Filosofia Social e Positivismo
Este blogue é dedicado a apresentar e a discutir temas de Filosofia Social e Positivismo, o que inclui Sociologia e Política. Bem-vindo e boas leituras; aguardo seus comentários! Meu lattes: http://lattes.cnpq.br/7429958414421167. Pode-se reproduzir livremente as postagens, desde que citada a fonte.
06 março 2026
04 março 2026
A Humanidade como deusa positiva, parte 2
No dia 6 de Aristóteles de 172 (3.3.2026) realizamos nossa prédica positiva, dando continuidade à leitura comentada do Apelo aos conservadores (em sua Segunda Parte - Conduta dos positivistas em relação aos retrógrados).
No sermão demos continuidade e terminamos as exposições sobre a Humanidade como deusa positiva.
A prédica foi transmitida nos canais Positivismo (https://youtube.com/live/pTwa3IJmRpU) e Igreja Positivista Virtual (https://www.facebook.com/IgrejaPositivistaVirtual/videos/1342189837931947/).
As anotações que serviram de base para a exposição encontram-se reproduzidas abaixo.
* * *
A Humanidade como deusa positiva, parte 2
(6 de Aristóteles de 172/3.3.2026)
1. Abertura da prédica
2. Datas e celebrações:
2.1. Dia 6 de Aristóteles (3 de março): transformação de Rosália Boyer (1837 – 189 anos)
2.2. Mês de Aristóteles: terceiro mês do ano, dedicado à filosofia antiga
3. Referência às Auguste Comte Memorial Lectures, sediadas na London School of Economics
3.1. Os comentários foram publicados previamente em https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2026/03/auguste-comte-memorial-lectures.html
3.2.
A famosa London School of Economics (LSE),
em seu Departamentode Filosofia, Lógica e Método Científico promove, de tempos em tempos,
palestras no âmbito das Auguste Comte Memorial Lectures (Palestras
em Memória de Augusto Comte).
3.3.
Como se pode ler
na página desses eventos, essas palestras foram criadas em 1930-1935 pelo Comitê
Positivista Inglês e incorporadas à LSE em 1949; de 1951 até meados dos anos
1980 ocorreram diversas palestras, sofrendo uma interrupção de algumas décadas
até serem retomadas em 2006.
3.4.
Os temas das
palestras nessas três fases (1930-1949; 1951-1980s; 2006-...) indicam com
clareza que, apesar de seu nome apresentar “Augusto Comte” e homenageá-lo, cada
vez menos elas têm qualquer vínculo com o Positivismo, com a Religião da
Humanidade e com Augusto Comte. Os autores que se apresentam no âmbito das Aug.
Comte Memorial Lectures claramente só usam o espaço institucional para
promoverem-se e divulgarem suas idéias; as referências ao Positivismo
são nulas (quando não francamente contrárias a ele, mesmo que de maneira
implícita).
3.5.
Muitas
conferências da segunda fase foram publicadas e tornaram-se famosas, mesmo com
o defeito de ignorarem ou combaterem o Positivismo, como na palestra inaugural,
proferida em 1951 pelo inimigo do Positivismo, o liberal Isaiah Berlin. Por
outro lado, autores simpáticos ao Positivismo e a Augusto Comte também
expuseram suas reflexões, como Raymond Aron, Ronald Fletcher e, até certo
ponto, Morris Ginsberg.
3.6.
Muitas das
palestras da segunda fase foram publicadas, mas de maneira bastante irregular;
com alguma dificuldade, é possível obtê-las em sebos na internet.
3.7.
As conferências
do atual ciclo, iniciado em 2006, não têm nenhum texto disponível - pelo menos,
o Departamento de Filosofia da LSE não faz a menor questão de publicá-los, em
nenhum formato (doc, txt, pdf etc.). O máximo que se pode obter são vídeos das
exposições, a respeito dos quais as pessoas interessadas são convidadas a
transcrever, caso tenham o interesse de lê-las em vez de ouvi-las.
4. Lamento pela guerra EUA/Israel x Irã, iniciada em 3 de Aristóteles de 172 (28.2.2026)
4.1. Nas próximas semanas faremos uma prédica dedicada a esse grave problema
5. Leitura comentada do Apelo aos conservadores
5.1. Antes de mais nada, devemos recordar algumas considerações sobre o Apelo:
5.1.1. O Apelo é um manifesto político e dirige-se não a quaisquer pessoas ou grupos, mas a um grupo específico: são os líderes políticos e industriais que tendem para a defesa da ordem (e que tendem para a defesa da ordem até mesmo devido à sua atuação como líderes políticos e industriais), mas que, ao mesmo tempo, reconhecem a necessidade do progresso (a começar pela república): são esses os “conservadores” a que Augusto Comte apela
5.1.2. O Apelo, portanto, adota uma linguagem e um formato adequados ao público a que se dirige
5.1.3. Empregamos a expressão “líderes industriais” no lugar de “líderes econômicos”, por ser mais específica e mais adequada ao Positivismo: a “sociedade industrial” não se refere às manufaturas, mas à atividade pacífica, construtiva, colaborativa, oposta à guerra
5.2. Outras observações:
5.2.1. Uma versão digitalizada da tradução brasileira desse livro, feita por Miguel Lemos e publicada em 1899, está disponível no Internet Archive: https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores
5.2.2. O capítulo em que estamos é a “Segunda Parte”, cujo subtítulo é “Conduta dos conservadores em relação aos retrógrados”
5.3. Passemos, então, à leitura comentada do Apelo aos conservadores!
6. Exortações
6.1. Sejamos altruístas!
6.2. Façamos orações!
6.3. Como Igreja Positivista Virtual, ministramos os sacramentos positivos a quem tem interesse
6.4. Para apoiar as atividades dos nossos canais e da Igreja Positivista Virtual: façam o Pix da Positividade! (Chave Pix: ApostoladoPositivista@gmail.com)
7. Sermão: a Humanidade como deusa positiva
7.1. Na prédica do dia 13 de Homero (10 de fevereiro) este sermão teve a sua primeira parte, com nosso amigo Hernani Gomes da Costa apresentando suas reflexões sobre o tema
7.1.1. Há alguns meses, para uma pesquisa universitária, nosso jovem correligionário Emerson propôs-nos – a nós e a Hernani – um questionário, em que uma das questões referia-se à eventual existência de alguma noção de “deus” no âmbito do Positivismo
7.1.2. Essa é uma questão interessante, que, apesar dos pesares, não é tão evidente quanto pode parecer à primeira vista
7.1.3. Assim, considerando sua importância, decidimos apresentar publicamente nossa resposta (que, de qualquer maneira, é pública por si só), assim como a do Hernani
7.2. Como a resposta do Hernani foi bastante longa, não expusemos na ocasião (ou seja, no dia 13 de Homero) a nossa própria resposta, deixando-a para um momento posterior
7.3. Passemos, então, à nossa resposta!
Pergunta:
Existe algum conceito semelhante ao conceito de Deus
– como entendido pelos cristãos – na Religião da Humanidade? E a Deusa da
Humanidade?
Resposta:
Parte
1 (resposta dada em 15 e 16 de Moisés de 172 (15-16.janeiro.2026)): resposta básica
à questão acima
As concepções teológicas de religião têm nas divindades um aspecto
central; não se trata aí de mera trivialidade, mas de algo que decorre tanto da
evolução do pensamento humano quanto das características próprias à teologia.
Por um lado, a forma mais espontânea de pensamento, ou melhor, de religião, é o
fetichismo, que atribui vida, vontade e pensamento a todos os corpos, animados
ou inanimados; assim, não somente os animais têm uma humanidade diferente como
também a apresentam os diversos outros corpos (plantas, pedras etc.). Essa
concepção, tão generosa e altruísta, também é absoluta, ou seja, faz questões
irrespondíveis e fornece respostas indiscutíveis. Da generosidade vitalista do
animismo passamos para o politeísmo, que mantém o absolutismo mas tira a vida
dos corpos, que, por sua vez, passam a ser animados exclusivamente por
entidades supraterrenas (os deuses). A retirada dos atributos da animação, da
vontade e dos sentimentos dos vários corpos, operada pelo politeísmo, por si só
torna o mundo “desencantado” (contra a tese de Weber, apesar da sua
exageradamente propalada erudição), embora tenha sido uma etapa necessária do
desenvolvimento humano em geral e, para o entendimento da realidade, tenha sido
necessária como etapa para o desenvolvimento do pensamento científico. Em todo
caso, os deuses politeístas correspondem a um processo de abstração no grande
esforço de entendimento do mundo, em que a apreciação dos corpos cede lugar
para a apreciação dos fenômenos – e, aí, os fenômenos continuam sendo
explicados pelo tipo humano, isto é, via antropocentrismo (como era no
fetichismo). Os deuses politeístas regularam o mundo durante séculos, seja
durante as teocracias antigas, com o politeísmo conservador, seja com as
rupturas guerreiras, dos politeísmos progressistas; para Augusto Comte, a
verdadeira teologia é politeísta, tanto devido à sua duração quanto devido à
coerência e aos serviços prestados por ela à Humanidade.
Os monoteísmos correspondem apenas à concentração dos atributos dos
antigos deuses em novas divindades, sem que tenha cessado de haver, de fato,
politeísmos (basta pensar nos anjos e nos santos): Augusto Comte fala
efetivamente em “concentração monoteísta”. Mas, enquanto as divindades
politeístas explicavam os fenômenos naturais e humanos sendo, elas mesmas,
apenas tipos humanos superlativos, as divindades monoteístas concentram em si
muitos atributos, rompendo totalmente os vínculos com o ser humano (na verdade,
com freqüência o desprezando, como disse de maneira muito clara e brutal Tomás
de Kempis n’A imitação de Cristo). A
dispersão politeísta mantinha divindades com comportamentos imorais e
irracionais, como as famosas transformações de Zeus em touro, cisne e chuva de
ouro para suas conquistas românticas; apesar disso, a coerência moral
fundamental desses tipos mantinha-se: por exemplo, os corruptos eram sempre
corruptos e só deixavam de sê-lo por meio de longos e árduos processos; em todo
caso, as limitações e os defeitos humanos eram vistos com honestidade nessas
divindades.
O mesmo não se dá com as divindades monoteístas, cujos atributos são
incoerentes entre si e irracionais e imorais em face da realidade e do ser
humano. As afirmadas onisciência, onibondade e onipotência são incoerentes
entre si: um ser todo poderoso não precisa da onisciência e, inversamente, a
onisciência não precisa da onipotência; a onibondade é incompatível com a
maldade e a injustiça do mundo e, portanto, é incompatível com a onisciência.
Dessa forma, no caso dos monoteísmos um traço do politeísmo torna-se muito mais
saliente: o caráter caprichoso, imaturo, adolescente da divindade, que faz o
que quer, do jeito que quer, quando quer, por que quer: o Antigo Testamento
(mas também o Novo Testamento e, claro, o Corão!) é a indicação gritante desses
caprichos imaturos. Uma divindade caprichosa e imatura não é nem onibondosa,
nem onisciente, embora possa ser, sempre, onipotente. Essas irracionalidades
imorais, que são chocantes para qualquer pessoa que reflita a respeito, são
ignoradas, por um lado, devido ao caráter absoluto dessas concepções, que
repele, por vezes de maneira agressiva, qualquer discussão séria a respeito e,
por outro lado, devido às necessidades sociais, que silenciam os
questionamentos.
Fiz essa digressão introdutória para indicar que o modelo católico de
divindade é muito restrito e enviesado; o entendimento da Humanidade a partir
dele acaba empobrecendo a verdadeira deusa.
No Catecismo positivista e
nas demais obras religiosas (Sistema de política positiva, Apelo aos conservadores, Síntese subjetiva e mesmo o Discurso sobre o conjunto do Positivismo) Augusto Comte fala na Humanidade como “nossa
deusa”. Mas esse conceito de deusa, como todas as demais noções do Positivismo,
não pode ser assimilado ao conceito teológico de divindade! As concepções teológicas são absolutas e, portanto,
indiscutíveis; elas formulam questões e oferecem respostas que a positividade
deixa de lado, abandona ou simplesmente rejeita; o conceito monoteísta de
divindade consiste em um ser caprichoso, incoerente e imoral: tudo isso é o oposto da Humanidade.
A Humanidade é o ser supremo; ela é “suprema” porque é superior a cada
ser humano individual e porque cada ser humano individual deve tudo, tudo, a
ela. Entretanto, a Humanidade deve ser entendida de maneira relativa, o que
significa que ela, sim, corresponde à bela descrição fornecida por Dante na Comédia: a Humanidade é “filha de seu filho”, ou
seja, para existir ela depende do ser humano, que, por sua vez, só existe
devido a ela. Trata-se, portanto, de um belo e impressionante círculo virtuoso.
Dessa forma, ela não é unitária, mas composta e, portanto, depende dos seres
humanos vivos para realizar-se, manter-se, desenvolver-se e exercer seus
efeitos. Sendo composta e dependente de seus filhos, ela não é onipotente, nem
onisciente, embora aproxime-se ao máximo da onibondade. Desenvolvendo-se ao
longo do tempo (conforme as três leis dos três estados[1]), ela é a verdadeira
providência humana, fornecendo-nos os sentimentos, as concepções e os materiais
com que vivemos e progredimos.
A Humanidade é o Grande Ser, é o Ser Supremo; ainda assim, ela não
existe no vácuo e não surgiu do nada. Vale notar que a Humanidade, sendo
composta pelos seres humanos, tendo uma realidade histórica, é tanto objetiva
quanto subjetiva, é tanto uma realidade concreta quanto uma idealização
abstrata (afetiva, intelectual e artística). Dito isso, respeitando e
recuperando o fetichismo inicial, a Humanidade estabelece o neofetichismo, ou
seja, o fetichismo positivado, sem o absolutismo inicial nem o culto aos
materiais. Com o neofetichismo, a Humanidade estabelece a Trindade Positiva,
que é composta pelo Grande Meio (o
Espaço, abstrato, infinitamente plástico, dotado de sentimentos, onde os
fenômenos abstratos e as leis naturais têm lugar), pelo Grande Fetiche (a Terra, com um caráter concreto, dotada
de sentimentos e atividade, abrangendo o Sol, a Lua e os planetas interiores,
bem como o planeta Terra em si, com sua base geológica, a fauna e a flora) e
pelo Grande Ser (a própria
Humanidade, dotada de sentimentos, atividade e inteligência, presidindo – mas
não de maneira voluntarista, caprichosa nem pretensamente onipotente ou
onisciente – a Trindade Positiva e com os atributos que estamos vendo). A noção
de Trindade Positiva completa a de Humanidade a partir do neofetichismo; com
ela as falhas intelectuais e morais do materialismo (que é uma forma de
metafísica) são ultrapassadas, sem que recaiamos nos vícios do misticismo (e/ou
da teologia em geral). Os benefícios e as qualidades da concepção de Trindade
Positiva são inúmeros, mas aqui nos limitamos a indicar que ela põe por terra a
tola, limitada e enviesada (pois teológica) concepção weberiana de “desencantamento
do mundo”.
A Humanidade, portanto, é uma deusa; mas é uma deusa porque é o ser
supremo, ou ser superior, que corresponde à nossa verdadeira providência e que,
por isso, é nosso objeto de culto, nossa orientação na vida e a fornecedora da
nossa moralidade. Tudo isso deve ser entendido com simpatia, com altruísmo e,
acima de tudo, com relativismo. Cumpre enfatizar: os aspectos intelectuais da
questão (o relativismo, mas, antes, também a realidade, a utilidade, a
organicidade[2])
têm que ser entendidos de maneira intimamente vinculada aos aspectos afetivos
(a simpatia, o altruísmo e mesmo a confiança e a esperança no ser humano); de
certa maneira, pode-se dizer que se trata de uma pequena mas necessária, salutar
e intencional ingenuidade.
Um último aspecto é o caráter feminino, necessariamente feminino, da
Humanidade. Contra a atual raivosa metafísica identitária do feminismo, o
caráter feminino da Humanidade é uma característica positiva, que cabe apenas
às mulheres, em contraposição aos homens. Além disso, a representação artística
da Humanidade tem que a indicar sempre com um filho recém-nascido no colo:
trata-se da Humanidade cuidando do futuro.
A partir de todos esses comentários, podemos finalmente responder à
questão formulada inicialmente: a deusa Humanidade tem alguma coisa a ver com a
divindade cristã? Não, nada. Dizer
que são semelhantes ou que a Humanidade é uma versão positivista da divindade
cristã porque são “seres supremos” é muito pouco – tão pouco que não quer dizer
nada. O que se deve notar e que procuramos caracterizar acima é que não se
trata de versão “positivista” (o que no presente caso consiste em uma
perspectiva bastante superficial e reducionista, na medida em que apenas insere
um rótulo em vez de considerar o conteúdo da noção), mas, considerando de
maneira cuidadosa e atenta o que foi dito acima, trata-se de um conceito
positivo e positivado das concepções teológicas, que foram nossas predecessoras necessárias.
Certamente a Humanidade inspirou-se e, do ponto de vista histórico, foi
preparada e precedida pela divindade cristã; mas, novamente, isso é muito
pouco; é como dizer que os contemporâneos carros elétricos foram precedidos
pelas carroças de boi e que, portanto, esses dois veículos são mais ou menos a
mesma coisa. Isso é importante de afirmar devido às confusões e às desinformações
não apenas dos teológicos (católicos, protestantes, evangélicos) mas também dos
metafísicos (liberais e ateus, sejam eles apenas ateus, sejam eles marxistas),
que fazem questão de desprezar a Humanidade a partir da ignorância, de uma
impressionante má fé e, claro, de comparações escandalosamente superficiais e
formalistas.
Parte
2 (resposta dada em 12 de Homero de 172/9.2.2026)): complemento à resposta inicial
No Discurso sobre o conjunto do
Positivismo vemos indicações claras e
importantes de alguns aspectos do que estamos comentando: o emprego das
expressões “Religião da Humanidade” e da Humanidade como “nossa deusa”. Nosso
mestre emprega essas expressões com desassombro, sem se preocupar em
justificá-las particularmente; aliás, até onde sei, nem mesmo Teixeira Mendes
ou Miguel Lemos preocuparam-se com isso. No Catecismo positivista percebemos o mesmo. Em face das reflexões
filosóficas, sociológicas e morais presentes nessas duas obras e em inúmeras
outras e considerando que a coerência é uma característica explícita (e implícita!)
do Positivismo, impõe-se a noção específica de “deusa positiva”, conforme
sugerimos explicitar aqui. Aliás, como nosso próprio mestre indica (Política, v. IV, Prefácio, p. XIII), a expressão “Religião
da Humanidade” foi sugerida antes de mais nada pelos proletários parisienses
que acompanhavam seu curso filosófico de história da Humanidade; esses
proletários, além disso, eram emancipados da teologia (seja espontaneamente,
por si sós, seja sistematicamente, a partir das lições do Positivismo). Essa indicação
é importante para evidenciar que a Religião da Humanidade foi uma inspiração
popular espontânea e não, ao contrário dos odiosos mitos academicistas, uma
divagação desordenada de nosso mestre.
Mas o que é a “deusa positiva”? Em face das
necessárias e reiteradas críticas de nosso mestre à teologia – críticas sempre
reafirmadas de maneira sistemática –, como é possível falarmos, sem
incoerência, em “deusa”? Além disso, como lidamos com o ateísmo?
Antes de mais nada, a Humanidade é nossa
deusa porque ela é ao mesmo tempo um ser superior e um objeto de adoração,
dois aspectos intimamente vinculados. A esse respeito, em primeiro lugar, temos
que lembrar que, embora a noção de Humanidade seja abstrata, ela em si mesma é
bastante real; aliás, a noção de Humanidade pode ser abstrata, mas sua
realidade implica sua concretude, sua existência “física”. Sua superioridade em
relação a cada um dos indivíduos e, bem vistas as coisas, sua superioridade em
relação às famílias e às pátrias é uma questão de fato, é uma realidade que se
evidencia quando se considera com clareza a existência sociológica e histórica
do ser humano. Não somos nada sozinhos; para sermos qualquer coisa precisamos
sempre e necessariamente dos outros. Até mais do que isso: como Augusto Comte
lembrava, a existência atual da Humanidade, no presente, submete-se à
existência ao longo da história, do passado e do futuro. Se não somos nada
sozinhos, precisamos ainda mais daqueles outros que vieram antes de nós,
incluindo todos aqueles que vieram décadas, séculos, milênios antes de nós, e
mesmo aqueles que virão depois de nós. É por isso que nosso mestre afirmava que
a lei fundamental da existência humana consiste em que os vivos são sempre e
cada vez mais, necessariamente, governados pelos mortos.
Nós vivemos pela Humanidade: recebemos tudo
dela e nossos esforços são sempre orientados em seu benefício (quer queiramos,
quer não queiramos); além disso, nossa felicidade está sempre vinculada ao
serviço e ao amor dedicado à Humanidade, isto é, ao altruísmo, à generosidade
etc. – serviço e amor prestado às nossas famílias, às nossas pátrias, aos
nossos concidadãos, aos nossos irmãos na Humanidade etc. Assim, a superioridade
da Humanidade é ao mesmo tempo dependente da nossa atividade (ativa e passiva),
em que se verifica o belo verso de Dante: ela é “filha de seu filho”.
A afirmação de que recebemos tudo da
Humanidade tem que ser entendida de maneira radical, pois incluímos aí não
somente alimentos, conhecimentos, família etc., mas também pertencimento e
destinação: tudo isso é o que constitui, no final das contas, a felicidade. A
superioridade da Humanidade não é nem uma existência alheia a cada um de nós,
que no final das contas desprezar-nos-ia, nem uma existência que se impõe sobre
nós de maneira opressiva: ela impõe-se sobre nós e exige nossa dedicação; mas,
inversamente, tal dedicação precisa ser voluntária, a fim de garantir-se a
dignidade, a felicidade e mesmo a eficácia das ações.
Em face dessas características, a adoração
devida à Humanidade não é mística, não é um incoerente retorno a alguma forma
de teologia: essa adoração é pura e simplesmente a gratidão que reconhecemos e
devemos à Humanidade. A devoção é um traço comum aos seres humanos; ele implica
o reconhecimento simultâneo (1) de que cada um de nós não vive e não existe
sozinho, (2) de que existe efetivamente um ser superior a nós, a que devemos
gratidão, (3) de que somos extremamente imperfeitos e que a base de qualquer
aperfeiçoamento é sempre a submissão. Exceto as pessoas anormalmente egoístas,
todos e cada um de nós submete-se aos outros, especialmente em termos
subjetivos, ou seja, aos que já morreram e/ou aos que são fracos e precisam de
nossa ajuda. Mais uma vez: nesses termos, a devoção à Humanidade não tem nada
de excepcional; ela só parece estranha (1) porque de modo geral se considera
que apenas as divindades teológicas merecem devoção e (2) porque os hábitos
mentais materialistas e ateus consideram que a devoção é um sinal de
ignorância, de fanatismo e/ou de espírito de manada –, (3) porque se considera
que o Positivismo seria meramente um cientificismo e (4) porque a mentalidade
academicista é profundamente hipócrita a respeito (ao enaltecer as ficções
teológicas, mas desprezar a elaboração positiva).
A noção de “deusa positiva”, assim, surge
com clareza, como um exemplo adicional de positivação de conceitos, da mesma
forma que o ocorrido com “religião”, “culto”, “dogma” e “sermão”. A confusão
com as divindades teológicas tem, portanto, um aspecto puramente terminológico,
ainda que isso se fundamente em profundas diferenças filosóficas, morais,
históricas e científicas. Contudo, há um outro aspecto que podemos explorar: o caráter
ficcional das divindades teológicas.
A realidade da Humanidade é um seu traço
fundamental. Só isso já bastaria para distingui-la das divindades teológicas,
que são fictícias. Ocorre que, à medida que se desenvolviam as reflexões de
nosso mestre sobre realidade, utilidade e relativismo das nossas concepções –
incluindo aí mesmo as concepções artísticas e científicas –, ele percebeu que
as idéias podem ser úteis – em termos morais, intelectuais, práticos – mesmo
quando elas não se referem rigorosamente à realidade. As ficções teológicas são
um exemplo perfeito disso: elas são ficções, mas durante séculos, ou melhor, durante
milênios elas tiveram uma alta eficácia. Com mais forte razão podemos dizer o
mesmo a respeito de concepções estéticas e científicas: as leis naturais são
sempre abstrações aproximativas, que correspondem mais ou menos bem à realidade
mas que, de qualquer maneira, baseiam-se nas sensações humanas e correspondem
às necessidades humanas (ou seja, elas são relativas). As elaborações
estéticas, por seu turno, são assumidamente ficcionais; ou melhor, de modo
geral nem se põe em questão sua “realidade”: mas, ainda assim, como todos
sabemos, elas são extrema e profundamente eficazes.
Disso tudo resulta que podemos elaborar
ficções cuja utilidade é o mais importante, em termos afetivos, intelectuais e
práticos; a fim de que tais ficções não descambem para o absoluto, elas devem
seguir as leis naturais ou, pelo menos, não podem ser incompatíveis com as leis
naturais. Essas ficções foram denominadas por Augusto Comte de “ficções
científicas”: ao contrário do gênero literário e cinematográfico que, apresentando
meramente ficções ultratecnológicas e futuristas equivocamente chamadas de
ficções científicas, a proposta de Augusto Comte corresponde a elaborações que,
não necessariamente correspondendo à exata realidade, a partir do relativismo e
da síntese subjetiva são ainda assim instrumentos de profunda utilidade para
nossa existência. A bem da verdade, em toda a sua obra nosso mestre empregou as
ficções científicas; a inovação característica de sua fase final, presente na Síntese
subjetiva, corresponde ao reconhecimento
explícito, à sistematização e à radical generalização desse procedimento.
Em face das ficções científicas, como lidar
não com a deusa positiva, que é a Humanidade, mas com as divindades teológicas?
Ora, as ficções teológicas são absolutas, ou seja, não positivas: ainda que sua
utilidade passada seja indiscutível, a par de seu absolutismo seus atributos
são irracionais e incompatíveis com as leis naturais e, portanto, elas são
inaceitáveis para o ser humano, ou melhor, para a Humanidade.
O último aspecto que devemos considerar é a
respeito do materialismo e do ateísmo. Na verdade, devemos tratar do ateísmo
como decorrência da questão que ora respondemos, a respeito da noção da
Humanidade como deusa. Em uma perspectiva formalista, poderíamos dizer que o Positivismo
não é ateu porque a Humanidade é uma “deusa” (positiva). Essa perspectiva,
entretanto, tem o grave defeito de ser superficial e meramente lingüística,
deixando de lado todas as reflexões que fizemos acima. De fato, o Positivismo
não é ateu, mas não porque a Humanidade é a nossa deusa; nós não somos ateus
devido às características próprias ao ateísmo.
O ateísmo, de maneira muito intensa, é uma
postura essencialmente negativa, ou melhor, negadora; sua principal preocupação
é negar as divindades. (Aliás, sua negação dirige-se contra as divindades
teológicas, mas, como veremos, com facilidade e quase de maneira contínua ele
dirige-se contra o Positivismo.) Sua definição etimológica é bastante
apropriada: ele afirma o “não-deus”. As incoerências, os erros, a falta de
realismo, bem como as imoralidades próprias às concepções teológicas: tudo isso
mais que justifica o impulso negador do ateísmo. Entretanto, essa negação
sistemática, se por um lado de maneira correta estabelece o caráter plenamente
ficcional da teologia, ela também com freqüência ignora os serviços históricos
desempenhados por essas divindades, da mesma forma que, antes, ignora os traços
morais e intelectuais da natureza humana que conduziram ao longo do tempo à
elaboração de tais ficções. Além disso, afirmando a razão individual contra a
sabedoria coletiva, o ateísmo com freqüência ainda maior consagra o
individualismo, seja na sua forma intelectual (do solipsismo), seja na sua
modalidade moral, do egoísmo. Em outras palavras, a negação atéia é
anti-histórica, antissociológica e, por assim dizer, “antimoral”.
Esses vários defeitos científicos e morais
são bastante graves por si sós, mas eles não esgotam o problema. Embora o
ateísmo consista na negação da teologia, ele mantém-se na órbita moral e
intelectual da teologia, de tal sorte que ele reduz-se à mera negação
sistemática, sem procurar ultrapassar a teologia. A permanência na órbita
teológica consiste em o ateísmo manter-se no âmbito do absolutismo e em
rejeitar o relativismo, de tal sorte que mantém as perguntas absolutas – de
onde viemos, para onde vamos, qual a natureza do ser? –, mas rejeitando as
únicas soluções que tais perguntas realmente aceitam. Se o ateísmo não fosse
apenas mera negação da teologia, ele assumiria que a rejeição da teologia é um
passo necessário, mas totalmente insuficiente e, a partir daí, seguiria em
direção à afirmação do ser humano e do relativismo, ou seja, do humanismo, da
positividade... em outras palavras, do Positivismo e da Religião da Humanidade.
Dito de outra forma, o Positivismo consiste na sistematização do movimento que
ultrapassa a negação atéia, ao passo que o ateísmo é a perspectiva e o
comportamento que se aferram, infantilmente, à negação da teologia.
Não é difícil vermos exemplos cotidianos desse
empacamento próprio ao ateísmo. Como se sabe, os Estados Unidos são um país
profundamente cristão: lá, de maneira característica, a negação da teologia,
seja ela atéia, seja ela (assumidamente) teológica, resulta sempre na
reafirmação da própria teologia. O romancista russo do século XIX, Dostoiévski,
dizia que “se deus não existe, tudo é permitido”: essa frase, que embora seja
em si mesma teológica, resume de maneira bastante clara a mentalidade na qual
se mantém o ateísmo, ao manter como referência de reflexão a teologia. O
humanismo positivista, em contraposição, afirma que “extinto deus, e os deuses,
sucedem-lhe a Humanidade” (a frase original está em latim, mas não a localizei
para este comentário).
O último aspecto que, pelo menos para esta
resposta, devemos indicar a respeito do ateísmo é sua vinculação com o
materialismo. Vincular o ateísmo ao materialismo já sugere que este último
também se mantém no âmbito do absolutismo; aliás, não por acaso ele é uma forma
de metafísica, a metafísica reducionista, que afirma que todos os fenômenos
superiores são sempre e necessariamente redutíveis aos inferiores. Na medida em
que o ateísmo nega a teologia, o materialismo é uma perspectiva natural e
necessária; da mesma forma, ele é natural e necessário na constituição das
várias ciências fundamentais. A metafísica em si mesma é uma etapa natural no
desenvolvimento humano; doisde seus defeitos, próprios aliás ao seu caráter absoluto, consistem em (1) raciocinar
a partir das exceções (ou seja, negar toda regra e/ou generalizar a partir de
casos particulares) e em (2) pretender que soluções temporárias podem e devem
ser permanentes. Assim, o ateísmo é pura negação da teologia, sem avançar para
o humanismo; já o materialismo é reducionista, seja para afirmar o naturalismo
antiteológico, seja para negar a particularidade de cada ciência fundamental.
Afirmamos antes que o ateísmo, mantendo-se negador da teologia, logo estende
seu negativismo para o Positivismo e para a Religião da Humanidade, negando sua
validade, sua legitimidade, sua utilidade: essa negação também se baseia no
materialismo, que rejeita a realidade histórica, sociológica e moral do ser
humano.
7.4. Os comentários acima terminaram de maneira um tanto súbita porque foram a resposta para uma das perguntas de um questionário escrito
7.5. Devemos notar, de qualquer maneira, que nossas respostas diferem em vários aspectos daquela fornecida por nosso amigo Hernani em suaexposição do dia 13 de Homero de 172 (10.2.2026) porque, sendo pessoas diferentes, temos sensibilidades diferentes: mas as diferenças entre as respostas correspondem apenas a diferenças de sensibilidade; no grosso essas respostas são necessariamente convergentes e complementares
7.5.1. De modo específico, importa recuperarmos uma observação feita por Hernani: a Humanidade como deusa positiva não é “como se fosse uma deusa”: ela é efetivamente uma divindade positiva; o que se deve ter em mente, de maneira radical, é que a concepção dessa divindade é uma concepção positiva, relativista, humanista e não uma concepção absoluta, teológica, supraterrena, mística
8. Término da prédica
Referências
- Auguste Comte (franc.), Síntese subjetiva (Paris, Exécution Téstamentaire d’Auguste Comte, 2ª ed., 1900): https://archive.org/details/lasynthsesubjec00comtgoog.
- Augusto Comte (franc.), Discurso sobre o conjunto do Positivismo, in: Sistema de política positiva (Paris. J.-B. Baillière, 4ª ed., 1880): https://archive.org/details/systmedepoliti01comt.
- Augusto Comte (franc.), Sistema de filosofia positiva (Paris, Société Positiviste, 5e ed., 1893).
- Augusto Comte (port.), Apelo aos conservadores (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores.
- Augusto Comte (port.), Catecismo positivista (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 4ª ed., 1934).
- Luís Lagarrigue (esp.), A poesia positivista (Santiago do Chile, 1890): https://archive.org/details/luis-lagarrigue-a-poesia-positivista-1890_202509.
- Raimundo Teixeira Mendes (port.), As últimas concepções de Augusto Comte (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-i e https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-ii.
- Raimundo Teixeira Mendes (port.), O ano sem par (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1900): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-o-ano-sem-par-portug._202312/page/n7/mode/2up.
a d a
Questionário enviado pelo Emerson
1) Fale-me sobre você, onde nasceu, onde vive atualmente, sua formação e profissão etc.
2) Como você conheceu a Religião da Humanidade?
3) Como é sua relação diária com a religião? Existe culto privado e/ou público?
4) Existe algum conceito semelhante ao conceito de Deus – como entendido pelos cristãos – na Religião da Humanidade? E a Deusa da Humanidade?
5) Os positivistas oram? Por que e por quem os positivistas oram?
6) O que acontece quando um positivista morre? Existe reencarnação, céu e inferno?
7) Como funciona o casamento na Religião da Humanidade?
8) O proselitismo é bem visto na Religião da Humanidade?
9) Aprendemos nas escolas que o Positivismo foi muito influente no início da República brasileira. Qual é a maior contribuição do Positivismo para o Brasil?
10) Que mensagem você gostaria de deixar para aqueles que não conhecem a Religião da Humanidade?
[1] Os manuais vulgares de filosofia, sociologia e história costumam registrar a respeito do Positivismo apenas a lei dos três estados – e, na verdade, apenas a lei intelectual dos três estados. As três leis, uma para cada aspecto da natureza humana (afetivo, intelectual e prático), são estas (cf. Augusto Comte, Catecismo positivista, 4ª ed., Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1934, p. 479 – https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2025/08/o-inicio-do-positivismo-as-tres-leis.html):
- lei intelectual: toda concepção passa por três estados sucessivos, teológico, metafísico e positivo, com uma velocidade proporcional à generalidade dos fenômenos correspondentes
- lei prática: a atividade humana é sucessivamente militar conquistadora, depois militar defensiva e por fim pacífico-industrial
- lei afetiva: a sociabilidade humana é sucessivamente doméstica, depois cívica e enfim universal, seguindo a natureza de cada um dos três instintos simpáticos [veneração, apego e bondade].
À lei intelectual ajunta-se a lei da
classificação das ciências, que é tanto uma aplicação específica da lei
intelectual quanto uma exposição geral e abstrata dos fenômenos do mundo, bem
como da ordem de subordinação (objetiva e subjetiva) dos fenômenos entre si.
[2] No Apelo aos conservadores (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1899, p. 25 –https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores), Augusto Comte define a palavra “positivo” com sete atributos: real, útil, certo, preciso, relativo, orgânico e simpático.
02 março 2026
Auguste Comte Memorial Lectures
A famosa London School of Economics (LSE), em seu Departamento de Filosofia, Lógica e Método Científico promove, de tempos em tempos, palestras no âmbito das Auguste Comte Memorial Lectures (Palestras em Memória de Augusto Comte).
Como se pode ler na página desses eventos, essas palestras foram criadas em 1930-1935 pelo Comitê Positivista Inglês e incorporadas à LSE em 1949; de 1951 até meados dos anos 1980 ocorreram diversas palestras, sofrendo uma interrupção de algumas décadas até serem retomadas em 2006.
Os temas das palestras nessas três fases (1930-1949; 1951-1980s; 2006-...) indicam com clareza que, apesar de seu nome apresentar "Augusto Comte" e homenageá-lo, cada vez menos elas têm qualquer vínculo com o Positivismo, com a Religião da Humanidade e com Augusto Comte. Os autores que se apresentam no âmbito das Aug. Comte Memorial Lectures claramente só usam o espaço institucional para promoverem-se e divulgarem suas idéias; as referências ao Positivismo são nulas (quando não francamente contrárias a ele, mesmo que de maneira implícita).
Muitas conferências da segunda fase foram publicadas e tornaram-se famosas, mesmo com o defeito de ignorarem ou combaterem o Positivismo, como na palestra inaugural, proferida em 1951 pelo inimigo do Positivismo, o liberal Isaiah Berlin. Por outro lado, autores simpáticos ao Positivismo e a Augusto Comte também expuseram suas reflexões, como Raymond Aron, Ronald Fletcher e, até certo ponto, Morris Ginsberg.
Muitas das palestras da segunda fase foram publicadas, mas de maneira bastante irregular; com alguma dificuldade, é possível obtê-las em sebos na internet.
As conferências do atual ciclo, iniciado em 2006, não têm nenhum texto disponível - pelo menos, o Departamento de Filosofia da LSE não faz a menor questão de publicá-los, em nenhum formato (doc, txt, pdf etc.). O máximo que se pode obter são vídeos das exposições, a respeito dos quais as pessoas interessadas são convidadas a transcrever, caso tenham o interesse de lê-las em vez de ouvi-las.
Documentos sobre bandeira nacional, sociologia, humanismo
Estão disponíveis no repositório eletrônico Internet Archive documentos sobre vários temas: ciência, a bandeira nacional, Augusto Comte, Positivismo e Religião da Humanidade, poder Espiritual, humanismo, sociologia.
A. J. Ayer: O homem como objeto da ciência (6ª Auguste Comte Memorial Lecture, 1964): https://archive.org/details/a.-j.-ayer-o-homem-como-objeto-da-ciencia-6a-aug.-comte-memorial-lecture-1964
Américo Brasílio Silvado: A bandeira da República (1933): https://archive.org/details/americo-brasilio-silvado-bandeira-da-republica
Edgard Proença Rosa: As grandes concepções de Augusto Comte (1954): https://archive.org/details/edgard-r.-proenca-rosa-grandes-concepcoes-de-aug.-comte-1954
H. B. Acton: A idéia de um poder espiritual (10ª Auguste Comte Memorial Lecture, 1974): https://archive.org/details/h.-b.-acton-a-ideia-de-um-poder-espiritual-10a-aug.-comte-memorial-lecture-1974
Manifestos humanistas (1979): https://archive.org/details/manifestos-humanistas-1979
Ronald Fletcher: "Alguns erros de avaliação" (in: The Making of Sociology, v. 2, 1971): https://archive.org/details/ronald-fletcher-erros-de-avaliacao-sobre-a-sociologia
28 fevereiro 2026
I Seminário internacional de história, editoração e ensino nas ciências sociais
Entre os dias 18 e 26 de junho ocorrerá na Universidade Federal de Ouro Preto o "I Seminário internacional de história, editoração e ensino nas ciências sociais", com participações à distância e presenciais.
A partir do gentil convite da Profª Fernanda Henrique C. Alcântara, nós teremos a oportunidade e a felicidade de participar já no dia 18, a partir das 18h, em versão à distância, com a exposição "A atualidade da Sociologia de Augusto Comte, o fundador".
A inscrição é gratuita e pode ser feita diretamente na página do evento, aqui: https://doity.com.br/sihee-cso.
25 fevereiro 2026
Alguns conceitos políticos
No dia 27 de Homero de 172 (24.2.2026) realizamos nossa prédica positiva, dando continuidade à leitura comentada do Apelo aos conservadores (em sua Segunda Parte - Atitude dos positivistas em relação aos teológicos).
No sermão apresentamos as definições de alguns conceitos políticos básicos, a partir da teoria política contemporânea e também a partir do Positivismo.
A prédica foi transmitida nos canais Positivismo (https://youtube.com/live/C49sjxaxtnk) e Igreja Positivista Virtual (https://www.facebook.com/IgrejaPositivistaVirtual/videos/1526495038448234/).
As anotações que serviram de base para a exposição oral encontram-se reproduzidas abaixo.
* * *
Alguns conceitos elementares de política
(27 de Homero de 172/24.2.2026)
1. Abertura da prédica
2. Datas e celebrações:
2.1. Dia 20 de Homero (17 de fevereiro): nascimento de Agliberto Xavier (1869 – 157 anos)
2.2. Dia 20 de Homero (17 de fevereiro): transformação de Paulo Carneiro (1982 – 44 anos)
2.3. Dia 24 de Homero (21 de fevereiro): nascimento de Pierre Laffitte (1823 – 203 anos)
2.4. Dia 27 de Homero (24 de fevereiro): nascimento de Teófilo Braga (1843 – 183 anos)
2.5. Dia 27 de Homero (24 de fevereiro): promulgação da Constituição Federal Republicana, de 1891 (135 anos)
2.6. Dia 27 de Homero (24 de fevereiro): invasão russa sobre a Ucrânia (2022 – 4 anos)
3. Leitura comentada do Apelo aos conservadores
3.1. Antes de mais nada, devemos recordar algumas considerações sobre o Apelo:
3.1.1. O Apelo é um manifesto político e dirige-se não a quaisquer pessoas ou grupos, mas a um grupo específico: são os líderes políticos e industriais que tendem para a defesa da ordem (e que tendem para a defesa da ordem até mesmo devido à sua atuação como líderes políticos e industriais), mas que, ao mesmo tempo, reconhecem a necessidade do progresso (a começar pela república): são esses os “conservadores” a que Augusto Comte apela
3.1.2. O Apelo, portanto, adota uma linguagem e um formato adequados ao público a que se dirige
3.1.3. Empregamos a expressão “líderes industriais” no lugar de “líderes econômicos”, por ser mais específica e mais adequada ao Positivismo: a “sociedade industrial” não se refere às manufaturas, mas à atividade pacífica, construtiva, colaborativa, oposta à guerra
3.2. Outras observações:
3.2.1. Uma versão digitalizada da tradução brasileira desse livro, feita por Miguel Lemos e publicada em 1899, está disponível no Internet Archive: https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores
3.2.2. O capítulo em que estamos é a “Segunda Parte”, cujo subtítulo é “Conduta dos conservadores em relação aos retrógrados”
3.3. Passemos, então, à leitura comentada do Apelo aos conservadores!
4. Exortações
4.1. Sejamos altruístas!
4.2. Façamos orações!
4.3. Como Igreja Positivista Virtual, ministramos os sacramentos positivos a quem tem interesse
4.4. Para apoiar as atividades dos nossos canais e da Igreja Positivista Virtual: façam o Pix da Positividade! (Chave Pix: ApostoladoPositivista@gmail.com)
5. Alguns conceitos elementares de política
5.1. O sermão de hoje abordará um conjunto de temas que pode e deve interessar a maior parte das pessoas: trataremos de alguns conceitos políticos básicos
5.1.1. Esse tema foi sugestão de nosso amigo Hernani, que, em conversa com sua esposa, Sandra, procurou fazer privadamente um recenseamento básico dessas questões e, depois, sugeriu que nós abordássemos
5.2. Como apresentaremos vários conceitos, nossa exposição assumirá um pouco o aspecto de um glossário, isto é, de uma relação mais ou menos sistemática de temas
5.2.1. Para diminuirmos esse aspecto de glossário – que será um pouco fatal, mas que não deixa de ser um pouco ruim –, faremos uma introdução geral à questão
5.2.2. Essa introdução geral terá o duplo objetivo (1) de contextualizar os conceitos e (2) de orientar a sua interpretação positiva, ou seja, como é que esses conceitos todos podem ser entendidos de maneira positiva, não metafísica (e não teológica)
5.2.3. Muitos dos comentários abaixo basear-se-ão em obras positivistas; além disso, muitas reflexões estão presentes em alguns de nossos livros:
- Augusto Comte (franc.), Sistema de filosofia positiva (Paris, Société Positiviste, 5e ed., 1893).
- Augusto Comte (franc.), Sistema de política positiva (Paris, Société Positiviste, 4e ed., 1929).
- Augusto Comte (port.), Apelo aos conservadores (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores.
- Augusto Comte (port.), Catecismo positivista (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 4ª ed., 1934).
- Gustavo Biscaia de Lacerda (port.), Comtianas brasileiras (Curitiba, Appris, 2018)
- Gustavo Biscaia de Lacerda (port.), Introdução à sociologia política (Curitiba, Intersaberes, 2ª ed., 2021)
- Gustavo Biscaia de Lacerda (port.), O momento comtiano (Curitiba, UFPR, 2019)
- Raimundo Teixeira Mendes (port.), As últimas concepções de Augusto Comte (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-i e https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-ii.
5.3. Comecemos lembrando que, além dos outros seis sentidos da palavra positivo[1], a característica fundamental dos estudos positivos é seu relativismo, ou seja, o abandono do absolutismo
5.3.1. Em termos sociológicos, o relativismo significa pelo menos duas coisas, estreitamente vinculadas entre si mas em todo caso distintas uma da outra:
5.3.1.1. (1) não existe sociedade perfeita por si só (embora evidentemente seja possível, e seja necessário, idealizarmos as sociedades, apesar do que se afirma desde há cerca de 170 anos e com grande intensidade nos dias de hoje)
5.3.1.2. (2) não podemos julgar as diversas sociedades pura e simplesmente conforme os parâmetros da nossa própria sociedade (apesar do que, contraditória e hipocritamente, afirma-se nos dias de hoje)
5.4. Também devemos lembrar que os fenômenos humanos subordinam-se aos fenômenos naturais, conforme o princípio científico mais geral que existe: “os fenômenos mais nobres são por toda parte subordinados aos mais grosseiros”
5.4.1. A subordinação dos fenômenos humanos ocorre conforme a classificação das ciências, que, em sua seqüência histórica, passa dos fenômenos mais simples, mais gerais e mais objetivos aos fenômenos mais complicados, mais objetivamente específicos e mais subjetivos: ou seja, Matemática, Astronomia, Física, Química, Biologia, Sociologia e Moral
5.4.2. Os fenômenos humanos são estudados e orientados pela Sociologia e pela Moral, compreendendo a vida humana coletiva (sociológica) e individual (moral), preparada pela Biologia
5.4.3. A precedência da Sociologia em relação à Moral significa que cada indivíduo desenvolve-se em ambientes sociais e históricos, ou seja, há um condicionamento – mas não um reducionismo – das possibilidades individuais pela sociedade em que ele nasce e desenvolve-se
5.4.4. As questões políticas são, por definição, de caráter sociológico, como a origem (a etimologia) da palavra “política” já indica: “política” vem de “pólis”, isto é, de cidade, ou seja, refere-se diretamente à vida coletiva
5.5. Como todos os fenômenos reais, a vida coletiva, ou política, pode e deve ser estudada de acordo com duas perspectivas diferentes e complementares: a estática e a dinâmica
5.5.1. Os estudos estáticos concentram-se sempre nos aspectos que não levam em consideração o tempo; no caso da Sociologia, referem-se aos aspectos comuns todas as sociedades
5.5.1.1. Augusto Comte identificou cinco, ou melhor, seis elementos da sociologia estática: família, linguagem, capital, governo e religião, sendo que o governo divide-se em governo temporal e governo espiritual
5.5.2. Já os estudos dinâmicos referem-se às perspectivas que levam em consideração o tempo; assim, são as investigações que se baseiam na história
5.5.2.1. “Basear-se na história” é diferente de “corresponder aos estudos historiográficos”: a sociologia faz generalizações abstratas, ao passo que a historiografia estuda casos particulares concretos
5.5.2.2. A sociologia dinâmica formaliza-se nas três leis dos três estados e mais no estudo da transição ocidental (a tríplice transição ocidental, a dupla transição moderna, a transição extrema)[2]
5.5.3. Os conceitos políticos que examinaremos daqui a pouco, como são abstratos, tendem a vincular-se à sociologia estática; todavia, não se pode esquecer que eles são a formalização abstrata e contemporânea de processos históricos
5.6. Antes de abordarmos diretamente os vários conceitos políticos, é importante afirmarmos mais uma vez que eles são formalizações abstratas; além disso, há uma sobreposição entre aspectos de vários deles
5.6.1. Ao dizermos que são formalizações abstratas, queremos dizer que são idéias, são conceitos, ou seja, são elaborações mentais, são idealizações, que descrevem de maneira coerente alguns aspectos da realidade, deixando de lado outros aspectos
5.6.2. A sobreposição quer dizer que há aspectos de alguns conceitos que participam de outros conceitos; em parte isso ocorre porque alguns conceitos são anteriores, do ponto de vista teórico, a outros conceitos; mas há alguns conceitos que são realmente próximos entre si
5.7. Os conceitos são estes: país, território, povo, sociedade, regime político, Estado, governo, nação, pátria, legitimidade, cidadania, políticas públicas – e política
5.7.1. País
5.7.1.1. Esse talvez seja o conceito mais simples, mais direto e talvez o mais sintético de todos: quando falamos em “país”, pensamos imediatamente em uma unidade jurídica que ocupa um certo território, uma população e uma estrutura administrativa (um Estado e um governo, organizados em um regime); essa estrutura administrativa tem que ser autônoma, ou seja, não pode depender de outros países
5.7.1.1.1. Esses vários elementos são importantes; mais do que isso, são necessários
5.7.1.2. Um aspecto fundamental para o conceito de “país” é o reconhecimento internacional: independentemente do regime interno, um país só é reconhecido como país se outros países reconhecerem-no como tal (e não há necessidade nenhuma de que isso envolva a Organização das Nações Unidas (ONU)[3])
5.7.2. Território
5.7.2.1. Pode parecer banal, mas o território é algo essencial para que um “país” exista: o território é, literalmente, a base física da existência de um país
5.7.2.2. Historicamente, a disputa por territórios é um dos mais importantes, se não o mais importante, motivo de disputa entre os países
5.7.2.3. A importância dos territórios é múltipla: antes de mais nada, é necessário que a população tenha espaço para morar, trabalhar e relacionar-se; depois, é necessário utilizar esse espaço para produzir as riquezas; além disso, há o aspecto afetivo e também fetichista dos territórios
5.7.3. Povo
5.7.3.1. A palavra “povo” tem muitos sentidos, nem sempre claros, nem sempre positivos: por um lado, trata-se da população que vive em um país; por outro lado, pode-se considerar o proletariado, isto é, o grosso da população e da sociedade, que com freqüência se define por oposição (complementar ou não) à elite e/ou ao patriciado; também há o sentido metafísico do “povo” como entidade abstrata, incorpórea, que tomaria decisões
5.7.3.2. A população pode ser mais ou menos homogênea, mais ou menos heterogênea; essa homogeneidade ou heterogeneidade pode vincular-se aos mais diferentes fatores: religiões, culturas, história compartilhada, língua, etnia (geral e vulgarmente chamada de “raça”), classe/estamento[4] etc.
5.7.3.2.1. Se os fatores acima tiverem pouca importância, consideramos a população (mais) homogênea; se eles tiverem tanta importância que dividem a sociedade (ou a população) em grupos que interagem pouco e mal, consideramos a sociedade heterogênea
5.7.4. Sociedade
5.7.4.1. A palavra “sociedade” tem um sentido abstrato de modo geral; ela refere-se aos vários agrupamentos humanos; a estrutura política aí tem importância, mas quase sempre os aspectos culturais são mais relevantes para a definição de “sociedade”
5.7.4.2. Como é um conceito abstrato, podemos considerar como sendo a sociedade as mais diferentes organizações: desde as famílias e as pátrias até a Humanidade ao longo do tempo, passando pelas classes sociais, pelos estamentos, pelas organizações formais de um país (escolas, clubes, igrejas, empresas), pelas organizações informais (grupos de amigos), pelas organizações internacionais etc.
5.7.4.3. O Positivismo estabelece três organizações sociais fundamentais, considerando o fundamento de cada um delas: a família (baseada nos sentimentos compartilhados), a pátria/mátria (baseada na atividade prática organizada e compartilhada) e a Humanidade (baseada nas idéias e nos valores compartilhados)
5.7.4.3.1. A seqüência família-pátria-Humanidade apresenta uma intensidade decrescente dos vínculos (a família é a associaão mais intensa, a Humanidade a menos intensa), o tamanho crescente (a família é a menor associação, a Humanidade é a maior) e o desenvolvimento histórico das associações (a família surgiu primeiro, depois surgiram as pátrias e finalmente se afirmou com clareza a Humanidade)[5]
5.7.4.4. Existe também o que se chama de “sociedade civil”; essa expressão tem um sentido mais propriamente político, na medida em que é a população de um país que se submete ao Estado
5.7.4.4.1. É importante indicar que a sociedade civil possui autonomia: se, por um lado, o Estado estabelece e impõe as leis, a sociedade civil tem sua estrutura própria, seu dinamismo específico, com igrejas, clubes, empresas, sindicatos etc.
5.7.4.4.2. Além de seu dinamismo próprio, a sociedade civil também se organiza e, a partir daí, atua politicamente a partir da atuação do poder espiritual (que veremos daqui a pouco)
5.7.4.4.3. É importante reafirmar que a sociedade civil é politicamente ativa, mesmo que não participe do Estado: esse ativismo corresponde a um tipo diferente de atividade (próprio à atuação do poder espiritual) e não a uma passividade ou a um tipo de quietismo
5.7.5. Estado
5.7.5.1. O Estado é a grande estrutura social que, em um país, organiza a vida política, incluindo aí os aspectos jurídicos da política; ou, dito de outra forma, o Estado é a organização social que estrutura a vida de um país, em termos políticos e, por extensão, também jurídicos
5.7.5.1.1. No dia-a-dia, o que se chama vulgarmente de “política” corresponde à disputa pelo poder, ou seja, o acesso, o comando e a orientação geral das decisões tomadas pelo Estado
5.7.5.2. Em termos sociológicos, a função do Estado é dupla (e, mais uma vez, são duas funções estreitamente vinculadas mas diferentes entre si): por um lado, orientar os esforços sociais, isto é, dar uma direção à sociedade; por outro lado, agir como a reação da coletividade sobre os esforços individuais
5.7.5.3. Como dizia nosso mestre, a partir de Thomas Hobbes, o fundamento do Estado é a força, ou seja, a violência
5.7.5.3.1. Isso não quer dizer que o Estado seja sempre violento; mas, se não for possível empregar outros meios, o Estado usará a força – e somente ele pode fazê-lo
5.7.5.4. Na sociologia estática, a importância do Estado é definida pela máxima segundo a qual “não existe sociedade sem governo” (mas, inversamente, também “não existe governo sem sociedade”)
5.7.5.5. Ainda no âmbito da sociologia estática, o Estado corresponde ao poder temporal, isto é, ao poder que coordena e modifica as condutas individuais de maneira objetiva, impondo-se aos grupos e aos indivíduos
5.7.5.6. É importante cada vez mais distinguir, no âmbito do Estado, o grupo dirigente (que no dia-a-dia é chamado de “governo”) e a estrutura burocrático-administrativa
5.7.5.6.1. Enquanto o grupo dirigente literalmente dá as diretivas, ou seja, toma as decisões, decide para onde o Estado e o país dirigir-se-ão, a estrutura burocrático-administrativa é a responsável pela implementação concreta das decisões e pelo funcionamento do Estado
5.7.6. Governo
5.7.6.1. A palavra “governo” também assume inúmeros sentidos: atualmente, de maneira corriqueira, ele corresponde ao grupo que exerce o poder; igualmente de maneira corriqueira e atual, o governo pode ser também o chamado “poder Executivo”; já no âmbito da sociologia positiva, ele corresponde abstratamente aos órgãos responsáveis pela orientação da sociedade (dividindo-se em governo temporal e governo espiritual)
5.7.6.2. A noção do governo como grupo que exerce o poder em um determinado período vincula-se à noção metafísica, liberal, de que os governantes devem ter mandatos fixos e alternarem-se no poder mediante eleições periódicas
5.7.6.3. A noção do governo como “poder Executivo” liga-se a uma outra noção metafísica, liberal-democrática, de que a “fonte do poder” (ou seja, a “fonte da soberania”) está no “povo” e que o “povo” é representado (exclusivamente) no parlamento; isso pode descambar para o parlamentarismo, mas em todo caso resulta em que o governo tem que se submeter política, moral e juridicamente ao parlamento
5.7.6.4. A sociologia estática estabelece a divisão entre os poderes, ou governos, temporal e espiritual; já vimos do que se trata o poder temporal; o poder espiritual, por sua vez, modifica o comportamento dos grupos e dos indivíduos por meio do aconselhamento e do convencimento, a partir da educação; em outras palavras, modifica subjetivamente, de maneira consciente e respeitando a autonomia e a dignidade individuais
5.7.6.4.1. Cada vez mais a atuação do governo tem que considerar a sociedade civil, isto é, o ativismo político específico da sociedade civil; em outras palavras, conforme a explícita proposta sociocrática nesse sentido, cada vez mais o governo tem que consultar, ouvir e sempre respeitar as opiniões da sociedade civil
5.7.6.4.2. Na sociologia positiva, o “governo” é quem governa, é quem decide os rumos da sociedade; logo, o governo é superior ao parlamento
5.7.7. Nação
5.7.7.1. A nação é um dos termos mais problemáticos do vocabulário político; não que até certo ponto os demais termos também não sejam problemáticos, mas pelo menos desde o final do século XVIII a “nação” tornou-se um conceito explosivo
5.7.7.2. A nação corresponde a um povo, compartilhando uma história e valores, além de eventuais outros atributos (como etnia, língua, religião etc.)
5.7.7.2.1. O conceito de nação afirmou-se em substituição ao princípio teológico de legitimação e organização da sociedade, isto é, ao direito divino dos reis e à sociedade estamental
5.7.7.3. A nação abrange todas as pessoas que possuem os atributos compartilhados; dessa forma, ela está acima das divisões habituais (em particular classe/estamento, religião e, às vezes, até língua)
5.7.7.3.1. O conceito de nação, portanto, busca homogeneizar a população
5.7.7.4. Embora de modo geral uma nação corresponda a um país – ou, pelo menos, idealmente assim se entenda a questão –, podemos ter uma nação em vários países (a “nação” alemã, a “nação” árabe); inversamente, podemos ter um país com várias nações (os atuais Israel, Bolívia, Rússia, China)
5.7.8. Pátria/mátria
5.7.8.1. O que de modo geral se chama de país também pode ser chamado de pátria; mas enquanto o país é uma palavra mais descritiva (e às vezes com um aspecto mais jurídico), a pátria tem um aspecto afetivo
5.7.8.1.1. A noção de pátria é superior às divisões sociais habituais (classe, religião, região geográfica etc.)
5.7.8.1.2. Com facilidade a pátria e a nação podem ser confundidas e, no dia-a-dia, praticamente são a mesma coisa
5.7.8.1.2.1. Mas, como indicamos acima, a nação tem um ideal mais claro de homogeneização social (mesmo que em termos ideais, ou idealizados), ao passo que a pátria mantém um pouco mais claramente muitas das distinções sociais
5.7.8.1.2.2. Além disso, o fundamento das pátrias na atividade prática é mais evidente, ao passo que as nações têm um sentido um pouco nebuloso, mesmo místico
5.7.8.2. Como o fundamento das pátrias é a atividade prática, e como a atividade prática ao longo da história foi principalmente guerreira, ou militarista, o resultado é que historicamente as pátrias tiveram um aspecto guerreiro e militarista
5.7.8.2.1. Exatamente o aspecto inicialmente guerreiro das pátrias é que permitiu, ao longo da história, a constituição do poder temporal, isto é, dos estados
5.7.8.2.2. Entretanto, por outro lado, na transição para a modernidade e para a atividade pacífica, construtiva e colaborativa, essa origem militarista e violenta gera graves confusões, em que o patriotismo é confundido com o militarismo ou reduzido a ele (como se vê nas lamentáveis celebrações da pátria com desfiles de tanques, bombas, mísseis etc.)
5.7.8.3. O desenvolvimento histórico das pátrias, no sentido da sociocracia, conduzi-las-á aos pequenos países, em que as forças armadas serão diminuídas e transformadas em simples forças policiais (de polícias cidadãs!), permitindo maior confiança pública, mais responsabilidade e melhores resultados públicos e privados; com isso, o aspecto historicamente militarista das pátrias será deixado para trás e, com a afirmação plena do altruísmo, com o ativismo moral e social das mulheres, as pátrias transformar-se-ão em mátrias
5.7.9. Legitimidade
5.7.9.1. A legitimidade consiste nos valores e nas concepções que tornam aceitável uma estrutura social e, em particular, uma organização política
5.7.9.2. Como a legitimidade corresponde a idéias e valores – que, por definição, são subjetivos –, em termos políticos e coletivos ela é o objeto da atuação do poder espiritual
5.7.9.3. A fim de avaliar e manter a legitimidade de uma organização social específica e, em particular, da atuação do Estado, o poder espiritual deve ter autonomia; além disso, como os valores subjetivos devem ser compartilhados e mobilizados considerando a dignidade individual e, portanto, não podem nunca ser impostos, o poder espiritual e o poder temporal têm que ser separados
5.7.9.3.1. Vale notar que é essa a verdadeira justificativa, é essa a verdadeira importância da chamada “laicidade” (que é o nome popular da separação dos dois poderes), em vez do habitual anticlericalismo de que a laicidade serve de desculpa
5.7.10. Regime
5.7.10.1. O regime político é a forma específica como se organiza e legitima politicamente um país, ou seja, é a forma específica como se estrutura o Estado, como se dá a relação entre o Estado e a sociedade, como a sociedade civil opera
5.7.10.2. Dessa forma, os regimes políticos podem ser mais ou menos favoráveis às liberdades, mais ou menos favoráveis à organização social, mais ou menos favoráveis à honestidade, mais ou menos favoráveis à responsabilidade pública etc.
5.7.10.3. No âmbito do Positivismo, o regime político ideal é a sociocracia
5.7.10.3.1. A sociocracia é o regime político das liberdades, da responsabilidade e da confiança mútua, em que o bem público é afirmado, com uma sociedade civil ativa e orientada pelo poder espiritual; também é o regime político da atividade colaborativa e construtiva, pacífica e contra a violência
5.7.10.3.2. A sociocracia foi afirmada por Augusto Comte desde a década de 1840 e, a partir daí, difundiu-se e foi aplicada em todo o mundo, em particular nas Américas e na Europa – e, claro, no Brasil
5.7.10.3.3. É digno de nota que os conceitos positivistas costumam ser mal interpretados; mas no caso da palavra “sociocracia”, sua origem, sua validade e suas aplicações positivistas foram e têm sido negadas por ativistas metafísicos, de modo geral anarquistas, a começar pelo neerlandês Cornelis Boeke
5.7.11. Cidadania
5.7.11.1. A cidadania é a palavra que exprime o ativismo próprio à sociedade civil, seja em termos das ações de organizações não estatais (as ONGs, no âmbito do chamado “terceiro setor”), seja em termos de fiscalização pública das atividades do Estado, seja em termos de proposição de políticas públicas
5.7.11.2. Convém notar que no conceito atual de cidadania há muitos aspectos metafísicos, em particular da metafísica da “soberania do povo” (ou seja, da metafísica democrática) e da metafísica de desconfiança sistemática contra o Estado (ou seja, das metafísicas liberal e anarquista); essas influências metafísicas degradam e confundem esse belo e importante conceito
5.7.12. Políticas públicas
5.7.12.1. As políticas públicas correspondem às atividades regulares desenvolvidas pela estrutura burocrático-administrativa do Estado
5.7.12.1.1. De modo mais específico e popular, considera-se vulgarmente como “políticas públicas” aquelas atividades do Estado que beneficiam diretamente cada um e o conjunto dos cidadãos, como serviços de educação, de saúde, de assistência social etc.
5.8. Política
5.8.1. Após termos visto vários conceitos básicos da política, podemos considerar o que é, ou seria, a “política”
5.8.1.1. Para evitarmos confusões e reducionismos, talvez a melhor forma de definirmos a política seja apelando para as expressões que se emprega em inglês para descrevê-la: politics, polity, policy
5.8.2. Politics: é a política do dia-a-dia – ou, grosseiramente, as atividades do governo, da cúpula do Estado, além da disputa em geral pelo poder
5.8.2.1. Devido à influência do marxismo e, mais recentemente, dos pós-modernos e do identitarismo (a partir das concepções filosóficas de Nietzsche, Heidegger, Focault e outros), virou moda atualmente afirmar que “tudo é política” e/ou que “tudo é questão de poder”: essa concepção brutal significa que todas as questões humanas só podem ser tratadas como disputas agressivas entre os seres humanos, em que os critérios adotados para tratá-las e os resultados são sempre decididos apenas por quem tem poder, ou seja, por quem manda e pode impor sua própria vontade: altruísmo, boa vontade, racionalidade, respeito à verdade – nada disso tem valor e, no fundo, são apenas desculpas (“ideológicas”) para disfarçar a violência política
5.8.3. Polity: corresponde ao regime político
5.8.3.1. A obra mais importante de nosso mestre, o Sistema de política positiva, tem por título original em francês Système de politique positive: a versão em inglês desse título indica com clareza que a política aí se refere ao regime: System of Positive Polity
5.8.4. Policy: corresponde a cada uma das “políticas públicas”
5.9. Para concluir:
5.9.1. Esta exposição serviu como um esclarecimento geral de alguns conceitos políticos fundamentais, a partir da sociologia positiva
5.9.2. Sem dúvida que não esgotamos as questões (isto é, nem os conceitos possíveis de tratar, nem as respostas que poderíamos fornecer); mas, ainda assim, esperamos ter contribuído para explicar alguma coisa
6. Término da prédica
Referências
- Augusto Comte (franc.), Sistema de filosofia positiva (Paris, Société Positiviste, 5e ed., 1893).
- Augusto Comte (franc.), Sistema de política positiva (Paris, Société Positiviste, 4e ed., 1929).
- Augusto Comte (port.), Apelo aos conservadores (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores.
- Augusto Comte (port.), Catecismo positivista (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 4ª ed., 1934).
- Gustavo Biscaia de Lacerda (port.), Comtianas brasileiras (Curitiba, Appris, 2018)
- Gustavo Biscaia de Lacerda (port.), Introdução à sociologia política (Curitiba, Intersaberes, 2ª ed., 2021)
- Gustavo Biscaia de Lacerda (port.), O momento comtiano (Curitiba, UFPR, 2019)
- Luís Lagarrigue (esp.), A poesia positivista (Santiago do Chile, 1890): https://archive.org/details/luis-lagarrigue-a-poesia-positivista-1890_202509.
- Raimundo Teixeira Mendes (port.), As últimas concepções de Augusto Comte (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-i e https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-ii.
- Raimundo Teixeira Mendes (port.), O ano sem par (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1900): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-o-ano-sem-par-portug._202312/page/n7/mode/2up.
[1] Os sete sentidos da
palavra positivo são: real, útil, certo, preciso, relativo, orgânico e
simpático (Augusto Comte, Apelo aos
conservadores, p. 25).
[2] Simplificando para
esta exposição, as três leis dos três
estados estabelecem o seguinte. A lei intelectual
estabelece que toda concepção humana passa sucessivamente por três fases,
teológica, metafísica e positiva, com uma velocidade proporcional à generalidade
objetiva e à simplicidade dos fenômenos correspondentes. Essa lei pode ser
entendida de maneira mais simples como indicando a passagem geral das
concepções absolutas para as relativas. A essa lei junta-se a lei da classificação das ciências, que é
tanto uma aplicação da lei intelectual dos três estados quanto uma exposição
geral dos níveis de entendimento abstrato da realidade: Matemática, Astronomia,
Física, Química, Biologia, Sociologia e Moral. A lei prática dos três estados estabelece que as sociedades humanas
organizaram-se de maneira militarista conquistadora, depois militarista
defensiva e por fim pacífica, colaborativa e construtiva. A lei afetiva dos
três estados estabelece que os âmbitos de associação humana são,
progressivamente, a família, a pátria e a Humanidade.
A tríplice
transição ocidental corresponde à transição específica ao Ocidente, das
teocracias antigas (do politeísmo conservador) à positividade; essa transição
deu-se pelas concepções da Grécia (desenvolvimento intelectual), pelas conquistas
de Roma (desenvolvimento prático) – ambas no politeísmo progressista – e pelo regime
católico-feudal (desenvolvimento afetivo) (na concentração monoteísta católica).
O duplo movimento
moderno corresponde ao duplo movimento construtivo (da positividade, do relativismo
e da atividade prática) e destrutivo (do regime teológico, militarista e estamental)
próprio ao Ocidente, após a Idade Média, cujo termo ocorreu com a explosão social
da Revolução Francesa.
A transição
extrema corresponde à constituição, à difusão, à implantação do Positivismo,
da Religião da Humanidade e da sociocracia, ou seja, da sociedade pacífica, construtiva,
relativista, com vistas ao bem comum.
[3] Vale notar que a ONU,
embora tenha por nome a união de nações,
na realidade é a união de países.
[4] Sem entrarmos em
detalhes, os estamentos são as formas de organização social em que os
indivíduos pertencem a grupos sociais específicos em uma determinada sociedade;
cada família pertence a um desses grupos e não é possível a um indivíduo mudar
de grupo ao longo de sua vida. Em algumas sociedades esses grupos são chamados de
“castas” (como na Índia) e, em outras sociedades, são chamados de “ordens”
(como na Europa medieval). De maneira muito característica, as monarquias, com
sua divisão entre nobreza e plebe, integram sociedades estamentais.
[5] É claro que se desenvolveram e existem associações humanas intermediárias: na passagem das famílias para as pátrias constituíram-se as tribos e, depois, no politeísmo conservador, as pátrias cristalizaram as famílias no seio das castas (ou dos estamentos). Além disso, embora a Humanidade de verdade só seja possível com a prevalência da atividade pacífica, houve inúmeras afirmações, aspirações e antecipações do seu ideal em sociedades militaristas, como expresso por Júlio César e pelos grandes poetas romanos.






