26 agosto 2026

Não degradar o aconselhamento com pretensões políticas e econômicas

No dia 13 de Gutenberg de 172 (25.8.2026) realizamos nossa prédica positiva, dando continuidade à leitura comentada do Apelo aos conservadores (em sua "Conclusão" - Conduta própria aos verdadeiros conservadores).

O trecho comentado afirma que os conselheiros (os sacerdotes, os filósofos, os terapeutas, os professores), como são responsáveis pela opinião públicanão podem degradar o aconselhamento com pretensões políticas e/ou econômicas. 

Entretanto, ao contrário do Positivismo, há várias filosofias/religiões e grupos sociais que fazem exatamente isso: tais filosofias e grupos são autoritários e não merecem apoio nem respeito.

A prédica foi transmitida nos canais Positivismo (https://youtube.com/live/n71JoimOJac) e Igreja Positivista Virtual (https://www.facebook.com/IgrejaPositivistaVirtual/videos/28030565429942638).

As anotações escritas que serviram de base para a exposição oral encontram-se reproduzidas abaixo.

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Leitura comentada do Apelo aos conservadores

(13 de Gutenberg de 172/25.8.2026) 

1.     Abertura da prédica

2.     Datas e celebrações

2.1.   Dia 13 de Gutenberg (25.8): nascimento de L. H. Horta Barbosa (1900 – 126 anos)

2.2.   Dia 22 de Gutenberg (3.9): Live AOP com Hernni Gomes da Costa sobre o lamentável livro A era do cientificismo

2.2.1. Essa Live AOP ocorrerá, como de hábito, exclusivamente no canal Positivismo (aqui)

3.     Exortações

3.1.   Esta talvez seja a seção mais importante das prédicas!

3.2.   Sejamos altruístas!

3.2.1. Sejamos generosos, tolerantes etc.

3.2.2. Devemos orientar toda a nossa vida pelo altruísmo: quando o altruísmo regula e orienta a vida, o resultado é que o altruísmo (a dedicação para os demais) e o egoísmo (a satisfação das necessidades pessoais) não são incompatíveis, pois só o altruísmo permite unir o bem comum à felicidade pessoal

3.3.   Façamos orações!

3.4.   Como Igreja Positivista Virtual, ministramos os sacramentos positivos a quem tem interesse

3.4.1. Em um total de nove, os sacramentos são a celebração de momentos centrais na vida de todos nós – momentos que devem ser celebrados, afirmados, compartilhados (o nascimento/a adoção, o casamento, a aposentadoria, a transformação (a morte) etc.)

4.     Apóiem a Igreja Positivista Virtual!

4.1.   Colaborem com o que puderem; com boa fé e boa vontade, toda e qualquer colaboração é necessária e bem-vinda!

4.1.1. Inscrevam-se no canal, compartilhem, divulguem nossas atividades!

4.2.   Para apoiar as atividades dos nossos canais e da Igreja Positivista Virtual: façam o Pix da Positividade! (Chave Pix: ApostoladoPositivista@gmail.com)

5.     Explicações gerais sobre o Apelo aos conservadores

5.1.   Que tipo de documento é o Apelo e a quem ele dirige-se?

5.1.1. O Apelo é um manifesto político e dirige-se não a quaisquer pessoas ou grupos, mas a um grupo específico: são os líderes políticos e industriais que tendem para a defesa da ordem (e que tendem para a defesa da ordem até mesmo devido à sua atuação como líderes políticos e industriais), mas que, ao mesmo tempo, reconhecem a necessidade do progresso (a começar pela república): são esses os “conservadores” a que Augusto Comte apela

5.1.2. O Apelo, portanto, adota uma linguagem e um formato adequados ao público a que se dirige

5.1.3. Empregamos a expressão “líderes industriais” no lugar de “líderes econômicos”, por ser mais específica e mais adequada ao Positivismo: a “sociedade industrial” não se refere às manufaturas, mas à atividade pacífica, construtiva, colaborativa, oposta à guerra

5.1.4. É necessário reforçar que, na medida em que a “conservação” consiste na manutenção da sociedade como base necessária para o aperfeiçoamento, a política “conservadora” proposta por Augusto Comte é progressista, de tal sorte que ela corresponde à união e à realização do ideal de “Ordem E Progresso”

5.1.4.1.          A noção positiva de “conservador” e de “conservadorismo” opõe-se à noção inglesa de “conservador” (conforme definida originalmente por Edmund Burke, em 1794) e que se aproxima de ausência de movimento, de movimento muito lento ou, em todo caso, de rejeição de mudanças sociais racionais e intencionais

5.1.4.2.          Assim, a expressão “apelo aos conservadores” (em francês: “appel aux conservateurs”) não significa, nem quer significar, “defesa do conservadorismo” (ou, como querem alguns, de maneira alucinada, “defesa do reacionarismo”)

5.2.   Outras observações:

5.2.1. Uma versão digitalizada da tradução brasileira desse livro, feita por Miguel Lemos e publicada em 1899, está disponível no Internet Archive: https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores

5.2.2. O capítulo em que estamos é a “Conclusão”, cujo subtítulo é “Conduta própria aos verdadeiros conservadores”

6.     Leitura comentada do Apelo aos conservadores

7.     Término da prédica

 

Referências

- Auguste Comte (franc.), Síntese subjetiva (Paris, Exécution Téstamentaire d’Auguste Comte, 2ª ed., 1900): https://archive.org/details/lasynthsesubjec00comtgoog.

- Augusto Comte (franc.), Sistema de filosofia positiva (Paris, Bachelier, 1838), v. 3, 45e leçon (“Considérations générales sur l’étude positive des fonctions intellectuelles et morales, ou cérébrales”).

- Augusto Comte (franc.), Sistema de política positiva (Paris. J.-B. Baillière, 4ª ed., 1880): https://archive.org/details/systmedepoliti01comt.

- Augusto Comte (port.), Apelo aos conservadores (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores.

- Augusto Comte (port.), Catecismo positivista (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 4ª ed., 1934).

- José Lonchampt (port.), Ensaio sobre a oração (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1896; catálogo da IPB, n. 165): https://archive.org/details/n.-165-jose-lonchampt-ensaio-sobre-a-oracao.

- Luís Lagarrigue (esp.), A poesia positivista (Santiago do Chile, 1890): https://archive.org/details/luis-lagarrigue-a-poesia-positivista-1890_202509.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), As últimas concepções de Augusto Comte (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-i e https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-ii.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), O ano sem par (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1900): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-o-ano-sem-par-portug._202312/page/n7/mode/2up.

18 agosto 2026

As trindades positivas

No dia 6 de Gutenberg de 172 (18.8.2026) realizamos nossa prédica positiva, dando continuidade à leitura comentada do Apelo aos conservadores (iniciando a Conclusão - Missão peculiar aos verdadeiros conservadores).

No sermão abordamos as duas concepções de trindade positiva.

A prédica foi transmitida no canal Igreja Positivista Virtual (https://www.facebook.com/IgrejaPositivistaVirtual/videos/1417814206827155). Infelizmente, a transmissão via Youtube (no canal Positivismo) apresentou sucessivos problemas.

As anotações que serviram de base para a exposição oral encontram-se reproduzidas abaixo.

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As trindades positivas

(6 de Gutenberg de 172/18.8.2026) 

1.     Abertura da prédica

2.     Datas e celebrações

2.1.   Dia 1º de Gutenberg (13.8): início das atividades do COMTE-Grupo Clotilde

2.2.   Dia 4 de Gutenberg (16.8): nascimento de David Carneiro, Jr. (1926 – 100 anos)

2.3.   De 13 de agosto a 9 de setembro: mês de Gutenberg, nono mês do ano, dedicado à indústria moderna

3.     Leitura comentada do Apelo aos conservadores

4.     Exortações

4.1.   Sejamos altruístas!

4.2.   Façamos orações!

4.3.   Como Igreja Positivista Virtual, ministramos os sacramentos positivos a quem tem interesse

4.4.   Para apoiar as atividades dos nossos canais e da Igreja Positivista Virtual: façam o Pix da Positividade! (Chave Pix: ApostoladoPositivista@gmail.com)

5.     Sermão: as trindades positivas

5.1.   As trindades positivas muitas vezes não são muito conhecidas

5.1.1. Elas integram a fase de pleno desenvolvimento religioso de nosso mestre e correspondem à aplicação, ou melhor, à junção do neofetichismo ao Positivismo

5.1.2. Assim, em certo sentido, podemos dizer que quem é plenamente religioso, ou, o que dá no mesmo, quem é plenamente positivista conhece e aplica as trindades positivas

5.2.   Quando falamos em trindade positiva, costumamos pensar em apenas uma, mas na verdade há duas trindades

5.2.1. Uma primeira trindade foi proposta por Augusto Comte em 1855 no Apelo aos conservadores, distinguindo a Prioridade (os seres humanos passados), a Posteridade (os seres humanos futuros) e o Público (os seres humanos presentes)

5.2.2. Uma segunda trindade positiva foi proposta por Augusto Comte em 1856 na Síntese positiva, distinguindo o Grão Meio (o Espaço), o Grão Fetiche (a Terra) e o Grão Ser (a Humanidade)

5.2.3. As datas de proposição dessas duas trindades já deixam claro que se tratam de concepções bastante avançadas: elas são posteriores à fundação da Religião da Humanidade (1848 e 1851-1854) e já entrando em novos âmbitos de atuação (a regulação da ação política, a regulação da subjetividade positiva)

5.2.4. Para facilitar o entendimento e distinguir uma da outra, podemos chamar a trindade do Apelo aos conservadores de “trindade social”; já a da Síntese subjetiva podemos chamar de “trindade religiosa”; os motivos para isso ficarão claros na seqüência

5.3.   Quais são as características da trindade positiva presente no Apelo aos conservadores?

5.3.1. Suas apresentações e características encontram-se na Primeira Parte (p. 39-40) e na Terceira Parte (p. 134-135) do livro

5.3.2. A Prioridade, a Posteridade e o Público representam os aspectos plenamente subjetivos e o objetivo da Humanidade

5.3.3. Em uma primeira abordagem, Augusto Comte considera cada um desses elementos e seus nomes:

5.3.3.1.          A Posteridade foi a primeira ser nomeada, referindo-se primeiro ao âmbito doméstico, depois ao cívico e por fim ao universal

5.3.3.2.          O Público refere-se aos servidores objetivos e diretos da Humanidade e apresenta uma autoridade crescente em relação aos negócios públicos

5.3.3.3.          Enquanto os nomes “Posteridade” e “Público” surgiram espontaneamente, coube a Augusto Comte denominar o elemento subjetivo prévio de “Prioridade” (empregando a aliteração com a letra “P”[1])

“[...] O elemento passado da população subjetiva, que é o único que fornece ao mesmo tempo os impulsos e os meios exigidos pela conservação e pelo aperfeiçoamento da suprema existência. Mas, além de que poderia ser chamado Prioridade, o conjunto dos predecessores tornando-se o principal objeto do culto universal, fica dispensado de um nome distinto, podendo sempre ser designado, sem confusão, como o Grão-Ser, do qual ele forma, cada vez mais, a base necessária” (Apelo, p. 40)

5.3.4. Em um segundo momento, nosso mestre considera a composição dos elementos da trindade positiva social, em particular para indicar as características do Público e seus atributos políticos:

“Comparando a Prioridade, o Público e a Posteridade, que compõem a trindade positiva, o grupo mais imperfeito aí sobreleva-se em virtude de sua subordinação necessária aos dois extremos, dos quais derivam a base e o fim de sua própria atividade. Apesar de sua menor perfeição, o ente médio participa da depuração característica; ele não admite senão os dignos membros da população objetiva e os classifica segundo o verdadeiro valor deles; nos tempos excepcionais, a ligação do porvir ao passado poderia concentrar-se numa única alma. A noção de Público, diretamente subordinada à da Humanidade, bastaria para superar o dogma da soberania popular. Os verdadeiros partidários do progresso social não tardarão em reconhecer que a insurreição dos vivos contra os mortos é contraditória com a digna preparação de um futuro que supõe o passado. Basta mesmo invocar a origem histórica do proletariado moderno para fazer sentir convenientemente, no caso mais decisivo e difícil, a correlação necessária entre os dois elementos da população subjetiva” (Apelo, p. 134-135).

5.4.   Quais são as características da trindade positiva presente na Síntese subjetiva?

5.4.1.  Antes de mais nada, temos que ter clareza que a trindade positiva religiosa é, ao mesmo tempo, mais ampla e mais profunda que a trindade social

5.4.1.1.          A trindade religiosa realiza de maneira plena a incorporação do fetichismo inicial ao Positivismo final, por meio do neofetichismo

5.4.1.2.          Em que consiste essa incorporação? Na afirmação plena da subjetividade e da afetividade na existência humana; na Síntese subjetiva (ou melhor, na primeira parte da “Introdução” dessa obra) essa afirmação é estabelecida como princípio regulador, que ao mesmo tempo disciplina a imaginação e a lógica humana

5.4.1.3.          Com essa regulação, a lógica deixa de ser – como é com a metafísica – meramente intelectual e meramente baseada nos sinais para ampliar-se e consistir nos procedimentos adotados para inspirar as concepções humanas, a partir dos sentimentos, das imagens e dos sinais

5.4.1.4.          A fim de estender a afetividade a toda a realidade humana, bem como aplicar a ela a subjetividade positiva, além de tornar a realidade mais racional, Augusto Comte elaborou a trindade religiosa

5.4.2. A trindade religiosa é composta pelo Grão Meio (o Espaço), pelo Grão Fetiche (a Terra) e pelo Grão Ser (a Humanidade)

5.4.2.1.          O Grão Meio, o Espaço, é abstrato; é nele que as leis naturais ocorrem; seu âmbito intelectual é principalmente lógico (a Lógica, que é como Augusto Comte renomeia, a partir da renovação religiosa, a Matemática)

5.4.2.2.          O Grão Fetiche é a Terra; acompanhada dos astros próximos e povoada pelas plantas e pelos animais, ela é concreta, é o nosso local de vida e é o primeiro objeto de adoração; seu âmbito intelectual são as ciências inferiores, ou melhor, a Física (incluindo aí a Astronomia, a Física propriamente dita e a Química)

5.4.2.3.          O Grão Ser é a Humanidade; ela é abstrata e concreta; ela é composta pela Prioridade, pela Posteridade e pelo Público; seu âmbito de atuação é a Moral (incluindo aí a Biologia como preâmbulo e a Sociologia como estudo próprio ao ser humano coletivo)

5.4.3. Há algumas propriedades adicionais em cada um dos elementos da trindade religiosa:

5.4.3.1.          Seguindo a afirmação generalizada da afetividade e a exclusividade humana da vontade (que é o emprego direcionado da inteligência), o Espaço é entendido como afetivo mas inerte e cego; a Terra é entendida como afetiva, ativa e cega; a Humanidade, por fim, é afetiva, ativa e inteligente

5.4.3.1.1.              Como dissemos, a vontade é um atributo vinculado à inteligência: a Humanidade é a única dotada de vontade, portanto

5.4.3.2.          Considerando as relações entre o mundo, o ser humano individual e o ser humano coletivo, Augusto Comte estabeleceu que “Entre o homem e o mundo é necessária a Humanidade”

5.4.4. Um outro aspecto importante é que, com o neofetichismo e a trindade religiosa, não somente o mundo torna-se mais racional, como se torna também mais afetivo e mais ativo:

5.4.4.1.          A maior racionalidade consiste em que o mundo torna-se melhor explicado e melhor sistematizado (de maneira muito, muito, muito grosseira poderíamos dizer que ele torna-se melhor “esquematizado”), com vários graus sucessivos de aproximação entre a realidade concreta e a realidade abstrata, entre o mundo e o ser humano

5.4.4.2.          A maior afetividade consiste em que a realidade como um todo é entendida, de fato, como afetiva, agindo passiva ou ativamente em nosso benefício: o mundo deixa ser um lugar seco, frio, estéril, como o monoteísmo apresenta e como a metafísica (seja a metafísica espiritualista, seja a metafísica materialista, seja também, em particular, a metafísica cientificista) reafirma, e torna-se um ambiente afetuoso, quente, aconchegante

5.4.4.3.          A maior atividade torna-se possível porque se afirma que, “para completar as leis são necessárias vontades”, ou seja, as preocupações especificamente humanas e as concepções neofetichistas completam com os dados concretos, específicos a cada caso, o que leis abstratas apresentam-nos de maneira geral (e sempre, necessariamente, incompleta)

5.4.4.3.1.              Devemos lembrar que as leis naturais integram o regime mental próprio à positividade e ao relativismo; além disso, elas são gerais, ao passo que as vontades (relativas ou absolutas) são sempre particulares

5.4.4.3.2.              As “vontades” que devem completar as leis são vontades relativas, isto é, destituídas da arbitrariedade e do capricho próprios ao absolutismo teológico-metafísico

5.4.5. As características da trindade religiosa podem ser sumariadas como segue: 

Elemento da trindade

Características

Método específico

Meio lógico

Ciência

Grão-Ser

(Humanidade)

-    Sentimentos

-    Atividade

-    Inteligência

(Vontade esclarecida)

Construção

Sentimentos

Moral (única final)

Grão-Fetiche

(Terra)

-    Sentimentos

-    Atividade

(Vontade cega)

Indução

Imagens

Física (preliminar: doutrina)

Grão-Meio

(Espaço)

-    Sentimentos

Dedução

Sinais

Lógica (preliminar: método)

 5.5.   Como relacionar as duas trindades?

5.5.1. O que propomos aqui é uma interpretação nossa, na medida em que nosso mestre não desenvolveu esse aspecto

5.5.2. Não nos parece difícil conciliar as duas trindades, na medida em que cada uma delas têm âmbitos diferentes: a trindade “social” refere-se aos três aspectos da historicidade humana e da própria Humanidade, ao passo que a trindade “religiosa” refere-se a três âmbitos sucessivos da realidade subjetividade humana em geral

5.5.3. A trindade religiosa é mais ampla, ou melhor, mais geral que a trindade social e, nesse sentido, ela merece o título de trindade positiva por excelência

5.5.4. Assim, temos a trindade positiva por excelência, que é a trindade religiosa (Grão Meio, Grão Fetiche, Grão Ser); ao considerarmos a Humanidade, ela desdobra-se na trindade social (Prioridade, Posteridade, Público)

6.     Término da prédica

 

Referências

- Auguste Comte (franc.), Síntese subjetiva (Paris, Exécution Téstamentaire d’Auguste Comte, 2ª ed., 1900): https://archive.org/details/lasynthsesubjec00comtgoog.

- Augusto Comte (franc.), Sistema de política positiva (Paris. J.-B. Baillière, 4ª ed., 1880): https://archive.org/details/systmedepoliti01comt.

- Augusto Comte (port.), Apelo aos conservadores (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores.

- Augusto Comte (port.), Catecismo positivista (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 4ª ed., 1934).

- José Lonchampt (port.), Ensaio sobre a oração (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1896; catálogo da IPB, n. 165): https://archive.org/details/n.-165-jose-lonchampt-ensaio-sobre-a-oracao.

- Luís Bueno Horta Barbosa (port.): Introdução geral ao estudo da lógica, ou matemática (Rio de Janeiro, Jornal do Comércio, 1933): https://archive.org/details/augusto-comte-logica-positiva.

- Luís Lagarrigue (esp.), A poesia positivista (Santiago do Chile, 1890): https://archive.org/details/luis-lagarrigue-a-poesia-positivista-1890_202509.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), As últimas concepções de Augusto Comte (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-i e https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-ii.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), O ano sem par (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1900): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-o-ano-sem-par-portug._202312/page/n7/mode/2up.



[1] A aliteração é um recurso estilístico em que sons de consoantes são repetidos no início das palavras (ou também no meio delas). Augusto Comte empregou a aliteração com o “P” na trindade positiva da Humanidade, assim como, na Política positiva (v. IV, p. 477), ao propor três festas para celebrar serviços cívicos pacíficos: Poste, Presse e Police (Correios, Imprensa e Polícia).

Rodrigo Toniol: O mito do renascimento cristão

Em 18.8.2026, o antropólogo carioca Rodrigo Toniol publicou o artigo "O mito do renascimento cristão" no jornal Folha de São Paulo

O texto comenta notícias disseminadas com alarde, na Europa, nos Estados Unidos e, por extensão, no Brasil, segundo as quais o cristianismo (e, de modo mais geral, a teologia) passaria por um renascimento no Ocidente. Como indica o autor, essas notícias são meramente sensacionalistas, baseiam-se em observações profundamente enviesadas e, de qualquer maneira, mesmo que realcem as (re)conversões à teologia, na verdade silenciam totalmente a respeito das muito mais numerosas e silenciosas apostasias.

O texto original pode ser lido aqui.

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Rodrigo Toniol
(Fonte: Folha de S. Paulo)

O mito do renascimento cristão

Rodrigo Toniol

18.ago.2026 às 7h00

 

Em abril de 2025, uma pesquisa realizada no Reino Unido pareceu contrariar a tendência religiosa das últimas décadas. Segundo o relatório, o cristianismo estaria crescendo significativamente na Inglaterra e no País de Gales.

Os números impressionaram. Segundo o relatório feito pela Bible Society, a frequência mensal às igrejas teria crescido de 8% para 12% entre 2018 e 2024, passando de 3,7 milhões para 5,8 milhões de pessoas. Na geração Z, entre os jovens de 18 a 24 anos, o salto seria de 4% para 16%; entre os homens dessa faixa, chegaria a 21%.

Veículos de diferentes países repercutiram a notícia como evidência de um renascimento cristão. Nos Estados Unidos, a Bloomberg anunciou que o cristianismo estava “voltando à vida”; no Reino Unido, The Guardian e The Week apresentaram o crescimento como uma mudança geracional. Na Alemanha, o Die Welt incorporou os números a uma reportagem sobre o novo estilo de vida cristão da geração Z. No Brasil, portais voltados ao público evangélico, como Folha Gospel e Guiame, seguiram a mesma linha, usando o relatório para sustentar que o interesse dos jovens pela religião estava crescendo.

O relatório também ofereceu uma gramática estatística às reivindicações religiosas e conservadoras pela recuperação da centralidade cultural do cristianismo na sociedade britânica.

Nove meses depois do imenso barulho internacional quanto ao possível renascimento cristão inglês, está claro que a pesquisa estava completamente equivocada. Em janeiro de 2026, o Pew Research Center comparou seus resultados com as grandes pesquisas probabilísticas britânicas e mostrou que elas continuavam registrando queda tanto na identificação cristã quanto na frequência às igrejas.

A discrepância aumentou o escrutínio sobre o método do relatório. Pouco depois, veio a público que os resultados se baseavam em um painel online de adesão voluntária e que os mecanismos de controle contra respostas fraudulentas não haviam sido aplicados corretamente. No primeiro semestre deste ano, a Bible Society retirou o relatório do ar e reconheceu que seus dados já não podiam sustentar a tese de um renascimento cristão.

O que ocorreu na Inglaterra no ano passado teve roteiro repetido neste ano. No primeiro semestre, jornais de diversos países voltaram a anunciar um suposto retorno do interesse dos jovens pelo cristianismo nos Estados Unidos, especialmente pelo catolicismo. O impulso inicial veio de uma reportagem do New York Times sobre o aumento das conversões em duas dezenas de dioceses americanas, rapidamente reproduzida como sinal de uma retomada religiosa mais ampla.

Mais uma vez, a sedução da tese contraintuitiva fez mais sucesso do que as ponderações estatísticas que vieram na sequência. No balanço acumulado das mudanças de religião, o catolicismo americano perde 8,4 fiéis para cada um que recebe.

O viés da percepção de aumento pode ser um efeito da espetacularização da religião nas redes sociais, alimentada por fotos e relatos a cada novo convertido, enquanto muito menos visibilidade é dada ao abandono da crença daqueles que deixam de se identificar com ela.

Os dados estatísticos mais robustos não mostram tendência de ampliação no número de cristãos nem nos Estados Unidos, tampouco no Reino Unido. A redução da participação cristã ocorre inclusive no Brasil. Apesar da reacomodação interna entre católicos e evangélicos, quando se considera o cristianismo como um bloco, sua presença na população caiu cerca de 12,5 pontos percentuais em quatro décadas.

O dado sociológico que se extrai dos casos é que a prudência estatística não produz o mesmo entusiasmo que o anúncio de uma reviravolta religiosa —e, por isso, é de se esperar que a notícia continue voltando. Ela serve a interesses opostos: aos religiosos, para demonstrar o êxito de sua fé; aos não crentes, para reafirmar o temor de um mundo cada vez mais orientado pela religião.

17 agosto 2026

Gustavo Alonso: A universidade pública brasileira ainda tem pavor do laicismo

No dia 14.8.2026, o historiador Gustavo Alonso, que tem uma coluna semanal na Folha de São Paulo, publicou um artigo criticando o agressivo e piegas clericalismo teológico que ocorre na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), onde ele trabalha. Esse clericalismo, como ele nota, é onipresente no Estado brasileiro, incluindo aí as universidades federais.

Esse artigo é tão mais notável quanto a separação entre os dois poderes não é defendida nem pelas instituições públicas, nem pelas universidades (o que, considerando a agressiva metafísica prevalencente nelas, não é de estranhar), nem pela própria Folha de São Paulo (que prefere a mixórdia de liberalismo com metafísica materialista com metafísica identitária).

O artigo abaixo é bastante informativo do que ocorre. Por outro lado, embora a crítica do autor esteja correta, a concepção que ele esposa de laicidade é a versão vulgar, em que a laicidade é um mero anticlericalismo.

A esse respeito, já apresentamos em inúmeras ocasiões a verdadeira concepção de laicidade, ou melhor, de separação entre os poderes temporal e espiritual, como se pode ver aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui. E também nestes vídeos: aqui e aqui.

Enfim, o artigo de Gustavo Alonso encontra-se reproduzido abaixo. O texto original pode ser lido aqui.

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Imagem de arquivo com a fachada da Faculdade de Direito de Recife - Divulgação.


Gustavo Alonso

Doutor em história, é autor de 'Cowboys do Asfalto: Música Sertaneja e Modernização Brasileira' e 'Simonal: Quem Não Tem Swing Morre com a Boca Cheia de Formiga'

A universidade pública brasileira ainda tem pavor do laicismo

  • Universidade Federal de Pernambuco comemora os seus 199 anos com culto ecumênico
  • Do horóscopo dos calouros aos eventos oficiais da reitoria, a fé e o misticismo continuam a ocupar espaço
  • 14.ago.2026 às 20h10

Neste mês de agosto, a Universidade Federal de Pernambuco comemora 199 anos. A data celebra a fundação da Faculdade de Direito do Recife, em 1827, que mais tarde seria incorporada à UFPE.

É de fato uma data importante que merece ser celebrada, esquentando-se os tamborins para o bicentenário no ano que vem. Entre as diversas comemorações, uma em especial chamou a atenção —a celebração de um culto ecumênico.

Edifício clássico da Faculdade de Direito em Recife com arquitetura neoclássica, janelas altas e detalhes ornamentais. Três pessoas caminham na calçada em frente, árvores pequenas alinham a rua e postes de eletricidade com fios cruzam o céu.

O convite veio por email oficial e também foi postado na página da UFPE no Instagram. O culto aconteceu nesta sexta-feira (14), no auditório da reitoria em Recife, a poucos metros do gabinete do reitor. Contou com a presença de um padre católico, um pastor evangélico, um reverendo anglicano, um babalorixá do candomblé e uma representante espírita.

Sou professor da UFPE há mais de dez anos. Antes disso, cursei graduação, mestrado e doutorado em universidade pública. Também fui professor substituto em instituições superiores públicas no Maranhão, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro. E várias vezes me espantei com a penetração da religião na academia brasileira. Há desde as formas mais ingênuas às mais sofisticadas.

Entre as mais banais, todo ano presencio um fato que sempre me incomoda. Anualmente, há a chegada dos calouros na faculdade onde trabalho e o diretório acadêmico organiza uma apresentação.

Em determinado momento, os veteranos pedem que os calouros se apresentem. A eles são perguntados o nome, a cidade de onde vêm (muitos são de fora) e o signo. Sim, o signo do zodíaco! Trata-se de uma pergunta sem maiores consequências, mas cuja resposta parece ser a mais esperada pelos místicos de plantão. Os calouros são socializados no misticismo desde o primeiro dia.

A partir daí, a cruzada místico-religiosa vai se avolumando. Nos centros de ciências humanas, não é raro encontrar bancas de alunos jogando tarô para quem quiser conhecer seu futuro idealizado.

Além disso, há também as manifestações místico-religiosas legitimadas por discursos acadêmicos. No polo da UFPE em Caruaru, há uma licenciatura indígena. Quando lecionei em outro curso no mesmo horário, alguns semestres atrás, minhas aulas concorriam com os cantos da pajelança e da toré.

São tradições dos povos originários que promovem o culto aos "espíritos encantados" da floresta. A cantoria acontecia no jardim ao lado da sala, em pleno período de aula. Todos eram obrigados a tolerar os cantos e batucadas sob pena de parecerem "intolerantes" à cultura de um povo originário e serem cancelados pelas divindades de plantão.

A crítica aqui não é ao fato de os performantes serem indígenas, mas aos aspectos místico-religiosos da manifestação em terreno universitário. Se fossem senhoras de terço na mão rezando a novena ou muçulmanos fazendo a salah, seria igualmente problemático. Cabe enfatizar que não estou aqui censurando a religião como objeto de estudo, cuja longa tradição ajudou muito a academia, especialmente as ciências humanas.

É bom lembrar que não há apenas manifestações religiosas de nossas esquerdas cirandeiras nos campos de universidades federais. Quem já andou pelos corredores da academia brasileira com certeza já viu um cartaz do Movimento Estudantil Alfa e Ômega, que hoje mudou de nome para Cru Campus.

Trata-se de um ministério cristão interdenominacional voltado para a evangelização e o apoio espiritual de universitários, presente em centenas de instituições de ensino superior pelo Brasil. E tome Jesus na sua vida!

Algumas dessas manifestações podem ser entendidas como privadas. Mas a convocação do reitor para um ato ecumênico em celebração aos 199 anos da universidade está longe de ser algo assim. É a instituição conclamando uma celebração religiosa em terreno público.

Como sabemos, o Estado brasileiro é laico. Isto significa que o governo e as instituições públicas devem manter uma postura de neutralidade e separação em relação às religiões. Um não deve se misturar ao outro.

O fato de o evento ser ecumênico serve de desculpa aos mais ingênuos, pois faz parecer que se trata de uma festa aberta a todos, sem preconceitos. Foram incluídos padres, pastores, reverendos, babalorixás e espíritas. Mas toda escolha envolve exclusões.

A festa da reitoria se esqueceu de judeus, muçulmanos, budistas, juremeiros e tantas outras religiosidades. Por essas e outras, o Estado não deve se meter na fé individual. Quando o faz, alguém sempre acaba sendo excluído. Especialmente os verdadeiramente laicos e aqueles que se identificam com o ateísmo, que se sentem profunda e verdadeiramente ofendidos.

Lutar pela separação de Estado e religião no Brasil é cansativo. Vivemos numa sociedade na qual mesmo aqueles que dizem não crer em nenhuma divindade adotam o esoterismo e se dizem "sem religião, mas com espiritualidade".

No Brasil, até os comunistas ateus constroem igrejas. Brasília foi planejada por um arquiteto comunista, Oscar Niemeyer, que projetou uma catedral na Esplanada dos Ministérios. Nesse sentido, a UFPE não está tão distante do Supremo Tribunal Federal, que tem um crucifixo pendurado a observar as sessões judiciais na capital federal.

Em nosso país, até os mais ilustrados têm dificuldade de entender a ideia da separação de Estado e religião. Espremido entre esquerdas cirandeiras e direitas conservadoras, o laicismo é profunda e raivosamente odiado no Brasil.