15 setembro 2026

Ordem E progresso só com república progressista e laica

No dia 6 de Shakespeare de 172 (15.9.2026) realizamos nossa prédica positiva, dando continuidade à leitura comentada do Apelo aos conservadores (em sua "Conclusão - missão peculiar aos verdadeiros conservadores").

A prédica foi transmitida nos canais Positivismo (https://www.youtube.com/watch?v=PmlDx0CL-fc) e Igreja Positivista Virtual (https://www.facebook.com/IgrejaPositivistaVirtual/videos/1407492244682719).

As anotações que serviram de base para a exposição oral encontram-se reproduzidas abaixo.

*   *   *


Leitura comentada do Apelo aos conservadores

(6 de Shakespeare de 172/15.9.2026) 

1.     Abertura da prédica

2.     Datas e celebrações

2.1.   Dia 5 de Shakespeare (14 de setembro): nascimento de Sofia Bliaux (1804 – 222 anos)

2.2.   Dia 6 de Shakespeare (15 de setembro): transformação de Paulo de Tarso Monte Serrat (2014 – 12 anos)

2.3.   Dia 8 de Shakespeare (17 de setembro): transformação de Rodolfo Paula Lopes (1984 – 42 anos)

2.4.   Mês de Shakespeare (10 de setembro a 4 de outubro): décimo mês do ano, dedicado ao drama moderno (teatro, romance histórico, pintura, música)

3.     Apóiem a Igreja Positivista Virtual!

3.1.   Colaborem com o que puderem; com boa fé e boa vontade, toda e qualquer colaboração é necessária e bem-vinda!

3.1.1. Inscrevam-se no canal, compartilhem, divulguem nossas atividades!

3.2.   Para apoiar as atividades dos nossos canais e da Igreja Positivista Virtual: façam o Pix da Positividade! (Chave Pix: ApostoladoPositivista@gmail.com)

4.     Exortações

4.1.   Esta talvez seja a seção mais importante das prédicas!

4.2.   Sejamos altruístas!

4.2.1. Sejamos generosos, tolerantes etc.

4.2.2. Devemos orientar toda a nossa vida pelo altruísmo: quando o altruísmo regula e orienta a vida, o resultado é que o altruísmo (a dedicação para os demais) e o egoísmo (a satisfação das necessidades pessoais) não são incompatíveis, pois só o altruísmo permite unir o bem comum à felicidade pessoal

4.3.   Façamos orações!

4.3.1. A oração positiva é a base do culto íntimo; assim, é tanto a base do aperfeiçoamento pessoal quanto da espiritualidade positiva de modo geral

4.4.   Como Igreja Positivista Virtual, ministramos os sacramentos positivos a quem tem interesse

4.4.1. Em um total de nove, os sacramentos são a celebração de momentos centrais na vida de todos nós – momentos que devem ser celebrados, afirmados, compartilhados (o nascimento/a adoção, o casamento, a aposentadoria, a transformação (a morte) etc.)

5.     Explicações gerais sobre o Apelo aos conservadores

5.1.   Que tipo de documento é o Apelo e a quem ele dirige-se?

5.1.1. O Apelo é um manifesto político e dirige-se não a quaisquer pessoas ou grupos, mas a um grupo específico: são os líderes políticos e industriais que tendem para a defesa da ordem (e que tendem para a defesa da ordem até mesmo devido à sua atuação como líderes políticos e industriais), mas que, ao mesmo tempo, reconhecem a necessidade do progresso (a começar pela república): são esses os “conservadores” a que Augusto Comte apela

5.1.2. O Apelo, portanto, adota uma linguagem e um formato adequados ao público a que se dirige

5.1.3. Empregamos a expressão “líderes industriais” no lugar de “líderes econômicos”, por ser mais específica e mais adequada ao Positivismo: a “sociedade industrial” não se refere às manufaturas, mas à atividade pacífica, construtiva, colaborativa, oposta à guerra

5.1.4. É necessário reforçar que, na medida em que a “conservação” consiste na manutenção da sociedade como base necessária para o aperfeiçoamento, a política “conservadora” proposta por Augusto Comte é progressista, de tal sorte que ela corresponde à união e à realização do ideal de “Ordem E Progresso”

5.1.4.1.          A noção positiva de “conservador” e de “conservadorismo” opõe-se à noção inglesa de “conservador” (conforme definida originalmente por Edmund Burke, em 1794) e que se aproxima de ausência de movimento, de movimento muito lento ou, em todo caso, de rejeição de mudanças sociais racionais e intencionais

5.1.4.2.          Assim, a expressão “apelo aos conservadores” (em francês: “appel aux conservateurs”) não significa, nem quer significar, “defesa do conservadorismo” (ou, como querem alguns, de maneira alucinada, “defesa do reacionarismo”)

5.2.   Outras observações:

5.2.1. Uma versão digitalizada da tradução brasileira desse livro, feita por Miguel Lemos e publicada em 1899, está disponível no Internet Archive: https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores

5.2.2. O capítulo em que estamos é a “Conclusão”, cujo subtítulo é “Conduta própria aos verdadeiros conservadores”

6.     Leitura comentada do Apelo aos conservadores

7.     Término da prédica

 

Referências

- Auguste Comte (franc.), Síntese subjetiva (Paris, Exécution Téstamentaire d’Auguste Comte, 2ª ed., 1900): https://archive.org/details/lasynthsesubjec00comtgoog.

- Augusto Comte (franc.), Sistema de filosofia positiva (Paris, Bachelier, 1838), v. 3, 45e leçon (“Considérations générales sur l’étude positive des fonctions intellectuelles et morales, ou cérébrales”).

- Augusto Comte (franc.), Sistema de política positiva (Paris. J.-B. Baillière, 4ª ed., 1880): https://archive.org/details/systmedepoliti01comt.

- Augusto Comte (port.), Apelo aos conservadores (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores.

- Augusto Comte (port.), Catecismo positivista (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 4ª ed., 1934).

- José Lonchampt (port.), Ensaio sobre a oração (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1896; catálogo da IPB, n. 165): https://archive.org/details/n.-165-jose-lonchampt-ensaio-sobre-a-oracao.

- Luís Lagarrigue (esp.), A poesia positivista (Santiago do Chile, 1890): https://archive.org/details/luis-lagarrigue-a-poesia-positivista-1890_202509.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), As últimas concepções de Augusto Comte (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-i e https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-ii.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), O ano sem par (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1900): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-o-ano-sem-par-portug._202312/page/n7/mode/2up

14 setembro 2026

Sandro Gomes: "A Igreja Positivista e o Brasil de hoje"

Em 10 de março de 2017, o professor carioca Sandro Gomes publicou um belo artigo sobre o Positivismo e os positivistas brasileiros, intitulado "A Igreja Positivista e o Brasil de hoje". Contrariamente ao que se costuma publicar a respeito, esse artigo é correto e justo, respeitando e valorizando a atuação, os valores, as propostas.

O original está disponível aqui: https://www.appai.org.br/a-igreja-positivista-e-o-brasil-de-hoje/.

Reproduzimos o texto abaixo.

*   *   *

A Igreja Positivista e o Brasil de hoje


Quando se estuda o Brasil da segunda metade do século XIX um item não pode deixar de ser destacado: o Positivismo. Filosofia desenvolvida na França por Auguste Comte, marcaria profundamente as visões políticas e principalmente os conceitos de ciência e conhecimento no Ocidente. Mas a despeito de todo o conteúdo de razão e saber filosófico ali presente, há uma faceta pouco mencionada do sistema criado por Comte, que é a sua dimensão religiosa. A chamada última fase da carreira intelectual do criador do positivismo acabaria por desembocar numa incursão pelo campo do místico-religioso. Profundamente influenciada pelo pensamento francês nesse período, a intelectualidade brasileira mergulharia fundo nas conceituações positivistas e alguns não deixariam de fora a religiosidade daí proveniente.

Assim, a Igreja Positivista, como acabaria ficando conhecida, alcançou entre nós uma considerável repercussão e, mais que isso, estaria ligada a muitos fatos fundamentais na história brasileira no limiar entre os séculos XIX e XX. Dois simpatizantes do positivismo, os então estudantes Miguel Lemos e Teixeira Mendes, após temporada na França, se encantaram com as visões religiosas que encontram em pleno processo de propagação. Ao retornarem ao Brasil, estabeleceram os primeiros marcos da instituição religiosa inspirada nas ideias de Comte. Foi aqui que esse conceito ganhou ares eclesiásticos, com a fundação de templos e a propagação sistemática da sua doutrina.

A religião positivista se caracterizava por alguns conceitos muito diferentes do que estava estabelecido no cristianismo dominante. Pra começar, proclama uma divindade feminina, a Humanidade, a sua grande musa, entendida como a maior expressão possível da dignidade. A mulher aliás seria extremamente valorizada pelos religiosos positivistas, sendo apontada como superior ao homem por ser capaz de conduzir-se prioritariamente pelo amor, sentimento a que a cultura do positivismo atribuía grande valor, como ficaria expresso na emblemática frase de Comte, que acabaria sendo em parte adotada na bandeira do Brasil: “O amor por princípio e a Ordem por base; o Progresso por fim”.

Mas não foi apenas com relação ao gênero que os adeptos da Igreja Positivista se confrontaram com o tradicionalismo dominante na sociedade brasileira da época. Na questão racial os religiosos seriam ainda mais ousados ao afirmarem a supremacia da raça negra sobre as demais, pelo fato de nela predominar o sentimento em detrimento da razão. Chegaram a colocar entre suas figuras de culto – cívico, como chamavam – Toussaint Louverture, o líder da rebelião escrava no Haiti que culminaria da independência desse país. Isso diante de uma classe dominante brasileira que tinha na possibilidade de revolta dos cativos seu maior fantasma. Consequentemente, os religiosos positivistas estiveram entre as mais combativas vozes a se levantar a favor da abolição da escravatura. Chegaram mesmo a expulsar adeptos que se recusassem a se desfazer de seus cativos.

Os seguidores da Igreja Positivista também se mostraram preocupados com um tema que em geral era colocado no ostracismo pelos intelectuais e formadores de opinião do período: a situação dos indígenas, que julgavam um grupo injustiçado no Brasil e ao mesmo tempo um modelo a ser seguido em virtude da sua ligação com a natureza. Não espanta que tenha vindo de um dos religiosos positivistas, o marechal Cândido Rondon, uma das mais brilhantes iniciativas de integração dos índios ao todo da sociedade brasileira, sendo até hoje considerada um paradigma universal de aproximação com os chamados “povos originários”, sobretudo pelo pacifismo do método.

A causa pacifista, aliás, seria um dos pilares da Igreja Positivista. Eram frontalmente contrários a guerras e regimes militares, e também não apoiavam os movimentos revolucionários, que acreditavam ineficientes por contrariarem o caráter de encadeamento gradual que marcava a dinâmica da natureza. Assim, apoiaram a república no Brasil, mas criticaram o totalitarismo com que ela foi instalada, sobretudo no regime mão de ferro imposto por Floriano Peixoto. Mesmo assim, não deixaram de apresentar no pós-monarquia contribuições provenientes de suas crenças. A mais conhecida foi a adoção da Bandeira Nacional, que lutaram para que se mantivesse parecida com a que existia no Império, ao invés de outra inspirada na bandeira estadunidense como queriam muitos republicanos.

Argumentaram que, mesmo superada, a condição imperial deveria ser respeitada como uma expressão de uma fase anterior de desenvolvimento de uma nação (a república, para eles, seria a mais avançada). Conseguiram também inserir parte da célebre frase de Comte na insígnia e lutaram para que lá permanecesse apesar de muitas resistências. Por outro lado, acabaram colaborando com o projeto republicano ao apoiar o culto cívico de figuras tidas como superiores na história nacional, como Tiradentes e José Bonifácio, que na visão dos republicanos era uma forma de substituir no imaginário da nação o apego por personalidades religiosas e consequentemente diminuir a ascendência da Igreja Católica, que consideravam prejudicial aos brasileiros.

O discurso pacifista dos religiosos positivistas também procurou atuar em importantes questões nacionais entre o final do século XIX e o início do XX. Tais foram os casos da participação brasileira na Guerra do Paraguai, a que sempre se opuseram, inclusive pregando o perdão das dívidas de guerra contraídas pelo país vizinho, e da tese do serviço militar obrigatório, amplamente defendida por várias figuras do meio intelectual. As suas preocupações com a paz vinha também da inspiração de Francisco de Assis, uma das poucas figuras da religião tradicional que consideravam. Das ideias do religioso italiano do século XII também trouxeram a causa da preservação ambiental, que praticamente não figurava nas mentes da época, num Brasil ainda tão pouco urbanizado, no qual a maior parte da população ainda vivia no campo. Teixeira Mendes, por exemplo, se recusava a usar qualquer objeto de couro, se opondo à matança predatória de animais.

A Igreja Positivista, como seria de esperar, foi definida por muitos naquela época como uma criação de lunáticos ou sonhadores sem conexão com o mundo real. No entanto, as demandas nacionais mais importantes daquele entresséculo, como o fim da escravidão e a adoção da república, estiveram entre suas propostas. Outras questões, por outro lado, que constituíam tabus ou estavam fora da esfera de preocupações do país foram por eles levantadas. A valorização da mulher, um melhor lugar para africanos e indígenas na cultura nacional, a tentativa de harmonização com as nações vizinhas do continente, a preocupação com as questões ambientais, entre outras causas pelos quais modernamente ainda se luta, foram itens antecipados por aqueles que se agruparam em torno do ideário da religiosidade positivista. De tudo o exposto cabem reflexões. E se ao invés do relativo esquecimento histórico a Igreja tivesse se expandido na mentalidade nacional e levado adiante seu ímpeto renovador? Em que pé estaríamos hoje?


Se você gostou desse texto, deixe seu comentário, compartilhe com seus amigos e curta a página: facebook.com/arteseletras2016


Por Sandro Gomes | Professor, escritor, mestre em literatura brasileira e revisor da Revista Appai Educar.

Mistificações sobre o Brasil – e sobre o Positivismo

No dia 14 de setembro de 2026 o jornal carioca Monitor Mercantil publicou um artigo de nossa autoria, intitulado "Mistificações sobre o Brasil - e, para variar, sobre o Positivismo". Reproduzimos abaixo o texto.

A publicação original pode ser lida aqui: https://monitormercantil.com.br/mistificacoes-sobre-o-brasil-e-para-variar-sobre-o-positivismo/.

*   *   *

Bandeira-do-Brasil-Ordem-e-Progresso-foto-de-Andre-Maceira-CC-1024x676


Mistificações sobre o Brasil – e, para variar, sobre o Positivismo

A construção da sociedade brasileira envolve religiosidade popular, sincretismo, organização social e a defesa do Estado laico. Por Gustavo Biscaia


Em 5 de setembro último, a Gazeta do Povo publicou um artigo afirmando que não teria sido o Positivismo a criar a “alma brasileira”, mas a “cruz”. Essa afirmação dá o que pensar e merece resposta. Como, todavia, nas últimas décadas a Gazeta do Povo decidiu tornar-se um jornal agressivamente militante, com um perfil “conservador”, consideramos que é melhor publicar a resposta aqui do que tentar na folha original.

Antes de mais nada, é uma lamentável ironia e um triste sinal que o texto tenha saído na Gazeta do Povo, jornal que, em 1919, foi fundado por Benjamin Lins, que era um positivista. Além disso, durante décadas o jornal contou com a coluna “Veterana Verba”, do também positivista David Carneiro. Em seus 107 anos, o jornal mudou não apenas de donos como, principalmente, mudou de orientação editorial: a abertura para o debate amplo e a preferência por autores locais cedeu espaço para a polarização política e moral, favorecendo um conservadorismo cada vez mais agressivo e tradicionalista.

O texto que nos interessa intitula-se “A alma brasileira não nasceu de Comte, mas veio da Cruz” e foi publicado na coluna “Crônicas de um Estado laico”, de Jean Marques Regina e Thiago Rafael Vieira. Cada um dos autores apresenta um longo currículo, afirmando-se advogados que trabalham pela liberdade de expressão. O tom adotado no artigo dá a impressão de serem pessoas sabedoras das coisas; os “argumentos” apresentados indicam o contrário, mas eles falam com enorme convicção, o que substitui com eficiência o conhecimento efetivo.

Apesar disso, referindo-se a alguns dados históricos que, em si, são mais ou menos incontroversos, os autores retomam uma quantidade enorme de preconceitos (que, todavia, não podemos abordar aqui). Assim, é um artigo realmente exemplar por seus defeitos intelectuais, práticos e até morais; cremos que os autores não façam suas defesas jurídicas dessa forma e, com certeza, eles não aceitariam que façam com as igrejas que eles defendem o que eles praticam contra o Positivismo.

O objetivo do artigo é tortuoso, para não dizer confuso. Os autores começam falando das próximas eleições e da necessidade de escolher bons candidatos; passam então à renovação moral atualmente necessária, projeto afirmado há quase 140 anos, com a Proclamação da República (em 15 de novembro de 1889); daí chegam ao que querem – falar (mal) do Positivismo.

A partir daí, os autores realmente se esmeram e não têm dúvidas em repetir de modo sistemático todos os preconceitos, discriminações e desinformação antipositivista – um grave defeito intelectual, prático e moral que, diga-se de passagem, é tristemente ecumênico, sendo repetido pela direita (liberal, católica, evangélica e/ou tradicionalista) quanto pela esquerda (especialmente a marxista, mas também a socialista e a pós-moderna).

Além do sofisma do espantalho (criar uma visão simplificada e estereotipada de algo para combater esse estereótipo, em vez da realidade complexa), em poucas linhas os autores repetem que o Positivismo seria materialista, estritamente racionalista, anticlerical, reducionista, antirreligioso, preconceituoso, elitista etc. De modo mais direto para suas práticas profissionais, os autores afirmam que os teológicos teriam o monopólio da “religião”, que a religião seria sempre teologia, que a positividade é apenas o racionalismo frio e que negaria e rejeitaria a história e a religiosidade popular. Tudo isso como prévia para a afirmação de que a “alma brasileira” teria sido feita pela “cruz” (e não pelo Positivismo). Os autores são cristãos (o artigo não evidencia de qual cristianismo): se a verdade liberta, então a mentira aprisiona: sabemos ao que conduz a produção de mitos e a repetição de preconceitos.

Não é possível tratar de todas essas questões; recomendamos a leitura direta dos próprios positivistas. Tratemos, então, do suposto tema central para os autores.

Os autores acusam o Positivismo de negar e rejeitar a importância da “cruz” na formação histórica da “alma brasileira”. Essa frase é inteiramente da autoria dos próprios autores; nenhum positivista jamais disse nada que seja minimamente próximo disso. Mas ela tem uma quantidade adicional espantosa de erros e equívocos.

Antes de mais nada, se os autores buscassem a verdade que liberta e não mitos e preconceitos, eles teriam lido diretamente os próprios positivistas; não digo A. Comte, mas pelo menos M. Lemos, R. Teixeira Mendes, I. Lins, D. Carneiro, muitos outros autores – e o autor destas linhas. Entretanto, os argumentos repetidos pelos autores indicam que eles adotam o pior dos procedimentos: repetem comentários feitos por comentadores que repetem comentadores que repetem comentadores etc.

Em segundo lugar, os autores falam na importância da “cruz”, com isso se referindo a um cristianismo genérico; mas como é genérico, ele é inexistente e, como a caracterização que eles fizeram do Positivismo, é apenas um mito. O que importou para o Brasil não foi uma “cruz” genérica mas o catolicismo em particular. Mais: não foi a teologia católica, mas principalmente a ação da igreja católica; assim, o que importou não foi tanto a crença no sobrenatural, mas o gregarismo familiar e coletivo reunido nas missas, nos oratórios e nas procissões; o que importou foi a afetividade pessoal e coletiva.

Em terceiro lugar, a “alma brasileira” também se constitui, é claro, pela organização social – e, aí, o Brasil deve muito mais ao Estado português que à igreja católica. As origens feudais do Estado português acarretaram alguns graves problemas, mas também estimulou os hábitos cavalheirescos, a devoção aos próximos etc. (com a terrível exceção dos escravos – indígenas e/ou africanos). Esse mesmo Estado, aliás, controlou estreitamente a igreja e utilizou-a de maneira instrumental.

Em quarto lugar, o ambiente específico do Brasil caracterizou-se pelo sincretismo religioso a reboque da miscigenação étnico-cultural. Embora sob a presidência do catolicismo, a religiosidade brasileira sabidamente é o resultado da combinação com crenças e hábitos indígenas e crenças e hábitos africanos, todos eles variados como são. Em quinto lugar, os autores fazem outra confusão entre a religiosidade popular e a das elites: é claro que a das elites é mais intelectualizada e a popular é mais afetiva.

Em sexto lugar, os autores criticam os positivistas de quererem mudar a sociedade e os valores sociais; supostamente, isso seria um defeito, um verdadeiro crime moral. Autores tão doutos e especializados no cristianismo devem saber que o cristianismo não surgiu no vácuo, mas, com São Paulo, baseou-se em (e rompeu com) o judaísmo e usou a filosofia grega e a sociabilidade e o império de Roma para universalização. Com certeza Paulo de Tarso, os padres da igreja, os grandes papas e santos quiseram reformar a sociedade e mudar as crenças politeístas então vigentes; mutatis mutandis, podemos dizer o mesmo de Lutero, Calvino, G. Fox, J. Knox, J. Smith etc., em relação ao catolicismo. (Todos eles tinham clareza da distinção entre elites e massas.) Se isso foi permitido aos cristãos, por que deveria ser proibido aos positivistas? Convenhamos: é essa a questão central aqui.

É altamente sintomático que os autores reproduzam mitos em série e criem novos, mas silenciem justamente a respeito do que lhes diz respeito de maneira mais direta, profissional e pessoalmente: foram os positivistas que instituíram a separação entre igreja e Estado no Brasil, o que se chama vulgarmente de “laicidade do Estado”. Ao contrário da maioria absoluta das religiões teológicas e dos grupos metafísicos (marxistas, liberais, identitários, tradicionalistas etc.), desde cerca de 1860 os positivistas são o único grupo – a única religião – que defende de modo constante e sem titubear as liberdades de consciência, de expressão e de associação (além do pacifismo, não violência, dignidade humana, dignidade dos trabalhadores e das mulheres, antirracismo, respeito aos índios etc.).

O silêncio dos autores a respeito desse aspecto central, não somente para a vida institucional brasileira como para a religiosidade nacional e também para a prática profissional dos próprios autores, não parece casual. Na verdade, a impressão que se tem é que os autores criaram um mito antipositivista como cortina de fumaça porque não têm como argumentar com o duplo fato de que os positivistas garantiram a liberdade para todos, enquanto os próprios teológicos com freqüência a rejeitam (exceto para as próprias seitas).

Ah, não nos esqueçamos: a reforma moral, intelectual e prática, proclamada pelos positivistas mas estranhamente rejeitada pelos autores, é necessária com urgência.


Gustavo Biscaia de Lacerda é doutor em sociologia política e sociólogo da UFPR.

08 setembro 2026

7 de Setembro, Independência do Brasil e José Bonifácio

No dia 27 de Gutenberg de 172 (8.9.2026) realizamos nossa prédica positiva, dando continuidade à leitura comentada do Apelo aos conservadores (em sua Conclusão - missão peculiar aos verdadeiros conservadores).

No sermão celebramos a independência do Brasil e, em particular, a figura de José Bonifácio.

A prédica foi transmitida nos canais Positivismo (https://youtu.be/U0ZiaZ0tAvo?si=0zeR33cvLMJmwBp8) e Igreja Positivista Virtual (https://www.facebook.com/IgrejaPositivistaVirtual/videos/1648714833541743).

As anotações que serviram de base para a exposição oral encontram-se reproduzidas abaixo.

*   *   *

Celebração do 7 de Setembro

(27 de Gutenberg de 172/8.9.2026) 

1.     Abertura da prédica

2.     Datas e celebrações

2.1.   Dia 23 de Gutenberg (4 de setembro): nascimento de Richard Congreve (1818 – 208 anos)

2.2.   Dia 24 de Gutenberg (5 de setembro): transformação de Augusto Comte (1857 – 169 anos)

2.3.   Dia 24 de Gutenberg (5 de setembro): celebração de Sofia Bliaux

2.4.   Dia 25 de Gutenberg (6 de setembro): nascimento de Henrique Oliveira (1906 – 120 anos)

2.5.   Dia 26 de Gutenberg (7 de setembro): Independência do Brasil (1822 – 204 anos)

2.6.   Dia 26 de Gutenberg (7 de setembro): Glorificação de José Bonifácio

3.     Apóiem a Igreja Positivista Virtual!

3.1.   Colaborem com o que puderem; com boa fé e boa vontade, toda e qualquer colaboração é necessária e bem-vinda!

3.1.1. Inscrevam-se no canal, compartilhem, divulguem nossas atividades!

3.2.   Para apoiar as atividades dos nossos canais e da Igreja Positivista Virtual: façam o Pix da Positividade! (Chave Pix: ApostoladoPositivista@gmail.com)

4.     Leitura comentada do Apelo aos conservadores

5.     Exortações

5.1.   Esta talvez seja a seção mais importante das prédicas!

5.2.   Sejamos altruístas!

5.2.1. Sejamos generosos, tolerantes etc.

5.2.2. Devemos orientar toda a nossa vida pelo altruísmo: quando o altruísmo regula e orienta a vida, o resultado é que o altruísmo (a dedicação para os demais) e o egoísmo (a satisfação das necessidades pessoais) não são incompatíveis, pois só o altruísmo permite unir o bem comum à felicidade pessoal

5.3.   Façamos orações!

5.3.1. A oração positiva é a base do culto íntimo; assim, é tanto a base do aperfeiçoamento pessoal quanto da espiritualidade positiva de modo geral

5.4.   Como Igreja Positivista Virtual, ministramos os sacramentos positivos a quem tem interesse

5.4.1. Em um total de nove, os sacramentos são a celebração de momentos centrais na vida de todos nós – momentos que devem ser celebrados, afirmados, compartilhados (o nascimento/a adoção, o casamento, a aposentadoria, a transformação (a morte) etc.)

6.     Sermão: celebração do 7 de Setembro e Glorificação de José Bonifácio

6.1.   Esta exposição baseia-se em algumas fontes:

6.1.1. Em primeiro lugar, ela baseia-se em importante medida em uma postagem feita em 7.9.2015, chamada justamente “7 de setembro – Independência do Brasil e comemoração de José Bonifácio

6.1.2. Além disso, usamos aqui como referência as publicações do Apostolado Positivista do Brasil (como o opúsculo A pátria brasileira, de 1881, e a bela biografia de Benjamin Constant, escrita por Teixeira Mendes em 1891) e o livro de David Carneiro, A vida gloriosa de José Bonifácio de Andrada e Silva e sua atuação na Independência do Brasil (de 1977)

6.2.   O Positivismo celebra a Independência do Brasil e a memória de José Bonifácio porque o Brasil é uma pátria e, assim, uma das associações humanas fundamentais

6.2.1. Como sabemos, os três níveis normais de associações humanas são a família (baseada nos sentimentos), a pátria (ou melhor, a mátria, baseada na atividade prática) e a Humanidade (baseada na inteligência)

6.3.   Ao celebrar cada pátria, o Positivismo constitui-se como uma religião cívica

6.3.1. Para entendermos o que isso quer dizer, e embora o Positivismo, como regra geral, rejeite as distinções sutis, temos que estabelecer a diferença entre “religião cívica” e “religião civil

6.3.1.1.          Essa diferença espelha a diferença entre a teoria política absoluta (teológico-metafísica) e a teoria política relativa (positiva), especialmente no que se refere à divisão entre teoria e prática, ou, o que equivale em termos políticos, a divisão entre a igreja e o Estado

6.3.2. A religião cívica celebra valores cívicos, mas faz questão de não se impor sobre os cidadãos nem de usar o apoio estatal para sua difusão: por definição, é a Religião da Humanidade

6.3.2.1.          Vale lembrar que o Positivismo, como religião cívica, tem clareza de que as pátrias na sociedade normal serão denominadas de “mátrias”, organizadas em regimes sociocráticos e que isso implica, desde já (na verdade, desde o começo do século XIX), que todas as mátrias baseiem-se na fraternidade e na paz universal e, portanto, também na rejeição da violência, da guerra e do militarismo (e do nacionalismo imperialista e/ou xenofóbico)

6.3.3. A religião civil é a religião imposta pelo Estado (ou seja, é obrigatória) e que tem a sua igreja sustentada pelo Estado: são as religiões teológicas e é a proposta da democracia de Rousseau

6.3.3.1.          Rousseau, em sua proposta democrática, afirmava com todas as letras que o Estado tem que ter religião oficial, imposta a todos os cidadãos; inversamente, os cidadãos que rejeitassem essa religião oficial seriam presos ou, no limite, expulsos do país

6.4.   No dia 7 de setembro celebramos a Independência do Brasil e, por isso mesmo, comemoramos a figura de José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838), o grande “Patriarca da Independência”

6.5.   Para realizarmos essa celebração, temos antes que lembrar, ou afirmar, as condições e as exigências da política moderna

6.5.1. A política moderna baseia-se na existência de pátrias livres; essas pátrias têm que ser menores do que costumam ser ainda hoje, mas, de qualquer maneira, a liberdade é uma condição fundamental e insuperável

6.5.2. O que significa essa “liberdade”?

6.5.2.1.          Significa a possibilidade de decidir com autonomia os rumos a tomar, sem imposições externas e de acordo com os parâmetros específicos de cada país

6.5.2.2.          Assim, ao mesmo tempo em que cada pátria deve poder decidir o que deseja fazer, sua conduta deve caracterizar-se pelo respeito a todas as outras nações, no que se refere à sua dignidade e às suas condições de existência, e ao desenvolvimento de ações pacíficas e coordenadas com vistas à melhoria material e moral de todas.

6.5.3. Em outras palavras, a política moderna não pode ser definida pela “soberania absoluta”, entendendo-se a soberania absoluta como a consideração de que cada país é o juiz único e último de suas ações, em desrespeito e desconsideração aos demais países

6.5.4. Ao mesmo tempo, devemos afirmar a necessária interdependência política, material e moral entre todas as nações – e em um duplo sentido

6.5.4.1.          Por um lado, devemos ter clareza de que a interdependência ocorre, é boa e é fonte de paz, segurança e estabilidade; os países que buscam afastar-se da interdependência rejeitam as cooperações, a paz e a estabilidade

6.5.4.2.          Por outro lado, a interdependência não pode ser entendida nem usada como desculpa para intromissões e invasões de uns países sobre os outros, nem pode ser usada como arma de um país sobre os demais

6.5.5. Em termos internos, cada país deve buscar a integração social, a redução e o fim da miséria, o combate e o fim das discriminações sociais, o desenvolvimento técnico, científico e moral etc.

6.5.6. No caso do Brasil do início do século XIX, José Bonifácio tinha clareza desses objetivos e dessas condições; foi por isso que tratou de organizar as condições propícias para a independência do Brasil – e que, sendo a eminência parda por detrás do então Príncipe Regente, obteve de fato a independência nacional no 7 de setembro de 1822.

6.6.   Ao falarmos da Independência do Brasil, celebramos José Bonifácio: mas por que ele?

6.6.1. O príncipe regente Pedro de Alcântara – depois chamado no Brasil de “(dom) Pedro I” –, embora tenha sido necessariamente o executor concreto da independência, não era uma pessoa preparada politicamente nem em termos intelectuais, morais e práticos

6.6.2. Apesar disso, considerando a situação política, social e institucional do Brasil na época, somente d. Pedro poderia realizar o “grito do Ipiranga”

6.6.2.1.          Evidentemente, se por um lado faltavam em geral condições morais, intelectuais e práticas a Pedro de Alcântara, por outro lado isso não o impedia de que ele tivesse sentimentos de simpatia pela população brasileira, assim como ele não tinha preconceitos de casta e ele soube reconhecer o valor da pessoa e dos conselhos de José Bonifácio

6.6.3. Por outro lado, quem tinha o preparo e a estatura moral, intelectual e prática era o conselheiro de Pedro de Alcântara, José Bonifácio

6.6.3.1.          José Bonifácio, além de ser um homem com a preparação própria e a atividade prática do Iluminismo, tinha o enorme fator de ser brasileiro

6.6.3.2.          A primeira carreira de José Bonifácio desenvolveu-se totalmente na Europa, com suas longas viagens de estudos e de pesquisas (em que se revelou um grande pesquisador) e, depois, com sua atuação na burocracia pública portuguesa (em que ocupou simultaneamente inúmeros cargos importantes)

6.6.3.3.          A atuação propriamente política de José Bonifácio ocorreu quando ele já era idoso (com cerca de 60 anos de idade) e voltara ao Brasil buscando aproveitar sua aposentadoria

6.7.   A independência do Brasil era uma necessidade na época e, de qualquer maneira, seria uma necessidade política do país

6.7.1. Na época era uma necessidade porque, com o término das Guerras Napoleônicas, a permanência da monarquia no Brasil não tinha mais sua justificativa inicial (evitar a submissão à tirania militar de Napoleão)

6.7.2. Devemos lembrar que a família real e a corte portuguesa fugiram em 1808 para o Brasil, transformando a antiga colônia em sede do império

6.7.3. Depois, em 1815, o Brasil tornou-se membro equivalente do império, que passou a ser o Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves

6.7.4. Além disso, havia os exemplos republicanos e americanos dos Estados Unidos (1776), do Haiti (1798) e da América hispânica, do México até a Argentina e o Chile (décadas de 1800 a 1820)

6.7.5. Desde o fim do período colonial o Brasil já contava com uma sociedade ativa, organizada, conhecedora dos seus interesses, com projetos nacionais cada vez mais claros e disposta a realizar a independência para isso

6.7.6. A independência nacional era vista sempre como acompanhada da república

6.7.7. A vinda da família real em 1808 deu um fortíssimo impulso à vida política, social e intelectual do país, reforçando as condições para a autonomia e/ou a independência nacional

6.7.8. Ao mesmo tempo em que o Brasil desenvolvia-se, as Cortes Gerais de Lisboa, reunidas após a Revolução Liberal do Porto, de 1820, apesar de afirmarem-se “liberais”, queriam retrogradar a situação do Brasil para a condição colonial, o que implicaria necessariamente uma violenta opressão sobre o país

6.7.8.1.          A Revolução Liberal do Porto e as Cortes Gerais de Lisboa (criadas após a revolução do Porto) seguiram o impulso da Revolução Francesa mas adotaram o modelo inglês, em que a crítica ao Antigo Regime assumiu a forma da aberração político-intelectual que é a chamada “monarquia constitucional”

6.7.8.2.          De maneira bastante representativa desse movimento foi a exigência das Cortes Gerais de retorno de d. João VI a Portugal, mantendo Pedro de Alcântara no Brasil como Príncipe Regente

6.7.9. A regressão do Brasil à condição de colônia seria opressiva por si só, como a conjuntura própria à Inconfidência Mineira deixava claro; mas, em face do desenvolvimento político, econômico e social do Brasil ocorrido desde o século XVIII e fortemente estimulado pela vinda da família real em 1808, a imposição do status colonial ao Brasil implicaria, necessariamente, redobradas opressões e violências

6.7.9.1.          Vale a pena notar que tanto a instituição da monarquia constitucional quanto o projeto de regressão do Brasil à condição de colônia são exemplares do caráter dissolvente, absolutista e anti-histórico da metafísica

6.7.10.   De qualquer maneira, considerando a distância entre os dois países, a disparidade de tamanho e as realidades sociais e políticas, a independência do Brasil teria que acontecer cedo ou tarde

6.7.11.   Sendo d. João VI obrigado a voltar a Portugal e sendo públicas as pretensões das Cortes Gerais a respeito do Brasil, logo percebeu José Bonifácio que seria necessário agir e com grande rapidez

6.7.12.   A partir daí, ele procurou acercar-se de Pedro de Alcântara, que soube reconhecer o valor do ancião

6.7.13.   José Bonifácio soube preparar Pedro de Alcântara para a independência; mas, ao mesmo tempo, teve que enfrentar resistências inesperadas, totalmente retrógradas e mesquinhas, como a de Domitila de Castro, a famosa amante de Pedro de Alcântara tornada “Marquesa de Santos”, que apoiava o projeto “recolonial”

6.7.14.   O episódio do “Dia do Fico” (9.1.1822), em que Pedro de Alcântara rejeitou a ordem de retorno a Portugal, emitido pelas Cortes Gerais, preparou o 7 de Setembro

6.8.   Exemplares das superiores condições morais, intelectuais e práticas de José Bonifácio são as suas propostas para o Brasil

6.8.1. José Bonifácio tinha extrema clareza a respeito dos problemas e das condições brasileiras de então

6.8.2. Para ele, cumpria integrar o imenso território nacional, assim como permitir e realizar a integração dos três grandes elementos étnicos nacionais, o português, o africano e o indígena

6.8.3. A integração social implicava, necessariamente, a abolição da escravidão, a miscigenação e, depois, o estímulo à alfabetização e à indústria

6.8.4. Todavia, ao mesmo tempo, percebendo que o país tinha sua economia baseada na escravidão, em um regime que naquele momento não tinha perspectivas para desaparecer, José Bonifácio entendeu que só seria possível manter o Brasil unido por meio da monarquia: afinal de contas, para ele, a escravidão era inimiga da República

6.8.5. Em outras palavras, a monarquia foi instituída para garantir (pelo menos por algum tempo) a permanência da escravidão – o que equivale a dizer que a monarquia foi implantada no Brasil como um regime explicitamente escravista e escravocrata

6.8.6. A monarquia apresentava algumas vantagens adicionais de caráter momentâneo: por um lado, assegurava a continuidade institucional por meio da manutenção da dinastia reinante; por outro lado, José Bonifácio temia que a república no Brasil seguisse os passos da América espanhola, com a fragmentação política (e territorial)

6.9.   Essas propostas foram expostas com grande beleza pelo pintor positivista Eduardo de Sá, na famosa tela “José Bonifácio, a fundação da pátria brasileira”

6.9.1. Também importa notar que, assim como com Tiradentes, a figura de José Bonifácio foi eternizada e celebrizada por nós, positivistas

6.9.2. Mas, não por acaso, a historiografia brasileira, com um pé (ou os dois pés) no monarquismo e/ou no marxismo, despreza essa nossa importância, ainda que mais ou menos aceite os resultados de nossa atuação

6.9.2.1.          Esse desprezo da historiografia atual pela importante atuação dos positivistas em favor da memória de José Bonifácio segue o impulso destruidor da metafísica marxista desde a década de 1960 (ainda que a historiografia atual não seja marxista) e revela, no final das contas, uma profunda mesquinhez

6.10.               Considerando que o Positivismo é uma religião cívica e pacifista, importa afirmar com toda as letras: os desfiles militares não representam os ideais cívicos, nem a pátria brasileira, nem muito menos a República

6.10.1.   Nesse sentido, nem a proposta cívica de José Bonifácio nem o caráter pacífico-industrial da política moderna aceitam as demonstrações usuais de “civismo”

6.10.2.   Desde pelo menos o século XIX – portanto bem antes do regime inaugurado em 1964 –, as comemorações do 7 de Setembro resumem-se a paradas militares. Os desfiles de pelotões, tanques e armamentos acabam concentrando nas Forças Armadas as idéias de “civismo” e “patriotismo” e desvirtuando a convergência pacífica dos cidadãos em prol do bem comum – que é o fundamento e o objetivo da política republicana

6.10.3.   Já em 1881 os positivistas dizíamos exatamente isso, repetindo-o desde então

6.11.               O 7 de Setembro resume-se na imponente máxima de José Bonifácio, segundo quem “A sã política é filha da moral e da razão”

6.11.1.   É devido a concepções como essas que, juntamente com a Independência do Brasil, no dia 7 de setembro comemoramos também a imponente figura do grande santista que foi José Bonifácio

6.11.2.   Embora não seja de origem positivista, essa máxima evidentemente está totalmente de acordo com os mais elevados princípios morais, intelectuais e políticos propostos pelo Positivismo

6.11.2.1.       A fórmula de José Bonifácio antecipa e indica com clareza a máxima positivista “agir por afeição e pensar para agir”

6.11.3.   A concordância com o Positivismo ocorre também porque essa máxima corresponde aos melhores valores da política moderna

7.     Término da prédica

 

Referências

- Auguste Comte (franc.), Síntese subjetiva (Paris, Exécution Téstamentaire d’Auguste Comte, 2ª ed., 1900): https://archive.org/details/lasynthsesubjec00comtgoog.

- Augusto Comte (franc.), Sistema de filosofia positiva (Paris, Bachelier, 1838), v. 3, 45e leçon (“Considérations générales sur l’étude positive des fonctions intellectuelles et morales, ou cérébrales”).

- Augusto Comte (franc.), Sistema de política positiva (Paris. J.-B. Baillière, 4ª ed., 1880): https://archive.org/details/systmedepoliti01comt.

- Augusto Comte (port.), Apelo aos conservadores (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores.

- Augusto Comte (port.), Catecismo positivista (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 4ª ed., 1934).

- David Carneiro (port.), A vida gloriosa de José Bonifácio de Andrada e Silva e sua atuação na Independência do Brasil (Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1977).

- Gustavo Biscaia de Lacerda (port.), “7 de setembro – Independência do Brasil e comemoração de José Bonifácio” (Blogue Filosofia Social e Positivismo, 7.set.2015): https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2015/09/7-de-setembro-independencia-do-brasil-e.html.

- Gustavo Biscaia de Lacerda (port.), A “teoria do Brasil” dos positivistas ortodoxos brasileiros: composição étnica e independência nacional (Política & Sociedade, Florianópolis, v. 16, n. 35, p. 271-298, 2017).

- Gustavo Biscaia de Lacerda (port.), O momento comtiano (Curitiba, UFPR, 2019).

- José Lonchampt (port.), Ensaio sobre a oração (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1896; catálogo da IPB, n. 165): https://archive.org/details/n.-165-jose-lonchampt-ensaio-sobre-a-oracao.

- Luís Lagarrigue (esp.), A poesia positivista (Santiago do Chile, 1890): https://archive.org/details/luis-lagarrigue-a-poesia-positivista-1890_202509.

- Miguel Lemos & Raimundo Teixeira Mendes (port.), Bases de uma Constituição política ditatorial federativa para a república brasileira. (2ª ed.: 1934.) Série da Igreja Positivista do Brasil, n. 82. Rio de Janeiro: Igreja Positivista do Brasil, 1890. Disponível em: http://bd.camara.leg.br/bd/bitstream/handle/bdcamara/15236/bazes_constituicao_politica.pdf?sequence=3. Acesso em: 25.jun.2014.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), As últimas concepções de Augusto Comte (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-i e https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-ii.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), Benjamin Constant. Esboço de uma apreciação sintética da vida e da obra do fundador da República Brasileira. Série da Igreja Positivista do Brasil, n. 120. Rio de Janeiro: Igreja Positivista do Brasil, 1936. 

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), Discurso comemorativo do tricentenário de morte de Luís de Camões. (2ª ed.: 1977). Série da Igreja Positivista do Brasil, n. 1. Rio de Janeiro: Igreja Positivista do Brasil, 1880. 

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), O ano sem par (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1900): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-o-ano-sem-par-portug._202312/page/n7/mode/2up.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), O império brasileiro e a república brasileira perante a regeneração social. A propósito do “Manifesto de S. A. I. o sr. d. Luiz de Bragança”, publicado no Diário do Congresso Nacional, de quarta-feira, 27 de agosto de 1913. Série da Igreja Positivista do Brasil, n. 350. Rio de Janeiro: Igreja Positivista do Brasil, 1913.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), O Positivismo e a questão social. A propósito da questão anarquista. Série da Igreja Positivista do Brasil, n. 383. Rio de Janeiro: Igreja Positivista do Brasil, 1915.