10 março 2026

8 de Março, Dia das Mulheres (II)




Dificuldade brasileira de lidar com a existência compartilhada

O jornal carioca Monitor Mercantil publicou em 9.3.2026 o nosso artigo "A dificuldade brasielira de lidar com a existência compartilhada".

O texto está reproduzido abaixo; o original pode ser lido aqui: https://monitormercantil.com.br/a-dificuldade-brasileira-de-lidar-com-a-existencia-compartilhada/.

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A dificuldade brasileira de lidar com a existência compartilhada

Entre a submissão ao exterior e o nacionalismo exagerado, os extremos da existência compartilhada. Por Gustavo Biscaia de Lacerda.

Cerimônia da troca de bandeiras do Brasil (foto de Fábio Pozzebom, ABr).

Nos anos 1930, Stefan Zweig afirmou que o Brasil seria o “país do futuro”. Ao mesmo tempo, muitos sociólogos e historiadores europeus e brasileiros afirmaram que o Brasil é um país “jovem”. Além disso, sempre ouvimos que o Brasil é um país continental.

A juventude do país pode ser avaliada não apenas pela sua história relativamente curta (a colonização sistemática do território tem apenas cerca de cinco séculos), mas principalmente devido aos desafios de infraestrutura (faltam estradas, falta integração) e de respeito à população (falta instrução, saúde etc.).

Sendo um país continental, o Brasil tem uma tendência fortíssima a concentrar-se em seus problemas internos, preocupando-se com o ambiente externo apenas e no máximo na medida em que esse ambiente externo influencia o interno.

Também temos uma preocupação imensa com as grandes potências de cada momento, em termos político-econômicos e culturais, a ponto de fazermos questão de sermos colonizados intelectual e moralmente. Nossas elites, com gosto, fazem questão de exibir seus gastos em Miami e na Europa, esnobando a produção nacional e dando a entender que quem consome produtos brasileiros vale menos ou que é um tipo pior de pessoa.

Por outro lado, desde os anos 1960, em face da mestiçagem e da miscigenação cultural brasileiras, Darcy Ribeiro propôs que o Brasil seja entendido e realize-se como uma “nova Roma”.

Por fim, em 2018, o prédio do Museu Nacional (que começou a ser construído em 1808), no Rio de Janeiro, sofreu um incêndio que o reduziu quase totalmente às cinzas. Já em 2019 a Catedral de Notre Dame (que começou a ser construído em 1163), em Paris, sofreu um incêndio; entretanto, ela não foi tão danificada quanto o nosso Palácio de São Cristóvão. Houve intelectuais de renome que disseram que a queima do Museu Nacional era muito pior que a de Notre Dame: a cultura nacional seria mais importante – e que os franceses que se danassem!

Os vários casos acima exemplificam diferentes formas de entender-se o Brasil e suas relações com a história e com outros povos. Nessa multiplicidade de situações, o que surge para nós são formas da incapacidade brasileira de lidar com a existência compartilhada – e, em particular, duas formas gerais dessa incapacidade.

A expressão “dificuldade em lidar com existência compartilhada” denota um problema mais facilmente compreensível em termos dos desvios e das degradações do nacionalismo, em que se rejeita o convívio com os outros países (e/ou outros povos, e/ou outras culturas). Mas ele é um problema não somente com os desvios do sentimento nacional, mas também com a sua ausência. Afinal de contas, não valorizar a si mesmo é um problema tão real quanto negar os outros (devido ou não à própria sobrevalorização).

A primeira modalidade, mais própria das elites, é a submissão, ou melhor, o servilismo aos outros países. Por certo que ela se baseia nos valores compartilhados, mas desconsidera, quando não despreza, a preocupação com o próprio país.

Como esse comportamento é mais próprio às elites, e elas têm grande facilidade de trânsito internacional, elas furtam-se às suas responsabilidades coletivas, produzindo resultados bastante negativos. Esta incapacidade de lidar com a existência compartilhada rejeita o próprio país; não se pode falar aí em “existência compartilhada”, na medida em que o compartilhamento pressupõe a existência do próprio país – e este comportamento despreza ou desdenha do próprio país.

A segunda forma de incapacidade de lidar com a existência compartilhada reconhece e afirma o próprio país, mas exagera tal afirmação. É claro que a força do nacionalismo depende da situação de cada país; um povo que lute por sua independência terá um nacionalismo intenso; mas um país que deseje dominar (ou conquistar) outro também será nacionalista.

Nesses casos, o problema não está em afirmar o próprio país, mas em reconhecer como legítimos os outros países (e/ou outros povos, e/ou outras culturas). Enquanto a modalidade cosmopolita de não saber lidar com a existência compartilhada baseia-se na ausência de sentimento nacional, a xenofobia e/ou o imperialismo consiste na degradação do sentimento nacional.

Em reação necessária à irresponsabilidade “cosmopolita” das elites, o nacionalismo afirma os valores e o interesse nacional. Sem tal afirmação, é impossível qualquer projeto efetivo de melhoria no país. A afirmação do sentimento nacional, portanto, é ao mesmo tempo necessária e legítima. Entretanto, com facilidade ele pode degradar-se em rejeição aos outros povos e xenofobia explícitas ou, de outra forma, na pretensão de que seríamos o renascimento da civilização.

A ideia de um país como renascimento da civilização é mais pacífica e mais generosa que a xenofobia; mas, ainda assim, o renascimento da civilização implica também a rejeição das outras sociedades, sejam as que vieram antes, sejam as que agora convivem conosco. Devemos lembrar que, no caso do Brasil, essas concepções têm o elemento adicional do ensimesmamento devido às dimensões continentais.

À primeira vista, a solução para o cínico cosmopolitismo seria o nacionalismo; mas, desenvolvido o sentimento nacional, os problemas próprios a ele com facilidade podem surgir. A solução para ambas as dificuldades para lidar com a existência compartilhada é e deve ser uma única. Aliás, o nome que estamos dando para o problema – dificuldade em lidar com a existência compartilhada – já sugere a solução necessária.

Para lidar com a degradação do sentimento nacional, não faz sentido, nem é possível, negar tal sentimento; o que deve ocorrer é sua modificação. De maneira direta, trata-se de afirmar que nenhum país existe sozinho no mundo e que todos os países do mundo desenvolvem-se ao longo do tempo, em um processo histórico que se iniciou há centenas de milhares de anos.

Em outras palavras, trata-se de afirmar com clareza e vigor a submissão moral (mas não submissão política) dos vários países à noção de Humanidade – e, além disso, da submissão da solidariedade (da existência hoje, no presente) à continuidade (da existência ao longo do tempo, na história, do passado rumo ao futuro).

Em outras palavras, sem negar a importância dos vários países e do sentimento nacional, trata-se de afirmar (em termos morais) que as pátrias não são a forma mais elevada de identidade social e política: sem tal submissão – e, sim, trata-se de uma submissão – o nacionalismo fica sem parâmetros e sujeito às piores degradações.

A noção de Humanidade tem que ser afirmada em termos morais e intelectuais; não faz sentido e não é aceitável sua conversão em uma realidade política, na forma quimérica de um “super-Estado” mundial. Todavia, por outro lado, é claro que a afirmação moral e intelectual da Humanidade tem que ter consequências políticas, a começar pela rejeição de toda violência entre as nações e pelo término de ambições expansionistas dos estados atuais (e começar pelos países que já são gigantescos, como Rússia e Estados Unidos).

Gustavo Biscaia de Lacerda é sociólogo da UFPR e doutor em Sociologia Política.

09 março 2026

Richard Congreve: abertura da Festa da Humanidade

Transcrevemos abaixo o belo discurso de abertura pronunciado por Richard Congreve em sua celebração anual da Festa da Humanidade. Congreve foi um dos discípulos diretos de Augusto Comte.

As referências da citação são estas:

Richard Congreve: “Apêndice: Discurso de abertura da Festa da Humanidade” (in: José Lonchampt, Ensaio sobre a oração (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1896; catálogo da IPB, n. 165; páginas 61-63; ortografia atualizada)). Disponível em: https://archive.org/details/n.-165-jose-lonchampt-ensaio-sobre-a-oracao.

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APÊNDICE

A exemplo dos editores franceses deste Ensaio, julgo útil ajuntar aqui uma tradução literal da prece com que o Sr. Ricardo Congreve abre todos os anos a Festa geral da Humanidade. Segui a redação inglesa, tal como vem no ú1timo discurso anual do nosso eminente confrade ele Londres. – M. L. [Nota de Miguel Lemos, tradutor do opúsculo.] 

a d a 

Com todos os centros de nossa fé onde quer que existam; com todos os seus discípulos esparsos, com os fieis de todas as outras religiões ou crenças quaisquer, Monoteístas, Politeístas ou Fetichistas, subordinando todas as distinções secundárias ao laço exclusivo de uma aspiração religiosa comum; com toda a raça humana; isto é, com o homem, onde quer que se ache e qualquer que seja a sua condição, subordinando também todas as distinções secundarias ao laço único de nossa comum humanidade; com as raças animais que foram, durante a longa e trabalhosa ascensão humana, os nossos companheiros e auxiliares, como ainda o são; estejamos hoje, nesta festa da Humanidade, unidos por uma consciente simpatia.

E não é somente com os nossos contemporâneos que devemos hoje estar em comunhão simpática, mas também e sobretudo com esta parte preponderante de nossa espécie que representa o Passado. Comemoramos com reconhecimento os serviços de todas essas gerações que nos legaram o fruto de seus labores, desejando transmitir esta herança aumentada aos nossos sucessores. Nós aceitamos o jugo dos Mortos.

Comemoramos também com gratidão todos os serviços de nossa Mãe comum, a Terra, o planeta que nos serve de morada, e com ela o orbe que forma o Sistema Solar, o nosso Mundo. Não separemos desta última comemoração a do meio em que colocamos esse sistema, o Espaço, que foi sempre tão propício ao Homem, e que está destinado, mediante uma sábia aplicação, a prestar-lhe ainda maiores serviços, pois que ele torna-se a sede reconhecida da abstração, a sede das leis superiores que coletivamente constituem o Destino do Homem, e como tal introduzido em toda a nossa educação intelectual e moral.

Do Presente e do Passado estendamos as nossas simpatias ao Porvir, às gerações futuras que com sorte mais feliz nos sucederão sobre a Terra; tenhamo-las sempre presentes ao nosso espírito a fim de completar a concepção da Humanidade, tal como nos foi revelada pelo Fundador de nossa Religião, pela plena aceitação da continuidade que constitui o Seu mais nobre característico.

A memória do maior dos servidores da Humanidade, Augusto Comte, e a dos seus três Anjos da Guarda, ocorre naturalmente nesta Sua máxima festa, consagrada principalmente à memória de todos os que A têm servido, sejam conhecidos ou anônimos, e à comemoração de todos os resultados obtidos por eles e pelos quais sobrevivem.

Oh! o mais sábio e o mais nobre dos Mestres! possamos nós que nos proclamamos teus discípulos, animados pelo teu exemplo, sustentados pela tua doutrina, guiados pelas tuas teorias, vencer todos os obstáculos que a indiferença ou a hostilidade semeia no nosso caminho; possamos nós, no meio desta época revolucionária, sem nos deixar degradar por qualquer esperança de recompensa, nem desviar por qualquer insucesso dos nossos esforços, num espírito de submissiva veneração, levar por diante a grande empresa a que consagraste a tua vida, a empresa da regeneração humana, por meio e no seio do culto sistemático da Humanidade.

José Lonchampt: excertos do "Ensaio sobre a oração"

Transcrevemos abaixo alguns trechos da "Introdução" do belo Ensaio sobre a oração, de José Lonchampt, que foi discípulo direto de Augusto Comte.

As referências da citação são estas:

José Lonchampt, Ensaio sobre a oração (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1896; catálogo da IPB, n. 165; páginas 11-14; ortografia atualizada). Disponível em: https://archive.org/details/n.-165-jose-lonchampt-ensaio-sobre-a-oracao.

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[...]

A Humanidade não é a espécie humana, e não compreende a universalidade dos homens: a Humanidade é a memória dos mortos inspirando e guiando os vivos; é a suma de todos os altos pensamentos, de todos os nobres sentimentos, de todos os grandes esforços, referidos a um só e mesmo Ente, cuja alma é formada por esse conjunto, e cujo vasto corpo é constituído pelos vivos. Esta influencia incessante do passado sobre o presente é tão salutar quanto necessária. Suponhamos, com efeito, uma geração humana inteiramente subtraída à influência das gerações anteriores: seria apenas uma cabilda de rudes selvagens, tremendo diante de cada novo fenômeno da natureza, e levando a ferocidade ao ponto de comer carne humana; em uma palavra, essa geração reproduziria o estado primitivo de onde a Humanidade partiu para efetuar a sua gloriosa evolução. Assim, é a esse Grande-Ser que devemos tudo quanto suaviza, eleva, nobilita e deleita nossa vida: conhecê-lo, é portanto amá-lo.

A Humanidade, tão boa para nós, tão benfazeja em relação a nós, vive no presente por meio de homens como nós: destes servidores vivos dependem sobretudo a velocidade e a segurança de sua marcha. O amor que sentimos pela Humanidade nos incitará, pois, a servi-la com zelo, a fim de apressar, tanto quanto caiba em nós, a sua progressão para esse feliz estado social, em cujo limiar as gerações atuais podem prelibar os seus mais delicados eflúvios.

[...]

Um dos meios mais seguros de consagrarmos todos os nossos esforços ao serviço do novo Ser-Supremo consiste na pratica quotidiana da oração. Rezar à Humanidade não será pedir ao seu poder uma mudança imediata na economia real, ou implorar de sua bondade um auxilio direto no infortúnio; semelhante prece seria contrária ao conhecimento que a ciência nos ministra a respeito da suprema existência, a qual acha-se submetida, como a nossa, a leis invariáveis: a Humanidade modifica, é verdade, os fenômenos da natureza, porém de um modo lento e regular; a Humanidade vem em auxilio dos sofrimentos humanos, porem somente melhorando cada vez mais as condições de nossa existência.

Rezar é expandir nosso reconhecimento e nosso amor para com a Humanidade: é também pedir nobres progressos para a nossa alma. Este pedido é sempre satisfeito: porque a sincera confissão de nossos defeitos e de nossas faltas, e o ardente desejo de melhorar e purificar o nosso coração, são os penhores de um êxito infalível.

A oração quotidiana nos tornará, pois, melhores, e aperfeiçoando-nos, ela será útil à Humanidade, porque este novo Grande Ser precisa do nosso concurso; e como a reza consolida e acrisola esse concurso, ele aproveita com as nossas orações. O Deus criador do Universo podia prescindir das preces e das ações de graças de suas criaturas; bastavam-lhe sua onipotência e majestade. A prece do Cristão, como a do Muçulmano, só era útil a ele próprio; ao passo que a nossa oração é não só proveitosa para nós, mas ainda para a Humanidade.

[...]

04 março 2026

A Humanidade como deusa positiva, parte 2

No dia 6 de Aristóteles de 172 (3.3.2026) realizamos nossa prédica positiva, dando continuidade à leitura comentada do Apelo aos conservadores (em sua Segunda Parte - Conduta dos positivistas em relação aos retrógrados).

No sermão demos continuidade e terminamos as exposições sobre a Humanidade como deusa positiva.

A prédica foi transmitida nos canais Positivismo (https://youtube.com/live/pTwa3IJmRpU) e Igreja Positivista Virtual (https://www.facebook.com/IgrejaPositivistaVirtual/videos/1342189837931947/).

As anotações que serviram de base para a exposição encontram-se reproduzidas abaixo.

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A Humanidade como deusa positiva, parte 2

(6 de Aristóteles de 172/3.3.2026) 

1.     Abertura da prédica

2.     Datas e celebrações:

2.1.   Dia 6 de Aristóteles (3 de março): transformação de Rosália Boyer (1837 – 189 anos)

2.2.   Mês de Aristóteles: terceiro mês do ano, dedicado à filosofia antiga

3.     Referência às Auguste Comte Memorial Lectures, sediadas na London School of Economics

3.1.   Os comentários foram publicados previamente em https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2026/03/auguste-comte-memorial-lectures.html

3.2.   A famosa London School of Economics (LSE), em seu Departamentode Filosofia, Lógica e Método Científico promove, de tempos em tempos, palestras no âmbito das Auguste Comte Memorial Lectures (Palestras em Memória de Augusto Comte).

3.3.   Como se pode ler na página desses eventos, essas palestras foram criadas em 1930-1935 pelo Comitê Positivista Inglês e incorporadas à LSE em 1949; de 1951 até meados dos anos 1980 ocorreram diversas palestras, sofrendo uma interrupção de algumas décadas até serem retomadas em 2006.

3.4.   Os temas das palestras nessas três fases (1930-1949; 1951-1980s; 2006-...) indicam com clareza que, apesar de seu nome apresentar “Augusto Comte” e homenageá-lo, cada vez menos elas têm qualquer vínculo com o Positivismo, com a Religião da Humanidade e com Augusto Comte. Os autores que se apresentam no âmbito das Aug. Comte Memorial Lectures claramente só usam o espaço institucional para promoverem-se e divulgarem suas idéias; as referências ao Positivismo são nulas (quando não francamente contrárias a ele, mesmo que de maneira implícita).

3.5.   Muitas conferências da segunda fase foram publicadas e tornaram-se famosas, mesmo com o defeito de ignorarem ou combaterem o Positivismo, como na palestra inaugural, proferida em 1951 pelo inimigo do Positivismo, o liberal Isaiah Berlin. Por outro lado, autores simpáticos ao Positivismo e a Augusto Comte também expuseram suas reflexões, como Raymond Aron, Ronald Fletcher e, até certo ponto, Morris Ginsberg.

3.6.   Muitas das palestras da segunda fase foram publicadas, mas de maneira bastante irregular; com alguma dificuldade, é possível obtê-las em sebos na internet.

3.7.   As conferências do atual ciclo, iniciado em 2006, não têm nenhum texto disponível - pelo menos, o Departamento de Filosofia da LSE não faz a menor questão de publicá-los, em nenhum formato (doc, txt, pdf etc.). O máximo que se pode obter são vídeos das exposições, a respeito dos quais as pessoas interessadas são convidadas a transcrever, caso tenham o interesse de lê-las em vez de ouvi-las.

4.     Lamento pela guerra EUA/Israel x Irã, iniciada em 3 de Aristóteles de 172 (28.2.2026)

4.1.   Nas próximas semanas faremos uma prédica dedicada a esse grave problema

5.     Leitura comentada do Apelo aos conservadores

5.1.   Antes de mais nada, devemos recordar algumas considerações sobre o Apelo:

5.1.1. O Apelo é um manifesto político e dirige-se não a quaisquer pessoas ou grupos, mas a um grupo específico: são os líderes políticos e industriais que tendem para a defesa da ordem (e que tendem para a defesa da ordem até mesmo devido à sua atuação como líderes políticos e industriais), mas que, ao mesmo tempo, reconhecem a necessidade do progresso (a começar pela república): são esses os “conservadores” a que Augusto Comte apela

5.1.2. O Apelo, portanto, adota uma linguagem e um formato adequados ao público a que se dirige

5.1.3. Empregamos a expressão “líderes industriais” no lugar de “líderes econômicos”, por ser mais específica e mais adequada ao Positivismo: a “sociedade industrial” não se refere às manufaturas, mas à atividade pacífica, construtiva, colaborativa, oposta à guerra

5.2.   Outras observações:

5.2.1. Uma versão digitalizada da tradução brasileira desse livro, feita por Miguel Lemos e publicada em 1899, está disponível no Internet Archive: https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores

5.2.2. O capítulo em que estamos é a “Segunda Parte”, cujo subtítulo é “Conduta dos conservadores em relação aos retrógrados”

5.3.   Passemos, então, à leitura comentada do Apelo aos conservadores!

6.     Exortações

6.1.   Sejamos altruístas!

6.2.   Façamos orações!

6.3.   Como Igreja Positivista Virtual, ministramos os sacramentos positivos a quem tem interesse

6.4.   Para apoiar as atividades dos nossos canais e da Igreja Positivista Virtual: façam o Pix da Positividade! (Chave Pix: ApostoladoPositivista@gmail.com)

7.     Sermão: a Humanidade como deusa positiva

7.1.   Na prédica do dia 13 de Homero (10 de fevereiro) este sermão teve a sua primeira parte, com nosso amigo Hernani Gomes da Costa apresentando suas reflexões sobre o tema

7.1.1. Há alguns meses, para uma pesquisa universitária, nosso jovem correligionário Emerson propôs-nos – a nós e a Hernani – um questionário, em que uma das questões referia-se à eventual existência de alguma noção de “deus” no âmbito do Positivismo

7.1.2. Essa é uma questão interessante, que, apesar dos pesares, não é tão evidente quanto pode parecer à primeira vista

7.1.3. Assim, considerando sua importância, decidimos apresentar publicamente nossa resposta (que, de qualquer maneira, é pública por si só), assim como a do Hernani

7.2.   Como a resposta do Hernani foi bastante longa, não expusemos na ocasião (ou seja, no dia 13 de Homero) a nossa própria resposta, deixando-a para um momento posterior

7.3.   Passemos, então, à nossa resposta!

 

Pergunta:

Existe algum conceito semelhante ao conceito de Deus – como entendido pelos cristãos – na Religião da Humanidade? E a Deusa da Humanidade?

Resposta:

Parte 1 (resposta dada em 15 e 16 de Moisés de 172 (15-16.janeiro.2026)): resposta básica à questão acima

As concepções teológicas de religião têm nas divindades um aspecto central; não se trata aí de mera trivialidade, mas de algo que decorre tanto da evolução do pensamento humano quanto das características próprias à teologia. Por um lado, a forma mais espontânea de pensamento, ou melhor, de religião, é o fetichismo, que atribui vida, vontade e pensamento a todos os corpos, animados ou inanimados; assim, não somente os animais têm uma humanidade diferente como também a apresentam os diversos outros corpos (plantas, pedras etc.). Essa concepção, tão generosa e altruísta, também é absoluta, ou seja, faz questões irrespondíveis e fornece respostas indiscutíveis. Da generosidade vitalista do animismo passamos para o politeísmo, que mantém o absolutismo mas tira a vida dos corpos, que, por sua vez, passam a ser animados exclusivamente por entidades supraterrenas (os deuses). A retirada dos atributos da animação, da vontade e dos sentimentos dos vários corpos, operada pelo politeísmo, por si só torna o mundo “desencantado” (contra a tese de Weber, apesar da sua exageradamente propalada erudição), embora tenha sido uma etapa necessária do desenvolvimento humano em geral e, para o entendimento da realidade, tenha sido necessária como etapa para o desenvolvimento do pensamento científico. Em todo caso, os deuses politeístas correspondem a um processo de abstração no grande esforço de entendimento do mundo, em que a apreciação dos corpos cede lugar para a apreciação dos fenômenos – e, aí, os fenômenos continuam sendo explicados pelo tipo humano, isto é, via antropocentrismo (como era no fetichismo). Os deuses politeístas regularam o mundo durante séculos, seja durante as teocracias antigas, com o politeísmo conservador, seja com as rupturas guerreiras, dos politeísmos progressistas; para Augusto Comte, a verdadeira teologia é politeísta, tanto devido à sua duração quanto devido à coerência e aos serviços prestados por ela à Humanidade.

Os monoteísmos correspondem apenas à concentração dos atributos dos antigos deuses em novas divindades, sem que tenha cessado de haver, de fato, politeísmos (basta pensar nos anjos e nos santos): Augusto Comte fala efetivamente em “concentração monoteísta”. Mas, enquanto as divindades politeístas explicavam os fenômenos naturais e humanos sendo, elas mesmas, apenas tipos humanos superlativos, as divindades monoteístas concentram em si muitos atributos, rompendo totalmente os vínculos com o ser humano (na verdade, com freqüência o desprezando, como disse de maneira muito clara e brutal Tomás de Kempis n’A imitação de Cristo). A dispersão politeísta mantinha divindades com comportamentos imorais e irracionais, como as famosas transformações de Zeus em touro, cisne e chuva de ouro para suas conquistas românticas; apesar disso, a coerência moral fundamental desses tipos mantinha-se: por exemplo, os corruptos eram sempre corruptos e só deixavam de sê-lo por meio de longos e árduos processos; em todo caso, as limitações e os defeitos humanos eram vistos com honestidade nessas divindades.

O mesmo não se dá com as divindades monoteístas, cujos atributos são incoerentes entre si e irracionais e imorais em face da realidade e do ser humano. As afirmadas onisciência, onibondade e onipotência são incoerentes entre si: um ser todo poderoso não precisa da onisciência e, inversamente, a onisciência não precisa da onipotência; a onibondade é incompatível com a maldade e a injustiça do mundo e, portanto, é incompatível com a onisciência. Dessa forma, no caso dos monoteísmos um traço do politeísmo torna-se muito mais saliente: o caráter caprichoso, imaturo, adolescente da divindade, que faz o que quer, do jeito que quer, quando quer, por que quer: o Antigo Testamento (mas também o Novo Testamento e, claro, o Corão!) é a indicação gritante desses caprichos imaturos. Uma divindade caprichosa e imatura não é nem onibondosa, nem onisciente, embora possa ser, sempre, onipotente. Essas irracionalidades imorais, que são chocantes para qualquer pessoa que reflita a respeito, são ignoradas, por um lado, devido ao caráter absoluto dessas concepções, que repele, por vezes de maneira agressiva, qualquer discussão séria a respeito e, por outro lado, devido às necessidades sociais, que silenciam os questionamentos.

Fiz essa digressão introdutória para indicar que o modelo católico de divindade é muito restrito e enviesado; o entendimento da Humanidade a partir dele acaba empobrecendo a verdadeira deusa.

No Catecismo positivista e nas demais obras religiosas (Sistema de política positiva, Apelo aos conservadores, Síntese subjetiva e mesmo o Discurso sobre o conjunto do Positivismo) Augusto Comte fala na Humanidade como “nossa deusa”. Mas esse conceito de deusa, como todas as demais noções do Positivismo, não pode ser assimilado ao conceito teológico de divindade! As concepções teológicas são absolutas e, portanto, indiscutíveis; elas formulam questões e oferecem respostas que a positividade deixa de lado, abandona ou simplesmente rejeita; o conceito monoteísta de divindade consiste em um ser caprichoso, incoerente e imoral: tudo isso é o oposto da Humanidade.

A Humanidade é o ser supremo; ela é “suprema” porque é superior a cada ser humano individual e porque cada ser humano individual deve tudo, tudo, a ela. Entretanto, a Humanidade deve ser entendida de maneira relativa, o que significa que ela, sim, corresponde à bela descrição fornecida por Dante na Comédia: a Humanidade é “filha de seu filho”, ou seja, para existir ela depende do ser humano, que, por sua vez, só existe devido a ela. Trata-se, portanto, de um belo e impressionante círculo virtuoso. Dessa forma, ela não é unitária, mas composta e, portanto, depende dos seres humanos vivos para realizar-se, manter-se, desenvolver-se e exercer seus efeitos. Sendo composta e dependente de seus filhos, ela não é onipotente, nem onisciente, embora aproxime-se ao máximo da onibondade. Desenvolvendo-se ao longo do tempo (conforme as três leis dos três estados[1]), ela é a verdadeira providência humana, fornecendo-nos os sentimentos, as concepções e os materiais com que vivemos e progredimos.

A Humanidade é o Grande Ser, é o Ser Supremo; ainda assim, ela não existe no vácuo e não surgiu do nada. Vale notar que a Humanidade, sendo composta pelos seres humanos, tendo uma realidade histórica, é tanto objetiva quanto subjetiva, é tanto uma realidade concreta quanto uma idealização abstrata (afetiva, intelectual e artística). Dito isso, respeitando e recuperando o fetichismo inicial, a Humanidade estabelece o neofetichismo, ou seja, o fetichismo positivado, sem o absolutismo inicial nem o culto aos materiais. Com o neofetichismo, a Humanidade estabelece a Trindade Positiva, que é composta pelo Grande Meio (o Espaço, abstrato, infinitamente plástico, dotado de sentimentos, onde os fenômenos abstratos e as leis naturais têm lugar), pelo Grande Fetiche (a Terra, com um caráter concreto, dotada de sentimentos e atividade, abrangendo o Sol, a Lua e os planetas interiores, bem como o planeta Terra em si, com sua base geológica, a fauna e a flora) e pelo Grande Ser (a própria Humanidade, dotada de sentimentos, atividade e inteligência, presidindo – mas não de maneira voluntarista, caprichosa nem pretensamente onipotente ou onisciente – a Trindade Positiva e com os atributos que estamos vendo). A noção de Trindade Positiva completa a de Humanidade a partir do neofetichismo; com ela as falhas intelectuais e morais do materialismo (que é uma forma de metafísica) são ultrapassadas, sem que recaiamos nos vícios do misticismo (e/ou da teologia em geral). Os benefícios e as qualidades da concepção de Trindade Positiva são inúmeros, mas aqui nos limitamos a indicar que ela põe por terra a tola, limitada e enviesada (pois teológica) concepção weberiana de “desencantamento do mundo”.

A Humanidade, portanto, é uma deusa; mas é uma deusa porque é o ser supremo, ou ser superior, que corresponde à nossa verdadeira providência e que, por isso, é nosso objeto de culto, nossa orientação na vida e a fornecedora da nossa moralidade. Tudo isso deve ser entendido com simpatia, com altruísmo e, acima de tudo, com relativismo. Cumpre enfatizar: os aspectos intelectuais da questão (o relativismo, mas, antes, também a realidade, a utilidade, a organicidade[2]) têm que ser entendidos de maneira intimamente vinculada aos aspectos afetivos (a simpatia, o altruísmo e mesmo a confiança e a esperança no ser humano); de certa maneira, pode-se dizer que se trata de uma pequena mas necessária, salutar e intencional ingenuidade.

Um último aspecto é o caráter feminino, necessariamente feminino, da Humanidade. Contra a atual raivosa metafísica identitária do feminismo, o caráter feminino da Humanidade é uma característica positiva, que cabe apenas às mulheres, em contraposição aos homens. Além disso, a representação artística da Humanidade tem que a indicar sempre com um filho recém-nascido no colo: trata-se da Humanidade cuidando do futuro.

A partir de todos esses comentários, podemos finalmente responder à questão formulada inicialmente: a deusa Humanidade tem alguma coisa a ver com a divindade cristã? Não, nada. Dizer que são semelhantes ou que a Humanidade é uma versão positivista da divindade cristã porque são “seres supremos” é muito pouco – tão pouco que não quer dizer nada. O que se deve notar e que procuramos caracterizar acima é que não se trata de versão “positivista” (o que no presente caso consiste em uma perspectiva bastante superficial e reducionista, na medida em que apenas insere um rótulo em vez de considerar o conteúdo da noção), mas, considerando de maneira cuidadosa e atenta o que foi dito acima, trata-se de um conceito positivo e positivado das concepções teológicas, que foram nossas predecessoras necessárias.

Certamente a Humanidade inspirou-se e, do ponto de vista histórico, foi preparada e precedida pela divindade cristã; mas, novamente, isso é muito pouco; é como dizer que os contemporâneos carros elétricos foram precedidos pelas carroças de boi e que, portanto, esses dois veículos são mais ou menos a mesma coisa. Isso é importante de afirmar devido às confusões e às desinformações não apenas dos teológicos (católicos, protestantes, evangélicos) mas também dos metafísicos (liberais e ateus, sejam eles apenas ateus, sejam eles marxistas), que fazem questão de desprezar a Humanidade a partir da ignorância, de uma impressionante má fé e, claro, de comparações escandalosamente superficiais e formalistas.

Parte 2 (resposta dada em 12 de Homero de 172/9.2.2026)): complemento à resposta inicial

No Discurso sobre o conjunto do Positivismo vemos indicações claras e importantes de alguns aspectos do que estamos comentando: o emprego das expressões “Religião da Humanidade” e da Humanidade como “nossa deusa”. Nosso mestre emprega essas expressões com desassombro, sem se preocupar em justificá-las particularmente; aliás, até onde sei, nem mesmo Teixeira Mendes ou Miguel Lemos preocuparam-se com isso. No Catecismo positivista percebemos o mesmo. Em face das reflexões filosóficas, sociológicas e morais presentes nessas duas obras e em inúmeras outras e considerando que a coerência é uma característica explícita (e implícita!) do Positivismo, impõe-se a noção específica de “deusa positiva”, conforme sugerimos explicitar aqui. Aliás, como nosso próprio mestre indica (Política, v. IV, Prefácio, p. XIII), a expressão “Religião da Humanidade” foi sugerida antes de mais nada pelos proletários parisienses que acompanhavam seu curso filosófico de história da Humanidade; esses proletários, além disso, eram emancipados da teologia (seja espontaneamente, por si sós, seja sistematicamente, a partir das lições do Positivismo). Essa indicação é importante para evidenciar que a Religião da Humanidade foi uma inspiração popular espontânea e não, ao contrário dos odiosos mitos academicistas, uma divagação desordenada de nosso mestre.

Mas o que é a “deusa positiva”? Em face das necessárias e reiteradas críticas de nosso mestre à teologia – críticas sempre reafirmadas de maneira sistemática –, como é possível falarmos, sem incoerência, em “deusa”? Além disso, como lidamos com o ateísmo?

Antes de mais nada, a Humanidade é nossa deusa porque ela é ao mesmo tempo um ser superior e um objeto de adoração, dois aspectos intimamente vinculados. A esse respeito, em primeiro lugar, temos que lembrar que, embora a noção de Humanidade seja abstrata, ela em si mesma é bastante real; aliás, a noção de Humanidade pode ser abstrata, mas sua realidade implica sua concretude, sua existência “física”. Sua superioridade em relação a cada um dos indivíduos e, bem vistas as coisas, sua superioridade em relação às famílias e às pátrias é uma questão de fato, é uma realidade que se evidencia quando se considera com clareza a existência sociológica e histórica do ser humano. Não somos nada sozinhos; para sermos qualquer coisa precisamos sempre e necessariamente dos outros. Até mais do que isso: como Augusto Comte lembrava, a existência atual da Humanidade, no presente, submete-se à existência ao longo da história, do passado e do futuro. Se não somos nada sozinhos, precisamos ainda mais daqueles outros que vieram antes de nós, incluindo todos aqueles que vieram décadas, séculos, milênios antes de nós, e mesmo aqueles que virão depois de nós. É por isso que nosso mestre afirmava que a lei fundamental da existência humana consiste em que os vivos são sempre e cada vez mais, necessariamente, governados pelos mortos.

Nós vivemos pela Humanidade: recebemos tudo dela e nossos esforços são sempre orientados em seu benefício (quer queiramos, quer não queiramos); além disso, nossa felicidade está sempre vinculada ao serviço e ao amor dedicado à Humanidade, isto é, ao altruísmo, à generosidade etc. – serviço e amor prestado às nossas famílias, às nossas pátrias, aos nossos concidadãos, aos nossos irmãos na Humanidade etc. Assim, a superioridade da Humanidade é ao mesmo tempo dependente da nossa atividade (ativa e passiva), em que se verifica o belo verso de Dante: ela é “filha de seu filho”.

A afirmação de que recebemos tudo da Humanidade tem que ser entendida de maneira radical, pois incluímos aí não somente alimentos, conhecimentos, família etc., mas também pertencimento e destinação: tudo isso é o que constitui, no final das contas, a felicidade. A superioridade da Humanidade não é nem uma existência alheia a cada um de nós, que no final das contas desprezar-nos-ia, nem uma existência que se impõe sobre nós de maneira opressiva: ela impõe-se sobre nós e exige nossa dedicação; mas, inversamente, tal dedicação precisa ser voluntária, a fim de garantir-se a dignidade, a felicidade e mesmo a eficácia das ações.

Em face dessas características, a adoração devida à Humanidade não é mística, não é um incoerente retorno a alguma forma de teologia: essa adoração é pura e simplesmente a gratidão que reconhecemos e devemos à Humanidade. A devoção é um traço comum aos seres humanos; ele implica o reconhecimento simultâneo (1) de que cada um de nós não vive e não existe sozinho, (2) de que existe efetivamente um ser superior a nós, a que devemos gratidão, (3) de que somos extremamente imperfeitos e que a base de qualquer aperfeiçoamento é sempre a submissão. Exceto as pessoas anormalmente egoístas, todos e cada um de nós submete-se aos outros, especialmente em termos subjetivos, ou seja, aos que já morreram e/ou aos que são fracos e precisam de nossa ajuda. Mais uma vez: nesses termos, a devoção à Humanidade não tem nada de excepcional; ela só parece estranha (1) porque de modo geral se considera que apenas as divindades teológicas merecem devoção e (2) porque os hábitos mentais materialistas e ateus consideram que a devoção é um sinal de ignorância, de fanatismo e/ou de espírito de manada –, (3) porque se considera que o Positivismo seria meramente um cientificismo e (4) porque a mentalidade academicista é profundamente hipócrita a respeito (ao enaltecer as ficções teológicas, mas desprezar a elaboração positiva).

A noção de “deusa positiva”, assim, surge com clareza, como um exemplo adicional de positivação de conceitos, da mesma forma que o ocorrido com “religião”, “culto”, “dogma” e “sermão”. A confusão com as divindades teológicas tem, portanto, um aspecto puramente terminológico, ainda que isso se fundamente em profundas diferenças filosóficas, morais, históricas e científicas. Contudo, há um outro aspecto que podemos explorar: o caráter ficcional das divindades teológicas.

A realidade da Humanidade é um seu traço fundamental. Só isso já bastaria para distingui-la das divindades teológicas, que são fictícias. Ocorre que, à medida que se desenvolviam as reflexões de nosso mestre sobre realidade, utilidade e relativismo das nossas concepções – incluindo aí mesmo as concepções artísticas e científicas –, ele percebeu que as idéias podem ser úteis – em termos morais, intelectuais, práticos – mesmo quando elas não se referem rigorosamente à realidade. As ficções teológicas são um exemplo perfeito disso: elas são ficções, mas durante séculos, ou melhor, durante milênios elas tiveram uma alta eficácia. Com mais forte razão podemos dizer o mesmo a respeito de concepções estéticas e científicas: as leis naturais são sempre abstrações aproximativas, que correspondem mais ou menos bem à realidade mas que, de qualquer maneira, baseiam-se nas sensações humanas e correspondem às necessidades humanas (ou seja, elas são relativas). As elaborações estéticas, por seu turno, são assumidamente ficcionais; ou melhor, de modo geral nem se põe em questão sua “realidade”: mas, ainda assim, como todos sabemos, elas são extrema e profundamente eficazes.

Disso tudo resulta que podemos elaborar ficções cuja utilidade é o mais importante, em termos afetivos, intelectuais e práticos; a fim de que tais ficções não descambem para o absoluto, elas devem seguir as leis naturais ou, pelo menos, não podem ser incompatíveis com as leis naturais. Essas ficções foram denominadas por Augusto Comte de “ficções científicas”: ao contrário do gênero literário e cinematográfico que, apresentando meramente ficções ultratecnológicas e futuristas equivocamente chamadas de ficções científicas, a proposta de Augusto Comte corresponde a elaborações que, não necessariamente correspondendo à exata realidade, a partir do relativismo e da síntese subjetiva são ainda assim instrumentos de profunda utilidade para nossa existência. A bem da verdade, em toda a sua obra nosso mestre empregou as ficções científicas; a inovação característica de sua fase final, presente na Síntese subjetiva, corresponde ao reconhecimento explícito, à sistematização e à radical generalização desse procedimento.

Em face das ficções científicas, como lidar não com a deusa positiva, que é a Humanidade, mas com as divindades teológicas? Ora, as ficções teológicas são absolutas, ou seja, não positivas: ainda que sua utilidade passada seja indiscutível, a par de seu absolutismo seus atributos são irracionais e incompatíveis com as leis naturais e, portanto, elas são inaceitáveis para o ser humano, ou melhor, para a Humanidade.

O último aspecto que devemos considerar é a respeito do materialismo e do ateísmo. Na verdade, devemos tratar do ateísmo como decorrência da questão que ora respondemos, a respeito da noção da Humanidade como deusa. Em uma perspectiva formalista, poderíamos dizer que o Positivismo não é ateu porque a Humanidade é uma “deusa” (positiva). Essa perspectiva, entretanto, tem o grave defeito de ser superficial e meramente lingüística, deixando de lado todas as reflexões que fizemos acima. De fato, o Positivismo não é ateu, mas não porque a Humanidade é a nossa deusa; nós não somos ateus devido às características próprias ao ateísmo.

O ateísmo, de maneira muito intensa, é uma postura essencialmente negativa, ou melhor, negadora; sua principal preocupação é negar as divindades. (Aliás, sua negação dirige-se contra as divindades teológicas, mas, como veremos, com facilidade e quase de maneira contínua ele dirige-se contra o Positivismo.) Sua definição etimológica é bastante apropriada: ele afirma o “não-deus”. As incoerências, os erros, a falta de realismo, bem como as imoralidades próprias às concepções teológicas: tudo isso mais que justifica o impulso negador do ateísmo. Entretanto, essa negação sistemática, se por um lado de maneira correta estabelece o caráter plenamente ficcional da teologia, ela também com freqüência ignora os serviços históricos desempenhados por essas divindades, da mesma forma que, antes, ignora os traços morais e intelectuais da natureza humana que conduziram ao longo do tempo à elaboração de tais ficções. Além disso, afirmando a razão individual contra a sabedoria coletiva, o ateísmo com freqüência ainda maior consagra o individualismo, seja na sua forma intelectual (do solipsismo), seja na sua modalidade moral, do egoísmo. Em outras palavras, a negação atéia é anti-histórica, antissociológica e, por assim dizer, “antimoral”.

Esses vários defeitos científicos e morais são bastante graves por si sós, mas eles não esgotam o problema. Embora o ateísmo consista na negação da teologia, ele mantém-se na órbita moral e intelectual da teologia, de tal sorte que ele reduz-se à mera negação sistemática, sem procurar ultrapassar a teologia. A permanência na órbita teológica consiste em o ateísmo manter-se no âmbito do absolutismo e em rejeitar o relativismo, de tal sorte que mantém as perguntas absolutas – de onde viemos, para onde vamos, qual a natureza do ser? –, mas rejeitando as únicas soluções que tais perguntas realmente aceitam. Se o ateísmo não fosse apenas mera negação da teologia, ele assumiria que a rejeição da teologia é um passo necessário, mas totalmente insuficiente e, a partir daí, seguiria em direção à afirmação do ser humano e do relativismo, ou seja, do humanismo, da positividade... em outras palavras, do Positivismo e da Religião da Humanidade. Dito de outra forma, o Positivismo consiste na sistematização do movimento que ultrapassa a negação atéia, ao passo que o ateísmo é a perspectiva e o comportamento que se aferram, infantilmente, à negação da teologia.

Não é difícil vermos exemplos cotidianos desse empacamento próprio ao ateísmo. Como se sabe, os Estados Unidos são um país profundamente cristão: lá, de maneira característica, a negação da teologia, seja ela atéia, seja ela (assumidamente) teológica, resulta sempre na reafirmação da própria teologia. O romancista russo do século XIX, Dostoiévski, dizia que “se deus não existe, tudo é permitido”: essa frase, que embora seja em si mesma teológica, resume de maneira bastante clara a mentalidade na qual se mantém o ateísmo, ao manter como referência de reflexão a teologia. O humanismo positivista, em contraposição, afirma que “extinto deus, e os deuses, sucedem-lhe a Humanidade” (a frase original está em latim, mas não a localizei para este comentário).

O último aspecto que, pelo menos para esta resposta, devemos indicar a respeito do ateísmo é sua vinculação com o materialismo. Vincular o ateísmo ao materialismo já sugere que este último também se mantém no âmbito do absolutismo; aliás, não por acaso ele é uma forma de metafísica, a metafísica reducionista, que afirma que todos os fenômenos superiores são sempre e necessariamente redutíveis aos inferiores. Na medida em que o ateísmo nega a teologia, o materialismo é uma perspectiva natural e necessária; da mesma forma, ele é natural e necessário na constituição das várias ciências fundamentais. A metafísica em si mesma é uma etapa natural no desenvolvimento humano; doisde seus defeitos, próprios aliás ao seu caráter absoluto, consistem em (1) raciocinar a partir das exceções (ou seja, negar toda regra e/ou generalizar a partir de casos particulares) e em (2) pretender que soluções temporárias podem e devem ser permanentes. Assim, o ateísmo é pura negação da teologia, sem avançar para o humanismo; já o materialismo é reducionista, seja para afirmar o naturalismo antiteológico, seja para negar a particularidade de cada ciência fundamental. Afirmamos antes que o ateísmo, mantendo-se negador da teologia, logo estende seu negativismo para o Positivismo e para a Religião da Humanidade, negando sua validade, sua legitimidade, sua utilidade: essa negação também se baseia no materialismo, que rejeita a realidade histórica, sociológica e moral do ser humano.

 

7.4.   Os comentários acima terminaram de maneira um tanto súbita porque foram a resposta para uma das perguntas de um questionário escrito

7.5.   Devemos notar, de qualquer maneira, que nossas respostas diferem em vários aspectos daquela fornecida por nosso amigo Hernani em suaexposição do dia 13 de Homero de 172 (10.2.2026) porque, sendo pessoas diferentes, temos sensibilidades diferentes: mas as diferenças entre as respostas correspondem apenas a diferenças de sensibilidade; no grosso essas respostas são necessariamente convergentes e complementares

7.5.1. De modo específico, importa recuperarmos uma observação feita por Hernani: a Humanidade como deusa positiva não é “como se fosse uma deusa”: ela é efetivamente uma divindade positiva; o que se deve ter em mente, de maneira radical, é que a concepção dessa divindade é uma concepção positiva, relativista, humanista e não uma concepção absoluta, teológica, supraterrena, mística

8.     Término da prédica

 

Referências

- Auguste Comte (franc.), Síntese subjetiva (Paris, Exécution Téstamentaire d’Auguste Comte, 2ª ed., 1900): https://archive.org/details/lasynthsesubjec00comtgoog.

- Augusto Comte (franc.), Discurso sobre o conjunto do Positivismo, in: Sistema de política positiva (Paris. J.-B. Baillière, 4ª ed., 1880): https://archive.org/details/systmedepoliti01comt.

- Augusto Comte (franc.), Sistema de filosofia positiva (Paris, Société Positiviste, 5e ed., 1893).

- Augusto Comte (port.), Apelo aos conservadores (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores.

- Augusto Comte (port.), Catecismo positivista (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 4ª ed., 1934).

- Luís Lagarrigue (esp.), A poesia positivista (Santiago do Chile, 1890): https://archive.org/details/luis-lagarrigue-a-poesia-positivista-1890_202509.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), As últimas concepções de Augusto Comte (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-i e https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-ii.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), O ano sem par (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1900): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-o-ano-sem-par-portug._202312/page/n7/mode/2up. 

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Questionário enviado pelo Emerson

1) Fale-me sobre você, onde nasceu, onde vive atualmente, sua formação e profissão etc.

2) Como você conheceu a Religião da Humanidade?

3) Como é sua relação diária com a religião? Existe culto privado e/ou público?

4) Existe algum conceito semelhante ao conceito de Deus – como entendido pelos cristãos – na Religião da Humanidade? E a Deusa da Humanidade?

5) Os positivistas oram? Por que e por quem os positivistas oram?

6) O que acontece quando um positivista morre? Existe reencarnação, céu e inferno?

7) Como funciona o casamento na Religião da Humanidade?

8) O proselitismo é bem visto na Religião da Humanidade?

9) Aprendemos nas escolas que o Positivismo foi muito influente no início da República brasileira. Qual é a maior contribuição do Positivismo para o Brasil?

10) Que mensagem você gostaria de deixar para aqueles que não conhecem a Religião da Humanidade?



[1] Os manuais vulgares de filosofia, sociologia e história costumam registrar a respeito do Positivismo apenas a lei dos três estados – e, na verdade, apenas a lei intelectual dos três estados. As três leis, uma para cada aspecto da natureza humana (afetivo, intelectual e prático), são estas (cf. Augusto Comte, Catecismo positivista, 4ª ed., Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1934, p. 479 – https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2025/08/o-inicio-do-positivismo-as-tres-leis.html):

- lei intelectual: toda concepção passa por três estados sucessivos, teológico, metafísico e positivo, com uma velocidade proporcional à generalidade dos fenômenos correspondentes

- lei prática: a atividade humana é sucessivamente militar conquistadora, depois militar defensiva e por fim pacífico-industrial

- lei afetiva: a sociabilidade humana é sucessivamente doméstica, depois cívica e enfim universal, seguindo a natureza de cada um dos três instintos simpáticos [veneração, apego e bondade].

À lei intelectual ajunta-se a lei da classificação das ciências, que é tanto uma aplicação específica da lei intelectual quanto uma exposição geral e abstrata dos fenômenos do mundo, bem como da ordem de subordinação (objetiva e subjetiva) dos fenômenos entre si.

[2] No Apelo aos conservadores (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1899, p. 25 –https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores), Augusto Comte define a palavra “positivo” com sete atributos: real, útil, certo, preciso, relativo, orgânico e simpático.