No dia 6 de Gutenberg de 172 (18.8.2026) realizamos nossa prédica positiva, dando continuidade à leitura comentada do Apelo aos conservadores (iniciando a Conclusão - Missão peculiar aos verdadeiros conservadores).
No sermão abordamos as duas concepções de trindade positiva.
A prédica foi transmitida no canal Igreja Positivista Virtual (https://www.facebook.com/IgrejaPositivistaVirtual/videos/1417814206827155). Infelizmente, a transmissão via Youtube (no canal Positivismo) apresentou sucessivos problemas.
As anotações que serviram de base para a exposição oral encontram-se reproduzidas abaixo.
* * *
As trindades positivas
(6 de
Gutenberg de 172/18.8.2026)
1.
Abertura da prédica
2.
Datas e celebrações
2.1.
Dia 1º de Gutenberg (13.8): início das
atividades do COMTE-Grupo Clotilde
2.2.
Dia 4 de Gutenberg (16.8): nascimento de David
Carneiro, Jr. (1926 – 100 anos)
2.3.
De 13 de agosto a 9 de setembro: mês de
Gutenberg, nono mês do ano, dedicado à indústria
moderna
3.
Leitura comentada do Apelo aos conservadores
4.
Exortações
4.1.
Sejamos altruístas!
4.2.
Façamos orações!
4.3.
Como Igreja Positivista Virtual, ministramos os
sacramentos positivos a quem tem interesse
4.4.
Para apoiar as atividades dos nossos canais e da
Igreja Positivista Virtual: façam o Pix da Positividade! (Chave Pix: ApostoladoPositivista@gmail.com)
5.
Sermão: as trindades positivas
5.1.
As trindades positivas muitas vezes não são
muito conhecidas
5.1.1.
Elas integram a fase de pleno desenvolvimento
religioso de nosso mestre e correspondem à aplicação, ou melhor, à junção do
neofetichismo ao Positivismo
5.1.2.
Assim, em certo sentido, podemos dizer que quem
é plenamente religioso, ou, o que dá no mesmo, quem é plenamente positivista
conhece e aplica as trindades positivas
5.2.
Quando falamos em trindade positiva, costumamos
pensar em apenas uma, mas na verdade há duas trindades
5.2.1.
Uma primeira trindade foi proposta por
Augusto Comte em 1855 no Apelo aos
conservadores, distinguindo a Prioridade (os seres humanos passados), a
Posteridade (os seres humanos futuros) e o Público (os seres humanos presentes)
5.2.2.
Uma segunda trindade positiva foi
proposta por Augusto Comte em 1856 na Síntese
positiva, distinguindo o Grão Meio (o Espaço), o Grão Fetiche (a Terra) e o
Grão Ser (a Humanidade)
5.2.3.
As datas de proposição dessas duas trindades já
deixam claro que se tratam de concepções bastante avançadas: elas são
posteriores à fundação da Religião da Humanidade (1848 e 1851-1854) e já
entrando em novos âmbitos de atuação (a regulação da ação política, a regulação
da subjetividade positiva)
5.2.4.
Para facilitar o entendimento e distinguir uma
da outra, podemos chamar a trindade do Apelo
aos conservadores de “trindade social”; já a da Síntese subjetiva podemos chamar de “trindade religiosa”; os
motivos para isso ficarão claros na seqüência
5.3.
Quais são as características da trindade
positiva presente no Apelo aos
conservadores?
5.3.1.
Suas apresentações e características
encontram-se na Primeira Parte (p. 39-40) e na Terceira Parte (p. 134-135) do
livro
5.3.2.
A Prioridade, a Posteridade e o Público
representam os aspectos plenamente subjetivos e o objetivo da Humanidade
5.3.3.
Em uma primeira abordagem, Augusto Comte
considera cada um desses elementos e seus nomes:
5.3.3.1.
A Posteridade foi a primeira ser nomeada,
referindo-se primeiro ao âmbito doméstico, depois ao cívico e por fim ao
universal
5.3.3.2.
O Público refere-se aos servidores objetivos e
diretos da Humanidade e apresenta uma autoridade crescente em relação aos
negócios públicos
5.3.3.3.
Enquanto os nomes “Posteridade” e “Público”
surgiram espontaneamente, coube a Augusto Comte denominar o elemento subjetivo
prévio de “Prioridade” (empregando a aliteração com a letra “P”)
“[...] O elemento passado da população
subjetiva, que é o único que fornece ao mesmo tempo os impulsos e os meios
exigidos pela conservação e pelo aperfeiçoamento da suprema existência. Mas,
além de que poderia ser chamado Prioridade, o conjunto dos predecessores
tornando-se o principal objeto do culto universal, fica dispensado de um nome
distinto, podendo sempre ser designado, sem confusão, como o Grão-Ser, do qual
ele forma, cada vez mais, a base necessária” (Apelo,
p. 40)
5.3.4.
Em um segundo momento, nosso mestre considera a
composição dos elementos da trindade positiva social, em particular para
indicar as características do Público e seus atributos políticos:
“Comparando a Prioridade, o Público e a
Posteridade, que compõem a trindade positiva, o grupo mais imperfeito aí
sobreleva-se em virtude de sua subordinação necessária aos dois extremos, dos
quais derivam a base e o fim de sua própria atividade. Apesar de sua menor
perfeição, o ente médio participa da depuração característica; ele não admite
senão os dignos membros da população objetiva e os classifica segundo o
verdadeiro valor deles; nos tempos excepcionais, a ligação do porvir ao passado
poderia concentrar-se numa única alma. A noção de Público, diretamente
subordinada à da Humanidade, bastaria para superar o dogma da soberania
popular. Os verdadeiros partidários do progresso social não tardarão em
reconhecer que a insurreição dos vivos contra os mortos é contraditória com a
digna preparação de um futuro que supõe o passado. Basta mesmo invocar a origem
histórica do proletariado moderno para fazer sentir convenientemente, no caso
mais decisivo e difícil, a correlação necessária entre os dois elementos da
população subjetiva” (Apelo,
p. 134-135).
5.4.
Quais são as características da trindade
positiva presente na Síntese subjetiva?
5.4.1.
Antes de
mais nada, temos que ter clareza que a trindade positiva religiosa é, ao mesmo
tempo, mais ampla e mais profunda que a trindade social
5.4.1.1.
A trindade religiosa realiza de maneira plena a
incorporação do fetichismo inicial ao Positivismo final, por meio do
neofetichismo
5.4.1.2.
Em que consiste essa incorporação? Na afirmação
plena da subjetividade e da afetividade na existência humana; na Síntese subjetiva (ou melhor, na
primeira parte da “Introdução” dessa obra) essa afirmação é estabelecida como princípio
regulador, que ao mesmo tempo disciplina a imaginação e a lógica humana
5.4.1.3.
Com essa regulação, a lógica deixa de ser – como
é com a metafísica – meramente intelectual e meramente baseada nos sinais para
ampliar-se e consistir nos procedimentos adotados para inspirar as concepções
humanas, a partir dos sentimentos, das imagens e dos sinais
5.4.1.4.
A fim de estender a afetividade a toda a
realidade humana, bem como aplicar a ela a subjetividade positiva, além de
tornar a realidade mais racional, Augusto Comte elaborou a trindade religiosa
5.4.2.
A trindade religiosa é composta pelo Grão Meio
(o Espaço), pelo Grão Fetiche (a Terra) e pelo Grão Ser (a Humanidade)
5.4.2.1.
O Grão Meio, o Espaço, é abstrato; é nele que as
leis naturais ocorrem; seu âmbito intelectual é principalmente lógico (a
Lógica, que é como Augusto Comte renomeia, a partir da renovação religiosa, a
Matemática)
5.4.2.2.
O Grão Fetiche é a Terra; acompanhada dos astros
próximos e povoada pelas plantas e pelos animais, ela é concreta, é o nosso
local de vida e é o primeiro objeto de adoração; seu âmbito intelectual são as
ciências inferiores, ou melhor, a Física (incluindo aí a Astronomia, a Física
propriamente dita e a Química)
5.4.2.3.
O Grão Ser é a Humanidade; ela é abstrata e
concreta; ela é composta pela Prioridade, pela Posteridade e pelo Público; seu
âmbito de atuação é a Moral (incluindo aí a Biologia como preâmbulo e a
Sociologia como estudo próprio ao ser humano coletivo)
5.4.3.
Há algumas propriedades adicionais em cada um
dos elementos da trindade religiosa:
5.4.3.1.
Seguindo a afirmação generalizada da afetividade
e a exclusividade humana da vontade (que é o emprego direcionado da
inteligência), o Espaço é entendido como afetivo mas inerte e cego; a Terra é
entendida como afetiva, ativa e cega; a Humanidade, por fim, é afetiva, ativa e
inteligente
5.4.3.1.1.
Como dissemos, a vontade é um atributo vinculado
à inteligência: a Humanidade é a única dotada de vontade, portanto
5.4.3.2.
Considerando as relações entre o mundo, o ser
humano individual e o ser humano coletivo, Augusto Comte estabeleceu que “Entre
o homem e o mundo é necessária a Humanidade”
5.4.4.
Um outro aspecto importante é que, com o
neofetichismo e a trindade religiosa, não somente o mundo torna-se mais
racional, como se torna também mais afetivo e mais ativo:
5.4.4.1.
A maior racionalidade
consiste em que o mundo torna-se melhor explicado e melhor sistematizado (de
maneira muito, muito, muito grosseira poderíamos dizer que ele torna-se melhor
“esquematizado”), com vários graus sucessivos de aproximação entre a realidade
concreta e a realidade abstrata, entre o mundo e o ser humano
5.4.4.2.
A maior afetividade
consiste em que a realidade como um todo é entendida, de fato, como afetiva,
agindo passiva ou ativamente em nosso benefício: o mundo deixa ser um lugar
seco, frio, estéril, como o monoteísmo apresenta e como a metafísica (seja a metafísica
espiritualista, seja a metafísica materialista, seja também, em particular, a
metafísica cientificista) reafirma, e torna-se um ambiente afetuoso, quente,
aconchegante
5.4.4.3.
A maior atividade
torna-se possível porque se afirma que, “para completar as leis são necessárias
vontades”, ou seja, as preocupações especificamente humanas e as concepções
neofetichistas completam com os dados concretos, específicos a cada caso, o que
leis abstratas apresentam-nos de maneira geral (e sempre, necessariamente,
incompleta)
5.4.4.3.1.
Devemos lembrar que as leis naturais integram o
regime mental próprio à positividade e ao relativismo; além disso, elas são
gerais, ao passo que as vontades (relativas ou absolutas) são sempre
particulares
5.4.4.3.2.
As “vontades” que devem completar as leis são
vontades relativas, isto é, destituídas da arbitrariedade e do capricho
próprios ao absolutismo teológico-metafísico
5.4.5.
As características da trindade religiosa podem
ser sumariadas como segue:
|
Elemento da trindade
|
Características
|
Método
específico
|
Meio
lógico
|
Ciência
|
|
Grão-Ser
(Humanidade)
|
- Sentimentos
- Atividade
- Inteligência
(Vontade
esclarecida)
|
Construção
|
Sentimentos
|
Moral (única final)
|
|
Grão-Fetiche
(Terra)
|
- Sentimentos
- Atividade
(Vontade cega)
|
Indução
|
Imagens
|
Física (preliminar: doutrina)
|
|
Grão-Meio
(Espaço)
|
- Sentimentos
|
Dedução
|
Sinais
|
Lógica (preliminar: método)
|
5.5.
Como relacionar as duas trindades?
5.5.1.
O que propomos aqui é uma interpretação nossa, na medida em que nosso mestre não
desenvolveu esse aspecto
5.5.2.
Não nos parece difícil conciliar as duas
trindades, na medida em que cada uma delas têm âmbitos diferentes: a trindade
“social” refere-se aos três aspectos da historicidade humana e da própria Humanidade,
ao passo que a trindade “religiosa” refere-se a três âmbitos sucessivos da realidade
subjetividade humana em geral
5.5.3.
A trindade religiosa é mais ampla, ou melhor,
mais geral que a trindade social e,
nesse sentido, ela merece o título de trindade positiva por excelência
5.5.4.
Assim, temos a trindade positiva por excelência,
que é a trindade religiosa (Grão Meio, Grão Fetiche, Grão Ser); ao
considerarmos a Humanidade, ela desdobra-se na trindade social (Prioridade,
Posteridade, Público)
6.
Término da prédica
Referências
- Auguste
Comte (franc.), Síntese subjetiva
(Paris, Exécution Téstamentaire d’Auguste Comte, 2ª ed., 1900): https://archive.org/details/lasynthsesubjec00comtgoog.
- Augusto
Comte (franc.), Sistema de política
positiva (Paris. J.-B.
Baillière, 4ª ed., 1880): https://archive.org/details/systmedepoliti01comt.
- Augusto
Comte (port.), Apelo aos conservadores
(Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores.
- Augusto
Comte (port.), Catecismo positivista
(Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 4ª ed., 1934).
- José
Lonchampt (port.), Ensaio sobre a oração
(Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1896; catálogo da IPB, n. 165): https://archive.org/details/n.-165-jose-lonchampt-ensaio-sobre-a-oracao.
- Luís Bueno
Horta Barbosa (port.): Introdução geral
ao estudo da lógica, ou matemática (Rio de Janeiro, Jornal do Comércio,
1933): https://archive.org/details/augusto-comte-logica-positiva.
- Luís
Lagarrigue (esp.), A poesia positivista
(Santiago do Chile, 1890): https://archive.org/details/luis-lagarrigue-a-poesia-positivista-1890_202509.
- Raimundo
Teixeira Mendes (port.), As últimas
concepções de Augusto Comte (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil,
1898): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-i
e https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-ii.
- Raimundo
Teixeira Mendes (port.), O ano sem par
(Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1900): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-o-ano-sem-par-portug._202312/page/n7/mode/2up.