Celebração de Clotilde de Vaux
(15 de
Arquimedes de 172/9.4.2026)
1.
Início
2.
Nos dias 9 e 11 de Arquimedes (3 e 5 de abril) celebramos
o nascimento (1815) e a transformação (1846) de nossa mãe espiritual, Clotilde de
Vaux
2.1.
Realizamos hoje,
dia 15 de Arquimedes de 172 (9.4.2026), a celebração de Clotilde e não em outros
dias devido a alguns motivos:
2.1.1.
No dia 13 de Arquimedes (7.4) ficamos impossibilitados
de realizar a prédica, devido a uma enxaqueca
2.1.2.
Como indica Teixeira Mendes (O ano sem par, p. 782-783), nosso mestre
decidiu que as cerimônias positivistas devem ocorrer às quintas-feiras
2.1.2.1.
Essa decisão decorreu, aliás, justamente, de
dois acontecimentos ocorridos com
Clotilde, ambos em quintas-feiras: (1) a cerimônia de união espiritual
entre ambos, de 28 de agosto de 1845 (batismo de Léon Marie, filho de Maximilien
Marie, que teve como padrinhos Comte e Clotilde); (2) a extrema-unção de
Clotilde, em 2 de abril de 1846.
2.1.3.
Uma celebração dedicada unicamente a Clotilde, além
de valorizar mais e melhor a nossa mãe espiritual, torna-se mais compreensível para
o público
3.
A vida de Clotilde foi realmente sofrida
3.1.
Nascida em 3 de abril de 1815 com o nome de Carlota
Clotilde Josefina Marie , filha do capitão Joseph Simon Marie e de Henriette-Joséphine
de Ficquelmont, casou-se com 20 anos com
Amadeu de Vaux; após cerca de quatro anos de casamento, o marido acabou revelando-se
mau-caráter, com falsificações, golpes e dívidas de jogo; ele fugiu, abandonando
a esposa, que ficou largada à própria sorte; ele em seguida foi julgado réu revel
e condenado: além de abandonada à penúria, Clotilde viu-se na degradante condição
de carregar o sobrenome de um fugitivo condenado
3.2.
Obrigada a voltar a viver com a família – ou seja,
com os pais, com o irmão do meio (Maximilien) e sua cunhada –, não tinha renda própria,
exceto uma pensão liberalmente concedida uma vez por ano por um tio conde, irmão
de sua mãe e de sobrenome Ficquelmont, que ocupava um cargo de ministro na Áustria;
esse dinheiro, embora fosse dedicado exclusivamente a Clotilde e desse-lhe um alívio
material, era gerido ciosamente por sua mãe, que o empregava nos gastos familiares
e não permitia que a própria Clotilde usasse-o: em outras palavras, ela estava reduzida
à miséria, condição na qual sua família (sua mãe, na verdade), mantinha-a e pela
qual era criticada – como se ela tivesse culpa disso e como se ela tivesse condições
de evitar e/ou de sair dela!
3.3.
Após um certo tempo Clotilde envolveu-se em um romance,
com um homem aparentemente casado; ela apaixonou-se perdidamente por ele e chegou
a engravidar; ela acabou sofrendo um abortamento; as condições de casados de ambos
impediram que o romance fosse levado adiante
3.4.
O irmão do meio de Clotilde, Maximilien, nascido
em 1819, era aluno da Escola Politécnica e, desde antes de 1844, passou a ter aulas
particulares de Matemática com Augusto Comte, aproveitando não somente o reforço
didático como também as reflexões filosóficas e científicas; embora de modo geral
Augusto Comte fosse um professor austero, ele acabou aproximando-se de Maximilien
e tornando-se amigo de sua família, a quem passou a frequentar
3.5.
A vida de Augusto Comte nessa altura era bastante
solitária, basicamente ocupada com o trabalho (como professor e como filósofo);
embora casado, Augusto Comte já tinha sido abandonado pela última vez por Carolina
Massin em 1841; em 1842 ele concluiu a redação e a publicação da Filosofia positiva;
desde 1841 ele residia no domicílio sagrado da rua Monsieur-le-Prince, n. 10, e
contava com a assistência de Sofia: desde essa época até 1844, era essa a sua vida
3.6.
Em outubro de 1844, em uma das visitas de Augusto
Comte à família Marie, ele por acaso conheceu a irmã de seu aluno; a partir daí,
a vida solitária de nosso mestre reagiu sobre ele, aliada à simpatia que os sofrimentos
de Clotilde despertaram nele e à relativa identidade desses sofrimentos; apaixonando-se
por ela, em abril de 1845 ele escreveu-lhe uma carta, declarando-se
3.7.
Clotilde ficou surpresa com a intensa e inesperada
declaração daquele austero filósofo e professor; a partir daí se seguiu uma belíssima
troca de correspondência, em que nosso mestre aos poucos dá vazão aos seus sentimentos
e com isso se controla e torna-se mais confiável para a jovem; por seu turno, Clotilde
vai deixando seu susto e suas reservas e passa a confiar no filósofo; enquanto a
troca de correspondência tinha lugar, nosso mestre continuava freqüentando a casa
da família Marie, que passava assim a ter um atrativo adicional cada vez maior
3.8.
A paixão de Augusto Comte era muito intensa e foi
a muito custo que ele controlou-a; esse controle deveu-se em grande medida à resistência
pura de Clotilde, seja por sua pudicícia pessoal, seja porque nos primeiros meses
da correspondência ela ainda se mantinha apaixonada pelo seu amante anterior
3.9.
Mas após cerca de seis meses, a situação resultou
em um belo equilíbrio, em que nosso mestre afirmava com todas as letras que Clotilde
poderia e deveria ser a mestre do relacionamento entre ambos; ao mesmo tempo, Clotilde
confiava cada vez mais plenamente em nosso mestre, pedindo-lhe conselhos pessoais,
de saúde, orientações filosóficas etc., além de fazer confidências pessoais e familiares
3.10.
Um aspecto belíssimo e notável é a preocupação mútua
de cada qual: nosso mestre dava sugestões e estímulos para a carreira literária
de Clotilde, que ambos viam como a forma de ela sair da penúria material e da relativa
opressão familiar; Clotilde, por seu turno, preocupava-se que a paixão de Augusto
Comte por ela afastasse-o de suas reflexões filosóficas
3.10.1.
A produção literária de Clotilde resultou, já naquela
época, em vários poemas que ela escrevera antes, na novela epistolar Lúcia (largamente autobiográfica) e, no segundo
semestre de 1845, no começo da redação do romance Guilhermina (no francês, originalmente Willelmine); além disso, as cartas escritas por Clotilde a Augusto Comte
apresentam um tom filosófico e moral bastante intenso, revelando profundidade de
espírito, intensa afetividade e emancipação filosófica
3.10.2.
Da parte de Augusto Comte, a paixão por Clotilde,
em vez de distanciá-lo das reflexões filosóficas, renovou sua energia e seus temas;
são dessa época inúmeras cartas filosóficas, sobre a celebração social (é a primeira
Santa Clotilde, de 2.6.1845), sobre o casamento (12.1.1846), sobre o batismo cristão
(28.8.1845)
3.11.
Já entrando no ano de 1846, a situação pessoal de
ambos era precária: a saúde de Clotilde piorara muito, a perseguição academicista
contra Augusto Comte retirara-lhe um de seus empregos; já a relação mútua entre
ambos estava cada vez melhor, embora a família de Clotilde não confiasse na castidade
desse relacionamento, passasse a apresentar obstáculos a Augusto Comte e impedisse
Clotilde de administrar os recursos que ela recebia de seu tio austríaco; a partir
de fevereiro de 1846 Clotilde adoeceu mais claramente e em março ela ficou cada
vez mais prostrada; do final de março até o início de abril ela definhou, falecendo
em 5 de abril
3.12.
A infundada desconfiança da família Marie para com
Augusto Comte gerou equívocos e situações lamentáveis, que foram estimuladas pela
situação desesperadora que todos eles atravessavam; em todo caso, nosso mestre manteve
o apoio constante (e casto, convém notar), além de ceder os serviços de Sofia para
Clotilde: nos termos de Clotilde, Sofia foi uma verdadeira irmã para ela, auxiliando-a
de maneira importantíssima nas suas últimas duas semanas de vida; nesse período,
Clotilde já se reconhecia apaixonada por Augusto Comte e retribuía o entendimento
de que era sua esposa (subjetiva)
3.13.
As últimas palavras de Clotilde – “Comte, eu
sofro sem ter merecido” – indicam o quanto ela dedicava-lhe profundo afeto e o
quanto nosso mestre era realmente importante para ela
3.13.1.
O lamento de sofrer sem ter merecido, repetido
várias vezes, além de ser extremamente preciso, também dão a indicação da
redenção positiva da Humanidade: em vez de afirmar, com o catolicismo, que o
ser humano atual sofre em virtude de supostos (e irracionais e imorais) crimes
cometidos por seus antepassados (Adão) sob a influência negativa das mulheres,
o Positivismo vê que sofremos sem merecer e que devemos agir para mudar esse
quadro, melhorando o mundo, sob a inspiração da Humanidade e sob a influência
benfazeja das mulheres
4.
Por que dizemos que Clotilde é nossa “mãe espiritual”?
4.1.
O amor dedicado por Augusto Comte a Clotilde forneceu-lhe
o impulso, a direção e os elementos para que ele passasse da elaboração filosófica
para a construção religiosa, ou seja, como ele dizia, para que ele passasse da carreira
de Aristóteles para a de São Paulo; da mesma forma, esse amor permitiu-lhe realizar
e satisfazer aspectos de sua vida que até então estavam tristemente represados e
insatisfeitos: em outras palavras, com Clotilde nosso mestre realizou-se como ser
humano: ao mesmo tempo e a partir disso, conseguiu ultrapassar o cientificismo e
orientar-se com renovada e assombrosa energia ao desenvolvimento mais importante
para o Positivismo, isto é, para o ser humano
4.1.1.
O devotamento de Augusto Comte a Clotilde resultou
na constituição das principais e mais importantes instituições do culto positivo:
as orações, o culto privado, os anjos da guarda, vários dos sacramentos
4.1.2.
Mas, ao mesmo tempo, esse desenvolvimento moral,
afetivo e intelectual de Augusto Comte só foi possível porque Clotilde era realmente
uma mulher superior, pelos sentimentos, pelo espírito e pelo caráter: ela era uma
pessoa emancipada, que ao mesmo tempo entendia a importância histórica e social
das instituições; era uma pessoa sensível, que sabia impor limites sem constranger
os demais: não apenas Augusto Comte estabeleceu e reiteradamente reafirmou que Clotilde
seria a diretora e juíza do relacionamento entre ambos, como ele também disse que,
“para pensar como Comte seria necessário amar como Clotilde” (Teixeira Mendes, O ano sem par, p. 374-375)
4.1.3.
As sete máximas de Clotilde, recolhidas por Augusto
Comte em meio às cartas trocadas entre ambos, nas obras literárias de Clotilde e
a algumas conversas pessoais, ilustram a sua superioridade
5.
A concepção de “mãe espiritual” estabelece o culto
às mulheres e oferece um modelo e um início para o culto à Humanidade
5.1.
A mãe espiritual é u’a mulher, assim como, e não
por acaso, a Humanidade: elas afirmam a superioridade moral das mulheres, que
deve inspirar e orientar os sentimentos, as idéias e as ações dos homens
5.2.
A reverência e o culto que nosso mestre dedicou
a Clotilde, como comentamos há pouco, inspiraram as principais características
do culto à Humanidade
5.3.
Em virtude dessas múltiplas influências, Augusto
Comte afirmava que a posteridade reconhecerá sempre, com justiça, que a
Religião da Humanidade é uma criação tanto do próprio Comte quanto de Clotilde
6.
A concepção de “mãe espiritual”, muito mais que a
mera adesão à Religião da Humanidade, estabelece com clareza a linha divisória entre
os positivistas ortodoxos e os incompletos (ou cientificistas)
6.1.
É ao mesmo tempo triste e revelador dos hábitos mentais
e morais contemporâneos, tanto de metafísicos quanto também de teológicos, que o
nosso culto a Clotilde (a partir do culto a ela promovido por nosso mestre) seja
sistematicamente desrespeitado e zombado: essas mesmíssimas pessoas, entretanto,
ousam falar em dignidade da mulher, em dignidade do ser humano (embora às vezes
falem, de maneira mais coerente, em cultuar apenas a divindade teológica, contra
o ser humano), ao mesmo tempo em que elogiam implicitamente o cientificismo, ou
afirmam que – para conveniência deles – o verdadeiro positivismo é, ou deveria ser,
o cientificismo
6.2.
A noção de mãe espiritual também separa os
positivistas completos de todos aqueles que rejeitam a noção de superioridade
moral das mulheres – o que, por mais chocante que seja, inclui atualmente,
acima de tudo, as próprias mulheres!
6.2.1.
A rejeição da superioridade moral das mulheres
baseia-se em uma concepção equivocada da dignidade feminina, mas tem como
efeito a degradação moral da sociedade, a diminuição dos freios morais e
afetivos à violência, o apoio à concepção materialista e brutal de que tudo na
sociedade é apenas política, ou seja, poder, disputa, violência
6.2.2. Em
outras palavras, a rejeição da
superioridade moral das mulheres conduz, direta e indiretamente, à violência
contra as mulheres, à misoginia e ao aumento do chamado “feminicídio”
7.
Leremos agora alguns poemas – alguns da própria Clotilde
e outros compostos em sua homenagem
7.1.
O poema A
infância (com tradução de Teixeira
Mendes)
7.2.
O poema fetichista Pensamentos de uma flor (com tradução de Teixeira Mendes)
7.3.
As sete máximas de Clotilde (publicadas pela
primeira vez no Testamento de Augusto
Comte e recolhidas por ele na correspondência sagrada, nas obras literárias de
Clotilde e em conversas presenciais entre nossos pais espirituais)
7.4.
A Ave
Clotilde de José Mariano de Oliveira (originalmente em italiano, com
tradução do GPT para o português; ela será lida, mas deve ser cantada, ao som
de Ave Maria, de Gounod)
7.5.
A Ave
Clotilde de Henrique Batista da Silva Oliveira (originalmente em francês,
com nossa tradução para o português; ela será lida, mas deve ser cantada, ao
som de Ave Maria, de Gounod)
8.
Celebrar Clotilde
faz-nos buscar ser melhores – mais afetivos, mais inteligentes, mais ativos –;
ela faz-nos servir mais e melhor à Humanidade: é por isso que ela é e merece
ser chamada de cofundadora da Religião da Humanidade, é por isso que ela é
nossa mãe espiritual
9.
Término
Referências
- Auguste
Comte (franc.), Síntese subjetiva
(Paris, Exécution Téstamentaire d’Auguste Comte, 2ª ed., 1900): https://archive.org/details/lasynthsesubjec00comtgoog.
- Auguste
Comte (franc.), Testamento (Paris,
Exécution Téstamentaire d’Auguste Comte, 2ª ed., 1896).
- Augusto
Comte (franc.), Sistema de política
positiva (Paris. J.-B.
Baillière, 4ª ed., 1880): https://archive.org/details/systmedepoliti01comt.
- Augusto
Comte (port.), Apelo aos conservadores
(Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1898): https://archive.org/details/augustocomteapeloaosconservadores.
- Augusto
Comte (port.), Catecismo positivista
(Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 4ª ed., 1934).
- Gustavo Biscaia
de Lacerda (port.), Prédica positiva
“Sobre as máximas de Clotilde de Vaux” (Curitiba, Igreja Positivista
Virtual, 3.César.169/25.4.2023): https://filosofiasocialepositivismo.blogspot.com/2023/04/sobre-as-maximas-de-clotilde-de-vaux.html.
- José
Lonchampt (port.), Ensaio sobre a oração
(Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1896; catálogo da IPB, n. 165): https://archive.org/details/n.-165-jose-lonchampt-ensaio-sobre-a-oracao.
- Luís
Lagarrigue (esp.), A poesia positivista
(Santiago do Chile, 1890): https://archive.org/details/luis-lagarrigue-a-poesia-positivista-1890_202509.
- Raimundo
Teixeira Mendes (port.), As últimas
concepções de Augusto Comte (Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil,
1898): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-i
e https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-ultimas-concepcoes-de-augusto-comte-ii.
- Raimundo
Teixeira Mendes (port.), O ano sem par
(Rio de Janeiro, Igreja Positivista do Brasil, 1900): https://archive.org/details/raimundo-teixeira-mendes-o-ano-sem-par-portug._202312/page/n7/mode/2up.
* * *
A infância
(Clotilde de Vaux; tradução de Raimundo Teixeira
Mendes)
Vem, criança gentil, mais perto... que m’encanta
Ver-te a madeixa loura, o meigo olhar formoso,
As graças naturais que têm tanto invejoso,
A fonte onde arde a inocência o templo seu levanta.
Vem, qu’eu gosto de ver-te o velho pai prezando
Mais que o ledo brincar que os anos seus molesta;
Gosto de ver fugir, dos beijos teus à festa,
A nuvem que, no olhar materno, ia assomando.
Gosto de ver o ancião que vai, a lento passo,
O humilde lar buscando, apoiado ao teu braço;
Gosto de ver-te a mão encheres, com carinho,
Do pobre que se senta à borda do caminho.
Por que se hão de ir embora encantos dessa idade,
Graças que as nossas mães com tanto amor afagam?
Os sonhos do porvir, por que se nos apagam?
Ah! Sim! É que é preciso um dia de saudade!
Os pensamentos de uma flor
(Clotilde de Vaux; tradução de Raimundo Teixeira
Mendes)
Nasci p’ra ser amada: ó, graças, bom Destino!
Que os soberbos mortais praguejem teus azares!
O vento os arrebate aos pés de teus altares,
Eu tenho o meu perfume e o gozo matutino.
Tenho o primeiro olhar do rei da natureza,
Por gala o seu fulgor, seu beijo em chama acesa;
Tenho um sorrir de irmã da juvenil Aurora;
Tenho a brisa nascente a dulcidão que mora
Na gota pendurada à borda do meu cális.
Tenho o raio que brinca a se abismar nos vales;
Tenho o mago painel, a sena inigualada,
Do universo entreabrindo as portas da alvorada.
Jamais frio mortal haurir-me deve a vida:
No seio da volúpia a manso me adormeço;
Me guarda a natureza o esplêndido adereço;
Em seu festim de amor desperto embevecida.
Muita vez embelezo a formosura;
Num puro seio o meu candor se côa;
Enlaça-me o prazer n’alegre cr’ao,
E a seu lado me prende alma ventura.
Quanto o rouxinol s’inspira
No meu talo em doce enleio,
Para não turvar-lhe o gorjeio
A natura inteira
espira.
Amor me diz seus votos mais secretos;
Abrigo de seus ais grata saudade;
Dos seus mistérios zelo a f’licidade;
A chave sou dos corações secretos.
Ó! Doce Destino, se as leis que nos baixas
Suspiros profanos pudessem mudar,
Só eu haveria, nas diáfanas faixas,
De amor aos bafejos à vida tornar.
Da tempestade sombria
Poupa-me o horrendo furor;
Dá que sempre a leda flor
Nas tuas festas sorria.
As sete máximas de Clotilde (reunidas por Augusto em seu Testamento,
p. 99)
-
É indigno dos grandes corações derramar as
perturbações que sentem. (Lúcia, 7ª carta)
-
Que prazeres podem exceder os da dedicação?
(Lúcia, 8ª carta)
-
Eu compreendi, melhor que ninguém, a fraqueza
de nossa natureza quando ela não é dirigida para um objetivo elevado e que seja
inacessível às paixões (T, p. 333)
-
São necessários à nossa espécie, mais que às
outras, deveres para fazer sentimentos. (T, p. 374)
-
Não há na vida nada de irrevogável senão a
morte. (T, p. 419)
-
Todos temos ainda um pé no ar sobre o limiar
da verdade. (T, p. 484)
-
Os maus têm com freqüência maior necessidade
de piedade que os bons. (T, p. 537)
Ave Clotilde
(José Mariano de Oliveira)
(Cantada com a música da Ave
Maria, de Gounod)
Ave, Clotilde
Esposa do Pai Supremo,
Que já ouviste, piedosa,
Sua dor sofrida;
Com Ele deste ao mundo
O fruto mais fecundo
Do mais profundo amor.
Santa Clotilde,
Por tua elevada virtude,
Acolhe em teu peito
Nosso imenso afeto,
Nossa gratidão.
Amém.
Ave Clotilde
(Henrique B. S. Oliveira)
Ave Clotilde,
De Comte, suave dama,
Que elevou ternamente
Seu nobre coração sofredor.
Saída dos dois, a mesma alma,
A dádiva, a mais fecunda,
Do amor, o mais profundo.
Santa Clotilde,
Por teu altruísmo pleno,
Acolhe em teu seio
A flor reconhecedora
De uma prece constante
Amém.