No dia 23 de São Paulo de 170 (11.6.2024) fizemos nossa prédica positiva, dando continuidade à leitura comentada do Catecismo positivista, em sua undécima conferência (dedicada ao regime público).
No sermão abordamos uma questão central para o Positivismo e para todos os seres humanos: a noção de positividade filosófica, superior à mera positividade científica, como um quarto estado da lei dos três estados.
Antes do sermão comentamos alguns livros:
- Ascensão e reinado dos mamíferos, de Steve Brusatte
- A esquerda não é woke, de Susan Neiman
A prédica foi transmitida nos canais Positivismo (aqui: https://l1nq.com/ArsP0) e Igreja Positivista Virtual (aqui: https://l1nk.dev/hmfvr).
A leitura comentada começou aos 48 min 05 s; o sermão começou a 1h 09 min 43 s.
As anotações que serviram de base para a exposição oral encontram-se reproduzidas (e atualizadas) abaixo.
* * *
A síntese subjetiva como quarto estado
(23.São
Paulo.170/11.6.2024)
1. A
prédica de hoje trata de um assunto que é da maior importância para o
Positivismo, isto é, para a Religião da Humanidade e, por extensão, para o ser
humano, para o bem-estar público e para a felicidade individual
1.1. Trata-se
da incorporação da síntese subjetiva na lei dos três estados, ou melhor, da atualização da lei dos três estados em face
da síntese subjetiva
1.2. Essa
atualização é importante porque corrige uma ambigüidade daninha presente desde
o início da lei dos três estados
2. Antes
de passarmos à parte mais substantiva deste sermão, podemos responder a uma
pequena dúvida que, por vezes, apresenta-se aos leitores de Augusto Comte
(incluindo, evidentemente, os positivistas)
2.1. A
dúvida é a seguinte: devemos dizer “estados” ou “estágios”?
2.2. A
formulação de Augusto Comte é bem clara: ele usa “état”, ou seja, “estado”: é a “loi
des trois états”
2.3. Mas
se na formulação ele usa “estado”, em seus escritos ele não se apega a essa
palavra, usando alternadamente “estado”, “estágio”, “fase”, “modo” etc.
2.3.1. Os
positivistas, da mesma forma, adotam essas várias palavras
2.4. Para
além da palavra consagrada no enunciado, o que evidentemente importava para
Augusto Comte, conforme depreendemos de seus escritos, é que cada um dos
estados descritos na lei dos três estados (1) representa um modo distinto de
conceber e interpretar a realidade, (2) que segue uma determinada seqüência
lógica e histórica em seu desenvolvimento
2.5. Assim,
na prática, podemos dizer que o enunciado deve ser feito com “estados” (por
motivos de respeito e de uniformidade), mas que ao longo das exposições e das
reflexões podemos usar sem maiores dificuldades as outras palavras
3. A
lei dos três estados a que nos referimos é a lei intelectual dos três estados
3.1. Ela
foi primeiramente enunciada em 1822, no texto, ou livro, chamado “Plano dos
trabalhos científicos necessários para reorganizar a sociedade”
3.1.1. Esse
livro era chamado por Augusto Comte também de “opúsculo fundamental”
3.1.2. Além
disso, é popularmente conhecido apenas como “Reorganizar a sociedade”
3.1.3. Ele
teve uma reedição aumentada em 1824, em que Augusto Comte chamou-o –
prematuramente, como ele mesmo depois reconheceu – de “Sistema depolítica positiva”
3.2. Ao
apresentar a lei dos três estados, inserindo-a em uma reflexão histórica mais
ampla, o “Reorganizar a sociedade” tem o mérito e a glória de ao mesmo tempo
fundar a Sociologia e o Positivismo
3.3. O
enunciado dessa lei mudou com o passar do tempo, refletindo mudanças, ou
melhor, a evolução das concepções de nosso mestre
3.4. O
enunciado final, “canônico”, é o que aparece no corpo da Filosofia Primeira,
conforme publicado no Catecismo
positivista:
3.4.1. “Cada
entendimento oferece a sucessão dos três estados, fictício, abstrato e
positivo, em relação às nossas concepções quaisquer, mas com uma velocidade
proporcional à generalidade dos fenômenos correspondentes”
3.4.2. Vale
lembrar que essa é a sétima lei do total de 15 leis da Filosofia Primeira; ela
integra o segundo grupo de leis, “essencialmente subjetivo”, na sua segunda
série, que compreende as leis dinâmicas do entendimento
3.4.3. Essa
segunda série apresenta as três leis
dos três estados (intelectuais, afetivos e práticos)
3.5. As
idéias da lei intelectual dos três estados são bem claras:
3.5.1. Toda
concepção humana passa por três fases, ou seja, três modos de entender o mundo
3.5.2. Esses
três modos são, sucessivamente, o fictício, o abstrato e o positivo
3.5.2.1.
Insistamos: os modos são três, são sucessivos,
são os indicados acima e desenvolvem-se nessa ordem
3.5.3. A
velocidade da passagem de um modo de conceber a realidade para outro varia de
acordo com a generalidade objetiva de cada concepção, o que também equivale a
dizer: conforme a generalidade subjetiva e o grau de complicação das concepções
4. Pois
bem: a ambigüidade que mais ou menos sempre se apresentou consiste, precisamente,
no fato de que o estado positivo apresentava dois sentidos diferentes
4.1. Esses
dois sentidos são: (1) positivo como “científico” e (2) positivo como “filosófico”
4.2. O
sentido “científico” foi o que primeiro apresentou-se a Augusto Comte,
refletindo o desenvolvimento das ciências; ele opõe-se de maneira bastante
clara à teologia e à metafísica
4.3. O
sentido “filosófico”, nas primeiras formulações, não estava muito evidente – o
que, é importante enfatizar, não significa que não se apresentasse de maneira
nenhuma –, mas, à medida que nosso mestre desenvolveu sua obra, a importância
da síntese filosófica foi evidenciando-se cada vez mais
4.4. Assim,
nas formulações iniciais – ou seja, nos opúsculos de juventude (como o
“Reorganizar a sociedade”, de 1822-1824) e ao longo dos cinco primeiros volumes
da Filosofia positiva (de um total de
seis) (1830-1841) –, Augusto Comte afirmava ao mesmo tempo, a importância da
cientificidade (usando, para isso, a lei dos três estados como apoio) e a
necessidade de concepções gerais, sintéticas e francamente relativas
4.4.1. A
necessidade das concepções gerais, sintéticas e relativas era afirmada em
conjunto com a cientificidade, mas ela não era plena e conscientemente
integrada à lei dos três estados, que se limitava assim, em seu enunciado, ao
positivo como cientificidade
4.5. Conforme
nosso mestre disse em carta ao dr. Audiffrent de 15 de Homero de 69 (12 de
fevereiro de 1857), apenas a partir do último volume da Filosofia positiva (1842) é que o enunciado, ou melhor, que o
sentido pura ou predominantemente científico na lei dos três estados mudou
4.6. O
relacionamento com Clotilde permitiu que Augusto Comte mudasse claramente o
sentido, assumindo então que a positividade não pode ser apenas a
cientificidade, mas deve ser, ainda mais, o aspecto sintético, subjetivo e
relativo
4.7. A
Religião da Humanidade, proposta no Discurso
sobre o conjunto do Positivismo (1848), fundada plenamente na Política positiva (1851-1854) e
aprofundada na Síntese subjetiva
(1856) consagrou definitivamente o sentido pleno da positividade, isto é, como síntese filosófica, relativa e subjetiva
5. Pois
bem: o ano de 1857 foi dedicado por Augusto Comte para reflexão e
amadurecimento filosófico, preparando-se para a redação dos volumes seguintes
da Síntese subjetiva
5.1. No
âmbito dessas reflexões, em conversas epistolares com seus discípulos, Augusto
Comte apresentava e desenvolvia suas novas concepções
5.2. Na
já mencionada carta ao dr. Audiffrent, de 15 de Homero de 69 (12 de fevereiro
de 1857), nosso mestre formaliza a concepção de positividade presente na lei
intelectual dos três estados, desdobrando-a
em uma lei dos quatro estados
5.2.1.
A
positividade, assim, assume duas fases sucessivas: uma preparatória, a
científica, e a outra verdadeiramente definitiva, a filosófica
5.2.2. Além
do aspecto filosófico, explicitamente ao mesmo tempo sintético, relativo e
subjetivo, Augusto Comte indica que a verdadeira positividade exige que a utilidade seja claramente acrescida à realidade das concepções
5.2.2.1.
A mera realidade pode resultar – e, como
sabemos, com freqüência resulta – no absolutismo científico
5.2.2.2.
Por outro lado, o pleno e conseqüente emprego da
utilidade resulta em que é possível, e necessário, que criemos concepções que
sejam fictícias mas úteis
5.2.2.2.1.
O critério da realidade não é final, mas não
pode ser desprezado; assim, as ficções positivas, sem se limitarem à realidade,
não podem negar as concepções reais
5.2.2.2.2.
Evidentemente, a subjetividade tem um largo
papel aí, seja na forma da imaginação artística, seja na incorporação do
fetichismo à positividade
5.2.2.2.3.
Isso tudo resulta em que, por um lado, as
utopias positivas podem ser desenvolvidas com plena positividade e que, por
outro lado, mesmo as concepções científicas abrem-se plenamente para enunciados
simpáticos, isto é, ao mesmo tempo altruístas e artísticos
5.3. Ao
distinguir a positividade científica (que é preparatória e, portanto,
provisória) da positividade plena, que é filosófica, nosso mestre também
distingue a verdadeira positividade
do mero cientificismo (e, por
extensão, também do academicismo)
5.4. Eis
como Augusto Comte caracteriza cada um dos quatro estados:
5.4.1. Teológico: provisório
5.4.2. Metafísico: transitório
5.4.3. Científico: preparatório
5.4.4. Positivo (filosófico): definitivo
5.5. Comentário
estritamente pessoal: no fundo, podemos talvez considerar que o novo enunciado
estabelece uma leis dos “dois estados”, indicando a gigantesca transição do
absolutismo para o relativismo
5.5.1. Ou,
quem sabe, considerando a transição do absolutismo para o relativismo, uma
outra lei dos três estados: fetichismo, teologia/metafísica, positividade
5.6. Comentário
feito pelo nosso amigo Hernani na tarde de hoje (23.São Paulo.170/11.6.2024), a
título de auxílio para esta prédica:
“A
caracterização intelectual da síntese subjetiva foi feita por Augusto Comte em
suas últimas reflexões tomando por base dois pares de conceitos. A síntese
positiva é (1) demonstrável e discutível
e (2) relativa e subjetiva. Ora, com
base apenas nessa dupla
caracterização torna-se fácil justificar a lei dos três estados com o acréscimo
de uma quarta fase, bastando decompor o estado metafísico em seus dois pólos
opostos (o espiritualismo e o materialismo). Basta realizar a seguinte operação:
ao teologismo corresponderia uma síntese a um tempo subjetiva e absoluta, donde
seu caráter a um tempo indemonstrável e indiscutível.
Em
seguida, à primeira expressão da
metafísica, isto é, à metafísica espiritualista
corresponderia uma tentativa de síntese objetiva e absoluta, donde seu caráter
indemonstrável porém discutível.
Ao
segundo e último estágio metafísico,
isto é, ao cientificismo materialista,
corresponde uma tentativa de síntese objetiva e relativa, donde seu caráter
demonstrável porém ainda indiscutível.
E
por fim, o quarto e último estado do entendimento, a síntese positiva, esta
define-se como subjetiva e relativa, donde seu caráter demonstrável e discutível.
Repare
que o caráter contraditório das duas sínteses metafísicas fica aí plenamente
manifesto, assim como o contraste entre essas duas sínteses em comparação com o
caráter orgânico das sínteses teológica e positiva”.
5.6.1. A
sugestão do Hernani é que o antigo critério de positividade – que, no final das
contas, é o cientificismo – seja incorporado à metafísica (que, assim,
desdobra-se em duas fases), deixando a positividade propriamente dita para a
síntese subjetiva e relativa
5.7. Mais
algumas observações de nosso amigo Hernani, agora feitas durante a prédica:
“Em
sua primeira fase, mais objetiva, Augusto Comte havia formulado a lei dos três
estados a partir das produções exteriores
da Humanidade. Ela é então uma apresentação eminentemente histórica e empírica. A teologia, a metafísica e a ciência são aí
oferecidas como sinais empíricos
reveladores dessa passagem íntima.
Na
segunda de suas fases, progressivamente subjetiva, a formulação de Augusto
Comte enuncia a mesma lei considerando antes o caráter interno de cada estado, ou seja, o caráter lógico inerente de cada um deles. Então se tratou de revelar o
caráter fictício das construções da
teologia, o caráter abstrato das
especulações metafísicas e o caráter positivo
das leis da ciência.
A
morte privou Augusto Comte de uma terceira
formulação da lei da evolução intelectual, na qual o conjunto do Positivismo
já pudesse ser apresentado como livre dos últimos vestígios do cientificismo, o
que já havia ocorrido a partir do quarto volume da Política positiva, de 1854, com a
teoria subjetiva dos números, com a incorporação do fetichismo etc.
É
curioso ver como o resumo de Harriett Martineau
foi elogiado por Augusto Comte, dentre outras virtudes, pelo fato de ela haver
excluído daí o artigo escrito por Augusto Comte, em 1832, intitulado Memória sobre a hipótese cosmogônica de Laplace,
adiantando-se assim à exclusão de um assunto que ainda estava presente no Sistema de filosofia positiva e que o Positivismo
viria a considerar como mais uma especulação da metafísica cientificista”.
5.8. A
carta de 12 de fevereiro foi aprofundada em uma outra, de 27 de Aristóteles de
69 (24 de março de 1857)
6. As
cartas de A. Comte ao dr. Audiffrent foram publicadas pelo próprio dr.
Audiffrent em 1880, no livro O
Positivismo dos últimos tempos (LePositivisme des derniers temps) – embora tenham sido apenas trechos
dessas epístolas
6.1. Teixeira
Mendes traduziu e publicou esses trechos em 1898 (As últimas concepções de Augusto Comte) e novamente em 1900 (O ano sem par)
6.2. Finalmente,
em 1990, Paulo Carneiro, dando seguimento e concluindo o principal de
organização e publicação da correspondência de Augusto Comte, publicou-as na
íntegra, no volume VIII da correspondência e das confissões anuais de nosso
mestre (esse volume em particular contou com o auxílio de Angèle
Kremer-Marietti)
7. Eis
os trechos da bela e importante carta de fevereiro de 1857 que o dr. Audiffrent
publicou em 1880:
“A
respeito da principal parte de vossa memorável carta, devo sobretudo esboçar a
sistematização direta das reflexões gerais que precedentemente vos indiquei sobre
a emancipação científica especialmente instituída, conforme o caso mais
decisivo, ainda que sob um modo espontaneamente latente no volume que vós
reledes agora. É necessário perceber diretamente tal emancipação como o
complemento normal da evolução fundamental que caracteriza a lei dos três
estados. O último estado deve ser, a esse respeito, decomposto em seus dois
modos sucessivos, um científico, o outro filosófico, respectivamente analítico
e sintético. É somente ao segundo que pertence a qualificação de definitivo, inicialmente aplicado
confusamente ao seu conjunto. No fundo, a ciência
propriamente dita é tão preliminar quanto a teologia e a metafísica e deve ser
finalmente tanto quanto [elas] eliminada pela religião universal, em relação à
qual esses três preâmbulos são um o provisório, o outro, transitório, e o
último, preparatório. Eu ouso mesmo recusar às ciências o atributo de plena
positividade, que não consiste somente na realidade
das especulações, mas em sua combinação contínua com a utilidade, sempre referida ao Grande Ser e desde então não podendo
nunca ser dignamente apreciada senão conforme a síntese total, vale dizer,
subjetiva e relativa. Na construção final, o início teológico da preparação
humana não tem menos eficácia que seu término científico. Se este fornece os
materiais exteriores, a outra esboça as disposições interiores, ao compensar a
imaginaridade pela generalidade, cuja
ausência interdiz toda verdadeira racionalidade teórica.
Sob
um aspecto mais sistemático, a primeira vida [teológica] é sobretudo distinguida
no indivíduo, como na espécie, pela vã pesquisa contínua de uma síntese
essencialmente objetiva, ao passo que
a segunda [a positividade] constrói e desenvolve a síntese puramente subjetiva,
de que a outra forneceu espontaneamente os materiais necessários. Mesmo quando
a ciência já sentiu a inanidade das causas
e fez gradualmente prevalecer as leis,
ela aspira tanto quanto a teologia e a metafísica à objetividade completa,
sonhando com a universalidade de explicação exterior segundo uma única lei, não
menos absoluta que os deuses e as entidades seguindo a utopia acadêmica. A esse
respeito, eu devo ingenuamente estender uma palavra de minha última circular
que prolonga esse reproche até a mim mesmo, a respeito da minha obra
fundamental [o Sistema de filosofia positiva],
em que, não fosse senão a esse título, a posteridade não veria, como eu pude já
o dizer nobremente, senão uma construção de estréia, um trabalho de primeira
vida, não tendendo para a segunda senão no tomo final, todos os outros
permanecendo mais ou menos submetidos ao prestígio científico de que somente o
estado plenamente religioso libertou-me”.
8. Eis
o trecho da carta de março de 1857, também publicada pelo dr. Audiffrent em
1880:
“O
MESTRE – Vejo que apreciastes agora o meu novo volume [Síntese subjetiva], de maneira a utilizá-lo mais do que ninguém. A
sua reação geral sobre a vossa final emancipação científica me é sobretudo
preciosa, como garantindo a integridade das vossas disposições sintéticas e a
sua eficácia religiosa. Sentistes dignamente que a ciência, longe de constituir
o estado positivo, limita-se a fornecer-lhe, após a teologia e a metafísica,
uma última preparação necessária que, como as outras duas, tem tanto seus
inconvenientes como suas vantagens, e torna-se profundamente nociva
prolongando-se fora de medida. Para caracterizar a positividade das nossas concepções, é preciso sempre que a sua realidade se combine com a sua utilidade, a qual não é verdadeiramente
suscetível de ser julgada senão religiosamente, em virtude da relação de cada
parte com o conjunto. Sente-se que a ciência seria menos apta do que a teologia
para constituir um estado fixo, pois que o entendimento não poderia nunca tomar
para uma verdadeira residência uma simples escala, unicamente apropriada para
subir ou descer entre o mundo e o homem, quando as nossas necessidades o
exigem, e de modo algum capaz de fornecer-nos um domicílio permanente. É tempo
que os verdadeiros teoristas se libertem, a tal respeito, de uma dominação
degradante, a fim de poderem dignamente instalar as grandes noções religiosas
contra as quais a ciência será em breve insurgida com mais animosidade do que a
teologia e a metafísica, porque ela aspira mais a perpetuar o interregno
espiritual”
9.
Em
suma:
9.1.
A
verdadeira positividade é filosófica, relativa e subjetiva
9.1.1.
A
verdadeira positividade não se confunde com o cientificismo – aliás, não se
confunde nem com a mera ciência
9.1.2.
O que
distingue a verdadeira positividade da ciência e do cientificismo são suas
vistas gerais, o reconhecimento de que a inteligência é um atributo humano
(embora, claro, não exclusivamente nosso) que está e deve estar a serviço do
ser humano – portanto, também a utilidade do conhecimento deve limitar e
orientar a aplicação da inteligência
9.2.
Essa
distinção tem importância evidente para nós, positivistas, mas, como tudo o
mais na Religião da Humanidade, tem importância para todos os seres humanos:
tratam-se de concepções importantes para a Humanidade em geral e para cada
sociedade e indivíduo em particular
9.2.1.
A
correção e a justiça das concepções de Augusto Comte – incluindo a retificação
formal da lei dos três estados, no sentido de recusar à mera ciência o caráter
de positividade – é atestada pelas mais diferentes manifestações filosóficas e
políticas feitas desde antes de Augusto Comte, passando por críticos e
comentadores de sua época e chegando aos nossos dias
9.2.1.1.
Não
apenas comentadores do Positivismo, mas filósofos que refletem em geral afirmam
e exigem a ultrapassagem do cientificismo em favor de concepções mais amplas
9.2.1.2.
O
Positivismo afirma tais concepções mais amplas com todas as letras mais ou
menos desde sempre:
9.2.1.2.1.
A
exigência das visões de conjunto, da síntese filosófica, subjetiva e relativa
sempre esteve presente
9.2.1.2.2.
A
Religião da Humanidade formaliza essa ultrapassagem
9.2.1.2.3.
Por fim, a
incorporação formal (mas também substantiva) dessa ultrapassagem na lei dos
três estados ocorreu em 1857