Na celebração, como forma de homenagear a Humanidade e
inspirar os seres humanos, sugerimos três coisas:
- substituir a raiva, esse sentimento tão disseminado atualmente e que consiste na violência estimulando o instinto destruidor, por algum outro, diretamente atruísta e construtivo: nossa proposta, na falta de melhor opção atual, é o lamento;
- ao contrário do que os teológicos e os metafísicos afirmam, deixar para trás as noções das divindades não joga o ser humano em uma solidão cósmica: a Humanidade fornece apoio, companhia, conforto permanentes, não somente objetivamente e com seres humanos, mas acima de tudo subjetivamente e com os animais, as plantas e com o planeta Terra de modo geral;
- a Humanidade fornece esperança - e, bem vistas as coisas, a Humanidade é o único ser que pode, realmente, satisfazer as nossas esperanças.
A celebração foi transmitida nos canais Positivismo
(https://youtu.be/sjHUhE3Ftg4?si=jONvWUCk6KXzvc5d) e Igreja Positivista Virtual (Facebook.com/IgrejaPositivistaVirtual/888302053642657).
Festa da Humanidade
(1º de Moisés de 172/1º de janeiro de 2026)
1. Abertura
2. Retomaremos hoje algumas observações que fizemos ontem, quando realizamos a celebração da Festa Universal dos Mortos
3. Antes de mais nada, um lembrete e um aviso necessário: a celebração de hoje não é uma prédica, mas é um momento puramente cultual
3.1. Assim, embora sempre estimulemos a participação ao vivo, hoje isso não será possível, pois não é adequada
4. No dia de hoje realizamos a celebração anual da festa de todos os seres humanos convergentes, a Festa da Humanidade, que é a mais importante do ano
5. O calendário não tem por função apenas – na verdade, nem prioritariamente – regular a passagem do tempo, mas regular os cultos religiosos; assim, todos os dias podem e devem ser consagrados a alguma coisa e faz todo o sentido que o dia que inicia o ano seja dedicado à mais importante das celebrações
5.1. Essa celebração integra ao mesmo tempo um ciclo e um desenvolvimento contínuo
5.1.1. Na verdade, a realidade humana é ao mesmo tempo cíclica e cambiante ao longo do tempo
5.2. Reconhecer esse duplo caráter não é fácil; mais uma vez: isso gera dificuldades para cada um de nós no dia a dia e mesmo os intelectuais têm grandes problemas para entendê-lo
5.3. Na verdade, esse duplo aspecto integra a realidade cósmica:
5.3.1. Há fenômenos que se repetem ao longo do tempo: de modo específico e exemplar, os fenômenos astronômicos (os dias, as fases da Lua, os anos, as estações)
5.3.2. Da mesma forma há fenômenos que se desenvolvem ao longo do tempo: de maneira muito clara, aqueles que se acumulam com o tempo, ou seja, as questões históricas (o desenvolvimento da Terra, as mudanças biológicas, a história humana propriamente dita, o desenvolvimento individual)
5.4. O caráter ao mesmo tempo cíclico e evolutivo da realidade e, por extensão, do ser humano, é consagrado pelo Positivismo nas noções de “Estática” e “Dinâmica” e, considerando a filosofia política, na fórmula “Ordem e Progresso”
5.5. O desenvolvimento histórico ocorre ao longo do tempo, sendo marcado ao mesmo tempo e necessariamente pelos aspectos cíclicos: daí a necessidade imperiosa de, ao longo de nossas vidas e de nossas histórias, celebrarmos periodicamente alguns valores e algumas concepções – na data da hoje, a Festa da Humanidade
6. Afirmamos e repetimos hoje que a Festa da Humanidade é a mais importante comemoração do ano: ela celebra o verdadeiro Grão-Ser, ao qual dedicamos e devemos nossas vidas
6.1. Há muito para falar sobre a Humanidade; em certo sentido, tudo pode e deve ser dito a seu respeito, na medida em que ela resume todos os conhecimentos e, antes, todos os sentimentos e todas as ações humanas
6.2. Ontem, ao encerrar o ano anterior na Festa Universal dos Mortos, lembramos a subjetividade e demos um pouco de ênfase à gratidão: hoje, ao falarmos da Humanidade, queremos comentar como o lamento é mais altruísta que a raiva e que a Humanidade dá-nos acolhimento e esperança
6.3. Mas, para isso, temos que nos lembrar de qual a noção de Humanidade
7. Nosso mestre é muito claro no Catecismo positivista, no qual dedica um capítulo (a segunda conferência) à noção de Humanidade (Catecismo, 2ª Conferência, p. 72-74):
O SACERDOTE — Para o conseguirdes [uma noção
mais clara da Humanidade], deveis, minha filha, definir em primeiro lugar a
humanidade como o conjunto dos seres
humanos, passados, futuros e presentes. Esta palavra conjunto indica-vos bastante que não se deve
compreender aí todos os homens, mas só aqueles que são realmente assimiláveis,
por efeito de uma verdadeira cooperação na existência comum. Posto que todos
nasçam necessariamente filhos da humanidade, nem todos se tornam seus
servidores, e muitos permanecem no estado parasitário, que só foi desculpável
durante a sua educação. Os tempos anárquicos fazem sobretudo pulular, e
demasiadas vezes florescer, esses tristes fardos do verdadeiro Grande Ser. [...]
Vedes assim que, a este como a qualquer
outro respeito, a inspiração poética antecedeu muito a sistematização
filosófica. Seja como for, se esses parasitas não fazem realmente parte da
humanidade, uma justa compensação vos prescreve de agregardes ao novo Ente
Supremo todos os seus dignos auxiliares animais. Toda útil cooperação habitual
nos destinos humanos, quando exercida voluntariamente, erige o ser
correspondente em elemento real dessa existência composta, com um grau de
importância proporcional à dignidade da espécie e à eficácia do indivíduo. Para
avaliar este complemento indispensável, basta imaginar que ele nos falta.
Ninguém hesitará, então, em considerar tais cavalos, cães, bois, etc., como
mais estimáveis que certos homens.
Nesta primeira concepção do concurso humano,
a atenção volta-se naturalmente para a solidariedade, de preferência à
continuidade. Mas, conquanto esta seja a princípio menos sentida, por exigir um
exame mais profundo, é a noção dela que deve finalmente prevalecer, porquanto o
surto social pouco tarda em depender mais do tempo que do espaço. Não é só hoje
que cada homem, esforçando-se por apreciar o que deve aos outros, reconhece uma
participação muito maior no conjunto de seus predecessores do que no de seus
contemporâneos. Semelhante superioridade manifesta-se em menores proporções nas
épocas mais remotas, como o indica o culto comovente que sempre nesses tempos
se rendeu aos mortos [...].
Assim, a verdadeira sociabilidade consiste mais na continuidade sucessiva do que na solidariedade atual. Os vivos são sempre, e cada vez mais, governados necessariamente pelos mortos: tal é a lei fundamental da ordem humana.
7.1. Resumindo de maneira muito grosseira as observações acima, podemos entender a Humanidade como o conjunto dos seres humanos convergentes passados, futuros e presentes, em que há uma realidade subjetiva (os seres humanos mortos e os ainda não nascidos) e uma realidade objetiva (os seres humanos atualmente vivos), em que a continuidade histórica subjetiva é mais importante e relevante que a solidariedade objetiva; além disso, o aspecto de “convergência” refere-se às ações altruístas, construtivas, relativistas etc. É importante indicar que os animais úteis incluem-se na Humanidade e, por vezes, merecem mais essa inclusão que muitos seres humanos
7.1.1. Na medida em que é objetiva e subjetiva, a Humanidade é também um ser abstrato e concreto: ela existe realmente, ela atua de verdade, mas sua existência e sua atividade dependem dos seres humanos concretos, vivos; sua existência e sua atividade tornam-se mais claras em termos subjetivos, isto é, abstratos, quando examinamos essa atuação ao longo do tempo
7.1.2. A idéia de um grande ser que se desenvolve ao longo do tempo e que, ao mesmo tempo, atualiza-se e realiza-se apenas por meio dos seres humanos vivos – uma deusa real que “é filha de seu filho” – exige, necessariamente, um conceito claro e, mais ainda, uma representação física: é por isso que a Humanidade tem um conceito claro e uma imagem igualmente clara
7.1.3. A Humanidade não são as ficções teológicas (politeístas, monoteístas, panteístas, deístas), nem são as abstrações metafísicas (“Natureza”, “Povo”, “Sociedade”, “Raça”, “Classe”, “Patriarcado”), nem é um ser sem rosto e sem forma: a Humanidade é uma deusa verdadeira, real, que existe concretamente mas que depende de seus filhos para manter-se e desenvolver-se; ela não é puramente abstrata, suas qualidades não são atributos arbitrários necessariamente impossíveis de serem verificados e provados; inversamente, ela não é uma abstração genérica sem sede, sem agentes, sem nome, sem representação física; por fim, a Humanidade, ao idealizar todos os nossos melhores traços (a começar pelos nossos aspectos morais), é representada necessariamente por u’a mulher para englobar todos os seres humanos
7.2. A noção de Humanidade não se esgota nessas características que apresentamos; daqui a pouco veremos outras características tão importantes quanto belas; mas, de qualquer maneira, é importante lembrarmos que a Humanidade realiza os atributos da positividade, da mesma forma que ela constitui o clímax de cada uma das leis dos três estados:
7.2.1. A partir da positividade, a Humanidade é real, útil, certa, precisa, relativa, orgânica e simpática
7.2.2. A partir das leis dos três estados, a Humanidade (1) é positiva (ou seja, é relativa); (2) é pacífica, construtiva, convergente; (3) é universal, tanto no espaço quanto, principalmente, no tempo, nas concepções filosóficas e na fraternidade
8. A noção de Humanidade orienta-nos claramente para o altruísmo, para o amor e para a paz; mas a nossa época é cada vez mais caracterizada pelas denúncias de crimes, de injustiças, de violências: em tal situação, a resposta mais comum – e é a mais comum porque é a mais difundida e é a mais estimulada – é a raiva em face de tais problemas
8.1. Ora, como lidar com isso? Isto é, como lidar com a raiva?
8.2. Em face das injustiças, é muito comum que as crescentes quantidade e intensidade das denúncias contra elas conduzam a um pessimismo generalizado em relação ao ser humano, resultando em que se considera que o ser humano “não prestaria”, ou que as coisas “não teriam salvação” etc.
8.2.1. Em outras palavras, embora nominalmente busquem a melhoria das condições humanas, o fato é que a quantidade e a intensidade das denúncias conduzem, contraditoriamente, à desesperança, o que não faz o menor sentido
8.2.2. O que está em questão aqui, evidentemente, não são as denúncias por si sós: o problema consiste em ficar apenas nas denúncias e não se preocupar com as soluções, pois isso por um lado estimula o pessimismo e, por outro lado, afasta a busca de concepções gerais (logo, de soluções gerais)
8.3. Associada às denúncias contra as injustiças e resultado direto dessas denúncias, temos o sentimento da raiva, que, segundo a lógica afetiva, torna-se por sua vez o móvel de novas denúncias (bem entendido: denúncias desesperançadas)
8.3.1. Mas a raiva, por mais poderosa que seja – e todos sabemos como ela de fato é poderosa – consiste apenas em uma reação violenta e destruidora em face de alguma situação que consideramos ruim ou problemática; em outras palavras, a raiva é uma reação profunda e violenta do instinto destruidor
8.4. A raiva e o pessimismo com freqüência andam de mãos dadas e retroalimentam-se, da mesma forma que eles afastam a serenidade e a esperança; aliás, a raiva, em particular, sendo a manifestação (1) violenta do (2) instinto egoísta destruidor, afasta também o altruísmo e o amor
9. O que propomos aqui é que, em vez de estimularmos e promovermos a raiva, em vez de propormos a raiva como o sentimento fundamental ante situações que julgamos ruins, degradantes, injustas etc., procuremos sentimentos que sejam ao mesmo tempo diretamente altruístas e que reconheçam o aspecto problemático das situações que denunciamos
9.1. Neste momento, propomos então o lamento no lugar da raiva
9.1.1. Eu sugiro aqui o lamento porque é o sentimento que me vem à mente agora; entretanto, tenho clareza de que ele tem, ou pode ter, um déficit de energia e que, portanto, talvez outro sentimento seja mais adequado para ser proposto: estou ansiosamente aberto a sugestões
9.2. É certo que a raiva conduz-nos diretamente para a ação, ou seja, tem um aspecto ativo muito evidente, ao passo que o lamento tem um aspecto mais passivo; isso nos parece realmente uma dificuldade, ainda que não seja uma dificuldade insuperável
9.3. Mas, de qualquer maneira, a questão que nos parece central aqui é que, embora seja extremamente ativa, o ativismo próprio à raiva não compensa a violência que ela mobiliza, nem a destruição que ela busca realizar; em outras palavras, os aspectos negativos da raiva superam muito os seus aspectos positivos
9.4. Mantendo o lamento como uma sugestão (portanto, com um caráter provisório), o fato é que o lamento reconhece as injustiças, os problemas, as situações degradantes, mas não conduz à violência nem nos submerge no egoísmo destruidor: o lamento é o altruísmo mantendo-se altruísta e reconhecendo uma situação injusta e que deve mudar
9.5. O lamento apresenta um outro aspecto importante, ao rejeitar a violência e a destruição: ele mantém a esperança – a esperança de que as coisas podem melhorar e a esperança de que as coisas têm condições reais de melhorarem
9.6. A substituição da raiva como sentimento padrão em face dos problemas que vivemos por sentimentos realmente altruístas não é algo secundário: na verdade, é uma necessidade urgente, em vista do altruísmo, da paz, da fraternidade, da esperança
10. Falamos em esperança: a única verdadeira esperança que podemos ter é a dada pela Humanidade
10.1. A Humanidade dá-nos esperança de múltiplas formas:
10.1.1. Ao ser a única e verdadeira providência humana, ou seja, o único e verdadeiro ser que realiza as coisas e que, portanto, é capaz de melhorar as coisas
10.1.2. Ao definir-se pelo altruísmo, pela paz, pela fraternidade, pela realidade e pela utilidade, ou seja, ao dispor dos meios e dos sentimentos capazes de melhorar as coisas
10.1.3. Ao afirmar sempre, com clareza, que os melhoramentos são sempre, antes de mais nada, melhoramentos morais, depois intelectuais e somente por fim melhoramentos materiais/físicos (ou seja, melhoramentos do amor, da ordem e do progresso)
10.1.4. Ao evidenciar que, por mais problemática que com freqüência seja a existência humana, o progresso ocorre de verdade e que, ao longo do tempo, nossos antepassados legaram-nos melhoramentos efetivos, que podem e devem ser agora e sempre utilizados, aprofundados e ampliados
10.2. A metafísica dissolvente, o pessimismo próprio ao denuncismo incessante, a violência destruidora própria à raiva – tudo isso converge de maneira tão intensa no mundo atual que mesmo pessoas que se dizem positivistas, ou que estão na órbita do Positivismo, muitas vezes repetem esse pessimismo e são incapazes de entender e de sentir a efetividade da esperança dada pela Humanidade
11. Se falamos da esperança no sentido de correção de injustiças, a Humanidade também nos dá esperança em outro sentido: não vivemos sozinhos no mundo
11.1. O espírito metafísico, sendo a negação da teologia, considera que a existência humana começa e termina ao tratar das divindades; da mesma forma, a metafísica, ao negar os deuses, consegue apenas afirmar o individualismo egoísta e/ou afirmar uma “solidão cósmica”
11.1.1. Só o fato de limitar-se à teologia evidencia o quanto a metafísica é restrita e superficial; entretanto, infelizmente, como já indicamos em muitas vezes anteriores, a nossa época é profundamente metafísica (em particular devido à influência daninha dos Estados Unidos e, de modo geral, dos protestantismos), de modo que a crítica à teologia mantém como resultados o individualismo, a anarquia e/ou a “solidão cósmica”
11.1.2. Essas três conclusões metafísicas da crítica à teologia (individualismo, anarquia, solidão cósmica), que não esgotam as possibilidades metafísicas, são bastante claras nos ambientes anglossaxões, como Nietzsche e Max Weber exemplificam de maneira gritante (o que, aliás, é mais que motivo para deixar-se de lado tais autores)
12. Afirmamos há pouco que a noção de Humanidade é esperançosa: como dissemos, não se trata apenas da esperança de melhorias, mas de esperança também no sentido de conforto, ou melhor, de acolhimento; em outras palavras, com a Humanidade os vícios morais, intelectuais e práticos decorrentes da metafísica não se verificam
12.1. Sem nos determos nos vícios do individualismo e da anarquia, podemos perguntar com clareza: como é possível falarmos em “solidão cósmica”, em “isolamento”, em falta de apoio, quando, na, pela e com a Humanidade todos nós vivemos em meio aos outros seres humanos, que nos dão apoio, conforto, estímulo? Como podemos com sinceridade falar em “solidão” quando vivemos cercados da memória constante dos mortos?
12.2. O sentido positivo da religião já deixa claro que não somos nunca sozinhos, mesmo que estejamos eventualmente isolados: a religião é o religare, é o “religar”, é o ligar duas vezes – ligar-nos internamente pelo amor, ligar-nos externamente pela fé
12.3. A Humanidade, como vimos antes, é acima de tudo os mortos e quem ainda não nasceu; assim, a Humanidade é acima de tudo subjetiva: como é possível estarmos subjetivamente sozinhos, em solidão, se subjetivamente estamos cercados de fraternidade, de apoio, de afeto?
12.3.1. Nesse sentido, por exemplo, a oração positiva é um instrumento poderosíssimo para relacionar-nos uns aos outros: os nossos anjos da guarda estão sempre conosco, enriquecendo, aquecendo e melhorando nossas vidas
12.4. Mas a Humanidade não é somente os seres humanos: ela incorpora necessariamente também os animais úteis, muitos dos quais se sacrificam por nós, além dos animais domésticos: quem pode dizer, com sinceridade, que o seu cão de estimação, ou seu gato, ou seu papagaio, ou até seu cavalo ou porco, não faz parte da família? Apenas de maneira arbitrária, cruel e irracional rompem-se os vínculos que ligam o ser humano ao conjunto dos seres vivos; apenas de maneira arbitrária, cruel e irracional os teológicos, mas também muitos metafísicos, afirmam que só o ser humano é “racional”, é “verdadeiramente sociável”, que o planeta Terra é para usufruto exclusivo dos humanos
12.5. A Humanidade, na generosa e genial elaboração de nosso mestre, amplia-se radicalmente, ao estabelecer o neofetichismo, no qual a síntese inicial é incorporada à síntese final
12.5.1. Com o neofetichismo foi possível a nosso mestre estabelecer a Trindade Positiva, ultrapassando de maneira radical os desrespeitos teológico-metafísicos pelo planeta e por nossa existência; com a Trindade Positiva, o ser humano finalmente voltou a viver em um ambiente terno, aconchegante, afetivo, no qual a luta pela existência, embora ainda exista, torna-se subjetivamente menos dura e, ao mesmo tempo, mais recompensadora
12.5.2. A Trindade Positiva é composta pelas seguintes entidades: o Grão-Meio, o Espaço, que é apenas afetivo e no qual têm lugar os fenômenos naturais abstratos; o Grão-Fetiche, a Terra, caracterizada pelos sentimentos e pela atividade, mas não pela inteligência, na qual nossas existências têm lugar e ao qual devemos diversos cultos; por fim e acima de tudo, o Grão-Ser, a Humanidade, dotada de sentimentos, atividade e inteligência, capaz de orientar sua ação com vistas à melhoria da realidade
13. Na Festa da Humanidade, em meio a tantas possíveis homenagens e reflexões, creio que as duas que apresentei – o abandono da raiva como sentimento-padrão e a afirmação do caráter aconchegante do Grande Ser – permitem entendermos e valorizarmos um pouco mais e melhor a nossa deusa verdadeira
14. Para terminar estas reflexões, recitaremos um belo poema de Generino dos Santos, Ato de fé positivista
* * *
ATO DE FÉ POSITIVISTA
Credo quia demonstrandum[1].
Creio em Ti, Grande Ser, Mãe carinhosa,
Que, em teu fecundo seio imaculado,
Engendraste o presente do passado
Conformado o porvir que Te endeusa.
Tudo que sou, t’o devo – És bondadosa
Providência Moral que me há guiado;
Pois, sem Ti, todo amor fora pecado,
Toda ciência egoística e vaidosa;
Eu que, outrora, sem Ti, lutava a esmo,
Por Ti me agito – e teu sofrer partilho,
Partilho teu destino afortunado.
Ó Virgem Mãe! Ó Filha do teu Filho!
Que eu ame mais a Ti do que a mim mesmo,
E nem a mim, senão por ter-Te amado!
* * *
15. Término

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