ao que pregam seus mais acirrados adversários teológicos.

Além disso – reforçando essas disposições anti-Humanidade mais ou menos generalizada, e contribuindo também para tornar difícil a compreensão da idéia de deificação – existe ainda um outro problema, este de natureza mais pedagógica; pois é certo que já desde bem cedo, nossa educação nos impôs um deus por assim dizer, pronto para consumo.

Sob tais circunstâncias é fatal que as crianças jamais cheguem a saborear por muito tempo – salvo talvez junto àqueles brinquedinhos que Winnicott chamou de objetos transacionais – o que um dia nos foi a oportunidade espontânea de experimentar a real necessidade lógica de deificar algo para nosso próprio uso.

Tal curto privilégio nos tendo sido reservado apenas à primeira fase de nosso fetichismo pessoal, permanece na enorme maioria de nós sepultado no esquecimento sob aquilo que a psicanálise denomina amnésia infantil, cabendo somente à nossa doutrina o trabalho de revertê-la e doravante dela poupar as próximas gerações, resgatando para a vida essa fase essencial do nosso desenvolvimento moral, e devolvendo-lhe seu devido e sistemático respeito.

Aliás, não demorou muito para que – como crianças arrancadas de nossas primeiras manifestações autênticas de veneração – e educadas sob o jugo abstrato do monoteísmo, fôssemos, inclusive – mais ou menos expressamente – desencorajados de qualquer coisa semelhante a uma deificação.

Eis enfim, o que nos parece constituir todo o peso das nossas dificuldades ao tentar responder aquela questão, bem como o peso do que para nós representa a importância mesma da pergunta proposta.

Uma circunstância, porém, muito nos auxiliará aqui, como um contrapeso àquilo tudo.

Tal circunstância consiste em que, a rigor, o problema de fornecer um sentido a algo como uma deificação da Humanidade, não depende de que precisemos oferecer previamente qualquer resposta decisiva a respeito da existência ou da inexistência do Deus sobrenatural.

Decerto possuímos para nós, o que tomamos como as nossas próprias respostas acerca da inexistência de tal entidade; mas o ponto a considerar aqui é que não haverá – de modo algum – sequer a necessidade de mencioná-las.

Na verdade, é o contrário disso que deve ocorrer.

Para justificar o que pode ser nossa deificação, só o que precisaremos fazer, será substituir o problema filosófico da “existência de Deus” – que aliás trazido a esse debate apenas mascararia a natureza da questão – pelo problema léxico e lógico da “definição verdadeiramente geral do que devemos entender por um deus”.

Nada mais ser-nos-á exigido aqui, além disso.

Não se tratará, portanto, de estabelecermos qualquer tabela de comparação na qual contrapuséssemos a fé em Deus à fé na Humanidade – tal como o que se poderia mais ou menos esperar de um debate apologético entre teólogos de religiões diferentes.

Trata-se aqui, ao contrário, de fazer compreender o que seja a exequibilidade intrínseca da deificação da Humanidade; de modo a proporcionar – ainda mesmo àqueles que continuarem apegados à fé sobrenatural – o que seja o óbvio de nossa própria posição – como positivistas – nessa questão.

Tal recuo estratégico oferece ainda outra vantagem.

Se nos for possível fazer perceber que o processo mental que nós positivistas utilizamos para formar uma definição geral de um conceito qualquer é – ele mesmo – exatamente aquele processo por meio do qual qualquer pessoa se serve ao formular uma definição geral; ficará evidente o bom caminho – o caminho comum – em que estamos guiando o nosso raciocínio.

Ficará ao menos fora de dúvida que não estamos “raciocinando ao nosso jeito”, mas apenas extraindo consequências novas daquilo mesmo que o nosso interlocutor sempre reconheceu como seu; como o que ele próprio faz, ao pensar do jeito como pensa.

Ora, em nossa argumentação, ser-nos-á inclusive exigido isso: que nós não façamos nada além de acompanhar pari passu as mesmíssimas regras de pensamento utilizadas por aqueles que nos ouvem; pois só assim teremos encontrado o necessário vínculo compartilhado em comum, e agora também em pleno espírito de confraternização filosófica.

Será gravitando em torno desse vínculo, que nós nos permitiremos realmente construir todo o diálogo sobre essa grave questão.

Por fim, isso haverá de mostrar-se importante tendo-se também em vista qual será a resposta – em aparência tão desconcertante – que teremos a apresentar ao fim deste ensaio.

De fato, podemos nos adiantar desde já, quanto a ela.

Nossa resposta à pergunta: “existe na Religião da Humanidade algum conceito semelhante ao conceito de Deus, tal como entendido pelos cristãos?” precisará – infelizmente – ser dada não em termos categóricos, mas como um daqueles irritantes “sim-e-não”; modelo de resposta considerado muitas vezes – e não sem certa razão – como um recurso suspeito, peculiar a digressões vagas ou evasivas; mero estratagema usado, ou para acobertar a ignorância, ou para esquivar-se de algum comprometimento indesejável.

Ora, se a principal dificuldade a superar aqui reside na justificação que teremos de apresentar a respeito do modo como conceituaremos “Deus” e “deificação” – isto nos deveria sugerir a que começássemos o argumento por deslocar o foco da nossa atenção para o próprio processo básico por meio do qual a mente humana chega a definir algo; uma vez que é o produto imediato desse processo, aquilo de que nos serviremos logo em seguida.

Assim, nada mais justo do que iniciarmos o argumento pela seguinte questão: como pode vir a ser formada pelo entendimento humano, uma definição geral qualquer?

Ou por outra: em que consiste – e como se dá – o processo de composição mental por meio do qual nossa subjetividade chega a elaborar para seu uso, a definição geral de algo, seja lá o que for?

Para quem deseja um exame aprofundado disso, indicaremos aqui o excelente livro “Definições”, de Leônidas Hegenberg.

Nos estreitos limites, porém, de nossa apresentação, caracterizaremos uma definição geral da seguinte maneira: uma definição torna-se geral na medida em que vai, por meio de progressivas abstrações, perdendo – ou antes, pondo de lado – uma a uma, suas diversas especificidades.

Quando – uma vez submetida a tal processo – a definição chega por fim a realizar tal expurgo até ao ponto de mostrar-se capaz de reunir a si – em seu enunciado – apenas o que existe de comum à totalidade dos casos particulares possíveis do objeto a que esteja-se pretendendo definir; ei-la aí, alcançando enfim, o máximo de abrangência em relação ao seu correspondente conceito.

 É quando – e apenas quando – então, nós a designamos como uma definição geral.

Compreende-se, porém, que como a abstração a que nos referimos – essa subtração de especificidades – seja algo que possa dar-se por partes, gradual e progressivamente; as definições – de um mesmo conceito – comportem diversos níveis de generalidade.

Será portanto necessário a quem nos ouça, ter em mente que quando falarmos aqui de uma definição geral estaremos apenas nos servindo de uma locução abreviada do que seria essa mesma idéia expressa mais detalhadamente.

Estaremos falando de algo que poderia ser melhor traduzido como “a definição mais geral possível em comparação com as demais que também poderiam ter sido feitas daquele mesmo conceito-base, e assim apresentadas”.

Isto posto, poderemos agora avançar outro passo, buscando compreender como é que se chega a formar, a partir daí, uma definição verdadeiramente geral de Deus.

Para isso, precisamos realizar duas coisas:

1-                  Transformar essa nossa primeira noção de definição geral numa espécie de protocolo funcional, e, em seguida:

2-                  Aplicá-lo diretamente ao caso da formulação de uma definição geral de Deus.

Ao fazermos isso, teremos já o que podemos tomar por um primeiro esboço de conceituação; conceituação essa, sem dúvida ultra-abstrata, e que, a rigor, ainda não nos proverá de informação alguma, propriamente dita; mas que – por isso mesmo – muito nos servirá como base folgada para todos os nossos ulteriores desenvolvimentos; desenvolvimentos estes que consistirão, no caso, em inserir-lhe algum conteúdo próprio.

Tal proto-definição de Deus – posta do modo mais simples – assume a seguinte forma: “Deus é o que há de comum a todos os deuses”.

Em outras palavras, só o que nos pode servir para definir qualquer Deus é o que houver de comum a cada idéia particular que Dele se fez, se faça, e ainda se venha a fazer; ou, por outra: Deus só pode ser definido em termos verdadeiramente gerais, pelo que há de comum a cada idéia que já tenha sido, seja, ou ainda possa ser formulada Dele.

Devemos, de passagem, agora, frisar o seguinte ponto: ao obtermos o conceito de Deus como “o que há de comum a todos os deuses”, isso não resultou, em absoluto, de nenhum procedimento mental “exótico”, “ideológico”, “positivista”, “exclusivamente nosso”.

Muito pelo contrário isso nada mais representou do que a mesma e exata operação que qualquer pessoa utiliza para si – espontânea e corriqueiramente – quando o que enseja é formular a definição geral de qualquer idéia que já lhe tenha sido dada conceber mentalmente e articular verbalmente.

E se a ninguém ocorre questionar de modo sério a legitimidade lógica do processo que nos conduz a definir, por exemplo, cadeira reunindo, para isso, o que há de comum a todas as cadeiras, bicho, ao que há de comum a todos os bichos, número ao que há de comum a todos os números, sentimento ao que há de comum a todos os sentimentos, amor ao que há de comum a todos os amores, então – perguntamos nós – aonde residiria essa grande contrariedade ao definirmos Deus também assim: como o que há de comum a todos os deuses?

Reparemos, de passagem, que uma coisa haverá de ser a definição geral de Deus que pretendemos aqui; e outra bem diferente disso deve expressar a definição daquilo que os diversos credos teológicos entendem como o que – para cada um deles – precisa ser tomado como o seu “deus verdadeiro”; isto é, aquele que – para cada uma de tais teologias – é de fato o único ser divino que “existe de verdade”.

Notemos ainda, que embora essas duas questões – a do “deus geral” e a do “deus verdadeiro” sejam distintas, verifica-se aqui uma ordem necessária a ser seguida, para a devida compreensão de seus correspondentes enunciados.

É assim, por exemplo, que não faz sentido imaginar a possibilidade de saber o que é um “deus verdadeiro” sem antes possuirmos – ainda que de modo vago – algum conceito daquilo que deveríamos haver entendido, em geral, como correspondendo a um Deus qualquer; seja este concebido como “verdadeiro” ou não.

Ora, acabamos de ver que essa definição geral de deus não pode incluir – sob pena de abortar – nenhum atributo específico, peculiar a um determinado deus ou grupo de deuses particulares.

E é aqui que começa o nosso problema a complicar-se; sendo também aqui que chegamos ao ponto nevrálgico de toda essa investigação.

Pois é fato histórico inegável que as primeiras religiões fetichistas elegeram certos objetos materiais considerados como divinos, fixando assim desde o início um radical contraste com a forma altamente espiritualizada e transcendental dos deuses das religiões politéicas e sobretudo monoteicas, surgidas bem depois.

Assim, se quisermos uma definição realmente geral de Deus; uma definição inclusiva – para usarmos uma expressão cara aos nossos vanguardistas – uma definição capaz, desse modo, de abarcar tanto o que foram aqueles deuses-fetiches dos nossos ancestrais, quanto os outros todos; precisaremos encontrar para ela, um atributo – pelo menos – com o qual não se figure deus nos termos específicos nem do que se entenda como matéria – ou como corponem do que se entenda como espírito, e nem mesmo do que se entenda pela hibridização desses dois conceitos, tomados simultaneamente como um só.

Ora; isso indica a impossibilidade de se tomar qualquer atributo inerente a cada uma dessas diversas entidades históricas, para com ele representarmos o que fosse um suposto denominador comum, que forneceria o estôfo ainda faltante para a nossa desejada definição geral de deus.

Mas se é assim que devemos proceder, então só o que nos restará, será verificar o que existe de comum – já não mais ao conteúdo – mas sim à forma pela qual nós seres humanos chegamos a tomar algo (ou alguém) na conta de um deus; quer seja ele um daqueles objetos materiais primitivamente divinizados pelo fetichismo, quer sejam, ainda, cada um dos diferentes seres espiritualizados, concebidos pelos politeísmos e pelos monoteísmos.

Em outras palavras, precisaremos agora operar uma espécie de virada subjetiva, em toda essa questão da definição geral de Deus.

Se antes o que havíamos feito com nossa proto-definição foi ao menos tentar caracterizar deus objetivamente, conceituando-o como “o que há de comum a todos os deuses”, podemos – e na verdade precisaremos agora, nesse novo esforço; integrar e fazer equivaler àquela primeira expressão, o que seja a sua contrapartida subjetiva.

E é assim que seremos conduzidos aqui, a essa segunda definição de deus: “deus é o que aprouve aos homens divinizar”; e: “deus é o que os homens houverem de divinizar”.

Ao fazermos isso, teremos enfim obtido aquele nosso tão desejado atributo comum (e assim definidor) de todos os deuses sem exceção alguma, a saber, o atributo da divinização subjetiva, ou antes – se nos for permitido esse pavoroso neologismo – a divinizabilidade subjetiva de algo; o processo psicológico realizado intimamente por nós, seres humanos, com tal significação e com tal propósito de erguer alguma coisa qualquer à categoria de deus.

Resta-nos agora, evidentemente, a pergunta: mas o que é afinal “divinizar” algo?

Ora, não nos parece que este conceito de divinização ofereça qualquer grande dificuldade: ele significa apenas isso: “a colocação de um determinado ser (ou grupo de seres) pelo motivo que for, numa certa posição – afetiva, intelectual e prática – privilegiada, destacada, separada, sagrada, santa, (superior ou suprema) no interior de uma certa escala hierárquica de seres, que assim passam a ocupar aí posições radicalmente inferiores.”

Vejamos agora, de passagem, como é que uma vez adotado aquele atributo como definidor, ele se amolda de modo extraordinário a qualquer entidade que se queira tomar como divina, prestando-se pois, indistintamente, tanto a objetos materiais quanto a não-materiais:

Quando um objeto material é divinizado, isso significa noutros termos, que ele foi erguido a uma certa posição superior, dada numa certa hierarquia de objetos.

Quando um astro no firmamento é divinizado, isso significa noutros termos, que ele foi erguido a uma certa posição superior numa dada hierarquia de objetos, hierarquia essa que pode ou não haver sido a mesma utilizada para o caso da divinização de um objeto material.

Enfim, quando uma qualidade ou conjunto de qualidades específicas quaisquer (fertilidade, luz, trevas, prazer, agressividade, paz, guerra, volúpia etc) é divinizada, isso significa noutros termos, que ela foi primeiro transformada numa espécie de ser, de coisa; para que em seguida, tal entidade pudesse ser erguida a uma certa posição superior numa dada hierarquia de objetos; hierarquia esta que – mais uma vez – pode ou não ser igual àquelas usadas nos dois casos anteriores.

Recapitulando: o atributo geral – aquele por meio do qual é possível transformar algo num deus – não precisa ser visto como residindo fora de nós. Ao contrário, ele expressa-se pela própria capacidade humana de:

1-                  Primeiramente criar essa hierarquia de seres, e em seguida;

2-                  Identificar (seja lá por qual critério for) o que ou quem é o ser que deve – ou merece – ocupar o topo dessa hierarquia; e, por fim – e em vista disso -

3-                  Passar a tomar a existência de uma tão excelsa entidade, em especial ou máxima consideração, junto a todas as outras existências, incluindo a nossa própria.

Notemos ainda que os elementos presentes no interior dessa hierarquia – bem como os critérios que vieram a ser utilizados ao longo dos milênios de nossa história para realizar essas diversas escolhas – modificou-se necessariamente.

Só o que não modificou-se nunca foi o fato de que ao fim do processo, sempre alguns daqueles seres acabaram por ocupar esse ápice, tendo sido nele colocados por nós, haja vista como a própria construção da hierarquia dos seres também foi uma complicada e variada obra nossa, resultado de uma inspirada tentativa de compreender a estrutura e a relação das coisas umas com as outras, e também conosco.

E assim, chegamos a mais um ponto crucial de nosso exame:

Qual teria sido – perguntamos agora – o denominador comum presente àqueles diferentes critérios por meio dos quais tais ou quais seres foram – no contexto de tal ou qual época (ou nas circunstâncias de tal ou qual lugar) – eleitos por nós à condição de deuses, de preferência ao que, em tese, também poderia ter sido feito mediante a escolha de outros seres bastante diferentes daqueles?

Mais uma vez, temos a considerar que tal denominador comum – qualquer que seja – não pode residir em nenhum atributo específico de nenhum deus em particular, haja vista a enorme quantidade e a mais diversificada qualidade dos mais heteróclitos seres que já tomaram assento no trono divino.

O único atributo que resta, em vista de tal eliminação, a única qualidade que um candidato a Deus nunca pôde deixar de possuir para ser deus, quer tenha sido tal candidato um objeto material, um ponto luminoso no céu, ou um conjunto de abstrações hipostasiadas e personificadas; é o atributo de sua existência objetiva.

Em outras palavras, jamais nenhum deus foi concebido como devendo possuir uma existência exclusivamente imaginária, confinada aos limites de nosso próprio crânio.

Para que algo se nos tornasse um deus, deveria antes de tudo poder ser concebido por nós como existindo fora de nossa própria subjetividade.

É mistér a suposição de que ele deva encontrar-se naquela região do mundo que consideramos como exterior a nós.

Isso é algo notório: crer em um deus sempre significou crer num ser cuja existência se dá fora de nós, para além do que seria apenas uma vida transcorrida no reino da fantasia, como um produto fabuloso, exclusivo de nossa imaginação.

Insistimos: o atributo da existência objetiva é a mais elementar característica que não pode faltar à bagagem de nenhum deus, ainda mesmo quando tal ente fosse concebido como suscetível de perecer, isto é de perder aquele atributo de sua existência “real”.

É justamente a crença na existência objetiva de tais seres, aquilo que lhes confere toda a força que na verdade nós lhes emprestamos; e é tal crença que nos serviu de guia, por instinto, ao que foi o nosso entendimento ao longo da história, tanto para o que correspondeu à transformação de algo em deus, quanto para o que deveu representar o processo inverso, isto é, a destituição, a remoção e o sumário banimento e exílio daquele altíssimo posto.

Estamos agora – e só agora – finalmente prontos para apresentarmos aos caros ouvintes o que devemos tomar aqui como a nossa famigerada definição geral de deus.

Vejamo-la:

“deus é qualquer ser que tenha sido colocado por nós em uma posição superior numa dada escala de seres; escala essa composta apenas por entidades cuja existência tenha sido concebida por nós como transcorrendo externamente a nós, fora do âmbito restrito ao de nossa própria imaginação e da imaginação de outrém.”

Notemos ainda, de passagem, que até aqui nós nos limitamos propositadamente ao exame da questão apenas sob o ângulo da formulação intelectual da idéia geral deus, considerando como pré-requisito de tal conceito, a suposição de sua existência objetiva.

No entanto, podemos estender nossa análise, de modo a também incluir aí o modo como os homens se relacionaram afetivamente com aquilo que tomaram por um deus.

Podemos então sofisticar nossas considerações um pouco mais, verificando que não só nenhum deus jamais pôde – ou mereceu – ser concebido como tal, sem existir objetivamente; como também nenhum deus jamais chegou a ser cultuado na qualidade apenas de um ser cuja existência houvesse sido concebida por nós como exclusivamente imaginária, ou como se pudesse passar por tal, devido à alguma contumaz inação.

Isto posto, podemos então – após todo esse arrazoado – compreender enfim o motivo pelo qual o Positivismo obteve reconhecer, na Humanidade, uma genuína deusa, ou seja, considerando-A como O SER OBJETIVO COLOCADO NO TOPO DE UMA DADA HIERARQUIA DE SERES, CUJA EXISTÊNCIA – FORA DE NOSSA IMAGINAÇÃO – TENHA SIDO ADMITIDA COMO, A UM SÓ TEMPO, APROPRIADA E DIGNA DO NOSSO MÁXIMO AMOR.

Ora, é um fato que a nossa religião rejeita como absurdas e como imorais as diversas crenças sobrenaturais, tomando-as na conta de incompatíveis com a existência exterior – e até com a própria coerência mínima exigida a uma entidade imaginária plausível.

Como dissemos, porém, não haverá de ser aqui a ocasião de apresentarmos exatamente os termos dessa nossa rejeição; bastando assinalar-lhe a existência.

Tal rejeição deve aqui significar apenas isso: que nenhum ser sobrenatural pode mais, para nós positivistas, ocupar o cimo de uma hierarquia cujos seres, como vimos, serão sempre objetivamente existentes, ou ao menos serão entidades cuja existência objetiva é sempre possível aí, por definição.

Perguntamos então: tendo sido excluído do topo daquela hierarquia o deus que o positivismo reconhece como radicalmente inviável; qual seria, no caso; o outro ser cuja existência pudéssemos reconhecer ou tomar por objetiva, e que figurasse como o ente mais parecido possível com deus – parecido inclusive do ponto-de-vista de nos inspirar análogas inclinações espontâneas de nosso afeto por ele, e consequentes deveres morais em adorá-lo?

Ou por outra: qual seria enfim esse novo e venerável ser que todos nós pudéssemos identificar sem esforço, como realizando de fato aquele mesmo gênero de cooperação ativa e voluntária conosco, atuando sem cessar – do mesmo modo e segundo um papel essencialmente semelhante – àquele outrora concebido como desempenhado pelo deus sobrenatural e fictício?

Ao que – ou a quem – enfim, perguntamos, devemos agora tomar sob essa mais augusta qualidade, ou seja a de nossa nova Providência afetiva, intelectual e prática?

Uma coisa ao menos é certa: esse ente – seja ele qual for – deveria ser aquele que estivesse até então ocupando – na hierarquia dos entes – a posição imediatamente inferior, logo abaixo àquela outorgada ao deus sobrenatural, enquanto este foi suposto existir objetivamente.

E deveria corresponder também àquele ser que – tanto por lógica quanto por fato e por direito – passaria então – ato contínuo – a ocupar a posição tornada vaga pela própria extinção do caráter objetivo do deus sobrenatural.

Ora, se ainda resta alguma dúvida ou suspeição sobre qual tenha sido – histórica e dogmaticamente – tal ente; conviria lembrar que sequer fomos nós positivistas – mas o monoteísmo mesmo – a encarregar-se, por nós, de posicionar a Humanidade naquele nicho – no lugar mais próximo possível – de Deus; um lugar, inclusive, superior àquele que coube aos próprios anjos ocupar.

Quando se disse que o homem foi feito à imagem e semelhança de Deus foi precisamente essa a idéia que se pretendeu externar.

Pois bem, eis aí apresentado o ser que preenche uma tal vacância: é a Humanidade.

Embora também não nos convenha, nos limites dessa apresentação, oferecer o que seriam as vantagens dessa substituição e nem o que seria uma definição extensa da nossa Deusa; caberia ao menos sublinhar que o Positivismo não a compreende como um amontoado amorfo e indistinto de pessoas, mas como o conjunto contínuo dos seres humanos convergentes do passado do presente e mesmo do futuro, que cooperaram, cooperam e ainda cooperarão para o estabelecimento das nossas melhores condições de existência e de desenvolvimento, tanto afetivo quanto intelectual e prático.

Conjunto esse ao qual agregamos, bem entendido, o de todos os demais seres que a auxiliam em seu sublime destino de amor, de ordem e de progresso.

Ora assim como costumamos dizer “rei morto rei posto” – e assim como Guizot afirmava que “só se destrói o que se substitui” – assim também foi concebida a idéia da Humanidade pelo Positivismo, isto é como a de uma substituta real para as funções de um ser cujo caráter fictício tornou-se – para nós positivistas ao menos – fora de qualquer dúvida.

Tal foi também a idéia que inspirou a divisa latina criada pelo venerando fundador da nossa igreja, Miguel Lemos: “Deus extinto, a Humanidade sucede-lhe”.

Pois bem.

Voltemos agora à pergunta que nos foi apresentada, sobre se há ou não no Positivismo “algum conceito semelhante ao conceito de deus tal como entendido pelos cristãos”.

Como havíamos dito, ela pode ficar assim respondida: sim e não.

Esperamos que a partir dessa nossa tentativa de esclarecimento, tenha-se tornado evidente a razão pela qual nós precisamos responder a ela nesses termos.

De fato, precisaremos responder que “sim”- que nós positivistas dispomos de um conceito semelhante ao do deus cristão.

Porém, nossa resposta só será afirmativa, se o que tivermos em vista for a semelhança com a qual tomamos a Humanidade como o nosso próprio ser supremo natural, comparando isso ao que também fazem os cristãos com o seu deus sobrenatural.

De fato a deificação que o Positivismo faz da Humanidade realizou-se, como vimos, da mesma forma, e sob o mesmo processo mental pelo qual os cristãos preferiram eleger – para esse mesmo papel e com esse mesmo fim – a sua entidade absoluta e eterna, por eles concebida como criadora e mantenedora do universo inteiro e de cada uma de suas partes; entidade essa concebida por eles como infinitamente boa, justa, sábia e poderosa.

É a essa entidade – aceita por eles como existindo objetivamente, mas rejeitada por nós sob tal status – que os cristãos chamam de “o seu único deus verdadeiro”.

Mas é também exatamente assim, para nós positivistas, que a Humanidade – sustentada pela Terra e envolvida pelo Espaço – é também sentida, compreendida e proclamada.

A Humanidade não é para nós “como se fosse” um deus: Ela é, para nós uma Deusa, a nossa Deusa.

Para nós, é Ela o equivalente ser a quem outorgamos – do mesmo modo, com as mesmas emoções e com os mesmos propósitos dos cristãos – aquela excelsa condição de centro total da nossa existência; correspondendo o nosso culto ao meio de melhor amá-La, o nosso dogma ao meio de melhor conhecê-La e o nosso regimen ao meio de melhor auxiliá-La.

E é a Ela também a quem outorgamos com aquele honorável título de Ser Supremo, em nada incompatível, diga-se, com o que possam ser suas atuais fragilidades, tornadas, aliás, cada vez menores.

Temos, porém, que considerar – ao lado do que foi essa resposta afirmativa – também uma outra; radicalmente negativa.

Nossa resposta agora precisará ser “não”; se o que tivermos a sublinhar for toda a diferença essencial entre o que não pode deixar de ser a incompatibilidade radical entre a existência quimérica do deus cristão e a existência natural e por assim dizer evidente da deusa Humanidade.

Em todas as suas inevitáveis consequências para o estabelecimento e o desenvolvimento do culto, do dogma e do regimen das duas religiões correspondentes; esse contraste profundo nos leva dessa vez a nos isolar em nossa posição, excluindo a mais remota possibilidade de cogitação do que seria a inserção do Deus cristão –ou de qualquer entidade sobrenatural – como um elemento objetivo a respeito do qual pudéssemos depositar a menor parcela da nossa fé.

Mas se por um lado precisamos assim responder com um sim-e-não, temos também a dizer que a parte puramente negativa que nos coube oferecer pode ser suavizada.

Há de fato ainda um último e importantíssimo ponto a esclarecer em nossa resposta: nós não apenas temos o que seria “um conceito semelhante” ao do deus cristão: do ponto de vista de nosso culto, nós na verdade incorporamos a ele o próprio deus cristão.

Vejamos como.

De fato, havíamos dito que nenhum deus jamais pôde cultuar-se senão tendo-lhe sido admitida a condição de sua existência objetiva.

Mas isso só deveu aplicar-se como princípio tácito enquanto a evolução sociológica e moral da religião teve de permanecer espontânea, e enquanto o conceito de Deus restringiu-se aos limites apropriados ao estado teológico e metafísico do entendimento, caracterizados ambos pela tendência a tomar como real tudo aquilo que apenas chegou a ser pensado.

Ao chegarmos, porém, ao estado positivo, já o relativismo e o subjetivismo inerentes – e mesmo peculiares – à nossa religião ultrapassa livremente aqueles limites então tornados desnecessários e até funestos.

Tal superação não só nos permite diretamente, como nos convida ostensivamente a incluir e a compartilhar, em nosso culto, todas as entidades que – conquanto fictícias e mesmo quiméricas – já nos tenham servido como colaboradores subjetivos nesse ou naquele tempo e lugar, como estimulantes imaginários do nosso aperfeiçoamento.

Considerado tal culto sob a única ressalva de que aqueles seres passam então à qualidade de produções irreais e transitórias criadas pela espécie humana, isso deve poder, é claro, incluir – sem o menor constrangimento e sem o menor perigo de confusão e de retorno ao estado teológico – o antigo deus sobrenatural cristão, homenageado então por nós como o precursor imaginário da Humanidade; um dos conceitos que não só precederam como deveram preparar o advento da idéia religiosa da nossa Deusa.

Vejam então, caros ouvintes, que é assim – precisamente desse modo – pelo culto subjetivo à idéia de Deus – que nós melhor podemos caracterizar a Religião da Humanidade, comparando-a ao culto de um credo monoteico qualquer.

Pois enquanto nossos adversários teológicos não podem tomar a nossa idéia religiosa da Humanidade deificada, senão na qualidade de uma profanação odiosa que teríamos perpetrado contra o Deus sobrenatural; a nós positivistas, pelo contrário, estará reservada a condição única de últimos guardiões do amor a tal ser após a espontânea extinção do teologismo no mundo; extinção essa aliás, já em franco andamento.

Quando ninguém conseguir mais olhar para o passado teológico de nossa espécie senão como uma turbulenta, obscura e mesmo incômoda lembrança; seremos nós que, do alto de nosso culto à Humanidade, refrescaremos a memória geral trazendo de volta o que foram também os mais santos êxtases que, então, apenas um deus sobrenatural poderia de fato inspirar aos corações ainda tão brutos dos nossos ancestrais.

Seremos nós aqueles encarregados, portanto, de salvaguardar – da única forma moralmente digna – o que um dia foi aquele nobre sentimento de amor a Deus, de outro modo inteiramente perdido, e mesmo proscrito como pueril e ridículo.

Pois para nós, é só a partir do pleno reconhecimento da natureza puramente imaginária do deus teológico; que se torna possível resguardá-Lo das responsabilidades que ele não poderia de modo algum cumprir; bem como eximi-Lo do peso de todas as culpas a respeito das quais ele não poderia receber qualquer imputação ou punição.

É esse mesmo culto redentor – já agora livre de toda possibilidade de egoísmo – que a Religião da Humanidade continua prestando e tributará para sempre – e com uma renovada reverência – ainda mais pura que a jamais oferecida pelo melhor estado teológico – à essa veneranda – mas não exatamente saudosa memória – do extinto deus sobrenatural; não só do cristianismo, como de todos os demais monoteísmos.


11 fevereiro 2026

A Humanidade como deusa positiva - 1

No dia 13 de Homero de 172 (10.2.2026) realizamos nossa prédica positiva, dando continuidade à leitura comentada do Apelo aos conservadores (em sua Segunda Parte - conduta dos positivistas em relação aos retrógrados).

No sermão contamos com a colaboração de nosso correligionário Hernani Gomes da Costa, que apresentou suas reflexões sobre a Humanidade como deusa positiva.

Devido ao seu caráter compartilhado, a prédica foi transmitida exclusivamente pelo nosso canal Positivismo (https://youtu.be/xuoG6o2BxcY).

As anotações que orientaram a exposição oral encontram-se reproduzidas abaixo.


*   *   *


A Humanidade como deusa positiva

(13 de Homero de 172/10.2.2026) 

1.      Abertura da prédica

2.      Datas e celebrações:

2.1.   Dia 10 de Homero (7 de fevereiro): nascimento de Paulo de Tarso Monte Serrat (1923 – 103 anos)

2.2.   Mês de Homero: segundo mês do ano, dedicado à arte antiga

3.      Leitura comentada do Apelo aos conservadores

3.1.   Antes de mais nada, devemos recordar algumas considerações sobre o Apelo:

3.1.1.O Apelo é um manifesto político e dirige-se não a quaisquer pessoas ou grupos, mas a um grupo específico: são os líderes políticos e industriais que tendem para a defesa da ordem (e que tendem para a defesa da ordem até mesmo devido à sua atuação como líderes políticos e industriais), mas que, ao mesmo tempo, reconhecem a necessidade do progresso (a começar pela república): são esses os “conservadores” a que Augusto Comte apela

3.1.2.O Apelo, portanto, adota uma linguagem e um formato adequados ao público a que se dirige

3.1.3.Empregamos a expressão “líderes industriais” no lugar de “líderes econômicos”, por ser mais específica e mais adequada ao Positivismo: a “sociedade industrial” não se refere às manufaturas, mas à atividade pacífica, construtiva, colaborativa, oposta à guerra

3.2.   Outras observações:

3.2.1.Uma versão digitalizada da tradução brasileira desse livro, feita por Miguel Lemos e publicada em 1899, está disponível no Internet Archive: https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores

3.2.2.O capítulo em que estamos é a “Segunda Parte”, cujo subtítulo é “Conduta dos conservadores em relação aos retrógrados”

3.3.   Passemos, então, à leitura comentada do Apelo aos conservadores!

4.      Exortações

4.1.   Sejamos altruístas!

4.2.   Façamos orações!

4.3.   Como Igreja Positivista Virtual, ministramos os sacramentos positivos a quem tem interesse

4.4.   Para apoiar as atividades dos nossos canais e da Igreja Positivista Virtual: façam o Pix da Positividade! (Chave Pix: ApostoladoPositivista@gmail.com)

5.      Sermão: a Humanidade como deusa positiva

5.1.   Este sermão será um pouco diferente do habitual, seja por sua origem, seja por sua estrutura

5.1.1.Há alguns meses, para uma pesquisa universitária, nosso jovem correligionário Emerson propôs-nos – na verdade, a nós e a nosso amigo Hernani – um questionário, em que uma das questões referia-se à eventual existência de alguma noção de “deus” no âmbito do Positivismo; essa é uma questão interessante, que, apesar dos pesares, não é tão evidente quanto pode parecer à primeira vista;

5.1.2.Assim, considerando sua importância, decidimos apresentar publicamente nossa resposta (que, de qualquer maneira, é pública por si só), assim como a do Hernani

5.2.   Vamos, então, à resposta de Hernani!

6.      Término da prédica

 

Referências

- Auguste Comte (franc.), Síntese subjetiva (Paris, Exécution Téstamentaire d’Auguste Comte, 2ª ed., 1900): https://archive.org/details/lasynthsesubjec00comtgoog.

- Augusto Comte (franc.), Discurso sobre o espírito positivo, in: Sistema de política positiva (Paris. J.-B. Baillière, 4ª ed., 1880): https://archive.org/details/systmedepoliti01comt.

- Augusto Comte (franc.), Sistema de filosofia positiva (Paris, Société Positiviste, 5e ed., 1893).

- Augusto Comte (port.), Apelo aos conservadores (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores.

- Augusto Comte (port.), Catecismo positivista (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 4ª ed., 1934).

- Luís Lagarrigue (esp.), A poesia positivista (Santiago do Chile, 1890): https://archive.org/details/luis-lagarrigue-a-poesia-positivista-1890_202509.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), As últimas concepções de Augusto Comte (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-i e https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-ii.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), O ano sem par (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1900): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-o-ano-sem-par-portug._202312/page/n7/mode/2up