23 setembro 2026

A espiritualidade positiva

No dia 13 de Shakespeare de 172 (22.9.2026) realizamos nossa prédica positiva, dando continuidade à leitura comentada do Apelo aos conservadores (em sua "Conclusão - missão peculiar aos verdadeiros conservadores").

No sermão abordamos a espiritualidade positiva.

A prédica foi transmitida nos canais Positivismo (https://youtube.com/live/H5wmmuILZsY) e Igreja Positivista Virtual (https://www.facebook.com/IgrejaPositivistaVirtual/videos/4556000391314329).

As anotações que serviram de base para a exposição oral encontram-se reproduzidas abaixo.

*   *   *


A espiritualidade positiva

(13 de Shakespeare de 172/22.9.2026) 

1.     Abertura da prédica

2.     Datas e celebrações

2.1.   Dia 12 de Shakespeare (21.9): nascimento de Luís Lagarrigue (1854 – 172 anos)

2.2.   Dia 13 de Shakespeare (22.9): início da primavera (equinócio da primavera)

3.     Apóiem a Igreja Positivista Virtual!

3.1.   Colaborem com o que puderem; com boa fé e boa vontade, toda e qualquer colaboração é necessária e bem-vinda!

3.1.1. Inscrevam-se no canal, compartilhem, divulguem nossas atividades!

3.2.   Para apoiar as atividades dos nossos canais e da Igreja Positivista Virtual: façam o Pix da Positividade! (Chave Pix: ApostoladoPositivista@gmail.com)

4.     Leitura comentada do Apelo aos conservadores

5.     Exortações

5.1.   Esta talvez seja a seção mais importante das prédicas!

5.2.   Sejamos altruístas!

5.2.1. Sejamos generosos, tolerantes etc.

5.2.2. Devemos orientar toda a nossa vida pelo altruísmo: quando o altruísmo regula e orienta a vida, o resultado é que o altruísmo (a dedicação para os demais) e o egoísmo (a satisfação das necessidades pessoais) não são incompatíveis, pois só o altruísmo permite unir o bem comum à felicidade pessoal

5.3.   Façamos orações!

5.3.1. A oração positiva é a base do culto íntimo; assim, é tanto a base do aperfeiçoamento pessoal quanto da espiritualidade positiva de modo geral

5.4.   Como Igreja Positivista Virtual, ministramos os sacramentos positivos a quem tem interesse

5.4.1. Em um total de nove, os sacramentos são a celebração de momentos centrais na vida de todos nós – momentos que devem ser celebrados, afirmados, compartilhados (o nascimento/a adoção, o casamento, a aposentadoria, a transformação (a morte) etc.)

6.     Sermão: a espiritualidade positiva

6.1.   O tema do sermão desta semana é a espiritualidade positiva

6.1.1. Indiscutivelmente, esse tema é algo... diferente

6.1.1.1.          No senso comum, o tema da espiritualidade está intimamente vinculado a formas de misticismo ou, em todo caso, à teologia

6.1.1.2.          O comum do povo valoriza bastante a espiritualidade, seja como afirmação de crenças (e, a partir daí, da concepção de que somente quem “crê” merece confiança), seja como sinal de sanidade

6.1.1.3.          Já os acadêmicos são bastante ambíguos: a partir do amálgama institucional e semioficial de tradicionalismo católico com materialismo marxista, de modo geral os acadêmicos desprezam a “espiritualidade” quando ela refere-se a si próprios (misticismo, afinal de contas), embora supostamente a valorizem quando ela refere-se ao povo, aos “outros” e aos “dominados”

6.1.2. Creio que vale a pena indicar por que decidi abordar esse tema; isso foi devido a dois motivos:

6.1.2.1.          Por um lado, devido a compromissos acadêmicos, nas últimas semanas redigi anotações sistemáticas sobre o tema da moral no Positivismo; essas anotações levaram-me a considerar outras, agora sobre a espiritualidade

6.1.2.2.          Por outro lado, também nas últimas semanas li um livro sobre o Tradicionalismo, que é uma concepção particularmente retrógrada e mística de teologia, que apresenta os graves problemas adicionais de ser contra o progresso e a racionalidade e que, em virtude disso, aproxima-se ativa e passivamente do fascismo e de concepções sociopolíticas autoritárias (e teocráticas); entretanto, os adeptos do Tradicionalismo falam convictamente em “espiritualidade”, buscando satisfazer algumas necessidades humanas reais (embora, claro, por vias irreais)

6.1.3. Augusto Comte falava correntemente em “espiritualidade” e em “espiritualidade positiva” (por exemplo, no Catecismo positivista); considerando a importância da subjetividade e a defesa da concepção positiva de religião, não há porque não usarmos essa expressão e não definirmos a concepção positiva de espiritualidade

6.1.3.1.          Em si mesmo, o tema da espiritualidade positiva é muito o da religião positiva; apenas a ênfase é um pouco mais pessoal (e doméstica)

6.1.3.1.1.              Usaremos aqui a expressão “pessoal” no lugar de “individual” para deixar claro, na medida do possível, o aspecto relacional do ser humano, ou seja, seu aspecto social e histórico, evitando assim a mentalidade egoísta e “isolante” própria ao individualismo

6.2.   Adiantando bastante o tema, é importante notarmos que um aspecto central da espiritualidade positiva, que fica tanto implícito quanto explícito, é o fato de que ela implica a mudança de mentalidade e de sensibilidade

6.2.1. Essa mudança de mentalidade e de sensibilidade corresponde ao mesmo tempo à mudança de entendimento intelectual e à mudança afetiva e prática da forma geral como nos relacionamos com o mundo e as demais pessoas

6.2.2. Em termos um pouco mais específicos, essa mudança de mentalidade e de sensibilidade corresponde (1) à afirmação do relativismo em substituição ao absolutismo, (2) à afirmação do altruísmo em substituição ao egoísmo e (3) à afirmação da atividade construtiva e pacífica em substituição à atividade destruidora e/ou violenta

6.3.   É necessário termos clareza de que o senso comum atual do Ocidente, caracterizado pela anárquica combinação de monoteísmo, de politeísmo e de metafísica, tudo isso com elementos variados de misticismo, considera que a espiritualidade refere-se apenas e estritamente à relação do “espírito” (ou seja, de uma entidade etérea, distinta do corpo e oposta a ele) com o “além”

6.3.1. Essa relação é individual e alheia à existência material e à realidade social: a concepção atualmente em voga consiste, portanto, em algo profundamente egoísta, seja porque se refere apenas a cada indivíduo, seja porque se separa do mundo e da sociedade

6.3.2. Além disso, como conseqüência do aspecto estritamente individual e antissocial dessa espiritualidade teológica (e/ou mística), a espiritualidade é divorciada da moralidade: não importa se essa espiritualidade é correta ou não; aliás, em si mesma nem há esse tipo de consideração

6.4.   Não temos como afirmar a espiritualidade positiva sem nos lembrarmos de algumas concepções básicas, em particular (1) o relativismo, (2) a tríplice natureza humana, (3) o caráter social e histórico do ser humano e, por fim, (4) o aspecto ao mesmo tempo objetivo e subjetivo do ser humano

6.4.1. O relativismo consiste em que o ser humano vive sempre em relação com o ambiente, seja objetivamente, seja subjetivamente, seja com o mundo, seja com outros seres humanos: nós não existimos e não apreendemos nada que não seja por meio de relações; assim, para o ser humano não existem coisas “puras”, “em si mesmas”, supostamente independentes de qualquer outra coisa: as pretensões de que tais “coisas em si” existem e de que seria possível ao ser humano apreendê-las correspondem ao absolutismo, isto é, às concepções teológicas e metafísicas

6.4.1.1.          O relativismo pode ser entendido então como “relacionismo” e antiabsolutismo

6.4.2. A tríplice natureza humana corresponde ao fato de que o ser humano é, ao mesmo tempo, sentimentos, inteligência e atividade prática: nossos impulsos elementares são a origem e o destino de nossa existência e são satisfeitos por meio das nossas relações práticas com o mundo e com os demais seres humanos; a inteligência corresponde ao entendimento desse mundo e dessas relações, indicando como o mundo constitui-se e, daí, como é possível atuar nele; dos impulsos elementares, os egoístas (os estritamente individuais) são os mais intensos, mas são os altruístas (os que estabelecem as relações afetivas e sociais) que permitem o equilíbrio e a verdadeira satisfação humana

6.4.2.1.          Buscando a síntese no sentido específico da reunião de várias idéias em conceitos gerais, Augusto Comte reuniu na expressão “sentimentos” os instintos egoístas e os instintos altruístas; o egoísmo é composto por sete impulsos elementares, ao passo que o altruísmo é composto por três impulsos elementares

6.4.2.2.          Nesse total de dez instintos, do primeiro ao último ocorre um enfraquecimento da força e um aumento do caráter social (ou coletivo, ou não estritamente individual) dos instintos, de tal sorte que o primeiro (a nutrição) é o mais forte e o mais individual, ao passo que o último (a bondade) é o mais fraco e o menos individual

6.4.3. Uma conseqüência específica do relativismo (ou do relacionismo) e da tríplice natureza humana é o caráter histórico e social do ser humano, em que, por um lado, somente existimos em sociedade, ao vivermos em conjunto e, por outro lado, exatamente ao vivermos em conjunto nossos atributos desenvolvem-se com o passar do tempo (em particular nas direções de estímulo do altruísmo, compressão do egoísmo, aumento da compreensão da realidade e diminuição da violência)

6.4.3.1.          O desenvolvimento humano é apresentado e explicado por meio das três leis dos três estados, cada uma correspondente a um aspecto da natureza humana

6.4.3.2.          A lei afetiva é a que nos importa mais aqui; ela estabelece que a sociabilidade humana amplia-se das relações domésticas para as relações cívicas e daí para as universais, cada um desses âmbitos correspondendo a um dos instintos altruístas – respectivamente veneração, apego e bondade

6.4.3.2.1.              A bondade, em particular, é afirmada subjetivamente em relação à Humanidade, que é o Grande Ser e que atua como intermediária entre o ser humano individual e o mundo

6.4.4. A existência humana é ao mesmo tempo objetiva e subjetiva: relacionamo-nos com coisas e pessoas que existem de verdade e que exercem pressões sobre nós (assim como nós exercemos pressão sobre essas coisas e pessoas); mas, ao mesmo tempo, entendemos subjetivamente o mundo, compartilhamos valores, temos idéias, temos sentimentos e imaginamos

6.4.4.1.          Em graus variados, que mudam conforme a pessoa, o momento, o contexto histórico e social específico, os elementos objetivos e subjetivos combinam-se

6.4.5. O equilíbrio humano só é possível quando os esforços pessoais são conjugados e compatibilizados com o benefício coletivo; em outras palavras, quando se afirma o altruísmo e quando o egoísmo é comprimido e orientado em favor do altruísmo; com isso, a felicidade individual coincide com o devotamento ao bem-estar coletivo

6.4.5.1.          A dedicação ao bem-estar coletivo tem que considerar cada país e a Humanidade como um todo, mas ela começa sempre, necessariamente, com a dedicação à própria família (cônjuge, filhos, pais, agregados etc.)

6.4.6. Essa é a base da moralidade humana – em que o que estimula e aumenta o altruísmo é moral e o que aumenta o egoísmo, ou diminui o altruísmo, ou aumenta a violência e a destruição, é imoral –; da mesma forma, essa é a base necessária da espiritualidade positiva

6.5.   A partir dos elementos acima, podemos entender que a espiritualidade positiva refere-se a cada ser humano individualmente, mas ela não isola esse indivíduo do resto da sociedade, ou melhor, a espiritualidade positiva não isola os indivíduos da Humanidade: bem ao contrário, a espiritualidade positiva integra, sempre e cada vez mais, os indivíduos na Humanidade

6.5.1. Em um primeiro momento, a integração do indivíduo na Humanidade ocorre objetivamente, nas famílias e nas pátrias, sob a tutela geral da Humanidade; mas a integração de fato ocorre mesmo subjetivamente, com a satisfação das necessidades pessoais de cada um a partir da orientação altruísta dos seus esforços

6.5.2. A integração dos indivíduos na Humanidade não é um encontro místico, indefinido, em que a subjetividade individual é estimulada fora e contra a realidade objetiva e contra a vida em sociedade; bem ao contrário, a integração positiva na Humanidade reconhece a realidade, reconhece a sociedade e busca tanto a melhoria social quanto o aperfeiçoamento individual: se esses aspectos não ocorrerem, não apenas tendemos ao misticismo e ao absolutismo como nossos esforços serão desperdiçados

6.6.   Todos esses comentários serviram, como servem, para entender o que é o ser humano e como ele pode desenvolver-se; são, portanto, aspectos científicos, filosóficos e morais básicos; eles indicam os fundamentos da espiritualidade humana e sugerem alguns aspectos, mas não correspondem exatamente a essa espiritualidade

6.6.1. A passagem desses fundamentos para a constituição efetiva de uma espiritualidade positiva corresponde precisamente, na obra de Augusto Comte, à constituição da Religião da Humanidade

6.6.2. A recusa em aceitar a necessidade de satisfazer as necessidades humanas, em empregar os recursos que há muito tempo já estão à disposição do ser humano e a insistência no mito de que ainda (e sempre) seriam necessários “mais conhecimentos” para tal satisfação: a isso correspondem o academicismo e o cientificismo

6.6.3. Não por acaso, tais mitos são empregados ativamente contra o Positivismo, contra a espiritualidade positiva e, portanto, a favor da permanência da espiritualidade teológica

6.7.   Como é a espiritualidade positiva? Dito de outra maneira, como satisfazemos os indivíduos e vinculamo-los mais à Humanidade?

6.7.1. A espiritualidade positiva ocorre basicamente por meio do culto e do regime, mas também por meio do dogma

6.7.2. O culto positivo é o meio básico da nossa espiritualidade, em particular por meio da oração positiva; a oração positiva integra o culto íntimo, isto é, o culto estritamente individual

6.7.2.1.          O culto doméstico e o culto público também constituem a nossa espiritualidade

6.7.2.2.          Embora a espiritualidade teológica tenda a desprezar, de um ponto de vista intelectual, a importância do compartilhamento público de sentimentos, todas as grandes religiões na prática sempre reconhecerem que os cultos públicos estimulam profunda e intensamente a espiritualidade

6.7.2.2.1.              A música, em particular, é um dos grandes instrumentos da espiritualidade no culto público

6.7.2.3.          O estímulo orientado da imaginação, com a leitura de grandes obras-primas – e, desde o século XX, também com a assistência de grandes filmes, séries e até novelas –, desde sempre é reconhecido com integrando a espiritualidade

6.7.3. O Positivismo tem os seus nove sacramentos, que podem e devem ser entendidos como ritos de passagem; em certo sentido, são ritos de iniciação

6.7.3.1.          É claro que o aprendizado, com as relações entre mestre e discípulo, também é um rito de iniciação e integra a espiritualidade

6.7.4. Já a dedicação prática ao bem comum oferece por si só uma satisfação toda própria, além de permitir o aperfeiçoamento concreto do ser humano

6.7.4.1.          É a dedicação prática ao bem comum que evita o misticismo e que, portanto, na prática reafirma aspectos fundamentais do ser humano (em particular o relacionismo, a existência gregária e o desenvolvimento histórico)

6.7.5. Em termos intelectuais, a leitura de obras filosóficas, de tratados morais, de relatos históricos, de dramas e epopéias literárias também estimula e desenvolve a espiritualidade positiva – na verdade, esses procedimentos também sempre foram entendidos como integrantes e estimulantes da espiritualidade

6.7.5.1.          Dito isso, repetidas vezes criticamos a ciência e o cientificismo; mas a verdade é que a compreensão filosófica do desenvolvimento histórico da ciência integra, e tem que integrar, a espiritualidade positiva

6.7.5.2.          Além dos aspectos indicados antes – aspectos que foram afirmados pela observação prática dos proletários, pela síntese feminina e comprovados pelos cientistas: o relacionismo, a tríplice natureza humana etc. –, cada ciência abstrata ofereceu elementos intelectuais que alimentam a reflexão filosófica e moral, ou seja, que integram a espiritualidade positiva

6.7.5.2.1.              Primeiro exemplo: a Astronomia estabeleceu a observação sistemática e regular de fenômenos que são irresistíveis e completamente fora da capacidade de manipulação humana, forçando-nos à submissão

6.7.5.2.2.              Segundo exemplo: já o conjunto das ciências fundamentais desenvolve os procedimentos e os princípios da classificação, além de revelar um espetáculo cada vez mais nobre e mais subjetivo, bem como cada vez mais complexo e, portanto, mais modificável

6.8.   Para concluir esta exposição:

6.8.1. Os aspectos indicados aqui não esgotam a questão e, na verdade, apenas a apresentam de maneira sumária

6.8.2. Uma exposição sistemática da espiritualidade positiva consistiria, no final das contas, na exposição da própria Religião da Humanidade, ainda que a partir de uma perspectiva específica

6.8.3. Além disso, parece claro que é possível – talvez seja mesmo desejável – que se criem muitos outros elementos e instrumentos da espiritualidade positiva, seja a partir da pura criatividade dos positivistas, seja a partir da inspiração ou dos exemplos fornecidos por outras religiões e filosofias

7.     Término da prédica

 

Referências

- Auguste Comte (franc.), Síntese subjetiva (Paris, Exécution Téstamentaire d’Auguste Comte, 2ª ed., 1900): https://archive.org/details/lasynthsesubjec00comtgoog.

- Augusto Comte (franc.), Sistema de filosofia positiva (Paris, Bachelier, 1838), v. 3, 45e leçon (“Considérations générales sur l’étude positive des fonctions intellectuelles et morales, ou cérébrales”).

- Augusto Comte (franc.), Sistema de política positiva (Paris. J.-B. Baillière, 4ª ed., 1880): https://archive.org/details/systmedepoliti01comt.

- Augusto Comte (port.), Apelo aos conservadores (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores.

- Augusto Comte (port.), Catecismo positivista (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 4ª ed., 1934).

- Gustavo Biscaia de Lacerda (port.), Positivismo, Augusto Comte e epistemologia das ciências humanas e naturais (Marília, Poiesis, 2022).

- José Lonchampt (port.), Ensaio sobre a oração (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1896; catálogo da IPB, n. 165): https://archive.org/details/n.-165-jose-lonchampt-ensaio-sobre-a-oracao.

- Luís Lagarrigue (esp.), A poesia positivista (Santiago do Chile, 1890): https://archive.org/details/luis-lagarrigue-a-poesia-positivista-1890_202509.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), As últimas concepções de Augusto Comte (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-i e https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-ii.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), O ano sem par (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1900): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-o-ano-sem-par-portug._202312/page/n7/mode/2up. 

19 setembro 2026

Gravuras de Augusto Comte e do Positivismo

As imagens abaixo foram feitas por nossos confrades Eugênio, Hernani e Sandra, além de mim mesmo (Gustavo), na Meta IA e no GPT. São pequenas homenagens ao grande fundador da Religião da Humanidade, Augusto Comte.













17 setembro 2026

Blog Filosofia Social e Positivismo: 1.000 postagens!

No dia 14 de setembro de 2026 o nosso blogue Filosofia Social e Positivismo publicou sua 1.000ª postagem!

Criado em 4 de janeiro de 2007 para modestamente postar algumas reflexões de filosofia e sociologia política, ao longo dos anos ele diversificou sua atuação, transformando-se em órgão da Igreja Positivista Virtual.

É com alegria que celebramos essa milésima postagem!



15 setembro 2026

Ordem E progresso só com república progressista e laica

No dia 6 de Shakespeare de 172 (15.9.2026) realizamos nossa prédica positiva, dando continuidade à leitura comentada do Apelo aos conservadores (em sua "Conclusão - missão peculiar aos verdadeiros conservadores").

A prédica foi transmitida nos canais Positivismo (https://www.youtube.com/watch?v=PmlDx0CL-fc) e Igreja Positivista Virtual (https://www.facebook.com/IgrejaPositivistaVirtual/videos/1407492244682719).

As anotações que serviram de base para a exposição oral encontram-se reproduzidas abaixo.

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Leitura comentada do Apelo aos conservadores

(6 de Shakespeare de 172/15.9.2026) 

1.     Abertura da prédica

2.     Datas e celebrações

2.1.   Dia 5 de Shakespeare (14 de setembro): nascimento de Sofia Bliaux (1804 – 222 anos)

2.2.   Dia 6 de Shakespeare (15 de setembro): transformação de Paulo de Tarso Monte Serrat (2014 – 12 anos)

2.3.   Dia 8 de Shakespeare (17 de setembro): transformação de Rodolfo Paula Lopes (1984 – 42 anos)

2.4.   Mês de Shakespeare (10 de setembro a 7 de outubro): décimo mês do ano, dedicado ao drama moderno (teatro, romance histórico, pintura, música)

3.     Apóiem a Igreja Positivista Virtual!

3.1.   Colaborem com o que puderem; com boa fé e boa vontade, toda e qualquer colaboração é necessária e bem-vinda!

3.1.1. Inscrevam-se no canal, compartilhem, divulguem nossas atividades!

3.2.   Para apoiar as atividades dos nossos canais e da Igreja Positivista Virtual: façam o Pix da Positividade! (Chave Pix: ApostoladoPositivista@gmail.com)

4.     Exortações

4.1.   Esta talvez seja a seção mais importante das prédicas!

4.2.   Sejamos altruístas!

4.2.1. Sejamos generosos, tolerantes etc.

4.2.2. Devemos orientar toda a nossa vida pelo altruísmo: quando o altruísmo regula e orienta a vida, o resultado é que o altruísmo (a dedicação para os demais) e o egoísmo (a satisfação das necessidades pessoais) não são incompatíveis, pois só o altruísmo permite unir o bem comum à felicidade pessoal

4.3.   Façamos orações!

4.3.1. A oração positiva é a base do culto íntimo; assim, é tanto a base do aperfeiçoamento pessoal quanto da espiritualidade positiva de modo geral

4.4.   Como Igreja Positivista Virtual, ministramos os sacramentos positivos a quem tem interesse

4.4.1. Em um total de nove, os sacramentos são a celebração de momentos centrais na vida de todos nós – momentos que devem ser celebrados, afirmados, compartilhados (o nascimento/a adoção, o casamento, a aposentadoria, a transformação (a morte) etc.)

5.     Explicações gerais sobre o Apelo aos conservadores

5.1.   Que tipo de documento é o Apelo e a quem ele dirige-se?

5.1.1. O Apelo é um manifesto político e dirige-se não a quaisquer pessoas ou grupos, mas a um grupo específico: são os líderes políticos e industriais que tendem para a defesa da ordem (e que tendem para a defesa da ordem até mesmo devido à sua atuação como líderes políticos e industriais), mas que, ao mesmo tempo, reconhecem a necessidade do progresso (a começar pela república): são esses os “conservadores” a que Augusto Comte apela

5.1.2. O Apelo, portanto, adota uma linguagem e um formato adequados ao público a que se dirige

5.1.3. Empregamos a expressão “líderes industriais” no lugar de “líderes econômicos”, por ser mais específica e mais adequada ao Positivismo: a “sociedade industrial” não se refere às manufaturas, mas à atividade pacífica, construtiva, colaborativa, oposta à guerra

5.1.4. É necessário reforçar que, na medida em que a “conservação” consiste na manutenção da sociedade como base necessária para o aperfeiçoamento, a política “conservadora” proposta por Augusto Comte é progressista, de tal sorte que ela corresponde à união e à realização do ideal de “Ordem E Progresso”

5.1.4.1.          A noção positiva de “conservador” e de “conservadorismo” opõe-se à noção inglesa de “conservador” (conforme definida originalmente por Edmund Burke, em 1794) e que se aproxima de ausência de movimento, de movimento muito lento ou, em todo caso, de rejeição de mudanças sociais racionais e intencionais

5.1.4.2.          Assim, a expressão “apelo aos conservadores” (em francês: “appel aux conservateurs”) não significa, nem quer significar, “defesa do conservadorismo” (ou, como querem alguns, de maneira alucinada, “defesa do reacionarismo”)

5.2.   Outras observações:

5.2.1. Uma versão digitalizada da tradução brasileira desse livro, feita por Miguel Lemos e publicada em 1899, está disponível no Internet Archive: https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores

5.2.2. O capítulo em que estamos é a “Conclusão”, cujo subtítulo é “Conduta própria aos verdadeiros conservadores”

6.     Leitura comentada do Apelo aos conservadores

7.     Término da prédica

 

Referências

- Auguste Comte (franc.), Síntese subjetiva (Paris, Exécution Téstamentaire d’Auguste Comte, 2ª ed., 1900): https://archive.org/details/lasynthsesubjec00comtgoog.

- Augusto Comte (franc.), Sistema de filosofia positiva (Paris, Bachelier, 1838), v. 3, 45e leçon (“Considérations générales sur l’étude positive des fonctions intellectuelles et morales, ou cérébrales”).

- Augusto Comte (franc.), Sistema de política positiva (Paris. J.-B. Baillière, 4ª ed., 1880): https://archive.org/details/systmedepoliti01comt.

- Augusto Comte (port.), Apelo aos conservadores (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores.

- Augusto Comte (port.), Catecismo positivista (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 4ª ed., 1934).

- José Lonchampt (port.), Ensaio sobre a oração (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1896; catálogo da IPB, n. 165): https://archive.org/details/n.-165-jose-lonchampt-ensaio-sobre-a-oracao.

- Luís Lagarrigue (esp.), A poesia positivista (Santiago do Chile, 1890): https://archive.org/details/luis-lagarrigue-a-poesia-positivista-1890_202509.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), As últimas concepções de Augusto Comte (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-i e https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-ii.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), O ano sem par (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1900): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-o-ano-sem-par-portug._202312/page/n7/mode/2up. 

14 setembro 2026

Sandro Gomes: "A Igreja Positivista e o Brasil de hoje"

Em 10 de março de 2017, o professor carioca Sandro Gomes publicou um belo artigo sobre o Positivismo e os positivistas brasileiros, intitulado "A Igreja Positivista e o Brasil de hoje". Contrariamente ao que se costuma publicar a respeito, esse artigo é correto e justo, respeitando e valorizando a atuação, os valores, as propostas.

O original está disponível aqui: https://www.appai.org.br/a-igreja-positivista-e-o-brasil-de-hoje/.

Reproduzimos o texto abaixo.

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A Igreja Positivista e o Brasil de hoje


Quando se estuda o Brasil da segunda metade do século XIX um item não pode deixar de ser destacado: o Positivismo. Filosofia desenvolvida na França por Auguste Comte, marcaria profundamente as visões políticas e principalmente os conceitos de ciência e conhecimento no Ocidente. Mas a despeito de todo o conteúdo de razão e saber filosófico ali presente, há uma faceta pouco mencionada do sistema criado por Comte, que é a sua dimensão religiosa. A chamada última fase da carreira intelectual do criador do positivismo acabaria por desembocar numa incursão pelo campo do místico-religioso. Profundamente influenciada pelo pensamento francês nesse período, a intelectualidade brasileira mergulharia fundo nas conceituações positivistas e alguns não deixariam de fora a religiosidade daí proveniente.

Assim, a Igreja Positivista, como acabaria ficando conhecida, alcançou entre nós uma considerável repercussão e, mais que isso, estaria ligada a muitos fatos fundamentais na história brasileira no limiar entre os séculos XIX e XX. Dois simpatizantes do positivismo, os então estudantes Miguel Lemos e Teixeira Mendes, após temporada na França, se encantaram com as visões religiosas que encontram em pleno processo de propagação. Ao retornarem ao Brasil, estabeleceram os primeiros marcos da instituição religiosa inspirada nas ideias de Comte. Foi aqui que esse conceito ganhou ares eclesiásticos, com a fundação de templos e a propagação sistemática da sua doutrina.

A religião positivista se caracterizava por alguns conceitos muito diferentes do que estava estabelecido no cristianismo dominante. Pra começar, proclama uma divindade feminina, a Humanidade, a sua grande musa, entendida como a maior expressão possível da dignidade. A mulher aliás seria extremamente valorizada pelos religiosos positivistas, sendo apontada como superior ao homem por ser capaz de conduzir-se prioritariamente pelo amor, sentimento a que a cultura do positivismo atribuía grande valor, como ficaria expresso na emblemática frase de Comte, que acabaria sendo em parte adotada na bandeira do Brasil: “O amor por princípio e a Ordem por base; o Progresso por fim”.

Mas não foi apenas com relação ao gênero que os adeptos da Igreja Positivista se confrontaram com o tradicionalismo dominante na sociedade brasileira da época. Na questão racial os religiosos seriam ainda mais ousados ao afirmarem a supremacia da raça negra sobre as demais, pelo fato de nela predominar o sentimento em detrimento da razão. Chegaram a colocar entre suas figuras de culto – cívico, como chamavam – Toussaint Louverture, o líder da rebelião escrava no Haiti que culminaria da independência desse país. Isso diante de uma classe dominante brasileira que tinha na possibilidade de revolta dos cativos seu maior fantasma. Consequentemente, os religiosos positivistas estiveram entre as mais combativas vozes a se levantar a favor da abolição da escravatura. Chegaram mesmo a expulsar adeptos que se recusassem a se desfazer de seus cativos.

Os seguidores da Igreja Positivista também se mostraram preocupados com um tema que em geral era colocado no ostracismo pelos intelectuais e formadores de opinião do período: a situação dos indígenas, que julgavam um grupo injustiçado no Brasil e ao mesmo tempo um modelo a ser seguido em virtude da sua ligação com a natureza. Não espanta que tenha vindo de um dos religiosos positivistas, o marechal Cândido Rondon, uma das mais brilhantes iniciativas de integração dos índios ao todo da sociedade brasileira, sendo até hoje considerada um paradigma universal de aproximação com os chamados “povos originários”, sobretudo pelo pacifismo do método.

A causa pacifista, aliás, seria um dos pilares da Igreja Positivista. Eram frontalmente contrários a guerras e regimes militares, e também não apoiavam os movimentos revolucionários, que acreditavam ineficientes por contrariarem o caráter de encadeamento gradual que marcava a dinâmica da natureza. Assim, apoiaram a república no Brasil, mas criticaram o totalitarismo com que ela foi instalada, sobretudo no regime mão de ferro imposto por Floriano Peixoto. Mesmo assim, não deixaram de apresentar no pós-monarquia contribuições provenientes de suas crenças. A mais conhecida foi a adoção da Bandeira Nacional, que lutaram para que se mantivesse parecida com a que existia no Império, ao invés de outra inspirada na bandeira estadunidense como queriam muitos republicanos.

Argumentaram que, mesmo superada, a condição imperial deveria ser respeitada como uma expressão de uma fase anterior de desenvolvimento de uma nação (a república, para eles, seria a mais avançada). Conseguiram também inserir parte da célebre frase de Comte na insígnia e lutaram para que lá permanecesse apesar de muitas resistências. Por outro lado, acabaram colaborando com o projeto republicano ao apoiar o culto cívico de figuras tidas como superiores na história nacional, como Tiradentes e José Bonifácio, que na visão dos republicanos era uma forma de substituir no imaginário da nação o apego por personalidades religiosas e consequentemente diminuir a ascendência da Igreja Católica, que consideravam prejudicial aos brasileiros.

O discurso pacifista dos religiosos positivistas também procurou atuar em importantes questões nacionais entre o final do século XIX e o início do XX. Tais foram os casos da participação brasileira na Guerra do Paraguai, a que sempre se opuseram, inclusive pregando o perdão das dívidas de guerra contraídas pelo país vizinho, e da tese do serviço militar obrigatório, amplamente defendida por várias figuras do meio intelectual. As suas preocupações com a paz vinha também da inspiração de Francisco de Assis, uma das poucas figuras da religião tradicional que consideravam. Das ideias do religioso italiano do século XII também trouxeram a causa da preservação ambiental, que praticamente não figurava nas mentes da época, num Brasil ainda tão pouco urbanizado, no qual a maior parte da população ainda vivia no campo. Teixeira Mendes, por exemplo, se recusava a usar qualquer objeto de couro, se opondo à matança predatória de animais.

A Igreja Positivista, como seria de esperar, foi definida por muitos naquela época como uma criação de lunáticos ou sonhadores sem conexão com o mundo real. No entanto, as demandas nacionais mais importantes daquele entresséculo, como o fim da escravidão e a adoção da república, estiveram entre suas propostas. Outras questões, por outro lado, que constituíam tabus ou estavam fora da esfera de preocupações do país foram por eles levantadas. A valorização da mulher, um melhor lugar para africanos e indígenas na cultura nacional, a tentativa de harmonização com as nações vizinhas do continente, a preocupação com as questões ambientais, entre outras causas pelos quais modernamente ainda se luta, foram itens antecipados por aqueles que se agruparam em torno do ideário da religiosidade positivista. De tudo o exposto cabem reflexões. E se ao invés do relativo esquecimento histórico a Igreja tivesse se expandido na mentalidade nacional e levado adiante seu ímpeto renovador? Em que pé estaríamos hoje?


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Por Sandro Gomes | Professor, escritor, mestre em literatura brasileira e revisor da Revista Appai Educar.