29 abril 2026

Sentimentos e inteligência dos animais

No dia 6 de César de 172 (28.4.2026) realizamos nossa prédica positiva, dando continuidade à leitura comentada do Apelo aos conservadores (em sua Terceira Parte - Conduta dos positivistas em relação aos revolucionários).

No sermão abordamos o tema dos sentimentos e da inteligência dos animais.

A prédica foi transmitida nos canais Positivismo (https://youtube.com/live/W9irV_EM0Nw) e Igreja Positivista Virtual (https://www.facebook.com/IgrejaPositivistaVirtual/videos/1632693707946642).

As anotações que serviram de base para a exposição oral encontram-se reproduzidas abaixo.

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Os animais pensam (e sentem)?

(6 de César de 172/28.4.2026) 

1.     Abertura da prédica

2.     Datas e celebrações

2.1.   23 de abril a 20 de maio: mês de César – quinto mês do ano, a civilização militar

2.2.   Dia 2 de César (24.4): nascimento de Jean-François Eugène Robinet (1825 – 201 anos)

3.     Pesar pelo episódio lamentável em que o Guardião do Templo da Humanidade do Rio Grande do Sul, Érlon Jacques de Oliveira, sofreu várias facadas no dia 1º de César (23.4)

3.1.   As facadas foram dadas pelo filho da locadora do imóvel que fica nos fundos do terreno da Igreja Positivista do Rio Grande do Sul

3.2.   Tendo sido atingido no abdômen, Érlon foi para o hospital, internado na UTI e, no momento em que escrevemos, encontra-se em boas condições

4.     Leitura comentada do Apelo aos conservadores

5.     Exortações

5.1.   Sejamos altruístas!

5.2.   Façamos orações!

5.3.   Como Igreja Positivista Virtual, ministramos os sacramentos positivos a quem tem interesse

5.4.   Para apoiar as atividades dos nossos canais e da Igreja Positivista Virtual: façam o Pix da Positividade! (Chave Pix: ApostoladoPositivista@gmail.com)

6.     Sermão: os animais pensam (e sentem)?

6.1.   O sermão desta semana foi motivado por uma conversa com o Eugênio Macedo há algumas semanas, em que ele perguntou de fato se os animais pensam e sentem

6.1.1. Assim, este sermão baseia-se em algumas postagens do blogue, seja sobre os sentimentos dos animais, seja sobre as críticas de Augusto Comte às metafísicas psicológico-ideológicas

6.1.2. O grosso das reflexões baseia-se no último capítulo do v. 3 da Filosofia positiva de nosso mestre, publicado em 1838; esse volume foi dedicado ao exame da Biologia e esse capítulo em particular tem por título “Considérations générales sur l’étude positive des fonctions intellectuelles et morales, ou cérébrales”, isto é, “Considerações gerais sobre o estudo positivo das funções intelectuais e morais, ou cerebrais”

6.1.3. Além desse capítulo, basear-nos-emos em vários capítulos e volumes da Política positiva (publicados entre 1851 e 1854), especialmente o v. 1, cap. 3 – publicado em 1851, cujo título é “Introduction directe, naturellement syntéthique, ou Biologie” (“Introdução direta, naturalmente sintética, ou Biologia”)

6.1.4. As indicações que faremos neste sermão não têm a pretensão de esgotar o assunto; o que desejamos fazer é apenas (1) afirmar a realidade, que deveria ser evidente, de que os animais têm, sim, sentimentos e inteligência e (2) apresentar os argumentos históricos, filosóficos e biológicos que comprovam essa concepção

6.2.   A questão dos sentimentos e da inteligência dos animais é fundamental, (1) para entendermos o mundo, (2) para entendermos o ser humano, (3) para entendermos os animais e (4), por fim, para regularmos a ação humana no mundo

6.2.1. Para além da importância intelectual e filosófica, é impressionante o quanto a questão dos sentimentos e da inteligência dos animais desperta interesse – e, mais do que isso, entre os positivistas ela desperta vivas simpatias

6.3.   Sobre a inteligência dos animais, antes de mais nada temos que lembrar que aquilo que chamamos de “inteligência”, na verdade, é a combinação de vários fatores e elementos

6.3.1. Em primeiro lugar, o ser humano não existe como ser vivo isolado; ele não surgiu “pronto”

6.3.1.1.          Nós somente somos o que somos porque consistimos no grau máximo de uma evolução que aconteceu antes de nós

6.3.1.2.          Em outras palavras, os atributos que o ser humano apresenta são necessariamente compartilhados pelos animais superiores (o que abrange principalmente os mamíferos e as aves): a diferença é de grau, não de qualidade

6.3.2. Em segundo lugar, o entendimento que temos da realidade baseia-se nas relações (no “comércio”, como se dizia) entre os impulsos externos objetivos e o funcionamento interno subjetivo

6.3.2.1.          Como dizia Leibniz e como nosso mestre estabeleceu na Filosofia Primeira (quarta lei), “não existe nada na inteligência que não provenha dos sentidos, exceto a própria inteligência”[1]

6.3.2.2.          O que chamamos de “subjetividade” apresenta inúmeros sentidos, todos eles inter-relacionados, mas distintos: (1) sentimentos, (2) funcionamento cerebral autônomo, (3) sensibilidade neurológica interna, (4) imaginação, (5) valores e práticas sociais compartilhados – e (6) a chamada “inteligência”

6.3.2.3.          Novamente: é da relação entre os impulsos do ambiente com a atividade de cada ser vivo que se desenvolve a subjetividade e, a partir daí, os sentimentos e a inteligência. Dito de outra forma, a subjetividade desenvolve-se em parte em resposta ao ambiente, ou seja, ela é “adequada” ao ambiente

6.3.2.3.1.              Reiterando o que dissemos acima: isso é válido para os animais superiores e, portanto, para o homem; nada existe no ser humano que já não exista antes nos animais superiores

6.3.3. A partir da interação entre o ambiente objetivo e o corpo subjetivo, temos que o ser humano e os animais superiores são movidos por três lógicas, isto é, por três conjuntos de grandes princípios: os sentimentos, as imagens e os sinais

6.3.3.1.          A bem da verdade, só os sentimentos são “motores”; as imagens e os sinais são instrumentos para entendermos a realidade e, a partir disso, para agirmos

6.3.3.2.          A divisão que fazemos entre sentidos/sentimentos e inteligência é necessária (na medida em que são habilidades distintas entre si), mas, a bem da verdade, esses dois elementos correspondem um sistema único de interação recíproca do organismo com o ambiente, em que os corpos sentem a pressão externa, avaliam-na e (re)agem sobre ela

6.3.4. O resultado das indicações acima é que a inteligência, então, corresponde ao entendimento que se tem da realidade para atuar nela

6.3.4.1.          Não se trata de raciocínios lógico-matemáticos nem de pesquisas de laboratório – embora, em um sentido muito, muito, muito amplo, possa ser chamado de “conhecimento científico”

6.3.5. Por fim, além disso, nem os animais superiores nem o ser humano atuam de maneira mecânica, com automatismos

6.3.5.1.          A nossa subjetividade e o funcionamento interno autônomo existem de verdade e permitem-nos entendermos a realidade, termos vontades próprias, refletirmos sobre o que existe e, a partir daí, agirmos

6.3.5.2.          Nos animais superiores, é tão real a ausência de automatismos, por um lado, e a realidade dos sentimentos e da inteligência, por outro lado, que eles brincam e sentem o tédio

6.3.5.2.1.              Nosso mestre em uma passagem da Filosofia positiva assinala o tédio animal e, em outra passagem da Política positiva, nota que os leões enjaulados ficam deprimidos:

[...] Uma verdadeira disciplina afetiva, que deve sempre ser livre para tornar-se plenamente eficaz. É fácil senti-lo comparando o estado moral de um cão doméstico com o de um leão cativo. Quando uma longa experiência inspira ao segundo uma passiva resignação, a unidade moral não existe absolutamente nele: ele flutua sem cessar entre uma luta indefesa e um ignóbil torpor. Ao contrário, o desenvolvimento afetivo do primeiro torna-se direto e contínuo tão logo ele pode subordinar seus pendores egoístas a seus instintos simpáticos (Política, v. II, p. 15)[2]

6.4.   Resumindo e insistindo em três idéias gerais:

6.4.1. O ser humano não existe à parte da realidade (em particular, no presente caso, da realidade biológica): nós somos apenas o desenvolvimento máximo de um processo evolutivo que compartilhamos com os animais superiores;

6.4.2. Nós (“nós” = seres humanos e animais superiores) vivemos em interação com o ambiente, combinando a dinâmica interna autônoma com as pressões do ambiente, ao mesmo tempo em que exercemos pressão sobre o ambiente;

6.4.3. Os sentimentos são os motores internos e a inteligência é um instrumento de que nos valemos para conhecer o ambiente e agir sobre ele

6.5.   É importante afirmarmos com todas as letras que a rejeição dos sentimentos e da inteligência dos animais tem origem teológica, é repetida pelos metafísicos e continua valendo hoje em dia, sob os mais diferentes nomes e rótulos

6.5.1. Em termos teológicos, para os judeus e os cristãos o mundo foi criado à parte do ser humano, para usufruto do ser humano; o “sopro da vida” e o Verbo são exclusivos do ser humano

6.5.1.1.          A combinação do sopro da vida com o Verbo corresponde à “alma”, que se torna exclusiva dos seres humanos

6.5.1.2.          Em conseqüência disso, os teológicos judaico-cristãos dizem, literalmente, que os animais não têm “alma” (mas têm “um tipo de consciência”)

6.5.1.3.          É claro que, como de modo geral ocorre com a teologia, a sabedoria prática do sacerdócio com freqüência suplantou (como suplanta) os preconceitos teóricos, como nos belos exemplos de São Francisco de Assis e, mais recentemente, do Papa Francisco

6.5.2. Entre os metafísicos, essa tolice é compartilhada seja pelos materialistas, seja pelos espiritualistas; os primeiros a partir da hipótese mecanicista de Descartes, os segundos a partir mais clara e diretamente dos preconceitos teológicos

6.5.2.1.          A referência a Descartes não é para desvalorizarmo-lo: em seu esforço para positivar as concepções humanas, ele não tinha como não ser metafísico (fosse mecanicista em relação aos animais, fosse espiritualista a respeito do ser humano)

6.5.2.1.1.              Se Descartes não tinha como não ser metafísico, coisa muito diferente ocorre com os pensadores que vieram após ele, especialmente depois das pesquisas de Bichat, Gall e Augusto Comte, do século XIX em diante

6.5.2.2.          A metafísica mecanicista é exemplificada pelo comportamentalismo de Skinner, para quem os animais não têm subjetividade (ou não têm de fato ou agem como se não tivessem)

6.5.2.3.          O espiritualismo metafísico, de origem mais claramente teológica, é evidente entre os neokantianos alemães (Max Weber e seus êmulos), para quem há uma separação radical entre o ser humano e a natureza, incluindo aí os animais; o traço distintivo do ser humano para eles é a “cultura”, isto é, a subjetividade e a inteligência: essas concepções são versões um pouco secularizadas do mito judaico-cristão da criação do mundo em seis dias e da exclusividade humana do sopro e do Verbo

6.5.3. Como falamos em “alma”, algumas rápidas observações são necessárias:

6.5.3.1.          A concepção teológico-metafísica da alma, evidentemente, é apenas uma ficção sobrenatural: não existe essa coisa etérea, fumacenta, incorpórea, que entra nos corpos e fá-los moverem-se (e que, ainda por cima, atribui-se a ela a condição de participação na/da divindade!)

6.5.3.2.          A concepção positiva de alma consiste no conjunto das funções do cérebro, desenvolvidas ao longo do tempo primeiramente em termos biológicos e, no caso do ser humano, depois e principalmente em termos sociológicos e morais

6.5.3.3.          A concepção positiva de alma rejeita, por ser irracional e imoral, a pretensa divisão teológico-metafísica entre moralidade e “espiritualidade”

6.6.   O que comentamos até agora evidentemente combina vários elementos filosóficos e científicos: as reflexões de Augusto Comte a respeito da metafísica psicológico-ideológica, os resultados da neurociência, reflexões sobre a evolução humana, reflexões sobre as relações do ser humano (e, de modo mais amplo, dos seres vivos) com o ambiente, as leis de Filosofia Primeira, as reflexões sobre a subjetividade (sobre os sentimentos, sobre a inteligência, sobre o desenvolvimento histórico das idéias, sobre a imaginação)

6.6.1. Devemos notar que consideramos apenas a Biologia, deixando de lado a Sociologia, ou seja, o desenvolvimento histórico-sociológico das idéias e da autonomia da subjetividade: isso exigiria muitos mais comentários, cuja importância seria, além disso, um tanto indireta

6.7.   O trecho abaixo de Augusto Comte, escrito em 1838, é cristalino e, se tivesse sido levado mais a sério, teria evitado nos últimos 200 anos uma quantidade enorme de erros, mal-entendidos e más ações:

A palavra instinto não possui, em si mesma, outro sentido fundamental senão o de designar todo impulso espontâneo em uma direção determinada, independentemente de qualquer influência externa; nesse sentido primitivo, aplica-se evidentemente à atividade própria e direta de qualquer faculdade, tanto das faculdades intelectuais quanto das afetivas. Ela não se opõe, portanto, de modo algum ao termo inteligência, como se observa quando se fala daqueles que, sem qualquer educação, manifestam um talento pronunciado para a música, a pintura, a matemática etc. Sob esse ponto de vista, há certamente instinto – ou melhor, instintos – tanto e mesmo mais no homem do que nos animais. Se, por outro lado, caracterizarmos a inteligência pela aptidão de modificar a própria conduta conforme as circunstâncias de cada caso – o que constitui, de fato, o principal atributo prático da razão propriamente dita – torna-se ainda evidente que, sob esse aspecto, assim como sob o anterior, não há motivo para estabelecer, entre humanidade e animalidade, qualquer diferença essencial além daquela de grau mais ou menos desenvolvido de uma faculdade que é, por sua natureza, comum a toda vida animal e sem a qual não se poderia sequer conceber sua existência.

6.8.   Os animais devem ser valorizados e respeitados

6.8.1. Este sermão aborda os sentimentos e a inteligência dos animais – que, como vemos, são atributos necessariamente compartilhados pelos seres humanos com (em particular) os animais superiores e as aves

6.8.1.1.          O que queríamos apresentar hoje já foi apresentado; ainda assim, cremos que vale a pena expor uma ou duas reflexões adicionais, em particular no sentido de indicar que a Religião da Humanidade valoriza efetiva e necessariamente os animais

6.8.2. A primeira indicação adicional consiste em que os animais correspondem não somente a nossos companheiros de destino no planeta, mas também são nossos auxiliares – e, por isso, merecem mesmo respeito e dignificação

6.8.2.1.          O filme “Sempre ao seu lado” (dirigido por Lasse Hällstrom, de 2009) apresenta a grata e alegre devoção de um cachorro por seu dono, mesmo e principalmente após a transformação desse dono

6.8.2.1.1.              O filme é ambientado nos Estados Unidos dos anos 2000, mas a história original, que inspirou o filme, ocorreu no Japão dos anos 1920: o cachorro original recebeu uma estátua lá

6.8.2.2.          O trecho abaixo de nosso mestre é decisivo a respeito das possíveis homenagens que os animais podem receber da Humanidade:

“A propósito da incorporação dos animais: ‘A objeção principal de vossa primeira carta merece mais atenção, posto que eu pense também que a mesma leitura (isto é, do 4.° vol. da Política Positiva) vai em breve dissipá-la. Talvez, que ela me determine a pôr uma explicação especial sobre esse tópico, em caso de nova edição do Catecismo Positivista. Importa que o positivismo reerga os animais associáveis do desdém inspirado pelo monoteísmo, sobretudo ocidental; porquanto o islamismo acha-se, a este respeito, como a muitos outros, muito mais próximo do estado normal. Mas não creio que isso possa nunca fazer com que alguém receie qualquer assimilação degradante dos servidores diretos do Grande Ser ao seus auxiliares indiretos. Todas as honras merecidas por estes são ordinariamente privadas, mesmo em seus serviços. Contudo, eles podem excepcionalmente obter uma glorificação pública, em caso de devotamento eficacíssimo para com um digno servidor. Vossa respeitosa advertência faz-me ver a necessidade de não deixar implícito semelhante esclarecimento num opúsculo destinado naturalmente a leitores que, em sua maioria, não conhecerão o principal tratado’ (Lettres à Hutton, p. 43.)” (Catecismo positivista, Nota de Miguel Lemos à Quarta Conferência, 1934, 4ª ed., p. 467-468)

6.8.3. Além disso, assim como o ser humano tornou-se a espécie preponderante no planeta (devido ao seu intenso aspecto social), se nós não existíssemos, ou se tivéssemos sido extintos, alguma outra espécie ter-se-ia tornado dominante: essa outra espécie pode ser entendida como uma outra Humanidade, mas abortada:

“Porém o conjunto dos animais suscetíveis de formarem uma verdadeira série nos oferecerá sempre um profundo interesse abstrato, para esclarecermos o estudo geral de todas as nossas funções inferiores, acompanhando cada uma delas em sua simplificação e complicação graduais. A humanidade não constituindo, no fundo, senão o principal grau da animalidade, as mais elevadas noções da sociologia, e mesmo da moral, encontram necessariamente na biologia seu primeiro esboço, para os espíritos verdadeiramente filosóficos que sabem apanhá-las aí. Nossa concepção teórica mais sublime se torna, assim, mais apreciável, quando se considera cada espécie animal como um Grande Ser mais ou menos abortado, em virtude da inferioridade de sua própria organização e do surto do predomínio humano. Porque a existência coletiva constitui sempre a tendência necessária da vida de relação que caracteriza a animalidade. Mas este resultado geral não pode, sobre um mesmo planeta, desenvolver-se assaz senão em uma só das espécies sociais” (Catecismo positivista, Sétima Conferência, 1934, 4ª ed., p. 236-237)[3]

6.9.   Em suma:

6.9.1. Retomamos e reafirmamos mais uma vez três idéias gerais:

6.9.1.1.          O ser humano não existe à parte da realidade: nós somos apenas o desenvolvimento máximo de um processo evolutivo que compartilhamos com os animais superiores

6.9.1.2.          Nós (seres humanos e animais superiores) vivemos em interação com o ambiente, combinando a dinâmica interna autônoma com as pressões do ambiente, ao mesmo tempo em que exercemos pressão sobre o ambiente

6.9.1.3.          Os sentimentos são os motores internos e a inteligência é um instrumento de que nos valemos para conhecer o ambiente e agir sobre ele

6.10.               A desvalorização dos animais é principalmente devida à teologia (em particular a cristã), que separa radicalmente o ser humano dos animais, a partir da crença fictícia na “alma”

6.10.1.   A partir da crença na “alma”, a teologia degrada-se na metafísica, que, por sua vez, continua desvalorizando os animais, seja na metafísica materialista (com o mecanicismo), seja na metafísica espiritualista (com a secularização direta da teologia, resultando em concepções como o “Espírito”)

7.     Término da prédica

 

Referências

- Auguste Comte (franc.), Síntese subjetiva (Paris, Exécution Téstamentaire d’Auguste Comte, 2ª ed., 1900): https://archive.org/details/lasynthsesubjec00comtgoog.

- Augusto Comte (franc.), Sistema de filosofia positiva (Paris, Bachelier, 1838), v. 3, 45e leçon (“Considérations générales sur l’étude positive des fonctions intellectuelles et morales, ou cérébrales”).

- Augusto Comte (franc.), Sistema de política positiva (Paris. J.-B. Baillière, 4ª ed., 1880): https://archive.org/details/systmedepoliti01comt.

- Augusto Comte (port.), Apelo aos conservadores (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores.

- Augusto Comte (port.), Catecismo positivista (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 4ª ed., 1934).

- Gustavo Biscaia de Lacerda (port.), Afinal, os animais pensam (e sentem)? Filosofia Social e Positivismo, Curitiba, 8.abr.2026: https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2026/04/afinal-os-animais-pensam-e-sentem.html.

- Gustavo Biscaia de Lacerda (port.), Augusto Comte: metafísica psicológico-ideológica, inteligência dos animais e “observação interior”. Filosofia Social e Positivismo, Curitiba, 8.abr.2026: https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2026/04/augusto-comte-metafisica-psicologico.html.

- José Lonchampt (port.), Ensaio sobre a oração (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1896; catálogo da IPB, n. 165): https://archive.org/details/n.-165-jose-lonchampt-ensaio-sobre-a-oracao.

- Luís Lagarrigue (esp.), A poesia positivista (Santiago do Chile, 1890): https://archive.org/details/luis-lagarrigue-a-poesia-positivista-1890_202509.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), As últimas concepções de Augusto Comte (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-i e https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-ii.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), O ano sem par (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1900): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-o-ano-sem-par-portug._202312/page/n7/mode/2up.



[1] A quarta lei da filosofia primeira tem este enunciado: “Subordinar as construções subjetivas aos materiais objetivos (Aristóteles, Leibnitz, Kant)” (Augusto Comte. Catecismo positivista ou sumária exposição da Religião da Humanidade. 4ª ed. Rio de Janeiro: Apostolado Positivista do Brasil, 1934, p. 479).

[2] “[...] Une véritable discipline affective, qui doit toujours être libre pour devenir pleinement efficace. Il est aisé de le sentir en comparant l’état moral d’un chien domestique avec celui d’un lion captif. Quand une longue expérience inspire au second une passive résignation, l’unité morale n’existe point en lui : il flotte sans cesse entre une lutte impuissante et une ignoble torpeur. Au contraire, l’essor affectif du premier devient direct et continu aussitôt qu’il a pu subordonner ses penchants égoïstes à ses instincts sympathiques”.

[3] Ver também a Política positiva, v. IV, p. 222.

22 abril 2026

Celebração de Tiradentes

No dia 27 de Arquimedes de 172 (20.4.2026) realizamos nossa prédica positiva, dando continuidade à leitura comentada do Apelo aos conservadores (dando início à sua Terceira Parte - postura dos positivistas em relação aos revolucionários).

No sermão celebramos a bela figura de Tiradentes.

Também aproveitamos para fazer alguns comentários sobre o Dia dos Índios/dos Povos Indígenas.

A prédica foi transmitida nos canais Positivismo (https://youtube.com/live/WyHiR0kx_ZE) e Igreja Positivista Virtual (https://www.facebook.com/IgrejaPositivistaVirtual/videos/2738122833210571).

As anotações que serviram de base para a exposição oral encontram-se reproduzidas abaixo.

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Celebração de Tiradentes (2026)

(27 de Arquimedes de 172/21.4.2026) 

1.     Abertura da prédica

2.     Datas e celebrações

2.1.   Dia 25 de Arquimedes (19.4): Dia dos Povos Indígenas (antigo Dia do Índio)

2.1.1. Ele foi criado em 1943, por Getúlio Vargas, ao término de uma conferência interamericana de povos indígenas

2.1.2. A denominação original – “Dia do Índio” – evidentemente era genérica e referia-se à enorme quantidade de povos que viviam originalmente no território brasileiro e que, atravessando as maiores dificuldades e vicissitudes (entre as quais a escravidão e o extermínio puro e simples), sobreviveram até então (1943) e até atualmente

2.1.3. Os índios não são um grupo homogêneo; na verdade, não são nem mesmo um único grupo: são dezenas, ou melhor, centenas de grupos, de inúmeras etnias e grandes etnias, com variados hábitos, usos e costumes

2.1.4. Por meio das mais variadas relações sociais – desde as mais pacíficas até as mais agressivas –, desde 1500 os povos indígenas foram misturando-se com os colonizadores portugueses e, mais tarde, também com os escravos de origem africana: dessa tríplice mistura surgiu a população brasileira, de Norte a Sul

2.1.5. No conjunto, entretanto, os índios que não foram absorvidos foram dizimados ou empurrados cada vez mais para dentro do território

2.1.6. Vale notar, entretanto, que houve esforços em favor da preservação e do respeito aos índios: José Bonifácio pretendia exatamente isso; mais tarde, Miguel Lemos e Teixeira Mendes faziam a mesma proposta, com o adicional de que propunham que se deveria garantir metade do território brasileiro para os índios (“estados ocidentais do Brasil”), a serem reunidos na forma de uma confederação com o restante do país (os “estados orientais do Brasil”)

2.1.7. Sem entrar em maiores detalhes, vale notar que ao longo do século XX, devido a muitos esforços – entre os quais, em particular, os dos positivistas –, a situação dos povos indígenas começou a mudar de maneira mais clara; a Constituição Federal de 1988 aumentou a proteção devida a eles e as políticas indigenistas, com altos e baixos, passaram a ser melhores e mais abrangentes; com isso, a tendência geral de diminuição da população indígena alterou-se, ocorrendo uma certa estabilização e, em alguns casos, até aumento da população

2.1.8. Nos últimos anos, ao mesmo tempo tem que os índios padecem de grandes provações (invasão e degradação de suas terras; incúria do poder público no que se refere à saúde indígena; agressivo evangelismo cristão, tanto católico quanto, principalmente, evangélico), eles passaram a atuar com maior autonomia e autoconsciência: eleição de deputados indígenas; elaboração de gramáticas indígenas pelos próprios falantes; criação do Ministério dos Povos Indígenas (cuja titular é uma índia: Sônia Guajajara)

2.1.9. Apenas para citarmos, sem entrarmos em nenhum detalhe, a referência aos índios no âmbito do Positivismo é importante devido a dois aspectos: (1) devido ao fetichismo, que, unindo-se ao Positivismo, torna possíveis todos os grandes desenvolvimentos do neofetichismo na Religião da Humanidade; (2) a intensa prática indigenista brasileira, que durante várias décadas foi levada a cabo pelos positivistas – e, em particular, sob a inspiração e a orientação do nosso grande Cândido Rondon

3.     Leitura comentada do Apelo aos conservadores

4.     Exortações

4.1.   Sejamos altruístas!

4.2.   Façamos orações!

4.3.   Como Igreja Positivista Virtual, ministramos os sacramentos positivos a quem tem interesse

4.4.   Para apoiar as atividades dos nossos canais e da Igreja Positivista Virtual: façam o Pix da Positividade! (Chave Pix: ApostoladoPositivista@gmail.com)

5.     Sermão: celebração de Tiradentes

5.1.   Antes de mais nada, devo indicar que retomo aqui comentários feitos na prédica positiva “Celebraçãodo Dia do Índio/dos Povos Indígenas e do Dia de Tiradentes”, realizada em 24 de Arquimedes de 169 (ou 18.4.2023)

5.2.   No dia 21 de abril, ou melhor, 27 de Arquimedes – hoje! – celebramos Tiradentes, o protomártir da independência

5.2.1. Essa data, que é um feriado nacional, é importante para os positivistas porque celebra uma figura que nós mesmos propomos, além de ser um dos derradeiros feriados cívicos daqueles propostos por nós no final do Império e início da República

5.2.1.1.          Os feriados cívicos republicanos foram criados em 14 de janeiro de 1890, por meio do Decreto n. 155-B

5.2.1.2.          Os feriados estabelecidos por esse decreto foram os seguintes (os feriados em negrito são os que permanecem vigentes até hoje (abril de 2026)):

1)     1 de janeiro: fraternidade universal;

2)     21 de abril: precursores da independência do Brasil, resumidos em Tiradentes;

3)     3 de maio: descoberta do Brasil;

4)     13 de maio: fraternidade dos brasileiros;

5)     14 de julho: República, Liberdade e Independência dos povos americanos;

6)     7 de setembro: Independência do Brasil;

7)     12 de outubro: descoberta da América;

8)     2 de novembro: comemoração geral dos mortos (dia de finados);

9)     15 de novembro: Pátria Brasileira.

5.2.2. Além disso, o Dia de Tiradentes, juntamente com o Dia do Índio, tem um caráter geral, ou seja, são contra os particularismos e os facciosismos atuais

5.3.   Quem foi Tiradentes?

5.3.1. Joaquim José da Silva Xavier nasceu em 12.11.1746 e faleceu em 21.4.1792 (com 46 anos)

5.3.2. Ele teve inúmeras atividades ao longo de sua vida: dentista, boticário, sertanista, explorador de jazidas; essas várias atividades permitiram-lhe conhecer a região das Minas Gerais e mesmo até o Rio de Janeiro, além de, inversamente, tornar-se conhecido nessas regiões todas

5.3.3. Em 1780, aos 34 anos (já bem adulto, portanto) ingressou na tropa da capitania das Minas Gerais, assumindo um posto de liderança e mantendo a segurança das estradas da capitania – devemos lembrar que, além da segurança regular das estradas, o trajeto entre Minas e Rio tinha que ser preservado devido ao tráfego de ouro e diamantes que tinha lugar ali, evidentemente alvo de ladrões

5.3.4. Ele era alferes, o que corresponde atualmente ao posto de Segundo Tenente, de aspirante a oficial (o posto de alferes foi extinto no início do século XX, substituído pelo de Segundo Tenente); nessa posição, ele não integrava a soldadesca, mas, ao mesmo tempo, devido à sua origem social relativamente humilde, não conseguiu ascender na carreira do exército da nobreza, o que o desmotivou e resultou em baixa, em 1787, ou seja, após poucos anos de serviço na ativa

5.3.5. O apelido “Tiradentes” veio do fato de que, entre suas várias atividades, ele era também um dentista prático – literalmente, um “tira-dentes”

5.4.   Como sabemos, sua importância histórica liga-se à sua participação na conjura mineira (depois inconfidência mineira), isto é, ao episódio em que membros da elite das Minas Gerais tramaram em 1789 uma tentativa de tornar independente a sua província (provavelmente abrangendo também partes do Espírito Santo, para acesso ao mar)

5.4.1. A motivação imediata da sublevação foi a revolta das elites contra o aumento excessivo dos impostos na região das Minas; além disso, o governo português, tendo então à frente o Marquês de Pombal, implementou medidas duríssimas para cobrar esses impostos (a “derrama”): assim, além do aspecto econômico (os impostos majorados) havia o aspecto político (a cobrança autoritária)

5.4.1.1.          O aumento na dureza da cobrança de impostos da parte de Portugal deveu-se ao aumento das despesas metropolitanas, à redução da extração de riquezas na capitania e também à redução de fontes de renda disponíveis para Portugal

5.4.2. Ao contrário das concepções materialistas e economicistas, que reduzem a sociedade ao desejo de lucro e à busca de poder, devemos ter clareza que, antes de 1789, já haviam ocorrido inúmeras rebeliões e revoltas coloniais; essas revoltas com freqüência eram contra os abusos do poder de Portugal e de seus emissários locais: o movimento das Minas Gerais alterou esse padrão, exigindo, ou tencionando exigir, não o fim do abuso, mas a mudança de status político do Brasil (ou melhor, das Minas Gerais): tratava-se então de, explicitamente, propor a independência nacional

5.4.2.1.          Essa mudança de mentalidade foi largamente inspirada pelo republicanismo francês, defendido pelo Enciclopedismo em termos teóricos, e também pelo republicanismo estadunidense, a partir do exemplo prático dado pela Revolução Americana, que ocorreu com sucesso entre 1776 e 1781; além disso, a Revolução Francesa – que já começava em 1788 – serviu igualmente como um poderosíssimo estímulo para a instituição da república independente no Brasil

5.4.2.2.          Assim, devemos enfatizar que a sublevação das Minas Gerais era não somente pela independência nacional, mas também a favor da República (pelo menos para Tiradentes e alguns de seus companheiros)

5.4.3. Como sabemos, a sublevação foi tramada na capital da capitania das Minas Gerais, em Vila Rica (depois renomeada para Ouro Preto), local que era ao mesmo sede do governo local e núcleo da região extrativista; os integrantes da sublevação eram quase todos membros da elite política, econômica e administrativa local, com a notável e importante exceção de Tiradentes, que era de origem humilde, mas era também muito hábil em termos retóricos e tinha acesso fácil e amplo às camadas populares e médias da região, para quem fazia propaganda aberta dos ideais de independência e de república

5.4.4. Certamente Tiradentes não foi o líder nem o membro mais destacado da conjura mineira: houve outros mais importantes, mais ricos e/ou mais famosos; na verdade, após a traição de Joaquim Silvério dos Reis (dando início à “inconfidência mineira”), exatamente o caráter não elitista de Tiradentes tornou-o o bode expiatório ideal

5.4.4.1.          Nesse sentido, o que importa notar é que ele foi o único a manter-se firme em suas convicções e a não trair ninguém; além disso, ele foi o único a ser executado

5.4.5. Tiradentes foi preso em 1789, mantido na prisão durante três anos e executado em 1792; após sua morte, seu corpo foi esquartejado e suas partes foram exibidas em cidades de Minas Gerais em que ele pregara; sua cabeça nunca foi encontrada

5.5.   Para o conjunto da história do Brasil e para o Positivismo, qual a importância de Tiradentes?

5.5.1. A expressão “protomártir”, utilizada por Miguel Lemos e Teixeira Mendes, deve-se a que ele foi o primeiro mártir da independência nacional

5.5.2. Miguel Lemos e Teixeira Mendes, após 1889, ou seja, após a Proclamação da República, estabeleceram a trindade cívica brasileira: Tiradentes, José Bonifácio, Benjamin Constant

5.5.3. Em virtude do movimento pela independência, o nome de Tiradentes está necessariamente vinculado ao de José Bonifácio; assim, o 21 de abril liga-se ao 7 de setembro

5.5.4. Como vimos, Tiradentes propôs a independência, ao mesmo tempo com a república, sem escravidão mas limitada às Minas Gerais[1]; José Bonifácio realizou a independência de todo o Brasil e, por isso, e apesar de si mesmo, com escravidão e sem república; esses movimentos tiveram que ser finalizados e complementados pela República humana e social, ocorrida parte em 1888 mas sacramentada, ampliada e afirmada em 1889, cabendo gloriosamente a Benjamin Constant a responsabilidade por essa transformação definitiva

5.6.   A memória de Tiradentes é, acima de tudo, devida aos positivistas

5.6.1. Desde 1881, quando Miguel Lemos fundou a Igreja Positivista do Brasil, celebramos a memória de Tiradentes – celebração que sempre foi problemática para a monarquia, na medida em que (1) Tiradentes era republicano e (2) ele foi executado em 1792 pela mesma família que governou o país até 1889

5.6.2. Como vimos antes, por obra dos positivistas, via Decreto n. 155-B, a data de 21 de abril virou feriado em 1890; entretanto, em 1931 ela deixou de ser feriado, por obra de Getúlio Vargas, que não queria símbolos nacionais de origem particular, nem símbolos de resistência, nem símbolos efetivamente cívicos; apesar disso, Getúlio Vargas, em 1933, sob pressão política, viu-se obrigado a reinstituir a data como feriado cívico nacional

5.7.   Tiradentes é, sim, um símbolo nacional, bem como um herói nacional: é bom, é correto e é necessário que seja assim

5.7.1. Todo país precisa de personagens-símbolos, isto é, de personagens que corporificam os ideais superiores desse país (ou, por outra, personagens que estabelecem e definem os ideais que norteiam esse país)

5.7.2. As personagens-símbolos são necessárias porque elas correspondem a representações concretas de sentimentos, de idéias e de práticas, de modo a satisfazer necessidades humanas muito intensas; essas necessidades estão na base das relações sociais cívicas

5.7.3. O aspecto ideal dessas personagens-símbolo é duplo: por um lado, correspondem a idealizações mentais, a concepções puramente imaginativas; por outro lado, elas correspondem aos valores julgados importantes em um país

5.7.4. Dessa forma, convém que os heróis nacionais sejam de fato seres humanos superiores: ora, esse é precisamente o caso de Tiradentes, que, embora não fosse nem afetiva nem intelectualmente superior, soube comportar-se com gigantesca generosidade após a inconfidência, além de ter sido um dos grandes propagandistas e difusores do ideal de república independente entre o povo e as classes médias das Minas Gerais

5.7.5. É portanto espantoso que haja tanta gente que afirme que seria bom, correto, útil, necessário que um país não tenha heróis, nem símbolos: quem afirma esse tipo de coisa ou desconhece efetivamente a natureza humana ou finge desconhecê-la; em todo caso, presta um enorme desserviço em nome de supostos “realismo”, “criticidade” etc.

5.8.   Passando a reflexão mais diretamente para os dias recentes: é certo que o Brasil tem problemas e desafios que vão muito além do regime político; mas o simples fato de que a figura de Tiradentes é ignorada ou desdenhada – e, por extensão, a República não é valorizada –, isso indica o quão pobres e lastimáveis são nossos sentimentos e nossas idéias políticas atuais

5.8.1. Nesse sentido, é notável, chocante e triste que tudo o que o mais importante jornal do país, a Folha de S. Paulo, tem a dizer de Tiradentes seja apenas que ele “foi transformado em herói pelos militares”, em um artigo aliás anônimo e de 2018, requentado agora em 2026

5.8.2. O argumento institucional, oficial, da Folha de S. Paulo é bem claro: a figura de Tiradentes como herói nacional não tem valor nenhum, por ter sido erigida pelos “militares”, ou seja, por ser um símbolo do militarismo

5.8.2.1.          A instituição do feriado de Tiradentes em “1890, logo após a República”, seria um sinal adicional (ou inicial) do militarismo de tal celebração, na medida em que, para a Folha de S. Paulo, a República teria sido meramente uma quartelada

5.8.2.2.          Essas lamentáveis afirmações da Folha de S. Paulo são feitas de maneira sumária, sem nenhum exame cuidadoso da figura de Tiradentes, de seu papel histórico, das celebrações em seu favor ocorridas contra o Império e a favor da República

5.8.3. Vale notar que a Folha de S. Paulo, embora tenha os relativos méritos de ter feito uma certa oposição ao fascismo (durante 2019 e 2022) e de manter um certo pluralismo editorial, na verdade é um jornal liberal em termos econômicos e políticos que apoiou com entusiasmo convicto o militarismo entre 1964 e o início dos anos 1980; além disso, é um jornal ambígüo a respeito do fascismo e que promove com grande intensidade o identitarismo (seja o feminista, seja o racialista): o desprezo para com Tiradentes é um esforço para, sob um véu hipócrita de “criticidade”, tentar redimir-se pelo militarismo anterior e, ao mesmo tempo, satisfazer o facciosismo particularista dos identitários

5.8.3.1.          Ao mesmo tempo que degrada a figura de Tiradentes sob a desculpa esfarrapada do “militarismo”, a Folha de S. Paulo celebra as figuras próprias ao identitarismo, que são, todas elas, particularistas, facciosistas, que rejeitam a noção de bem comum e de vida compartilhada de maneira fraterna, livre e digna: pura e simplesmente não há como tornar o Brasil um país melhor com tais concepções e tais práticas

5.9.   Em suma:

5.9.1. Celebrar Tiradentes é valorizar alguns dos mais belos, profundos e importantes traços do ser humano em geral e dos brasileiros em particular

5.9.2. Suas virtudes práticas – sejam sua sinceridade e sua honestidade na expressão de seus ideais políticos, sejam seus vínculos com o povo, seja sua firmeza em não trair seus colegas, seja sua firmeza ao ser o único a ir ao patíbulo – são motivo para as mais intensas admiração e emulação

5.9.3. Não é por acaso que nós, positivistas, por meio de Miguel Lemos e Teixeira Mendes, elegemo-lo “protomártir da independência” e integrante da trindade cívica nacional, juntamente com José Bonifácio e Benjamin Constant

5.9.4. Com um profundo tom de lamento, temos que reconhecer que a desvalorização da figura de Tiradentes é um sinal inequívoco da degradação moral, intelectual e prático da vida cívica brasileira: aqueles que agora se dizem contra o militarismo fazem questão de desprezar todos os símbolos e valores que estimulam a fraternidade, a dignidade, a vida livre e pacífica em conjunto

6.     Término da prédica

 

Referências

- Auguste Comte (franc.), Síntese subjetiva (Paris, Exécution Téstamentaire d’Auguste Comte, 2ª ed., 1900): https://archive.org/details/lasynthsesubjec00comtgoog.

- Augusto Comte (franc.), Sistema de política positiva (Paris. J.-B. Baillière, 4ª ed., 1880): https://archive.org/details/systmedepoliti01comt.

- Augusto Comte (port.), Apelo aos conservadores (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores.

- Augusto Comte (port.), Catecismo positivista (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 4ª ed., 1934).

- Darcy Ribeiro (port.): Cândido Mariano da Silva Rondon (Rio de Janeiro, Global, 2017): http://etnolinguistica.wdfiles.com/local--files/biblio%3Aribeiro-1958-indigenista/Ribeiro_1958_OIndigenistaRondon.pdf e https://revistas.usp.br/ra/pt_BR/article/view/110382/108933.

- Gustavo Biscaia de Lacerda (port.), Prédica Positiva “Celebração do Dia do Índio/dos Povos Indígenas e do Dia de Tiradentes” (Curitiba, Igreja Positivista Virtual, 24.Arquimedes.169/18.4.2023): https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2023/04/celebracao-do-dia-do-indiodos-povos.html.

- José Lonchampt (port.), Ensaio sobre a oração (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1896; catálogo da IPB, n. 165): https://archive.org/details/n.-165-jose-lonchampt-ensaio-sobre-a-oracao.

- Luís Lagarrigue (esp.), A poesia positivista (Santiago do Chile, 1890): https://archive.org/details/luis-lagarrigue-a-poesia-positivista-1890_202509.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), As últimas concepções de Augusto Comte (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-i e https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-ii.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), Benjamin Constant: esboço de uma apreciação sintética da vida e da obra do fundador da República Brazileira (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1892): https://archive.org/details/n.120biografiadebenjaminconstantv.1 e https://archive.org/details/n.120biografiadebenjaminconstantv.2.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), O ano sem par (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1900): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-o-ano-sem-par-portug._202312/page/n7/mode/2up.

- Saiba quem foi Tiradentes, homenageado em 21 de abril e transformado em herói pelos militares (Folha de S. Paulo, 21.abr.2018, atualizado em 20.abr.2026): https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/04/militares-transformaram-tiradentes-em-heroi-nacional.shtml.



[1] Tiradentes era contra a escravidão; esse item, todavia, não era compartilhado pelos demais membros da conjura.