10 agosto 2026

Relato da prepotência militar

No dia 26 de Dante de 172 (10.8.2026) o jornal carioca Monitor Mercantil publicou o meu artigo "Relato da prepotência militar". O texto original encontra-se disponível aqui: https://monitormercantil.com.br/relato-da-prepotencia-militar/.

Reproduzimos abaixo o nosso artigo.

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Militares marchando (foto domínio público via Rawpixel).


Relato da prepotência militar

Para militares, civis devem respeitar ‘autoridade’ com base em autoritarismo e em submissão servil. Por Gustavo Biscaia de Lacerda

Nesta coluna eu apresento reflexões sociais, políticas e morais, sempre com um caráter geral; raras vezes (se é que o fiz em qualquer ocasião) fiz comentários especificamente pessoais. Mas toda regra tem exceções; assim, aproveito esta coluna para expor um lamentável episódio que recentemente aconteceu comigo. Julgo que este artigo será mais eficaz que denúncias junto ao Ministério Público Federal, ao Ministério Público Militar e/ou à Ouvidoria Pública Federal.

Na noite de 29 para 30 de julho, pouco depois da meia-noite, eu viajava de ônibus de Foz do Iguaçu para Curitiba. Na altura de Cascavel, o ônibus foi parado por uma blitz do Exército. Minha estada em Foz tinha sido ruim, eu estava cansado, com sono, de mau humor e ainda fui acordado por um tapa na perna dado por um “reco”. (“Reco” é a gíria depreciativa que se refere aos soldados recrutas. Como tal sujeito foi prepotente e recusou-se a dizer seu nome e patente, é justo que eu trate-o por “reco”.)

O “reco” que me acordara com um tapa foi perguntando a cada passageiro para onde viajava, o que fizera em Foz do Iguaçu, o que fazia da vida; todos respondendo com temerosa submissão. Novamente: cansado, com sono, irritado, acordado com um tapa. Além disso, como se diz, “quem não deve não teme”.

Quando eu fui inquirido pelo “reco”, respondi com firmeza e clareza: “Fui [a Foz do Iguaçu] gastar dinheiro”. O “reco” não gostou e tomou minha resposta por uma insolência; imediatamente me mandou descer do ônibus, indicar minha bagagem, abri-la e submeter-me a quaisquer outras ordens que ele e sua tropa de brucutus decidissem impor-me. Claro: todos devidamente armados, com fuzis e pistolas preparados para disparar. Respeito sob a mira da baioneta não tem muito valor.

Quem não deve não teme: fiz questão de apressar as coisas e de mostrar minha bagagem (uma mochila de 60 litros); na verdade, como a maior preocupação do “reco” era com a minha “insolência”, tive que insistir que ele fosse, de fato, ver minha mochila. Como eu estava sendo submetido a um exame invasivo, perguntei a outro “reco” o motivo da inspeção; a resposta, de má vontade: “Faça o que mandam; eu não responderei nada”.

Fiquei olhando o brucutu que se recusara a responder esvaziar minha mochila e intrometer-se em minha privacidade. O primeiro “reco” resolveu voltar à carga: “Que exemplo você quer dar ao desafiar uma autoridade?”.

Ora, o porte de fuzil e de pistolas não faz de ninguém uma autoridade. Ou melhor, fuzil e pistola não fazem de ninguém autoridade no Estado de Direito; com fascismo, comunismo e milícias/facções, a situação é outra.

Mas o fato é eu sou servidor civil público federal e, ainda mais, se isso tem algum valor, eu sou cidadão brasileiro no Estado de Direito; se havia alguma “autoridade” ali, era eu, não um “reco” prepotente. Foi o que eu disse – mais uma vez, com clareza e firmeza, mas agora escandalizado com a desfaçatez de ouvir uma carteirada de fuzil misturada com uma despropositada “lição de moral”.

A essa altura, já estando claro que eu não tinha nada a esconder, aproximou-se de mim um outro soldado – aliás, o único identificado com nome e patente: sargento ***. Talvez em uma versão militar do “tira bom, tira mau”, ele começou a conversar e esclarecer com calma a situação.

O que ele me perguntou foi o que o “reco” inicial perguntara; a minha resposta inicial foi a mesma: “Fui [a Foz do Iguaçu] gastar dinheiro”. Ora, Foz é uma cidade cara, organizada de maneira a explorar ao máximo os turistas, com uma infraestrutura precária e com atendimento sofrível; para quem quer fazer turismo sem gastar rios de dinheiro, é uma cidade que exaure.

O sargento *** ouviu minha resposta; em vez de entendê-la como uma insolência, deu uma leve risada e continuou a conversa; perguntou-me onde trabalho, o que faço da vida etc., ao que eu fui respondendo. Vale notar: eu afirmei e reiterei que conversava com calma, firmeza e sem medo. (Qual criminoso de estrada argumentaria assim?)

O “reco” inicial voltou mais uma vez à carga, ameaçando-me e dizendo que fazia questão de “redigir o relatório” a meu respeito. Suponho que fosse um relatório de crimes, mas, como tudo até ali, isso não foi explicado, embora o tom adotado de ameaça agressiva fosse evidente.

O sargento ***, em seu papel de “tira bom”, convenceu-se de que eu não tinha nada a esconder; conduziu-me de volta ao ônibus e até me explicou do que se tratava (combate a tráfico de armas, drogas e pessoas).

Agradeci e dei boa-noite; mas faltava o documento de identificação. Com quem estava? Com o “reco” inicial. Ele não me entregou o documento: jogou-o no colo (eu estava de braços cruzados); em face da ameaça de “relatório” contra mim, já cansado, eu perguntei em desafio se ele faria esse tal relatório; resposta: “Não tem relatório e não incomode”. Por fim, eu perguntei: “Qual sua patente?”; sua resposta foi a cereja do bolo: “Não tem patente, não tem nome, não tem nada e não incomode”.

Certamente me perguntarão: "por que, desde o começo, você não respondeu ao militar do jeito que ele queria?". Essa pergunta não faz sentido; ou melhor, até faz sentido, mas é profundamente degradante. Essa pergunta pressupõe que, mesmo no Estado de Direito, os cidadãos têm que temer os militares e devem tomar o máximo de cuidado para não ferirem as suscetibilidades dos recos.

Se no Brasil estivéssemos em situações excepcionais, mantidas pela arbitrariedade dos fuzis, a minha resposta inicial teria sido fatal. Mas não vivemos nem no fascismo, nem no comunismo, nem o percurso da BR-277 (que é a rodovia que atravessa o Paraná e liga Foz do Iguaçu a Curitiba) está submetido a milícias e/ou facções.

No setor privado e no serviço público civil, a minha resposta inicial não teria absolutamente nada de excepcional; o bom senso indica que bastaria um pouco de boa vontade para seguir a conversa. Mas por que ela não foi aceitável para os militares?

O motivo é tanto simples quanto, como já indicamos, é degradante. Minha resposta inicial foi inaceitável para os militares porque eles consideram que (1) as relações entre civis e militares devem espelhar as relações entre os próprios militares e, ainda mais, que (2) os civis devem respeitar os militares pura e simplesmente porque estes andam com fuzis e pistolas.

Em outras palavras, ainda (ou novamente) em 2026, para os militares a autoridade não consiste em respeito inspirado em serviços verdadeiros e bem prestados; para os militares, os civis devem respeitar a sua “autoridade” com base em autoritarismo prepotente e em submissão servil.

O comportamento do “reco” inicial foi apoiado por sua tropa e pelo “tira bom” sargento ***; dessa forma, não foi um comportamento excepcional. O problema não foi a frágil suscetibilidade do “reco” inicial; o problema é os militares considerarem que os civis, ou melhor, que os cidadãos devem temer, com servilismo, os fuzis e as pistolas. Em tal ambiente, pura e simplesmente não há e não é possível qualquer “cidadania”.

Gustavo Biscaia de Lacerda é sociólogo da UFPR e doutor em sociologia política.

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