17 dezembro 2025

Moral metafísica: pensar só com base em exceções

No dia 14 de Bichat de 171 (16.12.2025) realizamos nossa prédica positiva, dando continuidade à leitura comentada do Apelo aos conservadores (em sua Segunda Parte - "Postura dos positivistas em relação aos retrógrados").

No sermão apresentamos algumas indicações iniciais sobre a moral metafísica, lamentavelmente tão difundida nos dias atuais.

Também se apresentaram outras coisas:

- a programação de final de ano da Igreja Positivista Virtual

- o calendário positivista de parede

- algumas sugestões de poemas e de livros positivistas para as orações cotidianas

A prédica foi transmitida nos canais Positivismo (https://youtube.com/live/6dFq2p88UYo) e Igreja Positivista Virtual (https://www.facebook.com/IgrejaPositivistaVirtual/videos/1376627027149498).

As anotações que serviram de base para a exposição oral encontram-se disponíveis abaixo. 

*   *   *

A moral metafísica

(14 de Bichat de 171/16.12.2025) 

1.     Abertura da prédica

2.     Datas e celebrações:

2.1.   Dia 9 de Bichat (11.12): nascimento de Manoel de Almeida Cavalcanti (1865 – 160 anos)

2.2.   Dia 15 de Bichat (17.12): transformação de Eduardo de Sá (1940 – 85 anos)

2.3.   Dia 19 de Bichat (21.12): solstício – início do verão

3.     Calendário de atividades nas próximas semanas:

3.1.   Recesso entre 15 de Bichat de 171 (17.12.2025) e 19 de Moisés de 172 (19.1.2026)

3.2.   Mas: celebrações da Festa Universal dos Mortos de 171 (31.12.2025) e, principalmente, da Festa da Humanidade de 172 (1.1.2026)

4.     Divulgação do calendário positivista de parede para 172-238

5.     Leitura comentada do Apeloaos conservadores

5.1.   Antes de mais nada, devemos recordar algumas considerações sobre o Apelo:

5.1.1. O Apelo é um manifesto político e dirige-se não a quaisquer pessoas ou grupos, mas a um grupo específico: são os líderes políticos e industriais que tendem para a defesa da ordem (e que tendem para a defesa da ordem até mesmo devido à sua atuação como líderes políticos e industriais), mas que, ao mesmo tempo, reconhecem a necessidade do progresso (a começar pela república): são esses os “conservadores” a que Augusto Comte apela

5.1.2. O Apelo, portanto, adota uma linguagem e um formato adequados ao público a que se dirige

5.1.3. Empregamos a expressão “líderes industriais” no lugar de “líderes econômicos”, por ser mais específica e mais adequada ao Positivismo: a “sociedade industrial” não se refere às manufaturas, mas à atividade pacífica, construtiva, colaborativa, oposta à guerra

5.2.   Outras observações:

5.2.1. Uma versão digitalizada da tradução brasileira desse livro, feita por Miguel Lemos e publicada em 1899, está disponível no Internet Archive: https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores

5.2.2. O capítulo em que estamos é a “Segunda Parte”, cujo subtítulo é “Conduta dos conservadores em relação aos retrógrados”

5.3.   Passemos, então, à leitura comentada do Apelo aos conservadores!

6.     Exortações

6.1.   Sejamos altruístas!

6.2.   Façamos orações!

6.2.1. Livros de orações:

6.2.1.1.          Cartilha maternal positivista, de Américo Silvado

6.2.1.2.          Centenário subjetivo de Clotilde de Vaux, organizado pela Delegação Executiva da IPB

6.2.1.3.          Comte e Clotilde, organizado por Teixeira Mendes

6.2.1.4.          Ensaio sobre a oração, de José Lonchampt

6.2.1.5.          Humaníadas, de Edgar Proença Rosa

6.2.1.6.          Humaníadas, de Generino dos Santos

6.2.1.7.          Imitação maternal, de Américo Silvado

6.2.1.8.          Poemas de R. Teixeira Mendes (“A hora terrível”, “A dor sem nome”, “Hino ao amor”, “Exortação à fraternidade”)

6.2.1.9.          Prece à Humanidade, de Richard Congreve

6.2.1.10.       Profilaxia da neurose, de Paulo de Tarso Monte Serrat

6.3.   Como Igreja Positivista Virtual, ministramos os sacramentos positivos a quem tem interesse

6.4.   Para apoiar as atividades dos nossos canais e da Igreja Positivista Virtual: façam o Pix da Positividade! (Chave Pix: ApostoladoPositivista@gmail.com)

7.     Alguns comentários sobre a moral metafísica

7.1.   O sermão de hoje tem um objetivo modesto: queremos apenas apresentar algumas aplicações concretas e específicas do conceito de “moral metafísica” – bem entendido, apresentá-las e indicar como e porque elas estão erradas

7.1.1. Talvez convenha insistir que as situações que comentaremos são generalizações de casos concretos

7.1.2. Nosso objetivo não é desenvolver de maneira aprofundada essas questões; queremos somente examinar situações que observamos, compartilhamos, notamos

7.1.3. Assim, da maneira mais modesta possível, desejamos apenas aconselhar quem estiver assistindo à prédica

7.2.   Comecemos lembrando os dois conceitos iniciais, de moral e de metafísica

7.2.1. O que é a “moral”?

7.2.1.1.          A moral é um dos conceitos centrais da Religião da Humanidade; desde o início de sua carreira Augusto Comte afirmava a importância da moral, fosse como princípios normativos abstratos, fosse como conhecimento empírico da alma humana

7.2.1.1.1.              A importância concedida por nosso mestre à moral evoluiu e amadureceu ao longo do tempo, com o aumento da consciência dessa importância, a afirmação do método subjetivo a partir de 1845-1846 e a constituição da ciência da Moral em 1852

7.2.1.2.          A moral como conhecimento da alma humana significa que a moral é a ciência que estuda o ser humano individual

7.2.1.2.1.              A ciência da moral vem depois (e acima) da sociologia, o que significa que é necessário contextualizar cada ser humano para podermos entender os sentimentos, as paixões, as qualidades, os defeitos, as possibilidades, os traumas de cada um

7.2.1.2.2.              A ciência da moral é vulgarmente chamada de “psicologia”

7.2.1.3.          A moral como princípios normativos quer dizer que todas as pessoas vivem e atuam em suas vidas seguindo parâmetros; esses parâmetros são em parte conscientes, em parte inconscientes

7.2.1.3.1.              Quando falamos em “princípios normativos”, queremos dizer que apreciamos as pessoas, as coisas, os acontecimentos considerando que elas são boas ou más, belas ou feias, úteis ou inúteis etc.

7.2.1.4.          Quando afirmamos o sentido da moral como “princípios normativos abstratos”, consideramos também o seu aspecto sociológico

7.2.1.4.1.              Essa é uma das conseqüências de a Sociologia posicionar-se antes da Moral na escala enciclopédica e resulta em que toda sociedade tem valores compartilhados, que orientam o conjunto da sociedade e que têm conseqüências concretas, sejam coletivas, sejam individuais

7.2.1.5.          Um outro aspecto da moral – seja como conhecimento do ser humano individual, seja como princípios normativos – pode ser moral privada ou moral pública

7.2.1.5.1.              A moral privada refere-se aos princípios morais de cada pessoa (moral individual) e aos princípios que temos e aplicamos em nossas famílias (moral doméstica)

7.2.1.5.2.              A moral pública refere-se aos princípios que temos na vida em sociedade, isto é, como cidadãos, como profissionais etc.

7.2.1.5.3.              A moral pública e a moral privada são coisas diferentes, mas elas mantêm relações profundas entre si: elas são diferentes, mas não podem ser opostas entre si

7.2.1.6.          Sem esgotar a questão, também temos que lembrar que a moral e a moralidade não podem ser confundidas com o “moralismo

7.2.1.6.1.              Na verdade, como já comentamos em várias ocasiões, a noção de “moralismo” é tipicamente uma concepção destruidora (metafísica, portanto) que serve apenas para criticar a hipocrisia mas que ataca a necessidade geral de termos todos (coletiva e individualmente, e individualmente a partir de parâmetros coletivos) parâmetros normativos compartilhados

7.2.2. Temos agora que lembrar o que é a “metafísica”

7.2.2.1.          Aplicando o conceito de moral à noção de metafísica, temos que os parâmetros sociais compartilhados seguem princípios gerais, que podem (e devem) ser classificados nos termos gerais da lei dos três estados, isto é, como teológicos, como metafísicos ou como positivos

7.2.2.2.          Simplificando, os princípios teológicos são absolutos e recorrem às ficções sobrenaturais; os princípios positivos são relativos e referem-se ao ser humano

7.2.2.3.          Já os princípios metafísicos ficam no meio do caminho, sendo absolutos, não se referindo às divindades mas ainda não abordando diretamente o ser humano (ou abordando o ser humano mas de maneira absoluta, individualista e individualizada)

7.2.2.3.1.              Um traço importante da metafísica é seu aspecto negativo: ela é principalmente negadora; mesmo que ela afirme alguma coisa (a respeito do que quer que seja), sua motivação fundamental é a negação da teologia e, a partir daí, a negação de princípios anteriores

7.2.2.4.          Na passagem dos parâmetros teológicos para os positivos, há um avanço progressivo da positivação, começando nas concepções mais grosseiras e subindo em direção às concepções mais nobres, seguindo a escala enciclopédica

7.2.2.4.1.              A positivação das nossas concepções e dos nossos parâmetros é um desafio, especialmente em épocas metafísicas como a nossa

7.2.2.4.2.              A coerência geral dos nossos parâmetros é uma necessidade moral e intelectual (uma necessidade “psicológica”)

7.2.2.4.2.1. Devemos, sim, sem dúvida e necessariamente, ser ao máximo positivos e deixar para trás os traços teológicos e metafísicos (em todo caso, absolutos)

7.2.2.4.2.2. A convivência de múltiplos princípios gera conflitos pessoais e coletivos e, daí, gera profundos sofrimentos

7.2.2.4.3.              Entretanto, temos que ter clareza de que, enquanto vivemos na transição revolucionária, ou seja, enquanto a Religião da Humanidade não se difunde de maneira geral, essa uniformização de princípios consiste em um enorme desafio, especialmente em termos pessoais, pois implica tornar conscientes e manipuláveis aspectos que são originalmente inconscientes; esses elementos que se tornam conscientes devem depois retornar à condição de inconsciência

7.2.2.4.3.1. Além disso, há também sempre o peso do aspecto social dos parâmetros que adotamos, no sentido de que a sociedade necessariamente exerce pressão sobre nós, facilitando ou dificultando a adoção de uma ou outra concepção

7.3.   O que entendemos aqui por “moral metafísica”?

7.3.1. Para nós, nesta exposição, a noção de “moral metafísica” tem um sentido mais específico: ela não é somente a aplicação da metafísica às considerações morais, mas é uma forma toda específica de entender e de aplicar a moralidade

7.3.2. O princípio geral da moral metafísica consiste em assumir como permanentes as soluções que são somente provisórias e transitórias

7.3.2.1.          Um exemplo bastante simples e bastante claro é o liberalismo (seja político, seja econômico): o liberalismo assume que todo poder é ruim e que, portanto, deve-se desconfiar dele

7.3.2.2.          Com o liberalismo, as noções de confiança e de responsabilidade são jogadas fora; o poder político não é entendido como algo positivo e útil (ainda que potencialmente problemático) e ele não é regulado, mas apenas “domado”

7.3.2.2.1.              O anarquismo radicaliza os defeitos do liberalismo, ao rejeitar totalmente o poder político (e, para piorar, com freqüência – mas não sempre – ao promover de maneira consciente e intencional a violência política)

7.3.2.3.          A solução provisória do liberalismo consiste em que, de fato, na época em que se constituiu o liberalismo, era necessário conter o arbítrio do poder político – e, em particular, do absolutismo teológico

7.3.2.4.          Mas não somente o liberalismo institucionalizou a desconfiança política como foi incapaz de efetivamente substituir o arbítrio teológico pelo relativismo positivo

7.4.   Para o que nos interessa, uma primeira aplicação prática da noção de “moral metafísica” consiste em raciocinar com base em exceções e nunca em termos de regras

7.4.1. Os resultados disso, então, consistem em (1) recusar as regras gerais meramente com base nas exceções e (2) generalizar as próprias exceções (!)

7.4.2. Dois exemplos bastante simples são os das críticas às famílias contemporâneas e às escolas: em cada um desses casos, porque há mais ou menos dificuldades com essas instituições, a moral metafísica assume que essas dificuldades resumem tudo que tais instituições oferecem e, portanto, a solução consistiria em negá-las, restringindo-as ou destruindo-as pura e simplesmente

7.4.3. Uma forma bem simples e muito eficiente de sintetizar esta modalidade – e, no fundo, de resumir a moral metafísica – é perceber que a moral teológica absolutiza as regras, ao passo que a moral metafísica absolutiza as exceções

7.5.   Uma segunda possibilidade da moral metafísica consiste em assumir que dificuldades especificamente pessoais são justificativas adequadas para rejeitar situações gerais

7.5.1. De uma perspectiva individual, muitas vezes os problemas ou os sofrimentos de que padecemos em determinadas situações levam-nos a rejeitar em regra todas essas situações

7.5.1.1.          Esse comportamento consiste em sofrer um trauma e pautar a própria conduta por esse trauma, a fim de evitar a sua repetição e/ou de tentar expurgar, subjetivamente, o trauma

7.5.1.2.          De uma perspectiva estritamente pessoal e afetiva, esse comportamento até faz sentido; entretanto, ele está longe de poder ser chamado de maduro e, de qualquer maneira, quase não seria necessário afirmar que não dá para adotar o trauma pessoal como parâmetro geral

7.5.2. A adoção do trauma individual como parâmetro geral é literalmente a aplicação pessoal da moral metafísica, em que se generalizam exceções

7.5.3. Não podemos exigir de ninguém que recuse a dor de um trauma, da mesma forma que não podemos exigir de ninguém que busque repetir as situações e os sofrimentos que constituíram o trauma

7.5.3.1.          Todavia, inversamente, uma coisa muito diferente é raciocinar com base nas exceções e generalizar a própria recusa, apenas porque um determinado indivíduo recusa-se (com suas razões) a afastar-se do trauma

7.5.4. É necessário termos clareza de que, no presente caso, o amadurecimento consiste em aprender a raciocinar e a generalizar sem adotar o próprio trauma como parâmetro de avaliação

7.5.4.1.          Um amadurecimento ainda maior consiste em superar o trauma

7.5.5. Considerando esta modalidade de moral metafísica, a vida de Augusto Comte, mais uma vez, é exemplar no sentido da positividade

7.5.5.1.          Apesar do trauma que ele sofreu e que viveu a vida inteira devido ao péssimo comportamento de sua esposa oficial, Carolina Massin, ele soube deixar de lado seus problemas pessoais e considerar em geral a situação das mulheres e das famílias

7.5.5.2.          Na verdade, não somente nosso mestre não deixou seus traumas interferirem em suas reflexões como ele ultrapassou esses traumas, tanto em sua vida quanto em suas elaborações: tal superação ocorreu graças à influência benfazeja de Clotilde de Vaux

7.5.5.3.          Ao não permitir que seus traumas desviassem e prejudicassem suas elaborações e, em seguida, ao superar esses traumas, Augusto Comte pôde criar a Religião da Humanidade, valorizar profunda e radicalmente as mulheres e instituir necessariamente as mulheres como símbolos da Humanidade

7.6.   A terceira possibilidade de moral metafísica que queremos comentar consiste em considerar que o ressentimento é uma base adequada para qualquer moral (pública ou privada)

7.6.1. Essa é uma forma particularmente agressiva e destruidora de moral e, nesse sentido, é uma forma particularmente extrema da metafísica

7.6.1.1.          O ressentimento atua como base da moral identitária, que, lamentavelmente, é uma das formas atuais mais disseminadas de moral

7.6.1.2.          Aliás, as duas modalidades anteriores de moral metafísica também estão disseminadas no Ocidente, impedindo e rejeitando generalizações (e as regras), ao mesmo tempo em que se sacralizam e eternizam soluções parciais, instáveis e temporárias

7.6.2. O ressentimento combina os vícios intelectuais de (1) rejeitar generalizações e de (2) raciocinar como base em exceções com o vício moral de (3) rejeitar generalizações e de (4) raciocinar com base em traumas individuais e, ainda mais, (5) combina-os com o estímulo ao ódio, à violência, à falta de afeto, de fraternidade (em suma, com o que há de pior no instinto destruidor)

7.6.2.1.          Dessa forma, o ressentimento cristaliza traumas e defeitos do passado, mantendo-os no presente e reproduzindo-os para o futuro

7.6.3. O ressentimento como fundamento do identitarismo tem, portanto, uma quantidade e uma profundidade inacreditável de defeitos: esse é um dos motivos mais importantes por que rejeitamos o identitarismo

7.7.   Em suma:

7.7.1. O princípio geral da moral metafísica, para o que nos interessa, consiste em tornar permanente o que é apenas transitório

7.7.1.1.          Uma forma alternativa de entender esse conceito é perceber que a moral metafísica rejeita as generalizações verdadeiras a partir de casos excepcionais e, inversamente, generaliza o que é excepcional

7.7.1.2.          Negar as generalizações, de uma perspectiva estritamente intelectual, é um erro lógico primário (isto é, um erro infantil), em que se pretende rejeitar totalmente uma regra (ou uma generalização) apenas porque se determinou uma única exceção – ou seja, em que não se reconhece que a exceção é, de fato, apenas e pura e simplesmente uma exceção

7.7.2. Não se deve desprezar as exceções nem se deve rejeitar as soluções temporárias; com freqüência, é necessário (ou apenas convém) respeitar as exceções em prol da dignidade humana

7.7.3. Dito isso, é claro que respeitar as exceções é muito, muito, muito diferente de, com base nelas, rejeitar as generalizações, eternizar soluções temporárias e generalizar a partir das exceções

7.7.4. Sem nenhuma pretensão de esgotar as possibilidades, identificamos três possibilidades concretas da moral metafísica:

7.7.4.1.          Raciocinar exclusivamente com base em exceções e em casos particulares (a moral teológica absolutiza as regras, ao passo que a moral metafísica absolutiza as exceções)

7.7.4.2.          Estabelecer experiências pessoais (ou melhor, traumas pessoais) como fundamentos para regras e/ou para rejeitar generalizações

7.7.4.3.          Estabelecer o ressentimento como base para a moral (pública e privada)

8.     Término da prédica

 

Referências

- Augusto Comte (franc.), Sistema de filosofia positiva (Paris, Société Positiviste, 5e ed., 1893).

- Augusto Comte (port.), Apelo aos conservadores (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores.

- Augusto Comte (port.), Catecismo positivista (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 4ª ed., 1934).

- Luís Lagarrigue (esp.), A poesia positivista (Santiago do Chile, 1890): https://archive.org/details/luis-lagarrigue-a-poesia-positivista-1890_202509.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), As últimas concepções de Augusto Comte (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-i e https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-ii.

- Raimundo Teixeira Mendes (port.), O ano sem par (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1900): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-o-ano-sem-par-portug._202312/page/n7/mode/2up.

11 dezembro 2025

Dia Nacional do Sociólogo – reflexões pessoais em tom de lamento

Dia Nacional do Sociólogo - reflexões pessoais em tom de lamento


Gerado pelo Chat GPT.

No dia 10 de dezembro celebra-se do “Dia Nacional do Sociólogo” no Brasil. Essa é uma data curiosa, que justifica algumas reflexões[1].

Essa é uma profissão importantíssima, embora bastante desvalorizada no Brasil. 

Em face disso, na data muitos colegas fizeram um exercício de autoafirmação, dizendo que têm orgulho da profissão, que são combativos, que resistem e lutam etc. 

Arbitrariamente estabelecida em 10 de dezembro, a celebração da Sociologia deveria ocorrer na verdade em abril, na medida em que ela foi fundada em abril de 1822 por Augusto Comte, no livro Plano dos trabalhos científicos necessários para reorganizar a sociedade (popularmente conhecimento apenas como “Reorganizar a sociedade”), reeditado, com acréscimos, em abril de 1824. Entretanto, de maneira chocante, a data e o autor são negados pelos próprios sociólogos (incluindo muitos dos que exercitaram a sua vaidade no dia 10), que em sua “criticidade” combativa desprezam a história, os esforços intelectuais, sociais e afetivos, os parâmetros de cientificidade envolvidos, mais preocupados que estão em defender feudinhos acadêmicos, intelectuais e políticos. 

Todos os sociólogos filiam-se a alguma corrente teórica, metodológica e filosófica. Como consequência direta da alardeada criticidade combativa dos sociólogos, como pessoalmente sigo os parâmetros morais, intelectuais e práticos propostos por Augusto Comte, eu sou um pária acadêmico: minha produção de modo geral não é respeitada, não é valorizada, mal é lida, ainda que eu siga os parâmetros intelectuais e morais considerados aceitáveis para a produção intelectual e científica da área. Em outras palavras, os mesmos críticos combativos que se jactam de “resistirem” e de “lutarem” como sociólogos e como intelectuais fazem o que podem para excluir e desprezar um de seus “pares” e para excluir e desprezar a tradição teórica, filosófica, metodológica e política vinculada ao fundador da Sociologia. 

Não é que haja efetivos problemas com a tradição positivista; o que a criticidade combativa faz, de maneira militante (ainda que nem sempre às claras e de maneira honesta) é criar e manter o preconceito de que “positivista” é igual a tecnocrata, desumanizador, alienante, violento etc. Alguns sociólogos menos dispostos a apoiar tais práticas já reconheceram faz tempo que o Positivismo de modo geral e Augusto Comte em particular foi eleito como o inimigo geral preferencial, o objeto de ódio coletivo, ou seja, o bode expiatório. Dessa forma, por obra dos próprios sociólogos que se jactam de serem combativos e resistentes, muito mais que eles, eu é que me vejo todos os dias obrigado a resistir, a lutar, a combater contra os preconceitos mais tolos, mais desprezíveis, seja como sociólogo, seja como cidadão. 

É importante insistir: no que se refere ao fundador da Sociologia, trata-se dos mais puros e rasteiros preconceitos. Bastaria ler-se direta e honestamente o próprio Augusto Comte – ou, de maneira mais simples e alternativa, os sociólogos e pensadores que seguem ou que se inspiram em Comte, como é modestamente o meu caso – para perceber-se que, de maneira chocante, tudo ou quase tudo o que se atribui a ele é errado, tendencioso e parcial. Duas formas alternativas de entender essa afirmação consistem, em primeiro lugar, em dizer que tudo ou quase tudo o que se atribui a Comte é desinformação; em segundo lugar, consiste no fato desconcertante de que, com estrondosa freqüência, o que os críticos combativos de Augusto Comte defendem é também o que o próprio Comte defendia, embora muito antes e, com freqüência, muito melhor. 

Na verdade, no meu caso particular, a discriminação sofrida – e é disso que se trata, de “discriminação” – recebe uma camada adicional. Profissionalmente eu sou um sociólogo, isto é, um profissional contratado como sociólogo: é isso o que aparece na minha carteira de identidade funcional. Eu trabalho em uma universidade (e, no caso do Brasil, em uma universidade federal), sou pesquisador profissional, mas não sou professor. O problema é que os professores universitários não respeitam os servidores técnico-administrativos (entre os quais se incluem todos os “meros” pesquisadores). Essa falta de respeito inclui sem dúvida os professores de sociologia das universidades federais, mesmo com suas criticidades combativas, justificadas com Marx, com Lênin, com Bourdieu, com Foucault, com Franz Fanon, com Judith Butler, com Djamila Ribeiro, com Bruno Latour, com Hayek, com Karl Popper, com Reinhardt Koselleck, com Florestan Fernandes (e mesmo com Durkheim e com Weber). Como se percebe com facilidade nos congressos científicos de Sociologia (e de Ciências Sociais, o que inclui a Ciência Política, a Antropologia, a Política Internacional e todos os demais feudinhos acadêmicos que se multiplicam raivosamente), a maioria absoluta dos sociólogos brasileiros é de professores universitários. Para minha desgraça pessoal, eu sou desrespeitado pela criticidade combativa por ser positivista e também sou desrespeitado pela criticidade combativa porque sou um sociólogo profissional e não um sociólogo professor: isso, sim, é discriminação interseccional, embora a criticidade combativa não tenha pudor em fingir que essa discriminação contra positivistas e contra pesquisadores não docentes não existe. 

O resultado disso é que celebrar o dia do sociólogo talvez devesse ser o dia de cada um permitir-se um pouco da satisfação da própria vaidade. Talvez. Mas deveria ser também, e muito antes e muito mais, o dia de revalorizar o fundador da sociologia e, em consequência, de acabar com preconceitos, exclusões, perseguições mantidas pelos próprios sociólogos. 

Por outro lado, a data específica de celebração do Dia Nacional do Sociólogo merece reflexão. Afinal de contas, como estamos no âmbito da Sociologia, é necessário perguntar: por que logo esse dia em particular e não qualquer outro? 

Com a ajuda da internet e da inteligência artificial, com facilidade descobrimos que o dia 10 de dezembro é o Dia Nacional do Sociólogo apenas porque no dia 10 de dezembro de 1980 foi promulgada a lei que instituiu a profissão de sociólogo no Brasil (Lei n. 6.888/1980[2]). Em outras palavras, para além de um mero acaso burocrático – para falar como historicistas rasteiros e os politicistas: para além de um simples acidente histórico e político – não há de verdade nenhum motivo para celebrar-se em tal data o Dia do Sociólogo. Essa data não tem sentido, nem valor, não tem significado nenhum. 

Muitas datas que celebramos têm origem puramente acidental, como nos casos de nascimentos e falecimentos; já as inaugurações podem receber ajustes. Mas se a profissão de sociólogo foi instituída em um determinado dia devido a um acaso burocrático, não há motivo nenhum – é necessário insistir: motivo nenhum – para sacramentar esse acaso burocrático. 

Isso por si só já é bastante ruim. Mas, para piorar, como indicado no projeto de lei que propôs a criação do Dia Nacional do Sociólogo (Projeto de Lei n. 1.456/2022[3], de autoria do Senador Nelsinho Trad), essa ausência de verdadeiros parâmetros foi definida e sacramentada em encontros profissionais e estudantis de sociólogos. Vários encontros decidiram que, em vez de respeitar-se a história da Sociologia – seja como disciplina científica, seja como área praticada no Brasil –, o melhor seria não se respeitar nada além de mesquinhas disputas políticas e tramitações burocráticas para celebrar-se o profissional que deve valorizar hábitos, culturas, valores compartilhados. Digam o que quiserem, para mim isso é motivo de vergonha; insisto: é inadmissível que sociólogos celebrem e institucionalizem a falta de critérios. Isso, aliás, em termos sociológicos é profundamente revelador – da mesma mentalidade que permite, estimula e pratica as discriminações citadas acima, contra os positivistas e contra os sociólogos profissionais. 



[1] Esta postagem reúne, adapta e amplia duas publicações que fizemos no dia 11.12.2025 em nossa conta do Facebook: daí o seu caráter compósito.

[2] Complementada pelo Decreto n. 89.531/1984, que regulamentou essa lei.

09 dezembro 2025

Calendário positivista para pôr na parede

Para quem tiver interesse, podemos enviar o CALENDÁRIO POSITIVISTA PARA PAREDE.
É um calendário para uso cotidiano, para ser fixado na parede, e que se organiza a partir do calendário positivista. Cada dia tem a indicação do calendário positivista e sua equivalência no júlio-gregoriano.
Bastar enviar mensagem para os canais da Igreja Positivista Virtual.




08 dezembro 2025

Monitor Mercantil: Intelectuais e vida coletiva – 1

No dia 6 de Bichat de 171 (8.12.2025) o jornal carioca Monitor Mercantil publicou um artigo de nossa autoria intitulado "Intelectuais e vida coletiva - 1". Esse artigo é o primeiro de uma série que abordará, nos próximos meses, a atuação pública e política dos chamados "intelectuais".

O original pode ser lido aqui: https://monitormercantil.com.br/intelectuais-e-vida-coletiva-1/.

Reproduzimos abaixo o texto.

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Pessoa com caderno e notebook (foto Unsplash).

Intelectuais e vida coletiva – 1

Quem são, qual o fundamento da sua ação, qual a sua situação institucional e para que servem os intelectuais? Por Gustavo Biscaia de Lacerda.


Um dos aspectos mais importantes em qualquer sociedade é a atuação dos intelectuais. Mas, ao mesmo tempo em que é importante, essa atuação é cada vez mais confusa e incompreendida, tanto da parte da sociedade quanto dos governos quanto, para piorar muito mais, da parte dos próprios intelectuais.

Qualquer pessoa que lê livros de história, sociologia, filosofia – ou melhor, qualquer pessoa que acompanhe os jornais diários percebe que as disputas políticas, as brigas intelectuais, as modas acadêmicas alteram profundamente a atuação dos intelectuais.

No dia a dia, o que vemos é esta verdadeira mixórdia:

  1. Quem são os intelectuais? Jornalistas, filósofos, professores, pesquisadores universitários, pesquisadores independentes, padres, pastores, pais/mães de santo, gurus, autores de autoajuda, influenciadores, agentes do governo? São pessoas que atuam isoladamente, que representam organizações, que falam em nome de corporações?
  2. Qual o fundamento da ação dos intelectuais? São pessoas que falam por inspiração divina, que falam ao incorporarem espíritos, que falam ao consumirem drogas alucinógenas, que falam como pesquisadores das ciências naturais, que falam como pesquisadores das ciências humanas, que falam como filósofos, que falam como líderes comunitários, que falam porque são pagos por jornais, que falam porque o governo manda, que falam porque estão em partidos políticos?
  3. Para que servem os intelectuais? Para explicar aspectos da realidade, para explicar a vida após a morte, para explicar a ira divina, para justificar a ordem social, para criticar a ordem social, para propor a revolução, para propor o retorno à ordem antiga, para justificar as ações de políticos e de governos, para aumentar a erudição pessoal, para disseminar o conhecimento, para estimular o amor, para estimular o ódio?
  4. A situação institucional dos intelectuais importa ou não? Um filósofo escondido nos confins do país tem a mesma “relevância” de quem é pago pelos principais jornais (impressos e da TV) para dar suas opiniões ou que os professores universitários das grandes universidades do Sudeste do Brasil?

Em meio a essa confusão – queremos evitar a palavra “caos” –, os chamados intelectuais atuam e influenciam. É importante, assim, entendermos um pouco o que eles são e como atuam – especialmente porque, como o parágrafo acima sugere, essas questões não são nada evidentes. Vale a pena dedicarmos alguns artigos desta coluna a essa questão.

O aspecto fundamental é: para que servem os intelectuais? A bem da verdade, não dá para responder a essa questão sem que se considere as várias sociedades envolvidas. Diferentes sociedades têm diferentes grupos de intelectuais, que atuam de diferentes maneiras. Apesar disso, ainda assim, todos precisamos de um conceito geral e básico, que permita começar a organizar a barafunda de possibilidades que vivemos hoje.

De nada nos serve pura e simplesmente afirmar a diversidade concreta de possibilidades de atuação dos intelectuais e achar que isso basta: se não tivermos uma clareza mínima nas ideias, o entendimento da realidade será pobre e, daí, nossas ações serão confusas e prejudiciais. (Aliás, isso já sugere algumas das funções dos intelectuais: explicar a realidade, organizar as ideias e permitir a orientação das condutas práticas.)

Para esse conceito mínimo dos intelectuais, a referência obrigatória nesse caso – como em inúmeros outros, aliás – é Augusto Comte, não por acaso o fundador da Sociologia. Para Comte, todas as sociedades se caracterizam por alguns elementos, que ele resume em número de cinco, ou melhor, seis: família, linguagem, propriedade, religião e governo; o governo desdobra-se em governo temporal e poder espiritual.

Para evitar confusões: a religião aqui tem que ser entendida como a regulação geral da existência humana; assim, ela não pode ser confundida com a teologia (que é só uma forma específica e transitória de religião). Já a propriedade, por seu turno, é a base material das sociedades, de modo que engloba a produção e a reprodução econômica e a organização social que se divide na força concentrada (com os chefes industriais) e a força dispersa (com os proletários).

Mas o que nos interessa é o governo: ele serve para impor à sociedade os rumos julgados mais importantes pelo conjunto da sociedade, o que equivale dizer que é a reação da sociedade sobre os indivíduos. Dessa forma, para Comte não existe sociedade sem governo (assim como, inversamente, não existe governo sem sociedade).

Há duas possibilidades gerais de atuação do governo: via força física, de maneira objetiva, e via aconselhamento, de maneira subjetiva. No primeiro caso nós temos o governo propriamente dito, também conhecido como Estado; é o que A. Comte chamava de “poder temporal”, que se impõe em última análise pela força física, isto é, pela violência legítima. Já o governo que se baseia no aconselhamento é o “poder espiritual”; ele convence as pessoas, a partir da educação, das ideias e dos valores compartilhados. É nele que atuam principalmente os “intelectuais”.

Como os fundamentos da atuação de cada um desses poderes são diferentes, convém que os responsáveis por eles estejam separados. É claro que há uma convergência geral nessas atuações, no sentido de que esses poderes visam a orientar a sociedade e os indivíduos; mas os resultados sobre os indivíduos e a sociedade são diferentes.

O Estado age de maneira objetiva e constrange os corpos; dessa forma, não lhe interessa se os indivíduos gostam ou não das decisões, se concordam ou não com elas: o que importa é que obedeçam e respeitem as decisões. (É claro que o Estado não pode desprezar a aceitação individual das decisões; mas, em última análise, caso necessário, ele imporá as decisões a despeito das vontades individuais.)

Como o poder espiritual aconselha a partir de ideias e valores compartilhados pela educação, a dignidade individual está subentendida aí: para que alguém seja convencido de algo, ele deve ter autonomia para isso, o que implica tempo e decisão individual.

Diversidade de meios, mas ação sobre as mesmas pessoas: o Estado e o poder espiritual podem ficar juntos ou separados. Ao longo da história, a sua união foi a regra, seja nas teocracias, seja no cesaropapismo; mas nos últimos dois séculos a sua separação é cada vez mais valorizada, no que se chama vulgarmente de “laicidade do Estado”. Isso será comentado na próxima coluna.

Gustavo Biscaia de Lacerda é doutor em Sociologia Política e sociólogo da UFPR.