21 maio 2026

Liberdade acadêmica sem (auto)responsabilização

No dia 20 de maio de 2026, o jornal carioca Monitor Mercantil publicou um texto de nossa autoria em que tratamos do Manifesto pelo Pluralismo e pela Liberdade Acadêmica.

Embora concordemos de modo geral com o conteúdo desse manifesto, ele apresenta uma série de defeitos que exigem reflexão.

O original do nosso artigo está disponível aqui. O nosso texto está reproduzido abaixo.

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Manifesto pela liberdade acadêmica sem (auto)responsabilização

A própria comunidade acadêmica é a responsável pelo que critica em manifesto. Por Gustavo Biscaia de Lacerda.

Estudantes universitários em sala de aula (foto: ABr)

Há algumas semanas, um grupo heterogêneo de professores universitários de ciências sociais lançou um Manifesto pelo Pluralismo e pela Liberdade Acadêmica. Esse documento é notável tanto pelo que diz quanto pelo que não diz, bem como pelo local em que foi redigido e por seus subscritores iniciais, e exige algumas reflexões.

O documento foi originalmente assinado por cientistas sociais de grande projeção nacional, alguns dos quais têm colunas fixas em grandes jornais impressos (Maria Hermínia Tavares e Wilson Gomes, na Folha de S. Paulo, Pablo Ortellado, no Estadão). Para além disso, há subscritores habitualmente discretos e que costumam recusar-se a assinar manifestos político-acadêmicos. (Fui aluno e tenho relações de amizade com vários deles, vale notar.)

Por outro lado, esse documento foi elaborado e publicado originalmente em São Paulo, reunindo pesquisadores que circundam o ambiente paulista (ou seja, que trabalham e/ou que estudaram lá). Claro que há exceções a essa descrição geral, mas, basicamente, trata-se de um documento paulista, aberto à adesão dos demais.

O que esse documento afirma explicitamente? Ele afirma que as universidades públicas (federais e estaduais) nos últimos anos têm sido caracterizadas por um ambiente político tóxico, de restrição das liberdades de pensamento e de exposição, com agressivos impedimentos da manifestação de ideias, bem como do mais intenso patrulhamento moral e ideológico. Em face disso, clama-se pela reversão da intolerância e pela reinstalação da liberdade acadêmica.

O documento tem tido muitas adesões, o que sugere que o problema denunciado é real; de nossa parte, a esse respeito, concordamos totalmente.

Mas, como dissemos há pouco, esse manifesto é notável não só pelo que explicita, mas também pelo silencia. E os silêncios são tão, ou até mais, eloquentes que suas afirmações.

O manifesto denuncia alguns graves problemas e clama por sua reversão; ou seja, ele critica alguns efeitos e busca a sua inversão. Todavia, o documento mantém-se resolutamente em silêncio a respeito dos fatores que resultaram nesses fenômenos, bem como de seus agentes produtores.

Assim, o manifesto age no vazio ou no limbo. Fala-se dos efeitos, mas cala-se a respeito das causas e dos causadores. Os autores do manifesto são cientistas sociais, todos com décadas de pesquisas empíricas e teóricas; o silêncio a respeito das causas e de seus produtores não é casual, mas profundamente intencional.

O fato simples e direto é que os causadores da situação denunciada no documento são os próprios acadêmicos. Por certo que a maior parte dos autores do manifesto são mais ou menos inocentes a respeito e que alguns deles há muito tempo são críticos francos da situação denunciada. Ainda assim, os professores universitários, em seu conjunto, são os responsáveis pela situação que criticam e de cujos efeitos agora padecem.

É porque não querem assumir as próprias responsabilidades – em bom português: porque não querem assumir as próprias mancadas – que o documento se mantém obsequiosamente em silêncio a respeito da origem e dos autores desses problemas.

Por que os professores universitários são os responsáveis pelo atual ambiente tóxico, de patrulhamento agressivo e intolerante? Pura e simplesmente, porque os professores universitários estimularam durante décadas (quando não ainda estimulam) esse comportamento; ou, então, porque se mantiveram (e mantêm-se) omissos a respeito.

Na verdade, o que o documento denuncia é a realidade social mais ampla há muito tempo: os professores universitários reclamam agora porque eles próprios têm que lidar com as consequências de suas ações e de suas omissões que, até então, graciosamente eles reservavam para “os outros”. (Perseguições, favorecimentos, vingancinhas, filhotismo… a academia é plena desse gênero de mesquinharia, inclusive praticada por vários dos autores do manifesto: cinismo e hipocrisia.)

Mais que apoio ativo ou omissão para comportamentos práticos, os professores universitários são os responsáveis pelo que agora denunciam porque muitas ideias (“teorias”) que ensinam, propagam, pelas quais militam, são ideias que conduzem diretamente ao resultado prático agora vivido.

É sempre fácil se afirmar que as ideias são apenas ideias, que não têm resultados práticos por si sós. Ora, nem os autores nem os subscritores do manifesto aceitarão a concepção academicista da “torre de marfim”, segundo a qual a ciência deve ser cultivada pela própria ciência, ou que a erudição deve ser cultivada pela própria erudição.

Claro que há correntes teóricas que não sabem justificar por que fazem o que fazem (é o caso dos weberianos); ainda assim, pelo menos em princípio, todos concordam que as produções acadêmicas, aí incluídas as teóricas, devem ter alguma utilidade social.

Quais ideias conduzem ao que se critica no manifesto? É certo que os autores e os subscritores do manifesto não têm todos as mesmas ideias; aliás, certamente, estão muito longe de convergências nesse sentido.

A despeito disso, na acadêmica vige a concepção de que a “crítica” sistemática é uma virtude intelectual, moral e prática: não o exame cuidadoso das ideias, das realidades, o confronto sistemático entre uma coisa e outra, mas a crítica como a destruição sistemática de todas as concepções, a noção de que o progresso consistiria na destruição sistemática do passado.

A isso se junta a concepção de que “tudo é poder”: se tudo é poder e política, tudo é disputa e, portanto, não há espaço para acordo, diálogo, tolerância, paciência – nem convencimento, nem pesquisa científica efetiva.

Essa mentalidade originalmente foi instalada na academia com o marxismo. Mas o marxismo tem um intelectualismo que se ajusta bem à vida acadêmica e, em todo caso, ele não é mais tão relevante. É um bastardo do marxismo o responsável pela situação denunciada no manifesto: o identitarismo. Todas as situações denunciadas no documento – facciosismo, estímulo ao ódio e ao ressentimento, particularismo agressivo, intolerância – são características de identitarismo.

Ocorre que muitos dos autores e subscritores do manifesto são promotores ativos do identitarismo. E, quando não são adeptos/promotores, são pelo menos omissos a respeito – todos fingindo que essas ideias não têm, necessariamente, os resultados que têm e que agora se voltam contra a academia.

(Por falta de espaço, não comentaremos a busca ávida dos identitários por influir nas políticas públicas. Notemos apenas que os identitários, não por acaso, abominam a laicidade do Estado, ou seja, buscam usar o Estado para impor agressivamente suas crenças.)

O identitarismo é uma filosofia e uma prática política profundamente acadêmica. Quando autores e subscritores do manifesto calam-se a respeito das causas do que denunciam, é porque não querem assumir que a própria academia, ao manter e estimular o identitarismo, é a responsável pelo que critica.

Assim, critica-se uma situação, mas não se assume a responsabilidade pela situação criticada. Afinal, quem quer fazer um mea culpa? Mais fácil que assumir as próprias mancadas é criticar no limbo uma situação e fingir que a culpa é “dos outros”.

Gustavo Biscaia de Lacerda é sociólogo da UFPR e doutor em sociologia política.

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