31 outubro 2026

Apelo pela fraternidade, contra a mesquinhez violenta e vingativa




Igreja Positivista Virtual

 

Apelo pela fraternidade, contra a mesquinhez violenta e vingativa

 

O amor por princípio e a ordem por base; o progresso por fim

Viver às claras               Ordem e progresso                     Viver para outrem

 

Não há como sermos sutis: as ameaças e as realizações efetivas de boicotes, de demissões, de omissão de socorro, de recusa de atendimento, de fornecimento de produtos (incluindo remédios e tratamentos) inadequados – tudo isso da parte de muitos brasileiros ditos “de direita”, ou conservadores, é inaceitável e deve cessar imediatamente.

Desde a noite do dia 25 de outubro de 2026, após a constatação da vitória do candidato a Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva e da derrota do candidato Flávio Nantes Bolsonaro, há reiteradas manifestações e realizações das práticas mais abjetas: humilhação sistemática, em particular de cidadãos vulneráveis (crianças, mendigos, idosos etc.); atropelamento de crianças por veículos; atropelamento de motociclistas por viaturas policiais; assassinatos e tentativas de assassinato por espancamentos ou por tiros; demissão de trabalhadores; boicote de comerciantes e prestadores de serviços; recusa de atendimento da parte de médicos, enfermeiros, advogados, servidores públicos; atendimento de má qualidade e/ou oferta de produtos e serviços inadequados etc. Aliás, nem mesmo os animais têm sido poupados: burros e jumentos têm recebido números e símbolos associados ao candidato vencedor e obrigados a padecer das condições mais cruéis de trabalho, até à morte. Todos esses comportamentos têm sido sugeridos ou praticados por uma parte dos cidadãos brasileiros contra uma outra parte, como se fossem comportamentos virtuosos e justos.

Entretanto, ao contrário de serem aceitáveis e legítimos, esses comportamentos são a sistematização da violência física direta, da violência moral, da discriminação, da irresponsabilidade cívica e profissional. Esses comportamentos são, todos eles, com justiça, ilegais e seus propositores e praticantes já estão sendo denunciados para os órgãos competentes. Todavia, esses comportamentos, muito mais e muito antes que ilegais, são profundamente imorais, na medida em que intencionalmente prejudicam outros cidadãos e seres humanos – e, ainda por cima, motivados por mesquinhez.

A difusão dessas propostas e dessas práticas e o espírito que as alimenta exige que nos manifestemos com clareza. Esses comportamentos constituem violências políticas; sua repressão pelos órgãos do Estado, embora necessária, abrange apenas a superfície do problema; na medida em que eles envolvem valores e idéias, sua solução é necessariamente moral, ou melhor, religiosa: é por isso que divulgamos o presente apelo. (A religião não é o mesmo que a teologia; a religião é a sistematização do conjunto da existência humana – afetiva, intelectual e prática; privada e pública; doméstica, cívica e universal; objetiva e subjetiva –, com vistas à harmonia dinâmica do ser humano. O fundamento de tal sistematização é o altruísmo, ou o amor universal; em termos cívicos, isso se constitui na fraternidade humana.)

A profunda imoralidade desses comportamentos evidencia-se não apenas pela intenção consciente e mórbida de prejudicar ao máximo possível outros seres humanos. Essa imoralidade torna-se ainda pior porque ela apresenta inúmeros aspectos:

-      os comportamentos que criticamos consistem em represálias adotadas para manifestar o inconformismo com o resultado de eleições profundamente polarizadas e radicalizadas;

-      eles são um esforço no final das contas inútil, na medida em que as eleições já se encerraram, ou seja, o que havia para ser decidido já foi decidido;

-      eles são um esforço de impor pela força o que deve ser obtido apenas pelo convencimento pacífico e digno;

-      eles negam de maneira brutal os fundamentos de qualquer sociedade, a saber, a fraternidade e a confiança mútua, ao estimularem e praticarem o ódio, a violência e o ressentimento sistemáticos;

-      eles correspondem às práticas e às intenções temidas pelos conservadores e pelos “de direita” e por estes atribuídas aos seus adversários “de esquerda”;

-      eles consistem em práticas e intenções que, em situações normais, os conservadores e os “de direita” considerariam inaceitáveis e que seria prontamente denunciados e criticados;

-      eles são práticas e intenções degradantes que, assim que são criticadas, seus propositores e realizadores logo em seguida, de maneira cínica ou hipócrita, afirmam que teriam sido “incompreendidos”, que “estariam fora do contexto” etc.;

-      eles são práticas e intenções dirigidas contra vulneráveis ou dependentes, ou seja, são comportamentos particularmente mesquinhos e brutais;

-      práticas idênticas, motivadas igualmente pelo ressentimento, com objetivos também punitivos ou vingativos, não constituem uma novidade histórica, tendo sido largamente praticadas por nazistas e seus apoiadores na Alemanha dos anos 1930 e 1940.

Essas práticas e intenções são violentas e revelam uma profunda degradação moral e intelectual. Além de infantis, elas correspondem ao oposto do que os seus praticantes conservadores e “de direita” aceitam cotidianamente – ou, pelo menos, que dizem aceitar. Esses comportamentos constituem uma reação mesquinha a um resultado eleitoral específico. Se as eleições tivessem tido outro resultado, os defensores dessas práticas e intenções exigiriam dos derrotados exatamente o oposto do que agora propõem: aceitação, moderação, respeito ao resultado das eleições etc. Apenas porque perderam a eleição, seus defensores julgam-se no escandaloso direito de vingarem-se dos apoiadores e eleitores do candidato vencedor.

As eleições simplesmente não são o melhor mecanismo de seleção de governantes. Como se sabe, as eleições constituem um mecanismo para solapar por baixo a autoridade de cima; além disso, elas transformam em uma questão puramente numérica vários problemas que, por definição, são qualitativos: a capacidade governativa, a representação dos interesses da sociedade, a opinião pública etc. Entretanto, apesar desses graves e profundos defeitos, no Brasil a definição dos governos baseia-se no procedimento eleitoral, cujo resultado, bem ou mal, tem que ser aceito. Tal aceitação não se vincula a gostar-se ou não dos resultados, mas apenas a seguir-se com lisura os procedimentos coordenados pela Justiça Eleitoral. Aliás, a aceitação dos resultados eleitorais vincula-se a um traço fundamental de qualquer sociedade: a confiança mútua.

Apesar de atuarem francamente na direção contrária, os conservadores e os “de direita” que defendem as várias formas de violência mesquinha contra vulneráveis e dependentes precisam da confiança mútua tanto quanto qualquer outro cidadão. Não há sociedade sem confiança mútua. Todas as práticas e as intenções que aqui criticamos destroem essa confiança mútua. Mais do que isso: elas destroem a fraternidade e a generosidade; elas estimulam o ódio, a raiva, a desconfiança, os ressentimentos.

Os conservadores e os “de direita” que aqui criticamos supostamente são a favor do conservadorismo e da ordem social, além de serem contra o “progresso”. As práticas políticas e sociais mais favoráveis ao desenvolvimento, à liberdade e à dignidade humana são afirmadas pelas reflexões e pelos ensinamentos da Religião da Humanidade e sintetizadas na proposta de sociocracia. A proposta sociocrática, por sua vez, esclarece que o verdadeiro conservadorismo não é imóvel, nem deseja a volta ao passado, assim como o progresso não equivale à destruição sistemática das instituições. Entretanto, como se sabe, o conservadorismo que se vê no Brasil nos últimos anos tem orgulho de destruir e de dizer que, “antes de construir qualquer coisa, devemos destruir muito” – em particular, destruir tudo e qualquer coisa que se relacione ao “progresso”. Contra essas intenções destruidoras, o verdadeiro conservadorismo afirma que a sociedade e as instituições têm que continuar existindo, seja para que os cidadãos possam levar suas vidas, seja para que as condições de vida possam melhorar (em particular em favor dos mais fracos e dos mais frágeis). Assim, o verdadeiro conservadorismo é ao mesmo tempo progressista e contra as destruições sistemáticas; para que essas melhorias possam ocorrer, a partir da fraternidade a confiança tem que ser efetivamente compartilhada pelo conjunto da sociedade.

As práticas e as intenções que criticamos aqui rejeitam a fraternidade, destroem a confiança, são particularistas e impedem qualquer progresso. Pior: apesar de dizerem-se “conservadoras”, elas são contra qualquer conservação. Dessa forma, ao serem sistematicamente contra o “progresso”, na verdade essas práticas e intenções são contra a ordem – e aí não há ordem e nem progresso, mas em seu lugar há muita violência e anarquia.

As opiniões têm que ser respeitadas. A mudança de opinião deve ocorrer sempre, necessariamente, apenas por meio do convencimento pacífico. A utilização da violência para impor mudanças de opinião no fundo não é diferente do emprego do Estado para impor crenças; a lamentável particularidade do presente caso consiste apenas em que a violência é praticada no âmbito da sociedade e com um caráter punitivo ou vingativo. Sem dúvida que muitos dos conservadores que aqui criticamos desejam usar o Estado para impor suas crenças, especialmente crenças teológicas. Em face disso, temos que reafirmar mais uma vez: nem a violência do Estado nem a violência da sociedade são aceitáveis; nem a violência em geral nem a violência usada para impor crenças são aceitáveis; nem a violência para impor crenças, nem a violência para punir crenças são aceitáveis.

Como dissemos no início deste documento, não há como sermos sutis aqui. Assim, fazemos um apelo claro e direto para que os conservadores e os “de direita” cessem imediatamente de propagar e/ou realizar as práticas aqui criticadas; para que revejam seus comportamentos e suas intenções, no sentido de respeitarem e praticarem o verdadeiro conservadorismo (progressista, fraterno, pacífico); para que alterem as intenções e as práticas daqueles que estão a favor da mesquinhez violenta e punitiva. Em suma, muito mais que por adotarem comportamentos ilegais, isto é, criminosos, fazemos um apelo para que conservadores e “de direita”, à luz de concepções verdadeiramente religiosas, cessem a monstruosa violência política que têm praticado e retomem os hábitos fraternos e promotores da confiança mútua.

 

Curitiba, 24 de Descartes de 172 (31 de outubro de 2026).

 

Sacerdote da Humanidade Gustavo Biscaia de Lacerda,

em nome da Igreja Positivista Virtual



30 outubro 2026

Parajás Podcast: conversa sobre as eleições brasileiras

No dia 20 de Descartes de 172 (27.10.2026) tivemos a honra e a felicidade de participar novamente do Parajás Podcast, conversando agora sobre o resultado final das eleições presidenciais do Brasil, ocorridas dois dias antes (25.10.2026).

A conversa pode ser vista aqui: https://youtu.be/v1wvezvq4NE.

O original pode ser visto aqui: https://www.youtube.com/live/8FBtIxVRFsQ.



21 outubro 2026

Papel político da religião positiva

No dia 13 de Descartes de 172 (20.10.2026) realizamos nossa prédica positiva, dando continuidade à leitura comentada do Apelo aos conservadores (em sua "Conclusão - missão peculiar aos verdadeiros conservadores").

No sermão abordamos o papel político da religião positiva.

A prédica foi transmitida nos canais Positivismo (https://youtube.com/live/DNDxSKQQ9hE) e Igreja Positivista Virtual (https://www.facebook.com/IgrejaPositivistaVirtual/videos/1087648617414789).

As anotações que serviram de base para a exposição oral encontram-se reproduzidas abaixo.

*   *   *

Papel político da religião positiva

(13 de Descartes de 172/20.10.2026) 

1.     Abertura da prédica

2.     Datas e celebrações

2.1.   Dia 11 de Descartes (18.10): nascimento de Frederic Harrison (1831 – 195 anos)

2.2.   Dia 11 de Descartes (18.10): nascimento de Benjamin Constant (1836 – 190 anos)

2.3.   Dia 13 de Descartes (20.10): transformação de José Lonchampt (1890 – 136 anos)

2.4.   Dia 18 de Descartes (25.10): segundo turno das eleições para Presidente da República

3.     Apóiem a Igreja Positivista Virtual!

3.1.   Colaborem com o que puderem; com boa fé e boa vontade, toda e qualquer colaboração é necessária e bem-vinda!

3.1.1. Inscrevam-se no canal, compartilhem, divulguem nossas atividades!

3.2.   Para apoiar as atividades dos nossos canais e da Igreja Positivista Virtual: façam o Pix da Positividade! (Chave Pix: ApostoladoPositivista@gmail.com)

4.     Leitura comentada do Apelo aos conservadores

5.     Espiritualidade positiva

5.1.   Esta talvez seja a seção mais importante das prédicas!

5.2.   Sejamos altruístas!

5.2.1. Sejamos generosos, tolerantes etc.

5.2.2. Devemos orientar toda a nossa vida pelo altruísmo: quando o altruísmo regula e orienta a vida, o resultado é que o altruísmo (a dedicação para os demais) e o egoísmo (a satisfação das necessidades pessoais) não são incompatíveis, pois só o altruísmo permite unir o bem comum à felicidade pessoal

5.3.   Façamos orações!

5.3.1. A oração positiva é a base do culto íntimo; assim, é tanto a base do aperfeiçoamento pessoal quanto da espiritualidade positiva de modo geral

5.4.   Como Igreja Positivista Virtual, ministramos os sacramentos positivos a quem tem interesse

5.4.1. Em um total de nove, os sacramentos são a celebração de momentos centrais na vida de todos nós – momentos que devem ser celebrados, afirmados, compartilhados (o nascimento/a adoção, o casamento, a aposentadoria, a transformação (a morte) etc.)

6.     Sermão: o papel político da religião positiva

6.1.   Nesta prédica queremos comentar a atuação política da Religião da Humanidade

6.1.1. Esse tema foi sugerido pela Sandra e pelo Hernani no ano passado e ficou sovando desde então; mas como com freqüência tratamos de questões políticas e como estamos em um período eleitoral particularmente preocupante, tenso e fulcral, convém tratarmos disso agora

6.1.2. O nosso objetivo neste sermão é comentarmos alguns aspectos específicos da atuação política do Positivismo, bem como algumas confusões e algumas críticas injustas; mas, para isso, teremos que antes rever alguns aspectos básicos do Positivismo

6.2.   Relembremos, então, seis aspectos centrais do Positivismo que tratam de questões políticas:

6.2.1. A preocupação central da Religião da Humanidade, após o desenvolvimento das forças humanas ao longo da história, é regular essas forças, promovendo a harmonia humana, individual e coletiva, em termos estáticos e dinâmicos

6.2.2. Como sabemos, a perspectiva de conjunto é necessária para qualquer regulação; no caso humano, temos que considerar o âmbito privado e o âmbito público (sendo que o âmbito privado divide-se em individual e doméstico): enquanto os monoteísmos (e as metafísicas também) privilegiam sempre um âmbito em detrimento do outro, o Positivismo considera-os ambos, percebendo-os como necessariamente complementares

6.2.2.1.          A família baseia-se nas relações afetivas ao redor do casal fundamental; já a vida pública baseia-se nas atividades industriais e políticas das pátrias (ou melhor, das mátrias), a partir da reunião das classes sociais e da atuação do Estado;

6.2.2.2.          Seja porque os âmbitos privado e público são complementares, seja porque, enfim, eles existem, exercem efeitos reais sobre o ser humano e, portanto, e têm que ser regulados, o Positivismo não negligencia a política, que é um dos aspectos da existência pública

6.2.3. Com a modernidade afirmou-se cada vez mais o ideal e a necessidade de separação entre os poderes temporal e espiritual, em que um modifica a conduta objetivamente, pela imposição da força, e o outro modifica a conduta subjetivamente, pelo aconselhamento

6.2.3.1.          Na verdade, a separação dos dois poderes é a instituição fundamental da modernidade e é afirmada sem cessar pelo Positivismo

6.2.3.2.          A separação dos dois poderes permite e garante que as pessoas tenham plena liberdade de pensamento, de expressão e de associação, independentemente das vontades do Estado

6.2.3.3.          Qualquer mudança social – qualquer! – modernamente tem que ocorrer baseada na separação dos dois poderes, de maneira a permitir que as mudanças sejam profundas, duradouras e aceitas livremente pela sociedade, sem imposições nem autoritarismo

6.2.3.4.          O sacerdócio positivo recusa-se a ocupar cargos públicos e, seja por questões doutrinárias e políticas, seja porque todos os sacerdócios devem submeter-se às mesmas condições, o sacerdócio positivo deve exigir a mesma restrição da parte dos outros sacerdócios (mesmo que empiricamente eles não queiram e mesmo que eles rejeitem doutrinariamente tal restrição)

6.2.4. O Positivismo afirma que o conjunto das sociedades deverá ser positivista; mas esse conjunto significa que as sociedades civis têm que se modificar antes dos governantes

6.2.4.1.          Isso estabelece uma progressão na atuação positivista, em três fases: mudança de concepções na sociedade civil; adoção de políticas positivas por governos não positivistas; adoção do Positivismo pelos governos

6.2.4.2.          Essas três fases ocorrerão sempre baseadas na separação entre os dois poderes, de maneira a garantir a dignidade das opiniões e o caráter não tirânico do governo

6.2.5. A política positiva, além de republicana, tem que ter um caráter social e progressista, ou seja, deve realizar-se visando ao aperfeiçoamento (ou, dito de outra maneira, à melhoria) das condições vida dos seres humanos, em particular dos proletários e das mulheres

6.2.5.1.          O respeito às instituições é necessário (é uma política “conservadora”), ao mesmo tempo em que as instituições devem ser orientadas na direção social e progressista

6.2.5.1.1.              Esse é o sentido de várias fórmulas positivistas: “ordem e progresso”, “o capital é social e sua aplicação tem que ser social”, “regular consagrando e consagrar regulando” e “preservar melhorando” (e, secundariamente, “só se destrói o que se substitui”)

6.2.5.2.          As condições de atuação do patriciado devem ser respeitadas, ao mesmo tempo em que ele deve ser cobrado publicamente em suas atribuições:

6.2.5.2.1.              Vale lembrar que Augusto Comte fala em “patriciado” e não em “burguesia”: nosso mestre era extremamente crítico da burguesia, que ele via com mesquinha, individualista, egoísta

6.2.5.2.2.              A separação dos dois poderes é uma das condições sociais, políticas e morais dessa cobrança, feita pela opinião pública orientada pelo sacerdócio

6.2.5.2.3.              Como dizia Augusto Comte, “grandes responsabilidades exigem grandes poderes”; inversamente, o Homem-Aranha afirma que “grandes poderes acarretam grandes responsabilidades”

6.2.6. A Religião da Humanidade, isto é, o sacerdócio muda a sociedade por duas vias complementares: (1) fornecendo os parâmetros gerais e (2) orientando os agentes específicos

6.2.6.1.          É necessário insistir em que o Positivismo oferece as diretrizes gerais; os detalhes específicos das ações concretas cabem aos executores

6.2.6.2.          Os servidores da Humanidade têm a responsabilidade por suas condutas; o sacerdócio aconselha-os e admoesta-os

6.2.6.2.1.              Em outras palavras, trata-se de melhorar o mundo melhorando o homem

6.2.6.3.          A proposição de parâmetros gerais e o aconselhamento individual não são “moralismo”: essa é a única forma de atuar politicamente sem violência

6.2.6.3.1.              Nossa época crítica considera que tudo o que consiste em afirmação de valores morais equivale sempre a hipocrisia; essa hipocrisia é chamada de “moralismo”

6.2.6.3.2.              Embora evidentemente essa hipocrisia sempre possa ocorrer, a identificação da exceção como se fosse a regra é um dos sinais mais claros do aspecto destruidor e crítico de nossa época

6.2.6.3.3.              A afirmação da moralidade como “moralismo” hipócrita apresenta-se como grande sabedoria política, mesmo e principalmente pelos doutores acadêmicos!

6.3.   Feitas essas lembranças, podemos passar para a discussão do papel político da Religião da Humanidade

6.3.1. A religião da Humanidade é uma religião cívica, o que significa que nos interessam as questões políticas

6.4.   Devemos fazer vários esclarecimentos sobre o caráter cívico do Positivismo

6.4.1. “Religião cívica” é diferente de “religião civil”

6.4.1.1.          A religião cívica é aquela que se preocupa com vários aspectos da vida política

6.4.1.2.          A religião civil é uma doutrina oficial de Estado, como o catolicismo na quase totalidade de sua existência, os protestantismos em todos os lugares em que uma seita específica é dominante, o marxismo nos países comunistas, o nazismo na Alemanha, o fascismo na Itália etc.

6.4.1.3.          A religião civil foi particularmente teorizada por J.-J. Rousseau, a partir da experiência da Genebra calvinista; Rousseau afirmou que a democracia exige sempre, necessariamente, a adesão dos cidadãos a uma doutrina oficial do Estado; quem não concordar (mesmo que da boca para fora) com isso deve democraticamente ser preso, exilado ou morto

6.4.2. Há vários sentidos da palavra “política”: polity, politics, policy; relações de poder e busca do bem viver

6.4.2.1.          Polity corresponde ao conjunto das instituições sociais e políticas vigentes em uma sociedade; policy corresponde a cada “política pública” (educação, saúde, previdência, relações internacionais, gestão econômica etc.); politics é a política do dia-a-dia, com as negociações, as campanhas eleitorais etc.

6.4.2.2.          As relações de poder e a busca do bem viver são duas concepções gerais: Aristóteles definiu a política como a busca da organização social que busca o bem viver; em contraposição a Aristóteles, Hobbes reduziu a política às relações de poder, ou melhor, de dominação

6.4.2.3.          O Positivismo considera cada uma dessas concepções, embora, evidentemente, de diferentes maneiras e com várias intensidades: o Positivismo procura manter-se distante da politics (mas não indiferente ou omisso em relação a ela); mantém uma preocupação com a policy e com as relações de poder; concede grande atenção para a polity e considera que a política, em última análise, deve ser a busca do bem viver

6.4.3. O interesse pelas questões políticas é diferente de partidarização da religião

6.4.3.1.          A partidarização consiste em assumir um espírito particular de partido, ou seja, consiste em abandonar as vistas gerais – e a generosidade – em favor de vistas particulares e mesquinhas (o marxismo, o identitarismo, o fascismo etc. são assim)

6.4.3.2.          A partidarização, portanto, vincula-se à mesquinhez, à intolerância, à agressividade

6.4.3.3.          A partidarização deve ser entendida em sentido amplo, mas essa concepção cai como uma luva com as instituições sociais chamadas atualmente de “partidos políticos”: a religião que se vincula a um partido político degrada-se

6.4.3.4.          No final das contas, a partidarização acaba opondo-se à separação dos dois poderes, seja em termos concretos (quando o sacerdócio vincula-se a um partido político), seja em termos “sociais” (quando o sacerdócio de qualquer maneira abandona suas necessárias dignidade, perspectivas gerais e generosidade)

6.4.4. A rejeição da partidarização é diferente da “neutralidade”

6.4.4.1.          Antes de mais nada, essa é uma defesa de um certo quietismo

6.4.4.1.1.              O quietismo é a postura intelectual e prática que defende um afastamento das disputas sociais e políticas, em um sentido de “quietude” (daí o nome)

6.4.4.1.2.              Assim, o quietismo acaba sendo uma forma de omissão social e política

6.4.4.2.          A “neutralidade” significa de modo geral que o sacerdócio deve manter-se distante das questões políticas – ou seja, que ele deve tornar-se omisso, alienado e voltar-se apenas para o âmbito privado (fazendo referências etéreas e meio inúteis no âmbito público)

6.4.4.3.          A neutralidade opõe-se à partidarização, mas é igualmente daninha da dignidade do sacerdócio, seja porque torna inútil e omisso o sacerdócio, seja porque afirma uma dignidade que não serve para nada

6.4.4.4.          A exigência de neutralidade é feita por pessoas que gostariam que o Positivismo não tratasse de questões políticas e que são incapazes de perceber que a preocupação com questões políticas em geral implica a defesa de algumas perspectivas específicas, sem que isso represente a defesa de políticos ou de partidos em particular

6.4.4.5.          Qual seria a neutralidade possível por exemplo na época da Abolição? Ou da República? Ou da crítica ao Eixo? Ou na campanha “O Petróleo É Nosso”? Ou no combate ao imperialismo e ao neocoloniaismo? Ou da defesa dos trabalhadores contra a exploração dos burgueses?

6.4.4.6.          Muitos dizem que temos que ser “neutros” porque estaríamos sendo de “esquerda”

6.4.4.6.1.              Curiosamente, a exigência de neutralidade é apenas quando seríamos de “esquerda”

6.4.4.6.2.              Mas, na verdade, não estaríamos sendo de “esquerda”; na verdade, temos elementos de “esquerda” e de “direita”: somos positivistas e defendemos posturas próprias à positividade

6.4.4.6.3.              O fato de que muitas vezes esses temas também serem defendidos por marxistas, comunistas, identitários etc. não implica concordância com eles; na verdade, isso significa que eles têm uma certa positividade, em termos de sentimentos e de algumas práticas

6.4.4.6.4.              Assim, na verdade, é a “esquerda” que se aproximaria do Positivismo

6.4.4.6.5.              De qualquer maneira, lamentavelmente, durante bem mais de 100 anos a esquerda deixou-se corromper pelo marxismo, que por sua vez causou inúmeros e profundos danos à Humanidade

6.4.4.6.6.              A mentalidade “Guerra Fria” é uma das conseqüências mais nefastas do marxismo e prejudica todas as sociedades: essa mentalidade consiste em associar políticas progressistas ao marxismo (ou ao comunismo soviético, tanto faz) e, devido a tal associação, rejeitar essas políticas porque elas seriam “marxistas” (ou “comunistas”)

6.5.   Por fim, há dois extremos errados de avaliação da separação dos dois poderes proposta pela Religião da Humanidade: (1) “É religião, logo não deve intrometer-se na política” e (2) “A Religião da Humanidade é política disfarçada de religião”

6.5.1. A idéia de que o Positivismo, por ser uma religião, não deveria tratar de política já foi comentada acima; é uma exigência feita em particular para as teologias e daí estendida para o Positivismo; isso não tem o menor cabimento

6.5.2. Já afirmar que o Positivismo é uma política disfarçada de religião é uma concepção muito comum, repetida em particular pelos doutores acadêmicos – isto é, pelos metafísicos em geral e pelos materialistas em particular (embora teológicos também adotem essa postura)

6.5.2.1.          Essa é uma forma de criticar e degradar o Positivismo

6.5.2.2.          Essa é uma forma cômoda de dividir o mundo: de um lado, os teológicos retrógrados; de outro lado, os materialistas progressistas; todas as relações sociais seriam relações de poder, de dominação e exploração; como disse Marx, de sua habitual maneira brutal, “a religião é o ópio do povo”: não haveria sinceridade nas religiões, apenas formas de dominação disfarçadas

6.5.2.2.1.              Nessa concepção, o Positivismo não seria teológico (ou talvez fosse – afinal, é uma “religião”), mas com toda a certeza seria um ópio tanto quanto as teologias

6.5.2.2.2.              É claro que, nesse esquema, somente os marxistas seriam honestos, corretos, coerentes, não alienados e não alienantes etc.

6.6.   Em suma:

6.6.1. O Positivismo é uma religião cívica

6.6.2. A instituição fundamental, base para todas as ações posteriores, é a separação entre os poderes temporal e espiritual

6.6.2.1.          O Positivismo é a única religião que defende sistematicamente a separação dos dois poderes

6.6.3. A noção de religião cívica (preocupação com questões políticas) é diferente da de religião civil (religião oficial obrigatória)

6.6.4. A preocupação com a vida política exige o afastamento simultâneo dos extremos opostos da partidarização (a vinculação a grupos específicos e o afastamento da perspectiva geral e dos sentimentos generosos) e da “neutralidade” (o silenciamento a respeito de questões políticas, geralmente a favor de perspectivas de “esquerda” e seguindo a mentalidade Guerra Fria)

6.6.5. Duas críticas opostas também surgem quando se afirma a atuação política do Positivismo: a exigência de ele manter-se distante da política por ser uma religião e a afirmação de que ele seria, na verdade, uma política disfarçada de religião

7.     Término da prédica

 

Referências

- Auguste Comte (franc.), Síntese subjetiva (Paris, Exécution Téstamentaire d’Auguste Comte, 2ª ed., 1900): https://archive.org/details/lasynthsesubjec00comtgoog.

- Augusto Comte (franc.), Sistema de filosofia positiva (Paris, Bachelier, 1838), v. 3, 45e leçon (“Considérations générales sur l’étude positive des fonctions intellectuelles et morales, ou cérébrales”).

- Augusto Comte (franc.), Sistema de política positiva (Paris. J.-B. Baillière, 4ª ed., 1880): https://archive.org/details/systmedepoliti01comt.

- Augusto Comte (port.), Apelo aos conservadores (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores.

- Augusto Comte (port.), Catecismo positivista (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 4ª ed., 1934).

- José Lonchampt (port.), Ensaio sobre a oração (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1896; catálogo da IPB, n. 165): https://archive.org/details/n.-165-jose-lonchampt-ensaio-sobre-a-oracao.

- Luís Lagarrigue (esp.), A poesia positivista (Santiago do Chile, 1890): https://archive.org/details/luis-lagarrigue-a-poesia-positivista-1890_202509.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), As últimas concepções de Augusto Comte (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-i e https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-ii.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), O ano sem par (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1900): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-o-ano-sem-par-portug._202312/page/n7/mode/2up.