30 abril 2026

Mais uma vez, os preconceitos disseminados nas pesquisas empíricas

Aforismos sociológicos XI - Mais uma vez, os preconceitos disseminados nas pesquisas empíricas



Comentários sobre o livro O Brasil no espelho (Rio de Janeiro, Globo Livros, 2025), de Felipe Nunes[1].

 

O livro O Brasil no espelho: um guia para entender o Brasil e os brasileiros, de Felipe Nunes – professor da Fundação Getúlio Vargas e dono do Instituto Quaest, de pesquisas de opinião – foi publicado em 2025 e apresenta os resultados de uma pesquisa sobre hábitos e opiniões da população brasileira a respeito das mais variadas questões: importância da família, preferências político-partidárias, confiança nas instituições etc. É um livro pequeno, com menos de 200 páginas, de leitura fácil e rápida, com muitos e muitos gráficos e a maior parte do texto escrito correspondendo à descrição e à interpretação desses gráficos.

Esse livro é interessante em vários sentidos: por um lado, apresenta informações interessantes, comparando-as com algumas pesquisas anteriores; por outro lado, ele é exemplar dos graves defeitos intelectuais e morais que as pesquisas de opinião (“pesquisas empíricas”, “pesquisas quantitativas”, “pesquisas científicas”) podem apresentar. Ou melhor, dizendo de outra maneira, de modo mais direto: esse livro é exemplar dos preconceitos que as pesquisas de opinião podem manter e estimular, de maneira consciente e proposital.

Embora seja o relatório de uma pesquisa de opinião, como é um livro que foi publicado por uma editora comercial, ele é orientado para o grande consumo popular, de modo que não há as reflexões metodológicas que sempre aparecem em pesquisas estritamente acadêmicas; além disso, o estilo de escrita é bastante acessível; por fim, pode-se conjecturar que algumas questões foram suprimidas dessa versão publicada, a fim de manter (ou garantir) o acesso popular dos resultados da pesquisa.

Para estruturar as respostas dos entrevistados, além das classificações em termos de gênero e da região do país, o autor considerou também a “raça” e, principalmente, as faixas etárias. Em termos de gêneros e de região, não há muito o que comentar; a respeito das “raças”, esse é um problema “misto”, na medida em que o autor entroniza um critério discriminador mas segue o padrão oficial brasileiro – adotado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE, e que desgraçadamente é racialista, isto é, racista.

Mas o que nos interessa aqui é a classificação das respostas a partir das faixas etárias. O autor agrupou os respondentes em quatro grupos, nomeados conforme o período de nascimento e de sociabilização básica:

-      grupo “Bossa Nova” (nascidos entre 1945 e 1965)

-      grupo “Ordem e Progresso” (nascidos entre 1965 e 1985)

-      grupo “Redemocratização” (nascidos entre 1985 e 2005)

-      grupo “Geração.Com” (nascidos entre 2005 e 2020)

O autor escolheu, conscientemente, deliberadamente, empregar a fórmula “Ordem e Progresso” para descrever o período autoritário. Em outras palavras, o autor associa direta e conscientemente o “Ordem e Progresso” – e, por extensão, o Positivismo – aos militares e ao autoritarismo.

Não há como diminuir ou minimizar os graves problemas morais e intelectuais dessa escolha feita pelo autor. Mesmo que, por hipótese, possa-se argumentar que tal vinculação foi “inocente” – como se o autor não tivesse desejado, propositalmente, vincular estreitamente o “Ordem e Progresso” à noção de autoritarismo –, o que a suposta inocência dessa vinculação comprovaria seria apenas superficialidade e irresponsabilidade do autor, atributos que, com certeza, ele rejeitaria e que o conjunto do livro, supostamente, demonstra. O fato é que, em todo o livro, “erros inocentes” desse tipo não são vistos a respeito de outros aspectos; além disso, de qualquer maneira, o título “Ordem e Progresso” foi empregado em um procedimento a posteriori e que, portanto, pode(ria) ser alterado a posteriori: em outras palavras, o autor decidiu conscientemente adotar a expressão “Ordem e Progresso” para descrever o período autoritário, vinculando a expressão ao autoritarismo.

A irresponsabilidade e a superficialidade intelectual, teórica e metodológica do autor estende-se também ao âmbito moral, na medida em que o “Ordem e Progresso”, à parte a sua origem positivista, integra o mais importante símbolo do país, que é a bandeira nacional[1]. Dessa forma, ao vincular o “Ordem e Progresso” ao autoritarismo militarista, o que o autor faz é vincular a bandeira nacional a esse autoritarismo militarista, corroborando os preconceitos da esquerda e da direita a respeito[2].

O caráter intencional e preconceituoso de Felipe Nunes ao escolher o rótulo “Ordem e Progresso” torna-se mais claro e mais intenso quando se considera que ele poderia ter escolhido inúmeros outros rótulos, com seriedade ou em tom de piada, para descrever a geração nascida entre 1964 e 1985. Assim, por exemplo, ele poderia ter usado “Anos de Chumbo”, “Autoritarismo”, “Regime Militar” – ou mesmo “Segurança e Desenvolvimento”: o autor não o fez simplesmente porque não o quis.

Ora, esse tipo de vício intelectual e moral – aliás, vício chamado “preconceito” – está presente em todo o livro e reflete um problema que acomete com enorme freqüência cientistas sociais dedicados a pesquisas empíricas, especialmente as quantitativas: são muito bons com números e com a manipulação estatística, mas são péssimos em termos conceituais. Por “péssimos em termos conceituais” o que queremos dizer é que esses pesquisadores lidam mal com os conceitos, não raras vezes sendo superficiais a esse respeito. Dito de outra maneira, são bons para contar coisas, mas fracassam (com freqüência, de maneira intencional) na parte que realmente importa, que é a reflexão intelectual.

Os grandes esquemas apresentados no livro refletem com clareza tal superficialidade conceitual, ou melhor, tal superficialidade teórica e filosófica: por exemplo, o autor opõe “conservadores” a “progressistas”, em que os “conservadores” são definidos como tais estritamente a partir do que a esquerda considera-o, da mesma forma que os “progressistas”. Não apenas o autor adota sem maiores cuidados uma classificação que é elaborada por um dos grupos sociais que ele pesquisa (e que, nas disputas partidário-eleitorais, é elaborada contra um outro grupo que ele também pesquisa), como o autor adota pessoalmente essa mesma classificação[3].

Infelizmente faz parte do repertório contemporâneo a afirmação (que em si é falaciosa) de que “tudo é política”, ou seja, de que tudo está em permanente disputa: se “tudo está em disputa”, com certeza os conceitos que esquerda e direita fazem de “conservadores” e “progressistas” também estão (e estão ainda mais) em disputa. Ora, não deveria ser obrigação profissional da parte do autor (como professor universitário, como pesquisador profissional, como dono de um instituto de pesquisa) distanciar-se um mínimo que fosse desses conceitos “em disputa”? Essa obrigação profissional deveria ser evidente para o autor, em termos científico-metodológicos, filosóficos e morais – para não ficarmos somente nos rasteiros termos políticos.

O primarismo conceitual do autor, bem como sua adesão acrítica aos valores partidário-eleitorais da esquerda, fica evidente tanto nas categorias utilizadas por ele para estruturar a pesquisa quanto nas interpretações que ele faz dos dados obtidos. Assim, por exemplo, em termos de categorias empregadas para organizar as respostas fornecidas pelos entrevistados, indicamos acima que o autor adota o conceito de “raças”; mas, para além da triste mas inevitável reprodução da política racialista oficial do Brasil, o fato é que o autor leva a sério a categoria “raça”. Ou seja, o autor reproduz o preconceito identitário segundo o qual o Brasil seria constitutiva e profundamente “racista”[4].

Em outro âmbito de reflexões, o autor afirma que “valorizar a família” seria um traço de conservadorismo – o que, inversamente, significa que desvalorizar a família seria uma perspectiva progressista! Em outras palavras, o que o autor sugere, ainda que de maneira subentendida, é que a desestruturação de lares, a fragilidade sistemática das relações humanas, a ausência de ambientes estáveis, acolhedores e estruturados – isso seria algo bom e desejável.

O autor não é explícito a respeito; em nenhum momento ele afirma com todas as eltras essas características. Na verdade, inversamente, o autor assume um certo objetivismo ligado ao seu quantitativismo; esse objetivismo serve na prática para que os pesquisadores quantitativistas escondam-se atrás de números e da retórica academicista-cientificista. (Tanto direita quanto esquerda fazem críticas contra o disfarce quantitativista das opiniões e dos preconceitos dos pesquisadores.) De qualquer maneira, a leitura atenta do livro evidencia com grande facilidade esses vícios, ou seja, a leitura atenta explicita o que o autor mantém implícito.

Há muitos outros aspectos em que o livro é superficial em termos de reflexões teóricas, de elaboração conceitual e de fundamentos filosóficos elementares. É claro que não seria possível o autor abordar com profundidade todos os aspectos implicados pela pesquisa e, por isso, não podemos cobrar essa postura. Entretanto, o autor dá certo destaque para algumas questões e sugere algumas conseqüências a respeito delas, mas silencia a propósito de outras que merecem (ou exigem) comentários e aprofundamento. Isso equivale a dizer que o autor escolhe conscientemente dar destaque a algumas coisas e a silenciar (ou omitir, ou ser superficial) a respeito de outras.

Um tema a respeito do qual o autor silencia é a chamada “laicidade do Estado”. O autor apresenta previamente vários resultados importantes – por exemplo, que a população brasileira acredita majoritariamente em divindades (monoteístas e politeístas) e que a população acredita no “poder da fé” –, para em seguida afirmar que isso tem relevância para políticas públicas, especialmente as que mobilizam mais diretamente a ciência (como as políticas de saúde e, indiretamente, de educação) e afirmar que se “deve levar a sério o peso das crenças populares, sob risco de as políticas públicas darem errado”: ora, o que se quer dizer com “levar a sério as crenças populares”? O autor silencia a respeito, mas sua omissão dá a impressão de que ele considera que governo e Estado devem incluir essas crenças nas políticas públicas – logo, o Estado deve deixar de lado a laicidade, o que deveria ser evidentemente inaceitável. Mas, em todo caso, como o autor silencia a respeito, temos apenas uma sugestão vaga e inconclusiva, mesmo que – como o próprio autor admite – seja a respeito de um aspecto central das políticas públicas.

Em face disso tudo, a vinculação cínica e ligeira do “Ordem e Progresso” ao militarismo e ao autoritarismo evidencia de maneira exemplar os vícios intelectuais e metodológicos do autor. Como vimos, o autor opõe de maneira simplista “conservadores” a “progressistas”: mais que apenas aderir de maneira indesculpável às disputas políticas contemporâneas e transferi-las para sua pesquisa, o que o autor faz é rejeitar qualquer possibilidade efetiva de superar essa oposição e de realizar a união proposta pela máxima “Ordem e Progresso”. O conjunto dos problemas teóricos, morais e políticos do livro deixa bastante claro que o autor não conhece a sociologia e a história subjacentes ao “Ordem e Progresso” e não entende a respectiva filosofia[5]: é difícil não chegarmos à conclusão de que se esconder atrás dos números para repetir e reproduzir preconceitos políticos nunca foi tão fácil e lucrativo.

Em textos de promoção comercial das obras do autor, afirma-se que ele é um “grande” pesquisador, com uma carreira de sucesso no Brasil e no exterior, tendo desenvolvido muitas pesquisas e elaborado um índice que é vendido para governos e empresas. À parte o exercício comercial desse tipo de comentário, o êxito acadêmico do autor deixa claro que não há motivo nenhum para ele cometer os erros e os vícios que comete – e ele de fato comete-os: sua habilidade estatística e empírica poderia com enorme facilidade evitar todos os problemas devidos ao seu primarismo teórico.

Em suma, é difícil não se ficar com grande irritação e má vontade com um livro e com um pesquisador que cometem erros tão grandes e superficiais, de maneira consciente e sistemática.

 

Gustavo Biscaia de Lacerda (GBLacerda@ufpr.br) é Doutor em Sociologia Política (UFSC) e Sociólogo da UFPR.

 

Referências bibliográficas

Abaixo-assinado “A bandeira nacional republicana não é fascista”. 2022. Disponível em: https://peticaopublica.com.br/pview.aspx?pi=BR127657. Acesso em 30 abr. 2026.

Comte, Augusto. 1898. Apelo aos conservadores. Rio de Janeiro: Igreja Positivista do Brasil.

Comte, Augusto. 1934. Catecismo positivista. 4ª ed. Rio de Janeiro: Igreja Positivista do Brasil.

Lacerda, Gustavo B. 2018. Comtianas brasileiras. Curitiba: Appris.

Lacerda, Gustavo B. 2019. O momento comtiano. Curitiba: UFPR.

Lacerda, Gustavo B. 2025. Sobre o livro “A utopia autoritária brasileira”, de Carlos Fico. Filosofia Social e Positivismo, Curitiba, 21 out. Disponível em: https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2025/10/sobre-o-livro-utopia-autoritaria.html. Acesso em: 30 abr. 2026.

Lacerda, Gustavo B. 2026. “O Brasil no espelho”, Dia das Mulheres, Castilhismo não é fascismo. Filosofia Social e Positivismo, Curitiba, 11 mar. Disponível em: https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2026/03/o-brasil-no-espelho-dia-das-mulheres.html. Acesso em: 30 abr. 2026.

Mounk, Yascha. 2024. A armadilha da identidade: uma história das ideias e do poder em nosso tempo. Rio de Janeiro: ed. 70.

Neiman, Susan. 2024. A esquerda não é woke. Belo Horizonte: Âyiné.

Nunes, Felipe. 2025. Brasil no espelho: um guia para entender o Brasil e os brasileiros. Rio de Janeiro: Globo.

Risério, Antônio. 2022. A crise da política identitária. Rio de Janeiro: Topbooks.

Teixeira Mendes, Raimundo Teixeira. 1898. As últimas concepções de Augusto Comte. Rio de Janeiro: Igreja Positivista do Brasil.



[1] Considerar que esse título foi devido a um erro “inocente” é, na melhor das hipóteses, um sofisma, ou, em linguagem direta, uma desculpa esfarrapada. Uma hipótese complementar, de que essa escolha teria sido uma espécie de piada política feita pelo autor, é ainda pior – que se torna mais degradante na medida em que se passa a ter em mente que o “Ordem e Progresso” integra a bandeira nacional brasileira.

[2] Devido a uma triste mas reveladora coincidência, no mesmo dia em que expusemos oralmente as críticas ao livro de Felipe Nunes, divulgamos uma postagem em que nos pusemos contra a pretensão de direitistas de associarem o Positivismo ao fascismo; trata-se do cartaz “O castilhismo não é fascista” (ver Lacerda, 2026); antes, em 2022, lançamos o abaixo-assinado “A bandeira nacional republicana não é fascista”.

A respeito dos preconceitos que a esquerda difunde contra o Positivismo, pode-se consultar Lacerda (2018), em que discutimos detalhadamente os mitos que Sérgio Buarque de Hollanda criou contra o Positivismo, e Lacerda (2025), em que tratamos do último livro do historiador Carlos Fico.

[3] Para não haver dúvidas: reconhecendo que no âmbito da centro-direita há elementos dignos de respeito e consideração aprofundada, nós, pessoalmente, somos simpáticos à centro-esquerda. O que cobramos do autor, no que se refere ao seu esquerdismo, não consiste portanto na adesão em si à esquerda, mas ao emprego completamente acrítico de conceitos próprios à disputa partidário-eleitoral em uma investigação que, por definição, deveria afastar-se em termos teóricos e metodológicos dessa disputa.

[4] Sobre os graves problemas morais, intelectuais e políticos do identitarismo em geral e, para o que nos interessa aqui, do identitarismo racialista-racista, cf. Risério (2022) e Mounk (2024). Susan Neiman (2024), a partir de uma perspectiva militante de esquerda, reafirma a crítica ao identitarismo.

[5] É claro que bastaria o autor ler diretamente Augusto Comte (por exemplo, 1898 ou 1934) a esse respeito; ou o nosso grande Raimundo Teixeira Mendes (por exemplo, 1898). Mas, caso quisesse usar a desculpa de que tais referências são difíceis de achar (o que é discutível, especialmente com os atuais e vastos repositórios eletrônicos, como o Internet Archive, o Google Books ou o Gallica), estão à disposição os livros de Lacerda (por exemplo, 2018 e 2019), bem mais recentes.

29 abril 2026

Sentimentos e inteligência dos animais

No dia 6 de César de 172 (28.4.2026) realizamos nossa prédica positiva, dando continuidade à leitura comentada do Apelo aos conservadores (em sua Terceira Parte - Conduta dos positivistas em relação aos revolucionários).

No sermão abordamos o tema dos sentimentos e da inteligência dos animais.

A prédica foi transmitida nos canais Positivismo (https://youtube.com/live/W9irV_EM0Nw) e Igreja Positivista Virtual (https://www.facebook.com/IgrejaPositivistaVirtual/videos/1632693707946642).

As anotações que serviram de base para a exposição oral encontram-se reproduzidas abaixo.

*   *   *

Os animais pensam (e sentem)?

(6 de César de 172/28.4.2026) 

1.     Abertura da prédica

2.     Datas e celebrações

2.1.   23 de abril a 20 de maio: mês de César – quinto mês do ano, a civilização militar

2.2.   Dia 2 de César (24.4): nascimento de Jean-François Eugène Robinet (1825 – 201 anos)

3.     Pesar pelo episódio lamentável em que o Guardião do Templo da Humanidade do Rio Grande do Sul, Érlon Jacques de Oliveira, sofreu várias facadas no dia 1º de César (23.4)

3.1.   As facadas foram dadas pelo filho da locadora do imóvel que fica nos fundos do terreno da Igreja Positivista do Rio Grande do Sul

3.2.   Tendo sido atingido no abdômen, Érlon foi para o hospital, internado na UTI e, no momento em que escrevemos, encontra-se em boas condições

4.     Leitura comentada do Apelo aos conservadores

5.     Exortações

5.1.   Sejamos altruístas!

5.2.   Façamos orações!

5.3.   Como Igreja Positivista Virtual, ministramos os sacramentos positivos a quem tem interesse

5.4.   Para apoiar as atividades dos nossos canais e da Igreja Positivista Virtual: façam o Pix da Positividade! (Chave Pix: ApostoladoPositivista@gmail.com)

6.     Sermão: os animais pensam (e sentem)?

6.1.   O sermão desta semana foi motivado por uma conversa com o Eugênio Macedo há algumas semanas, em que ele perguntou de fato se os animais pensam e sentem

6.1.1. Assim, este sermão baseia-se em algumas postagens do blogue, seja sobre os sentimentos dos animais, seja sobre as críticas de Augusto Comte às metafísicas psicológico-ideológicas

6.1.2. O grosso das reflexões baseia-se no último capítulo do v. 3 da Filosofia positiva de nosso mestre, publicado em 1838; esse volume foi dedicado ao exame da Biologia e esse capítulo em particular tem por título “Considérations générales sur l’étude positive des fonctions intellectuelles et morales, ou cérébrales”, isto é, “Considerações gerais sobre o estudo positivo das funções intelectuais e morais, ou cerebrais”

6.1.3. Além desse capítulo, basear-nos-emos em vários capítulos e volumes da Política positiva (publicados entre 1851 e 1854), especialmente o v. 1, cap. 3 – publicado em 1851, cujo título é “Introduction directe, naturellement syntéthique, ou Biologie” (“Introdução direta, naturalmente sintética, ou Biologia”)

6.1.4. As indicações que faremos neste sermão não têm a pretensão de esgotar o assunto; o que desejamos fazer é apenas (1) afirmar a realidade, que deveria ser evidente, de que os animais têm, sim, sentimentos e inteligência e (2) apresentar os argumentos históricos, filosóficos e biológicos que comprovam essa concepção

6.2.   A questão dos sentimentos e da inteligência dos animais é fundamental, (1) para entendermos o mundo, (2) para entendermos o ser humano, (3) para entendermos os animais e (4), por fim, para regularmos a ação humana no mundo

6.2.1. Para além da importância intelectual e filosófica, é impressionante o quanto a questão dos sentimentos e da inteligência dos animais desperta interesse – e, mais do que isso, entre os positivistas ela desperta vivas simpatias

6.3.   Sobre a inteligência dos animais, antes de mais nada temos que lembrar que aquilo que chamamos de “inteligência”, na verdade, é a combinação de vários fatores e elementos

6.3.1. Em primeiro lugar, o ser humano não existe como ser vivo isolado; ele não surgiu “pronto”

6.3.1.1.          Nós somente somos o que somos porque consistimos no grau máximo de uma evolução que aconteceu antes de nós

6.3.1.2.          Em outras palavras, os atributos que o ser humano apresenta são necessariamente compartilhados pelos animais superiores (o que abrange principalmente os mamíferos e as aves): a diferença é de grau, não de qualidade

6.3.2. Em segundo lugar, o entendimento que temos da realidade baseia-se nas relações (no “comércio”, como se dizia) entre os impulsos externos objetivos e o funcionamento interno subjetivo

6.3.2.1.          Como dizia Leibniz e como nosso mestre estabeleceu na Filosofia Primeira (quarta lei), “não existe nada na inteligência que não provenha dos sentidos, exceto a própria inteligência”[1]

6.3.2.2.          O que chamamos de “subjetividade” apresenta inúmeros sentidos, todos eles inter-relacionados, mas distintos: (1) sentimentos, (2) funcionamento cerebral autônomo, (3) sensibilidade neurológica interna, (4) imaginação, (5) valores e práticas sociais compartilhados – e (6) a chamada “inteligência”

6.3.2.3.          Novamente: é da relação entre os impulsos do ambiente com a atividade de cada ser vivo que se desenvolve a subjetividade e, a partir daí, os sentimentos e a inteligência. Dito de outra forma, a subjetividade desenvolve-se em parte em resposta ao ambiente, ou seja, ela é “adequada” ao ambiente

6.3.2.3.1.              Reiterando o que dissemos acima: isso é válido para os animais superiores e, portanto, para o homem; nada existe no ser humano que já não exista antes nos animais superiores

6.3.3. A partir da interação entre o ambiente objetivo e o corpo subjetivo, temos que o ser humano e os animais superiores são movidos por três lógicas, isto é, por três conjuntos de grandes princípios: os sentimentos, as imagens e os sinais

6.3.3.1.          A bem da verdade, só os sentimentos são “motores”; as imagens e os sinais são instrumentos para entendermos a realidade e, a partir disso, para agirmos

6.3.3.2.          A divisão que fazemos entre sentidos/sentimentos e inteligência é necessária (na medida em que são habilidades distintas entre si), mas, a bem da verdade, esses dois elementos correspondem um sistema único de interação recíproca do organismo com o ambiente, em que os corpos sentem a pressão externa, avaliam-na e (re)agem sobre ela

6.3.4. O resultado das indicações acima é que a inteligência, então, corresponde ao entendimento que se tem da realidade para atuar nela

6.3.4.1.          Não se trata de raciocínios lógico-matemáticos nem de pesquisas de laboratório – embora, em um sentido muito, muito, muito amplo, possa ser chamado de “conhecimento científico”

6.3.5. Por fim, além disso, nem os animais superiores nem o ser humano atuam de maneira mecânica, com automatismos

6.3.5.1.          A nossa subjetividade e o funcionamento interno autônomo existem de verdade e permitem-nos entendermos a realidade, termos vontades próprias, refletirmos sobre o que existe e, a partir daí, agirmos

6.3.5.2.          Nos animais superiores, é tão real a ausência de automatismos, por um lado, e a realidade dos sentimentos e da inteligência, por outro lado, que eles brincam e sentem o tédio

6.3.5.2.1.              Nosso mestre em uma passagem da Filosofia positiva assinala o tédio animal e, em outra passagem da Política positiva, nota que os leões enjaulados ficam deprimidos:

[...] Uma verdadeira disciplina afetiva, que deve sempre ser livre para tornar-se plenamente eficaz. É fácil senti-lo comparando o estado moral de um cão doméstico com o de um leão cativo. Quando uma longa experiência inspira ao segundo uma passiva resignação, a unidade moral não existe absolutamente nele: ele flutua sem cessar entre uma luta indefesa e um ignóbil torpor. Ao contrário, o desenvolvimento afetivo do primeiro torna-se direto e contínuo tão logo ele pode subordinar seus pendores egoístas a seus instintos simpáticos (Política, v. II, p. 15)[2]

6.4.   Resumindo e insistindo em três idéias gerais:

6.4.1. O ser humano não existe à parte da realidade (em particular, no presente caso, da realidade biológica): nós somos apenas o desenvolvimento máximo de um processo evolutivo que compartilhamos com os animais superiores;

6.4.2. Nós (“nós” = seres humanos e animais superiores) vivemos em interação com o ambiente, combinando a dinâmica interna autônoma com as pressões do ambiente, ao mesmo tempo em que exercemos pressão sobre o ambiente;

6.4.3. Os sentimentos são os motores internos e a inteligência é um instrumento de que nos valemos para conhecer o ambiente e agir sobre ele

6.5.   É importante afirmarmos com todas as letras que a rejeição dos sentimentos e da inteligência dos animais tem origem teológica, é repetida pelos metafísicos e continua valendo hoje em dia, sob os mais diferentes nomes e rótulos

6.5.1. Em termos teológicos, para os judeus e os cristãos o mundo foi criado à parte do ser humano, para usufruto do ser humano; o “sopro da vida” e o Verbo são exclusivos do ser humano

6.5.1.1.          A combinação do sopro da vida com o Verbo corresponde à “alma”, que se torna exclusiva dos seres humanos

6.5.1.2.          Em conseqüência disso, os teológicos judaico-cristãos dizem, literalmente, que os animais não têm “alma” (mas têm “um tipo de consciência”)

6.5.1.3.          É claro que, como de modo geral ocorre com a teologia, a sabedoria prática do sacerdócio com freqüência suplantou (como suplanta) os preconceitos teóricos, como nos belos exemplos de São Francisco de Assis e, mais recentemente, do Papa Francisco

6.5.2. Entre os metafísicos, essa tolice é compartilhada seja pelos materialistas, seja pelos espiritualistas; os primeiros a partir da hipótese mecanicista de Descartes, os segundos a partir mais clara e diretamente dos preconceitos teológicos

6.5.2.1.          A referência a Descartes não é para desvalorizarmo-lo: em seu esforço para positivar as concepções humanas, ele não tinha como não ser metafísico (fosse mecanicista em relação aos animais, fosse espiritualista a respeito do ser humano)

6.5.2.1.1.              Se Descartes não tinha como não ser metafísico, coisa muito diferente ocorre com os pensadores que vieram após ele, especialmente depois das pesquisas de Bichat, Gall e Augusto Comte, do século XIX em diante

6.5.2.2.          A metafísica mecanicista é exemplificada pelo comportamentalismo de Skinner, para quem os animais não têm subjetividade (ou não têm de fato ou agem como se não tivessem)

6.5.2.3.          O espiritualismo metafísico, de origem mais claramente teológica, é evidente entre os neokantianos alemães (Max Weber e seus êmulos), para quem há uma separação radical entre o ser humano e a natureza, incluindo aí os animais; o traço distintivo do ser humano para eles é a “cultura”, isto é, a subjetividade e a inteligência: essas concepções são versões um pouco secularizadas do mito judaico-cristão da criação do mundo em seis dias e da exclusividade humana do sopro e do Verbo

6.5.3. Como falamos em “alma”, algumas rápidas observações são necessárias:

6.5.3.1.          A concepção teológico-metafísica da alma, evidentemente, é apenas uma ficção sobrenatural: não existe essa coisa etérea, fumacenta, incorpórea, que entra nos corpos e fá-los moverem-se (e que, ainda por cima, atribui-se a ela a condição de participação na/da divindade!)

6.5.3.2.          A concepção positiva de alma consiste no conjunto das funções do cérebro, desenvolvidas ao longo do tempo primeiramente em termos biológicos e, no caso do ser humano, depois e principalmente em termos sociológicos e morais

6.5.3.3.          A concepção positiva de alma rejeita, por ser irracional e imoral, a pretensa divisão teológico-metafísica entre moralidade e “espiritualidade”

6.6.   O que comentamos até agora evidentemente combina vários elementos filosóficos e científicos: as reflexões de Augusto Comte a respeito da metafísica psicológico-ideológica, os resultados da neurociência, reflexões sobre a evolução humana, reflexões sobre as relações do ser humano (e, de modo mais amplo, dos seres vivos) com o ambiente, as leis de Filosofia Primeira, as reflexões sobre a subjetividade (sobre os sentimentos, sobre a inteligência, sobre o desenvolvimento histórico das idéias, sobre a imaginação)

6.6.1. Devemos notar que consideramos apenas a Biologia, deixando de lado a Sociologia, ou seja, o desenvolvimento histórico-sociológico das idéias e da autonomia da subjetividade: isso exigiria muitos mais comentários, cuja importância seria, além disso, um tanto indireta

6.7.   O trecho abaixo de Augusto Comte, escrito em 1838, é cristalino e, se tivesse sido levado mais a sério, teria evitado nos últimos 200 anos uma quantidade enorme de erros, mal-entendidos e más ações:

A palavra instinto não possui, em si mesma, outro sentido fundamental senão o de designar todo impulso espontâneo em uma direção determinada, independentemente de qualquer influência externa; nesse sentido primitivo, aplica-se evidentemente à atividade própria e direta de qualquer faculdade, tanto das faculdades intelectuais quanto das afetivas. Ela não se opõe, portanto, de modo algum ao termo inteligência, como se observa quando se fala daqueles que, sem qualquer educação, manifestam um talento pronunciado para a música, a pintura, a matemática etc. Sob esse ponto de vista, há certamente instinto – ou melhor, instintos – tanto e mesmo mais no homem do que nos animais. Se, por outro lado, caracterizarmos a inteligência pela aptidão de modificar a própria conduta conforme as circunstâncias de cada caso – o que constitui, de fato, o principal atributo prático da razão propriamente dita – torna-se ainda evidente que, sob esse aspecto, assim como sob o anterior, não há motivo para estabelecer, entre humanidade e animalidade, qualquer diferença essencial além daquela de grau mais ou menos desenvolvido de uma faculdade que é, por sua natureza, comum a toda vida animal e sem a qual não se poderia sequer conceber sua existência.

6.8.   Os animais devem ser valorizados e respeitados

6.8.1. Este sermão aborda os sentimentos e a inteligência dos animais – que, como vemos, são atributos necessariamente compartilhados pelos seres humanos com (em particular) os animais superiores e as aves

6.8.1.1.          O que queríamos apresentar hoje já foi apresentado; ainda assim, cremos que vale a pena expor uma ou duas reflexões adicionais, em particular no sentido de indicar que a Religião da Humanidade valoriza efetiva e necessariamente os animais

6.8.2. A primeira indicação adicional consiste em que os animais correspondem não somente a nossos companheiros de destino no planeta, mas também são nossos auxiliares – e, por isso, merecem mesmo respeito e dignificação

6.8.2.1.          O filme “Sempre ao seu lado” (dirigido por Lasse Hällstrom, de 2009) apresenta a grata e alegre devoção de um cachorro por seu dono, mesmo e principalmente após a transformação desse dono

6.8.2.1.1.              O filme é ambientado nos Estados Unidos dos anos 2000, mas a história original, que inspirou o filme, ocorreu no Japão dos anos 1920: o cachorro original recebeu uma estátua lá

6.8.2.2.          O trecho abaixo de nosso mestre é decisivo a respeito das possíveis homenagens que os animais podem receber da Humanidade:

“A propósito da incorporação dos animais: ‘A objeção principal de vossa primeira carta merece mais atenção, posto que eu pense também que a mesma leitura (isto é, do 4.° vol. da Política Positiva) vai em breve dissipá-la. Talvez, que ela me determine a pôr uma explicação especial sobre esse tópico, em caso de nova edição do Catecismo Positivista. Importa que o positivismo reerga os animais associáveis do desdém inspirado pelo monoteísmo, sobretudo ocidental; porquanto o islamismo acha-se, a este respeito, como a muitos outros, muito mais próximo do estado normal. Mas não creio que isso possa nunca fazer com que alguém receie qualquer assimilação degradante dos servidores diretos do Grande Ser ao seus auxiliares indiretos. Todas as honras merecidas por estes são ordinariamente privadas, mesmo em seus serviços. Contudo, eles podem excepcionalmente obter uma glorificação pública, em caso de devotamento eficacíssimo para com um digno servidor. Vossa respeitosa advertência faz-me ver a necessidade de não deixar implícito semelhante esclarecimento num opúsculo destinado naturalmente a leitores que, em sua maioria, não conhecerão o principal tratado’ (Lettres à Hutton, p. 43.)” (Catecismo positivista, Nota de Miguel Lemos à Quarta Conferência, 1934, 4ª ed., p. 467-468)

6.8.3. Além disso, assim como o ser humano tornou-se a espécie preponderante no planeta (devido ao seu intenso aspecto social), se nós não existíssemos, ou se tivéssemos sido extintos, alguma outra espécie ter-se-ia tornado dominante: essa outra espécie pode ser entendida como uma outra Humanidade, mas abortada:

“Porém o conjunto dos animais suscetíveis de formarem uma verdadeira série nos oferecerá sempre um profundo interesse abstrato, para esclarecermos o estudo geral de todas as nossas funções inferiores, acompanhando cada uma delas em sua simplificação e complicação graduais. A humanidade não constituindo, no fundo, senão o principal grau da animalidade, as mais elevadas noções da sociologia, e mesmo da moral, encontram necessariamente na biologia seu primeiro esboço, para os espíritos verdadeiramente filosóficos que sabem apanhá-las aí. Nossa concepção teórica mais sublime se torna, assim, mais apreciável, quando se considera cada espécie animal como um Grande Ser mais ou menos abortado, em virtude da inferioridade de sua própria organização e do surto do predomínio humano. Porque a existência coletiva constitui sempre a tendência necessária da vida de relação que caracteriza a animalidade. Mas este resultado geral não pode, sobre um mesmo planeta, desenvolver-se assaz senão em uma só das espécies sociais” (Catecismo positivista, Sétima Conferência, 1934, 4ª ed., p. 236-237)[3]

6.9.   Em suma:

6.9.1. Retomamos e reafirmamos mais uma vez três idéias gerais:

6.9.1.1.          O ser humano não existe à parte da realidade: nós somos apenas o desenvolvimento máximo de um processo evolutivo que compartilhamos com os animais superiores

6.9.1.2.          Nós (seres humanos e animais superiores) vivemos em interação com o ambiente, combinando a dinâmica interna autônoma com as pressões do ambiente, ao mesmo tempo em que exercemos pressão sobre o ambiente

6.9.1.3.          Os sentimentos são os motores internos e a inteligência é um instrumento de que nos valemos para conhecer o ambiente e agir sobre ele

6.10.               A desvalorização dos animais é principalmente devida à teologia (em particular a cristã), que separa radicalmente o ser humano dos animais, a partir da crença fictícia na “alma”

6.10.1.   A partir da crença na “alma”, a teologia degrada-se na metafísica, que, por sua vez, continua desvalorizando os animais, seja na metafísica materialista (com o mecanicismo), seja na metafísica espiritualista (com a secularização direta da teologia, resultando em concepções como o “Espírito”)

7.     Término da prédica

 

Referências

- Auguste Comte (franc.), Síntese subjetiva (Paris, Exécution Téstamentaire d’Auguste Comte, 2ª ed., 1900): https://archive.org/details/lasynthsesubjec00comtgoog.

- Augusto Comte (franc.), Sistema de filosofia positiva (Paris, Bachelier, 1838), v. 3, 45e leçon (“Considérations générales sur l’étude positive des fonctions intellectuelles et morales, ou cérébrales”).

- Augusto Comte (franc.), Sistema de política positiva (Paris. J.-B. Baillière, 4ª ed., 1880): https://archive.org/details/systmedepoliti01comt.

- Augusto Comte (port.), Apelo aos conservadores (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores.

- Augusto Comte (port.), Catecismo positivista (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 4ª ed., 1934).

- Gustavo Biscaia de Lacerda (port.), Afinal, os animais pensam (e sentem)? Filosofia Social e Positivismo, Curitiba, 8.abr.2026: https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2026/04/afinal-os-animais-pensam-e-sentem.html.

- Gustavo Biscaia de Lacerda (port.), Augusto Comte: metafísica psicológico-ideológica, inteligência dos animais e “observação interior”. Filosofia Social e Positivismo, Curitiba, 8.abr.2026: https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2026/04/augusto-comte-metafisica-psicologico.html.

- José Lonchampt (port.), Ensaio sobre a oração (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1896; catálogo da IPB, n. 165): https://archive.org/details/n.-165-jose-lonchampt-ensaio-sobre-a-oracao.

- Luís Lagarrigue (esp.), A poesia positivista (Santiago do Chile, 1890): https://archive.org/details/luis-lagarrigue-a-poesia-positivista-1890_202509.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), As últimas concepções de Augusto Comte (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-i e https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-ii.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), O ano sem par (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1900): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-o-ano-sem-par-portug._202312/page/n7/mode/2up.



[1] A quarta lei da filosofia primeira tem este enunciado: “Subordinar as construções subjetivas aos materiais objetivos (Aristóteles, Leibnitz, Kant)” (Augusto Comte. Catecismo positivista ou sumária exposição da Religião da Humanidade. 4ª ed. Rio de Janeiro: Apostolado Positivista do Brasil, 1934, p. 479).

[2] “[...] Une véritable discipline affective, qui doit toujours être libre pour devenir pleinement efficace. Il est aisé de le sentir en comparant l’état moral d’un chien domestique avec celui d’un lion captif. Quand une longue expérience inspire au second une passive résignation, l’unité morale n’existe point en lui : il flotte sans cesse entre une lutte impuissante et une ignoble torpeur. Au contraire, l’essor affectif du premier devient direct et continu aussitôt qu’il a pu subordonner ses penchants égoïstes à ses instincts sympathiques”.

[3] Ver também a Política positiva, v. IV, p. 222.