09 março 2026

José Lonchampt: excertos do "Ensaio sobre a oração"

Transcrevemos abaixo alguns trechos da "Introdução" do belo Ensaio sobre a oração, de José Lonchampt, que foi discípulo direto de Augusto Comte.

As referências da citação são estas:

José Lonchampt, Ensaio sobre a oração (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1896; catálogo da IPB, n. 165; páginas 11-14; ortografia atualizada). Disponível em: https://archive.org/details/n.-165-jose-lonchampt-ensaio-sobre-a-oracao.

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A Humanidade não é a espécie humana, e não compreende a universalidade dos homens: a Humanidade é a memória dos mortos inspirando e guiando os vivos; é a suma de todos os altos pensamentos, de todos os nobres sentimentos, de todos os grandes esforços, referidos a um só e mesmo Ente, cuja alma é formada por esse conjunto, e cujo vasto corpo é constituído pelos vivos. Esta influencia incessante do passado sobre o presente é tão salutar quanto necessária. Suponhamos, com efeito, uma geração humana inteiramente subtraída à influência das gerações anteriores: seria apenas uma cabilda de rudes selvagens, tremendo diante de cada novo fenômeno da natureza, e levando a ferocidade ao ponto de comer carne humana; em uma palavra, essa geração reproduziria o estado primitivo de onde a Humanidade partiu para efetuar a sua gloriosa evolução. Assim, é a esse Grande-Ser que devemos tudo quanto suaviza, eleva, nobilita e deleita nossa vida: conhecê-lo, é portanto amá-lo.

A Humanidade, tão boa para nós, tão benfazeja em relação a nós, vive no presente por meio de homens como nós: destes servidores vivos dependem sobretudo a velocidade e a segurança de sua marcha. O amor que sentimos pela Humanidade nos incitará, pois, a servi-la com zelo, a fim de apressar, tanto quanto caiba em nós, a sua progressão para esse feliz estado social, em cujo limiar as gerações atuais podem prelibar os seus mais delicados eflúvios.

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Um dos meios mais seguros de consagrarmos todos os nossos esforços ao serviço do novo Ser-Supremo consiste na pratica quotidiana da oração. Rezar à Humanidade não será pedir ao seu poder uma mudança imediata na economia real, ou implorar de sua bondade um auxilio direto no infortúnio; semelhante prece seria contrária ao conhecimento que a ciência nos ministra a respeito da suprema existência, a qual acha-se submetida, como a nossa, a leis invariáveis: a Humanidade modifica, é verdade, os fenômenos da natureza, porém de um modo lento e regular; a Humanidade vem em auxilio dos sofrimentos humanos, porem somente melhorando cada vez mais as condições de nossa existência.

Rezar é expandir nosso reconhecimento e nosso amor para com a Humanidade: é também pedir nobres progressos para a nossa alma. Este pedido é sempre satisfeito: porque a sincera confissão de nossos defeitos e de nossas faltas, e o ardente desejo de melhorar e purificar o nosso coração, são os penhores de um êxito infalível.

A oração quotidiana nos tornará, pois, melhores, e aperfeiçoando-nos, ela será útil à Humanidade, porque este novo Grande Ser precisa do nosso concurso; e como a reza consolida e acrisola esse concurso, ele aproveita com as nossas orações. O Deus criador do Universo podia prescindir das preces e das ações de graças de suas criaturas; bastavam-lhe sua onipotência e majestade. A prece do Cristão, como a do Muçulmano, só era útil a ele próprio; ao passo que a nossa oração é não só proveitosa para nós, mas ainda para a Humanidade.

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