01 abril 2026

Nacionalismo e internacionalismo à luz do Positivismo

No dia 6 de Arquimedes de 172 (31.3.2026) realizamos nossa prédica positiva, dando continuidade à leitura comentada do Apelo aos conservadores (em sua Segunda Parte - Conduta dos positivistas em relação aos retrógrados).

No sermão abordamos os conceitos e as práticas do nacionalismo e do internacionalismo, à luz do Positivismo.


As anotações que serviram de base para a exposição oral encontram-se reproduzidas abaixo.

*   *   *

Nacionalismo e internacionalismo à luz do Positivismo

(6 de Arquimedes de 172/31.3.2026) 

1.     Abertura da prédica

2.     Datas e celebrações:

2.1.   Dia 1º de Arquimedes (26 de março): início do quarto mês do ano, Arquimedes, dedicado à ciência antiga

2.2.   Dia 4 de Arquimedes (29 de março): nascimento de David Carneiro (1904 – 122 anos)

2.3.   Dia 7 de Arquimedes (1º de abril): nascimento de Eduardo de Sá (1866 – 160 anos)

2.4.   Dia 9 de Arquimedes (3 de abril): nascimento de Clotilde de Vaux (1815 – 211 anos)

2.5.   Dia 11 de Arquimedes (5 de abril): transformação de Clotilde (1846 – 180 anos)

3.     Leitura comentada do Apelo aos conservadores

3.1.   Antes de mais nada, devemos recordar algumas considerações sobre o Apelo:

3.1.1. O Apelo é um manifesto político e dirige-se não a quaisquer pessoas ou grupos, mas a um grupo específico: são os líderes políticos e industriais que tendem para a defesa da ordem (e que tendem para a defesa da ordem até mesmo devido à sua atuação como líderes políticos e industriais), mas que, ao mesmo tempo, reconhecem a necessidade do progresso (a começar pela república): são esses os “conservadores” a que Augusto Comte apela

3.1.2. O Apelo, portanto, adota uma linguagem e um formato adequados ao público a que se dirige

3.1.3. Empregamos a expressão “líderes industriais” no lugar de “líderes econômicos”, por ser mais específica e mais adequada ao Positivismo: a “sociedade industrial” não se refere às manufaturas, mas à atividade pacífica, construtiva, colaborativa, oposta à guerra

3.2.   Outras observações:

3.2.1. Uma versão digitalizada da tradução brasileira desse livro, feita por Miguel Lemos e publicada em 1899, está disponível no Internet Archive: https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores

3.2.2. O capítulo em que estamos é a “Segunda Parte”, cujo subtítulo é “Conduta dos conservadores em relação aos retrógrados”

3.3.   Passemos, então, à leitura comentada do Apelo aos conservadores!

4.     Exortações

4.1.   Sejamos altruístas!

4.2.   Façamos orações!

4.3.   Como Igreja Positivista Virtual, ministramos os sacramentos positivos a quem tem interesse

4.4.   Para apoiar as atividades dos nossos canais e da Igreja Positivista Virtual: façam o Pix da Positividade! (Chave Pix: ApostoladoPositivista@gmail.com)

5.     Sermão: nacionalismo e internacionalismo à luz do Positivismo

5.1.   O tema deste sermão reveste-se de grande importância atual, na medida em que tanto o nacionalismo quanto o internacionalismo voltaram e estão na pauta política atual

5.1.1. Geralmente, quando tratamos desses temas, eles são abordados de maneira isolada um do outro; mas, tanto devido à conjuntura atual quanto devido às considerações do Positivismo, é importante abordarmos os dois temas em conjunto, ou melhor, em uma única prédica

5.1.2. Como todas as reflexões sobre o ser humano, temos que combinar aqui comentários mais objetivos e outros mais subjetivos, expondo elementos sobre a realidade social, política e moral, da mesma forma que considerando os parâmetros que permitem regular tais aspectos, considerando o estado normal do ser humano

5.1.3. É importante notarmos que o nacionalismo, desde o século XVII (1648), foi afirmando-se e regulando-se, até se estabilizar no século XIX; mas desde fins do século XIX ele desregulou-se e resultou na II Guerra dos 30 Anos (1914-1945); a partir de então, o internacionalismo afirmou-se cada vez mais, impôs-se e passou a regular as relações internacionais; mas a partir de 2016 os dois movimentos ficaram desajustados

5.2.   Comecemos definindo minimamente cada um desses dois termos

5.2.1. O nacionalismo é a concepção que afirma a centralidade política e moral de cada país e que, ao menos em princípio, esse país é a forma suprema de associação humana

5.2.1.1.          A associação política nacional é afirmada em relação (com freqüência em contraposição) a outros países

5.2.1.2.          A afirmação nacionalista é tanto política quanto moral

5.2.1.2.1.              Em termos políticos, a contraposição é necessária para que o próprio país afirme-se, valorize-se e, no limite, exista; a contraposição portanto assume um caráter existencial, no sentido de no mínimo afirmar a independência nacional

5.2.1.2.2.              Em termos morais, afirma-se a correção, o aspecto positivo da existência nacional; essa existência desenvolve um sentimento de adesão, de apoio, que é considerado correto e bom; a adesão à nação é percebida como moralmente superior à adesão a outros vínculos políticos

5.2.1.3.          Podemos considerar que o nacionalismo assume algumas variedades:

5.2.1.3.1.              Em um primeiro caso, ele afirma-se como elo para a independência nacional; dessa forma, o nacionalismo é fator de aglutinação interna e de reação a um outro país, que exerce o controle externo

5.2.1.3.2.              Em um segundo caso, o nacionalismo contrapõe-se não a um país que exerce o controle político externo, mas a um ou a vários países que são encarados como ameaçando a autonomia e a existência do nosso país (trata-se de uma reação defensiva, quer seja real, quer seja percebida assim)

5.2.1.3.3.              Um terceiro caso consiste no nacionalismo como impulso para dominar os outros países; trata-se então de uma justificativa para o imperialismo e/ou o colonialismo

5.2.1.3.4.              Em um quarto caso, o nacionalismo afirma-se não em contraposição a outros países, mas em contraposição ao internacionalismo, entendido este como uma perspectiva e uma prática que enfraquece a realidade nacional

5.2.1.3.5.              Por fim, em um quinto caso, o nacionalismo afirma-se não em relação aos que estão “do seu lado” ou do que estaria “acima”, mas em relação às unidades políticas subnacionais, vistas como tendo excesso de autonomia, ou, então, a respeito de diversos vínculos não políticos (como os de classe, ou de etnia, ou de religião, de profissões, ou, mais recentemente, até de gênero e “raça”!)

5.2.2. O internacionalismo, por outro lado, estabelece que, mais que cada país em particular, o que importa é o respeito e/ou a adesão a vínculos superiores ou mais gerais

5.2.2.1.          Assim como no caso do nacionalismo, o internacionalismo tem um aspecto político e outro moral (bem entendido: ambos estreitamente vinculados)

5.2.2.1.1.              O aspecto moral estabelece que a realidade nacional é muito estreita, muito pequena e, de qualquer maneira, muito egoísta para merecer adesões supremas; de maneira oposta, as realidades extranacionais são percebidas como mais amplas, mais abertas, mais generosas e, daí, como merecedoras de adesões mais intensas

5.2.2.1.2.              O aspecto político do internacionalismo contrapõe as possibilidades extranacionais à nacional; esta última, por sua vez, é enfraquecida e limitada

5.2.2.2.          No âmbito do internacionalismo também podemos ter várias possibilidades:

5.2.2.2.1.              Um primeiro caso de internacionalismo consiste no cosmopolitismo: essa concepção considera que o desprezo aos vínculos nacionais é algo bom e meritório e que ser “cidadão do mundo”, no sentido de não se vincular a nenhum país em particular, em ser potencialmente um apátrida, seria o ideal políticos

5.2.2.2.1.1. Para evitarmos qualquer ambigüidade a respeito: rejeitamos essa forma de internacionalismo, que despreza os vínculos sociais e é típica das pessoas super-ricas

5.2.2.2.2.              Um segundo caso de internacionalismo consiste na adesão a organizações supranacionais (ONU, Igreja Católica, Internacional Socialista, OTAN etc.), que teriam o papel de regular as relações internacionais, seja por meio da coordenação de esforços (como no caso da OTAN), seja por meio do estabelecimento de regras; uma forma de internacionalismo é o federalismo internacional, mais ou menos o que ocorre na União Européia, mais ou menos o que ocorria nos Estados Unidos entre 1776 e 1787 etc.

5.2.2.2.3.              Um terceiro caso de internacionalismo valoriza os vínculos não políticos (cultura, classe, etnia, religião, gênero, “raça” etc.)

5.3.   A intensidade e, no limite, a existência das fronteiras nacionais é um parâmetro central na distinção entre nacionalismo e internacionalismo (e entre os vários tipos de nacionalismos e de internacionalismos)

5.3.1. O que diferencia a política interna, por um lado, da política externa e da política internacional, por outro lado, é a existência das fronteiras nacionais: elas permitem a existência de unidades que são politicamente autônomas umas das outras, no sentido de que no interior de suas fronteiras aplicam-se as leis próprias a cada uma dessas unidades, conforme as decisões tomadas por essas unidades: isso é o que se chama “soberania nacional”

5.3.1.1.          Como o nome sugere, a soberania surgiu da existência antiga de um soberano, que, nos limites de um território, era a autoridade máxima em termos de lei

5.3.1.2.          Vale a pena insistirmos nessa idéia: a existência das fronteiras nacionais, ou da soberania nacional, é o que distingue a política interna da política externa: se não houvesse mais fronteiras, toda a política seria política interna

5.3.1.3.          Separamos a política externa da política internacional: a política externa são as ações tomadas por um país em relação aos outros países e às entidades não nacionais; já a política internacional consiste no conjunto das ações dos vários países, das organizações internacionais etc.

5.4.   Falamos que muito da importância do tema deste sermão deve-se à desregulação contemporânea do nacionalismo e do internacionalismo: de fato, se, desde 1945, havia um certo acordo internacional no sentido de respeitar as soberanias nacionais e, ao mesmo tempo, desenvolver paulatinamente uma governança internacional, a partir de 2016 o internacionalismo no Ocidente passou a ser agressivamente criticado, em favor de um nacionalismo agressivo e ciumento (quando não imperialista)

5.5.   Após termos visto em linhas gerais as possibilidades do nacionalismo e do internacionalismo, devemos tratar da questão seguinte: como o Positivismo entende esses problemas?

5.5.1. Conforme a lei afetiva dos três estados, o Positivismo estabelece que há três níveis sucessivos e complementares de sociabilidade: a família, a pátria e a Humanidade

5.5.2. Cada um desses níveis tem diferentes fundamentos na natureza humana; além disso, suas amplitudes e suas intensidades variam: a família baseia-se nos sentimentos mútuos, é a mais restrita e a mais intensa; a Humanidade baseia-se no compartilhamento de valores e idéias, é a mais ampla e a menos intensa; as pátrias baseiam-se nas atividades práticas e têm graus intermediários de tamanho e de intensidade

5.5.3. Das famílias à Humanidade ocorreu uma evolução histórica: as mais antigas associações humanas baseavam-se na família (estendendo-se às tribos); com o aumento das populações e o aumento da complexidade da divisão do trabalho, organizaram-se as pátrias (com as castas atuando de maneira intermediária); por fim, o ideal e a realidade da Humanidade têm-se desenvolvido nos últimos séculos

5.5.4. É importante notarmos que, ao contrário das outras duas leis dos três estados (da inteligência e da atividade prática), a lei afetiva não acarreta a supressão das fases anteriores pelas fases posteriores: enquanto a positividade sucederá a teologia e a metafísica, que desaparecerão, e a atividade pacífica e produtiva sucederá o militarismo, que desaparecerá, a Humanidade sucede as famílias e as pátrias, mas estas não deixam de existir: elas continuam existindo, mas suas existências são modificadas, ou melhor, são completadas e, daí, reguladas pelas fases posteriores e mais amplas

5.5.4.1.          Em outras palavras, as famílias são completadas e reguladas pelas pátrias e pela Humanidade, da mesma forma que as pátrias são completadas e reguladas pela Humanidade

5.5.4.2.          Aliás, mesmo a noção de Humanidade tem que ser completada e regulada, na medida em que ela desdobra-se em duas formas sucessivas, em que, igualmente, a fase posterior é mais ampla que a anterior: a solidariedade (o presente objetivo) tem que ser completada e regulada pela continuidade (a historicidade subjetiva)

5.5.4.3.          Esses diversos movimentos de completar e regular da lei afetiva dos três estados são acompanhados dos desenvolvimentos das outras duas leis; a plena realização da Humanidade subjetiva como reguladora da Humanidade objetiva, das pátrias e das famílias exige, também, a atividade pacífica e construtiva e o pleno relativismo: sem essas condições concomitantes, a Humanidade não se realiza e permanecemos nas longas e angustiosas transições

5.5.5.  Considerando os níveis das pátrias e da Humanidade, o que o Positivismo estabelece é a afirmação simultânea do “nacionalismo” e do “internacionalismo”

5.5.5.1.          O que propomos é um paralelismo entre pátrias-Humanidade e nacionalismo-internacionalismo

5.5.5.2.          Como as pátrias baseiam-se na atividade prática, sua existência é, em certo sentido, insuperável; em um dado território, a atividade prática tem que ser organizada e mantida por meio de uma pátria, ou seja, de um país

5.5.5.2.1.              É claro que essa organização não é uma questão técnica, mas envolve sentimentos, organização econômica, uma história e uma língua compartilhadas etc.

5.5.6. O problema das pátrias, ou melhor, do nacionalismo consiste na dificuldade em lidar com os valores que são compartilhados para além das próprias pátrias; ou, para simplificar, o problema está no conceito e na prática da soberania absoluta

5.5.6.1.          Indicamos antes que a soberania nacional surgiu vinculada ao poder dos soberanos, isto é, dos reis: esse poder era entendido de maneira absoluta e, além disso, na história do Ocidente, ele desenvolveu-se em contraposição negadora do poder do imperador e do papa, em termos políticos e até militares

5.5.6.2.          O resultado desses aspectos históricos – concepção absoluta e negação política e militar de poderes superiores – é que a soberania foi entendida como a capacidade máxima de criação e imposição das leis em um determinado território, negando e rejeitando influências externas: em outras palavras, a soberania tornou-se sinônima de unidades políticas isoladas umas das outras

5.5.6.2.1.              Essa concepção de soberania foi inicialmente desenvolvida em termos teológicos (pensemos no caso da Igreja Anglicana, cujo particularismo evita as ambigüidades dos países que permaneceram católicos) mas logo se converteu na metafísica (como as obras de Hobbes e, depois e de maneira muito mais clara e intensa, de Rousseau deixam claro)

5.5.6.2.2.              A soberania teológica afirmou-se no conceito de “direito divino dos reis” (em que os reis governavam por mandato das divindades); já a soberania metafísica afirmou-se no conceito de “soberania do povo”, em que todos os atributos da soberania teológica foram reafirmados, com a simples mudança de o mandato ser conferido ao “povo” (ou, o que dá no mesmo, à “vontade popular”) e não mais ao rei

5.5.6.3.          O problema da soberania absoluta não é a autonomia nacional (a necessária capacidade que cada país deve ter de organizar-se internamente conforme seus próprios padrões); o problema da soberania é a rejeição de qualquer vínculo compartilhado com outros países e, a partir daí, a rejeição de valores, práticas, responsabilidades compartilhados

5.5.6.4.          Ora, como vimos, há diversas possibilidades de nacionalismo, sendo que nem todas aproximam-se dessa concepção de soberania; mas dependendo do momento, dos líderes políticos e da orientação da opinião pública, é muito fácil que o nacionalismo descambe para a soberania absoluta

5.5.7. O compartilhamento de valores, responsabilidades, práticas pelos diversos países (portanto, contra o conceito e a prática da soberania absoluta) acarreta a noção e a prática do complemento e da regulação das pátrias pela Humanidade

5.5.7.1.          O que se chama vulgarmente de “internacionalismo” pode ser entendido em termos positivistas como a afirmação da Humanidade: aliás, é exatamente esse entendimento que permite chegarmos a uma solução intelectualmente satisfatória, politicamente factível e afetivamente recompensadora: a noção de Humanidade não nega as pátrias – que, afinal de contas, devem permanecer existindo –, mas, rejeitando a soberania absoluta, afirma o destino comum dos seres humanos, a existência de sentimentos e idéias compartilhados, bem como a necessidade de compartilhar e convergir as atividades

5.5.7.2.          É importante reafirmar mais uma vez a idéia acima: o internacionalismo proposto pelos positivistas afirma o compartilhamento de valores e idéias e, a partir disso, a cooperação prática; isso combate a soberania absoluta, mas não nega as autonomias nacionais e a necessidade de cada país criar e manter suas próprias leis, conforme suas possibilidades e necessidades

5.5.7.3.          Embora não possamos neste momento desenvolver esta idéia, devemos apresentá-la com clareza: a distinção entre o nacionalismo e o internacionalismo, ou melhor, entre as pátrias e a Humanidade exige da mesma forma a separação entre o poder temporal e o poder espiritual

5.5.8. A convergência prática estimula a criação de órgãos internacionais, responsáveis pela cooperação mundial; tanto a convergência quanto a criação de órgãos internacionais podem avançar até mesmo para formas de confederalismo; mas, em todo caso, deve-se rejeitar a concepção de um “super-Estado mundial”: o internacionalismo deve existir de fato, mas tem que se manter inter-nacional

5.5.8.1.          A concepção de um “super-Estado mundial” deve ser abandonada com clareza porque cada país corresponde à organização prática em um determinado território, com uma população que compartilha a história nesse território, bem como valores e sentimentos; embora as particularidades locais não possam nunca ser tomadas como parâmetros supremos de avaliação e de condução na vida, ainda assim elas têm que ser minimamente respeitadas: cada país funda-se e fundamenta-se nesse respeito

5.5.8.2.          Em decorrência do item acima, um “super-Estado mundial” será necessariamente incapaz de respeitar as particularidades locais; o resultado dessa impossibilidade é a tomada de decisões que desconsideram as particularidades locais e tornam-se, dessa forma, inadequadas para essas regiões; daí para a imposição das decisões é um passo e, em seguida, é outro passo para a violência política e social: dessa forma, um “super-Estado mundial” converter-se-á com rapidez em uma fonte de tirania e violência sistemática, o que resultará em seguida em guerra civil

5.5.9. Os problemas contemporâneos apresentados pelo nacionalismo e pelo internacionalismo no Ocidente apresentam justamente os vícios que vimos expondo:

5.5.9.1.          O renovado nacionalismo de vários países (por exemplo, Inglaterra e, ainda mais, Estados Unidos) baseia-se na reafirmação soberania absoluta – que, além dos seus problemas intrínsecos, está profundamente desregulada;

5.5.9.2.          Por outro lado, o internacionalismo tem sido desafiado (na medida em que esse desafio é minimamente aceitável) pelo sentimento de que as decisões aplicadas em determinados territórios locais são tomadas em lugares distantes por grupos e por políticos alheios às realidades locais, indiferentes aos destinos, às necessidades, às preocupações e aos sentimentos das populações locais; assim, tais decisões são injustas, inadequadas e tirânicas: foram esses sentimentos e essas idéias que estiveram na base da vitória do Brexit, em 2016

5.5.10.   Um aspecto adicional que devemos indicar é que as pátrias têm que ser pequenas, sob risco de tornarem-se opressivas e irresponsáveis

5.5.10.1.       Um dos princípios fundamentais da política moderna é a responsabilidade: ora, a responsabilidade exige a proximidade entre os cidadãos, com o conhecimento pessoal uns dos outros, a afirmação das responsabilidades mútuas, a noção de compartilhamento de um destino comum, o compartilhamento de sentimentos e idéias, a formação e a atuação da opinião pública, a fiscalização direta das atividades mútuas; com isso, os laços objetivos e subjetivos tornam-se mais evidentes e mais fortes e o bem-estar coletivo realiza-se de fato

5.5.10.2.       Além disso, a pequena extensão territorial estimula o pacifismo e torna mais simples as relações entre o nacionalismo e o internacionalismo (ou entre as pátrias e a Humanidade), em que cada país entende sua atuação e sua importância para os destinos de todos os países

5.5.10.3.       Aliás, a pequena extensão territorial também facilita as relações entre as famílias e as pátrias, ao tornar mais diretos e claros os vínculos e os destinos comuns e cada cidadão e cada família entende sua atuação e sua importância para os destinos de sua pátria

5.5.10.4.       Inversamente, países de grandes extensões territoriais estimulam o autoritarismo interno, a perda dos vínculos com o exterior (na forma do ensimesmamento) e, a partir disso, também estimulam as formas degradadas de nacionalismo

5.6.   O que comentamos acima pode parecer evidente para alguns, mas tal suposta evidência tem um quê de ilusório: como dissemos, as relações políticas contemporâneas padecem de graves problemas, sendo que não se sabe se e o que há de legítimo no nacionalismo, da mesma forma que não se sabe se e o que há de legítimo no internacionalismo

5.6.1. Como vimos, além de termos que distinguir entre várias modalidades de nacionalismo e internacionalismo, o que devemos notar é que a oposição dura entre ambos é inadequada: o que há e o que deve haver é continuidade entre ambos, a partir de diferentes fundamentos morais, antropológicos e sociais

5.6.2. A continuidade entre as pátrias e a Humanidade pressupõe a permanente existência dos países, a rejeição de propostas de “super-Estado mundial”, o compartilhamento de valores e idéias e a coordenação das atividades práticas

5.6.3. Além da afirmação da continuidade entre nacionalismo e internacionalismo, essa continuidade exige uma série de condições sociais, políticas, intelectuais e afetivas: a redução radical do tamanho dos países, a cessação completa da violência (em particular da violência militar) e a afirmação da paz, a adoção de concepções relativas, o estímulo dos bons sentimentos

6.     Término da prédica

 

Referências

- Auguste Comte (franc.), Síntese subjetiva (Paris, Exécution Téstamentaire d’Auguste Comte, 2ª ed., 1900): https://archive.org/details/lasynthsesubjec00comtgoog.

- Augusto Comte (franc.), Sistema de política positiva (Paris. J.-B. Baillière, 4ª ed., 1880): https://archive.org/details/systmedepoliti01comt.

- Augusto Comte (port.), Apelo aos conservadores (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores.

- Augusto Comte (port.), Catecismo positivista (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 4ª ed., 1934).

- José Lonchampt (port.), Ensaio sobre a oração (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1896; catálogo da IPB, n. 165): https://archive.org/details/n.-165-jose-lonchampt-ensaio-sobre-a-oracao.

- Luís Lagarrigue (esp.), A poesia positivista (Santiago do Chile, 1890): https://archive.org/details/luis-lagarrigue-a-poesia-positivista-1890_202509.

- Luís Lagarrigue (franc.), Politique internationale (Paris, Garnier, 1928): https://archive.org/details/luis-lagarrigue-politica-internacional-franc.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), As últimas concepções de Augusto Comte (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-i e https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-ii.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), O ano sem par (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1900): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-o-ano-sem-par-portug._202312/page/n7/mode/2up.

25 março 2026

3ª Circular Anual da IPV

No dia 27 de Aristóteles de 172 (24.3.2026) realizamos nossa prédica positiva.

De modo geral, as prédicas são dedicadas à leitura comentada do Apelo aos conservadores e a um sermão, além de outras partes cultuais; entretanto, como nessa prédica realizou-se a exposição do resumo da 3ª Circular Anual da Igreja Positivista Virtual, decidimos não abordar o Apelo, a fim de não sacrificar essa parte da prédica.

A versão completa da 3ª Circular Anual encontra-se disponível aqui: https://archive.org/details/3a-circular-anual-do-apostolado-positivista-relativa-a-171-2025.


As anotações que serviram de base para a exposição oral encontram-se reproduzidas abaixo.

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Leitura do resumo da 3ª Circular Anual (relativa a 171/2025)

(27 de Aristóteles de 172/24.3.2026) 

1.     Abertura da prédica

2.     Datas e celebrações:

2.1.   Lamento pela guerra contra o Irã, movida por Israel e EUA desde 28.2.2026

3.     Exortações

3.1.   Sejamos altruístas!

3.2.   Façamos orações!

3.3.   Como Igreja Positivista Virtual, ministramos os sacramentos positivos a quem tem interesse

3.4.   Para apoiar as atividades dos nossos canais e da Igreja Positivista Virtual: façam o Pix da Positividade! (Chave Pix: ApostoladoPositivista@gmail.com)

4.     Leitura do resumo da 3ª Circular Anual da IPV (relativa a 171/2025)

5.     Término da prédica 

Referências

- Auguste Comte (franc.), Síntese subjetiva (Paris, Exécution Téstamentaire d’Auguste Comte, 2ª ed., 1900): https://archive.org/details/lasynthsesubjec00comtgoog.

- Augusto Comte (franc.), Sistema de política positiva (Paris. J.-B. Baillière, 4ª ed., 1880): https://archive.org/details/systmedepoliti01comt.

- Augusto Comte (port.), Apelo aos conservadores (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores.

- Augusto Comte (port.), Catecismo positivista (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 4ª ed., 1934).

- José Lonchampt (port.), Ensaio sobre a oração (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1896; catálogo da IPB, n. 165): https://archive.org/details/n.-165-jose-lonchampt-ensaio-sobre-a-oracao.

- Luís Lagarrigue (esp.), A poesia positivista (Santiago do Chile, 1890): https://archive.org/details/luis-lagarrigue-a-poesia-positivista-1890_202509.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), As últimas concepções de Augusto Comte (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-i e https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-ii.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), O ano sem par (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1900): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-o-ano-sem-par-portug._202312/page/n7/mode/2up.

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Igreja Positivista Virtual

 

 

 

 

 

 

 

 

3ª Circular Anual

 

 

(relativa a 171/2025)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Curitiba

Aristóteles de 172 (março de 2026)


Igreja Positivista Virtual

 

 

 

 

3ª Circular Anual (relativa a 171/2025)

 

 

 

 

 

Viver às claras

 

Os vivos são sempre e cada vez mais, necessariamente, governados pelos mortos

 

Concebei-a, minha filha, segundo os diversos modos ou graus do sacerdócio positivo, classificados na ordem de sua plenitude crescente. Este grande ministério exige um raro concurso das qualidades morais, tanto ativas como afetivas, com os talentos intelectuais, estéticos e científicos. Se, pois, estes forem os únicos salientes, seus possuidores, após uma cultura conveniente, terão de permanecer, talvez para sempre, simples pensionistas do poder espiritual, sem aspirarem nunca a ser nele incorporados. Em tais casos, felizmente excepcionais, o maior gênio poético ou filosófico não pode dispensar de ternura e de energia um funcionário que deve estar habitualmente animado por simpatias íntimas e destinado amiúde a lutas difíceis

(Catecismo positivista, 5ª Conferência)

 

(Augusto Comte)

 


Sumário

1. INTRODUÇÃO JUSTIFICATIVA.. 4

2. O AMBIENTE EM QUE ATUA A IGREJA POSITIVISTA VIRTUAL. 6

2.1. Três aspectos iniciais. 6

2.2. Caracterização sociológico-moral ampla. 8

3. AS ATIVIDADES DA IGREJA POSITIVISTA VIRTUAL EM 171 (2025) 11

3.1. Estrutura da Igreja Positivista Virtual 11

3.2. Atividades desenvolvidas. 12

3.3. Outras atividades relevantes. 16

4. PERSPECTIVAS FUTURAS DA IGREJA POSITIVISTA VIRTUAL. 18

 


1. INTRODUÇÃO JUSTIFICATIVA

 

O presente documento consiste na terceira circular anual da Igreja Positivista Virtual; ela abrange o ano de 171 do calendário normal, que, no calendário júlio-gregoriano, corresponde a 2025.

Façamos algumas considerações preliminares. Em primeiro lugar, como observamos na segunda circular anual, não temos preocupação com “originalidade” na presente Circular, no sentido de somos nós mesmos os autores deste documento e dos anteriores, além de que muitas das considerações anteriormente feitas necessariamente têm que ser aqui repetidas; dessa forma, não nos sentimos obrigados a reescrever ou a alterar a redação anterior a fim de evitar um suposto autoplágio. Entretanto, tal ausência de preocupação só é possível devido aos dois fatores indicados – somos os autores das circulares e muitos dos temas necessariamente se repetem –; a respeito de outros aspectos, a “originalidade” mais ou menos se aplica, em particular no sentido de que somos responsáveis por tudo quanto está escrito neste documento, bem como por todas as decisões concernentes à Igreja Positivista Virtual, incluindo aí as interpretações e as aplicações específicas que julgamos corretas e adequadas à Religião da Humanidade. Um outro aspecto que nos tranqüiliza a respeito de qualquer preocupação com “autoplágio” é que os trechos que se repetem não são meramente repetições; quem fizer o cotejo dos documentos logo perceberá que das circulares anteriores para esta o procedimento que adotamos na prática foi o de desenvolvermos reflexões anteriormente feitas, aumentando e complementando comentários. O que temos, então, é uma aplicação prática da conjunção entre a ordem e o progresso, na forma do “conservar melhorando”, em que ao longo do tempo mantemos reflexões básicas que se vão desenvolvendo, complementando e, quando necessário, corrigindo-se.

Feito esse esclarecimento, justifiquemos uma circular. O seu objetivo é anualmente realizar uma prestação pública de contas das atividades desenvolvidas no período considerado; assim, devemos explicar e justificar o que entendemos por “prestação de contas” e “pública”.

O conjunto de atividades que modestamente realizamos constitui propriamente um apostolado, ou seja, de difusão, aplicação e defesa de uma religião – no caso, a Religião da Humanidade, fundada em 1854 por Augusto Comte, sob a angélica inspiração de Clotilde de Vaux. Embora esse apostolado, elevado à dignidade de igreja, seja uma iniciativa pessoal de nossa parte, tendo, assim, uma origem unilateral, os seus objetivos só podem ser atingidos na medida em que tais esforços encontram eco em um público mais ou menos interessado e, dessa forma, o apostolado constitui-se em um poder espiritual. Na medida em que nos constituímos como poder espiritual, passamos a ter a responsabilidade pelas idéias, pelos valores, pelos juízos emitidos; sendo uma ação exercido sobre o público, a nossa responsabilidade é justamente perante esse público.

De ordinário nossa responsabilidade pode ser avaliada no cotidiano, justamente pela qualidade das nossas opiniões e das nossas avaliações, bem como da oportunidade em que se propõe cada uma dessas opiniões e avaliações. Mas uma avaliação periódica do conjunto das atividades também se impõe, seja das atividades em si mesmas, seja das atividades em relação ao meio em que elas ocorrem.

Sendo o poder espiritual um poder aconselhador e educador, o seu fundamento sociológico é a confiança de que ele vê-se merecedor da parte do público que ele constitui, organiza e orienta. A prestação de contas consiste, portanto, na exposição e na avaliação das atividades desenvolvidas durante um certo período de tempo, elaborada pelo órgão atuante do poder espiritual e dirigida ao público, a fim de este público avaliar, por sua vez, a correção e a oportunidade das atividades desenvolvidas pelo poder espiritual. O objetivo normal dessa avaliação, por sua vez, é confirmar a confiança depositada pelo público no poder espiritual.

A redação da circular anual, como forma de prestação de contas, não se constitui assim em uma concessão liberalmente feita em algum momento pelo órgão do poder Espiritual – concessão que tanto pode ser feita como pode não ser feita. A circular anual é uma obrigação do poder Espiritual; é um dever que se constitui na contrapartida da confiança depositada pelo público no órgão do poder espiritual. Por certo que todo poder Espiritual vê-se obrigado a tais prestações de contas; mas as espiritualidades teológicas e metafísicas, a partir de sua fundamental característica absoluta e, portanto, indiscutível, eludem essa responsabilidade, de tal maneira que os comportamentos efetivos dos órgãos espirituais e suas respectivas orientações tornam-se impassíveis de qualquer avaliação e, por outro lado, o público vê-se reduzido à confiança cega: em outras palavras, as espiritualidades absolutas são essencialmente irresponsáveis e irresponsabilizáveis; a cobrança pública de suas atividades é entendida como heresia ou blasfêmia, em todo caso como traição. Bem ao contrário disso, a espiritualidade positiva, a par de sua realidade e de sua relatividade, reconhece o seu dever perante o público; como dizia Augusto Comte, a positividade não teme a avaliação pública dos fundamentos da sociedade e é justamente a possibilidade de realizar tal exame que embasa a confiança do público no poder espiritual. Em última análise, trata-se de realizarmos, naquilo que cabe ao poder espiritual, a máxima pública “Viver às claras”; novamente conforme nosso mestre, na vida pública, quem não se dispõe a “viver às claras”, deve com razão ser suspeito de não “viver para outrem”.

A redação de circulares anuais não é uma novidade nossa; assim como a respeito de inúmeros outros aspectos, apenas retomamos e damos continuidade a tradições positivistas seculares, algumas delas recuando até o fundador da Religião da Humanidade, nosso mestre Augusto Comte; evidentemente, as circulares anuais incluem-se entre essas tradições. Assim, podemos ler nos quatro volumes do Sistema de política positiva (1851-1854) diversas circulares anuais de Augusto Comte, com exposições e reflexões sistemáticas sobre a propaganda positivista, as iniciativas adotadas, as dificuldades enfrentadas, os êxitos logrados; da mesma forma, além da prestação de contas em termos “político-morais”, Augusto Comte realizava uma escrupulosa prestação de contas dos recursos que ele recebia na forma do subsídio positivista. Aliás, nesse sentido, Augusto Comte reiteradamente tinha que cobrar seus discípulos e seus simpatizantes no sentido de que a contribuição para o subsídio positivista não era mera liberalidade da parte destes, mas um dever religioso tão moralmente obrigatório quanto todos os demais deveres estabelecidos pela Religião da Humanidade, como os relativos aos nossos nove sacramentos.

Assim como o fundador da Religião da Humanidade, os apóstolos da Humanidade Miguel Lemos e Raimundo Teixeira Mendes adotaram desde o começo de seu apostolado sistemático no Brasil o hábito das circulares anuais – e, claro, pelos mesmos motivos de Augusto Comte e à luz do exemplo de nosso mestre.

O conjunto das observações acima evidencia, portanto, que a “circular anual” não consiste, isto é, não pode consistir em apenas um documento elaborado uma vez por ano, apresentando algumas considerações genéricas ou mesmo apenas breves relatos sobre as atividades desenvolvidas. A circular anual destina-se à prestação de contas de um órgão do poder Espiritual positivo para o público, tendo um caráter sintético mas sem que, com isso, deixem-se de lado descrições minimamente circunstanciadas das atividades desenvolvidas.

 

2. O AMBIENTE EM QUE ATUA A IGREJA POSITIVISTA VIRTUAL

 

A fim de podermos avaliar adequadamente a ação desenvolvida pela Igreja Positivista Virtual, é necessário termos clareza do meio social em que se dá tal ação. Dessa forma, inicialmente apresentaremos três aspectos que mais se destacam; em seguida, faremos uma caracterização sociológico-moral.

 

2.1. Três aspectos iniciais

 

Em primeiro lugar, as atividades da Igreja Positivista Virtual ocorrem no Brasil. Como sabemos, nosso país tem dimensões continentais e uma grande população. O tamanho gigantesco do Brasil induz-nos a termos um olhar centrado em nós mesmos e, atualmente com exceção do que ocorre nos Estados Unidos, a ignorarmos as realidades externas. Por outro lado, o tamanho do território também resulta em uma dispersão geográfica da população, que por si só impõe desafios e dificuldades, na medida em que as tradições, os usos e os costumes das várias regiões são por vezes bastante diferentes umas das outras; além disso, os custos para reuniões físicas, presenciais, dos positivistas e dos simpatizantes entre si são bastante elevados.

Entretanto, para além do tamanho geográfico do país, as características da grande população brasileira conduzem a dificuldades todas próprias. Não consideramos neste momento a já indicada variedade de usos e costumes; o que importa notar é a combinação entre pobreza e analfabetismo generalizados. É claro que em si mesmos esses fatores não impedem a difusão da Religião da Humanidade; entretanto, eles impõem problemas seja para o Positivismo chegar a essa população, seja para essa população ter acesso ao Positivismo. A pobreza, com frequência miséria, restringe às vezes de maneira brutal as possibilidades de a população ampliar os ambientes em que vivem, de acederem a concepções morais, filosóficas, políticas e científicas diferentes daquelas já estabelecidas nos ambientes em que vivem (e que na quase totalidade são teológicas, sejam do catolicismo popular brasileiro, sejam, cada vez mais, dos agressivos, intolerantes e ultraindividualistas protestantes evangélicos); por sua vez, o analfabetismo mantém a população presa nesses circuitos e círculos viciosos.

Assim, em termos sociais amplos, o público mais facilmente acessível ao Positivismo no Brasil é a população de classe média, seja porque ela tem os meios de obter informações, seja porque com freqüência ela valoriza bastante a instrução formal, seja porque dela provêm militantes políticos que têm procurado o Positivismo. Ao mesmo tempo em que tem mais acesso a e mais interesse pelo ensino formal, a classe média também se desvencilha da teologia – embora seja necessário notar que o avanço dos evangélicos mesmo nesse grupo seja uma fonte de dificuldades e que, de qualquer maneira, o desvencilhar-se da teologia pela classe média de modo geral conduza-a não diretamente à positividade, mas oriente-a a diferentes modalidades de metafísica (entre suas vertentes opostas do espiritualismo ou do materialismo). Não deixa de ser motivo de tristeza que o aspecto especificamente social desse nosso diagnóstico seja essencialmente o mesmo que o elaborado por Miguel Lemos na época da fundação da Igreja Positivista do Brasil, datada de 19 de César de 27 (11 de maio de 1881).

O último aspecto preliminar que necessita ser indicado na presente caracterização do ambiente em que se desenvolve a atuação da Igreja Positivista Virtual é o próprio “local” em que ela ocorre: trata-se do advento da internet e de sua popularização, justamente a partir de meados da década de 1990. Aliás, é o advento da internet e, em particular, das chamadas “redes sociais”, com suas amplas e crescentes possibilidades de produção de conteúdo e de interação entre os indivíduos o que importa aqui. Ao suprimir as dificuldades de reunião física e, ao mesmo tempo, ao permitir interações em “tempo real”, pessoas dos mais variados lugares podem reunir-se e, assim, constituir um grupo ativo e interessado.

Além das possibilidades de interação à distância e em “tempo real”, a internet e suas redes sociais constituem-se também em um acervo disponível e acessível virtualmente a todos; ou seja, ela é uma biblioteca de vídeos, de interações, de manifestações e de textos. Por fim, mas não menos importante, ao contrário das tecnologias anteriores de comunicação (livros, jornais, rádio e televisão), a internet e as redes sociais têm a longo prazo um custo baixíssimo, que facilitam e até estimulam a produção de conteúdo. Nada disso nega ou suprime os problemas que sempre estiveram associados às liberdades de pensamento e de expressão, especialmente na forma da chamada “liberdade de imprensa”: por um lado, possibilidade de censura e de imposição de doutrina oficial de Estado; por outro lado, possibilidade de boatos, desinformação, avaliações superficiais e/ou desonestas. Esses problemas sempre existiram; o advento da imprensa aumentou-os e evidenciou-os; já a internet e as redes sociais amplificaram-nos tremendamente. Em virtude disso, aliás, mais do que nunca a Religião da Humanidade faz-se necessária.

Na medida de suas possibilidades concretas, a propaganda positivista deve lançar mão de todos os recursos disponíveis e possíveis; sem deixar de produzir livros e artigos, nem deixar de realizar prédicas, cursos e palestras, o Positivismo pode e deve desenvolver uma crescente atividade na internet. Essa observação pode parecer banal, mas ela tem que ser feita, pois suas conseqüências não são triviais. Por um lado, é necessário termos clareza de que a propaganda via internet é complementar e não substitutiva da propaganda impressa e/ou presencial. Por outro lado, a realização de prédicas via internet exige a adequação cuidadosa e delicada de um rito central em termos religiosos para o meio utilizado, que é o da realidade virtual.

 

2.2. Caracterização sociológico-moral ampla

 

A necessária visão de conjunto, afirmada e exigida pelo Positivismo, requer de nós comentarmos de maneira combinada questões históricas, sociológicas e filosóficas, de âmbito geográfico mundial, ocidental, hemisférico e nacional: essa alternância não é uma oscilação ou uma falta de clareza, mas, bem ao contrário, consiste em apresentarmos alguns dos aspectos que nos parecem mais importantes e relevantes, à medida que os temas forem desenvolvendo-se.

Essa “caracterização sociológico-moral ampla”, com freqüência também chamada de “contextualização”, representa no fundo uma obrigação positivista, na medida em que o Positivismo foi fundado precisamente com a Sociologia e depois estendido à Moral: ora, uma parte importante do esforço desenvolvido por Augusto Comte ao fundar a Sociologia consistiu em elaborar uma interpretação histórica, ou melhor, de Sociologia Dinâmica, no sentido de entender como é que o Ocidente vivia a realidade que então vivia e como é que a fundação da Sociologia (e, por extensão, do Positivismo) era tanto possível quanto necessária. Esse entendimento está na origem da nossa doutrina; não somente a interpretação em si, mas também o exemplo e o impulso nesse sentido devem ser incorporados e levados a sério por todos os positivistas. Finalmente esse exercício também é importante de ser feito porque, por um lado, como notamos antes, nossas atividades desenvolvem-se em outro país e em outra época que não os de Augusto Comte, que viveu na França da primeira metade do século XIX; por outro lado, porque após um período de auge do Positivismo mundial seguido por um longo declínio, participamos de uma retomada do Positivismo. Tudo isso tem que ser levado em consideração.

Dando continuidade a algumas reflexões anteriores, devemos notar que outro aspecto fundamental da política brasileira atual – na verdade, da política ocidental de maneira geral – consiste em seu caráter metafísico. Um sinal evidente dessa metafísica reinante é a importância atribuída à palavra “democracia” e à ética individualista, anti-histórica e antissocial dos “direitos”, em negação do conceito positivo, relativista e altruísta da sociocracia e da noção político-moral correlata de “deveres”; um outro sinal correlato da metafísica ocidental é a centralidade da oposição “direita vs. esquerda”. Mas a relevância da palavra “democracia”, dos direitos e de “direita-esquerda” é apenas a parte visível dos valores e das concepções profundos que atualmente orientam o Brasil e o Ocidente: esses valores e concepções correspondem plenamente às características morais da metafísica, ou seja, o seu absolutismo, o espírito destruidor, a sua ânsia pela “criticidade” que arrasa todas as instituições e toda a historicidade humana, bem como a pretensão de soluções parciais e transitórias que são julgadas definitivas e eternas. Não é nenhum acaso que a política ocidental seja bastante influenciada pelos Estados Unidos: esse país foi fundado sob a égide do protestantismo, isto é, da teologia já fortemente influenciada pelo espírito destruidor, e a secularização desse protestantismo resultou largamente na metafísica, acentuada pela crença disseminada naquele país de que o estado normal da Humanidade corresponde à fragmentação radical de valores e concepções, resultando por sua vez no que Augusto Comte chamava de anarquia moral e intelectual. Os esforços empíricos ou sistemáticos em favor da positivação dos Estados Unidos (como alguns realizados por positivistas ortodoxos no século XIX e início do século XX) ou foram excluídos na forma de experiências sociais e morais marginais, ou foram degradados pelo espírito ao mesmo tempo “empiricista”, metafísico, autocentrado e com freqüência intolerante e punitivista do país. Apesar desses vícios de origem, durante cerca de dois séculos tais características forneceram um vigor inaudito aos Estados Unidos, que, baseando-se e inspirando-se em sua herança ocidental, além de desenvolvendo-a bastante, esse país em meados do século XX suplantou a Europa como sede do Ocidente; o Brasil, que desde o início da República orientou-se para os Estados Unidos devido ao seu caráter americano e republicano, passou a fazer ainda mais coro ao resto do mundo quando a Europa, após as crises da II Guerra dos 30 Anos (1914-1945), viu-se na contingência de precisar do apoio material e bélico da antiga colônia britânica. Cabe reconhecer com clareza que o messianismo dos Estados Unidos desempenhou um papel altamente positivo no mundo ao estabelecer as bases da reorganização internacional após a devastação da II Guerra Mundial (com a criação da Organização das Nações Unidas e do sistema de instituições correlatas) e durante a Guerra Fria (com o enfrentamento do comunismo soviético), quando a Europa foi arrasada, marginalizada e tornada dependente dos Estados Unidos: a partir disso, são os valores próprios a esse país que influenciam o resto do mundo e em particular o conjunto do Ocidente (mesmo que os vários países e intelectuais ocidentais não reconheçam essa influência).

A metafísica que pervade o ambiente social e político brasileiro (bem como ocidental) manifesta-se na forma de u’a mentalidade generalizada de que o bom comportamento social, político, filosófico e científico é “crítico”; essa “criticidade”, por sua vez, é entendida como sendo um estado permanente de desconfiança e o desejo, igualmente permanente, de destruir as idéias, as práticas, as instituições vigentes. Como indicamos antes, essa criticidade nas últimas décadas alcançou um auge no âmbito filosófico na forma do pós-modernismo, que são o niilismo e o irracionalismo transformados em parâmetros intelectuais fundamentais. Já em termos políticos, essa corrosão moral e social tem sido afirmada pela política identitária, que rejeita o universalismo, o altruísmo, a harmonia, a concórdia, e que em seu lugar propõe o particularismo, a institucionalização e a instrumentalização do ódio e do ressentimento, o punitivismo (tão próprio ao protestantismo e, a partir disso, à mentalidade dos EUA!) como parâmetros das relações sociais “boas”.

Toda essa metafísica resulta em um ambiente caracterizado por grande agressividade, tanto filosófica quanto política, em que um aspecto reforça e mesmo complementa o outro. O Positivismo vê-se atingido por essa disposição, na medida em que as críticas de que somos alvo passaram daquelas de origem marxista-comunista, em que o Positivismo seria uma “ideologia burguesa”, para críticas de origem identitária, como a de que seríamos “eurocêntricos”, “patriarcais” ou mesmo racistas! A intensidade desse espírito metafísico é tão intensa que mesmo pessoas próximas ao Positivismo muitas vezes insistem nessas críticas, que, todavia, são erradas tanto do ponto de vista teórico – como já tivemos oportunidade de indicar e como deveria ser evidente, o Positivismo pura e simplesmente não é nem “eurocêntrico”, nem “patriarcal”, nem “racista” –, quanto do ponto de vista moral e religioso – essas críticas originam-se da metafísica, que, como se sabe e como vimos reafirmando, é uma disposição destruidora, corrosiva e antirreligiosa.

O quadro descrito acima é amplamente pessimista; ele enfatiza as dificuldades e os fatores que obstaculizam a difusão do Positivismo e, de modo mais amplo, do espírito positivo. Essa perspectiva sem dúvida é unilateral e deve portanto ser completada por uma avaliação dos fatores que facilitam a difusão do Positivismo. Há aspectos sociais, políticos e morais amplos e também aspectos tecnológicos envolvidos aí. Em termos sociais, políticos e morais, já fizemos referência diversas vezes ao fim do sovietismo e o decorrente descrédito do marxismo: embora esse descrédito tenha demorado alguns anos para fazer-se plenamente sentir (até cerca de uma década), a partir dos anos 2000 e, em particular, na década de 2010 as preocupações sociais, a generosidade política e o altruísmo passaram a buscar opções reais, fora da lógica da luta de classes. A busca de opções amplas intensificou-se após a crise financeira de 2008, em que se evidenciou que o liberalismo é insuficiente e incapaz de regular as sociedades, seja em termos econômicos, seja em termos sociopolíticos. Esses dois fatores, aliás conexos, permitem que o Positivismo seja visto como o que de fato é, uma religião e uma política que concilia a ordem e o progresso: não por acaso, a decisiva influência do Positivismo nos movimentos trabalhistas, em particular no Brasil, tem sido um dos fatores de renovada atração para nós. Em sentido mais amplo, as necessidades humanas, tanto coletivas quanto individuais, como é natural, continuamente precisam de satisfação e orientação, a que a Religião da Humanidade oferece as únicas satisfações reais: o Positivismo clara e conscientemente oferece sentido para a vida, orientação moral, espiritual, familiar e profissional, além de estipular parâmetros para a condução dos assuntos públicos: evidentemente, são várias as possibilidades de divulgação e aplicação do Positivismo, que deve esforçar-se para realizar-se em todas elas.

Em termos tecnológicos, também já indicamos a difusão radical da internet e a constituição concomitante das “redes sociais”. A chamada tecnologia da informação é a nova fronteira tecnológica e econômica do mundo; continuamente ela desenvolve-se, criando novas possibilidades e impondo ao mesmo tempo desafios para que essas oportunidades sejam aproveitadas. Toda uma nova geração já cresceu e foi socializada à sombra dessas tecnologias; embora isso gere graves problemas de relacionamentos intergeracionais e de entendimento da realidade da parte das novas gerações, ao mesmo tempo essas novas tecnologias reduzem drasticamente os custos financeiros envolvidos na divulgação das nossas concepções, além de em princípio não limitarem geograficamente a difusão da doutrina. Esses aspectos são tão importantes que, como indicamos antes, permitiram a criação da presente Igreja Positivista Virtual. É claro que as novas possibilidades tecnológicas não substituem os meios anteriores de divulgação: livros, artigos, mesmo a divulgação boca-a-boca continuam sendo importantes; não há substituição dos instrumentos, mas, cada vez mais, a sua ampliação. Nesse quadro, cabe aos vários positivistas – orientados, coordenados e aconselhados pelo sacerdócio da Humanidade –, identificar e aproveitar essas várias oportunidades, de modo a conjugar a independência com a convergência.

Reafirmemos que o quadro exposto acima foi carregado em suas tintas negativas, ou pelo menos pessimistas. Isso se deve a que o movimento positivista tem enfrentado graves dificuldades, ao mesmo tempo em que a Humanidade como um todo atravessa um período crítico. Entretanto, ao mesmo tempo em que enfrentamos dificuldades, há efetivos elementos de progresso, bem como de esperança, seja para a Humanidade, seja para o Positivismo. A mera existência da positividade já é um aspecto que deve ser devidamente reconhecido e valorizado; para além disso, como a presente Circular buscará caracterizar, o movimento positivista tem dado sinais claros e inequívocos de que se reorganiza, restabelece e reafirma-se – e esperamos contribuir humilde e efetivamente para esse ressurgimento. A leitura final deste documento sugere-nos, no final das contas, a mensagem de esperança, a partir da bela perífrase que Teixeira Mendes fez de Danton: a solução para nossas dificuldades consiste em “amor, só amor, sempre amor”.

 

3. AS ATIVIDADES DA IGREJA POSITIVISTA VIRTUAL EM 171 (2025)

 

A partir das reflexões e justificativas anteriores, torna-se mais simples a exposição das atividades desenvolvidas pela Igreja Positivista Virtual, podendo estas limitar-se à descrição circunstanciada dos vários aspectos de nossa atuação e de cada um dos tipos de eventos e dos resultados que temos obtido. Por esse motivo, esta seção está dividida em diversas subseções, de tamanhos variados.

 

3.1. Estrutura da Igreja Positivista Virtual

 

A Igreja Positivista Virtual, dando seguimento às atividades do Apostolado Positivista, desenvolve suas atividades basicamente pela internet, especialmente em dois canais, cada um deles em uma “rede social”: o canal Positivismo, canal disponível no Youtube sob o nome “The Positivism”, e o canal Igreja Positivista Virtual, disponível no Facebook; os respectivos endereços são estes: Youtube.com/ThePositivism e Facebook.com/IgrejaPositivistaVirtual. Ambos são de acesso gratuito, embora o Facebook imponha a exigência de registro em sua rede para o acesso (obtendo, portanto, dados pessoais). Da mesma forma, associada à conta do Facebook, há a conta do Instagram, no endereço Instagram.com/IgrejaPositivistaVirtual. Além desses canais, usamos também o blogue Filosofia Social e Positivismo, sediado no Blogspot, com o seguinte endereço: https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/. Finalmente, é importante lembrar que nossas atividades desenvolvem-se também por meio de textos impressos: livros, artigos em revistas científicas, artigos em revistas de opinião, artigos em jornais noticiosos.

Na medida do possível, todas as atividades da Igreja Positivista Virtual são desenvolvidas simultaneamente nos dois principais canais indicados e depois replicados em outros meios (por exemplo, no blogue, em comunidades virtuais e com contatos no Whattsapp). Outras redes sociais podem ser empregadas, mas, na medida em que a quase totalidade do trabalho de preparação, produção, realização, finalização e divulgação cabem a nós mesmos, tomando-nos pelo menos dois dias inteiros a cada semana, cada rede social adicional impõe custos crescentes, tanto em termos de tempo quanto de habilidades que devem ser mobilizadas. Nas próximas subseções desta Circular exporemos com um pouco mais de detalhes as atividades que realizamos como Igreja Positivista, mas vale citar que elas são de três tipos: (1) as prédicas (sejam as regulares, de caráter semanal, sejam as extraordinárias, como nos casos das celebrações da Festa da Humanidade e do nascimento de Augusto Comte); (2) as Lives AOP; (3) palestras variadas. Todos os roteiros e as respectivas anotações que elaboramos, bem como os endereços eletrônicos para os vídeos, estão disponíveis no blogue Filosofia Social e Positivismo.

 

3.2. Atividades desenvolvidas

 

Exporemos nesta subseção as atividades desenvolvidas diretamente pela Igreja Positivista Virtual; na próxima subseção trataremos de atividades de que participamos e também alguns acontecimentos relevantes para a difusão do Positivismo.

 

3.2.1.Aumento das atividades e do público

 

O primeiro aspecto que devemos mencionar é o aumento progressivo das atividades desenvolvidas: como veremos abaixo, houve a elevação do estatuto da nossa atuação (passando de só apostolado para igreja), o incremento das prédicas, a diversificação dos tipos de atividades.

Ao mesmo tempo, o público que acorre às nossas prédicas e, de modo geral, que participa ou acompanha a divulgação do Positivismo pouco a pouco aumenta. Não é, como gostaríamos, um aumento maciço, de grandes proporções; mas, pelo menos, é de fato um aumento, com pessoas que demonstram interesse e com quem é possível manter uma relação pessoal e direta. Essa relação pessoal e direta é importante, pois ela permite que uns e outros conheçam-se, exponham suas preocupações, seus interesses, suas dúvidas; a exposição e a aplicação do Positivismo torna-se mais clara e mais eficiente dessa forma.

O perfil das pessoas que têm procurado o Positivismo com interesse mais profundo – isto é, para além do desejo de fazer apenas trabalhos escolares – é variado, mas podemos agrupá-los em três grandes categorias, organizadas pela importância numérica: (1) preocupações políticas práticas, com freqüência próximas ao trabalhismo; (2) preocupações afetivas, no sentido do estímulo do altruísmo e da generosidade; (3) preocupações intelectuais, geralmente próximas da ciência e mesmo do cientificismo. É claro que essas três categorias não são mutuamente excludentes; bem vistas as coisas, elas correspondem a cada um dos aspectos da natureza humana: atividade prática, sentimentos e inteligência. Como não poderia deixar de ser, cada uma delas constitui apenas uma via de acesso ao Positivismo, não um interesse exclusivo e limitante.

Duas dificuldades apresentam-se, em todo caso. Uma primeira é que o público que acorre às prédicas e que, de modo geral, procura o Positivismo é um público masculino: apesar da importância que o Positivismo dá às mulheres, ao público feminino, não temos conseguido sensibilizá-lo, nem desfazer os preconceitos difundidos segundo os quais o Positivismo seria masculinista e intelectualista. Essa é uma dificuldade de longo prazo, que tem que passar a ser enfrentada com clareza.

Uma segunda dificuldade consiste em que com freqüência quem chega ao Positivismo conjuga uma série de defeitos morais e intelectuais que tornam bastante cansativa e desgastante a nossa propaganda; esses defeitos consistem em arrogância e palpitismo. Os traços específicos desses defeitos são que os interessados, mesmo quando se afirmam interessados no Positivismo, chegam à doutrina “sabendo” que ela tem que ser “atualizada”, “sabendo” do que se trata o Positivismo, “sabendo” os aspectos em que ele tem que ser “atualizado” e mesmo “sabendo” que críticas correntes são corretas. Todos esses saberes que pusemos entre aspas correspondem na verdade a preconceitos muito difundidos, que essas pessoas repetem com profunda convicção, mas – de maneira chocante, irritante e cansativa – de maneira totalmente ignorante. Assim é que ouvimos que o Positivismo é “machista”, “misógino”, “eurocêntrico”, “imperialista”, “burguês”, “quietista” etc. etc. Esses preconceitos são evidentemente comuns entre adversários do Positivismo, que quase sempre não têm a menor preocupação em conhecê-lo e com freqüência não se preocupam em ser honestos e em agir de boa fé; mas quando tais preconceitos são repetidos com convicção por pessoas que se dizem simpáticas ao Positivismo, percebemos o quanto a desinformação antipositivista está difundida e o quanto nossa propaganda tem a avançar. Além da mais resoluta persistência em desfazermos tais erros, o único recurso de que podemos dispor nessa tarefa é a simpatia e a boa vontade que tais pessoas manifestam, ou dizem manifestar, a respeito do Positivismo; mas é claro que, até que tais erros sejam desfeitos (no caso feliz caso de conseguirmos provar e convencer de que são erros), muito esforço já foi gasto, muito cansaço já foi produzido.

 

3.2.2. Prédicas positivas

 

As prédicas semanais realizam-se nas terças-feiras a partir das 19h. O nome que adotamos – “prédicas positivas” – emprega a palavra “positivo” no sentido polissêmico dado a ela palavra por Augusto Comte no Apelo aos conservadores: real, útil, certo, preciso, relativo, orgânico e simpático. Esse nome também evita a parcialidade própria e inevitável às expressões – de qualquer maneira, belas e imponentes – que Augusto Comte criou para caracterizar o regime positivo: “sociocracia” (regime), “sociolatria” (culto) e “sociologia” (dogma), bem como as suas variações.

 

3.2.2.1. Leitura comentada do Apelo aos Conservadores

 

Devemos mencionar – e celebrar! – o fato de que no dia 9 de Frederico de 170 (12.11.2024) concluímos a leitura comentada do Catecismo positivista, iniciada pouco mais de dois anos antes, no dia 24 de Dante de 168 (8.8.2022). Seguindo a orientação específica de Augusto Comte, cada prédica deve ser caracterizada pela leitura comentada do Catecismo positivista; esse procedimento permite que os jovens aderentes conheçam diretamente a letra de nosso mestre e, a partir dos comentários, entendam o seu espírito. Os comentários do oficiante também permitem que a doutrina seja explicada à luz das preocupações que cada tempo e lugar apresentam ao público; assim, conjuga-se a ordem com o progresso.

 

3.2.3. Lives AOP

 

Nossa pretensão é que cada mês haja uma Live AOP. Em 171 (2025) não logramos pleno êxito nesse objetivo, seja por dificuldades pessoais (em particular devido a preocupações pessoais e profissionais), seja porque, a despeito de nossos convites, em diversos momentos não conseguimos palestrantes ou debatedores. A despeito disso, nos meses de abril e maio de 2025 realizamos em parceria com a Igreja Positivista de Porto Alegre um ciclo de quatro palestras sobre temas variados (e não necessariamente vinculados ao Positivismo).

Além da realização do referido evento em parceria com a Igreja Positivista de Porto Alegre, tivemos a oportunidade de transmitir três Lives AOP e mais um sermão compartilhado:

- Sermão de Hernani Gomes da Costa: “O identitarismo é um problema de classificação?”

- Live AOP com Érlon Jacques de Oliveira: Em memória de Afrânio Capelli

- Live AOP com Valter D. Ferreira: “Economia: obstáculo epistemológico”

- Live AOP com Rafael Cardoso Sampaio: “IA: possibilidades e problemas”

 

3.2.4. Manifestações cívicas

 

Ao longo de 171 (2025) procuramos manifestar-nos publicamente em diversas ocasiões, expondo as perspectivas positivistas. Essas manifestações ocorreram durante as prédicas semanais e abordaram temas contemporâneos urgentes; elas correspondem a aplicações práticas de um dos aspectos do poder espiritual, em particular no seu aspecto coletivo: trata-se de sua atuação como consagrador e aconselhador.

Os temas que abordamos a título de manifestações cívicas foram os seguintes:

-      Manifesto contra a invasão da Venezuela pelos EUA

-      Manifestações contra a invasão russa sobre a Ucrânia

-      Manifestações contra o genocídio palestino, realizado pelo governo de Israel

-      Manifesto de lamento pela transformação do Papa Francisco

-      A favor da Lei n. 15.263/2025, que instituiu a Política Nacional de Linguagem Simples

-      Lamentando o conturbado ambiente social, político e institucional do Brasil, mas celebrando a prisão definitiva do ex-Presidente Jair Bolsonaro, por suas sucessivas e permanentes tentativas de dar um golpe de Estado fascista no país

-      Campanha pela Black Friday Altruísta, com a aquisição de bens e serviços diretamente para pessoas necessitadas e conforme parâmetros altruístas de consumo e de produção

-      Apoio à campanha de arrecadação de fundos em benefício do município paranaense de Rio Bonito do Iguaçu, destruído por um ciclone

Também nos manifestamos reiteradamente em favor da I República brasileira e contra a concepção largamente difundida por (cripto)monarquistas de que a ação de 15 de novembro de 1889 teria sido somente um golpe militar, ou uma quartelada. Essa concepção, que vai contra qualquer mínima investigação histórica, serve para degradar o ambiente social, político e institucional brasileiro contemporâneo e, além disso, busca atingir direta ou indiretamente o Positivismo. Em sentido semelhante defendemos a bandeira nacional republicana, em particular em virtude da desinformação disseminada pelo grupo “Inclua o amor na bandeira” e repetida pelo Deputado Federal Chico Alencar.

Menção específica deve ser feita a respeito de nossos esforços para entrar em contato com o Deputado Chico Alencar. Na véspera do Dia da Bandeira, ou seja, 18 de Novembro, ele protocolizou o já citado Projeto de Lei n. 5883/2025. Mandamos inúmeras mensagens em seus dois perfis no Whattsapp, enviamos mensagens para seu correio eletrônico, deixamos recados em seus perfis no Facebook e no Instagram; chegamos mesmo a telefonar-lhe: tudo isso debalde. Em todas essas manifestações insistimos que ele deveria ouvir-nos, seja porque ele fala de nós, seja porque nós, positivistas, somos herdeiros espirituais e morais do autor da bandeira nacional, seja, enfim, porque ele dissemina conscientemente desinformação a respeito disso tudo. No momento em que redigimos esta circular (27 de Aristóteles de 172/24.3.2026), permanecemos no aguardo de qualquer resposta do Deputado Chico Alencar: em outras palavras, embora ele seja um deputado de “esquerda”, ele mantém um comportamento que a “direita” direciona a nós, ignorando-nos e desprezando nossas opiniões, nossa história, nossa atividade – para usar a gíria identitária: nosso “lugar de fala”, enfim.

Dois temas a respeito dos quais nos parece importante darmos maior ênfase doravante são:

1)    a cuidadosa diferenciação entre críticas ao Estado de Israel (devidas ao massacre dos palestinos da Faixa de Gaza, entre 2024 e 2026, e à guerra contra o Irã, desde 2026) e críticas aos judeus (ou seja, no sentido de evitar qualquer impressão de antissemitismo);

2)    defesa das mulheres, afirmação da necessidade de respeito a elas, afirmação da necessidade do cavalheirismo masculino e combate à violência contra el

Mudando de âmbito, mantivemos a publicação de artigos opinativos, na forma de textos mensais publicados no jornal carioca Monitor Mercantil. Em anos anteriores publicamos muitos artigos no jornal curitibano Gazeta do Povo; entretanto, considerando o enviesamento cada vez mais conservador, mesmo reacionário desse jornal, ao mesmo tempo que as nossas discordâncias políticas e morais em relação a essa orientação, a possibilidade de manifestação pública via Gazeta do Povo na prática deixou de existir. Ao mesmo tempo, contatos pessoais permitiram o nosso acesso ao Monitor Mercantil, que, além disso, é razoavelmente simpático às perspectivas positivistas.

 

3.2.5. Calendário anual

 

Desde há algumas décadas, inspirados pelo exemplo do Almirante Henrique Oliveira, elaboramos todos os anos um calendário positivista atualizado, inserindo o calendário júlio-gregoriano no calendário positivista, além de indicar as comemorações positivistas, as celebrações de centenários, bem como indicar também as funções do calendário positivista abstrato. Esse calendário pode ser impresso e afixado na parede, para uso cotidiano de todos os interessados, a começar, por óbvio, pelos positivistas. As celebrações anuais baseiam-se no sistema de comemorações adotado pela Igreja Positivista do Brasil, conforme divulgado em suas publicações; os centenários referem-se tanto aos dos tipos do calendário positivista concreto quanto de positivistas já falecidos, tanto brasileiros quanto de outros países.

 

3.3. Outras atividades relevantes

 

Nesta subseção comentaremos alguns eventos ou iniciativas que são relevantes para a divulgação do Positivismo e aos quais prestamos apoio, embora não sejam iniciativas específicas da Igreja Positivista Virtual.

 

3.3.1. Criação da coleção “Positivism” no Internet Archive

 

Há algumas décadas existe um repositório eletrônico gratuito chamado Internet Archive (https://archive.org/). De propriedade privada, ele é aberto ao público, seja para consulta, seja para inclusão de documentos (livros, panfletos, vídeos, gravações de áudio etc.); devido a problemas de direitos autorais (particularmente sensíveis e agressivos nos Estados Unidos e na Europa), nem todos os documentos podem ser consultados em sua íntegra, mas muitos deles podem. As obras de nosso mestre já se encontram, em sua totalidade, incluídas para consulta e para serem baixados integralmente; todavia, tal acervo encontra-se disperso pelo espaço comum do repositório (que, por sua vez, é gigantesco).

A fim de organizar e valorizar o Positivismo, seguindo as exigências do repositório, conseguimos criar em 11 de janeiro de 2024 a seção “Positivism”, cujo acervo tem-se ampliado aos poucos mas continuamente. Tal seção está disponível no seguinte endereço: https://archive.org/details/positivism-collection.

Embora essa coleção tenha sido criada em 170 (2024), fazemos referência na presente circular, dedicada a 171 (2025), porque esse acontecimento não foi citado anteriormente.

 

3.3.2. Auxílio de outros positivistas e simpatizantes

 

Ao longo de 171 (2025) pudemos contar com a feliz colaboração de alguns simpatizantes e de alguns positivistas; essas colaborações nem sempre foram direcionadas para a Igreja Positivista Virtual, mas foram convergentes com ela e, em todo caso, reconheceram nosso protagonismo.

A primeira colaboração que desejamos indicar é a de Deyvid Antônio, um católico de Alagoas; embora seja ortodoxo, ele é bastante aberto ao conhecimento de outras religiões e doutrinas; além disso, ele é notavelmente respeitador do que os adeptos dessas outras religiões e doutrinas têm a dizer a respeito de si próprias. Assim, estudando o Positivismo e a Religião da Humanidade e manifestando-se publicamente a respeito, Deyvid Antônio absteve-se de repetir os erros e as desinformações habituais, mesmo aquelas disseminadas pelos próprios católicos. Mais do que isso: dando provas de que a simples boa fé é possível, Deyvid Antônio gravou diversos vídeos de caráter polêmico em defesa do Positivismo.

A segunda colaboração é a de Fernando Pita e de Gabriel de Henrique, o primeiro simpático ao Positivismo, o segundo um jovem aderente. Ao longo de 171 (2025) – e, na verdade, desde antes –, ambos têm digitalizado e/ou transcrito documentos positivistas, de maneira a recuperar o nosso acervo. Os documentos que eles digitalizam e/ou transcrevem são compartilhados em grupos de redes sociais e, a partir daí, têm sido incluídos no repositório eletrônico Internet Archive, na coleção “Positivism” (https://archive.org/details/positivism-collection).

 

3.3.3. Atuação do Apostolado Positivista da Itália

 

Fundado em 168 (2022), o Apostolado Positivista da Itália tem desenvolvido muitas atividades e logrado obter bons resultados em sua atuação. Essas atividades compreendem a tradução para o italiano de obras em outras línguas, especialmente o francês; a publicação de um boletim e de novas traduções de Augusto Comte; a realização semanal de uma prédica à distância em seu canal no Youtube (disponível aqui: https://www.youtube.com/@apostolatopositivistaditalia), além de inúmeras outras.

Embora tenha uma orientação laffittista – que se explica tanto pela juventude de seus membros quanto por um correlato desejo de autonomia –, parece-nos que no seu conjunto a atuação do Apostolado Positivista da Itália é convergente com a da Igreja Positivista Virtual e, na medida do possível, realizamos atividades em parceria. Uma dificuldade bastante óbvia para as relações entre o Apostolado Positivista da Itália e a Igreja Positivista Virtual – bem como, de resto, com o positivismo brasileiro – é a diferença lingüística. Entretanto, essa dificuldade é contornada pelo importante esforço empreendido pelos integrantes do Apostolado italiano, em particular pelo Diretor do Apostolado Italiano, Sebastiano Fontanari, para falar com grande proficiência o português: de fato, nas duas Lives de que participou em 169 (2024), Sebastiano leu textos escritos por ele em português, cuja qualidade gramatical e estilística é de altíssimo nível. Além de honrar-nos com a fluência em nossa língua, esse esforço indica a seriedade com que eles desenvolvem suas atividades, em benefício da difusão e da aplicação da Religião da Humanidade.

 

4. PERSPECTIVAS FUTURAS DA IGREJA POSITIVISTA VIRTUAL

 

Para a Igreja Positivista Virtual e, de maneira mais ampla, para a Religião da Humanidade o ano de 171 (2025) foi bastante ativo. Em relação às nossas expectativas e às nossas intenções para este e para os próximos anos, reafirmamos o que dissemos na 1ª Circular Anual e, em face dos desafios indicados no presente documento, acrescentamos outras metas:

-      manter um ativismo no mínimo com a mesma intensidade;

-      aperfeiçoar a infraestrutura técnica (com a criação e o registro de um portal eletrônico, a ampliação das redes sociais empregadas, a melhoria no uso das redes sociais etc.), a fim de melhorar a comunicação e a interação com o público;

-      desenvolver e consolidar uma identidade visual para a Igreja Positivista Virtual (com logomarcas, ex-libris etc.);

-      coordenar mais e melhor as iniciativas de positivistas ou de pessoas simpáticas a nós;

-      melhorar a formação dos positivistas atuais, em particular evitando o palpitismo e a arrogância;

-      melhorar, em termos morais, intelectuais e práticos, nossa atuação, seja como sacerdote da Humanidade, seja como cidadão, seja como simples ser humano.

Para concluir a presente 3ª Circular Anual: temos a plena convicção de que a Religião da Humanidade é a religião do presente e, ainda mais, do futuro; que ela oferece o entendimento e os meios para a harmonia social e individual; que ela indica que e como podemos associar a felicidade individual e o bem-estar público. A partir da elaboração de Augusto Comte, sob a angélica influência de Clotilde de Vaux, repetimos a máxima fundamental da Religião da Humanidade: “o amor por princípio e a ordem por base; o progresso por fim”.

 

Gustavo Biscaia de Lacerda.

Sacerdote Diretor da Igreja Positivista Virtual

 

Curitiba, 27 de Aristóteles de 172 (24 de março de 2026).