15 abril 2026

Teocracia, democracia, sociocracia

No dia 20 de Arquimedes de 172 (14.4.2026) realizamos nossa prédica positiva, dando continuidade à leitura comentada do Apelo aos conservadores (concluindo a Segunda Parte - conduta dos positivistas em relação aos retrógrados).

No sermão abordamos brevemente os conceitos de "teocracia" (teológico), "democracia" (metafísico) e "sociocracia" (positivo).

A prédica foi transmitida nos canais Positivismo (https://youtube.com/live/bEgp1EHD0EE) e Igreja Positivista Virtual (https://www.facebook.com/IgrejaPositivistaVirtual/videos/1710328576819690).

As anotações que serviram de base para a exposição oral encontram-se reproduzidas abaixo.

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Teocracia, democracia, sociocracia

(20 de Arquimedes de 172/14.4.2026) 

1.     Abertura da prédica

2.     Datas e celebrações

2.1.   Dia 22 de Arquimedes (16.4): nascimento de Ivan Lins (1904 – 122 anos)

3.     Leitura comentada do Apelo aos conservadores

4.     Exortações

4.1.   Sejamos altruístas!

4.2.   Façamos orações!

4.3.   Como Igreja Positivista Virtual, ministramos os sacramentos positivos a quem tem interesse

4.4.   Para apoiar as atividades dos nossos canais e da Igreja Positivista Virtual: façam o Pix da Positividade! (Chave Pix: ApostoladoPositivista@gmail.com)

5.     Sermão: teocracia, democracia, sociocracia

5.1.   O sermão de hoje aborda os regimes sociais e políticos próprios a cada uma das três grandes fases intelectuais humanas, a teologia, a metafísica e a positividade

5.1.1. Este sermão não é motivado por nenhum fator imediato, no sentido de que ninguém fez nenhuma pergunta, nenhum comentário a respeito; mas, ainda assim, como com freqüência tratamos desses conceitos, parece-me que vale a pena tratarmos deles com um pouco de cuidado

5.1.2. Este sermão apresentará apenas algumas breves indicações teóricas, históricas e práticas

5.2.   Este sermão corresponde, assim, ao cruzamento da lei intelectual dos três estados com práticas políticas; portanto, não se trata de apresentar, em si mesma, a lei prática dos três estados

5.2.1. Como já vimos inúmeras vezes, mesmo em uma prédica anterior (a do dia 14.Gutenberg.171/26.8.2025), existem três leis dos três estados – a intelectual, a prática e a afetiva

5.2.2. A lei intelectual corresponde à seqüência teologia-metafísica-positividade (ou, em termos mais gerais, absolutismo-relativismo); a lei prática corresponde à seqüência guerra de conquista-guerra defensiva-atividade pacífica produtiva; por fim, a lei afetiva corresponde à seqüência família-pátria-Humanidade

5.2.3. Como Augusto Comte observou reiteradas vezes, há uma correspondência geral entre cada um dos degraus dessas leis (por exemplo: positividade-atividade pacífica-Humanidade), o que aliás gera um reforço entre eles; ainda assim, o que queremos comentar não é uma exposição da lei prática dos três estados, mas uma aplicação prática da lei intelectual

5.3.   Antes de entrarmos no tema específico deste sermão, temos que lembrar que toda sociedade tem dois poderes, responsáveis pela regulação social: o poder temporal e o poder espiritual

5.3.1. O poder temporal regula objetivamente a sociedade, impondo comportamentos com base na violência física

5.3.2. O poder espiritual regula subjetivamente a sociedade, aconselhando comportamentos a partir da educação, das idéias e dos valores compartilhados

5.4.   Passemos então ao enunciado da lei intelectual dos três estados: conforme está no quadro da Filosofia Primeira[1], “Cada entendimento oferece a sucessão dos três estados, fictício, abstrato e positivo, em relação às nossas concepções quaisquer, mas com uma velocidade proporcional à generalidade dos fenômenos correspondentes”; trata-se da sétima lei, integrando o segundo grupo de leis (essencialmente subjetivo) e, neste grupo, correspondendo à segunda série de leis (as leis dinâmicas do entendimento)

5.4.1. Em outras palavras, toda concepção (toda idéia, toda noção) atravessa ao longo do tempo (em termos dinâmicos, portanto) um processo em que começa com referências às divindades (ou melhor, às divindades teológicas) e é positivada, com referências explícitas e conscientes ao ser humano, respeitando as leis naturais: em todo caso, esse processo corresponde à passagem do absolutismo ao relativismo

5.5.   Muitas concepções em si mesmas realizam essa transição de maneira um tanto autônoma, ou isolada; talvez, por exemplo, os raios nas tempestades; outras concepções, todavia, apresentam um desenvolvimento mais amplo, seja porque são mesmo mais amplas (referindo-se ao mesmo tempo a muitos aspectos da realidade), seja porque elas têm muitas aplicações específicas

5.5.1. Assim, o processo da positivação ocorre ao mesmo tempo em termos gerais e em termos específicos; forçando um pouco os termos, podemos dizer que a positivação ocorre tanto em termos sintéticos quanto analíticos, em que um apóia e reforça o outro

5.5.2. A visão geral do mundo é aplicada nas teorias do governo, isto é, nas teorias que justificam o governo e que, a partir disso, regulam as relações entre o mando e a obediência, entre o governo e a sociedade

5.5.3. Uma outra forma de entender essa questão é reconhecer que os elementos comuns a todas as sociedades – isto é, a sociologia estática, entre os quais se encontra, justamente, o governo – passam por uma evolução histórica específica – que é descrita e explicada pela sociologia dinâmica

5.6.   A evolução histórica do governo ocorre antes de mais nada em termos de justificativa, ou de legitimação, isto é, em termos dos princípios que explicam a dinâmica da sociedade e que tornam aceitáveis que os governantes mandem e que os governados obedeçam

5.6.1. A partir da legitimação geral temos formas específicas de organização do governo, ou melhor, formas específicas do poder temporal, do Estado

5.6.2. A legitimação consiste nos princípios socialmente compartilhados que tornam aceitável uma determinada forma de realizar o mando; essa forma não apenas é aceita como se torna obrigatória, contra outras formas possíveis

5.7.   Exemplificando e já passando para as formas de legitimação e de organização do Estado, consideremos a teologia e a teocracia

5.7.1. Sabemos que na teologia o mundo é explicado com referência às divindades teológicas, que são absolutas e caprichosas; o ser humano foi criado por elas para satisfação vaidosa dessas divindades, a quem se deve a adoração e a obediência e, inversamente, a quem não se pode desrespeitar: um mundo incompreensível, regido por uma entidade ciumenta, mantém e consagra um poder que não tolera discussão: temos aí um poder espiritual que exige para si o poder temporal, constituindo a teocracia

5.7.2. A teologia tem uma tendência fortíssima a sempre constituir teocracias

5.7.3. A teocracia verdadeiramente é o governo dos sacerdotes, em que o poder espiritual submete o poder temporal (representado pelos guerreiros); essa forma de governo é bastante estável e, historicamente, constituiu-se na forma de politeísmos conservadores

5.7.4. A confusão teológica dos dois poderes pode ocorrer no sentido oposto, com os guerreiros submetendo os sacerdotes; a literatura da ciência política no século XX passou a denominar essas formas de “cesaropapismo”, mas o Positivismo chama-os de “politeísmos progressistas” (Grécia e Roma)

5.7.5. No Ocidente, após os politeísmos conservador e progressista, tivemos o monoteísmo católico; o catolicismo teve a honra de, na Idade Média, ter ensaiado a separação entre os dois poderes, embora esse esforço tenha fracassado e a tendência geral para a teocracia afirmou-se no final; essa tendência afirmou-se na forma concreta do “direito divino dos reis”, em que os reis governam por mandato divino, submetendo-se e responsabilizando-se apenas perante deus

5.8.   Passando para a metafísica, ela é tão absoluta quanto a teologia, mudando de deus para entidades abstratas, geralmente “o povo”, mas também “a natureza”

5.8.1. A metafísica é tanto corrupção, degradação, da teologia quanto transição da teologia para a positividade; assim, a metafísica mantém o caráter absoluto – ou seja, indiscutível – da teologia, mas começa a incluir elementos humanos e sociais

5.8.2. Dessa forma, a metafísica substitui o direito divino dos reis, ou melhor, a soberania divina, pela soberania popular: a soberania popular é tão absoluta, indiscutível e intolerante quanto a soberania divina dos reis, mas começa a afirmar a importância do bem comum; em todo caso, a metafísica exige (tanto quanto a teologia) a confusão dos dois poderes ou é altamente permissiva a ela (ou rejeita a separação entre os dois poderes)

5.8.3. A metafísica política assumiu, nos séculos XVIII e XIX, variadas formas: nos países germânicos virou o Volk (que, no século XX, resultou no nazismo); na França virou “o povo”, ou a “soberania popular”

5.8.3.1.          A soberania popular resultou, por sua vez, na democracia, conforme ela foi proposta e justificada por J.-J. Rousseau

5.8.4. A obra de Rousseau não deixa dúvidas sobre o aspecto absolutista, autoritário e intolerante da “soberania popular”, bem como da exigência de confusão entre o poder temporal e o poder espiritual

5.8.4.1.          Rousseau afirmava que o governo precisa, necessariamente, de uma religião civil, mantida pelo Estado, com a adesão obrigatória a uma determinada profissão de fé, com itens específicos (nomeadamente, a crença em deus); quem se recusar a aceitar a religião civil deve ser preso ou expulso do país

5.8.4.2.          A democracia (de Rousseau) é a metafísica política; o comunismo soviético é outra metafísica política (não por acaso, também particularmente intolerante)

5.8.4.3.          Uma outra aplicação política atual da metafísica consiste no identitarismo: a política identitária rejeita raivosamente a separação entre igreja e Estado, reafirma o crime de blasfêmia e exige a submissão do Estado e da política a um pseudoclero composto pela pedantocracia e por movimentos sociais

5.8.5. O que se chama atualmente de “democracia” afirmou-se pelo mundo afora no século XX, a par da crescente influência mundial dos Estados Unidos, e consiste em um misto de (1) preocupação com o bem público, (2) submissão das elites políticas às massas via processo eleitoral e (3) mecanismos políticos derivados do liberalismo político inglês

5.8.6. Criticar a democracia, atualmente, é difícil, por um lado, devido às chamadas práticas “iliberais”, que são as defendidas pelos fascistas (e, nesse sentido, pode-se ter a impressão de que a crítica à democracia como metafísica corresponderia à defesa das “democracias iliberais” fascistas); por outro lado, mais que o seu conteúdo específico, a palavra “democracia” foi sacralizada e consagrada, independentemente do que ela propõe e independentemente da história da prática e do conceito

5.8.6.1.          Para não deixar qualquer dúvida, para não haver nenhum equívoco: a crítica que o Positivismo faz à democracia refere-se ao caráter metafísico, absoluto, autoritário da noção de “vontade popular”, da “soberania popular”, do Volk; inversamente, o Positivismo é radicalmente a favor das liberdades, da separação entre o poder temporal e o poder espiritual, a favor da dignidade humana, da autonomia individual, do respeito às mulheres, do respeito aos trabalhadores etc.

5.9.   Passando finalmente para a positividade, nós temos aqui a passagem do absolutismo para o relativismo, com a conseqüente passagem da confusão entre os poderes temporal e espiritual para a separação entre eles, bem como a passagem de concepções indiscutíveis e de um poder autoritário para concepções discutíveis e um poder que aceita e promove a liberdade; por fim, com a positividade as concepções extra-humanas (sejam as teológicas, sejam as puramente abstratas) cedem lugar às perspectivas humanas, em particular com a afirmação do bem comum

5.9.1. Augusto Comte, ao criar a sociologia, contrapôs essa nova ciência à teologia; a partir disso, ele propôs paralelos entre as palavras:

Teologia à sociologia

Teocracia à sociocracia

Teolatria à sociolatria

5.9.2. Assim, a sociocracia é o regime político das liberdades públicas, em que há a separação entre igreja e Estado; em que as concepções são passíveis de exame; em que a conduta dos líderes (em particular dos líderes políticos) é permanentemente passível de exame, de avaliação e de legitimação pública

5.9.3. O que se chama vulgarmente, nos dias atuais, de “democracia” na verdade deveria ser chamado de “sociocracia”

5.9.3.1.          Entretanto, não se trata apenas de um problema terminológico, isto é, de usar uma palavra no lugar de outra: o emprego da palavra “democracia” sugere e permite a política absolutista, intolerante, que com tanta freqüência temos que lidar; o surgimento das práticas autoritárias próprias ao fascismo, ao comunismo, ao identitarismo é possível graças à mentalidade metafísica própria à “democracia”

5.9.3.2.          A palavra “democracia”, no caso, serve como porta de entrada e como canal para as tendências autoritárias e absolutistas próprias à metafísica

5.9.3.3.          A substituição da palavra “democracia” por “sociocracia” é o primeiro passo, necessário (mas em si insuficiente), para a positivação da política

5.9.4. Augusto Comte propôs a sociocracia em 1848 e nós, positivistas, passamos a implementá-la imediatamente, seja como parâmetro de comportamento e de avaliação pública, seja como regime político e social: isso se deu na França, na Inglaterra, nos Países Baixos, em Portugal e na Espanha, na Suécia, no Brasil, na Argentina, no Chile, no México, no Uruguai, nos Estados Unidos, na Índia, na Turquia, no Japão etc. etc. etc.

5.9.4.1.          Em 1926, Cornelis “Kees” Boeke, um anarquista neerlandês de origem quacre (e, sendo anarquista, era metafísico) pensou na palavra “sociocracia”, gostou dela, considerou que ela seria um rótulo conveniente como alternativa à “democracia” e resolveu tomá-la para si; esse movimento afirma que o Positivismo jamais aplicou a sociocracia e/ou que as indicações de Augusto Comte a respeito teriam sido vagas e genéricas: evidentemente, essas observações foram feitas desprezando a história e, lamentavelmente, apesar do que pregam, também movidas por má fé

5.9.4.2.          Com Boeke tem-se, mais uma vez, o habitual problema a respeito do Positivismo: as concepções de Boeke até são generosas, fraternas etc., mas elas foram propostas investindo na má fé contra o Positivismo; essa ambigüidade é fatal, venenosa e não pode ser ignorada

6.     Término da prédica

 

Referências

- Auguste Comte (franc.), Síntese subjetiva (Paris, Exécution Téstamentaire d’Auguste Comte, 2ª ed., 1900): https://archive.org/details/lasynthsesubjec00comtgoog.

- Augusto Comte (franc.), Sistema de política positiva (Paris. J.-B. Baillière, 4ª ed., 1880): https://archive.org/details/systmedepoliti01comt.

- Augusto Comte (port.), Apelo aos conservadores (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores.

- Augusto Comte (port.), Catecismo positivista (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 4ª ed., 1934).

- Gustavo Biscaia de Lacerda (port.), O momento comtiano (Curitiba, UFPR, 2019).

- Gustavo Biscaia de Lacerda (port.), Prédica Positiva “As três leis dos três estados” (Curitiba, Igreja Positivista Virtual, 14.Gutenberg.171/26.8.2025): https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2025/08/o-inicio-do-positivismo-as-tres-leis.html.

- José Lonchampt (port.), Ensaio sobre a oração (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1896; catálogo da IPB, n. 165): https://archive.org/details/n.-165-jose-lonchampt-ensaio-sobre-a-oracao.

- Luís Lagarrigue (esp.), A poesia positivista (Santiago do Chile, 1890): https://archive.org/details/luis-lagarrigue-a-poesia-positivista-1890_202509.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), As últimas concepções de Augusto Comte (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-i e https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-ii.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), O ano sem par (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1900): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-o-ano-sem-par-portug._202312/page/n7/mode/2up.



[1] Fonte: Augusto Comte. 1934. Catecismo positivista ou sumária exposição da Religião da Humanidade. 4ª ed. Rio de Janeiro : Apostolado Positivista do Brasil, p. 479.

14 abril 2026

A laicidade contra a misoginia

No dia 13 de abril de 2026 o jornal carioca Monitor Mercantil publicou o nosso artigo "A laicidade contra a misoginia". 

O artigo está reproduzido abaixo. A versão original encontra-se disponivel aqui: https://monitormercantil.com.br/a-laicidade-contra-a-misoginia/.

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A laicidade contra a misoginia

Misoginia é tratada como blasfêmia, sujeito ao punitivismo identitário Por Gustavo Biscaia de Lacerda

Na conturbada sociedade em que vivemos, é correto que cada vez mais se dissemine a noção de que a misoginia deve ser combatida. O desrespeito às mulheres, a violência contra elas, a concepção de que as mulheres seriam versões imperfeitas ou degradadas dos homens – tudo isso tem que ser visto como errado e degradante.

A relevância moral e a urgência política (mesmo policial) do tema exigem que o digamos com clareza, com todas as letras: as mulheres devem ser valorizadas e respeitadas; o fato de elas serem fisicamente mais frágeis não as diminui e, bem ao contrário, torna-as mais merecedoras de cuidado e atenção. Aliás, é exatamente a relativa fragilidade que justifica a novidade penal brasileira correspondente ao “feminicídio” e que torna essa forma de homicídio tão aviltante.

(Apenas pessoas abrutalhadas consideram que os mais fracos são desprezíveis; apenas o culto à violência, à lei do mais forte, chega à conclusão degradante de que ser mais fraco, mais frágil e, por vezes, mesmo inferior seria motivo para humilhação e desrespeito. Ao longo de nossas vidas, todos nós, em vários momentos, somos mais ou menos frágeis e ocupamos posições de inferioridade. Em si mesmo, nada disso é ou precisa ser degradante ou humilhante.)

Enfim, se felizmente há um crescente consenso de que a misoginia deve ser combatida, parece que há também um infeliz consenso a respeito dos meios a empregar nisso. O projeto de lei que está atualmente em tramitação no Congresso Nacional e que transforma em crime a misoginia corresponde precisamente a esse infeliz consenso.

Nossa época ultrapolitizada afirma que tudo é política, ou seja, tudo é poder e dominação. Essa dominação não corresponde ao mando com legitimidade a partir de critérios públicos, compartilhados e livremente aceitos. Se “tudo é política”, quem manda exerce o poder de maneira agressiva, submetendo passivamente os demais. Isso rejeita o verdadeiro consenso, os valores morais, as concepções compartilhadas etc.

Em suma, essa política consiste apenas na aplicação brutal e cínica da máxima “manda quem pode, obedece quem tem juízo”. Não por acaso, essa concepção foi defendida pelos nazistas Carl Schmitt e Martin Heidegger e, a partir deles, foi popularizada por Michel Foucault – que é o teórico do identitarismo.

Desprezo pelos inferiores (e pela inferioridade), brutalidade na política, rejeição de valores livremente compartilhados: aplicando-se todas essas concepções ao problema da misoginia, o resultado não poderia ser diferente da simples e direta criminalização da misoginia.

Deveria ser evidente que a misoginia basicamente é uma questão de opinião – ideias que, por sua vez, baseiam-se em valores e que, por sua vez, podem converter-se em atos concretos. Claro que podemos considerar muitas ideias como erradas e muitos valores como degradantes; mas ideias e valores não são atos concretos.

Quando necessária, a punição deve considerar atos, não ideias e valores; aliás, nem todos os atos podem ser punidos, na medida em que evidentemente há graus de aceitação de comportamentos inadequados. Os atos mais agressivos e/ou de efeitos mais duradouros: esses devem ser punidos com o poder do Estado; em todo caso, opiniões e valores são opiniões e valores e não podem ser punidos como tais.

A criminalização da misoginia deixa de lado os atos e vai para as ideias e opiniões. Essa é a tendência geral vista no Brasil recente – a renovada criminalização de ideias e valores. Aliás, de maneira exemplar, não há uma deputada federal que processa judicialmente toda e qualquer pessoa que ouse discordar publicamente dela?

Essa criminalização é promovida pelos grupos identitários – no presente caso da misoginia, por grupos feministas e simpáticos ao feminismo. Esses grupos têm restabelecido o crime de blasfêmia, o que não deixa de ser surpreendente e chocante, na medida em que tais grupos são quase todos anticlericais.

O emprego da violência do Estado para impor censura oficial sobre ideias e valores corresponde às concepções gêmeas de que tudo é política e de que valores livremente compartilhados são tolice. Essas concepções, longe de melhorarem a sociedade e diminuírem a violência, pioram a agressividade social ao apostarem na brutalidade e no punitivismo sistemático.

São concepções e práticas brutais; as ideias e os sentimentos estimulam a misoginia por si só (e também o desprezo aos/às fracos/as), e as práticas conduzem à violência contra as mulheres. É notável: embora afirmem defender grupos desrespeitados, os identitários apostam em concepções e práticas que conduzem exatamente ao desrespeito e à violência.

Essas concepções têm sido defendidas ativamente, de maneira militante, à direita e à esquerda, pelo Governo Federal (e por governos estaduais), pelos membros do Congresso Nacional, pelo Ministério Público, por grandes jornais diários e até pelos ministros do Supremo Tribunal Federal. Não há república e não há sociedade que resistam a tal assédio.

Em inúmeras ocasiões, observamos que os grupos identitários rejeitam a separação entre igreja e Estado, a chamada “laicidade do Estado”. A laicidade do Estado pressupõe que nem tudo na sociedade é política e que é inaceitável usar o poder do Estado para impor ideias e valores – ou, o que é equivalente, que é inaceitável usar o Estado para a censura.

A laicidade pressupõe também a realidade autônoma da sociedade civil, cuja dinâmica não se limita ao poder e à disputa política; em consequência disso, a sociedade civil mobiliza valores e ideias, que devem ser respeitados e que orientam a ação do Estado.

É importante indicarmos também que as concepções gêmeas de laicidade do Estado e de sociedade civil pressupõem a legitimidade dos valores morais. A ultrapolitização punitivista atual despreza os valores morais, tachando-os de “moralismo”. Entretanto, como devemos chamar as concepções de dignidade humana, de respeito às mulheres, de fraternidade, de pacifismo etc., senão de “valores morais”?

Se tudo é apenas política, essas concepções “morais” seriam apenas palavras a serem usadas de maneira cínica em disputas sem fim (e sem objetivo); mas, se tais palavras significam alguma coisa, elas têm necessariamente e, acima de tudo, um valor moral, que deve ser entendido como superior à disputa política.

Ao assumir a existência e a autonomia da sociedade civil, a laicidade do Estado pressupõe que problemas morais exigem soluções morais. Para o tema que nos preocupa, isso significa que a misoginia, por mais criticável que seja – e que de fato é – deve ser tratada como uma questão de debate e convencimento na sociedade civil, e não como um crime de blasfêmia, sujeito ao vigilante punitivismo identitário.

Gustavo Biscaia de Lacerda é sociólogo da UFPR e doutor em sociologia política.

10 abril 2026

Celebração de Clotilde

No dia 15 de Arquimedes de 172 (9.4.2026) realizamos a celebração de Clotilde de Vaux, nossa mãe espiritual.


As anotações que serviram de base para a exposição oral encontram-se reproduzidas abaixo.

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Celebração de Clotilde de Vaux

(15 de Arquimedes de 172/9.4.2026) 

1.     Início

2.     Nos dias 9 e 11 de Arquimedes (3 e 5 de abril) celebramos o nascimento (1815) e a transformação (1846) de nossa mãe espiritual, Clotilde de Vaux

2.1.   Realizamos hoje, dia 15 de Arquimedes de 172 (9.4.2026), a celebração de Clotilde e não em outros dias devido a alguns motivos:

2.1.1. No dia 13 de Arquimedes (7.4) ficamos impossibilitados de realizar a prédica, devido a uma enxaqueca

2.1.2. Como indica Teixeira Mendes (O ano sem par, p. 782-783), nosso mestre decidiu que as cerimônias positivistas devem ocorrer às quintas-feiras

2.1.2.1.          Essa decisão decorreu, aliás, justamente, de dois acontecimentos ocorridos com  Clotilde, ambos em quintas-feiras: (1) a cerimônia de união espiritual entre ambos, de 28 de agosto de 1845 (batismo de Léon Marie, filho de Maximilien Marie, que teve como padrinhos Comte e Clotilde); (2) a extrema-unção de Clotilde, em 2 de abril de 1846.

2.1.3. Uma celebração dedicada unicamente a Clotilde, além de valorizar mais e melhor a nossa mãe espiritual, torna-se mais compreensível para o público

3.     A vida de Clotilde foi realmente sofrida

3.1.   Nascida em 3 de abril de 1815 com o nome de Carlota Clotilde Josefina Marie , filha do capitão Joseph Simon Marie e de Henriette-Joséphine de Ficquelmont,  casou-se com 20 anos com Amadeu de Vaux; após cerca de quatro anos de casamento, o marido acabou revelando-se mau-caráter, com falsificações, golpes e dívidas de jogo; ele fugiu, abandonando a esposa, que ficou largada à própria sorte; ele em seguida foi julgado réu revel e condenado: além de abandonada à penúria, Clotilde viu-se na degradante condição de carregar o sobrenome de um fugitivo condenado 

3.2.   Obrigada a voltar a viver com a família – ou seja, com os pais, com o irmão do meio (Maximilien) e sua cunhada –, não tinha renda própria, exceto uma pensão liberalmente concedida uma vez por ano por um tio conde, irmão de sua mãe e de sobrenome Ficquelmont, que ocupava um cargo de ministro na Áustria; esse dinheiro, embora fosse dedicado exclusivamente a Clotilde e desse-lhe um alívio material, era gerido ciosamente por sua mãe, que o empregava nos gastos familiares e não permitia que a própria Clotilde usasse-o: em outras palavras, ela estava reduzida à miséria, condição na qual sua família (sua mãe, na verdade), mantinha-a e pela qual era criticada – como se ela tivesse culpa disso e como se ela tivesse condições de evitar e/ou de sair dela!

3.3.   Após um certo tempo Clotilde envolveu-se em um romance, com um homem aparentemente casado; ela apaixonou-se perdidamente por ele e chegou a engravidar; ela acabou sofrendo um abortamento; as condições de casados de ambos impediram que o romance fosse levado adiante

3.4.   O irmão do meio de Clotilde, Maximilien, nascido em 1819, era aluno da Escola Politécnica e, desde antes de 1844, passou a ter aulas particulares de Matemática com Augusto Comte, aproveitando não somente o reforço didático como também as reflexões filosóficas e científicas; embora de modo geral Augusto Comte fosse um professor austero, ele acabou aproximando-se de Maximilien e tornando-se amigo de sua família, a quem passou a frequentar 

3.5.   A vida de Augusto Comte nessa altura era bastante solitária, basicamente ocupada com o trabalho (como professor e como filósofo); embora casado, Augusto Comte já tinha sido abandonado pela última vez por Carolina Massin em 1841; em 1842 ele concluiu a redação e a publicação da Filosofia positiva; desde 1841 ele residia no domicílio sagrado da rua Monsieur-le-Prince, n. 10, e contava com a assistência de Sofia: desde essa época até 1844, era essa a sua vida

3.6.   Em outubro de 1844, em uma das visitas de Augusto Comte à família Marie, ele por acaso conheceu a irmã de seu aluno; a partir daí, a vida solitária de nosso mestre reagiu sobre ele, aliada à simpatia que os sofrimentos de Clotilde despertaram nele e à relativa identidade desses sofrimentos; apaixonando-se por ela, em abril de 1845 ele escreveu-lhe uma carta, declarando-se

3.7.   Clotilde ficou surpresa com a intensa e inesperada declaração daquele austero filósofo e professor; a partir daí se seguiu uma belíssima troca de correspondência, em que nosso mestre aos poucos dá vazão aos seus sentimentos e com isso se controla e torna-se mais confiável para a jovem; por seu turno, Clotilde vai deixando seu susto e suas reservas e passa a confiar no filósofo; enquanto a troca de correspondência tinha lugar, nosso mestre continuava freqüentando a casa da família Marie, que passava assim a ter um atrativo adicional cada vez maior

3.8.   A paixão de Augusto Comte era muito intensa e foi a muito custo que ele controlou-a; esse controle deveu-se em grande medida à resistência pura de Clotilde, seja por sua pudicícia pessoal, seja porque nos primeiros meses da correspondência ela ainda se mantinha apaixonada pelo seu amante anterior

3.9.   Mas após cerca de seis meses, a situação resultou em um belo equilíbrio, em que nosso mestre afirmava com todas as letras que Clotilde poderia e deveria ser a mestre do relacionamento entre ambos; ao mesmo tempo, Clotilde confiava cada vez mais plenamente em nosso mestre, pedindo-lhe conselhos pessoais, de saúde, orientações filosóficas etc., além de fazer confidências pessoais e familiares

3.10.               Um aspecto belíssimo e notável é a preocupação mútua de cada qual: nosso mestre dava sugestões e estímulos para a carreira literária de Clotilde, que ambos viam como a forma de ela sair da penúria material e da relativa opressão familiar; Clotilde, por seu turno, preocupava-se que a paixão de Augusto Comte por ela afastasse-o de suas reflexões filosóficas

3.10.1.   A produção literária de Clotilde resultou, já naquela época, em vários poemas que ela escrevera antes, na novela epistolar Lúcia (largamente autobiográfica) e, no segundo semestre de 1845, no começo da redação do romance Guilhermina (no francês, originalmente Willelmine); além disso, as cartas escritas por Clotilde a Augusto Comte apresentam um tom filosófico e moral bastante intenso, revelando profundidade de espírito, intensa afetividade e emancipação filosófica

3.10.2.   Da parte de Augusto Comte, a paixão por Clotilde, em vez de distanciá-lo das reflexões filosóficas, renovou sua energia e seus temas; são dessa época inúmeras cartas filosóficas, sobre a celebração social (é a primeira Santa Clotilde, de 2.6.1845), sobre o casamento (12.1.1846), sobre o batismo cristão (28.8.1845)

3.11.               Já entrando no ano de 1846, a situação pessoal de ambos era precária: a saúde de Clotilde piorara muito, a perseguição academicista contra Augusto Comte retirara-lhe um de seus empregos; já a relação mútua entre ambos estava cada vez melhor, embora a família de Clotilde não confiasse na castidade desse relacionamento, passasse a apresentar obstáculos a Augusto Comte e impedisse Clotilde de administrar os recursos que ela recebia de seu tio austríaco; a partir de fevereiro de 1846 Clotilde adoeceu mais claramente e em março ela ficou cada vez mais prostrada; do final de março até o início de abril ela definhou, falecendo em 5 de abril

3.12.               A infundada desconfiança da família Marie para com Augusto Comte gerou equívocos e situações lamentáveis, que foram estimuladas pela situação desesperadora que todos eles atravessavam; em todo caso, nosso mestre manteve o apoio constante (e casto, convém notar), além de ceder os serviços de Sofia para Clotilde: nos termos de Clotilde, Sofia foi uma verdadeira irmã para ela, auxiliando-a de maneira importantíssima nas suas últimas duas semanas de vida; nesse período, Clotilde já se reconhecia apaixonada por Augusto Comte e retribuía o entendimento de que era sua esposa (subjetiva)

3.13.               As últimas palavras de Clotilde – “Comte, eu sofro sem ter merecido” – indicam o quanto ela dedicava-lhe profundo afeto e o quanto nosso mestre era realmente importante para ela

3.13.1.   O lamento de sofrer sem ter merecido, repetido várias vezes, além de ser extremamente preciso, também dão a indicação da redenção positiva da Humanidade: em vez de afirmar, com o catolicismo, que o ser humano atual sofre em virtude de supostos (e irracionais e imorais) crimes cometidos por seus antepassados (Adão) sob a influência negativa das mulheres, o Positivismo vê que sofremos sem merecer e que devemos agir para mudar esse quadro, melhorando o mundo, sob a inspiração da Humanidade e sob a influência benfazeja das mulheres

4.     Por que dizemos que Clotilde é nossa “mãe espiritual”?

4.1.   O amor dedicado por Augusto Comte a Clotilde forneceu-lhe o impulso, a direção e os elementos para que ele passasse da elaboração filosófica para a construção religiosa, ou seja, como ele dizia, para que ele passasse da carreira de Aristóteles para a de São Paulo; da mesma forma, esse amor permitiu-lhe realizar e satisfazer aspectos de sua vida que até então estavam tristemente represados e insatisfeitos: em outras palavras, com Clotilde nosso mestre realizou-se como ser humano: ao mesmo tempo e a partir disso, conseguiu ultrapassar o cientificismo e orientar-se com renovada e assombrosa energia ao desenvolvimento mais importante para o Positivismo, isto é, para o ser humano

4.1.1. O devotamento de Augusto Comte a Clotilde resultou na constituição das principais e mais importantes instituições do culto positivo: as orações, o culto privado, os anjos da guarda, vários dos sacramentos

4.1.2. Mas, ao mesmo tempo, esse desenvolvimento moral, afetivo e intelectual de Augusto Comte só foi possível porque Clotilde era realmente uma mulher superior, pelos sentimentos, pelo espírito e pelo caráter: ela era uma pessoa emancipada, que ao mesmo tempo entendia a importância histórica e social das instituições; era uma pessoa sensível, que sabia impor limites sem constranger os demais: não apenas Augusto Comte estabeleceu e reiteradamente reafirmou que Clotilde seria a diretora e juíza do relacionamento entre ambos, como ele também disse que, “para pensar como Comte seria necessário amar como Clotilde” (Teixeira Mendes, O ano sem par, p. 374-375)

4.1.3. As sete máximas de Clotilde, recolhidas por Augusto Comte em meio às cartas trocadas entre ambos, nas obras literárias de Clotilde e a algumas conversas pessoais, ilustram a sua superioridade

5.     A concepção de “mãe espiritual” estabelece o culto às mulheres e oferece um modelo e um início para o culto à Humanidade

5.1.   A mãe espiritual é u’a mulher, assim como, e não por acaso, a Humanidade: elas afirmam a superioridade moral das mulheres, que deve inspirar e orientar os sentimentos, as idéias e as ações dos homens

5.2.   A reverência e o culto que nosso mestre dedicou a Clotilde, como comentamos há pouco, inspiraram as principais características do culto à Humanidade

5.3.   Em virtude dessas múltiplas influências, Augusto Comte afirmava que a posteridade reconhecerá sempre, com justiça, que a Religião da Humanidade é uma criação tanto do próprio Comte quanto de Clotilde

6.     A concepção de “mãe espiritual”, muito mais que a mera adesão à Religião da Humanidade, estabelece com clareza a linha divisória entre os positivistas ortodoxos e os incompletos (ou cientificistas)

6.1.   É ao mesmo tempo triste e revelador dos hábitos mentais e morais contemporâneos, tanto de metafísicos quanto também de teológicos, que o nosso culto a Clotilde (a partir do culto a ela promovido por nosso mestre) seja sistematicamente desrespeitado e zombado: essas mesmíssimas pessoas, entretanto, ousam falar em dignidade da mulher, em dignidade do ser humano (embora às vezes falem, de maneira mais coerente, em cultuar apenas a divindade teológica, contra o ser humano), ao mesmo tempo em que elogiam implicitamente o cientificismo, ou afirmam que – para conveniência deles – o verdadeiro positivismo é, ou deveria ser, o cientificismo

6.2.   A noção de mãe espiritual também separa os positivistas completos de todos aqueles que rejeitam a noção de superioridade moral das mulheres – o que, por mais chocante que seja, inclui atualmente, acima de tudo, as próprias mulheres!

6.2.1. A rejeição da superioridade moral das mulheres baseia-se em uma concepção equivocada da dignidade feminina, mas tem como efeito a degradação moral da sociedade, a diminuição dos freios morais e afetivos à violência, o apoio à concepção materialista e brutal de que tudo na sociedade é apenas política, ou seja, poder, disputa, violência

6.2.2. Em outras palavras, a rejeição da superioridade moral das mulheres conduz, direta e indiretamente, à violência contra as mulheres, à misoginia e ao aumento do chamado “feminicídio”

7.     Leremos agora alguns poemas – alguns da própria Clotilde e outros compostos em sua homenagem

7.1.   O poema A infância  (com tradução de Teixeira Mendes)

7.2.   O poema fetichista Pensamentos de uma flor (com tradução de Teixeira Mendes)

7.3.   As sete máximas de Clotilde (publicadas pela primeira vez no Testamento de Augusto Comte e recolhidas por ele na correspondência sagrada, nas obras literárias de Clotilde e em conversas presenciais entre nossos pais espirituais)

7.4.   A Ave Clotilde de José Mariano de Oliveira (originalmente em italiano, com tradução do GPT para o português; ela será lida, mas deve ser cantada, ao som de Ave Maria, de Gounod)

7.5.   A Ave Clotilde de Henrique Batista da Silva Oliveira (originalmente em francês, com nossa tradução para o português; ela será lida, mas deve ser cantada, ao som de Ave Maria, de Gounod)

8.     Celebrar Clotilde faz-nos buscar ser melhores – mais afetivos, mais inteligentes, mais ativos –; ela faz-nos servir mais e melhor à Humanidade: é por isso que ela é e merece ser chamada de cofundadora da Religião da Humanidade, é por isso que ela é nossa mãe espiritual

9.     Término

 

Referências

- Auguste Comte (franc.), Síntese subjetiva (Paris, Exécution Téstamentaire d’Auguste Comte, 2ª ed., 1900): https://archive.org/details/lasynthsesubjec00comtgoog.

- Auguste Comte (franc.), Testamento (Paris, Exécution Téstamentaire d’Auguste Comte, 2ª ed., 1896).

- Augusto Comte (franc.), Sistema de política positiva (Paris. J.-B. Baillière, 4ª ed., 1880): https://archive.org/details/systmedepoliti01comt.

- Augusto Comte (port.), Apelo aos conservadores (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores.

- Augusto Comte (port.), Catecismo positivista (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 4ª ed., 1934).

- Gustavo Biscaia de Lacerda (port.), Prédica positiva “Sobre as máximas de Clotilde de Vaux” (Curitiba, Igreja Positivista Virtual, 3.César.169/25.4.2023): https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2023/04/sobre-as-maximas-de-clotilde-de-vaux.html.

- José Lonchampt (port.), Ensaio sobre a oração (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1896; catálogo da IPB, n. 165): https://archive.org/details/n.-165-jose-lonchampt-ensaio-sobre-a-oracao.

- Luís Lagarrigue (esp.), A poesia positivista (Santiago do Chile, 1890): https://archive.org/details/luis-lagarrigue-a-poesia-positivista-1890_202509.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), As últimas concepções de Augusto Comte (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-i e https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-ii.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), O ano sem par (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1900): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-o-ano-sem-par-portug._202312/page/n7/mode/2up. 

*           *           * 

A infância

(Clotilde de Vaux; tradução de Raimundo Teixeira Mendes)

 

Vem, criança gentil, mais perto... que m’encanta

Ver-te a madeixa loura, o meigo olhar formoso,

As graças naturais que têm tanto invejoso,

A fonte onde arde a inocência o templo seu levanta.

 

Vem, qu’eu gosto de ver-te o velho pai prezando

Mais que o ledo brincar que os anos seus molesta;

Gosto de ver fugir, dos beijos teus à festa,

A nuvem que, no olhar materno, ia assomando.

 

Gosto de ver o ancião que vai, a lento passo,

O humilde lar buscando, apoiado ao teu braço;

Gosto de ver-te a mão encheres, com carinho,

Do pobre que se senta à borda do caminho.

 

Por que se hão de ir embora encantos dessa idade,

Graças que as nossas mães com tanto amor afagam?

Os sonhos do porvir, por que se nos apagam?

Ah! Sim! É que é preciso um dia de saudade!

 

Os pensamentos de uma flor

(Clotilde de Vaux; tradução de Raimundo Teixeira Mendes)

 

Nasci p’ra ser amada: ó, graças, bom Destino!

Que os soberbos mortais praguejem teus azares!

O vento os arrebate aos pés de teus altares,

Eu tenho o meu perfume e o gozo matutino.

 

Tenho o primeiro olhar do rei da natureza,

Por gala o seu fulgor, seu beijo em chama acesa;

Tenho um sorrir de irmã da juvenil Aurora;

Tenho a brisa nascente a dulcidão que mora

Na gota pendurada à borda do meu cális.

Tenho o raio que brinca a se abismar nos vales;

Tenho o mago painel, a sena inigualada,

Do universo entreabrindo as portas da alvorada.

 

Jamais frio mortal haurir-me deve a vida:

No seio da volúpia a manso me adormeço;

Me guarda a natureza o esplêndido adereço;

Em seu festim de amor desperto embevecida.

 

Muita vez embelezo a formosura;

Num puro seio o meu candor se côa;

Enlaça-me o prazer n’alegre cr’ao,

E a seu lado me prende alma ventura.

 

                Quanto o rouxinol s’inspira

No meu talo em doce enleio,

Para não turvar-lhe o gorjeio

                               A natura inteira espira.

 

Amor me diz seus votos mais secretos;

Abrigo de seus ais grata saudade;

Dos seus mistérios zelo a f’licidade;

A chave sou dos corações secretos.

 

Ó! Doce Destino, se as leis que nos baixas

Suspiros profanos pudessem mudar,

Só eu haveria, nas diáfanas faixas,

De amor aos bafejos à vida tornar.

 

Da tempestade sombria

Poupa-me o horrendo furor;

Dá que sempre a leda flor

Nas tuas festas sorria.

 

As sete máximas de Clotilde (reunidas por Augusto em seu Testamento, p. 99)

 

-      É indigno dos grandes corações derramar as perturbações que sentem. (Lúcia, 7ª carta)

-      Que prazeres podem exceder os da dedicação? (Lúcia, 8ª carta)

-      Eu compreendi, melhor que ninguém, a fraqueza de nossa natureza quando ela não é dirigida para um objetivo elevado e que seja inacessível às paixões (T, p. 333)

-      São necessários à nossa espécie, mais que às outras, deveres para fazer sentimentos. (T, p. 374)      

-      Não há na vida nada de irrevogável senão a morte. (T, p. 419)

-      Todos temos ainda um pé no ar sobre o limiar da verdade. (T, p. 484)

-      Os maus têm com freqüência maior necessidade de piedade que os bons. (T, p. 537)

 

Ave Clotilde

(José Mariano de Oliveira)

(Cantada com a música da Ave Maria, de Gounod)

 

Ave, Clotilde

Esposa do Pai Supremo,

Que já ouviste, piedosa,

Sua dor sofrida;

Com Ele deste ao mundo

O fruto mais fecundo

Do mais profundo amor.

Santa Clotilde,

Por tua elevada virtude,

Acolhe em teu peito

Nosso imenso afeto,

Nossa gratidão.

Amém.

 

Ave Clotilde

(Henrique B. S. Oliveira)

 

Ave Clotilde,

De Comte, suave dama,

Que elevou ternamente

Seu nobre coração sofredor.

Saída dos dois, a mesma alma,

A dádiva, a mais fecunda,

Do amor, o mais profundo.

Santa Clotilde,

Por teu altruísmo pleno,

Acolhe em teu seio

A flor reconhecedora

De uma prece constante

Amém.