No dia 13 de Carlos Magno de 172 (30.6.2026) realizamos nossa prédica positiva, dando continuidade à leitura comentada do Apelo aos conservadores (em sua Terceira parte - postura dos positivistas em relação aos revolucionários).
No sermão abordamos o ideal da igualdade perante o Positivismo.
A prédica foi transmitida nos canais Positivismo (https://youtube.com/live/p--88YKEbN8) e Igreja Positivista Virtual (https://www.facebook.com/IgrejaPositivistaVirtual/videos/1565435151839838).
As anotações que serviram de base para a nossa exposição encontram-se reproduzidas abaixo.
* * *
A igualdade para o Positivismo
(13
de Carlos Magno de 172/30.6.2026)
1.
Abertura da prédica
2.
Datas e celebrações
2.1.
Dia 11 de Carlos Magno (28.6): transformação de
Teixeira Mendes (1927 – 99 anos)
2.2.
Dia 12 de Carlos Magno (29.6): nascimento de
Júlio de Castilhos (1860 – 166 anos)
2.3.
Dia 13 de Carlos Magno (30.6): nascimento de
Carlos Torres Gonçalves (1875 – 151 anos)
2.4.
Dia 13 de Carlos Magno (30.6): transformação de
Lauro Muller (1926 – 100 anos)
2.5.
Entre 21 de Carlos Magno e 19 de Dante (8.7 e
3.8): recesso da Igreja Positivista
Virtual
3.
Leitura comentada do Apelo aos conservadores
4.
Exortações
4.1.
Sejamos altruístas!
4.2.
Façamos orações!
4.3.
Como Igreja Positivista Virtual, ministramos os
sacramentos positivos a quem tem interesse
4.4.
Para apoiar as atividades dos nossos canais e da
Igreja Positivista Virtual: façam o Pix da Positividade! (Chave Pix: ApostoladoPositivista@gmail.com)
5.
Sermão: a igualdade para o Positivismo
5.1.
O tema do sermão desta semana aborda um tema a
que já fizemos referência em outras ocasiões, mas sempre de maneira um tanto
secundária; como, de qualquer maneira, já expusemos inúmeras outras concepções
positivas e como fizemos referência direta à noção de igualdade (e, em
particular, às duríssimas e claras críticas de Augusto Comte à igualdade) ao
fazermos a leitura comentada do Apelo aos
conservadores nas últimas semanas (em sua terceira parte, relativo à
postura dos positivistas em relação aos revolucionários), parece-nos importante
abordarmos diretamente esse tema
5.2.
Esse é um tema politicamente sensível, isto é,
delicado; ele presta-se com uma facilidade gigantesca às mais amplas e
profundas confusões
5.2.1.
Além de ser politicamente delicado, esse tema
também gera confusões devido a outros motivos:
5.2.1.1.
A sociedade brasileira, bem como inúmeras
outras, caracteriza-se por grande miséria, por uma cultura da ganância (por
vezes dissimulada) e também por uma cultura do desprezo social e da
irresponsabilidade: a afirmação da igualdade seria uma forma de combater esses
problemas e esses vícios
5.2.1.2.
De maneira correlata ao fator anterior (mas
distinto dele), há uma confusão entre, de um lado, a igualdade e, de outro
lado, a dignidade e a fraternidade
5.2.1.3.
Por fim, há uma confusão terminológica
generalizada, em que o combate à miséria, às discriminações e às
irresponsabilidades é confundido com e submetido a um sem-número de concepções
de igualdade
5.3.
Devido à importância e à extensão que este
sermão assumirá, vale a pena indicarmos que ele tratará dos seguintes temas:
5.3.1.
Definições de igualdade
5.3.2.
As críticas de Augusto Comte à igualdade
5.3.3.
A regulação moral, política e social da
sociedade e o combate às injustiças
5.3.4.
O combate à miséria e às críticas de Augusto
Comte à mesquinhez burguesa
5.4.
Devemos apresentar algumas distinções
conceituais básicas:
5.4.1.
Há várias concepções de “igualdade”, que se misturam,
imbricam-se e confundem(-se): de status
social, de condições materiais, de acesso aos serviços, de resultados, perante
a lei, de responsabilidades
5.4.1.1.
Quando se fala de modo geral em “igualdade”,
faz-se referência às desigualdades, em particular as desigualdades de renda
5.4.1.2.
Essa referência é economicista e, portanto,
materialista; o que se deseja é criticar as desigualdades de renda e, em
particular, a miséria
5.4.2.
A igualdade costuma ser vinculada e/ou
contraposta à liberdade, a partir da frase da Revolução Francesa, “Liberdade,
igualdade, fraternidade”
5.4.2.1.
Nessa frase, costuma-se de fato contrapôr-se
liberdade e igualdade, não por acaso se deixando de lado a fraternidade
5.4.2.2.
É importante afirmar com todas as letras: além
da (re)afirmação central da fraternidade, é necessário ajuntar aí a dignidade e a responsabilidade
5.4.3.
Além disso, há a noção disseminada do progresso como igualdade
5.4.3.1.
Por meio de uma série de deslizes, de
escorregões, de mudanças pequenas mas claras, ao longo do século XIX, por obra
dos socialistas, o conceito de progresso deixou de vincular-se ao
aperfeiçoamento e vinculou-se à imposição da igualdade
5.4.3.1.1.
A noção intuitiva e fundamental do progresso
considera que o ser humano, devido à sua constituição, desenvolve-se e
aperfeiçoa-se ao longo do tempo; em outras palavras, essa concepção considera que
(1) existe algo (2) que se desenvolve, ou seja, que a ordem é naturalmente dinâmica
e modificável; em outras palavras, a noção intuitiva do progresso consagra por si
só a união da ordem com o progresso (e do progresso com a ordem)
5.4.3.2.
A concepção do progresso como igualdade é
particularmente disseminada pela chamada “esquerda”, seja a esquerda
socialista, seja a esquerda marxista
5.4.3.2.1.
É claro que essa concepção abandona totalmente a
noção habitual e intuitiva do progresso como “aperfeiçoamento” ou “desenvolvimento
humano” em favor do seu aprisionamento pelas disputas políticas partidárias
5.4.3.2.1.1. Ao negar o
progresso-desenvolvimento, o progresso-igualdade também nega a possibilidade de
vinculação entre a ordem e o progresso – na verdade, o progresso-igualdade opõe
a ordem e o progresso, criando problemas sociais, morais e intelectuais enormes
5.4.3.2.2.
No que se refere ao conceito de progresso, sua
equivalência à igualdade resultou politicamente no seguinte: o progresso em si deixou
de ser a concepção fundamental, que caracterizaria os “revolucionários” e, daí,
a esquerda; a afirmação da igualdade, por seu turno, tornou-se a noção
fundamental que define a “esquerda” e, por fim, a própria noção de “esquerda” tornou-se
fundamental, em disputas políticas e partidárias com a “direita”: em outras
palavras, o “progresso” deixou de ser uma noção básica e tornou-se um atributo meramente
secundário, acessório e confuso da esquerda, que se define pela igualdade e contra
a direita
5.4.3.3.
Essa concepção foi reafirmada há algumas décadas
pelo filósofo e político italiano Norberto Bobbio: para ele, o que distingue e
mantém a atualidade da distinção entre direita e esquerda é a atualidade da
oposição, respectivamente, entre liberdade e igualdade
5.4.3.3.1.
Essa distinção de Bobbio, por um lado, buscava
reafirmar a importância da distinção entre direita e esquerda e, por outro
lado, esquematizou fortemente a prática histórica, em particular da esquerda:
esse esquema, portanto, não pretendeu inovar e seguiu de maneira cerrada a
tradição metafísica da esquerda
5.4.3.3.2.
Bobbio assume a concepção liberal de liberdade
(que é uma concepção que oscila entre a omissão e a irresponsabilidade) e
confunde a fraternidade com a igualdade
5.4.4.
Uma outra concepção da igualdade opõe as “desigualdades”
às “diferenças”
5.4.4.1.
De acordo com essa distinção, as diferenças
seriam desigualdades positivas, ao passo que as desigualdades seriam sempre
negativas
5.4.4.2.
As “diferenças” corresponderiam por exemplo às
várias culturas, enquanto as “desigualdades” corresponderiam por exemplo (e de
maneira central) às variações de renda
5.4.4.3.
Essa distinção é um exemplo característico das
sutilezas metafísicas e busca manter a mentalidade metafísica própria ao
igualitarismo, embora reconheça, imperfeita e limitadamente, que a sociedade é
positivamente caracterizada por diferenças, ou melhor, por desigualdades
5.5.
Passando
afinal para a igualdade no Positivismo:
5.5.1.
Para Augusto Comte, o progresso consiste em
melhoramento, em aperfeiçoamento – ou, em concepções mais simplistas, em
desenvolvimento: assim, o progresso consiste necessariamente em aumento das
diferenças, ou das desigualdades
5.5.1.1.
O conceito de progresso é amplo, ou melhor, nos
termos atuais, ele é “multidimensional”: ele refere-se, necessariamente e nesta
ordem, ao progresso material, biológico, intelectual e sobretudo moral
5.5.1.2.
Além disso, para nosso mestre, não faz sentido e
não é aceitável opor “diferenças” a “desigualdades”
5.5.1.3.
A igualdade criticada por Augusto Comte, então,
é basicamente a de situação material (isto é, de renda), abrangendo também a de
status e a de resultados; mas não considera nessas críticas nem a igualdade
de acesso (aos serviços públicos e ao mercado de trabalho) nem a igualdade perante
a lei
5.5.2.
Como o progresso ocorre naturalmente, o aumento
das desigualdades ocorre naturalmente, isto é, em uma situação de liberdade; de
maneira inversa, realizar a igualdade
consiste em impedir o progresso, o que só pode acontecer por meio da imposição
da força e da violência, em uma situação de restrição da liberdade
5.5.2.1.
Ora, restrição da liberdade com imposição da
violência equivale, por definição, em autoritarismo
5.5.2.2.
Literalmente, isso é o que se viu e é o que se
vê nos países soviéticos, em que a busca da igualdade resultou sempre,
necessariamente, em agressivo autoritarismo – com a recriação, muito mais
intensa, de desigualdades políticas, econômicas, sociais e religiosas
5.5.2.3.
Nos países soviéticos (estalinistas, leninistas,
“comunistas”) a imposição pública de responsabilidades – as críticas – eram e
são punidas com a cadeia ou coisa pior
5.5.3.
Augusto Comte afirma a liberdade sobre a
igualdade
5.5.3.1.
Mas é central que a afirmação da liberdade é feita em associação com a fraternidade,
tendo como pressuposto a dignidade e a responsabilidade
5.5.3.2.
Aliás, devemos ter clareza: em quase todos os
casos, quando se afirma a igualdade, o que se pressupõe é a fraternidade (em
conjunto com a dignidade)
5.5.3.2.1.
É digno de nota que, ao solicitarmos ao Chat GPT
para criar uma imagem representando a “igualdade”, ele gerou uma imagem que
representa a fraternidade
5.5.3.3.
Devemos lembrar que a igualdade só é aceita como
válida como um suposto antídoto (e um antídoto muito indireto) contra a
miséria, contra a sociedade de castas, contra as discriminações e contra as
irresponsabilidades
5.5.3.4.
Além disso, indo diretamente na direção do Positivismo
e contra a liberdade liberal (isto é, do liberalismo) – que é um conceito da
irresponsabilidade social e política em favor da exploração burguesa sobre o
proletariado –, desenvolveram-se (ou melhor, retomaram-se) nas últimas décadas
conceito sociais de liberdade, como o
de “liberdade como capacidades” de Amartya Sen, além das “quatro liberdades” de
F. D. Roosevelt (liberdade de expressão, liberdade de culto, liberdade da
miséria e liberdade do medo)
5.6.
Além do progresso como desenvolvimento (e,
portanto, como aumento das desigualdades), Augusto Comte é contra a noção de
igualdade porque ela vai contra as distinções sociais e os atributos morais e
políticos correlatos
5.6.1.
Duas distinções elementares são negadas pela
noção de igualdade: a que estabelece os governos
(ou seja, a desigualdade política entre governantes e governados) e a que separa os patrícios dos proletários (ou
seja, a separação econômica entre patrões e empregados)
5.6.1.1.
Em outras palavras, são as distinções que
estabelecem os poderes materiais, dos
ricos e dos poderosos
5.6.2.
As distinções políticas e econômicas não
deixarão nunca de ocorrer: mas negar tais distinções impede direta e
imediatamente a determinação das responsabilidades mútuas dos ricos e dos
poderosos, em particular em relação aos governados e aos proletários
5.6.2.1.
Em outras palavras, negar a existência dos ricos
e dos poderosos impede a responsabilização social dos ricos e dos poderosos, o
que conduz imediatamente à aceitação da irresponsabilidade
dos ricos e dos poderosos
5.6.3.
Observa Augusto Comte que, sob a teologia, as responsabilidades eram
afirmadas dos fracos e pobres em favor
dos ricos e poderosos
5.6.3.1.
Evidentemente isso em si mesmo está certo, mas
isso sempre ocorreu em prejuízo da
determinação e da cobrança das responsabilidades próprias aos ricos e poderosos
5.6.3.2.
A negação da existência dos ricos e poderosos,
ou seja, a imposição (autoritária) da igualdade não impedirá a existência de
ricos e poderosos, causará confusão social e, principalmente, não permitirá a
determinação clara, honesta e explícita das responsabilidades próprias aos
ricos e poderosos e não permitirá que os
fracos e pobres cobrem tais responsabilidades
5.7.
Além de impedir o aperfeiçoamento humano, de promover
e basear-se no autoritarismo e de promover a irresponsabilidade social e
política, a proposta de igualdade é individualista
e egoísta
5.7.1.
As noções de igualdade e de individualismo
andam, necessariamente, de mãos dadas: a
“igualdade” só é possível a partir do individualismo; a partir daí, como
ocorre a negação e o rompimento dos vínculos sociais, a igualdade só é possível
em uma situação antissocial, de promoção do egoísmo
5.7.2.
A promoção simultânea do individualismo, do
egoísmo e da igualdade ocorreu justamente com o protestantismo: afinal, quando
se considera que todo crente é infalível, que é todo-poderoso e onisciente em
sua interpretação da Bíblia e em suas supostas conversas com a divindade, esse
crente não aceita nenhuma superioridade humana, fica isolado da sociedade e
busca a própria salvação
5.8.
Augusto Comte considera que a noção de igualdade
é crítica, isto é, destrutiva: integrando a metafísica
revolucionária, ela teve o papel de corroer e destruir as instituições do
Antigo Regime
5.8.1.
De uma perspectiva histórica, a noção de
igualdade teve, então, sua importância, especialmente contra a sociedade de
castas, isto é, a sociedade que juridicamente separa os cidadãos conforme o
nascimento
5.8.1.1.
O papel destruidor da igualdade foi estabelecido
pelo protestantismo e, em linha direta com ele (e não por acaso), foi afirmado
pela metafísica política de Rousseau
5.8.2.
Como indicamos, adicionalmente ao papel
destruidor próprio à noção de igualdade, ela também mistura, mascara e torna
confusas as noções de fraternidade e dignidade, além de negar a
responsabilidade
5.9.
Ora, se Augusto Comte é a favor da liberdade, do
progresso, da dignidade, da fraternidade e da responsabilidade – e, devido a
tudo isso, ele é contra a igualdade –, ele tem clareza (1) de que o progresso
conduz à sociocracia e (2) de que a submissão da política à moral conduz ao
altruísmo
5.9.1.
O caráter social e altruísta da república
estimula, ou melhor, baseia-se nas responsabilidades
– e, cabe notar, as responsabilidades pressupõem sempre as desigualdades de
atribuições
5.9.2.
Adicionalmente, as pátrias pequenas – ou melhor,
as mátrias –, a partir do conhecimento pessoal e direto das pessoas entre si, são
uma condição social e institucional importantíssima para a liberdade fraterna,
digna e responsável
5.10.
Três comentários gerais extras:
5.10.1.
Implícita ou explicitamente, Augusto Comte é a
favor da igualdade em três situações:
5.10.1.1. Na
homogeneidade de condições do
proletariado – a “homogeneidade” não corresponde à igualdade, mas à forte e
relativa semelhança de condições
5.10.1.2. Na
igualdade perante a lei (a chamada
isonomia); aliás, a crítica à sociedade de castas (de que o feudalismo é a última
forma) conduz necessariamente à igualdade perante a lei
5.10.1.3. Nos
estudos, que têm que ser idênticos
entre homens e mulheres e, principalmente, entre patrícios e proletários (na
verdade, a educação tem que ser melhor para os proletários que para os
patrícios, devido às dificuldades materiais dos proletários, bem como à sua
maior disponibilidade moral e intelectual)
5.10.1.4. Como
se vê, Augusto Comte reconhece e até estimula uma certa homogeneidade de
condições em particular para o proletariado
5.11.
Alguns comentários sobre as riquezas e as
responsabilidades materiais
5.11.1.
A pobreza é diferente da miséria
5.11.1.1. A
miséria tem um aspecto acima de tudo material e corresponde a uma carência
generalizada de recursos e de condições de vida
5.11.1.1.1.
Se a miséria é basicamente material, ela
apresenta e baseia-se em um aspecto moral: por um lado, a miséria também se
caracteriza pela ausência de dignidade; por outro lado, ela corresponde à
acachapante falta de fraternidade
5.11.1.1.2.
É claro que os aspectos materiais e morais da
miséria (carência de recursos, ausência de dignidade, ausência de fraternidade)
manifestam-se também por um elemento político, ou seja, pela falta de
responsabilidade
5.11.1.2. A
pobreza, por outro lado, é relacional: o pobre é quem tem menos recursos, ou
seja, o pobre é o não-rico
5.11.1.2.1.
O aspecto relacional da pobreza por definição
não impede nem a dignidade, nem a fraternidade, nem a responsabilidade
5.11.1.3. Em
outras palavras, devemos combater com grande intensidade a miséria e sempre
buscar melhorar as condições de vida dos pobres – considerando que o pobre deve
ser o não rico, em vez de ser o miserável
5.11.2.
Augusto Comte não tinha medo nem vergonha de
afirmar a necessidade social de concentração da riqueza, mas exigia a
responsabilidade dos detentores do capital
5.11.2.1. Para
nosso mestre, se a riqueza tem origem social, ela tem que ter, necessariamente,
destinação social
5.11.2.1.1.
Esse princípio corresponde à legitimação do
capital, ou seja, a um princípio que torna aceitável a concentração do capital:
dessa forma, isso está muito, muito, muito longe de ser secundário
5.11.2.1.2.
Quem nega esse princípio são os “materialistas”
(de maneira exemplar, os marxistas), que consideram que os problemas sociais
consistem apenas em disputas materiais de poder e riqueza; com isso, desprezam
os aspectos intelectuais e morais da sociedade e, não por acaso, desprezam o
conceito de “legitimação”; daí, tendem a ser autoritários, além de cínicos e/ou
hipócritas
5.11.2.2. A
concepção corrente dos ricos como “donos” do capital está atrelada a uma noção absoluta da propriedade – em
particular, de origem teológica, antissocial e egoísta –, em que eles fazem o
que querem com suas propriedades, sem responsabilidade nem preocupações
5.11.2.2.1.
A concepção absoluta da propriedade teve a
importância histórica de garantir a estabilidade da posse (contra os outros e
contra os inferiores), mas, como é evidente, jamais garantiu a responsabilidade
(perante os outros e perante os inferiores)
5.11.2.2.2.
A concepção positiva, relativa, da propriedade,
em linha com a origem e a destinação sociais do capital, estabelece que os
ricos são gestores do capital e,
portanto, total e necessariamente responsáveis (e responsabilizáveis) por seu emprego
5.11.2.2.3.
Enquanto a concepção absoluta da propriedade
garantia, até certo ponto, a posse em meio à guerra, ela é inadequada para uma
sociedade pacífica, cooperativa, fraterna e produtiva: em uma sociedade
positiva, ou melhor, em uma sociocracia, a propriedade tem que ser disciplinada
por uma concepção relativa – mais uma vez, por uma concepção da
responsabilidade coletiva, em benefício da sociedade e especialmente dos
proletários
5.11.2.2.4.
Assim, os ricos devem ser ricos e os pobres não
devem ser ricos, mas os ricos devem aplicar sua riqueza na geração de empregos
de qualidade e na melhoria material da sociedade
5.11.2.2.5.
Devemos notar que a afirmação das
responsabilidades do capital é feita como um princípio positivo, afirmativo,
que postula exatamente isso (as responsabilidades sociais do capital), em vez
de ser um princípio negativo e enviesado, como na metafísica, que usa a “igualdade”
para defender a fraternidade, a generosidade e a responsabilidade
5.11.2.3. Não
apenas Augusto Comte era pela responsabilidade do capital como era radicalmente
contrário à mesquinhez da burguesia
5.11.2.3.1.
As críticas de nosso mestre à burguesia eram
extremamente duras; basta notar que ele distingue claramente a burguesia –
mesquinha, fútil, egoísta – do patriciado – que se define, entre outras
características, pela renovação moral
5.11.2.3.2.
Entre outros, dois hábitos burgueses eram
criticados por nosso mestre: (1) a ênfase na poupança, isto é, na inutilidade e
na inutilização do capital, por meio do entesouramento indefinido da riqueza,
seja entre os próprios burgueses, seja especialmente entre os proletários (como
proposto pelos pietistas e pelos protestantes elogiados por Max Weber); (2) a
ostentação da riqueza, isto é, a demonstração da riqueza, com objetivo de
humilhar os pobres
5.12.
Resumindo
e retomando nossa exposição:
5.12.1.
Há
várias concepções de “igualdade”, que se misturam, imbricam-se e
confundem(-se): de status social, de condições materiais, de acesso aos
serviços, de resultados, perante a lei, de responsabilidades
5.12.1.1.
Em
particular, a noção mais disseminada de igualdade refere-se às desigualdades de
renda
5.12.1.2.
O
combate à miséria, às discriminações e às irresponsabilidades é confundido com
um sem-número de concepções de igualdade
5.12.1.3.
Além
disso, há a noção disseminada pela esquerda de que o progresso seria o
desenvolvimento da igualdade – aliás, noção alegre e ativamente mantida pela direita
5.12.1.4.
A
igualdade também se afirma negando, misturando, mascarando e tornando confusas
as noções mais importantes e fundamentais de fraternidade, dignidade e responsabilidade
5.12.2.
Do ponto
de vista histórico, a noção de igualdade sempre foi (como é) destruidora:
integrando a metafísica revolucionária, ela teve o papel de corroer e destruir
as instituições do Antigo Regime
5.12.3.
Além
de impedir o aperfeiçoamento humano, promover e basear-se no autoritarismo e de
promover a irresponsabilidade social e política, a proposta de igualdade é
individualista e egoísta
5.12.4.
O
progresso consiste em melhoramento, em aperfeiçoamento – ou, em concepções mais
simplistas, em desenvolvimento: o progresso consiste necessariamente em aumento
das diferenças, ou das desigualdades
5.12.5.
Augusto
Comte é a favor da liberdade, do progresso, da dignidade, da fraternidade e da responsabilidade;
o progresso conduz à sociocracia e a submissão da política à moral conduz ao
altruísmo
5.12.5.1.
O
caráter social e altruísta da república estimula e baseia-se nas
responsabilidades; as responsabilidades pressupõem sempre as desigualdades de
atribuições
5.12.6.
Implícita
ou explicitamente, Augusto Comte é a favor da igualdade (1) na homogeneidade de
condições do proletariado, (2) na igualdade perante a lei, (3) nos estudos, que
têm que ser idênticos entre homens e mulheres e, principalmente, entre
patrícios e proletários
5.12.7.
A
pobreza é diferente da miséria: a miséria tem um aspecto acima de tudo material
e corresponde a uma carência generalizada de recursos e de condições de vida; já
a pobreza é relacional: o pobre é quem tem menos recursos, ou seja, o pobre é o
não-rico
5.12.7.1.
O
aspecto relacional da pobreza por definição não impede nem a dignidade, nem a
fraternidade, nem a responsabilidade
5.12.7.2.
Devemos
combater com grande intensidade a miséria e sempre buscar melhorar as condições
de vida dos pobres – e o pobre deve ser o não rico, em vez de ser o miserável
5.12.8.
Augusto
Comte afirmava a necessidade social de concentração da riqueza, mas exigia a
responsabilidade dos detentores do capital
5.12.8.1.
Se a
riqueza tem origem social, ela tem que ter destinação social
5.12.8.1.1.
A
concepção absoluta da propriedade garantia a posse em meio à guerra, mas é
inadequada para uma sociedade pacífica, cooperativa, fraterna e produtiva
5.12.8.1.2.
Os
ricos devem aplicar sua riqueza na geração de empregos de qualidade e na
melhoria material da sociedade
5.12.8.2.
Augusto
Comte era radicalmente contrário à mesquinhez da burguesia
5.12.8.2.1.
Em
particular, dois hábitos burgueses eram criticados por nosso mestre: (1) a
inutilização do capital, entre os próprios burgueses e especialmente entre os
proletários; (2) a ostentação da riqueza, para humilhar os pobres
6.
Término da prédica
Referências
- Auguste
Comte (franc.), Síntese subjetiva
(Paris, Exécution Téstamentaire d’Auguste Comte, 2ª ed., 1900): https://archive.org/details/lasynthsesubjec00comtgoog.
- Augusto Comte (franc.), Sistema de
filosofia positiva (Paris, Bachelier, 1838), v. 3, 45e leçon
(“Considérations générales sur l’étude positive des fonctions intellectuelles
et morales, ou cérébrales”).
- Augusto
Comte (franc.), Sistema de política
positiva (Paris. J.-B.
Baillière, 4ª ed., 1880): https://archive.org/details/systmedepoliti01comt.
- Augusto
Comte (port.), Apelo aos conservadores
(Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores.
- Augusto
Comte (port.), Catecismo positivista
(Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 4ª ed., 1934).
- Gustavo
Biscaia de Lacerda (port.), O momento
comtiano (Curitiba, UFPR, 2019).
- Gustavo
Biscaia de Lacerda (port.), Comtianas
brasileiras (Curitiba, Appris, 2018).
- José
Lonchampt (port.), Ensaio sobre a oração
(Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1896; catálogo da IPB, n. 165): https://archive.org/details/n.-165-jose-lonchampt-ensaio-sobre-a-oracao.
- Luís
Lagarrigue (esp.), A poesia positivista
(Santiago do Chile, 1890): https://archive.org/details/luis-lagarrigue-a-poesia-positivista-1890_202509.
- Norberto
Bobbio (port.), Direita e esquerda
(São Paulo, Unesp, 3ª ed., 2012).
- Raimundo
Teixeira Mendes (port.), As últimas
concepções de Augusto Comte (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil,
1898): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-i
e https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-ii.
- Raimundo
Teixeira Mendes (port.), O ano sem par
(Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1900): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-o-ano-sem-par-portug._202312/page/n7/mode/2up.