03 junho 2026

Ensino positivista crítico

No dia 13 de São Paulo de 172 (2.6.2026) realizamos nossa prédica, dando continuidade à leitura comentada do Apelo aos conservadores (em sua Terceira parte - conduta dos positivistas em relação aos revolucionários).

No sermão continuamos a tratar de algumas leis científicas básicas, abordando antes o ensino crítico das ciências (ou seja, o ensino positivista propriamente dito).

A prédica foi transmitida nos canais Positivismo (https://youtube.com/live/zzCfNm_7WO8) e Igreja Positivista Virtual (https://www.facebook.com/IgrejaPositivistaVirtual/videos/1968395457140176).

As anotações que serviram de base para a exposição oral encontram-se reproduzidas abaixo.

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Leis científicas básicas – II

(13 de São Paulo de 172/2.6.2026) 

1.     Abertura da prédica

2.     Datas e celebrações

2.1.   Não temos celebrações nesta semana, mas vale a pena lembrarmos a Live AOP ocorrida em 8 de São Paulo (28.5.2026), com Luciano Alves, sobre o Movimento Brasil Laico

3.     Leitura comentada do Apelo aos conservadores

4.     Exortações

4.1.   Sejamos altruístas!

4.2.   Façamos orações!

4.3.   Como Igreja Positivista Virtual, ministramos os sacramentos positivos a quem tem interesse

4.4.   Para apoiar as atividades dos nossos canais e da Igreja Positivista Virtual: façam o Pix da Positividade! (Chave Pix: ApostoladoPositivista@gmail.com)

5.     Sermão: leis científicas básicas

5.1.   No sermão de hoje damos continuidade ao sermão que iniciamos na semana passada, sobre as leis naturais básicas

5.1.1. Para isso, seguimos o que nosso mestre apresentou na sétima conferência do Catecismo positivista, na parte do dogma dedicada à “ordem exterior, primeiro material, depois vital”: tratam-se, então, das leis das ciências inferiores: Matemática, Astronomia, Física, Química e Biologia

5.1.2. Por que queremos (re)apresentar essas leis? Porque com certa freqüência falamos do mundo, da realidade cósmica, das ciências inferiores etc. mas não temos clareza a respeito das leis próprias a cada ciência, ao âmbito de cada uma, nem mesmo dos principais nomes de cada uma delas

5.1.3. Na semana passada, vimos ou revimos algumas questões gerais preliminares:

5.1.3.1.          Por que o Positivismo teria começado como uma filosofia das ciências? O Positivismo tornou-se mais famoso devido à filosofia e à apreciação das ciências (por meio do Sistema de filosofia positiva, de 1830-1842), mas ele começou com a fundação da sociologia (em 1822-1824) e as preocupações sociais e seu objetivo era a reforma social

5.1.3.2.          Por que ele não é um cientificismo? O Positivismo rejeita a ciência pela ciência, afirma a necessidade de orientação social da ciência, a subordinação da inteligência aos sentimentos e às preocupações práticas: isso e muito mais distancia de maneira intensa o Positivismo do cientificismo (e do academicismo)

5.1.3.3.          Há espaço ou necessidade de considerações prévias à exposição das leis naturais? As considerações preliminares – como estas mesmas – são necessárias; várias delas foram organizadas na forma das leis da Filosofia Primeira, mas estas não esgotam as considerações prévias

5.1.4. Como já deve ter ficado claro na prédica anterior e como ficará ainda mais claro ao longo desta exposição, a apreciação positivista das ciências é uma apreciação “crítica”

5.1.4.1.          A gíria academicista-metafísica define a “apreciação crítica” como aquela que considera, por um lado, os fatores sociais, as motivações íntimas e sociopolíticas, os contextos e, por outro lado, a orientação subjetivista humana, a utilidade social etc.

5.1.4.2.          Evidentemente, a “orientação crítica” tem um viés destruidor (explícito ou, o mais das vezes, hipocritamente implícito), que o Positivismo rejeita

5.1.4.3.          A “orientação crítica” é crítica contra o Positivismo: além da má fé sistemática nesse procedimento, há também a criação e a disseminação de mitos e mentiras sobre o Positivismo

5.2.   Convém insistirmos em algumas outras idéias fundamentais:

5.2.1. O conhecimento das leis naturais impõe-se ao ser humano porque o mundo (ou seja, a realidade objetiva) impõe-se ao ser humano

5.2.1.1.          O conhecimento das leis é necessário para sabermos o que podemos e o que não podemos mudar: em um caso, com as leis modificamos o mundo conforme nossas possibilidades e necessidades; no outro caso, aceitamos e suportamos o jugo do mundo

5.2.1.2.          Dizermos que o “mundo (objetivo) impõe-se” é muito diferente de dizer (1) que a realidade não é modificável e (2) que o ser humano não possui vontade ou imaginação (ou seja, subjetividade)

5.2.2. Se o mundo impõe-se ao ser humano, já as interpretações que fazemos do mundo (ou seja, a subjetividade humana em ação) variam de acordo com as possibilidades e a acumulação histórica – de acordo com a lei intelectual dos três estados

5.2.2.1.          Dessa forma, embora tenhamos que lidar com o mundo, a maneira como lidamos muda com o tempo

5.2.2.2.          As primeiras interpretações lidam com o mundo considerando-o um ser humano diferente: é o fetichismo; depois, considera-se que o mundo é sem vida, movido por entidades variadas com vontades caprichosas: buscamos determinar e influenciar essas vontades (via súplicas e/ou ameaças), na teologia; finalmente, reconhecemos que o mundo tem atividade própria, um ordenamento que ocorre independentemente da vontade humana e que, conhecendo esse ordenamento, podemos modificar muito (embora não infinitamente) o mundo: é a positividade

5.2.3. O conhecimento das leis é necessário por questões intelectuais (conhecer o mundo e torná-lo inteligível) e por questões práticas (mudar o mundo conforme nossas possibilidades e necessidades)

5.2.3.1.          Embora o ser humano possa conhecer muitas leis, de verdade não são todas elas que precisam ser conhecidas: a positividade, por meio da utilidade, evita esse impulso ao mesmo tempo cientificista e academicista

5.2.3.2.          O cientificismo e o academicismo afirmam que precisamos conhecer todas de todas as leis, mesmo avançando orgulhosamente para a investigação absolutista das “causas”: sem medir palavras, temos que dizer que isso é uma estupidez sem tamanho

5.2.4. Restringir o conhecimento das leis naturais às nossas necessidades tem conseqüências práticas (não precisamos nem devemos buscar todas as leis), mas, principalmente, também tem conseqüências pedagógicas

5.2.4.1.          Ao contrário do que nos atribui com os habituais preconceitos e má vontade a pedagogia metafísica (“crítica”), no que se refere às leis naturais o ensino positivista afirma, por um lado, os parâmetros de positividade (ou seja, a apreciação filosófica e sociológica das ciências) e, por outro lado, leis naturais básicas (novamente, a partir da utilidade moral, intelectual e prática)

5.2.4.2.          Dito de outra forma, o ensino positivista não é uma coleção infindável de dados concretos, acumulados e decorados pelo suposto prazer de decorar e sem outro objetivo além de decorá-los: o ensino positivista é filosófico, tem por parâmetro a subjetividade humana e tem por meta a utilidade moral, intelectual e prática

5.2.5. Vejamos agora as leis naturais, conforme apresentadas no Catecismo positivista

5.3.   Matemática

5.3.1. As leis mais simples, mais gerais e mais grosseiras são as matemáticas; elas referem-se ao número, à extensão e ao movimento, ou seja, à quantidade, ao tamanho e ao movimento – donde: álgebra, geometria e mecânica

5.3.1.1.          A álgebra, a geometria e a mecânica constituem, para nosso mestre, três ciências distintas, mais que três partes de uma única grande ciência

5.3.1.2.          Há uma progressão lógica e histórica da álgebra à mecânica, passando pela geometria, com aumento da complicação

5.3.2. Algumas características filosóficas e científicas dessas ciências:

5.3.2.1.          Tudo o que não apresenta essas características (quantidade, extensão e movimento) existe apenas em nossa mente (ou em nosso coração)

5.3.2.2.          Os números aplicam-se aos seres (concretos, objetivos) e aos fenômenos (abstratos, subjetivos); por isso, eles são o único fenômeno plenamente universal

5.3.2.3.          A álgebra permite o desenvolvimento da dedução

5.3.2.4.          A extensão e o movimento referem-se diretamente aos seres reais: é com elas que a matemática funda a teoria da existência universal

5.3.2.5.          Com a mecânica há uma transição da matemática à física; em particular, há a afirmação clara e o desenvolvimento da indução, isto é, das pesquisas empíricas

5.4.   Mecânica (ainda no domínio matemático):

5.4.1. A mecânica apresenta três leis gerais do movimento, que permitem o tratamento matemático (dedutivo) geral da realidade:

5.4.1.1.          Primeira lei do movimento: descoberta por Kepler, estabelece que todo movimento tende a ser retilíneo e uniforme; os movimentos curvilíneos originam-se de impulsos sucessivos

5.4.1.2.          Segunda lei do movimento: descoberta por Galileu, estabelece que os movimentos particulares de alguns corpos são independentes dos movimentos que todos os corpos de um conjunto sofrem ao mesmo tempo; essa lei regula a composição dos movimentos

5.4.1.3.          Terceira lei do movimento: descoberta por Newton, estabelece a equivalência entre ação e reação em choques mecânicos, desde que se tome na devida conta as velocidades e as massas; essa lei regula a transmissão dos movimentos

5.4.2. Essas três leis permitem entender tanto o mundo material como também o mundo humano: a lei de Kepler é a base da lei da permanência; a lei de Galileu é a base da independência das ações individuais em meio aos esforços comuns (donde a conciliação da ordem com o progresso); a lei de Newton pode ser aplicada de maneira universal e direta

5.5.   Física:

5.5.1. O nome geral da “física” divide-se em três grandes ciências (astronomia, física propriamente e química)

5.5.1.1.          No âmbito geral da física, passa-se de um nível para o outro de maneira espontânea e natural; são as aplicações práticas que distinguem de maneira mais específica cada uma delas

5.5.2. A astronomia estuda as relações da Terra com os astros que podem modificar sua situação (em particular, o Sol, a Lua e os cinco planetas tradicionais (Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno)); assim, são estudos geométricos e mecânicos

5.5.2.1.          Na positividade, a Terra ocupa subjetivamente o centro, enquanto na teologia ela ocupava objetivamente o centro

5.5.2.2.          O duplo movimento terrestre é essencial aqui: a rotação diária (ao redor do próprio eixo) e a translação anual (ao redor do Sol)

5.5.2.2.1.              A gravitação universal é o complemento teórico dessa teoria astronômica

5.5.2.3.          O duplo movimento terrestre foi a teoria que pôs por terra os dogmas teológicos, ao afirmar sem dúvidas o relativismo do conhecimento humano, contra o absolutismo teológico

5.5.3. A física propriamente dita surgiu com Galileu como transição entre a astronomia e a química

5.5.3.1.          Basicamente, a física e a química andam juntas ou próximas

5.5.3.2.          A física examina as propriedades propriamente físicas de todos os corpos (considerados como relativamente iguais entre si) e, em particular, as propriedades dos corpos que são inspiradas pelos sentidos (pressão, calor, eletrição, som etc.); já a química examina as leis de composição e decomposição dos corpos e as relações que essas composições mantêm entre si, considerando todos os corpos como diferentes entre si

5.5.3.3.          A física permitiu o desenvolvimento decisivo da indução, pela observação sistemática e pela experimentação; já a química permitiu o conhecimento efetivo da composição do mundo (incluindo o ar e a água) e também dos seres vivos; com isso, a química realizou a transição do conhecimento (e do entendimento) do mundo físico para o mundo vivo e, daí, para o ser humano

5.6.   Biologia:

5.6.1. As considerações de Augusto Comte sobre a biologia, no Catecismo positivista, são maiores que as sobre as outras ciências

5.6.1.1.          Isso se deve à importância do tema (como veremos, entre outros aspectos, a biologia estabelece a ligação entre o ser humano e o mundo físico, ou seja, entre o homem e o mundo), mas também se deve a que nosso mestre tinha um amplo conhecimento da biologia de sua época

5.6.2. Há vários aspectos da biologia que são importantes para a compreensão humana da vida e dos vínculos entre o mundo e o ser humano:

5.6.2.1.          O princípio básico para entender a biologia consiste em que as funções mais nobres subordinam-se às mais grosseiras; assim, a humanidade e, antes, a animalidade subordinam-se à vegetalidade, ou a vida de relação subordina-se à vida de nutrição: daí os fenômenos da vida ligam-se aos fenômenos físicos

5.6.2.2.          O único fenômeno biológico comum a todas as formas de vida deve-se a Bichat e consiste na composição e recomposição contínua dos organismos vivos; esse processo aproxima os seres vivos dos fenômenos químicos

5.6.2.3.          Os vegetais produzem seus alimentos diretamente da química; já os animais obtêm seus alimentos a partir de seres vivos: daí decorre a aptidão animal para discernir os alimentos e a faculdade de apreendê-los, donde sensibilidade, contratilidade e, no meio, os instintos

5.6.2.4.          A base geral de estudos da biologia refere-se aos vegetais; é a parte que realiza a transição entre os seres inanimados e os seres vivos e é a única parte que poderia ser plenamente desvinculada da sociologia (ou seja, do estudo específico do ser humano)

5.6.2.5.          A continuidade dos seres vivos é estabelecida pela escala subjetiva dos seres vivos, elaborada desde Aristóteles até Blainville, que vai dos mínimos vegetais aos seres humanos

5.6.2.6.          A escala específica dos animais serve principalmente como preparação para o estudo do ser humano; assim, as qualidades sociológicas e morais dos seres humanos são esboçadas nos animais superiores (e nas aves)

5.6.3. Augusto Comte determina sete leis biológicas gerais (três da vegetalidade, três da animalidade e uma sétima que sintetiza as anteriores):

5.6.3.1.          Três leis da vegetalidade:

5.6.3.1.1.              Todo ser vivo está sujeito à contínua renovação material

5.6.3.1.2.              Lei do desenvolvimento e do declínio, culminando na morte (que é um fenômeno à parte)

5.6.3.1.3.              Lei da reprodução, em que a espécie compensa a destruição dos indivíduos; esta lei resume o conjunto da vegetalidade

5.6.3.2.          Três leis da animalidade:

5.6.3.2.1.              Necessidade alternada de exercício e descanso

5.6.3.2.2.              Tendência de toda atividade intermitente virar habitual, ou seja, tendência a todo movimento permanecer após cessados os fatores que o originaram (lei do hábito); daí se segue o impulso à imitação

5.6.3.2.3.              Lei do aperfeiçoamento estático e dinâmico: o uso mantém e fortalece os órgãos, o desuso enfraquece-os; esta lei resume o conjunto da animalidade

5.6.3.3.          Lei final: lei da hereditariedade: as funções e os aperfeiçoamentos são transmitidos para as gerações futuras

5.7.   Para concluir: o objetivo desta prédica e da anterior não foi dar uma “aula de ciências”, mas apenas indicar algumas leis científicas elementares

5.7.1. O objetivo dessa exposição, além de apresentar as leis em si mesmas, foi indicar em que consiste a positividade (incluindo aí, em particular, o subjetivismo e o relativismo)

6.     Término da prédica

 

Referências

- Auguste Comte (franc.), Síntese subjetiva (Paris, Exécution Téstamentaire d’Auguste Comte, 2ª ed., 1900): https://archive.org/details/lasynthsesubjec00comtgoog.

- Augusto Comte (franc.), Sistema de filosofia positiva (Paris, Bachelier, 1838), v. 3, 45e leçon (“Considérations générales sur l’étude positive des fonctions intellectuelles et morales, ou cérébrales”).

- Augusto Comte (franc.), Sistema de política positiva (Paris. J.-B. Baillière, 4ª ed., 1880): https://archive.org/details/systmedepoliti01comt.

- Augusto Comte (port.), Apelo aos conservadores (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores.

- Augusto Comte (port.), Catecismo positivista (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 4ª ed., 1934).

- Gustavo Biscaia de Lacerda (port.), Prédica positiva “Cientificismo e epistemologia” (Curitiba, 6.São Paulo.172/26.5.20026): https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2026/05/cientificismo-e-epistemologia.html.

- José Lonchampt (port.), Ensaio sobre a oração (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1896; catálogo da IPB, n. 165): https://archive.org/details/n.-165-jose-lonchampt-ensaio-sobre-a-oracao.

- Luís Lagarrigue (esp.), A poesia positivista (Santiago do Chile, 1890): https://archive.org/details/luis-lagarrigue-a-poesia-positivista-1890_202509.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), As últimas concepções de Augusto Comte (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-i e https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-ii.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), O ano sem par (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1900): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-o-ano-sem-par-portug._202312/page/n7/mode/2up

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