A espiritualidade positiva
(14 de Aristóteles de 171/11.3.2025)
1. Abertura
2. Exortações
iniciais
2.1. Sejamos
altruístas!
2.2. Façamos
orações!
2.3. Como
somos uma igreja, ministramos os sacramentos: quem tiver interesse, entre em
contato conosco!
2.4. Precisamos
de sua ajuda; há várias maneiras para isso:
2.4.1. Divulgação,
arte, edição de vídeos e livros! Entre em contato conosco!
2.4.2. Façam o
Pix da Positividade! (Chave pix: ApostoladoPositivista@gmail.com)
3. Datas
e celebrações:
3.1. Dia
19 de Aristóteles (16.3): nascimento de Moisés Westphalen (1908)
4. Publicação
de tradução
4.1. A
Revista de Teoria da História,
da Universidade Federal de Goiás, em seu v.
27, n. 2, de 2024, publicou uma tradução anotada que fizemos de duas cartas de
Augusto Comte enviadas a seu discípulo marselhês Jorge Audiffrent em 1856.
4.2. Essas
duas cartas têm o aspecto central de, entre outros temas, indicarem que a
verdadeira positividade constitui-se em um quarto estágio do pensamento,
superior à mera cientificidade. Assim, essas duas cartas apresentam a maior
importância filosófica, sociológica e histórica, motivo pelo qual foram
traduzidas.
4.3. Vale
notar que a tradução da íntegra
dessas cartas é inédita em português
(a íntegra em francês foi publicada em 1980, por Paulo Carneiro; trechos delas
foram traduzidos por Teixeira Mendes em 1898).
4.4. O
texto, que foi publicado com o título “Augusto Comte – a positividade filosófica
como quarto estágio intelectual”, pode ser lido aqui (https://revistas.ufg.br/teoria/article/view/80260)
ou aqui (https://revistas.ufg.br/teoria/article/view/80260/42103).
5. Leitura
comentada do Apelo aos conservadores
5.1. Antes
de mais nada, devemos recordar algumas considerações sobre o Apelo:
5.1.1. O Apelo é um manifesto político e
dirige-se não a quaisquer pessoas ou grupos, mas a um grupo específico: são os líderes políticos e industriais que
tendem para a defesa da ordem (e que tendem para a defesa da ordem até mesmo
devido à sua atuação como líderes políticos e industriais), mas que, ao mesmo
tempo, reconhecem a necessidade do progresso (a começar pela república): são
esses os “conservadores” a que Augusto Comte apela
5.1.1.1.
O Apelo,
portanto, adota uma linguagem e um formato adequados ao público a que se dirige
5.1.1.2.
Empregamos a expressão “líderes industriais” no
lugar de “líderes econômicos”, por ser mais específica e mais adequada ao
Positivismo: a “sociedade industrial” não se refere às manufaturas, mas à
atividade pacífica, construtiva, colaborativa, oposta à guerra
5.1.2. A religião
estabelece parâmetros morais, intelectuais e práticos para a existência humana
e, portanto, orienta a política, estabelece as suas metas, as suas
possibilidades e os seus limites
5.1.2.1.
A religião, conforme o Positivismo estabelece,
não é sinônima de “teologia”
5.2. Uma
versão digitalizada da tradução brasileira desse livro, feita por Miguel Lemos
e publicada em 1899, está disponível no Internet
Archive: https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores
5.3. O
capítulo em que estamos é a “Introdução”, cujo subtítulo é “Advento dos
verdadeiros conservadores”
5.4. Passemos,
então, à leitura comentada do Apelo aos
conservadores!
6. Sermão:
a espiritualidade positiva
6.1. Todos
ouvimos falar sobre espiritualidade
6.1.1. Em nossa
época metafísica, graças à mistura entre crenças orientais (o budismo, em
particular) e o catolicismo, mas também com elementos de espiritismo, há uma
valorização da espiritualidade, entendida em termos metafísicos
6.1.2. Entretanto,
a partir dessa concepção metafísica disseminada, surge naturalmente a pergunta:
é possível e é aceitável falar-se em espiritualidade positiva, em
espiritualidade no âmbito do Positivismo?
6.1.3. Além
disso, convém notar outro aspecto: atualmente se fala em espiritualidade como
algo ligado ao bem-estar, especialmente individual
6.1.3.1.
A vinculação da “espiritualidade” ao bem-estar é
algo bastante curioso e bastante contemporâneo; isso se aproxima da
positividade, mas – aliás, até mesmo porque se aproxima da positividade –
afasta-se (muito) de concepções e práticas anteriores
6.1.3.2.
É claro que as práticas de espiritualidade
resultam, ou podem resultar, em
bem-estar; mas esses resultados são secundários em relação aos objetivos propriamente
teológicos ou místicos
6.1.3.3.
Também convém notar que o bem-estar buscado,
quando se pratica a “espiritualidade” em busca especificamente do bem-estar,
tem um caráter individual, para não dizer individualista, além de hedonista (a
busca do prazer pelo prazer)
6.2. Evidentemente,
como a lei dos três estados sugere, há diversas concepções do que seja a
espiritualidade; para os nossos propósitos, consideraremos quatro: teológicas, metafísico-místicas, metafísico-materialistas e positivas
6.3. Concepções
teológicas:
6.3.1. As concepções
teológicas são as iniciais, em termos históricos e sociológicos
6.3.1.1.
Claro, o caráter inicial dessas concepções
sugere apenas respeito devido à antigüidade e à necessidade histórica, mas não
implica serem elas corretas ou verdadeiras em seus conteúdos intelectuais
6.3.1.2.
As práticas teológicas e também as místicas
correspondem a experiências, testes, tentativas que podem e devem ser
positivadas
6.3.1.2.1.
Alguns exemplos claros de espiritualidades
teológicas e místicas que se sugeriu serem positivadas são:
6.3.1.2.1.1.
A Imitação
de Cristo, publicada por Tomás de Kempis em 1441, cuja positivação foi
sugerida por Augusto Comte e que foi parcialmente realizada por Américo
Brasílio Silvado, com sua Imitação
maternal (1940), e por Paulo de Tarso Monte Serrat, com sua Profilaxia da neurose (1982)
6.3.1.2.1.2.
As práticas bramanisto-budistas de meditação,
que foram positivadas recentemente por Sam Harris, como se vê no livro Despertar: um guia para a espiritualidade
sem religião (2015)
6.3.1.2.1.3.
Um outro exemplo, curiosamente também oriundo do
budismo, é o livro de Matthieu Ricard, A
revolução do altruísmo (2015)
6.3.1.3.
Vale também notar que muitas concepções
teológicas, apesar de suas limitações e defeitos, muitas vezes apresentam
concepções gerais sobre o ser humano – o que, evidentemente, é um aspecto a ser
valorizado e respeitado (e que, por oposição, é desvalorizado pelas concepções
metafísicas cientificistas)
6.3.2. De acordo
com as concepções teológicas, o ser humano possui uma “alma” que anima o corpo;
essa alma, ou “espírito”, tem origem divina
6.3.2.1.
A alma é entendida como um “núcleo duro” da
subjetividade humana, da sua “essência”, que não mudaria nunca (nem ao longo da
vida, nem em face das diversas situações que o ser humano enfrenta)
6.3.2.1.1.
A imutabilidade da alma é uma decorrência do caráter
absoluto dessas concepções
6.3.2.2.
A alma é a parte que supostamente vale; o corpo
é material e, portanto, secundário e, para algumas concepções, desprezível
6.3.2.3.
Como para essa concepção o corpo e a alma são
distintos, contemporaneamente há quem afirme no âmbito teológico (mas também místico)
que existe o bem-estar (ou saúde) físico,
o bem-estar psicológico e o bem-estar
espiritual
6.3.2.4.
Espelhando um pouco a dicotomia corpo-espírito, no
âmbito do catolicismo – e, a partir daí, do cristianismo – o ser humano é
naturalmente egoísta; o altruísmo provém da intervenção divina
6.3.3. A
espiritualidade teológica consiste no exercício da alma para que ela encontre,
reencontre e/ou mantenha contato com a divindade
6.3.3.1.
Essa busca dá-se por meio da concentração
isolada e individual, com orações e exercícios de “meditação”, que correspondem
à repetição de palavras (ou sons), a técnicas de respiração, à alienação mais
ou menos controlada do mundo
6.3.3.1.1.
A busca do contato com a divindade é o que
explica e justifica os longos exercícios de isolamento monástico; como as
divindades são ficções, esse contato é impossível e ocorre apenas por meio de
sonhos, transes místicos e experiências metafóricas e simbólicas
6.3.3.2.
Como o corpo e a alma são distintos entre si e são
valorizados diferentemente, a espiritualidade teológica basicamente despreza o
corpo
6.3.3.3.
Entretanto, essas concepções filosóficas podem
assumir diferentes formas de prática, ou seja, de ascese, e podem variar desde a autoflagelação próxima à
automutilação até a dedicação social com ou sem desprezo pelo corpo, passando
por práticas que ignoram o corpo
6.3.4. Como a
alma é individual e o relacionamento com a divindade também é individual, o
objetivo da espiritualidade teológica é individualista, embora por vezes a
ascese possa ser coletiva
6.4. Concepções
metafísicas místicas:
6.4.1. As
concepções metafísicas místicas, como é natural para as concepções metafísicas
de modo geral, guardam estreitas relações com as concepções teológicas
6.4.2. Assim como
indicamos a respeito da teologia, vale notar que muitas concepções metafísicas
místicas, apesar de suas limitações e defeitos, muitas vezes apresentam
concepções gerais sobre o ser humano – o que, evidentemente, é um aspecto a ser
valorizado e respeitado
6.4.2.1.
Essas concepções gerais, por oposição, são
desvalorizadas pelas concepções metafísicas cientificistas
6.4.2.2.
Muitas concepções místicas de origem oriental,
ao difundirem-se no Ocidente, propagaram nas últimas décadas a expressão
“holismo”, com isso querendo referir-se à integração com a “totalidade cósmica”
(no sentido panteísta), embora às vezes essa expressão seja usada com um
sentido mais secularizado
6.4.3. As
concepções místicas mantêm a noção de “alma”, mas não a de divindade, que é
substituída pela “natureza”, pelo “universo” ou por outras concepções
semelhantes, como o “nirvana”
6.4.3.1.
Bem vistas as coisas, a “natureza”, o “universo”
e mesmo algumas concepções de nirvana correspondem a diferentes formas de panteísmo (“deus é e está em tudo”)
6.4.4. Enquanto
na teologia a espiritualidade busca o diálogo com a divindade, no misticismo a
espiritualidade consiste em buscar uma harmonia interior que é orientada para essas
concepções vagas
6.4.4.1.
Na prática, o que se deseja com essas práticas é
uma anulação do egoísmo e da sensação de individualidade
6.4.4.2.
Muitas das concepções místicas são confusas
nesse sentido, pois desejam anular o egoísmo a partir de objetivos e de meios
egoístas
6.4.5. A
proximidade com a teologia torna possível repetir a respeito do misticismo
várias observações feitas sobre a teologia:
6.4.5.1.
A alma é a parte que supostamente vale; o corpo
é material e, portanto, secundário e, para algumas concepções, desprezível
6.4.5.2.
Como para essa concepção o corpo e a alma são
distintos, há quem afirme, no âmbito místico, que existe o bem-estar espiritual, o bem-estar físico e o bem-estar psicológico
6.4.5.3.
Essa busca dá-se por meio da concentração
isolada e individual, com orações e exercícios de “meditação”, que correspondem
à repetição de palavras (ou sons), a técnicas de respiração, à alienação mais
ou menos controlada do mundo
6.4.5.4.
Como o corpo e a alma são distintos entre si e são
valorizados diferentemente, a espiritualidade mística assume diferentes formas
de ascese, isto é, pode variar desde a autoflagelação próxima à automutilação
até a dedicação social com ou sem desprezo pelo corpo, passando por práticas
que ignoram o corpo
6.5. Concepções
metafísicas materialistas:
6.5.1. Pode
parecer estranho falar-se em “espiritualidade materialista”, mas isso é necessário, tanto por questões teóricas
quanto práticas
6.5.1.1.
No âmbito do materialismo, a espiritualidade
pode ser encarada (1) de uma perspectiva cientificista atéia ou (2) de uma
perspectiva socialista
6.5.2. Para o
materialismo, não existe a “alma” ou o “espírito” distinto do corpo; é por esse
motivo que, em um primeiro momento, para o materialismo não existe
espiritualidade
6.5.3. Evidentemente,
a concepção materialista associa-se à ciência e corresponde seja à prevalência
da mentalidade própria às ciências inferiores (reducionismo), seja à manutenção
da concepção de mundo vigente durante a constituição das ciências inferiores e
do método objetivo (cientificismo)
6.5.3.1.
Assim, a concepção materialista vincula-se de
modo geral à constituição da ciência, mas antes
ou contra a elaboração/renovação
positiva
6.5.3.2.
Um traço importante do materialismo e do
cientificismo é, de modo geral, é a sua recusa em aceitar concepções gerais da
realidade
6.5.4. O
materialismo cientificista e ateu rejeita e insiste na negação da noção de alma
e, daí, na negação da noção de espiritualidade; além disso, como, em linha com
a teologia, o ateísmo afirma uma perspectiva profundamente individualista, o objetivo
da espiritualidade materialista, ou, talvez, o objetivo da vida nessa
perspectiva é cada indivíduo viver
bem, talvez em harmonia com outros indivíduos; mas esse objetivo é
individualista e rejeita a concepção sociológica
6.5.4.1.
A perspectiva cientificista muitas vezes – na
verdade, bem vistas as coisas, na maior parte dos casos – adota a teoria e a
prática da “mente partida”, a partir da teoria metafísica que opõe “razão e
fé”: profissionalmente são
profundamente cientificistas (e materialistas) (é a “razão”), mas fora do local
de trabalho vão a missas, cultos etc. de caráter teológico e/ou metafísico (é a
“fé”)
6.5.5. O
materialismo socialista mantém a rejeição cientificista-atéia à noção de
“espiritualidade” (devido à sua origem teológica), mas, em contraposição,
afirma que o ser humano realiza-se na vida em comum, na dedicação aos outros
6.5.5.1.
Dessa forma, embora o materialismo socialista
permaneça intelectualmente na negatividade, em termos práticos e até afetivos
ele avança rumo à positividade, ultrapassando o individualismo, o solipsismo e
até o imobilismo próprios ao ateísmo
6.6. Duas
observações adicionais sobre a espiritualidade metafísica:
6.6.1. Por um
lado, há toda uma literatura puramente metafísica, isto é, destruidora e
“ontológica”, que muitas vezes não se assume como espiritualidade, embora
exerça esse papel: pensamos em particular no existencialismo de Sartre e de sua
esposa, a feminista Simone de Beauvoir, além do niilismo de Nietzsche e do
criptonazismo de Heidegger
6.6.2. Por outro
lado, o academicismo consagra o espírito metafísico no que este tem de pior,
isto é, em seu aspecto sistematicamente destruidor
e de vistas parciais; na verdade, é
motivo de orgulho acadêmico ser sempre parcial e provisório e rejeitar esforços
mais amplos e duradouros
6.7. Concepção
positiva:
6.7.1. A
concepção positiva de espiritualidade, evidentemente, é a positivista, é a da
Religião da Humanidade
6.7.1.1.
A noção positiva de espiritualidade em grande
parte confunde-se com a noção positiva de religião; desse modo, corremos um
pouco o risco de repetirmos o que sempre falamos sobre a religião positiva
6.7.2. O objetivo
da espiritualidade positiva é a harmonia,
que deve realizar-se, na medida das possibilidades e em todos os âmbitos da
existência humana
6.7.3. Comecemos então
observando que a concepção positiva de espiritualidade tem uma perspectiva geral da realidade (a visão de conjunto) – que, aliás, está na
base da nossa concepção de “religião” –: concepção e regulação geral e
coordenada da existência humana, em termos (1) afetivos, intelectuais e
práticos; (2) objetivos e subjetivos; (3) coletivos e individuais; (4)
estáticos e dinâmicos; (5) de passado, futuro e presente
6.7.3.1.
Além disso, não podemos deixar de mencionar em
particular o relativismo, que é o que
permite apreciarmos e valorizarmos, sem incoerência, as espiritualidades
anteriores, entendendo-as em particular como formas necessárias, mas transitórias
e já exaustas
6.7.3.2.
A espiritualidade positiva orienta a vida
individual, mas não a separa da existência coletiva; mais do que isso: sem
negar um espaço legítimo e necessário para a privacidade e para a vida
doméstica, não há uma separação radical entre o público e o privado, de tal
maneira que o privado prepara-nos para a vida pública e a vida pública
consolida e desenvolve o privado
6.7.3.3.
Além disso, em termos individuais, a positividade vincula a lei do dever com a regra da
felicidade, no “viver para outrem”
6.7.4. A noção
teológico-metafísica de alma é substituída por uma concepção positiva de alma;
não se trata mais de uma entidade externa ao corpo que magicamente entra no
corpo e que lhe dá vida: a alma é o próprio corpo e, em particular, é o cérebro
6.7.4.1.
Assim, em termos positivos não se pode falar em
harmonia (ou saúde) mental, “espiritual” e física, mas apenas em saúde moral e
física
6.7.4.2.
Se a alma humana está no cérebro, ela
corresponde ao conjunto das funções cerebrais: daí a importância lógica e
teórica do “Quadro cerebral” de Augusto Comte, passo fundamental para a
positivação e para a fundação da ciência da moral
6.7.4.3.
O quadro cerebral de Augusto Comte estabelece 18
funções elementares: dez motores afetivos, cinco funções intelectuais e três
qualidades práticas
6.7.4.4.
A vinculação real entre alma e corpo é assumida
implicitamente em várias concepções teológicas e/ou místicas no caso dos gêmeos
xipófagos
6.7.4.4.1.
Os gêmeos xipófagos são aqueles que têm um corpo
e duas cabeças
6.7.4.4.2.
De acordo com a teologia, se cada alma
corresponde a um único corpo, os xipófagos teriam apenas uma única alma
6.7.4.4.3.
Mas os teológicos consideram que os xipófagos têm
duas almas, cada uma delas correspondente a um cérebro: implicitamente, isso
confirma a concepção positiva e nega a concepção teológica
6.7.5. O cérebro
certamente é individual, mas isso não estabelece o individualismo: o ser humano
– e, portanto, o cérebro humano, ou seja, a alma humana – só se constitui, desenvolve
e amadurece a partir das relações com o ambiente, em particular e acima de tudo
o ambiente social, ao longo de toda a
vida (incluindo aí, é claro, a vida subjetiva)
6.7.6. Um aspecto
central que sempre devemos indicar, na medida em que está na base teórica da
prática da espiritualidade positiva, é o relacionamento entre altruísmo e
egoísmo
6.7.6.1.
Entre os motores afetivos, há sete egoístas e
três altruístas, sendo que os egoístas são mais fortes que os altruístas
6.7.6.2.
Enquanto os motores egoístas não conseguem nunca
prevalecer senão em arranjos temporários e instáveis, os motores altruístas
conseguem conciliar-se entre si e permitem disciplinar o egoísmo
6.7.6.3.
Assim, a maior força inicial do egoísmo é
suplantada, com prática e tempo, pela disciplina do altruísmo
6.7.6.4.
A prevalência do altruísmo não implica, nunca, a
negação ou a destruição do egoísmo
6.7.6.5.
Na verdade, muitas vezes o altruísmo pode e deve
valer-se da força do egoísmo, seja para iniciar sua atividade, seja para
mantê-la; isso é uma forma de dizer que se pode e deve-se empregar de maneira
altruísta os nossos pendores egoístas
6.7.7. Como
falamos muito em ciência, cientificidade e cientificismo e como esses termos são
associados ao Positivismo, convém tratarmos deles um pouco
6.7.7.1.
Do que se viu acima, a ciência é apenas uma base
teórica e, até certo ponto, metodológica e prática para a espiritualidade
positiva: mas a ciência em si mesma não é
a espiritualidade positiva, nem poderia ser
6.7.7.2.
Entregue a si mesma, embora seja a base das
concepções relativas e reais, a ciência tende a consagrar apenas o método
objetivo (com o reducionismo das “ciências naturais”) e a manter as vistas
parciais
6.7.7.2.1.
Como Augusto Comte reconheceu desde o início, a
ciência – em particular na forma do cientificismo e do academicismo – tende com
facilidade a degradar-se em concepções absolutas e metafísicas
6.7.7.3.
A espiritualidade positiva exige a visão de
conjunto e a aplicação sistemática do método subjetivo, nos termos que temos
visto até aqui
6.7.7.4.
As limitações da ciência, em particular para a
constituição de uma espiritualidade renovada, foram objeto de críticas
reiteradas dos teológicos, dos místicos e mesmo de alguns científicos (como
Paul Feyerabend)
6.7.7.4.1.
É extremamente comum, a ponto de ser chocante e
escandaloso, muitos acadêmicos dizerem que a ciência em si não pretende
constituir uma nova espiritualidade mas, ao mesmo tempo, combaterem qualquer
constituição de uma nova espiritualidade (em particular, ao combaterem
ativamente o Positivismo) e manterem as antigas espiritualidades: para ficar
apenas no âmbito das ciências sociais, esse foi e é o procedimento de Marx,
Weber, Durkheim, Bourdieu, Foucault, Boas, Mauss, Merton, Morin etc. etc. etc.
6.7.8. Resumindo
e um pouco repetindo o que se disse acima: a espiritualidade positiva, a partir
das noções de visão de conjunto, de vínculo entre o público e o privado e do
quadro cerebral, resume-se na subordinação
do egoísmo ao altruísmo
6.7.8.1.
O foco da espiritualidade positiva é a
Humanidade, que resume e corporifica todas as noções acima, além de diversas
outras
6.7.8.2.
A espiritualidade positiva é consagrada na sétima
ciência fundamental, a ciência da Moral, que também é entendida como a ciência
suprema, que coroa e resume todas as ciências anteriores e inferiores
6.7.8.2.1.
O objeto da ciência da Moral é o indivíduo, que é
estudado a partir de sua situação e sua condição social
6.7.8.2.2.
É importante lembrar que, se por um lado a ciência
da Moral é a ciência suprema e que ela consagra a espiritualidade positiva, por
outro lado a moralidade positiva baseia-se no caráter social do ser humano;
nesse sentido, a base da moralidade positiva é sociológica
6.7.9. A partir
da experiência histórica, seja espontânea, seja sistemática, das religiões
anteriores, o Positivismo adota e positiva uma série de instituições,
procedimentos, práticas:
6.7.9.1.
A incorporação do fetichismo à positividade, em
termos afetivos, intelectuais e práticos
6.7.9.2.
Os sacramentos positivos, em número de nove
6.7.9.3.
A oração positiva, os anjos da guarda
6.7.9.4.
As propostas de culto positivista feitas por
Richard Congreve e Raimundo Teixeira Mendes
7. Término
da prédica