07 setembro 2015

5 de setembro – Comemoração de Augusto Comte

5 de setembro – Comemoração de Augusto Comte


Augusto Comte (1798-1857)

Celebrando Comte, fundador do Positivismo e da Sociologia

No dia 5 de setembro comemoramos o aniversário de morte de Augusto Comte (1798-1857), o grande fundador da Sociologia e do Positivismo. Essa é uma grande data, pois traz-nos à lembrança não apenas as importantes obras teóricas desse profundo pensador – obras que buscaram sempre afirmar o altruísmo, a política pacífica, o conhecimento da realidade, a convergência em prol da sociedade –, mas também a sua vida cheia de percalços e dificuldades, alguns dos quais foram superados, mas muitos mantiveram-se até o fim de sua vida.

A importância das comemorações

Comemorar uma data, celebrar um aniversário ou um acontecimento é lembrarmo-nos de algo importante, tanto para cada indivíduo quanto para a coletividade; as comemorações e as celebrações produzem sentimentos, reavivam idéias, reafirmam valores. É por isso que esses momentos são tão importantes.

As comemorações são atos macabros?

Algumas pessoas têm uma preocupação com a celebração das datas das mortes das pessoas, considerando que tais comemorações seriam "macabras", ao celebrar-se a morte e não a vida. Todavia, esse escrúpulo, ainda que mais ou menos bem intencionado, é bastante ingênuo e, no final das contas, é errado. E isso por dois motivos.

De maneira bastante grosseira, podemos considerar que a vida começa no nascimento: uma verdadeira celebração da vida deveria comemorar o nascimento dos indivíduos. Todavia, o nascimento é apenas uma promessa – uma bela promessa, sem dúvida –, mas no final das contas é apenas isso: uma promessa, uma esperança, que pode ou não se cumprir. Ou, por outra, um indivíduo pode tanto ser um grande cidadão quanto ser um parvo, um inútil, ou, ainda pior, pode ser um escroque ou um criminosos. Ou, ainda, um criminoso pode redimir-se de seus atos e tornar-se um bom cidadão, assim como um indivíduo probo pode decair em sua moralidade e tornar-se um corrupto: todas essas possibilidades só podem ser avaliadas após os acontecimentos ocorrerem, ou seja, apenas após os indivíduos viverem suas vidas.

Como notava Augusto Comte, raros são os indivíduos que podem ser avaliados e julgados de maneira mais ou menos definitiva ainda em vida: essa é a exceção, não a regra. Assim, só é possível avaliar a qualidade da vida de cada indivíduo – se foi um cidadão produtivo, útil, altruísta, ou não – quando ele morre, não quando ele nasce. É certo que sem o nascimento não há vida, mas a vida que de fato importa para todos e para cada um de nós é a vida que se vive de fato, não a promessa: somente ao término – e, no final das contas, nem logo após a morte – é possível avaliar a contribuição de cada um.

O segredo para aproveitar ao máximo a vida

É bem verdade que, ao nascermos, todos estamos destinados a morrer: a questão, evidentemente, é aproveitar ao máximo a vida, isto é, o tempo entre o nascer e o morrer. Se há algum "segredo" para o "aproveitar ao máximo a vida", tal segredo consiste em viver para os outros, subordinando os egoísmos em benefício dos demais: ou, como dizia Clotilde de Vaux, a esposa subjetiva de Augusto Comte, "que prazeres podem exceder aos da dedicação?".

Clotilde de Vaux (1815-1846)

A imortalidade na memória

Disso se segue o outro aspecto da questão. Ao morrermos, nossa existência objetiva encerra-se e nossos corpos desintegram-se e retornam aos grandes ciclos bioquímicos da natureza. Mas nossa existência subjetiva começa verdadeiramente então: passamos cada vez mais a existir na lembrança que deixamos nos outros.

As comemorações lembram valores, fatos, indivíduos que foram e são importantes devido a diferentes motivos; às vezes esses motivos são mais pessoais, às vezes mais coletivos, às vezes tanto individuais quanto coletivos. As comemorações, assim, revivem os valores, mas também os fatos e os indivíduos que incorporaram tais valores e que realizaram os fatos; em outras palavras, as comemorações garantem a imortalidade subjetiva de todos aqueles que foram convergentes – e, aí, não faz sentido dizer-se que as comemorações das datas de morte são "macabras", pois o que se celebra de fato é a vida de cada um, por cada um, em benefício de todos.

A felicidade na Religião da Humanidade

A imortalidade subjetiva ocorre na Humanidade, ou seja, no conjunto de seres convergentes, passados, futuros e presentes. Essa idéia da Humanidade e essa concepção de imortalidade subjetiva – que valorizam tão fortemente o altruísmo, a memória, a história, o esforço individual em favor dos demais – foram elaboradas justamente por Augusto Comte. A Religião da Humanidade, suprema elaboração de Augusto Comte, reunindo o que há de mais belo, mais real, mais verdadeiro e mais humano, ao sistematizar o conhecimento filosófico, científico, moral e artístico dos milhares de anos da Humanidade, busca pôr em prática um ideal que também foi expresso por Clotilde de Vaux: "Compreendi, melhor do que ninguém, a fraqueza de nossa natureza quando não é dirigida para um alvo elevado que seja inacessível às paixões".

Assim, ao celebrarmos o falecimento de Comte, ao lembrarmos a derradeira fatalidade a que todos somos submetidos, na verdade comemoramos a memória e as realizações de quem sistematizou as condições de felicidade e de realização do ser humano.

Eduardo de Sá - A Humanidade com o porvir em seus braços

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