No dia 6 de Aristóteles de 172 (3.3.2026) realizamos nossa prédica positiva, dando continuidade à leitura comentada do Apelo aos conservadores (em sua Segunda Parte - Conduta dos positivistas em relação aos retrógrados).
No sermão demos continuidade e terminamos as exposições sobre a Humanidade como deusa positiva.
A prédica foi transmitida nos canais Positivismo (https://youtube.com/live/pTwa3IJmRpU) e Igreja Positivista Virtual (https://www.facebook.com/IgrejaPositivistaVirtual/videos/1342189837931947/).
As anotações que serviram de base para a exposição encontram-se reproduzidas abaixo.
* * *
A Humanidade como deusa positiva, parte 2
(6 de Aristóteles de 172/3.3.2026)
1. Abertura da prédica
2. Datas e celebrações:
2.1. Dia 6 de Aristóteles (3 de março): transformação de Rosália Boyer (1837 – 189 anos)
2.2. Mês de Aristóteles: terceiro mês do ano, dedicado à filosofia antiga
3. Referência às Auguste Comte Memorial Lectures, sediadas na London School of Economics
3.1. Os comentários foram publicados previamente em https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2026/03/auguste-comte-memorial-lectures.html
3.2.
A famosa London School of Economics (LSE),
em seu Departamentode Filosofia, Lógica e Método Científico promove, de tempos em tempos,
palestras no âmbito das Auguste Comte Memorial Lectures (Palestras
em Memória de Augusto Comte).
3.3.
Como se pode ler
na página desses eventos, essas palestras foram criadas em 1930-1935 pelo Comitê
Positivista Inglês e incorporadas à LSE em 1949; de 1951 até meados dos anos
1980 ocorreram diversas palestras, sofrendo uma interrupção de algumas décadas
até serem retomadas em 2006.
3.4.
Os temas das
palestras nessas três fases (1930-1949; 1951-1980s; 2006-...) indicam com
clareza que, apesar de seu nome apresentar “Augusto Comte” e homenageá-lo, cada
vez menos elas têm qualquer vínculo com o Positivismo, com a Religião da
Humanidade e com Augusto Comte. Os autores que se apresentam no âmbito das Aug.
Comte Memorial Lectures claramente só usam o espaço institucional para
promoverem-se e divulgarem suas idéias; as referências ao Positivismo
são nulas (quando não francamente contrárias a ele, mesmo que de maneira
implícita).
3.5.
Muitas
conferências da segunda fase foram publicadas e tornaram-se famosas, mesmo com
o defeito de ignorarem ou combaterem o Positivismo, como na palestra inaugural,
proferida em 1951 pelo inimigo do Positivismo, o liberal Isaiah Berlin. Por
outro lado, autores simpáticos ao Positivismo e a Augusto Comte também
expuseram suas reflexões, como Raymond Aron, Ronald Fletcher e, até certo
ponto, Morris Ginsberg.
3.6.
Muitas das
palestras da segunda fase foram publicadas, mas de maneira bastante irregular;
com alguma dificuldade, é possível obtê-las em sebos na internet.
3.7.
As conferências
do atual ciclo, iniciado em 2006, não têm nenhum texto disponível - pelo menos,
o Departamento de Filosofia da LSE não faz a menor questão de publicá-los, em
nenhum formato (doc, txt, pdf etc.). O máximo que se pode obter são vídeos das
exposições, a respeito dos quais as pessoas interessadas são convidadas a
transcrever, caso tenham o interesse de lê-las em vez de ouvi-las.
4. Lamento pela guerra EUA/Israel x Irã, iniciada em 3 de Aristóteles de 172 (28.2.2026)
4.1. Nas próximas semanas faremos uma prédica dedicada a esse grave problema
5. Leitura comentada do Apelo aos conservadores
5.1. Antes de mais nada, devemos recordar algumas considerações sobre o Apelo:
5.1.1. O Apelo é um manifesto político e dirige-se não a quaisquer pessoas ou grupos, mas a um grupo específico: são os líderes políticos e industriais que tendem para a defesa da ordem (e que tendem para a defesa da ordem até mesmo devido à sua atuação como líderes políticos e industriais), mas que, ao mesmo tempo, reconhecem a necessidade do progresso (a começar pela república): são esses os “conservadores” a que Augusto Comte apela
5.1.2. O Apelo, portanto, adota uma linguagem e um formato adequados ao público a que se dirige
5.1.3. Empregamos a expressão “líderes industriais” no lugar de “líderes econômicos”, por ser mais específica e mais adequada ao Positivismo: a “sociedade industrial” não se refere às manufaturas, mas à atividade pacífica, construtiva, colaborativa, oposta à guerra
5.2. Outras observações:
5.2.1. Uma versão digitalizada da tradução brasileira desse livro, feita por Miguel Lemos e publicada em 1899, está disponível no Internet Archive: https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores
5.2.2. O capítulo em que estamos é a “Segunda Parte”, cujo subtítulo é “Conduta dos conservadores em relação aos retrógrados”
5.3. Passemos, então, à leitura comentada do Apelo aos conservadores!
6. Exortações
6.1. Sejamos altruístas!
6.2. Façamos orações!
6.3. Como Igreja Positivista Virtual, ministramos os sacramentos positivos a quem tem interesse
6.4. Para apoiar as atividades dos nossos canais e da Igreja Positivista Virtual: façam o Pix da Positividade! (Chave Pix: ApostoladoPositivista@gmail.com)
7. Sermão: a Humanidade como deusa positiva
7.1. Na prédica do dia 13 de Homero (10 de fevereiro) este sermão teve a sua primeira parte, com nosso amigo Hernani Gomes da Costa apresentando suas reflexões sobre o tema
7.1.1. Há alguns meses, para uma pesquisa universitária, nosso jovem correligionário Emerson propôs-nos – a nós e a Hernani – um questionário, em que uma das questões referia-se à eventual existência de alguma noção de “deus” no âmbito do Positivismo
7.1.2. Essa é uma questão interessante, que, apesar dos pesares, não é tão evidente quanto pode parecer à primeira vista
7.1.3. Assim, considerando sua importância, decidimos apresentar publicamente nossa resposta (que, de qualquer maneira, é pública por si só), assim como a do Hernani
7.2. Como a resposta do Hernani foi bastante longa, não expusemos na ocasião (ou seja, no dia 13 de Homero) a nossa própria resposta, deixando-a para um momento posterior
7.3. Passemos, então, à nossa resposta!
Pergunta:
Existe algum conceito semelhante ao conceito de Deus
– como entendido pelos cristãos – na Religião da Humanidade? E a Deusa da
Humanidade?
Resposta:
Parte
1 (resposta dada em 15 e 16 de Moisés de 172 (15-16.janeiro.2026)): resposta básica
à questão acima
As concepções teológicas de religião têm nas divindades um aspecto
central; não se trata aí de mera trivialidade, mas de algo que decorre tanto da
evolução do pensamento humano quanto das características próprias à teologia.
Por um lado, a forma mais espontânea de pensamento, ou melhor, de religião, é o
fetichismo, que atribui vida, vontade e pensamento a todos os corpos, animados
ou inanimados; assim, não somente os animais têm uma humanidade diferente como
também a apresentam os diversos outros corpos (plantas, pedras etc.). Essa
concepção, tão generosa e altruísta, também é absoluta, ou seja, faz questões
irrespondíveis e fornece respostas indiscutíveis. Da generosidade vitalista do
animismo passamos para o politeísmo, que mantém o absolutismo mas tira a vida
dos corpos, que, por sua vez, passam a ser animados exclusivamente por
entidades supraterrenas (os deuses). A retirada dos atributos da animação, da
vontade e dos sentimentos dos vários corpos, operada pelo politeísmo, por si só
torna o mundo “desencantado” (contra a tese de Weber, apesar da sua
exageradamente propalada erudição), embora tenha sido uma etapa necessária do
desenvolvimento humano em geral e, para o entendimento da realidade, tenha sido
necessária como etapa para o desenvolvimento do pensamento científico. Em todo
caso, os deuses politeístas correspondem a um processo de abstração no grande
esforço de entendimento do mundo, em que a apreciação dos corpos cede lugar
para a apreciação dos fenômenos – e, aí, os fenômenos continuam sendo
explicados pelo tipo humano, isto é, via antropocentrismo (como era no
fetichismo). Os deuses politeístas regularam o mundo durante séculos, seja
durante as teocracias antigas, com o politeísmo conservador, seja com as
rupturas guerreiras, dos politeísmos progressistas; para Augusto Comte, a
verdadeira teologia é politeísta, tanto devido à sua duração quanto devido à
coerência e aos serviços prestados por ela à Humanidade.
Os monoteísmos correspondem apenas à concentração dos atributos dos
antigos deuses em novas divindades, sem que tenha cessado de haver, de fato,
politeísmos (basta pensar nos anjos e nos santos): Augusto Comte fala
efetivamente em “concentração monoteísta”. Mas, enquanto as divindades
politeístas explicavam os fenômenos naturais e humanos sendo, elas mesmas,
apenas tipos humanos superlativos, as divindades monoteístas concentram em si
muitos atributos, rompendo totalmente os vínculos com o ser humano (na verdade,
com freqüência o desprezando, como disse de maneira muito clara e brutal Tomás
de Kempis n’A imitação de Cristo). A
dispersão politeísta mantinha divindades com comportamentos imorais e
irracionais, como as famosas transformações de Zeus em touro, cisne e chuva de
ouro para suas conquistas românticas; apesar disso, a coerência moral
fundamental desses tipos mantinha-se: por exemplo, os corruptos eram sempre
corruptos e só deixavam de sê-lo por meio de longos e árduos processos; em todo
caso, as limitações e os defeitos humanos eram vistos com honestidade nessas
divindades.
O mesmo não se dá com as divindades monoteístas, cujos atributos são
incoerentes entre si e irracionais e imorais em face da realidade e do ser
humano. As afirmadas onisciência, onibondade e onipotência são incoerentes
entre si: um ser todo poderoso não precisa da onisciência e, inversamente, a
onisciência não precisa da onipotência; a onibondade é incompatível com a
maldade e a injustiça do mundo e, portanto, é incompatível com a onisciência.
Dessa forma, no caso dos monoteísmos um traço do politeísmo torna-se muito mais
saliente: o caráter caprichoso, imaturo, adolescente da divindade, que faz o
que quer, do jeito que quer, quando quer, por que quer: o Antigo Testamento
(mas também o Novo Testamento e, claro, o Corão!) é a indicação gritante desses
caprichos imaturos. Uma divindade caprichosa e imatura não é nem onibondosa,
nem onisciente, embora possa ser, sempre, onipotente. Essas irracionalidades
imorais, que são chocantes para qualquer pessoa que reflita a respeito, são
ignoradas, por um lado, devido ao caráter absoluto dessas concepções, que
repele, por vezes de maneira agressiva, qualquer discussão séria a respeito e,
por outro lado, devido às necessidades sociais, que silenciam os
questionamentos.
Fiz essa digressão introdutória para indicar que o modelo católico de
divindade é muito restrito e enviesado; o entendimento da Humanidade a partir
dele acaba empobrecendo a verdadeira deusa.
No Catecismo positivista e
nas demais obras religiosas (Sistema de política positiva, Apelo aos conservadores, Síntese subjetiva e mesmo o Discurso sobre o conjunto do Positivismo) Augusto Comte fala na Humanidade como “nossa
deusa”. Mas esse conceito de deusa, como todas as demais noções do Positivismo,
não pode ser assimilado ao conceito teológico de divindade! As concepções teológicas são absolutas e, portanto,
indiscutíveis; elas formulam questões e oferecem respostas que a positividade
deixa de lado, abandona ou simplesmente rejeita; o conceito monoteísta de
divindade consiste em um ser caprichoso, incoerente e imoral: tudo isso é o oposto da Humanidade.
A Humanidade é o ser supremo; ela é “suprema” porque é superior a cada
ser humano individual e porque cada ser humano individual deve tudo, tudo, a
ela. Entretanto, a Humanidade deve ser entendida de maneira relativa, o que
significa que ela, sim, corresponde à bela descrição fornecida por Dante na Comédia: a Humanidade é “filha de seu filho”, ou
seja, para existir ela depende do ser humano, que, por sua vez, só existe
devido a ela. Trata-se, portanto, de um belo e impressionante círculo virtuoso.
Dessa forma, ela não é unitária, mas composta e, portanto, depende dos seres
humanos vivos para realizar-se, manter-se, desenvolver-se e exercer seus
efeitos. Sendo composta e dependente de seus filhos, ela não é onipotente, nem
onisciente, embora aproxime-se ao máximo da onibondade. Desenvolvendo-se ao
longo do tempo (conforme as três leis dos três estados[1]), ela é a verdadeira
providência humana, fornecendo-nos os sentimentos, as concepções e os materiais
com que vivemos e progredimos.
A Humanidade é o Grande Ser, é o Ser Supremo; ainda assim, ela não
existe no vácuo e não surgiu do nada. Vale notar que a Humanidade, sendo
composta pelos seres humanos, tendo uma realidade histórica, é tanto objetiva
quanto subjetiva, é tanto uma realidade concreta quanto uma idealização
abstrata (afetiva, intelectual e artística). Dito isso, respeitando e
recuperando o fetichismo inicial, a Humanidade estabelece o neofetichismo, ou
seja, o fetichismo positivado, sem o absolutismo inicial nem o culto aos
materiais. Com o neofetichismo, a Humanidade estabelece a Trindade Positiva,
que é composta pelo Grande Meio (o
Espaço, abstrato, infinitamente plástico, dotado de sentimentos, onde os
fenômenos abstratos e as leis naturais têm lugar), pelo Grande Fetiche (a Terra, com um caráter concreto, dotada
de sentimentos e atividade, abrangendo o Sol, a Lua e os planetas interiores,
bem como o planeta Terra em si, com sua base geológica, a fauna e a flora) e
pelo Grande Ser (a própria
Humanidade, dotada de sentimentos, atividade e inteligência, presidindo – mas
não de maneira voluntarista, caprichosa nem pretensamente onipotente ou
onisciente – a Trindade Positiva e com os atributos que estamos vendo). A noção
de Trindade Positiva completa a de Humanidade a partir do neofetichismo; com
ela as falhas intelectuais e morais do materialismo (que é uma forma de
metafísica) são ultrapassadas, sem que recaiamos nos vícios do misticismo (e/ou
da teologia em geral). Os benefícios e as qualidades da concepção de Trindade
Positiva são inúmeros, mas aqui nos limitamos a indicar que ela põe por terra a
tola, limitada e enviesada (pois teológica) concepção weberiana de “desencantamento
do mundo”.
A Humanidade, portanto, é uma deusa; mas é uma deusa porque é o ser
supremo, ou ser superior, que corresponde à nossa verdadeira providência e que,
por isso, é nosso objeto de culto, nossa orientação na vida e a fornecedora da
nossa moralidade. Tudo isso deve ser entendido com simpatia, com altruísmo e,
acima de tudo, com relativismo. Cumpre enfatizar: os aspectos intelectuais da
questão (o relativismo, mas, antes, também a realidade, a utilidade, a
organicidade[2])
têm que ser entendidos de maneira intimamente vinculada aos aspectos afetivos
(a simpatia, o altruísmo e mesmo a confiança e a esperança no ser humano); de
certa maneira, pode-se dizer que se trata de uma pequena mas necessária, salutar
e intencional ingenuidade.
Um último aspecto é o caráter feminino, necessariamente feminino, da
Humanidade. Contra a atual raivosa metafísica identitária do feminismo, o
caráter feminino da Humanidade é uma característica positiva, que cabe apenas
às mulheres, em contraposição aos homens. Além disso, a representação artística
da Humanidade tem que a indicar sempre com um filho recém-nascido no colo:
trata-se da Humanidade cuidando do futuro.
A partir de todos esses comentários, podemos finalmente responder à
questão formulada inicialmente: a deusa Humanidade tem alguma coisa a ver com a
divindade cristã? Não, nada. Dizer
que são semelhantes ou que a Humanidade é uma versão positivista da divindade
cristã porque são “seres supremos” é muito pouco – tão pouco que não quer dizer
nada. O que se deve notar e que procuramos caracterizar acima é que não se
trata de versão “positivista” (o que no presente caso consiste em uma
perspectiva bastante superficial e reducionista, na medida em que apenas insere
um rótulo em vez de considerar o conteúdo da noção), mas, considerando de
maneira cuidadosa e atenta o que foi dito acima, trata-se de um conceito
positivo e positivado das concepções teológicas, que foram nossas predecessoras necessárias.
Certamente a Humanidade inspirou-se e, do ponto de vista histórico, foi
preparada e precedida pela divindade cristã; mas, novamente, isso é muito
pouco; é como dizer que os contemporâneos carros elétricos foram precedidos
pelas carroças de boi e que, portanto, esses dois veículos são mais ou menos a
mesma coisa. Isso é importante de afirmar devido às confusões e às desinformações
não apenas dos teológicos (católicos, protestantes, evangélicos) mas também dos
metafísicos (liberais e ateus, sejam eles apenas ateus, sejam eles marxistas),
que fazem questão de desprezar a Humanidade a partir da ignorância, de uma
impressionante má fé e, claro, de comparações escandalosamente superficiais e
formalistas.
Parte
2 (resposta dada em 12 de Homero de 172/9.2.2026)): complemento à resposta inicial
No Discurso sobre o conjunto do
Positivismo vemos indicações claras e
importantes de alguns aspectos do que estamos comentando: o emprego das
expressões “Religião da Humanidade” e da Humanidade como “nossa deusa”. Nosso
mestre emprega essas expressões com desassombro, sem se preocupar em
justificá-las particularmente; aliás, até onde sei, nem mesmo Teixeira Mendes
ou Miguel Lemos preocuparam-se com isso. No Catecismo positivista percebemos o mesmo. Em face das reflexões
filosóficas, sociológicas e morais presentes nessas duas obras e em inúmeras
outras e considerando que a coerência é uma característica explícita (e implícita!)
do Positivismo, impõe-se a noção específica de “deusa positiva”, conforme
sugerimos explicitar aqui. Aliás, como nosso próprio mestre indica (Política, v. IV, Prefácio, p. XIII), a expressão “Religião
da Humanidade” foi sugerida antes de mais nada pelos proletários parisienses
que acompanhavam seu curso filosófico de história da Humanidade; esses
proletários, além disso, eram emancipados da teologia (seja espontaneamente,
por si sós, seja sistematicamente, a partir das lições do Positivismo). Essa indicação
é importante para evidenciar que a Religião da Humanidade foi uma inspiração
popular espontânea e não, ao contrário dos odiosos mitos academicistas, uma
divagação desordenada de nosso mestre.
Mas o que é a “deusa positiva”? Em face das
necessárias e reiteradas críticas de nosso mestre à teologia – críticas sempre
reafirmadas de maneira sistemática –, como é possível falarmos, sem
incoerência, em “deusa”? Além disso, como lidamos com o ateísmo?
Antes de mais nada, a Humanidade é nossa
deusa porque ela é ao mesmo tempo um ser superior e um objeto de adoração,
dois aspectos intimamente vinculados. A esse respeito, em primeiro lugar, temos
que lembrar que, embora a noção de Humanidade seja abstrata, ela em si mesma é
bastante real; aliás, a noção de Humanidade pode ser abstrata, mas sua
realidade implica sua concretude, sua existência “física”. Sua superioridade em
relação a cada um dos indivíduos e, bem vistas as coisas, sua superioridade em
relação às famílias e às pátrias é uma questão de fato, é uma realidade que se
evidencia quando se considera com clareza a existência sociológica e histórica
do ser humano. Não somos nada sozinhos; para sermos qualquer coisa precisamos
sempre e necessariamente dos outros. Até mais do que isso: como Augusto Comte
lembrava, a existência atual da Humanidade, no presente, submete-se à
existência ao longo da história, do passado e do futuro. Se não somos nada
sozinhos, precisamos ainda mais daqueles outros que vieram antes de nós,
incluindo todos aqueles que vieram décadas, séculos, milênios antes de nós, e
mesmo aqueles que virão depois de nós. É por isso que nosso mestre afirmava que
a lei fundamental da existência humana consiste em que os vivos são sempre e
cada vez mais, necessariamente, governados pelos mortos.
Nós vivemos pela Humanidade: recebemos tudo
dela e nossos esforços são sempre orientados em seu benefício (quer queiramos,
quer não queiramos); além disso, nossa felicidade está sempre vinculada ao
serviço e ao amor dedicado à Humanidade, isto é, ao altruísmo, à generosidade
etc. – serviço e amor prestado às nossas famílias, às nossas pátrias, aos
nossos concidadãos, aos nossos irmãos na Humanidade etc. Assim, a superioridade
da Humanidade é ao mesmo tempo dependente da nossa atividade (ativa e passiva),
em que se verifica o belo verso de Dante: ela é “filha de seu filho”.
A afirmação de que recebemos tudo da
Humanidade tem que ser entendida de maneira radical, pois incluímos aí não
somente alimentos, conhecimentos, família etc., mas também pertencimento e
destinação: tudo isso é o que constitui, no final das contas, a felicidade. A
superioridade da Humanidade não é nem uma existência alheia a cada um de nós,
que no final das contas desprezar-nos-ia, nem uma existência que se impõe sobre
nós de maneira opressiva: ela impõe-se sobre nós e exige nossa dedicação; mas,
inversamente, tal dedicação precisa ser voluntária, a fim de garantir-se a
dignidade, a felicidade e mesmo a eficácia das ações.
Em face dessas características, a adoração
devida à Humanidade não é mística, não é um incoerente retorno a alguma forma
de teologia: essa adoração é pura e simplesmente a gratidão que reconhecemos e
devemos à Humanidade. A devoção é um traço comum aos seres humanos; ele implica
o reconhecimento simultâneo (1) de que cada um de nós não vive e não existe
sozinho, (2) de que existe efetivamente um ser superior a nós, a que devemos
gratidão, (3) de que somos extremamente imperfeitos e que a base de qualquer
aperfeiçoamento é sempre a submissão. Exceto as pessoas anormalmente egoístas,
todos e cada um de nós submete-se aos outros, especialmente em termos
subjetivos, ou seja, aos que já morreram e/ou aos que são fracos e precisam de
nossa ajuda. Mais uma vez: nesses termos, a devoção à Humanidade não tem nada
de excepcional; ela só parece estranha (1) porque de modo geral se considera
que apenas as divindades teológicas merecem devoção e (2) porque os hábitos
mentais materialistas e ateus consideram que a devoção é um sinal de
ignorância, de fanatismo e/ou de espírito de manada –, (3) porque se considera
que o Positivismo seria meramente um cientificismo e (4) porque a mentalidade
academicista é profundamente hipócrita a respeito (ao enaltecer as ficções
teológicas, mas desprezar a elaboração positiva).
A noção de “deusa positiva”, assim, surge
com clareza, como um exemplo adicional de positivação de conceitos, da mesma
forma que o ocorrido com “religião”, “culto”, “dogma” e “sermão”. A confusão
com as divindades teológicas tem, portanto, um aspecto puramente terminológico,
ainda que isso se fundamente em profundas diferenças filosóficas, morais,
históricas e científicas. Contudo, há um outro aspecto que podemos explorar: o caráter
ficcional das divindades teológicas.
A realidade da Humanidade é um seu traço
fundamental. Só isso já bastaria para distingui-la das divindades teológicas,
que são fictícias. Ocorre que, à medida que se desenvolviam as reflexões de
nosso mestre sobre realidade, utilidade e relativismo das nossas concepções –
incluindo aí mesmo as concepções artísticas e científicas –, ele percebeu que
as idéias podem ser úteis – em termos morais, intelectuais, práticos – mesmo
quando elas não se referem rigorosamente à realidade. As ficções teológicas são
um exemplo perfeito disso: elas são ficções, mas durante séculos, ou melhor, durante
milênios elas tiveram uma alta eficácia. Com mais forte razão podemos dizer o
mesmo a respeito de concepções estéticas e científicas: as leis naturais são
sempre abstrações aproximativas, que correspondem mais ou menos bem à realidade
mas que, de qualquer maneira, baseiam-se nas sensações humanas e correspondem
às necessidades humanas (ou seja, elas são relativas). As elaborações
estéticas, por seu turno, são assumidamente ficcionais; ou melhor, de modo
geral nem se põe em questão sua “realidade”: mas, ainda assim, como todos
sabemos, elas são extrema e profundamente eficazes.
Disso tudo resulta que podemos elaborar
ficções cuja utilidade é o mais importante, em termos afetivos, intelectuais e
práticos; a fim de que tais ficções não descambem para o absoluto, elas devem
seguir as leis naturais ou, pelo menos, não podem ser incompatíveis com as leis
naturais. Essas ficções foram denominadas por Augusto Comte de “ficções
científicas”: ao contrário do gênero literário e cinematográfico que, apresentando
meramente ficções ultratecnológicas e futuristas equivocamente chamadas de
ficções científicas, a proposta de Augusto Comte corresponde a elaborações que,
não necessariamente correspondendo à exata realidade, a partir do relativismo e
da síntese subjetiva são ainda assim instrumentos de profunda utilidade para
nossa existência. A bem da verdade, em toda a sua obra nosso mestre empregou as
ficções científicas; a inovação característica de sua fase final, presente na Síntese
subjetiva, corresponde ao reconhecimento
explícito, à sistematização e à radical generalização desse procedimento.
Em face das ficções científicas, como lidar
não com a deusa positiva, que é a Humanidade, mas com as divindades teológicas?
Ora, as ficções teológicas são absolutas, ou seja, não positivas: ainda que sua
utilidade passada seja indiscutível, a par de seu absolutismo seus atributos
são irracionais e incompatíveis com as leis naturais e, portanto, elas são
inaceitáveis para o ser humano, ou melhor, para a Humanidade.
O último aspecto que devemos considerar é a
respeito do materialismo e do ateísmo. Na verdade, devemos tratar do ateísmo
como decorrência da questão que ora respondemos, a respeito da noção da
Humanidade como deusa. Em uma perspectiva formalista, poderíamos dizer que o Positivismo
não é ateu porque a Humanidade é uma “deusa” (positiva). Essa perspectiva,
entretanto, tem o grave defeito de ser superficial e meramente lingüística,
deixando de lado todas as reflexões que fizemos acima. De fato, o Positivismo
não é ateu, mas não porque a Humanidade é a nossa deusa; nós não somos ateus
devido às características próprias ao ateísmo.
O ateísmo, de maneira muito intensa, é uma
postura essencialmente negativa, ou melhor, negadora; sua principal preocupação
é negar as divindades. (Aliás, sua negação dirige-se contra as divindades
teológicas, mas, como veremos, com facilidade e quase de maneira contínua ele
dirige-se contra o Positivismo.) Sua definição etimológica é bastante
apropriada: ele afirma o “não-deus”. As incoerências, os erros, a falta de
realismo, bem como as imoralidades próprias às concepções teológicas: tudo isso
mais que justifica o impulso negador do ateísmo. Entretanto, essa negação
sistemática, se por um lado de maneira correta estabelece o caráter plenamente
ficcional da teologia, ela também com freqüência ignora os serviços históricos
desempenhados por essas divindades, da mesma forma que, antes, ignora os traços
morais e intelectuais da natureza humana que conduziram ao longo do tempo à
elaboração de tais ficções. Além disso, afirmando a razão individual contra a
sabedoria coletiva, o ateísmo com freqüência ainda maior consagra o
individualismo, seja na sua forma intelectual (do solipsismo), seja na sua
modalidade moral, do egoísmo. Em outras palavras, a negação atéia é
anti-histórica, antissociológica e, por assim dizer, “antimoral”.
Esses vários defeitos científicos e morais
são bastante graves por si sós, mas eles não esgotam o problema. Embora o
ateísmo consista na negação da teologia, ele mantém-se na órbita moral e
intelectual da teologia, de tal sorte que ele reduz-se à mera negação
sistemática, sem procurar ultrapassar a teologia. A permanência na órbita
teológica consiste em o ateísmo manter-se no âmbito do absolutismo e em
rejeitar o relativismo, de tal sorte que mantém as perguntas absolutas – de
onde viemos, para onde vamos, qual a natureza do ser? –, mas rejeitando as
únicas soluções que tais perguntas realmente aceitam. Se o ateísmo não fosse
apenas mera negação da teologia, ele assumiria que a rejeição da teologia é um
passo necessário, mas totalmente insuficiente e, a partir daí, seguiria em
direção à afirmação do ser humano e do relativismo, ou seja, do humanismo, da
positividade... em outras palavras, do Positivismo e da Religião da Humanidade.
Dito de outra forma, o Positivismo consiste na sistematização do movimento que
ultrapassa a negação atéia, ao passo que o ateísmo é a perspectiva e o
comportamento que se aferram, infantilmente, à negação da teologia.
Não é difícil vermos exemplos cotidianos desse
empacamento próprio ao ateísmo. Como se sabe, os Estados Unidos são um país
profundamente cristão: lá, de maneira característica, a negação da teologia,
seja ela atéia, seja ela (assumidamente) teológica, resulta sempre na
reafirmação da própria teologia. O romancista russo do século XIX, Dostoiévski,
dizia que “se deus não existe, tudo é permitido”: essa frase, que embora seja
em si mesma teológica, resume de maneira bastante clara a mentalidade na qual
se mantém o ateísmo, ao manter como referência de reflexão a teologia. O
humanismo positivista, em contraposição, afirma que “extinto deus, e os deuses,
sucedem-lhe a Humanidade” (a frase original está em latim, mas não a localizei
para este comentário).
O último aspecto que, pelo menos para esta
resposta, devemos indicar a respeito do ateísmo é sua vinculação com o
materialismo. Vincular o ateísmo ao materialismo já sugere que este último
também se mantém no âmbito do absolutismo; aliás, não por acaso ele é uma forma
de metafísica, a metafísica reducionista, que afirma que todos os fenômenos
superiores são sempre e necessariamente redutíveis aos inferiores. Na medida em
que o ateísmo nega a teologia, o materialismo é uma perspectiva natural e
necessária; da mesma forma, ele é natural e necessário na constituição das
várias ciências fundamentais. A metafísica em si mesma é uma etapa natural no
desenvolvimento humano; doisde seus defeitos, próprios aliás ao seu caráter absoluto, consistem em (1) raciocinar
a partir das exceções (ou seja, negar toda regra e/ou generalizar a partir de
casos particulares) e em (2) pretender que soluções temporárias podem e devem
ser permanentes. Assim, o ateísmo é pura negação da teologia, sem avançar para
o humanismo; já o materialismo é reducionista, seja para afirmar o naturalismo
antiteológico, seja para negar a particularidade de cada ciência fundamental.
Afirmamos antes que o ateísmo, mantendo-se negador da teologia, logo estende
seu negativismo para o Positivismo e para a Religião da Humanidade, negando sua
validade, sua legitimidade, sua utilidade: essa negação também se baseia no
materialismo, que rejeita a realidade histórica, sociológica e moral do ser
humano.
7.4. Os comentários acima terminaram de maneira um tanto súbita porque foram a resposta para uma das perguntas de um questionário escrito
7.5. Devemos notar, de qualquer maneira, que nossas respostas diferem em vários aspectos daquela fornecida por nosso amigo Hernani em suaexposição do dia 13 de Homero de 172 (10.2.2026) porque, sendo pessoas diferentes, temos sensibilidades diferentes: mas as diferenças entre as respostas correspondem apenas a diferenças de sensibilidade; no grosso essas respostas são necessariamente convergentes e complementares
7.5.1. De modo específico, importa recuperarmos uma observação feita por Hernani: a Humanidade como deusa positiva não é “como se fosse uma deusa”: ela é efetivamente uma divindade positiva; o que se deve ter em mente, de maneira radical, é que a concepção dessa divindade é uma concepção positiva, relativista, humanista e não uma concepção absoluta, teológica, supraterrena, mística
8. Término da prédica
Referências
- Auguste Comte (franc.), Síntese subjetiva (Paris, Exécution Téstamentaire d’Auguste Comte, 2ª ed., 1900): https://archive.org/details/lasynthsesubjec00comtgoog.
- Augusto Comte (franc.), Discurso sobre o conjunto do Positivismo, in: Sistema de política positiva (Paris. J.-B. Baillière, 4ª ed., 1880): https://archive.org/details/systmedepoliti01comt.
- Augusto Comte (franc.), Sistema de filosofia positiva (Paris, Société Positiviste, 5e ed., 1893).
- Augusto Comte (port.), Apelo aos conservadores (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores.
- Augusto Comte (port.), Catecismo positivista (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 4ª ed., 1934).
- Luís Lagarrigue (esp.), A poesia positivista (Santiago do Chile, 1890): https://archive.org/details/luis-lagarrigue-a-poesia-positivista-1890_202509.
- Raimundo Teixeira Mendes (port.), As últimas concepções de Augusto Comte (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-i e https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-ii.
- Raimundo Teixeira Mendes (port.), O ano sem par (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1900): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-o-ano-sem-par-portug._202312/page/n7/mode/2up.
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Questionário enviado pelo Emerson
1) Fale-me sobre você, onde nasceu, onde vive atualmente, sua formação e profissão etc.
2) Como você conheceu a Religião da Humanidade?
3) Como é sua relação diária com a religião? Existe culto privado e/ou público?
4) Existe algum conceito semelhante ao conceito de Deus – como entendido pelos cristãos – na Religião da Humanidade? E a Deusa da Humanidade?
5) Os positivistas oram? Por que e por quem os positivistas oram?
6) O que acontece quando um positivista morre? Existe reencarnação, céu e inferno?
7) Como funciona o casamento na Religião da Humanidade?
8) O proselitismo é bem visto na Religião da Humanidade?
9) Aprendemos nas escolas que o Positivismo foi muito influente no início da República brasileira. Qual é a maior contribuição do Positivismo para o Brasil?
10) Que mensagem você gostaria de deixar para aqueles que não conhecem a Religião da Humanidade?
[1] Os manuais vulgares de filosofia, sociologia e história costumam registrar a respeito do Positivismo apenas a lei dos três estados – e, na verdade, apenas a lei intelectual dos três estados. As três leis, uma para cada aspecto da natureza humana (afetivo, intelectual e prático), são estas (cf. Augusto Comte, Catecismo positivista, 4ª ed., Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1934, p. 479 – https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2025/08/o-inicio-do-positivismo-as-tres-leis.html):
- lei intelectual: toda concepção passa por três estados sucessivos, teológico, metafísico e positivo, com uma velocidade proporcional à generalidade dos fenômenos correspondentes
- lei prática: a atividade humana é sucessivamente militar conquistadora, depois militar defensiva e por fim pacífico-industrial
- lei afetiva: a sociabilidade humana é sucessivamente doméstica, depois cívica e enfim universal, seguindo a natureza de cada um dos três instintos simpáticos [veneração, apego e bondade].
À lei intelectual ajunta-se a lei da
classificação das ciências, que é tanto uma aplicação específica da lei
intelectual quanto uma exposição geral e abstrata dos fenômenos do mundo, bem
como da ordem de subordinação (objetiva e subjetiva) dos fenômenos entre si.
[2] No Apelo aos conservadores (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1899, p. 25 –https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores), Augusto Comte define a palavra “positivo” com sete atributos: real, útil, certo, preciso, relativo, orgânico e simpático.

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