10 abril 2026

Celebração de Clotilde

No dia 15 de Arquimedes de 172 (9.4.2026) realizamos a celebração de Clotilde de Vaux, nossa mãe espiritual.


As anotações que serviram de base para a exposição oral encontram-se reproduzidas abaixo.

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Celebração de Clotilde de Vaux

(15 de Arquimedes de 172/9.4.2026) 

1.     Início

2.     Nos dias 9 e 11 de Arquimedes (3 e 5 de abril) celebramos o nascimento (1815) e a transformação (1846) de nossa mãe espiritual, Clotilde de Vaux

2.1.   Realizamos hoje, dia 15 de Arquimedes de 172 (9.4.2026), a celebração de Clotilde e não em outros dias devido a alguns motivos:

2.1.1. No dia 13 de Arquimedes (7.4) ficamos impossibilitados de realizar a prédica, devido a uma enxaqueca

2.1.2. Como indica Teixeira Mendes (O ano sem par, p. 782-783), nosso mestre decidiu que as cerimônias positivistas devem ocorrer às quintas-feiras

2.1.2.1.          Essa decisão decorreu, aliás, justamente, de dois acontecimentos ocorridos com  Clotilde, ambos em quintas-feiras: (1) a cerimônia de união espiritual entre ambos, de 28 de agosto de 1845 (batismo de Léon Marie, filho de Maximilien Marie, que teve como padrinhos Comte e Clotilde); (2) a extrema-unção de Clotilde, em 2 de abril de 1846.

2.1.3. Uma celebração dedicada unicamente a Clotilde, além de valorizar mais e melhor a nossa mãe espiritual, torna-se mais compreensível para o público

3.     A vida de Clotilde foi realmente sofrida

3.1.   Nascida em 3 de abril de 1815 com o nome de Carlota Clotilde Josefina Marie , filha do capitão Joseph Simon Marie e de Henriette-Joséphine de Ficquelmont,  casou-se com 20 anos com Amadeu de Vaux; após cerca de quatro anos de casamento, o marido acabou revelando-se mau-caráter, com falsificações, golpes e dívidas de jogo; ele fugiu, abandonando a esposa, que ficou largada à própria sorte; ele em seguida foi julgado réu revel e condenado: além de abandonada à penúria, Clotilde viu-se na degradante condição de carregar o sobrenome de um fugitivo condenado 

3.2.   Obrigada a voltar a viver com a família – ou seja, com os pais, com o irmão do meio (Maximilien) e sua cunhada –, não tinha renda própria, exceto uma pensão liberalmente concedida uma vez por ano por um tio conde, irmão de sua mãe e de sobrenome Ficquelmont, que ocupava um cargo de ministro na Áustria; esse dinheiro, embora fosse dedicado exclusivamente a Clotilde e desse-lhe um alívio material, era gerido ciosamente por sua mãe, que o empregava nos gastos familiares e não permitia que a própria Clotilde usasse-o: em outras palavras, ela estava reduzida à miséria, condição na qual sua família (sua mãe, na verdade), mantinha-a e pela qual era criticada – como se ela tivesse culpa disso e como se ela tivesse condições de evitar e/ou de sair dela!

3.3.   Após um certo tempo Clotilde envolveu-se em um romance, com um homem aparentemente casado; ela apaixonou-se perdidamente por ele e chegou a engravidar; ela acabou sofrendo um abortamento; as condições de casados de ambos impediram que o romance fosse levado adiante

3.4.   O irmão do meio de Clotilde, Maximilien, nascido em 1819, era aluno da Escola Politécnica e, desde antes de 1844, passou a ter aulas particulares de Matemática com Augusto Comte, aproveitando não somente o reforço didático como também as reflexões filosóficas e científicas; embora de modo geral Augusto Comte fosse um professor austero, ele acabou aproximando-se de Maximilien e tornando-se amigo de sua família, a quem passou a frequentar 

3.5.   A vida de Augusto Comte nessa altura era bastante solitária, basicamente ocupada com o trabalho (como professor e como filósofo); embora casado, Augusto Comte já tinha sido abandonado pela última vez por Carolina Massin em 1841; em 1842 ele concluiu a redação e a publicação da Filosofia positiva; desde 1841 ele residia no domicílio sagrado da rua Monsieur-le-Prince, n. 10, e contava com a assistência de Sofia: desde essa época até 1844, era essa a sua vida

3.6.   Em outubro de 1844, em uma das visitas de Augusto Comte à família Marie, ele por acaso conheceu a irmã de seu aluno; a partir daí, a vida solitária de nosso mestre reagiu sobre ele, aliada à simpatia que os sofrimentos de Clotilde despertaram nele e à relativa identidade desses sofrimentos; apaixonando-se por ela, em abril de 1845 ele escreveu-lhe uma carta, declarando-se

3.7.   Clotilde ficou surpresa com a intensa e inesperada declaração daquele austero filósofo e professor; a partir daí se seguiu uma belíssima troca de correspondência, em que nosso mestre aos poucos dá vazão aos seus sentimentos e com isso se controla e torna-se mais confiável para a jovem; por seu turno, Clotilde vai deixando seu susto e suas reservas e passa a confiar no filósofo; enquanto a troca de correspondência tinha lugar, nosso mestre continuava freqüentando a casa da família Marie, que passava assim a ter um atrativo adicional cada vez maior

3.8.   A paixão de Augusto Comte era muito intensa e foi a muito custo que ele controlou-a; esse controle deveu-se em grande medida à resistência pura de Clotilde, seja por sua pudicícia pessoal, seja porque nos primeiros meses da correspondência ela ainda se mantinha apaixonada pelo seu amante anterior

3.9.   Mas após cerca de seis meses, a situação resultou em um belo equilíbrio, em que nosso mestre afirmava com todas as letras que Clotilde poderia e deveria ser a mestre do relacionamento entre ambos; ao mesmo tempo, Clotilde confiava cada vez mais plenamente em nosso mestre, pedindo-lhe conselhos pessoais, de saúde, orientações filosóficas etc., além de fazer confidências pessoais e familiares

3.10.               Um aspecto belíssimo e notável é a preocupação mútua de cada qual: nosso mestre dava sugestões e estímulos para a carreira literária de Clotilde, que ambos viam como a forma de ela sair da penúria material e da relativa opressão familiar; Clotilde, por seu turno, preocupava-se que a paixão de Augusto Comte por ela afastasse-o de suas reflexões filosóficas

3.10.1.   A produção literária de Clotilde resultou, já naquela época, em vários poemas que ela escrevera antes, na novela epistolar Lúcia (largamente autobiográfica) e, no segundo semestre de 1845, no começo da redação do romance Guilhermina (no francês, originalmente Willelmine); além disso, as cartas escritas por Clotilde a Augusto Comte apresentam um tom filosófico e moral bastante intenso, revelando profundidade de espírito, intensa afetividade e emancipação filosófica

3.10.2.   Da parte de Augusto Comte, a paixão por Clotilde, em vez de distanciá-lo das reflexões filosóficas, renovou sua energia e seus temas; são dessa época inúmeras cartas filosóficas, sobre a celebração social (é a primeira Santa Clotilde, de 2.6.1845), sobre o casamento (12.1.1846), sobre o batismo cristão (28.8.1845)

3.11.               Já entrando no ano de 1846, a situação pessoal de ambos era precária: a saúde de Clotilde piorara muito, a perseguição academicista contra Augusto Comte retirara-lhe um de seus empregos; já a relação mútua entre ambos estava cada vez melhor, embora a família de Clotilde não confiasse na castidade desse relacionamento, passasse a apresentar obstáculos a Augusto Comte e impedisse Clotilde de administrar os recursos que ela recebia de seu tio austríaco; a partir de fevereiro de 1846 Clotilde adoeceu mais claramente e em março ela ficou cada vez mais prostrada; do final de março até o início de abril ela definhou, falecendo em 5 de abril

3.12.               A infundada desconfiança da família Marie para com Augusto Comte gerou equívocos e situações lamentáveis, que foram estimuladas pela situação desesperadora que todos eles atravessavam; em todo caso, nosso mestre manteve o apoio constante (e casto, convém notar), além de ceder os serviços de Sofia para Clotilde: nos termos de Clotilde, Sofia foi uma verdadeira irmã para ela, auxiliando-a de maneira importantíssima nas suas últimas duas semanas de vida; nesse período, Clotilde já se reconhecia apaixonada por Augusto Comte e retribuía o entendimento de que era sua esposa (subjetiva)

3.13.               As últimas palavras de Clotilde – “Comte, eu sofro sem ter merecido” – indicam o quanto ela dedicava-lhe profundo afeto e o quanto nosso mestre era realmente importante para ela

3.13.1.   O lamento de sofrer sem ter merecido, repetido várias vezes, além de ser extremamente preciso, também dão a indicação da redenção positiva da Humanidade: em vez de afirmar, com o catolicismo, que o ser humano atual sofre em virtude de supostos (e irracionais e imorais) crimes cometidos por seus antepassados (Adão) sob a influência negativa das mulheres, o Positivismo vê que sofremos sem merecer e que devemos agir para mudar esse quadro, melhorando o mundo, sob a inspiração da Humanidade e sob a influência benfazeja das mulheres

4.     Por que dizemos que Clotilde é nossa “mãe espiritual”?

4.1.   O amor dedicado por Augusto Comte a Clotilde forneceu-lhe o impulso, a direção e os elementos para que ele passasse da elaboração filosófica para a construção religiosa, ou seja, como ele dizia, para que ele passasse da carreira de Aristóteles para a de São Paulo; da mesma forma, esse amor permitiu-lhe realizar e satisfazer aspectos de sua vida que até então estavam tristemente represados e insatisfeitos: em outras palavras, com Clotilde nosso mestre realizou-se como ser humano: ao mesmo tempo e a partir disso, conseguiu ultrapassar o cientificismo e orientar-se com renovada e assombrosa energia ao desenvolvimento mais importante para o Positivismo, isto é, para o ser humano

4.1.1. O devotamento de Augusto Comte a Clotilde resultou na constituição das principais e mais importantes instituições do culto positivo: as orações, o culto privado, os anjos da guarda, vários dos sacramentos

4.1.2. Mas, ao mesmo tempo, esse desenvolvimento moral, afetivo e intelectual de Augusto Comte só foi possível porque Clotilde era realmente uma mulher superior, pelos sentimentos, pelo espírito e pelo caráter: ela era uma pessoa emancipada, que ao mesmo tempo entendia a importância histórica e social das instituições; era uma pessoa sensível, que sabia impor limites sem constranger os demais: não apenas Augusto Comte estabeleceu e reiteradamente reafirmou que Clotilde seria a diretora e juíza do relacionamento entre ambos, como ele também disse que, “para pensar como Comte seria necessário amar como Clotilde” (Teixeira Mendes, O ano sem par, p. 374-375)

4.1.3. As sete máximas de Clotilde, recolhidas por Augusto Comte em meio às cartas trocadas entre ambos, nas obras literárias de Clotilde e a algumas conversas pessoais, ilustram a sua superioridade

5.     A concepção de “mãe espiritual” estabelece o culto às mulheres e oferece um modelo e um início para o culto à Humanidade

5.1.   A mãe espiritual é u’a mulher, assim como, e não por acaso, a Humanidade: elas afirmam a superioridade moral das mulheres, que deve inspirar e orientar os sentimentos, as idéias e as ações dos homens

5.2.   A reverência e o culto que nosso mestre dedicou a Clotilde, como comentamos há pouco, inspiraram as principais características do culto à Humanidade

5.3.   Em virtude dessas múltiplas influências, Augusto Comte afirmava que a posteridade reconhecerá sempre, com justiça, que a Religião da Humanidade é uma criação tanto do próprio Comte quanto de Clotilde

6.     A concepção de “mãe espiritual”, muito mais que a mera adesão à Religião da Humanidade, estabelece com clareza a linha divisória entre os positivistas ortodoxos e os incompletos (ou cientificistas)

6.1.   É ao mesmo tempo triste e revelador dos hábitos mentais e morais contemporâneos, tanto de metafísicos quanto também de teológicos, que o nosso culto a Clotilde (a partir do culto a ela promovido por nosso mestre) seja sistematicamente desrespeitado e zombado: essas mesmíssimas pessoas, entretanto, ousam falar em dignidade da mulher, em dignidade do ser humano (embora às vezes falem, de maneira mais coerente, em cultuar apenas a divindade teológica, contra o ser humano), ao mesmo tempo em que elogiam implicitamente o cientificismo, ou afirmam que – para conveniência deles – o verdadeiro positivismo é, ou deveria ser, o cientificismo

6.2.   A noção de mãe espiritual também separa os positivistas completos de todos aqueles que rejeitam a noção de superioridade moral das mulheres – o que, por mais chocante que seja, inclui atualmente, acima de tudo, as próprias mulheres!

6.2.1. A rejeição da superioridade moral das mulheres baseia-se em uma concepção equivocada da dignidade feminina, mas tem como efeito a degradação moral da sociedade, a diminuição dos freios morais e afetivos à violência, o apoio à concepção materialista e brutal de que tudo na sociedade é apenas política, ou seja, poder, disputa, violência

6.2.2. Em outras palavras, a rejeição da superioridade moral das mulheres conduz, direta e indiretamente, à violência contra as mulheres, à misoginia e ao aumento do chamado “feminicídio”

7.     Leremos agora alguns poemas – alguns da própria Clotilde e outros compostos em sua homenagem

7.1.   O poema A infância  (com tradução de Teixeira Mendes)

7.2.   O poema fetichista Pensamentos de uma flor (com tradução de Teixeira Mendes)

7.3.   As sete máximas de Clotilde (publicadas pela primeira vez no Testamento de Augusto Comte e recolhidas por ele na correspondência sagrada, nas obras literárias de Clotilde e em conversas presenciais entre nossos pais espirituais)

7.4.   A Ave Clotilde de José Mariano de Oliveira (originalmente em italiano, com tradução do GPT para o português; ela será lida, mas deve ser cantada, ao som de Ave Maria, de Gounod)

7.5.   A Ave Clotilde de Henrique Batista da Silva Oliveira (originalmente em francês, com nossa tradução para o português; ela será lida, mas deve ser cantada, ao som de Ave Maria, de Gounod)

8.     Celebrar Clotilde faz-nos buscar ser melhores – mais afetivos, mais inteligentes, mais ativos –; ela faz-nos servir mais e melhor à Humanidade: é por isso que ela é e merece ser chamada de cofundadora da Religião da Humanidade, é por isso que ela é nossa mãe espiritual

9.     Término

 

Referências

- Auguste Comte (franc.), Síntese subjetiva (Paris, Exécution Téstamentaire d’Auguste Comte, 2ª ed., 1900): https://archive.org/details/lasynthsesubjec00comtgoog.

- Auguste Comte (franc.), Testamento (Paris, Exécution Téstamentaire d’Auguste Comte, 2ª ed., 1896).

- Augusto Comte (franc.), Sistema de política positiva (Paris. J.-B. Baillière, 4ª ed., 1880): https://archive.org/details/systmedepoliti01comt.

- Augusto Comte (port.), Apelo aos conservadores (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores.

- Augusto Comte (port.), Catecismo positivista (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 4ª ed., 1934).

- Gustavo Biscaia de Lacerda (port.), Prédica positiva “Sobre as máximas de Clotilde de Vaux” (Curitiba, Igreja Positivista Virtual, 3.César.169/25.4.2023): https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2023/04/sobre-as-maximas-de-clotilde-de-vaux.html.

- José Lonchampt (port.), Ensaio sobre a oração (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1896; catálogo da IPB, n. 165): https://archive.org/details/n.-165-jose-lonchampt-ensaio-sobre-a-oracao.

- Luís Lagarrigue (esp.), A poesia positivista (Santiago do Chile, 1890): https://archive.org/details/luis-lagarrigue-a-poesia-positivista-1890_202509.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), As últimas concepções de Augusto Comte (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-i e https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-ii.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), O ano sem par (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1900): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-o-ano-sem-par-portug._202312/page/n7/mode/2up. 

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A infância

(Clotilde de Vaux; tradução de Raimundo Teixeira Mendes)

 

Vem, criança gentil, mais perto... que m’encanta

Ver-te a madeixa loura, o meigo olhar formoso,

As graças naturais que têm tanto invejoso,

A fonte onde arde a inocência o templo seu levanta.

 

Vem, qu’eu gosto de ver-te o velho pai prezando

Mais que o ledo brincar que os anos seus molesta;

Gosto de ver fugir, dos beijos teus à festa,

A nuvem que, no olhar materno, ia assomando.

 

Gosto de ver o ancião que vai, a lento passo,

O humilde lar buscando, apoiado ao teu braço;

Gosto de ver-te a mão encheres, com carinho,

Do pobre que se senta à borda do caminho.

 

Por que se hão de ir embora encantos dessa idade,

Graças que as nossas mães com tanto amor afagam?

Os sonhos do porvir, por que se nos apagam?

Ah! Sim! É que é preciso um dia de saudade!

 

Os pensamentos de uma flor

(Clotilde de Vaux; tradução de Raimundo Teixeira Mendes)

 

Nasci p’ra ser amada: ó, graças, bom Destino!

Que os soberbos mortais praguejem teus azares!

O vento os arrebate aos pés de teus altares,

Eu tenho o meu perfume e o gozo matutino.

 

Tenho o primeiro olhar do rei da natureza,

Por gala o seu fulgor, seu beijo em chama acesa;

Tenho um sorrir de irmã da juvenil Aurora;

Tenho a brisa nascente a dulcidão que mora

Na gota pendurada à borda do meu cális.

Tenho o raio que brinca a se abismar nos vales;

Tenho o mago painel, a sena inigualada,

Do universo entreabrindo as portas da alvorada.

 

Jamais frio mortal haurir-me deve a vida:

No seio da volúpia a manso me adormeço;

Me guarda a natureza o esplêndido adereço;

Em seu festim de amor desperto embevecida.

 

Muita vez embelezo a formosura;

Num puro seio o meu candor se côa;

Enlaça-me o prazer n’alegre cr’ao,

E a seu lado me prende alma ventura.

 

                Quanto o rouxinol s’inspira

No meu talo em doce enleio,

Para não turvar-lhe o gorjeio

                               A natura inteira espira.

 

Amor me diz seus votos mais secretos;

Abrigo de seus ais grata saudade;

Dos seus mistérios zelo a f’licidade;

A chave sou dos corações secretos.

 

Ó! Doce Destino, se as leis que nos baixas

Suspiros profanos pudessem mudar,

Só eu haveria, nas diáfanas faixas,

De amor aos bafejos à vida tornar.

 

Da tempestade sombria

Poupa-me o horrendo furor;

Dá que sempre a leda flor

Nas tuas festas sorria.

 

As sete máximas de Clotilde (reunidas por Augusto em seu Testamento, p. 99)

 

-      É indigno dos grandes corações derramar as perturbações que sentem. (Lúcia, 7ª carta)

-      Que prazeres podem exceder os da dedicação? (Lúcia, 8ª carta)

-      Eu compreendi, melhor que ninguém, a fraqueza de nossa natureza quando ela não é dirigida para um objetivo elevado e que seja inacessível às paixões (T, p. 333)

-      São necessários à nossa espécie, mais que às outras, deveres para fazer sentimentos. (T, p. 374)      

-      Não há na vida nada de irrevogável senão a morte. (T, p. 419)

-      Todos temos ainda um pé no ar sobre o limiar da verdade. (T, p. 484)

-      Os maus têm com freqüência maior necessidade de piedade que os bons. (T, p. 537)

 

Ave Clotilde

(José Mariano de Oliveira)

(Cantada com a música da Ave Maria, de Gounod)

 

Ave, Clotilde

Esposa do Pai Supremo,

Que já ouviste, piedosa,

Sua dor sofrida;

Com Ele deste ao mundo

O fruto mais fecundo

Do mais profundo amor.

Santa Clotilde,

Por tua elevada virtude,

Acolhe em teu peito

Nosso imenso afeto,

Nossa gratidão.

Amém.

 

Ave Clotilde

(Henrique B. S. Oliveira)

 

Ave Clotilde,

De Comte, suave dama,

Que elevou ternamente

Seu nobre coração sofredor.

Saída dos dois, a mesma alma,

A dádiva, a mais fecunda,

Do amor, o mais profundo.

Santa Clotilde,

Por teu altruísmo pleno,

Acolhe em teu seio

A flor reconhecedora

De uma prece constante

Amém.

08 abril 2026

Afinal, os animais pensam (e sentem)?

A postagem abaixo corresponde a uma resposta editada que demos para um positivista; a questão geral é: os animais pensam? Como essa questão é importante, cremos que, modestamente, vale a pena compartilharmos a resposta.


Autoria: GPT, 8.4.2026.

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Essa é uma questão fundamental, seja para entendermos o mundo, seja para entendermos o ser humano, seja para entendermos os animais, seja, por fim, para regularmos a ação humana no mundo.

Temos que lembrar que a “inteligência” é a combinação de vários fatores.

Em primeiro lugar, o ser humano não existe como ser vivo isolado e que ele não surgiu “pronto”; nós somente somos o que somos porque consistimos no grau máximo de uma evolução que aconteceu antes de nós. Em outras palavras, os atributos que o ser humano apresenta são necessariamente compartilhados pelos animais superiores (o que abrange principalmente os mamíferos e as aves); a diferença é de grau, não de qualidade.

Em segundo lugar, o entendimento que temos da realidade baseia-se nas relações (no “comércio”, como se dizia) entre os impulsos externos objetivos e o funcionamento interno subjetivo. A subjetividade apresenta inúmeros sentidos, todos eles inter-relacionados, mas distintos: sentimentos, funcionamento cerebral autônomo, sensibilidade neurológica interna, imaginação, valores e práticas sociais compartilhados. Novamente: é da relação entre os impulsos do ambiente com a atividade de cada ser vivo que se desenvolve a subjetividade e, a partir daí, os sentimentos e a inteligência. Dito de outra forma, a subjetividade desenvolve-se em parte em resposta ao ambiente, ou seja, adequada ao ambiente. (Reiterando o que dissemos acima: isso é válido para os animais superiores e para o homem.)

A partir da interação entre o ambiente objetivo e o corpo subjetivo, temos que o ser humano (e os animais superiores) é movido por três lógicas, isto é, por três conjuntos de grandes princípios: os sentimentos, as imagens e os sinais. A bem da verdade, só os sentimentos são “motores”; as imagens e os sinais são instrumentos para entendermos a realidade e, a partir disso, para agirmos.

A inteligência, então, corresponde ao entendimento que se tem da realidade para atuar nela. Não se trata de raciocínios lógico-matemáticos nem de pesquisas de laboratório (embora, em um sentido muito, muito, muito amplo, possa ser chamado de “conhecimento científico”).

Por fim, além disso, nem os animais superiores nem o ser humano atuam de maneira mecânica, com automatismos; a nossa subjetividade e o funcionamento interno autônomo existem de verdade e permitem-nos entendermos a realidade, termos vontades próprias, refletirmos sobre o que existe e, a partir daí, agirmos.

A rejeição da autonomia animal tem origem teológica, é repetida pelos metafísicos e continua valendo hoje em dia, sob os mais diferentes nomes e rótulos. Entre os metafísicos, essa tolice é compartilhada seja pelos materialistas, seja pelos espiritualistas; os primeiros a partir da hipótese mecanicista de Descartes, os segundos a partir mais clara e diretamente dos preconceitos teológicos.

A resposta acima combina vários elementos filosóficos e científicos: as reflexões de Augusto Comte a respeito da metafísica psicológico-ideológica, os resultados da neurociência, reflexões sobre a evolução humana, reflexões sobre as relações do ser humano (e, de modo mais amplo, dos seres vivos) com o ambiente, as leis de Filosofia Primeira, as reflexões sobre a subjetividade (sobre os sentimentos, sobre a inteligência, sobre o desenvolvimento histórico das idéias, sobre a imaginação). Não nos aprofundamos nos temas do desenvolvimento histórico-sociológico das idéias e da autonomia da subjetividade porque exigiria muitos mais comentários, cuja importância seria, além disso, um tanto indireta.

O trecho abaixo de Augusto Comte, escrito em 1838, é cristalino e, se tivesse sido levado mais a sério, teria evitado nos últimos 200 anos uma quantidade enorme de erros e mal-entendidos. (Ele está disponível aqui: https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2026/04/augusto-comte-metafisica-psicologico.html.)

A palavra instinto não possui, em si mesma, outro sentido fundamental senão o de designar toda impulsão espontânea em direção determinada, independentemente de qualquer influência externa; nesse sentido primitivo, aplica-se evidentemente à atividade própria e direta de qualquer faculdade, tanto das faculdades intelectuais quanto das afetivas. Ela não se opõe, portanto, de modo algum ao termo inteligência, como se observa quando se fala daqueles que, sem qualquer educação, manifestam um talento pronunciado para a música, a pintura, as matemáticas etc. Sob esse ponto de vista, há certamente instinto – ou melhor, instintos – tanto e mesmo mais no homem do que nos animais. Se, por outro lado, caracterizarmos a inteligência pela aptidão de modificar a própria conduta conforme as circunstâncias de cada caso – o que constitui, de fato, o principal atributo prático da razão propriamente dita – torna-se ainda evidente que, sob esse aspecto, assim como sob o anterior, não há motivo para estabelecer, entre humanidade e animalidade, qualquer diferença essencial além daquela de grau mais ou menos desenvolvido de uma faculdade que é, por sua natureza, comum a toda vida animal e sem a qual não se poderia sequer conceber sua existência.