Igreja Positivista Virtual
Apelo pela fraternidade, contra a mesquinhez violenta e vingativa
O amor por princípio
e a ordem por base; o progresso por fim
Viver às claras Ordem e progresso Viver para outrem
Não
há como sermos sutis: as ameaças e as realizações efetivas de boicotes, de
demissões, de omissão de socorro, de recusa de atendimento, de fornecimento de
produtos (incluindo remédios e tratamentos) inadequados – tudo isso da parte de
muitos brasileiros ditos “de direita”, ou conservadores, é inaceitável e deve
cessar imediatamente.
Desde
a noite do dia 25 de outubro de 2026, após a constatação da vitória do
candidato a Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva e da derrota do
candidato Flávio Nantes Bolsonaro, há reiteradas manifestações e realizações
das práticas mais abjetas: humilhação sistemática, em particular de cidadãos
vulneráveis (crianças, mendigos, idosos etc.); atropelamento de crianças por
veículos; atropelamento de motociclistas por viaturas policiais; assassinatos e
tentativas de assassinato por espancamentos ou por tiros; demissão de
trabalhadores; boicote de comerciantes e prestadores de serviços; recusa de
atendimento da parte de médicos, enfermeiros, advogados, servidores públicos;
atendimento de má qualidade e/ou oferta de produtos e serviços inadequados etc.
Aliás, nem mesmo os animais têm sido poupados: burros e jumentos têm recebido
números e símbolos associados ao candidato vencedor e obrigados a padecer das
condições mais cruéis de trabalho, até à morte. Todos esses comportamentos têm
sido sugeridos ou praticados por uma parte dos cidadãos brasileiros contra uma
outra parte, como se fossem comportamentos virtuosos e justos.
Entretanto,
ao contrário de serem aceitáveis e legítimos, esses comportamentos são a
sistematização da violência física direta, da violência moral, da
discriminação, da irresponsabilidade cívica e profissional. Esses
comportamentos são, todos eles, com justiça, ilegais e seus propositores e
praticantes já estão sendo denunciados para os órgãos competentes. Todavia,
esses comportamentos, muito mais e muito antes que ilegais, são profundamente
imorais, na medida em que intencionalmente prejudicam outros cidadãos e seres
humanos – e, ainda por cima, motivados por mesquinhez.
A
difusão dessas propostas e dessas práticas e o espírito que as alimenta exige
que nos manifestemos com clareza. Esses comportamentos constituem violências
políticas; sua repressão pelos órgãos do Estado, embora necessária, abrange
apenas a superfície do problema; na medida em que eles envolvem valores e
idéias, sua solução é necessariamente moral, ou melhor, religiosa: é por isso
que divulgamos o presente apelo. (A religião não é o mesmo que a teologia; a
religião é a sistematização do conjunto da existência humana – afetiva, intelectual
e prática; privada e pública; doméstica, cívica e universal; objetiva e
subjetiva –, com vistas à harmonia dinâmica do ser humano. O fundamento de tal
sistematização é o altruísmo, ou o amor universal; em termos cívicos, isso se
constitui na fraternidade humana.)
A
profunda imoralidade desses comportamentos evidencia-se não apenas pela
intenção consciente e mórbida de prejudicar ao máximo possível outros seres
humanos. Essa imoralidade torna-se ainda pior porque ela apresenta inúmeros
aspectos:
-
os comportamentos que criticamos consistem em represálias adotadas para
manifestar o inconformismo com o resultado de eleições profundamente
polarizadas e radicalizadas;
-
eles são um esforço no final das contas inútil, na medida em que as
eleições já se encerraram, ou seja, o que havia para ser decidido já foi
decidido;
-
eles são um esforço de impor pela força o que deve ser obtido apenas
pelo convencimento pacífico e digno;
-
eles negam de maneira brutal os fundamentos de qualquer sociedade, a
saber, a fraternidade e a confiança mútua, ao estimularem e praticarem o ódio,
a violência e o ressentimento sistemáticos;
-
eles correspondem às práticas e às intenções temidas pelos
conservadores e pelos “de direita” e por estes atribuídas aos seus adversários
“de esquerda”;
-
eles consistem em práticas e intenções que, em situações normais, os
conservadores e os “de direita” considerariam inaceitáveis e que seria
prontamente denunciados e criticados;
-
eles são práticas e intenções degradantes que, assim que são
criticadas, seus propositores e realizadores logo em seguida, de maneira cínica
ou hipócrita, afirmam que teriam sido “incompreendidos”, que “estariam fora do
contexto” etc.;
-
eles são práticas e intenções dirigidas contra vulneráveis ou
dependentes, ou seja, são comportamentos particularmente mesquinhos e brutais;
-
práticas idênticas, motivadas igualmente pelo ressentimento, com
objetivos também punitivos ou vingativos, não constituem uma novidade
histórica, tendo sido largamente praticadas por nazistas e seus apoiadores na
Alemanha dos anos 1930 e 1940.
Essas
práticas e intenções são violentas e revelam uma profunda degradação moral e
intelectual. Além de infantis, elas correspondem ao oposto do que os seus
praticantes conservadores e “de direita” aceitam cotidianamente – ou, pelo
menos, que dizem aceitar. Esses comportamentos constituem uma reação mesquinha
a um resultado eleitoral específico. Se as eleições tivessem tido outro
resultado, os defensores dessas práticas e intenções exigiriam dos derrotados
exatamente o oposto do que agora propõem: aceitação, moderação, respeito ao
resultado das eleições etc. Apenas porque perderam a eleição, seus defensores
julgam-se no escandaloso direito de vingarem-se dos apoiadores e eleitores do
candidato vencedor.
As
eleições simplesmente não são o melhor mecanismo de seleção de governantes.
Como se sabe, as eleições constituem um mecanismo para solapar por baixo a
autoridade de cima; além disso, elas transformam em uma questão puramente
numérica vários problemas que, por definição, são qualitativos: a capacidade
governativa, a representação dos interesses da sociedade, a opinião pública
etc. Entretanto, apesar desses graves e profundos defeitos, no Brasil a
definição dos governos baseia-se no procedimento eleitoral, cujo resultado, bem
ou mal, tem que ser aceito. Tal aceitação não se vincula a gostar-se ou não dos
resultados, mas apenas a seguir-se com lisura os procedimentos coordenados pela
Justiça Eleitoral. Aliás, a aceitação dos resultados eleitorais vincula-se a um
traço fundamental de qualquer sociedade: a confiança mútua.
Apesar
de atuarem francamente na direção contrária, os conservadores e os “de direita”
que defendem as várias formas de violência mesquinha contra vulneráveis e
dependentes precisam da confiança mútua tanto quanto qualquer outro cidadão.
Não há sociedade sem confiança mútua. Todas as práticas e as intenções que aqui
criticamos destroem essa confiança mútua. Mais do que isso: elas destroem a
fraternidade e a generosidade; elas estimulam o ódio, a raiva, a desconfiança,
os ressentimentos.
Os
conservadores e os “de direita” que aqui criticamos supostamente são a favor do
conservadorismo e da ordem social, além de serem contra o “progresso”. As
práticas políticas e sociais mais favoráveis ao desenvolvimento, à liberdade e
à dignidade humana são afirmadas pelas reflexões e pelos ensinamentos da
Religião da Humanidade e sintetizadas na proposta de sociocracia. A proposta
sociocrática, por sua vez, esclarece que o verdadeiro conservadorismo não é
imóvel, nem deseja a volta ao passado, assim como o progresso não equivale à
destruição sistemática das instituições. Entretanto, como se sabe, o
conservadorismo que se vê no Brasil nos últimos anos tem orgulho de destruir e
de dizer que, “antes de construir qualquer coisa, devemos destruir muito” – em
particular, destruir tudo e qualquer coisa que se relacione ao “progresso”.
Contra essas intenções destruidoras, o verdadeiro conservadorismo afirma que a
sociedade e as instituições têm que continuar existindo, seja para que os cidadãos
possam levar suas vidas, seja para que as condições de vida possam melhorar (em
particular em favor dos mais fracos e dos mais frágeis). Assim, o verdadeiro
conservadorismo é ao mesmo tempo progressista e contra as destruições
sistemáticas; para que essas melhorias possam ocorrer, a partir da fraternidade
a confiança tem que ser efetivamente compartilhada pelo conjunto da sociedade.
As
práticas e as intenções que criticamos aqui rejeitam a fraternidade, destroem a
confiança, são particularistas e impedem qualquer progresso. Pior: apesar de
dizerem-se “conservadoras”, elas são contra qualquer conservação. Dessa forma,
ao serem sistematicamente contra o “progresso”, na verdade essas práticas e
intenções são contra a ordem – e aí não há ordem e nem progresso, mas em seu
lugar há muita violência e anarquia.
As
opiniões têm que ser respeitadas. A mudança de opinião deve ocorrer sempre,
necessariamente, apenas por meio do convencimento pacífico. A utilização da
violência para impor mudanças de opinião no fundo não é diferente do emprego do
Estado para impor crenças; a lamentável particularidade do presente caso
consiste apenas em que a violência é praticada no âmbito da sociedade e com um
caráter punitivo ou vingativo. Sem dúvida que muitos dos conservadores que aqui
criticamos desejam usar o Estado para impor suas crenças, especialmente crenças
teológicas. Em face disso, temos que reafirmar mais uma vez: nem a violência do
Estado nem a violência da sociedade são aceitáveis; nem a violência em geral
nem a violência usada para impor crenças são aceitáveis; nem a violência para
impor crenças, nem a violência para punir crenças são aceitáveis.
Como
dissemos no início deste documento, não há como sermos sutis aqui. Assim,
fazemos um apelo claro e direto para que os conservadores e os “de direita”
cessem imediatamente de propagar e/ou realizar as práticas aqui criticadas;
para que revejam seus comportamentos e suas intenções, no sentido de
respeitarem e praticarem o verdadeiro conservadorismo (progressista, fraterno, pacífico);
para que alterem as intenções e as práticas daqueles que estão a favor da
mesquinhez violenta e punitiva. Em suma, muito mais que por adotarem
comportamentos ilegais, isto é, criminosos, fazemos um apelo para que
conservadores e “de direita”, à luz de concepções verdadeiramente religiosas,
cessem a monstruosa violência política que têm praticado e retomem os hábitos
fraternos e promotores da confiança mútua.
Curitiba, 24 de Descartes de 172 (31 de
outubro de 2026).
Sacerdote da Humanidade Gustavo Biscaia de Lacerda,
em nome da Igreja Positivista Virtual
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