O jornal carioca Monitor Mercantil publicou em 8.6.2026 o nosso artigo "Desregulação do poder no Brasil, moralidade e politização". O original pode ser lido aqui: https://monitormercantil.com.br/desregulacao-do-poder-no-brasil-moralidade-e-politizacao/.
O texto encontra-se abaixo.
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Desregulação do poder no Brasil, moralidade e politização
Precisamos recuperar a noção de república e convencimento pacífico
Por Gustavo Biscaia de Lacerda
O poder está desregulado no Brasil. Isso pode parecer bastante abstrato (e, em certo sentido, é, sim, abstrato), mas, bem vistas as coisas, o problema é bastante concreto e, desgraçadamente, bastante geral. Não é o Estado, não são as instituições, não são nem os partidos políticos: é o poder, é o mecanismo geral de tomadas de decisões e de imposição das ordens; é isso que está desregulado, e severamente desregulado, no Brasil.
A direita, organizada na aliança entre Centrão, fascistas e evangélicos, não tem pudor em aumentar cada vez mais os privilégios parlamentares, clericais e militarescos, com o orçamento impositivo e secreto, a proposta de completa isenção fiscal para as igrejas, feriados e benefícios clericalistas e um projeto geral de instituição de uma teocracia evangélica com apoio das baionetas.
A esquerda, embora minoritária, não fica atrás, especialmente a esquerda identitária, que, da mesma forma, obtém feriados particularistas, benefícios clericalistas e projetos de lei que estipulam agressivas doutrinas oficiais de Estado e crimes de opinião.
Há a hipocrisia habitual, em que a direita e a esquerda criticam uma à outra, porque ambas fazem as mesmas coisas com os mesmos objetivos. Mas, para além da polarização costumeira, muitos críticos afirmam que o problema seria o “moralismo” dessas perspectivas, e a solução seria, no lugar da moralidade, a “politização” das questões.
Falar em “politizar” o debate dá a impressão de grande sabedoria prática, além de conhecimento histórico e teórico. Os marxistas repetem, desde sempre, que é necessário “politizar” os debates; já a tradição maquiavélica separa a política da moral e afirma a superioridade (moral) da primeira sobre a última.
O problema que enfrentamos não é de moralização da política, nem a solução seria a politização dos debates. Não existe política sem moralidade; quem afirma tal ideia é ignorante, ingênuo ou hipócrita. O ser humano sempre age com base em valores e preocupações; esses valores podem ser altruístas ou egoístas; se tiver consciência dos seus valores, pode orientar-se para o altruísmo, mas, se for inconsciente, acabará sendo egoísta. Assim, quem afirma que a política pode e deve ser sem valores está, na verdade, praticando a moralidade egoísta – egoísmo individual, familista, de classe, profissional, nacional, de igreja.
Por outro lado, como sabemos desde Hobbes e, como foi reafirmado por Augusto Comte, a política baseia-se na mobilização de valores, mas pratica-se pela imposição da força. Quem quer substituir a moralidade pela política deseja que a política vire pura imposição da força. Assim, mais uma vez, quem afirma tal ideia é ignorante, ingênuo ou hipócrita.
O diagnóstico da “moralidade como problema” erra duas vezes. Na verdade, ele erra três vezes: ao criticar a moralidade, ao defender a politização e ao ignorar o fato de que direita e esquerda apostam na mais crua política para impor suas crenças.
Direita e esquerda concordam em uma visão violentamente ultrapolitizada para agir; ambas concordam que, por terem o poder, devem impor suas crenças sobre os demais; ambas consideram que a tolerância, o convencimento e a liberdade de pensamento são tolices heréticas a serviço do erro e que, portanto, devem ser combatidas violentamente.
A direita adota a concepção teocrática de que o Estado deve estar a serviço da igreja dominante, da crença dominante. Embora a Igreja Católica defenda, quando convém, a laicidade do Estado, o fato é que seus bispos, arcebispos e cardeais nunca fingiram que não querem a teocracia. Os protestantes históricos sempre foram mais cuidadosos, mas os evangélicos são agressivamente teocráticos e não têm pudores em defender a instrumentalização do poder e do Estado para seus fins teológicos e eclesiais.
A esquerda não fica atrás. Os marxistas sempre consideraram ilusões burguesas (ou liberais) as ideias de tolerância, liberdade de expressão e laicidade — exceto para si próprios e enquanto estivessem sem o poder.
Depois da queda do Muro de Berlim, o marxismo “raiz” foi substituído pelos identitarismos. Embora suas origens sociais sejam diversas e suas bases filosóficas sejam outras, os identitários são filhos bastardos e academicistas do marxismo: basta bom senso para perceber-se que o “patriarcado” é a versão feminista da “burguesia” (ou do “capitalismo”), que o “lugar de fala” é a versão feminista-queer-racialista da “consciência de classe”, que a ciência/filosofia/arte feminista-queer-racialista é a versão identitária da ciência/filosofia/arte “proletária”.
Mas há um aspecto em que esses filhos bastardos ultrapassaram o pai: na concepção pós-moderna (devida a Foucault, que se baseou em Nietzsche e no nazista Heidegger) de que tudo na sociedade é política (ou “socialmente construído”), ou seja, tudo é luta de poder.
Essas concepções pervadem partidos políticos, todo o Congresso Nacional e a maior parte dos governos, além do Judiciário e da barafunda que é o Ministério Público. Assim, a prática do poder em geral, no Brasil, está desregulada. A solução não será maior politização, pois isso resultará em mais do que já temos. Precisamos é de regulação — e a regulação tem um aspecto institucional, por certo, mas baseia-se, antes, na moralidade. O problema não é a moralização, mas a aplicação de moralidades ruins e inadequadas.
Não se trata de moralidades que, em si, seriam boas, mas que estão sendo pervertidas ou corrompidas. Se estivéssemos na Mesopotâmia de 2.500 anos atrás ou, quem sabe, no Consistório de Genebra que Rousseau considerava o ideal democrático, talvez fossem moralidades aceitáveis; mas estamos na modernidade, hoje. A moralidade teocrática é inaceitável, seja ela teológica (da direita), seja ela metafísica (da esquerda).
O que nós precisamos é re-regular o poder no Brasil — e, bem vistas as coisas, no Ocidente de um modo geral e, aliás, no mundo como um todo. Em vez de combatermos, abstratamente, a moralidade em nome de uma politização que, concretamente, resultará em mais violência, precisamos recuperar a moralidade que foi e é combatida pela direita teocrática e pela esquerda metafísica: precisamos recuperar a noção de república, de coisa pública, de tolerância, de convencimento pacífico, de rejeição da violência. Além disso, precisamos reafirmar e retomar a condição institucional disso tudo, que é a separação entre igreja e Estado — vulgarmente, a “laicidade”.
Temos que retomar concepções e práticas. Por um lado, os valores do bem comum, do convencimento livre, da liberdade de pensamento, da dignidade individual. Por outro lado, as práticas da tolerância, do respeito mútuo, do convencimento. Mas também temos que retomar as noções de que o Estado é incompetente para decidir sobre questões de foro íntimo e que igreja (e partido, e seita acadêmica) e Estado devem ser separados.
Não será algo fácil. Essa retomada irá contra ideias, práticas e decisões atuais. Mas, fora disso, não teremos futuro.
Gustavo Biscaia de Lacerda é sociólogo da UFPR e doutor em Sociologia Política.

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