Transcrevemos abaixo alguns trechos da "Introdução" do belo Ensaio sobre a oração, de José Lonchampt, que foi discípulo direto de Augusto Comte.
As referências da citação são estas:
José Lonchampt, Ensaio sobre a oração (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1896; catálogo da IPB, n. 165; páginas 11-14; ortografia atualizada). Disponível em: https://archive.org/details/n.-165-jose-lonchampt-ensaio-sobre-a-oracao.
* * *
[...]
A Humanidade não é a espécie humana, e não compreende
a universalidade dos homens: a Humanidade é a memória dos mortos inspirando e
guiando os vivos; é a suma de todos os altos pensamentos, de todos os nobres
sentimentos, de todos os grandes esforços, referidos a um só e mesmo Ente, cuja
alma é formada por esse conjunto, e cujo vasto corpo é constituído pelos vivos.
Esta influencia incessante do passado sobre o presente é tão salutar quanto
necessária. Suponhamos, com efeito, uma geração humana inteiramente subtraída à
influência das gerações anteriores: seria apenas uma cabilda de rudes
selvagens, tremendo diante de cada novo fenômeno da natureza, e levando a
ferocidade ao ponto de comer carne humana; em uma palavra, essa geração
reproduziria o estado primitivo de onde a Humanidade partiu para efetuar a sua
gloriosa evolução. Assim, é a esse Grande-Ser que devemos tudo quanto suaviza,
eleva, nobilita e deleita nossa vida: conhecê-lo, é portanto amá-lo.
A Humanidade, tão boa para nós, tão benfazeja em
relação a nós, vive no presente por meio de homens como nós: destes servidores
vivos dependem sobretudo a velocidade e a segurança de sua marcha. O amor que
sentimos pela Humanidade nos incitará, pois, a servi-la com zelo, a fim de
apressar, tanto quanto caiba em nós, a sua progressão para esse feliz estado
social, em cujo limiar as gerações atuais podem prelibar os seus mais delicados
eflúvios.
[...]
Um dos meios mais seguros de consagrarmos todos os
nossos esforços ao serviço do novo Ser-Supremo consiste na pratica quotidiana
da oração. Rezar à Humanidade não será pedir ao seu poder uma mudança imediata
na economia real, ou implorar de sua bondade um auxilio direto no infortúnio; semelhante
prece seria contrária ao conhecimento que a ciência nos ministra a respeito da
suprema existência, a qual acha-se submetida, como a nossa, a leis invariáveis:
a Humanidade modifica, é verdade, os fenômenos da natureza, porém de um modo
lento e regular; a Humanidade vem em auxilio dos sofrimentos humanos, porem somente
melhorando cada vez mais as condições de nossa existência.
Rezar é expandir nosso reconhecimento e nosso amor
para com a Humanidade: é também pedir nobres progressos para a nossa alma. Este
pedido é sempre satisfeito: porque a sincera confissão de nossos defeitos e de
nossas faltas, e o ardente desejo de melhorar e purificar o nosso coração, são
os penhores de um êxito infalível.
A oração quotidiana nos tornará, pois, melhores, e
aperfeiçoando-nos, ela será útil à Humanidade, porque este novo Grande Ser
precisa do nosso concurso; e como a reza consolida e acrisola esse concurso,
ele aproveita com as nossas orações. O Deus criador do Universo podia prescindir
das preces e das ações de graças de suas criaturas; bastavam-lhe sua onipotência
e majestade. A prece do Cristão, como a do Muçulmano, só era útil a ele próprio;
ao passo que a nossa oração é não só proveitosa para nós, mas ainda para a
Humanidade.
[...]

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