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12 março 2025

O que é a espiritualidade positiva?

No dia 14 de Aristóteles de 171 realizamos nossa prédica positiva, dando continuidade à leitura comentada do Apelo aos Conservadores (concluindo a "Introdução").

Na parte do sermão abordamos a espiritualidade positiva.


As anotações que serviram de base para a exposição oral encontram-se reproduzidas abaixo.

*   *   *


A espiritualidade positiva

(14 de Aristóteles de 171/11.3.2025) 

1.       Abertura

2.       Exortações iniciais

2.1.    Sejamos altruístas!

2.2.    Façamos orações!

2.3.    Como somos uma igreja, ministramos os sacramentos: quem tiver interesse, entre em contato conosco!

2.4.    Precisamos de sua ajuda; há várias maneiras para isso:

2.4.1. Divulgação, arte, edição de vídeos e livros! Entre em contato conosco!

2.4.2. Façam o Pix da Positividade! (Chave pix: ApostoladoPositivista@gmail.com)

3.       Datas e celebrações:

3.1.    Dia 19 de Aristóteles (16.3): nascimento de Moisés Westphalen (1908)

4.       Publicação de tradução

4.1.    A Revista de Teoria da História, da Universidade Federal de Goiás, em seu v. 27, n. 2, de 2024, publicou uma tradução anotada que fizemos de duas cartas de Augusto Comte enviadas a seu discípulo marselhês Jorge Audiffrent em 1856.

4.2.    Essas duas cartas têm o aspecto central de, entre outros temas, indicarem que a verdadeira positividade constitui-se em um quarto estágio do pensamento, superior à mera cientificidade. Assim, essas duas cartas apresentam a maior importância filosófica, sociológica e histórica, motivo pelo qual foram traduzidas.

4.3.    Vale notar que a tradução da íntegra dessas cartas é inédita em português (a íntegra em francês foi publicada em 1980, por Paulo Carneiro; trechos delas foram traduzidos por Teixeira Mendes em 1898).

4.4.    O texto, que foi publicado com o título “Augusto Comte – a positividade filosófica como quarto estágio intelectual”, pode ser lido aqui (https://revistas.ufg.br/teoria/article/view/80260) ou aqui (https://revistas.ufg.br/teoria/article/view/80260/42103).

5.       Leitura comentada do Apelo aos conservadores

5.1.    Antes de mais nada, devemos recordar algumas considerações sobre o Apelo:

5.1.1. O Apelo é um manifesto político e dirige-se não a quaisquer pessoas ou grupos, mas a um grupo específico: são os líderes políticos e industriais que tendem para a defesa da ordem (e que tendem para a defesa da ordem até mesmo devido à sua atuação como líderes políticos e industriais), mas que, ao mesmo tempo, reconhecem a necessidade do progresso (a começar pela república): são esses os “conservadores” a que Augusto Comte apela

5.1.1.1.             O Apelo, portanto, adota uma linguagem e um formato adequados ao público a que se dirige

5.1.1.2.             Empregamos a expressão “líderes industriais” no lugar de “líderes econômicos”, por ser mais específica e mais adequada ao Positivismo: a “sociedade industrial” não se refere às manufaturas, mas à atividade pacífica, construtiva, colaborativa, oposta à guerra

5.1.2. A religião estabelece parâmetros morais, intelectuais e práticos para a existência humana e, portanto, orienta a política, estabelece as suas metas, as suas possibilidades e os seus limites

5.1.2.1.             A religião, conforme o Positivismo estabelece, não é sinônima de “teologia”

5.2.    Uma versão digitalizada da tradução brasileira desse livro, feita por Miguel Lemos e publicada em 1899, está disponível no Internet Archive: https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores

5.3.    O capítulo em que estamos é a “Introdução”, cujo subtítulo é “Advento dos verdadeiros conservadores”

5.4.    Passemos, então, à leitura comentada do Apelo aos conservadores!

6.       Sermão: a espiritualidade positiva

6.1.    Todos ouvimos falar sobre espiritualidade

6.1.1. Em nossa época metafísica, graças à mistura entre crenças orientais (o budismo, em particular) e o catolicismo, mas também com elementos de espiritismo, há uma valorização da espiritualidade, entendida em termos metafísicos

6.1.2. Entretanto, a partir dessa concepção metafísica disseminada, surge naturalmente a pergunta: é possível e é aceitável falar-se em espiritualidade positiva, em espiritualidade no âmbito do Positivismo?

6.1.3. Além disso, convém notar outro aspecto: atualmente se fala em espiritualidade como algo ligado ao bem-estar, especialmente individual

6.1.3.1.             A vinculação da “espiritualidade” ao bem-estar é algo bastante curioso e bastante contemporâneo; isso se aproxima da positividade, mas – aliás, até mesmo porque se aproxima da positividade – afasta-se (muito) de concepções e práticas anteriores

6.1.3.2.             É claro que as práticas de espiritualidade resultam, ou podem resultar, em bem-estar; mas esses resultados são secundários em relação aos objetivos propriamente teológicos ou místicos

6.1.3.3.             Também convém notar que o bem-estar buscado, quando se pratica a “espiritualidade” em busca especificamente do bem-estar, tem um caráter individual, para não dizer individualista, além de hedonista (a busca do prazer pelo prazer)

6.2.    Evidentemente, como a lei dos três estados sugere, há diversas concepções do que seja a espiritualidade; para os nossos propósitos, consideraremos quatro: teológicas, metafísico-místicas, metafísico-materialistas e positivas

6.3.    Concepções teológicas:

6.3.1. As concepções teológicas são as iniciais, em termos históricos e sociológicos

6.3.1.1.             Claro, o caráter inicial dessas concepções sugere apenas respeito devido à antigüidade e à necessidade histórica, mas não implica serem elas corretas ou verdadeiras em seus conteúdos intelectuais

6.3.1.2.             As práticas teológicas e também as místicas correspondem a experiências, testes, tentativas que podem e devem ser positivadas

6.3.1.2.1.                   Alguns exemplos claros de espiritualidades teológicas e místicas que se sugeriu serem positivadas são:

6.3.1.2.1.1.  A Imitação de Cristo, publicada por Tomás de Kempis em 1441, cuja positivação foi sugerida por Augusto Comte e que foi parcialmente realizada por Américo Brasílio Silvado, com sua Imitação maternal (1940), e por Paulo de Tarso Monte Serrat, com sua Profilaxia da neurose (1982)

6.3.1.2.1.2.  As práticas bramanisto-budistas de meditação, que foram positivadas recentemente por Sam Harris, como se vê no livro Despertar: um guia para a espiritualidade sem religião (2015)

6.3.1.2.1.3.  Um outro exemplo, curiosamente também oriundo do budismo, é o livro de Matthieu Ricard, A revolução do altruísmo (2015)

6.3.1.3.             Vale também notar que muitas concepções teológicas, apesar de suas limitações e defeitos, muitas vezes apresentam concepções gerais sobre o ser humano – o que, evidentemente, é um aspecto a ser valorizado e respeitado (e que, por oposição, é desvalorizado pelas concepções metafísicas cientificistas)

6.3.2. De acordo com as concepções teológicas, o ser humano possui uma “alma” que anima o corpo; essa alma, ou “espírito”, tem origem divina

6.3.2.1.             A alma é entendida como um “núcleo duro” da subjetividade humana, da sua “essência”, que não mudaria nunca (nem ao longo da vida, nem em face das diversas situações que o ser humano enfrenta)

6.3.2.1.1.                   A imutabilidade da alma é uma decorrência do caráter absoluto dessas concepções

6.3.2.2.             A alma é a parte que supostamente vale; o corpo é material e, portanto, secundário e, para algumas concepções, desprezível

6.3.2.3.             Como para essa concepção o corpo e a alma são distintos, contemporaneamente há quem afirme no âmbito teológico (mas também místico) que existe o bem-estar (ou saúde) físico, o bem-estar psicológico e o bem-estar espiritual

6.3.2.4.             Espelhando um pouco a dicotomia corpo-espírito, no âmbito do catolicismo – e, a partir daí, do cristianismo – o ser humano é naturalmente egoísta; o altruísmo provém da intervenção divina

6.3.3. A espiritualidade teológica consiste no exercício da alma para que ela encontre, reencontre e/ou mantenha contato com a divindade

6.3.3.1.             Essa busca dá-se por meio da concentração isolada e individual, com orações e exercícios de “meditação”, que correspondem à repetição de palavras (ou sons), a técnicas de respiração, à alienação mais ou menos controlada do mundo

6.3.3.1.1.                   A busca do contato com a divindade é o que explica e justifica os longos exercícios de isolamento monástico; como as divindades são ficções, esse contato é impossível e ocorre apenas por meio de sonhos, transes místicos e experiências metafóricas e simbólicas

6.3.3.2.             Como o corpo e a alma são distintos entre si e são valorizados diferentemente, a espiritualidade teológica basicamente despreza o corpo

6.3.3.3.             Entretanto, essas concepções filosóficas podem assumir diferentes formas de prática, ou seja, de ascese, e podem variar desde a autoflagelação próxima à automutilação até a dedicação social com ou sem desprezo pelo corpo, passando por práticas que ignoram o corpo

6.3.4. Como a alma é individual e o relacionamento com a divindade também é individual, o objetivo da espiritualidade teológica é individualista, embora por vezes a ascese possa ser coletiva

6.4.    Concepções metafísicas místicas:

6.4.1. As concepções metafísicas místicas, como é natural para as concepções metafísicas de modo geral, guardam estreitas relações com as concepções teológicas

6.4.2. Assim como indicamos a respeito da teologia, vale notar que muitas concepções metafísicas místicas, apesar de suas limitações e defeitos, muitas vezes apresentam concepções gerais sobre o ser humano – o que, evidentemente, é um aspecto a ser valorizado e respeitado

6.4.2.1.             Essas concepções gerais, por oposição, são desvalorizadas pelas concepções metafísicas cientificistas

6.4.2.2.             Muitas concepções místicas de origem oriental, ao difundirem-se no Ocidente, propagaram nas últimas décadas a expressão “holismo”, com isso querendo referir-se à integração com a “totalidade cósmica” (no sentido panteísta), embora às vezes essa expressão seja usada com um sentido mais secularizado

6.4.3. As concepções místicas mantêm a noção de “alma”, mas não a de divindade, que é substituída pela “natureza”, pelo “universo” ou por outras concepções semelhantes, como o “nirvana”

6.4.3.1.             Bem vistas as coisas, a “natureza”, o “universo” e mesmo algumas concepções de nirvana correspondem a diferentes formas de panteísmo (“deus é e está em tudo”)

6.4.4. Enquanto na teologia a espiritualidade busca o diálogo com a divindade, no misticismo a espiritualidade consiste em buscar uma harmonia interior que é orientada para essas concepções vagas

6.4.4.1.             Na prática, o que se deseja com essas práticas é uma anulação do egoísmo e da sensação de individualidade

6.4.4.2.             Muitas das concepções místicas são confusas nesse sentido, pois desejam anular o egoísmo a partir de objetivos e de meios egoístas

6.4.5. A proximidade com a teologia torna possível repetir a respeito do misticismo várias observações feitas sobre a teologia:

6.4.5.1.             A alma é a parte que supostamente vale; o corpo é material e, portanto, secundário e, para algumas concepções, desprezível

6.4.5.2.             Como para essa concepção o corpo e a alma são distintos, há quem afirme, no âmbito místico, que existe o bem-estar espiritual, o bem-estar físico e o bem-estar psicológico

6.4.5.3.             Essa busca dá-se por meio da concentração isolada e individual, com orações e exercícios de “meditação”, que correspondem à repetição de palavras (ou sons), a técnicas de respiração, à alienação mais ou menos controlada do mundo

6.4.5.4.             Como o corpo e a alma são distintos entre si e são valorizados diferentemente, a espiritualidade mística assume diferentes formas de ascese, isto é, pode variar desde a autoflagelação próxima à automutilação até a dedicação social com ou sem desprezo pelo corpo, passando por práticas que ignoram o corpo

6.5.    Concepções metafísicas materialistas:

6.5.1. Pode parecer estranho falar-se em “espiritualidade materialista”, mas isso é necessário, tanto por questões teóricas quanto práticas

6.5.1.1.             No âmbito do materialismo, a espiritualidade pode ser encarada (1) de uma perspectiva cientificista atéia ou (2) de uma perspectiva socialista

6.5.2. Para o materialismo, não existe a “alma” ou o “espírito” distinto do corpo; é por esse motivo que, em um primeiro momento, para o materialismo não existe espiritualidade

6.5.3. Evidentemente, a concepção materialista associa-se à ciência e corresponde seja à prevalência da mentalidade própria às ciências inferiores (reducionismo), seja à manutenção da concepção de mundo vigente durante a constituição das ciências inferiores e do método objetivo (cientificismo)

6.5.3.1.             Assim, a concepção materialista vincula-se de modo geral à constituição da ciência, mas antes ou contra a elaboração/renovação positiva

6.5.3.2.             Um traço importante do materialismo e do cientificismo é, de modo geral, é a sua recusa em aceitar concepções gerais da realidade

6.5.4. O materialismo cientificista e ateu rejeita e insiste na negação da noção de alma e, daí, na negação da noção de espiritualidade; além disso, como, em linha com a teologia, o ateísmo afirma uma perspectiva profundamente individualista, o objetivo da espiritualidade materialista, ou, talvez, o objetivo da vida nessa perspectiva é cada indivíduo viver bem, talvez em harmonia com outros indivíduos; mas esse objetivo é individualista e rejeita a concepção sociológica

6.5.4.1.             A perspectiva cientificista muitas vezes – na verdade, bem vistas as coisas, na maior parte dos casos – adota a teoria e a prática da “mente partida”, a partir da teoria metafísica que opõe “razão e fé”: profissionalmente são profundamente cientificistas (e materialistas) (é a “razão”), mas fora do local de trabalho vão a missas, cultos etc. de caráter teológico e/ou metafísico (é a “fé”)

6.5.5. O materialismo socialista mantém a rejeição cientificista-atéia à noção de “espiritualidade” (devido à sua origem teológica), mas, em contraposição, afirma que o ser humano realiza-se na vida em comum, na dedicação aos outros

6.5.5.1.             Dessa forma, embora o materialismo socialista permaneça intelectualmente na negatividade, em termos práticos e até afetivos ele avança rumo à positividade, ultrapassando o individualismo, o solipsismo e até o imobilismo próprios ao ateísmo

6.6.    Duas observações adicionais sobre a espiritualidade metafísica:

6.6.1. Por um lado, há toda uma literatura puramente metafísica, isto é, destruidora e “ontológica”, que muitas vezes não se assume como espiritualidade, embora exerça esse papel: pensamos em particular no existencialismo de Sartre e de sua esposa, a feminista Simone de Beauvoir, além do niilismo de Nietzsche e do criptonazismo de Heidegger

6.6.2. Por outro lado, o academicismo consagra o espírito metafísico no que este tem de pior, isto é, em seu aspecto sistematicamente destruidor e de vistas parciais; na verdade, é motivo de orgulho acadêmico ser sempre parcial e provisório e rejeitar esforços mais amplos e duradouros

6.7.    Concepção positiva:

6.7.1. A concepção positiva de espiritualidade, evidentemente, é a positivista, é a da Religião da Humanidade

6.7.1.1.             A noção positiva de espiritualidade em grande parte confunde-se com a noção positiva de religião; desse modo, corremos um pouco o risco de repetirmos o que sempre falamos sobre a religião positiva

6.7.2. O objetivo da espiritualidade positiva é a harmonia, que deve realizar-se, na medida das possibilidades e em todos os âmbitos da existência humana

6.7.3. Comecemos então observando que a concepção positiva de espiritualidade tem uma perspectiva geral da realidade (a visão de conjunto) – que, aliás, está na base da nossa concepção de “religião” –: concepção e regulação geral e coordenada da existência humana, em termos (1) afetivos, intelectuais e práticos; (2) objetivos e subjetivos; (3) coletivos e individuais; (4) estáticos e dinâmicos; (5) de passado, futuro e presente

6.7.3.1.             Além disso, não podemos deixar de mencionar em particular o relativismo, que é o que permite apreciarmos e valorizarmos, sem incoerência, as espiritualidades anteriores, entendendo-as em particular como formas necessárias, mas transitórias e já exaustas

6.7.3.2.             A espiritualidade positiva orienta a vida individual, mas não a separa da existência coletiva; mais do que isso: sem negar um espaço legítimo e necessário para a privacidade e para a vida doméstica, não há uma separação radical entre o público e o privado, de tal maneira que o privado prepara-nos para a vida pública e a vida pública consolida e desenvolve o privado

6.7.3.3.             Além disso, em termos individuais, a positividade vincula a lei do dever com a regra da felicidade, no “viver para outrem”

6.7.4. A noção teológico-metafísica de alma é substituída por uma concepção positiva de alma; não se trata mais de uma entidade externa ao corpo que magicamente entra no corpo e que lhe dá vida: a alma é o próprio corpo e, em particular, é o cérebro

6.7.4.1.             Assim, em termos positivos não se pode falar em harmonia (ou saúde) mental, “espiritual” e física, mas apenas em saúde moral e física

6.7.4.2.             Se a alma humana está no cérebro, ela corresponde ao conjunto das funções cerebrais: daí a importância lógica e teórica do “Quadro cerebral” de Augusto Comte, passo fundamental para a positivação e para a fundação da ciência da moral

6.7.4.3.             O quadro cerebral de Augusto Comte estabelece 18 funções elementares: dez motores afetivos, cinco funções intelectuais e três qualidades práticas

6.7.4.4.             A vinculação real entre alma e corpo é assumida implicitamente em várias concepções teológicas e/ou místicas no caso dos gêmeos xipófagos

6.7.4.4.1.                   Os gêmeos xipófagos são aqueles que têm um corpo e duas cabeças

6.7.4.4.2.                   De acordo com a teologia, se cada alma corresponde a um único corpo, os xipófagos teriam apenas uma única alma

6.7.4.4.3.                   Mas os teológicos consideram que os xipófagos têm duas almas, cada uma delas correspondente a um cérebro: implicitamente, isso confirma a concepção positiva e nega a concepção teológica

6.7.5. O cérebro certamente é individual, mas isso não estabelece o individualismo: o ser humano – e, portanto, o cérebro humano, ou seja, a alma humana – só se constitui, desenvolve e amadurece a partir das relações com o ambiente, em particular e acima de tudo o ambiente social, ao longo de toda a vida (incluindo aí, é claro, a vida subjetiva)

6.7.6. Um aspecto central que sempre devemos indicar, na medida em que está na base teórica da prática da espiritualidade positiva, é o relacionamento entre altruísmo e egoísmo

6.7.6.1.             Entre os motores afetivos, há sete egoístas e três altruístas, sendo que os egoístas são mais fortes que os altruístas

6.7.6.2.             Enquanto os motores egoístas não conseguem nunca prevalecer senão em arranjos temporários e instáveis, os motores altruístas conseguem conciliar-se entre si e permitem disciplinar o egoísmo

6.7.6.3.             Assim, a maior força inicial do egoísmo é suplantada, com prática e tempo, pela disciplina do altruísmo

6.7.6.4.             A prevalência do altruísmo não implica, nunca, a negação ou a destruição do egoísmo

6.7.6.5.             Na verdade, muitas vezes o altruísmo pode e deve valer-se da força do egoísmo, seja para iniciar sua atividade, seja para mantê-la; isso é uma forma de dizer que se pode e deve-se empregar de maneira altruísta os nossos pendores egoístas

6.7.7. Como falamos muito em ciência, cientificidade e cientificismo e como esses termos são associados ao Positivismo, convém tratarmos deles um pouco

6.7.7.1.             Do que se viu acima, a ciência é apenas uma base teórica e, até certo ponto, metodológica e prática para a espiritualidade positiva: mas a ciência em si mesma não é a espiritualidade positiva, nem poderia ser

6.7.7.2.             Entregue a si mesma, embora seja a base das concepções relativas e reais, a ciência tende a consagrar apenas o método objetivo (com o reducionismo das “ciências naturais”) e a manter as vistas parciais

6.7.7.2.1.                   Como Augusto Comte reconheceu desde o início, a ciência – em particular na forma do cientificismo e do academicismo – tende com facilidade a degradar-se em concepções absolutas e metafísicas

6.7.7.3.             A espiritualidade positiva exige a visão de conjunto e a aplicação sistemática do método subjetivo, nos termos que temos visto até aqui

6.7.7.4.             As limitações da ciência, em particular para a constituição de uma espiritualidade renovada, foram objeto de críticas reiteradas dos teológicos, dos místicos e mesmo de alguns científicos (como Paul Feyerabend)

6.7.7.4.1.                   É extremamente comum, a ponto de ser chocante e escandaloso, muitos acadêmicos dizerem que a ciência em si não pretende constituir uma nova espiritualidade mas, ao mesmo tempo, combaterem qualquer constituição de uma nova espiritualidade (em particular, ao combaterem ativamente o Positivismo) e manterem as antigas espiritualidades: para ficar apenas no âmbito das ciências sociais, esse foi e é o procedimento de Marx, Weber, Durkheim, Bourdieu, Foucault, Boas, Mauss, Merton, Morin etc. etc. etc.

6.7.8. Resumindo e um pouco repetindo o que se disse acima: a espiritualidade positiva, a partir das noções de visão de conjunto, de vínculo entre o público e o privado e do quadro cerebral, resume-se na subordinação do egoísmo ao altruísmo

6.7.8.1.             O foco da espiritualidade positiva é a Humanidade, que resume e corporifica todas as noções acima, além de diversas outras

6.7.8.2.             A espiritualidade positiva é consagrada na sétima ciência fundamental, a ciência da Moral, que também é entendida como a ciência suprema, que coroa e resume todas as ciências anteriores e inferiores

6.7.8.2.1.                   O objeto da ciência da Moral é o indivíduo, que é estudado a partir de sua situação e sua condição social

6.7.8.2.2.                   É importante lembrar que, se por um lado a ciência da Moral é a ciência suprema e que ela consagra a espiritualidade positiva, por outro lado a moralidade positiva baseia-se no caráter social do ser humano; nesse sentido, a base da moralidade positiva é sociológica

6.7.9. A partir da experiência histórica, seja espontânea, seja sistemática, das religiões anteriores, o Positivismo adota e positiva uma série de instituições, procedimentos, práticas:

6.7.9.1.             A incorporação do fetichismo à positividade, em termos afetivos, intelectuais e práticos

6.7.9.2.             Os sacramentos positivos, em número de nove

6.7.9.3.             A oração positiva, os anjos da guarda

6.7.9.4.             As propostas de culto positivista feitas por Richard Congreve e Raimundo Teixeira Mendes

7.       Término da prédica