Aforismos sociológicos XI - Mais uma vez, os preconceitos disseminados nas pesquisas empíricas
Comentários sobre o livro O Brasil no espelho (Rio de Janeiro, Globo Livros, 2025), de Felipe Nunes[1].
O
livro O Brasil no espelho: um guia para
entender o Brasil e os brasileiros, de Felipe Nunes – professor da Fundação
Getúlio Vargas e dono do Instituto Quaest, de pesquisas de opinião – foi
publicado em 2025 e apresenta os resultados de uma pesquisa sobre hábitos e
opiniões da população brasileira a respeito das mais variadas questões:
importância da família, preferências político-partidárias, confiança nas
instituições etc. É um livro pequeno, com menos de 200 páginas, de leitura
fácil e rápida, com muitos e muitos gráficos e a maior parte do texto escrito
correspondendo à descrição e à interpretação desses gráficos.
Esse
livro é interessante em vários sentidos: por um lado, apresenta informações
interessantes, comparando-as com algumas pesquisas anteriores; por outro lado,
ele é exemplar dos graves defeitos intelectuais e morais que as pesquisas de
opinião (“pesquisas empíricas”, “pesquisas quantitativas”, “pesquisas
científicas”) podem apresentar. Ou melhor, dizendo de outra maneira, de modo
mais direto: esse livro é exemplar dos
preconceitos que as pesquisas de opinião podem manter e estimular, de maneira
consciente e proposital.
Embora
seja o relatório de uma pesquisa de opinião, como é um livro que foi publicado
por uma editora comercial, ele é orientado para o grande consumo popular, de
modo que não há as reflexões metodológicas que sempre aparecem em pesquisas
estritamente acadêmicas; além disso, o estilo de escrita é bastante acessível;
por fim, pode-se conjecturar que algumas questões foram suprimidas dessa versão
publicada, a fim de manter (ou garantir) o acesso popular dos resultados da
pesquisa.
Para
estruturar as respostas dos entrevistados, além das classificações em termos de
gênero e da região do país, o autor considerou também a “raça” e, principalmente, as faixas
etárias. Em termos de gêneros e de região, não há muito o que comentar; a
respeito das “raças”, esse é um problema “misto”, na medida em que o autor entroniza
um critério discriminador mas segue o padrão oficial brasileiro – adotado pelo
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE, e que desgraçadamente
é racialista, isto é, racista.
Mas
o que nos interessa aqui é a classificação das respostas a partir das faixas
etárias. O autor agrupou os respondentes em quatro grupos, nomeados conforme o
período de nascimento e de sociabilização básica:
-
grupo “Bossa Nova” (nascidos entre 1945 e 1965)
-
grupo “Ordem e Progresso” (nascidos entre 1965 e
1985)
-
grupo “Redemocratização” (nascidos entre 1985 e 2005)
-
grupo “Geração.Com” (nascidos entre 2005 e 2020)
O
autor escolheu, conscientemente, deliberadamente, empregar a fórmula “Ordem e
Progresso” para descrever o período autoritário. Em outras palavras, o autor associa direta e conscientemente o
“Ordem e Progresso” – e, por extensão, o Positivismo – aos militares e ao
autoritarismo.
Não
há como diminuir ou minimizar os graves problemas morais e intelectuais dessa
escolha feita pelo autor. Mesmo que, por hipótese, possa-se argumentar que tal
vinculação foi “inocente” – como se o autor não tivesse desejado,
propositalmente, vincular estreitamente o “Ordem e Progresso” à noção de
autoritarismo –, o que a suposta inocência dessa vinculação comprovaria superficialidade e irresponsabilidade do autor, atributos que, com certeza, ele
rejeitaria e que o conjunto do livro, supostamente, demonstraria. Em todo o
livro, “erros inocentes” desse tipo não são vistos a respeito de outros
aspectos e, de qualquer maneira, o título “Ordem e Progresso” foi empregado em
um procedimento a posteriori e que,
de qualquer maneira, pode(ria) ser alterado a
posteriori: em outras palavras, o autor decidiu conscientemente adotar a
expressão “Ordem e Progresso” para descrever o período autoritário, vinculando
a expressão ao autoritarismo.
A
irresponsabilidade e a superficialidade intelectual, teórica e metodológica do
autor estende-se também ao âmbito moral, na medida em que o “Ordem e
Progresso”, à parte a sua origem positivista, integra o mais importante símbolo
do país, que é a bandeira nacional[2].
Dessa forma, ao vincular o “Ordem e Progresso” ao autoritarismo militarista, o
que o autor faz é vincular a bandeira nacional a esse autoritarismo
militarista, corroborando os preconceitos da esquerda e da direita a respeito[3].
O
caráter intencional e preconceituoso de Felipe Nunes ao escolher o rótulo
“Ordem e Progresso” torna-se mais claro e mais intenso quando se considera que
ele poderia ter escolhido inúmeros outros rótulos, com seriedade ou em tom de
piada, para descrever a geração nascida entre 1964 e 1985. Assim, por exemplo, ele
poderia ter usado “Anos de Chumbo”, “Autoritarismo”, “Regime Militar” – ou
mesmo “Segurança e Desenvolvimento”: o autor não o fez simplesmente porque não
quis.
Ora,
esse tipo de vício intelectual e moral – aliás vício chamado “preconceito” – está
presente em todo o livro e reflete um problema que acomete com enorme
freqüência cientistas sociais dedicados a pesquisas empíricas, especialmente as
quantitativas: são muito bons com números e com a manipulação estatística, mas
são péssimos em termos conceituais. Por “péssimos em termos conceituais” o que
queremos dizer é que esses pesquisadores lidam mal com os conceitos, não raras
vezes sendo superficiais a esse respeito. Em outras palavras, são bons para contar
coisas, mas fracassam (com freqüência, de maneira intencional) na parte que
realmente importa, que é a reflexão intelectual.
Os
grandes esquemas apresentados no livro refletem com clareza tal
superficialidade conceitual, ou melhor, tal superficialidade teórica e
filosófica: por exemplo, o autor opõe “conservadores” a “progressistas”, em que
os “conservadores” são definidos como tais estritamente a partir do que a
esquerda considera-o, da mesma forma que os “progressistas”. Em outras palavras,
não apenas o autor adota sem maiores cuidados uma classificação que é elaborada
por um dos grupos sociais que ele pesquisa (e que é elaborada contra um outro grupo que ele também
pesquisa), como o autor adota pessoalmente essa mesma classificação.
Infelizmente
faz parte do repertório contemporâneo a afirmação (que em si é falaciosa) de
que “tudo é política”, ou seja, de que tudo está em permanente disputa: se
“tudo está em disputa”, com certeza os conceitos que esquerda e direita fazem
de “conservadores” e “progressistas” também estão (e estão ainda mais) em
disputa. Ora, não deveria ser obrigação profissional da parte do autor (como
professor universitário, como pesquisador profissional, como dono de um
instituto de pesquisa) distanciar-se um mínimo que fosse desses conceitos “em
disputa”? Essa obrigação profissional deveria ser evidente para o autor, em
termos científico-metodológicos, filosóficos e morais –
para não ficarmos somente nos rasteiros termos políticos.
O
primarismo conceitual do autor, bem como sua adesão acrítica aos valores da
esquerda, fica evidente tanto nas categorias utilizadas por ele para estruturar
a pesquisa quanto nas interpretações que ele faz dos dados obtidos. Assim, por
exemplo, em termos de categorias empregadas para organizar as respostas
fornecidas pelos entrevistados, indicamos acima que o autor adota o conceito de
“raças”; mas, para além da triste mas inevitável reprodução da política
racialista oficial do Brasil, o fato é que o autor leva a sério a categoria
“raça”. Ou seja, o autor reproduz o preconceito identitário segundo o qual o
Brasil seria constitutiva e profundamente “racista”[4].
Em
outro âmbito de reflexões, o autor afirma que “valorizar a família” seria um
traço de conservadorismo – o que, inversamente, significa que desvalorizar a
família seria uma perspectiva progressista! Em outras palavras, o que o autor
sugere, ainda que de maneira subentendida, é que a desestruturação de lares, a
fragilidade sistemática das relações humanas, a ausência de ambientes estáveis,
acolhedores e estruturados – isso seria algo bom e desejável.
O
autor não é explícito a respeito; ele não assume, em momento nenhum, tais
características. Na verdade, inversamente, o autor assume um certo objetivismo
ligado ao seu quantitativismo; esse objetivismo serve na prática para que os
pesquisadores quantitativistas escondam-se atrás de números e da retórica
academicista-cientificista. (Essa crítica é feita por autores/pesquisadores
tanto da direita quanto da esquerda.) De qualquer maneira, a leitura atenta do livro
evidencia com grande facilidade esses vícios.
Há
muitos outros aspectos em que o livro é superficial em termos de reflexões
teóricas, de elaboração conceitual, de fundamentos filosóficos elementares. É
claro que não seria possível o autor abordar com profundidade todos os aspectos
implicados pela pesquisa; entretanto, o autor dá certo destaque para algumas
questões, sugere algumas conseqüências a respeito dessas questões e de algumas
outras, mas silencia a propósito de outras que mereceriam (ou exigiriam)
comentários e aprofundamento. Isto é, o autor escolhe conscientemente dar destaque a algumas coisas e a silenciar
(ou omitir, ou ser superficial) a respeito de outras.
Um
tema a respeito do qual o autor silencia é a chamada “laicidade do Estado”. O autor
apresenta previamente vários resultados importantes – por exemplo, que a
população brasileira acredita majoritariamente em divindades (monoteístas e
politeístas) e que a população acredita no “poder da fé” –, para em seguida
afirmar que isso tem relevância para políticas públicas, especialmente as que
mobilizam mais diretamente a ciência (como as políticas de saúde e,
indiretamente, de educação) e afirmar que se “deve levar a sério o peso das
crenças populares, sob risco de as políticas públicas darem errado”: ora, o que
se quer dizer com “levar a sério as crenças populares”? O autor silencia a
respeito, mas sua omissão dá a impressão de que ele considera que governo e
Estado devem incluir essas crenças nas políticas públicas – logo, o Estado deve
deixar de lado a laicidade, o que deveria ser evidentemente inaceitável. Mas,
em todo caso, como o autor silencia a respeito, temos apenas uma sugestão vaga e
inconclusiva, mesmo que – como o próprio autor admite – seja a respeito de um aspecto
central das políticas públicas.
Em
face disso tudo, a vinculação cínica e ligeira do “Ordem e Progresso” ao
militarismo e ao autoritarismo evidencia de maneira exemplar os vícios
intelectuais e metodológicos do autor. Como vimos, o autor opõe de maneira
simplista “conservadores” a “progressistas”: mais que apenas aderir de maneira
indesculpável às disputas políticas contemporâneas e transferi-las para sua
pesquisa, o que o autor faz é rejeitar qualquer possibilidade efetiva de
superar essa oposição e de realizar a união proposta pela máxima “Ordem e
Progresso”. O conjunto dos problemas teóricos, morais e políticos do livro
deixa bastante claro que o autor não conhece a sociologia e a história
subjacentes ao “Ordem e Progresso” e não entende a respectiva filosofia[5]:
é difícil não chegarmos à conclusão de que se esconder atrás dos números para
repetir e reproduzir preconceitos políticos nunca foi tão fácil e lucrativo.
Em
textos de promoção comercial das obras do autor, afirma-se que ele é um
“grande” pesquisador, com uma carreira de sucesso no Brasil e no exterior,
tendo desenvolvido muitas pesquisas e elaborado um índice que é vendido para governos
e empresas. À parte o exercício comercial desse tipo de comentário, o êxito
acadêmico do autor deixa claro que não há motivo nenhum para ele cometer os
erros e os vícios que comete – e ele de fato comete-os: sua habilidade
estatística e empírica poderia com enorme facilidade evitar todos os problemas
devidos ao seu primarismo teórico.
Em
suma, é difícil não se ficar com grande irritação e má vontade com um livro e com
um pesquisador que cometem erros tão grandes e superficiais, de maneira
consciente e sistemática.
Gustavo
Biscaia de Lacerda (GBLacerda@ufpr.br) é
Doutor em Sociologia Política (UFSC) e Sociólogo da UFPR.
Referências bibliográficas
Abaixo-assinado “A bandeira nacional
republicana não é fascista”. 2022. Disponível em: https://peticaopublica.com.br/pview.aspx?pi=BR127657.
Acesso em 30 abr. 2026.
Comte, Augusto. 1898. Apelo aos
conservadores. Rio de Janeiro: Igreja Positivista do Brasil.
Comte, Augusto. 1934. Catecismo
positivista. 4ª ed. Rio de Janeiro: Igreja Positivista do Brasil.
Lacerda, Gustavo B. 2018. Comtianas
brasileiras. Curitiba: Appris.
Lacerda, Gustavo B. 2019. O momento
comtiano. Curitiba: UFPR.
Lacerda, Gustavo B. 2025. Sobre o livro “A utopia autoritária brasileira”, de
Carlos Fico. Filosofia Social e
Positivismo, Curitiba, 21 out. Disponível em: https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2025/10/sobre-o-livro-utopia-autoritaria.html.
Acesso em: 30 abr. 2026.
Lacerda, Gustavo B. 2026. “O Brasil no espelho”, Dia das Mulheres, Castilhismo
não é fascismo. Filosofia Social e
Positivismo, Curitiba, 11 mar. Disponível em: https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2026/03/o-brasil-no-espelho-dia-das-mulheres.html.
Acesso em: 30 abr. 2026.
Mounk, Yascha. 2024. A armadilha da
identidade: uma história das ideias e do poder em nosso tempo. Rio de
Janeiro: ed. 70.
Neiman, Susan. 2024. A esquerda não é
woke. Belo Horizonte: Âyiné.
Nunes, Felipe. 2025. Brasil no espelho:
um guia para entender o Brasil e os brasileiros. Rio de Janeiro: Globo.
Risério, Antônio. 2022. A crise da
política identitária. Rio de Janeiro: Topbooks.
Teixeira
Mendes, Raimundo Teixeira. 1898. As últimas concepções de Augusto Comte.
Rio de Janeiro: Igreja Positivista do Brasil.
[1] Este documento retoma comentários
feitos oralmente em Lacerda (2026).
[2] Considerar que esse título foi
devido a um erro “inocente” é, na melhor das hipóteses, um sofisma, ou, em linguagem
direta, uma desculpa esfarrapada. Uma hipótese complementar, de que essa
escolha teria sido uma espécie de piada política feita pelo autor, é ainda pior
– que se torna mais degradante na medida
em que se passa a ter em mente que o “Ordem e Progresso” integra a bandeira
nacional brasileira.
[3] Devido a uma triste mas reveladora
coincidência, no mesmo dia em que expusemos oralmente as críticas ao livro de
Felipe Nunes, divulgamos uma postagem em que nos pusemos contra a pretensão de
direitistas de associarem o Positivismo ao fascismo; trata-se do cartaz “O
castilhismo não é fascista” (ver Lacerda, 2026); antes, em 2022, lançamos o
abaixo-assinado “A bandeira nacional republicana não é fascista”.
A respeito dos
preconceitos que a esquerda difunde contra o Positivismo, pode-se consultar
Lacerda (2018), em que discutimos detalhadamente os mitos que Sérgio Buarque de
Hollanda criou contra o Positivismo, e Lacerda (2025), em que tratamos do
último livro do historiador Carlos Fico.
[4] Sobre os graves problemas morais,
intelectuais e políticos do identitarismo em geral e, para o que nos interessa
aqui, do identitarismo racialista-racista, cf. Risério (2022) e Mounk (2024).
Susan Neiman (2024), a partir da esquerda, reafirma a crítica ao identitarismo.
[5] É claro que bastaria o autor ler
diretamente Augusto Comte (por exemplo, 1898 ou 1934) a esse respeito; ou o
nosso grande Raimundo Teixeira Mendes (por exemplo, 1898). Mas, caso quisesse
usar a desculpa de que tais referências são difíceis de achar (o que é discutível,
especialmente com os atuais e vastos repositórios eletrônicos, como o Internet
Archive, o Google Books ou o Gallica), estão à disposição os livros de Lacerda
(por exemplo, 2018 e 2019), bem mais recentes.

