A postagem abaixo corresponde a uma resposta editada que demos para um positivista; a questão geral é: os animais pensam? Como essa questão é importante, cremos que, modestamente, vale a pena compartilharmos a resposta.
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| Autoria: GPT, 8.4.2026. |
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Essa é uma questão fundamental, seja para entendermos o mundo, seja para entendermos o ser humano, seja para entendermos os animais, seja, por fim, para regularmos a ação humana no mundo.
Temos que lembrar que a “inteligência” é a combinação de vários fatores.
Em primeiro lugar, o ser humano não existe como ser vivo isolado e que ele não surgiu “pronto”; nós somente somos o que somos porque consistimos no grau máximo de uma evolução que aconteceu antes de nós. Em outras palavras, os atributos que o ser humano apresenta são necessariamente compartilhados pelos animais superiores (o que abrange principalmente os mamíferos e as aves); a diferença é de grau, não de qualidade.
Em segundo lugar, o entendimento que temos da realidade baseia-se nas relações (no “comércio”, como se dizia) entre os impulsos externos objetivos e o funcionamento interno subjetivo. A subjetividade apresenta inúmeros sentidos, todos eles inter-relacionados, mas distintos: sentimentos, funcionamento cerebral autônomo, sensibilidade neurológica interna, imaginação, valores e práticas sociais compartilhados. Novamente: é da relação entre os impulsos do ambiente com a atividade de cada ser vivo que se desenvolve a subjetividade e, a partir daí, os sentimentos e a inteligência. Dito de outra forma, a subjetividade desenvolve-se em parte em resposta ao ambiente, ou seja, adequada ao ambiente. (Reiterando o que dissemos acima: isso é válido para os animais superiores e para o homem.)
A partir da interação entre o ambiente objetivo e o corpo subjetivo, temos que o ser humano (e os animais superiores) é movido por três lógicas, isto é, por três conjuntos de grandes princípios: os sentimentos, as imagens e os sinais. A bem da verdade, só os sentimentos são “motores”; as imagens e os sinais são instrumentos para entendermos a realidade e, a partir disso, para agirmos.
A inteligência, então, corresponde ao entendimento que se tem da realidade para atuar nela. Não se trata de raciocínios lógico-matemáticos nem de pesquisas de laboratório (embora, em um sentido muito, muito, muito amplo, possa ser chamado de “conhecimento científico”).
Por fim, além disso, nem os animais superiores nem o ser humano atuam de maneira mecânica, com automatismos; a nossa subjetividade e o funcionamento interno autônomo existem de verdade e permitem-nos entendermos a realidade, termos vontades próprias, refletirmos sobre o que existe e, a partir daí, agirmos.
A rejeição da autonomia animal tem origem teológica, é repetida pelos metafísicos e continua valendo hoje em dia, sob os mais diferentes nomes e rótulos. Entre os metafísicos, essa tolice é compartilhada seja pelos materialistas, seja pelos espiritualistas; os primeiros a partir da hipótese mecanicista de Descartes, os segundos a partir mais clara e diretamente dos preconceitos teológicos.
A resposta acima combina vários elementos filosóficos e científicos: as reflexões de Augusto Comte a respeito da metafísica psicológico-ideológica, os resultados da neurociência, reflexões sobre a evolução humana, reflexões sobre as relações do ser humano (e, de modo mais amplo, dos seres vivos) com o ambiente, as leis de Filosofia Primeira, as reflexões sobre a subjetividade (sobre os sentimentos, sobre a inteligência, sobre o desenvolvimento histórico das idéias, sobre a imaginação). Não nos aprofundamos nos temas do desenvolvimento histórico-sociológico das idéias e da autonomia da subjetividade porque exigiria muitos mais comentários, cuja importância seria, além disso, um tanto indireta.
O trecho abaixo de Augusto Comte, escrito em 1838, é cristalino e, se tivesse sido levado mais a sério, teria evitado nos últimos 200 anos uma quantidade enorme de erros e mal-entendidos. (Ele está disponível aqui: https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2026/04/augusto-comte-metafisica-psicologico.html.)
A palavra instinto não possui, em si mesma, outro sentido fundamental senão o de designar toda impulsão espontânea em direção determinada, independentemente de qualquer influência externa; nesse sentido primitivo, aplica-se evidentemente à atividade própria e direta de qualquer faculdade, tanto das faculdades intelectuais quanto das afetivas. Ela não se opõe, portanto, de modo algum ao termo inteligência, como se observa quando se fala daqueles que, sem qualquer educação, manifestam um talento pronunciado para a música, a pintura, as matemáticas etc. Sob esse ponto de vista, há certamente instinto – ou melhor, instintos – tanto e mesmo mais no homem do que nos animais. Se, por outro lado, caracterizarmos a inteligência pela aptidão de modificar a própria conduta conforme as circunstâncias de cada caso – o que constitui, de fato, o principal atributo prático da razão propriamente dita – torna-se ainda evidente que, sob esse aspecto, assim como sob o anterior, não há motivo para estabelecer, entre humanidade e animalidade, qualquer diferença essencial além daquela de grau mais ou menos desenvolvido de uma faculdade que é, por sua natureza, comum a toda vida animal e sem a qual não se poderia sequer conceber sua existência.
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