No dia 27 de Dante de 172 (11.8.2026) realizamos nossa prédica positiva, dando continuidade à leitura comentada do Apelo aos conservadores (concluindo o capítulo 3, dedicado à postura dos positivistas em relação aos revolucionários).
No sermão apreciamos o lamentável livro A derrota do laicismo, do marxista Adalmir Leonídio.
Também fizemos a leitura do manifesto Por uma política republicana sociocrática - orientações para as eleições de 4 de outubro de 2026.
A prédica foi transmitida nos canais Positivismo (https://youtube.com/live/6vDb-LoK-0I) e Igreja Positivista Virtual (https://www.facebook.com/IgrejaPositivistaVirtual/videos/1506916114541594).
As anotações escritas que serviram de base para a exposição oral encontram-se reproduzidas abaixo.
* * *
Laicidade e secularismo (versus marxismo)
(27 de Dante de 172/11.8.2026)
1. Abertura da prédica
2. Datas e celebrações
2.1. Dia 19 de Dante (3.8): transformação de David Carneiro (1990 – 36 anos)
2.2. Dia 26 de Dante (10.8): transformação de Miguel Lemos (1917 – 109 anos)
2.3. Dia 27 de Dante (11.8): transformação de Luís Hildebrando Horta Barbosa (1973 – 53 anos)
3. Acontecimentos e eventos importantes nas últimas semanas:
3.1. Deveríamos ter tido o retorno do recesso na semana passada (no dia 20 de Dante – 4.8), mas ficamos resfriados e sem condições de realizar a prédica
3.2. No dia 6 de Dante (21.7) criamos um novo endereço eletrônico oficial da Igreja Positivista Virtual, mais descritivo e mais adequado ao nosso perfil e à nossa missão: IgrejaPositivista1@gmail.com
3.3. No dia 17 de Dante (1.8) o blogue Filosofia Social e Positivismo atingiu a marca de 800.000 visitas – aliás, apenas três meses após ter atingido a marca de 700.000 visitas
3.4. Também no dia 17 de Dante (1.8) lançamos o Ano Teixeira Mendes, em homenagem ao centenário de transformação do maior positivista que o Brasil já teve
3.4.1. A transformação de Teixeira Mendes ocorreu em 73 (1927), de tal sorte que no ano que vem celebraremos o seu centenário
3.5. No dia 20 de Dante (4.8) lançamos oficialmente o COMTE-Grupo Clotilde
3.5.1. Trata-se de um grupo de estudos à distância sobre o Positivismo, sob nossa responsabilidade
3.5.2. A palavra “Comte”, escrita em maiúsculas, além de evidentemente se referir ao nosso mestre, é uma sigla para “Círculo Ordem, Moral, Trabalho e Educação”
3.6. No dia 7 de Dante (22.7) nosso confrade italiano Sebastiano Fontanari concluiu sua graduação em Filosofia
4. Lançamento do manifesto “Por uma política republicana sociocrática – Orientações para as eleições de 4 de outubro de 2026”
4.1. O texto está disponível aqui: https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2026/08/por-uma-politica-republicana.html
Igreja
Positivista Virtual
O amor por princípio e a ordem por base; o progresso
por fim
Ordem e progresso – Viver às claras –
Viver para outrem
Família, Pátria, Humanidade
Por uma política republicana sociocrática
Orientações
para as eleições de 4 de outubro de 2026
Em 28 de agosto
de 2024 a Igreja Positivista Virtual lançou um manifesto intitulado “Programa
republicano mínimo – orientações para o voto no dia 6 de outubro” (disponível
aqui: https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2024/08/programa-republicano-minimo-orientacoes.html).
Nesse manifesto, após indicarmos os parâmetros gerais em termos políticos,
filosóficos e morais – em uma palavra, religiosos – que devem orientar a
conduta dos cidadãos brasileiros, apresentamos indicações específicas para a
escolha de candidatos nas eleições que ocorreriam algumas semanas depois; essas
orientações eram positivas e negativas, apresentando critérios afirmativos (o
que os candidatos deveriam afirmar, fazer e representar) e critérios
restritivos (o que se deveria rejeitar nos discursos, no comportamento e na
representação dos candidatos).
Passados quase
dois anos daquelas orientações, o seu conjunto mantém-se, mas cremos que
algumas reflexões adicionais são necessárias, seja porque o âmbito do pleito é
outro (agora serão eleições gerais e estaduais, enquanto antes foram eleições
locais), seja porque há elementos novos na conjuntura social, política e moral,
seja, por fim, porque alguns aspectos precisam ser reafirmados e outros,
enfatizados.
Em vez de
redigirmos todo um novo documento – a respeito do qual teríamos que fingir um
pleno ineditismo que não é possível nem faz sentido –, retomaremos o documento
anterior, fazendo as alterações que julgamos necessárias. A mudança de título –
de “Programa republicano mínimo” para “Por uma política republicana
sociocrática” – já sugere essa ampliação.
1. Introdução: a necessidade de critérios
para escolher candidatos
Neste ano, no
dia 4 de outubro, teremos eleições estaduais e nacionais, em que a população
brasileira elegerá seus novos governadores, senadores, deputados e Presidente
da República; a partir do 16 de agosto haverá campanha eleitoral. Os partidos
políticos, a Justiça Eleitoral, os meios de comunicação e vários grupos da
sociedade civil afirmam que é importante “votar com consciência”, “votar de
maneira esclarecida”, “buscar os melhores candidatos”, mas muito raramente,
para não dizer nunca, são apresentados com clareza os critérios que definem a
“consciência”, o “esclarecimento”, os “melhores”. No máximo há a afirmação de
que os candidatos escolhidos devem “representar” os eleitores, com isso
querendo dizer que os candidatos devem pensar e agir de maneira semelhante aos
eleitores – o que, dizendo com clareza, está muito distante dos verdadeiros
interesses sociais.
Com o objetivo
de auxiliar a reflexão pública e, na medida do possível, orientar nossos
concidadãos eleitores na escolha de candidatos, apresentaremos neste documento
alguns critérios positivos e critérios negativos – ou seja, opiniões e
comportamentos que os candidatos devem apresentar efetivamente para serem
escolhidos, bem como opiniões e comportamentos que são motivos para rejeitar
candidatos.
Este manifesto
é dirigido a todos e todas os brasileiros e brasileiras, nossos concidadãos
eleitores e nossas concidadãs eleitoras. Como se verá, à primeira vista talvez
o programa abaixo pareça muito exigente: mas, por um lado, isso não é motivo
para desconsiderá-lo; por outro lado, isso indica o quanto estamos distantes do
republicanismo no Brasil.
Antes, porém, é
importante expor os fundamentos políticos, sociais e morais dos critérios que
apresentaremos.
2. A política positiva e a república
sociocrática
Desde 15 de
novembro de 1889 o Brasil é uma República. Embora à primeira vista o conceito
de “república” pareça pouco, na verdade ele é um dos mais densos e importantes
na vida de qualquer cidadão, especialmente quando entendemos o sentido profundo
da república, que é o da sociocracia. As noções de república e de sociocracia
são ideais: nem sempre esses ideais realizam-se na prática, mas, ao contrário
do que tem ocorrido com triste freqüência, isso não é motivo para
desvalorizá-los, nem para rejeitá-los. Vejamos, então, quais são os elementos
desses ideais.
O sentido
fundamental da república é o bem comum: efetivamente se dedicar ao bem-estar
coletivo, superando o individualismo, o egoísmo, os particularismos, isso é ser
republicano. Além disso, a república também se opõe à monarquia e, portanto, à
sociedade de castas; em outras palavras, na república o valor de uma pessoa, considerando
as condições sociológicas de cada um, é dado pelo mérito individual, em vez de
ser pelas condições em que nasceu (pelo “berço”).
Mais importante
do que isso, a dedicação ao bem comum significa a subordinação da política à moral, ou seja, a subordinação da
política aos princípios e valores maiores da Humanidade, em que a família
subordina-se à pátria e a pátria subordina-se à Humanidade. Somente assim a
atividade política pode ser entendida como a dedicação ao bem comum e, a partir
disso, ser fiscalizada e responsabilizada. De modo mais específico, subordinar
a política à moral significa reconhecer que a política tem que se pautar pela
fraternidade universal e pela atividade pacífica, convergente e construtiva,
contra a violência, a guerra, os egoísmos e as mesquinharias.
Disso se seguem
várias conseqüências. A primeira delas é que o conjunto da sociedade deve
sempre ser levado em consideração. Já indicamos que a fraternidade universal é
um valor básico: como todos devem orientar suas condutas para a melhoria de
vida de todos, o respeito mútuo e a afirmação da dignidade fundamental de todos
são pilares da vida coletiva. Daí se segue também que as relações sociais têm
que ser pacíficas: qualquer forma de violência degrada as relações humanas e o
ambiente social. O pacifismo e a fraternidade universal impõem, por seu turno,
o repúdio ao racismo e às discriminações de “gênero”; da mesma forma, eles
exigem o respeito ao meio ambiente e, claro, aos animais.
Uma segunda
conseqüência é que, embora toda sociedade moderna seja composta por patrícios e
proletários, a maior parte da sociedade é composta pelo proletariado (ou seja,
pelos trabalhadores) e os esforços sociais têm que se orientar para a melhoria
das suas condições de vida: é esse o objetivo que deve orientar a ação dos
patrícios. Qualquer política que ignore ou menospreze os interesses do
proletariado é uma política antirrepublicana, ou melhor, antissociocrática.
Uma terceira
conseqüência é que a preocupação com o bem comum implica também as vistas
gerais. Todos devemos ter preocupações com as localidades em que residimos;
mas, ao mesmo tempo, devemos sempre estar atentos aos ambientes mais amplos
(estaduais, nacionais, internacionais). A ênfase excessiva ou exclusiva nas
questões locais é uma forma de egoísmo e de alienação e, portanto, é contrária
ao altruísmo e à fraternidade universal. Esse princípio deve ser generalizado;
a subordinação das famílias às pátrias, das pátrias à Humanidade presente e da
Humanidade presente à Humanidade histórica é o único antídoto contra os
bairrismos, os provincianismos, os nacionalismos xenofóbicos, os
etnocentrismos.
Um caso particular
de afirmação das vistas gerais e da fraternidade contra a violência, o ódio e
os particularismos é a rejeição das concepções e das práticas baseadas no
ressentimento e no facciosismo. Isso inclui não apenas os nacionalismos
xenofóbicos como também os identitarismos, todos eles produtores de violências
e agressões entre e dentro dos vários países.
A regra
republicana básica é o “viver às claras”: cada um deve adotar valores em sua
vida que sejam publicamente defensáveis; cada um deve, de fato, viver conforme
esses valores. No caso dos governantes e das figuras públicas, o viver às
claras também significa que todos os seus atos são responsabilizáveis, ou seja,
são passíveis de acompanhamento, avaliação e cobrança públicas. A publicidade
dos atos e das motivações é a regra, nunca a exceção. Como conseqüência do
viver às claras, todos devem sempre falar a verdade e cumprir o prometido – ou,
em outras palavras, não se deve mentir nem se deve trair.
A instituição
republicana básica é a separação entre igreja e Estado: o aconselhamento não
precisa da violência do Estado para fazer-se valer, nem pode o Estado
condicionar os seus serviços à aceitação de crenças oficiais. Isso é o que se
chama vulgarmente de “laicidade”. Uma de suas conseqüências é que sacerdotes
devem manter-se afastados do Estado a fim de garantirem sua dignidade, assim
como o Estado deve recusar sacerdotes para não ser usado como instrumento de
opressão. O afastamento dos sacerdotes em relação à política não quer dizer
alienação nem indiferença; quer dizer que os sacerdotes devem manter sua
autonomia moral e não podem trabalhar para o Estado.
A separação
entre igreja e Estado é a base das liberdades fundamentais: são as liberdades
de crença, de manifestação e de associação, assim como o direito de ir e vir, o
habeas corpus e o devido processo
legal. Adicionalmente, os órgãos do Estado – especialmente os que são
responsáveis diretos pelo atendimento à população – e os servidores públicos
devem ser valorizados, mantendo-se sempre também a dignidade da chamada
iniciativa privada.
Finalmente, as
instituições sociais fundamentais devem ser valorizadas, a começar pela
família. Entre a família e a sociedade política (as pátrias) as relações são de
complementaridade, não de oposição. O papel da família é o de desenvolvimento
afetivo e de educação moral, preparando os cidadãos para a vida na sociedade
mais ampla; o papel da sociedade política é o de realizar os trabalhos práticos
necessários para manter e desenvolver a vida de todos. Como é mais ampla, a
sociedade política regula e protege a família. As pátrias, por sua vez, devem
todas unir-se em prol da Humanidade. Assim como os proletários devem ser
valorizados e respeitados, as mulheres devem ser valorizadas e ter sua
dignidade mantida e afirmada; a violência contra as mulheres é inaceitável.
Esses valores e
essas práticas constituem, sem esgotar, muito do que é a república, ou melhor,
do que é a sociocracia. Tudo isso
almeja a realização dos um dos supremos ideais dos brasileiros e de todos os
seres humanos, que é a união da ordem com o progresso. Como dissemos em outro
manifesto[1],
quando a ordem e o progresso ficam separados, eles tornam-se antagônicos um em
relação ao outro, de tal maneira que a ordem transforma-se em ordem retrógrada
e opressiva e o progresso torna-se caótico e também opressivo. Apenas a união
das duas perspectivas, em que ambas sejam simultaneamente respeitadas e
valorizadas, torna possível que cada uma delas seja cumprida. A ordem consiste
na consolidação do progresso, ao passo que o progresso é o desenvolvimento da
ordem; o vínculo entre ambos é o amor, que, em termos políticos, deve ser
entendido em termos de fraternidade, respeito mútuo e tolerância. O respeito à
ordem não equivale à submissão cega ou servil ao poder político; da mesma
forma, a verdadeira relação entre o poder e os cidadãos não é a de um soldado
que se submete ao seu comandante.
3. Recomendações positivas: votar em candidatos com este perfil
Considerando os
valores e os princípios indicados acima, recomendamos que se vote em candidatos
que apresentem estas características:
-
respeitem e façam valer a separação entre
igreja e Estado (a chamada “laicidade do Estado”)
-
respeitem a dignidade humana e a
fraternidade universal
-
respeitem a dignidade do espaço público e
das instituições republicanas
-
respeitem a soberania nacional e a paz
entre os povos
-
respeitem a dignidade e valorizem as
condições de vida da população brasileira, em particular dos trabalhadores e
dos mais pobres, além dos povos indígenas
-
respeitem a dignidade e valorizem a
família, independentemente da orientação sexual de cada família
-
respeitem e valorizem a dignidade das
mulheres
-
tenham histórico de combate ao racismo e
a outras discriminações
-
tenham histórico de defesa da dignidade e
das condições de vida dos animais
-
tenham histórico de defesa do meio
ambiente
4. Recomendações negativas:
recusar candidatos com este perfil
Considerando os valores e os princípios
indicados na seção 2, acima, recomendamos que não se vote em candidatos que tenham um histórico pessoal e
intelectual contrário à república sociocrática. De modo específico, rejeitamos
candidaturas que apresentem estas características:
-
sejam membros de cleros, ou seja,
sacerdotes, padres, pastores ou equivalentes
-
promovam o clericalismo nas funções públicas
(o uso do Estado para promover cultos e/ou doutrinas)
-
desvalorizem os problemas sociais e/ou
criminalizem a pobreza
-
promovam a cultura da violência, em
particular estimulando a difusão e o uso de armas de fogo pela população civil
-
promovam a intromissão ou a intervenção
estrangeira em assuntos especificamente brasileiros
-
promovam valores e práticas bairristas,
provincianas, exclusivistas e excludentes, incluindo aí nacionalismos
xenofóbicos e as chamadas pautas identitárias
-
neguem os problemas ambientais (os
“negacionistas climáticos”)
-
promovam a “cultura do cancelamento”
-
tenham histórico de ligação com o crime,
na forma de apoio ou participação em milícias; de apoio ou participação no
crime organizado; de irresponsabilidade pessoal
-
promovam o racismo, a misoginia e
preconceitos diversos
Curitiba, 26 de Dante de 172 (10 de agosto de 2026).
5. Leitura comentada do Apelo aos conservadores
6. Exortações
6.1. Sejamos altruístas!
6.2. Façamos orações!
6.3. Como Igreja Positivista Virtual, ministramos os sacramentos positivos a quem tem interesse
6.4. Para apoiar as atividades dos nossos canais e da Igreja Positivista Virtual: façam o Pix da Positividade! (Chave Pix: ApostoladoPositivista@gmail.com)
7. Sermão: laicidade e secularismo, versus marxismo
7.1. O tema de hoje retoma algumas reflexões que já fizemos antes, mas tem uma preocupação específica: apreciar o livro A derrota do laicismo (São Paulo, Hucitec, 2024), do autor marxista Adalmir Leonídio, que é “professor associado” da Universidade de São Paulo
7.1.1. O livro apresenta uma notável coleção de erros e preconceitos contra o Positivismo; mas não somente contra o Positivismo, mas erros e preconceitos em geral: apesar de ser “professor associado” da USP, o autor comete erros teóricos elementares, tanto sociológicos quanto históricos
7.1.2. Esse autor dá seguimento à longa tradição, ao mesmo tempo marxista e uspiana, de difusão ativa de desinformação e preconceitos contra o Positivismo
7.2. Comecemos com os conceitos de laicidade e secularismo
7.2.1. Eles são conceitos muito próximos, embora refiram-se a realidades diferentes
7.2.2. O secularismo é um conceito acima de tudo sociológico (isto é, social, tratando da estrutura da sociedade) e corresponde à progressiva e multissecular perda de influência da teologia na sociedade
7.2.2.1. O secularismo tem um aspecto mais descritivo (o que é), embora também apresente um elemento prescritivo (o que deve ser)
7.2.2.2. Na medida em que se refere a uma realidade social e multissecular, o secularismo abrange uma dinâmica que de modo geral é pouco ou dificilmente modificável de maneira consciente e deliberada – exceção feita aos processos autoritários (como nos casos paradigmáticos dos autoritarismos soviéticos)
7.2.3. A laicidade é um conceito acima de tudo político (isto é, tratando das relações de poder e das instituições) e, grosso modo, corresponde à separação política e institucional entre o Estado e as igrejas
7.2.3.1. Pode-se dizer que a laicidade apresenta em iguais medidas aspectos descritivos e prescritivos
7.2.3.2. Como se trata de uma questão política e institucional, a laicidade presta-se mais facilmente à implementação consciente e deliberada
7.2.4. Já indicamos um sem-número de vezes: o objetivo da laicidade é impedir, ao mesmo tempo, que o Estado seja um instrumento de imposição das crenças de qualquer seita e que qualquer seita empregue o Estado para impor suas crenças
7.2.4.1. Uma das conseqüências mais importantes disso é a noção de “cidadania”, em particular no sentido de que os cidadãos têm acesso a serviços públicos independentemente das crenças particulares que professem
7.2.4.2. A laicidade opera apenas no Estado, não na sociedade: é totalmente vedado ao Estado manifestar ou permitir-se manifestar-se em seu interior doutrinas quaisquer; fora do Estado, isso simplesmente não se discute
7.2.4.3. De modo geral a laicidade é considerada em termos de crenças teológicas e refere-se apenas à imposição de crenças via igrejas: são essas duas limitações que distinguem as abordagens vulgares da laicidade daquela que o Positivismo propõe e que, de maneira sintomática, não denominamos de “laicidade”, mas de “separação entre os poderes temporal e espiritual”
7.2.4.4. Na medida em que a laicidade vulgar é contra a imposição de crenças teológicas, essa laicidade vulgar assume com freqüência um aspecto anticlericalista e antiteológico; isso omite totalmente a possibilidade de imposição de crenças não teológicas e por meio não eclesiásticos
7.2.4.4.1. Ora, se a laicidade é entendida apenas contra a teologia e as igrejas teológicas, ela abre-se para a imposição de crenças metafísicas e científicas, por meio de partidos políticos e academias (e universidades): com base nesse conceito superficial e anticlericalista, a União Soviética afirmava-se “laica” (embora tivesse doutrina oficial de Estado, com restrições da cidadania com base na profissão de fé) e, cada vez mais, mesmo o Estado brasileiro estabelece doutrinas oficiais e condiciona o acesso aos serviços à adesão às doutrinas (o chamado projeto de lei contra a misoginia é exemplar nesse sentido)
7.2.5. Como se pode ver, de modo geral a laicidade baseia-se no secularismo, na medida em que os aspectos institucionais baseiam-se na realidade social
7.2.5.1. Entretanto, a realidade histórica e inúmeros exemplos adicionais ilustram a possibilidade de laicidade sem secularização (ou com secularização incompleta): ao longo da Idade Média houve uma certa laicidade, assim como o estado de Rhode Island, fundado por quacres, estabeleceu a laicidade
7.2.6. Há algumas particularidades conceituais que vale a pena indicar:
7.2.6.1. Há uma diferença entre o que podemos chamar de modelos de laicidade de princípio e de compromisso, que aumentam a disjunção entre laicidade e secularismo: o modelo de princípio, ou francês, estabelece que a cidadania baseia-se na laicidade; já o modelo de compromisso, ou estadunidense, estabelece a laicidade porque não há nenhuma seita (teológica em particular) que se sobreponha sobre as demais
7.2.6.2. Além disso, embora eu considere totalmente irrelevante a distinção entre “laicidade” e “laicismo”, o fato é que os opositores da laicidade – em particular os católicos – afirmam que o “laicismo” seriam os “exageros” da laicidade, supostamente a proibição de manifestações públicas
7.3. Passando ao livro A derrota do laicismo:
7.3.1. O autor é marxista e pretende, com esse livro, provar que os positivistas somos os culpados pela “derrota do laicismo” no Brasil (!)
7.3.1.1. É chocante que um marxista acuse-nos disso, pois o marxismo é e sempre foi radicalmente contrário à laicidade do Estado
7.3.1.2. Além disso, nós, positivistas, sempre fomos defensores incansáveis da laicidade – na verdade, com freqüência, somos alguns dos únicos que defendem e praticam sem titubear e sem concessões a laicidade
7.3.1.3. Ao contrário do que a má-fé do autor afirma, não seríamos nós, positivistas, os culpados pela derrota da laicidade no Brasil: na verdade, se a laicidade apresenta graves problemas no país, isso se deve aos teológicos, aos democratas e também aos próprios marxistas
7.3.2. O autor demonstra que sabe fazer uma arrolagem de referências bibliográficas e cita dezenas de livros de positivistas – mas, de maneira reveladora, não cita nenhum dos meus livros ou dos meus artigos, dezenas dos quais dedicados diretamente à laicidade a partir do Positivismo
7.3.3. O autor dedica os vários capítulos do livro a apresentar idéias e concepções de positivistas: Augusto Comte, Laffitte, Miguel Lemos e Teixeira Mendes etc. – mas inclui aí, também, por exemplo, Littré, o que já revela a sua ignorância e/ou a sua má-fé
7.3.4. Um dos capítulos é intitulado “o sonho totalitário de Augusto Comte”: isso vindo de um marxista!
7.3.4.1. Augusto Comte não era totalitário; basta considerar que a separação entre os dois poderes sempre foi afirmada e praticada como condição de liberdade, não de totalitarismo
7.3.4.2. Além disso, a acusação de totalitarismo vindo de um marxista é de um cinismo atroz: foram os marxistas, com o leninismo, que criaram o totalitarismo!
7.3.5. Entre inúmeros erros elementares, devemos indicar que o autor fala em “laicismo” ignorando completamente que essa expressão é usada pelos inimigos da laicidade para combatê-la
7.3.5.1. Além disso, o autor usa de maneira intercambiável as palavras “laicidade”, “laicismo”, “secularismo”, “secularização”, ignorando (ou desprezando) as particularidades sociológicas, políticas e morais de cada uma delas
7.3.5.2. Da mesma forma, o autor afirma que a Religião da Humanidade é incapaz e incompatível com a laicidade do Estado – mesmo com o autor tendo clareza de que a Igreja Positivista do Brasil e os positivistas ortodoxos foram alguns dos mais ousados defensores da separação entre os poderes no país
7.4. Convém esclarecer uma questão: por que o marxismo é contra a laicidade?
7.4.1. Porque a laicidade pressupõe que uma separação entre o Estado e a sociedade civil e que o Estado respeitará a autonomia da sociedade civil
7.4.1.1. Não se trata de o Estado ser “neutro”, embora, com a laicidade, o Estado deva refrear e ser refreado em algumas de suas atividades
7.4.2. Além disso, por definição, a laicidade veda as doutrinas oficiais de Estado e a instrumentalização do Estado para imposição de crenças; como comentamos, também veda a vinculação da cidadania à adesão a essas crenças (seja por meio de igrejas, seja por meio de partidos políticos, seja por meio de universidades)
7.4.2.1. O marxismo é totalmente a favor dessa instrumentalização: para os marxistas (Marx e Lênin à frente), o Estado é sempre instrumento de classe; portanto, o proletariado deve, sim, também, instrumentalizar o Estado
7.4.2.2. Para os marxistas, o Estado deve ser um instrumento não apenas da classe trabalhadora como, em particular, deve ser um instrumento da revolução proletária: a laicidade impede essa dupla instrumentalização
7.4.3. Para Marx (e para Lênin), a laicidade é um formalismo burguês, que serviria para iludir o caráter de classe do Estado burguês, dificultando ou impedindo a consciência de classe e a revolução comunista
7.4.3.1. Aliás, no mesmíssimo sentido a noção de “cidadania” (universal) sempre foi criticada e desprezada pelos marxistas
7.4.3.2. Os marxistas que hoje afirmam a noção de cidadania fazem-no rejeitando o leninismo (ou melhor, o sovietismo), mas, ao mesmo tempo, fazem-no fingindo que Lênin não era um dos mais fiéis e coerentes intérpretes de Marx; em outras palavras, os marxistas que hoje defendem a cidadania são incoerentes ou hipócritas; o mesmo deve ser dito dos marxistas que, supostamente, defendem a laicidade
7.5. Em suma: o livro A derrota do laicismo é um conjunto notável de erros, má-fé e ignorância – em termos históricos, sociológicos e filosóficos. É chocante.
8. Término da prédica
Referências
- Adalmir Leonídio (port.), A derrota do laicismo (São Paulo, Hucitec, 2024).
- Auguste Comte (franc.), Síntese subjetiva (Paris, Exécution Téstamentaire d’Auguste Comte, 2ª ed., 1900): https://archive.org/details/lasynthsesubjec00comtgoog.
- Augusto
Comte (franc.), Sistema de política
positiva (Paris. J.-B.
Baillière, 4ª ed., 1880): https://archive.org/details/systmedepoliti01comt.
- Augusto Comte (port.), Apelo aos conservadores (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores.
- Augusto Comte (port.), Catecismo positivista (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 4ª ed., 1934).
- Gustavo Biscaia de Lacerda (port.), Comtianas brasileiras (Curitiba, Appris, 2018).
- Gustavo Biscaia de Lacerda (port.), Intervenções políticas: laicidade, cidadania e Positivismo (Marília, Poiesis, 2019).
- Gustavo Biscaia de Lacerda (port.), Laicidade na I República Brasileira: os positivistas ortodoxos (Curitiba: Appris, 2016)
- Gustavo Biscaia de Lacerda (port.), O momento comtiano (Curitiba, UFPR, 2019).
- Gustavo Biscaia de Lacerda (port.), Sobre as relações entre Igreja e Estado: conceituando a Laicidade, in: Conselho Nacional do Ministério Público (org.), Ministério Público: Em Defesa do Estado Laico, v. 1 (Brasília, Conselho Nacional do Ministério Público, 2014): https://www.cnmp.mp.br/portal/images/stories/Destaques/Publicacoes/ESTADO_LAICO_volume_1_web.PDF.
- Gustavo Biscaia de Lacerda (port.), Teoria política positivista – pensando com Augusto Comte (Marília, Poiesis, 2022).
- José Lonchampt (port.), Ensaio sobre a oração (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1896; catálogo da IPB, n. 165): https://archive.org/details/n.-165-jose-lonchampt-ensaio-sobre-a-oracao.
- Luís Lagarrigue (esp.), A poesia positivista (Santiago do Chile, 1890): https://archive.org/details/luis-lagarrigue-a-poesia-positivista-1890_202509.
- Raimundo Teixeira Mendes (port.), As últimas concepções de Augusto Comte (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-i e https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-ii.
- Raimundo Teixeira Mendes (port.), O ano sem par (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1900): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-o-ano-sem-par-portug._202312/page/n7/mode/2up.
- Raymond Aron (port.), As etapas do pensamento sociológico (Brasília, UnB, 1983).
- Raymond Aron (port.), O marxismo de Marx (São Paulo, Benvirá, 2012).
[1] Abaixo-assinado A bandeira nacional republicana não é
fascista, de 26 de outubro de 2022, disponível em: https://peticaopublica.com.br/pview.aspx?pi=BR127657.
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